domingo, 13 de março de 2022

Merval Pereira: Compromissos

O Globo

Na posse da nova diretoria da Academia Brasileira de Letras (ABL), sexta-feira, enumerei alguns compromissos da principal instituição cultural do país, que passo a enumerar:

Diversidade

 “Nos últimos meses procuramos espelhar mais a diversidade brasileira ao escolher os substitutos para as cadeiras vagas. Renovamos nossa crença no empoderamento feminino elegendo a atriz Fernanda Montenegro, ícone da cultura brasileira e representante do teatro que já deu à ABL, entre outros, o crítico Sábato Magaldi e o dramaturgo Dias Gomes, cujo centenário comemoramos este ano. Em Gilberto Gil celebramos a poesia e a identidade afrobrasileira, que sempre esteve presente na Academia, desde o fundador Machado de Assis até o recente presidente Domicio Proença Filho e grandes negros do mundo da cultura brasileira, como Evaristo de Moraes Filho, Octavio Mangabeira e José do Patrocínio, entre outros. Num momento em que a ciência nunca foi tão necessária e ao mesmo tempo tão negligenciada pelas autoridades, elegemos o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, seguindo uma tradição de ter entre nós grandes médicos como Oswaldo Cruz, Carlos Chagas Filho e mais recentemente Ivo Pitangui. A visão humanística de José Paulo Cavalcanti, jurista e escritor, especialista em Fernando Pessoa, e a visão modernizadora do economista, filósofo e escritor Eduardo Giannetti da Fonseca foram as duas recentes homenagens feitas à diversidade cultural do país, um pernambucano de raiz, o outro mineiro, com atuação a partir de São Paulo”.

Bernardo Mello Franco: Ninguém fotografou a ditadura como Orlando Brito

O Globo

O fotógrafo não fotografa para si, mas para os olhos que estão distantes. A definição é de Orlando Brito, o grande repórter fotográfico de Brasília. Por quase seis décadas, ele transportou os olhos dos leitores para a capital. Desvendou o teatro da política e foi testemunha ocular da história do Brasil.

Nascido no interior de Minas, Brito migrou para o Planalto Central em 1957, antes de a cidade ser inaugurada. Aos 7 anos, ajudava o pai a levar tijolos aos canteiros de obra. Aos 14, servia cafezinho na sucursal da Última Hora. Foi promovido a laboratorista, aprendeu a revelar filmes, apaixonou-se pelo fotojornalismo. Em 1965, o acaso o presenteou com uma oportunidade. A redação estava sem fotógrafos, e o garoto recebeu a tarefa de acompanhar uma agenda do marechal Castello Branco. “A primeira foto que fiz foi de um presidente”, contava. A estreia seria o prenúncio de uma carreira única na imprensa.

Dorrit Harazim: Meu amigo, o fotógrafo Orlando Brito (1950-2022)

O Globo

Muito antes de o bicho homem tomar rumo semelhante, os animais já se aglomeravam em grupos mais amplos do que as famílias biológicas a que pertenciam. Fizeram bem, pois assim alongaram seu tempo de sobrevivência no planeta. A natureza das espécies foi generosa também com o ser humano, pois foi desse mesmo instinto de sobrevivência que deve ter emergido algo tão monumental e fugidio a definições como a amizade. Melhor nem pretender descrevê-la e recorrer logo a um desses filósofos da Antiguidade que sabiam pensar e escrever sobre tudo. Certo estava Sêneca quando escreveu que a amizade é um talento. E, como todo talento, um dom. Orlando Brito, o mais completo repórter fotográfico brasileiro, tinha esse dom. Foi meu amigo. O verbo no pretérito perfeito dói.

Luiz Carlos Azedo: Orlando Brito fez a crônica do poder, da glória e da solidão

Correio Braziliense / Estado de Minas

Era impressionante a sua capacidade de ler a alma dos políticos, suas verdadeiras intenções e agruras, pela simples postura. Mestre do fotojornalismo, captava o instante certo

Sua filha única, Carolina, cuidou dele até o último momento. Mobilizou a solidariedade dos amigos, acompanhou os cuidados dos médicos, tentou convencer o pai a aceitar a nova situação sem se rebelar contra os tubos e aparelhos que o mantiveram vivo nos hospitais públicos de Brasília. O jornalista Orlando Brito foi sepultado ontem no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, após 34 dias de muita luta. Depois de duas cirurgias no intestino, em decorrência de um câncer, teve falência múltipla dos órgãos. Morreu íntegro e pobre, como acontece com muitos jornalistas, no Hospital de Taguatinga.

Orlando Péricles Brito de Oliveira nasceu em 1950, em Janaúba, Minas Gerais. Como muitos jornalistas da sua geração, começou a carreira muito jovem: em 1964, aos 14 anos, começou a trabalhar como laboratorista no jornal Última Hora, uma porta de entrada das redações; as outras eram a revisão e o trabalho de office boy. A profissão somente viria a ser regulamentada em outubro de 1969. Fez carreira nos principais veículos do país: O Globo, Jornal do Brasil e revistas Caras e Veja. Ao deixar a revista, criou a agência de notícias Obrito News, organizou seminários, deu aulas, fez conferências e palestras. Andou pelos cafundós do Brasil e pelo mundo afora, mas especializou-se na cobertura política.

Cacá Diegues: Um dia santo

O Globo

Não vou com a cara de Vladimir Putin. Mas nem por isso considero Volodymyr Zelensky intocável, um herói da humanidade

Todo mundo tem meus telefone e endereço de email. Foi um princípio que Flora minha filha me ensinou; se eu não gostasse da cara ou não quisesse atender, simplesmente não tomava conhecimento da mensagem, ia adiante como se não tivesse recebido nada. Depois, se fosse o caso, culpava a telefônica ou coisa parecida pela falha. Sempre deu certo. Sobretudo em períodos como o atual, com uma guerra, suas notícias chocantes e suas terríveis imagens a nos sobressaltar a todo momento.

Não acho que seja um privilégio, não vejo graça nenhuma em disputar com parentes e amigos a visão inaugural dos piores desastres humanos, dos restos de um hospital pediátrico em Mariupol, hordas de mães ucranianas fugindo das bombas russas com seus bebês no colo mal protegido. Ainda mais porque, fora a observação do horror evidente nos rostos e nos gestos do povo da Ucrânia, não tenho como julgar o que se passa na cabeça e no coração dos russos responsáveis ou não pelas batalhas dessa guerra. Muitos deles podem ser também vítimas de seus comandantes mal intencionados.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Amazônia perto da devastação irreversível

O Globo

O sobrevoo da floresta em boa parte da Amazônia dá a impressão de um verde sem fim para qualquer lado que se olhe. A vastidão da vegetação faz quem não conhece a região perder a direção. Esse “mar verde” também tem efeito desorientador no debate público ao provocar questões descabidas como: por que tanta gritaria dos ambientalistas se ainda há tanta floresta? A resposta, mais uma vez, vem sendo dada pela ciência.

Um estudo publicado na semana passada na revista Nature Climate Change por três pesquisadores de instituições europeias reforça a hipótese de que a Amazônia esteja perto de um ponto em que a devastação será irreversível — ou “ponto de não retorno” na tradução do inglês. A partir de certo nível de desmatamento, a floresta provavelmente perderia a capacidade de se recompor e entraria em autodestruição, sem que nenhuma ação humana pudesse reverter seu destino. Não haveria árvores suficientes para manter o atual regime de chuvas.

Poesia | Bertold Brecht: Louvor ao estudo

Estuda o elementar: para aqueles

cuja hora chegou

não é nunca demasiado tarde.

Estuda o abc. Não basta, mas

estuda. Não te canses.

Começa. Tens de saber tudo.

Estás chamado a ser um dirigente.

 

Frequente a escola, desamparado!

Persegue o saber, morto de frio!

Empunha o livro, faminto! É uma arma!

Estás chamado á ser um dirigente.

Não temas perguntar, companheiro!

Não te deixes convencer!

Compreende tudo por ti mesmo.

O que não sabes por ti,

não o sabes.

Confere a conta.

 

tens de pagá-la.

Aponta com teu dedo a cada coisa

e pergunta: “Que é isto? e como é?”

Estás chamado a ser dirigente.

Música | Coral Edgard Moraes: Recife cidade lendária

 

sábado, 12 de março de 2022

Oscar Vilhena Vieira*: Doce indignação

Folha de S. Paulo

Margarida Genevois não parou de trabalhar, um só segundo, pela construção de uma sociedade mais justa

Margarida dificilmente termina uma frase sem um sorriso, ainda que seus olhos possam estar expressando uma profunda indignação. Nascida Bulhões Pedreira, tradicional família do Rio de Janeiro, em 10 de março de 1923, deparou-se com o analfabetismo, a desnutrição e a doença ao mudar-se com o marido, Lucien Genevois, para o interior de São Paulo. Desde então, Margarida não parou de trabalhar, um só segundo, pela construção de uma sociedade mais justa.

Nos anos 1970, combateu o arbítrio e a violência de Estado. Com suas filhas, "correu da polícia". Foi a primeira mulher a ter assento na Comissão de Justiça e Paz, que presidiu duas vezes. Ali ouviu, em primeira voz, o depoimento de quem havia sido torturado e dos familiares que buscavam desaparecidos.

Demétrio Magnoli: Tigre de papel

Folha de S. Paulo

Putin tem razão ao alegar que as promessas da Otan não foram honradas

O mapa da expansão da Otan pipocou em todos os lugares, geralmente por iniciativa dos papagaios de Putin, engajados na justificação da agressão à Ucrânia. No papel, impressiona: desde 1999, a aliança ocidental recebeu a adesão de 14 países, entre ex-integrantes do bloco soviético e as três antigas repúblicas soviéticas do Báltico.

De fato, porém, a Otan ampliada é, como diria Mao Tsé-tung, um tigre de papel.

Putin tem razão ao alegar que as promessas feitas à URSS em 1990 não foram honradas. Na hora da reunificação alemã, líderes americanos, britânicos e alemães asseguraram a Gorbachev que, com exceção da Alemanha Oriental que desaparecia, a Otan não avançaria nenhum milímetro rumo a leste.

Hélio Schwartsman: Até o estrogonofe é cancelado

Folha de S. Paulo

Em nome de combater uma violação moral, incorremos num punhado de outras

A grande surpresa na crise da Ucrânia foram a rapidez e a firmeza com que a comunidade internacional respondeu à invasão russa. Até então, o presidente Vladimir Putin vinha explorando com competência as divisões entre americanos e europeus. A mudança decorre, acredito, de uma troca de "framing" (enquadramento).

Enquanto se discutia a conveniência geopolítica de a Ucrânia integrar a Otan, a questão era tratada de forma pragmática, com abertura para divergências e a possibilidade de matizes. Mas, depois que Putin decidiu recorrer às armas para iniciar uma guerra de agressão contra um país soberano, provocando a morte de civis inocentes, a invasão passou a ser vista como uma violação moral. E isso faz toda a diferença.

Cristina Serra: Transfobia no MEC

Folha de S. Paulo

Visão do titular da pasta sobre o mundo é obscurantista e sombria

O pastor que ocupa o Ministério da Educação, Milton Ribeiro, pouco fala, mas quando abre a boca sempre provoca estupefação pela capacidade de expressar uma visão de mundo tão obscurantista e sombria.

Seu palavrório incita a discriminação, a hostilidade e a violência contra a população LGBTQIA+. Sendo titular do MEC, tudo o que fala, faz ou deixa de fazer reverbera no tecido social, tem consequências concretas. Por isso, o ministro precisa ser responsabilizado.

João Gabriel de Lima*: A ditadura explícita e a disfarçada

O Estado de S. Paulo.

Situação do Brasil não é comparável à da Rússia ou à da Hungria, mas é bom ficar de olho

É fácil se ver no meio de uma manifestação ao caminhar pelas ruas de Budapeste, a belíssima capital da Hungria. De um lado do rio Danúbio, em Buda, o partido ultraconservador Mi-hazank exibe seus símbolos patrióticos. Do outro, em Peste, militantes antivacina prestam solidariedade aos caminhoneiros canadenses. Todos os anos há uma enorme parada gay, sem repressão policial.

Parece uma democracia, mas não é. Livros de temática inclusiva são multados, uma universidade inteira acabou expulsa do país por abrigar intelectuais críticos ao governo e a

Constituição foi reescrita para permitir a reeleição eterna do Fidesz, o partido do primeiroministro Viktor Orbán.

Nas duas últimas semanas foram divulgados os resultados anuais de dois rankings de democracia, o da revista britânica The Economist e o do instituto V-dem, que é sediado em Gotemburgo, na Suécia. Tais rankings são especialmente necessários em casos como o da Hungria, em que o autocrata de plantão, Viktor Orbán, usa o manto da democracia para esconder um duro regime autoritário. Os dois estudos estão anexados à versão digital da coluna.

Bolívar Lamounier: Os dois pês (PPS) que nos globalizaram

O Estado de S. Paulo

Escusado dizer que estou me referindo à globalização engendrada pela pandemia e a agressão russa à Ucrânia

Na terça-feira passada (8/3), com sua habitual competência, o embaixador Rubens Barbosa publicou neste espaço um artigo apontando dramáticas vulnerabilidades do Brasil no tocante ao comércio exterior, a áreas estratégicas e a inovação e segurança.

Com sua vasta bagagem, Rubens Barbosa poderia ter estendido sua análise a mais umas 40 áreas. Não o fez, em parte por falta de espaço, mas em parte também porque sua boa alma não lhe permitiu empurrar os leitores para uma depressão mais profunda do que esta que já estamos vivenciando. Eu gostaria de seguir seu sábio exemplo, mas preciso me ater ao fato de havermos, agora sim, chegado à globalização. Não à globalização com que muitos sonharam, conduzida como opção e mediante critérios nossos. Escusado dizer que estou me referindo à globalização engendrada pelos dois pês (PPS), a pandemia e a agressão russa à Ucrânia. No que se refere ao Brasil, a pandemia já causou um belo estrago em nossas contas fiscais, mas teve o mérito de nos ensinar uma certa humildade, mostrando-nos que, sem o resto do mundo, muitos de nós morreriam por falta de imunizantes. A segunda, movida pelos coturnos, tanques e mísseis russos, reduziu-nos à mais completa impotência.

Ascânio Seleme: Presidente, o Estado é laico

O Globo

Alguém consegue imaginar Fernando Henrique Cardoso chorando copiosamente diante de pastores evangélicos e dizendo que conduziria o país na direção que eles desejassem? Ou Lula? Ou Michel Temer? Não, jamais. Trata-se de cenário impensável até três anos atrás. Agora, com Bolsonaro, um episódio desse não apenas é possível como de fato aconteceu. O presidente ofereceu a Nação brasileira a líderes evangélicos em cerimônia no Palácio do Planalto na terça-feira passada. E o que se viu? O Congresso reagiu com a força que a situação exigia? Não. O Supremo reagiu? Nada, ninguém se mexeu. Bolsonaro confrontou um dos princípios fundamentais da Constituição, que estabelece a laicidade do Estado, e ninguém se abalou.

Claro que Bolsonaro é um oportunista, estava fazendo campanha no horário de expediente e jamais conseguiria submeter o Estado brasileiro à vontade do grupo religioso que o abençoava com promessa de votos. Mas a simples intenção de terceirizar o poder concedido pelo eleitor é um absurdo que merecia a mais ampla desaprovação de todos. Não houve admoestação porque ninguém mais dá bola para as seguidas infrações ao bom senso e à ética e aos inúmeros crimes de responsabilidade cometidos pelo presidente. O fato, contudo, escancara uma linha de ação que Bolsonaro vem seguindo desde a sua posse e será mantida no caso da sua reeleição. E se constitui em grande problema a ser enfrentado.

Eduardo Affonso: Imagens que gritam

O Globo

A menina de 9 anos corre, nua e descalça, de braços abertos, gritando de dor, as costas queimadas por napalm. Outra menina, de uns 5 anos — a esqualidez não permite avaliar bem sua idade — , está no chão, também nua, o corpo pendido para a frente, observada de perto por um abutre. O menino de 3 anos, camiseta vermelha, calças azuis, sapatinhos bem amarrados, jaz de bruços, o rosto tocado pelas ondas.

Quem viu essas imagens não as esquecerá. Kim Phuc, vietnamita, fugia de um bombardeio, em 8 de julho de 1972. A sudanesa, cujo nome não se sabe, estava à beira da inanição e tomava fôlego, a caminho de um posto de saúde, em 11 de março de 1993. Aylan Kurdi, sírio, cruzava o Mediterrâneo numa viagem desesperada, até a madrugada daquele 2 de setembro de 2015.

As fotos não puseram fim ao horror no Vietnã, no Sudão ou na Síria, mas mostraram ao mundo a tragédia numa escala que qualquer ser humano consegue apreender. Milhões de vítimas são algo impalpável — uma criança ferida, morta ou à morte é um filho, um sobrinho, somos nós mesmos.

Pablo Ortellado: A esquerda que apoia o imperialismo

O Globo

É perturbador acompanhar o debate na esquerda sobre a invasão à Ucrânia. Logo no começo do conflito, o perfil do PT no Senado no Twitter publicou nota dizendo que “condena a política de longo prazo dos EUA de agressão à Rússia e de contínua expansão da Otan em direção às fronteiras russas”. Depois de ser criticada, a nota foi apagada, e manifestações individuais de senadores petistas contrários à invasão foram retuitadas. Mas a primeira nota ter saído mostra que forças relevantes no partido consideram a invasão justificada. A nota oficial do PT, publicada dois dias depois, reflete bem essa ambivalência, condenando uma solução militar, mas não a invasão: “Entendemos que a solução do contencioso entre Rússia e Ucrânia deve se dar de forma pacífica, utilizando todas as possibilidades de mediação em fóruns multilaterais”. Em sites de esquerda, predomina o apoio à invasão russa, em clima de torcida.

Carlos Alberto Sardenberg: É a Rússia, não a URSS, que ataca a Ucrânia

O Globo

Muita gente, lá fora e aqui, está cometendo um grande equívoco: pensar a Rússia como se fosse a União Soviética. Não é.

No tempo da URSS, Moscou tinha uma mensagem não apenas para a Europa, mas para o mundo todo. O marxismo soviético era uma construção completa: definia desde a organização da sociedade política, da produção e distribuição de riqueza até a vida cultural.

Mais importante: essa ideologia era partilhada mundo afora. Nos países já no âmbito da URSS, havia partidos, militância e apoios locais ao marxismo soviético.

Não se tratava de uma “simples” dominação externa, mas de identidade ideológica, pelo menos de parte das populações.

Mais ainda: em muitos países que estavam na órbita do Ocidente, havia partidos comunistas de sólida representação popular. Itália e França, por exemplo.

Marcus Pestana*: O peixe morre é pela boca

A sabedoria popular tem interessante forma de se expressar através de ditados, que se repetem por décadas e gerações. “O peixe morre é pela boca” aconselha administrar bem as palavras, não falar demais.  Uso o ditado popular para realçar um sábio conselho para a vida, particularmente na política, principalmente na era das frenéticas redes sociais. Mas existem outras formulações populares como “Quem fala demais, acaba dando bom dia a cavalo”, uma advertência àqueles que não sabem escutar, apenas falam, interditando o diálogo. Ou, ainda, “Em boca fechada, não entra mosquito”, recomendando prudência e ponderação nas opiniões.

Teve grande repercussão o evento envolvendo o apresentador Monark, do canal de entrevistas FLOW, um dos de maior audiência na internet, envolvendo também o deputado federal Kim Kataguiri (PODEMOS/SP). Refletindo um liberalismo ingênuo e um anarquismo radical, defenderam a possibilidade de existência de um Partido Nazista. Monark tem 31 anos e Kim, 26. Encontraram forte resistência da deputada Tábata Amaral (PSB/SP), 28 anos, que também estava no estúdio, e de forma consistente defendeu que não pode ter existência legal uma corrente que assumidamente conspira contra a democracia, defende o totalitarismo e carrega uma visão supremacista racial. Diga-se, de passagem, que nenhum dos dois defendeu ou defende o nazismo. E que o FLOW era um programa agradável, leve, inovador, descontraído. Vi várias entrevistas, era uma proposta interessante. Mas a irresponsabilidade com as palavras e o descuido com os conteúdos levaram à demissão do entrevistador e a um processo de cassação do deputado federal. Às vezes, a agressividade exagerada, a arrogância de quem acha que tudo sabe, a tentativa de ser excessivamente original, pode gerar um efeito bumerangue e abater o autor do abuso de expressão.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Não se equilibra o mercado de petróleo no improviso

O Globo

A guerra da Ucrânia afeta o preço do petróleo e a inflação no mundo todo, mas cada país reage a seu modo. A Europa debate como reduzir a dependência da energia russa. Estados Unidos e outros países liberam seus estoques estratégicos, mas ao mesmo tempo discutem até que ponto é razoável ampliar subsídios e isenções de impostos a combustíveis fósseis — de quase US$ 1 milhão por minuto no planeta. No Brasil, a questão é outra.

Pelas postagens de políticos nas redes sociais, parece que vivemos num planeta à parte, e nosso problema se resume à política de preços da Petrobras. Depois de semanas segurando aumentos, a estatal enfim reajustou os preços nesta semana, mesmo assim aquém do patamar do mercado internacional.

Não importa. Do governista Arthur Lira ao oposicionista Luiz Inácio Lula da Silva, passando pelo presidente Jair Bolsonaro, todos os matizes do espectro ideológico parecem encarar a empresa como responsável pelos aumentos, apenas porque ela pratica os preços de mercado. É como se o histórico desastrado de intervenções e desabastecimento nada tivesse ensinado ao país.

Poesia | Bertolt Brecht - Aos que virão depois de nós

 

Música | Trenzinho Caipira - H. Villa Lobos - Letra Ferreira Gullar

 

sexta-feira, 11 de março de 2022

Vera Magalhães: Gasolina no palanque

O Globo

A guinada no discurso público de Jair Bolsonaro sobre o preço dos combustíveis mostra a dificuldade, até aqui, de o presidente conseguir equacionar este que é claramente o assunto que mais lhe tira o sono hoje, pelo potencial de estrago eleitoral que tem.

Nos últimos dias, as conversas interministeriais, com o mercado e com a direção da Petrobras tinham sobre a mesa algumas alternativas, todas heterodoxas e fora do receituário liberal clássico, para conter a alta da gasolina, do diesel e do gás de cozinha.

Enquanto isso, esses preços vinham sendo represados sem anúncio formal, desde janeiro no caso dos combustíveis, há 152 dias no do gás. Até que a Petrobras acabou abrindo as comportas, e as reações a uma alta significativa dos três itens foram de espanto e corre-corre em busca, de novo, de uma solução pretensamente simples para um problema cada vez mais complexo, em virtude da imprevisibilidade da guerra na Ucrânia.

Bernardo Mello Franco: O vai ou racha dos ruralistas

O Globo

A caravana dos artistas não comoveu os profissionais do Congresso. Na quarta-feira, uma trupe liderada por Caetano Veloso percorreu gabinetes e lotou a Esplanada num ato pela Amazônia. No plenário, os deputados ignoraram os visitantes ilustres e avançaram com o projeto que libera a mineração em terras indígenas.

O texto pró-garimpo passará a tramitar em regime de urgência. Pelos planos de Arthur Lira, deve ir a votação definitiva em abril, às vésperas do Dia do Índio. Parece provocação — e talvez seja mesmo.

O lobby da devastação perdeu o medo da opinião pública. Com a vitória de Jair Bolsonaro, madeireiros, garimpeiros ilegais e grileiros de terra já haviam conquistado as chaves do Planalto. Agora eles também contam com a cumplicidade e o apoio do presidente da Câmara.

Fazendeiro em Alagoas, Lira já comandou a aprovação de ao menos quatro projetos que criam riscos graves ao meio ambiente. “Em todos os casos, atropelou-se o processo legislativo com regimes de urgência e votações sem debate, baseadas em mentiras”, critica o advogado Mauricio Guetta, professor de Direito Ambiental na PUC-Rio.

Flávia Oliveira: Alta na bomba, risco à mesa

O Globo

A guerra na Ucrânia aporta na vida real das famílias brasileiras nesta sexta-feira, quando entra em vigor o reajuste da Petrobras nos preços da gasolina (18,8%), do óleo diesel (24,9%) e do gás de cozinha (16,1%) nas refinarias. O tarifaço segue a política de paridade da estatal ao câmbio e à cotação internacional do petróleo. Economistas foram às contas. Estimam impacto de 1 a 1,5 ponto percentual na inflação oficial no bimestre março-abril. O economista André Braz, responsável pelos índices de preços da FGV, estima que o IPCA de março pode chegar a 1,5%, se o aumento dos combustíveis for inteiramente repassado (0,9 ponto percentual) aos consumidores, a partir do dia 11. Confirmado, será o maior resultado para o mês desde os 1,55% de 1995, ano seguinte ao Plano Real. E ainda restaria resíduo de 0,4 ponto percentual para os dez primeiros dias de abril.

O impacto, sobretudo, da gasolina na inflação é o lado mais facilmente mensurável — mas não o pior —do choque global nos preços das commodities decorrente do conflito na Europa. O produto é o item de maior peso (6,58%) no índice da meta de inflação e interessa à classe média, fatia barulhenta do eleitorado. Em ano de corrida presidencial, foi içado pelo mundo político ao topo de um arcabouço de medidas de custo alto e efeito incerto. O governo acena com subsídio bilionário, que pode favorecer quem anda de carro e neglicenciar os que precisam do gás para cozinhar, mas podem nem ter comida para levar ao fogão.

Luiz Carlos Azedo: Impacto da guerra chega ao Brasil com aumento de combustíveis

Correio Braziliense

As sanções econômicas de EUA, Canadá, Inglaterra e União Europeia contra a Rússia serão mais duradouras do que a guerra da Ucrânia

Os efeitos da guerra da Ucrânia na economia brasileira chegaram muito mais rápido do que se imaginava, com o aumento de 24,93% dos combustíveis anunciado, ontem, pela Petrobras. O reajuste teve impacto imediato na opinião pública e em segmentos que apoiam o presidente Jair Bolsonaro, sobretudo os caminhoneiros, cujos líderes já estão estrilando nas redes sociais. O preço do gás de cozinha leva os ecos da invasão russa para dentro de casa. Guerras sempre foram momentos disruptivos na economia dos países, dessa vez mais ainda, em razão de um mundo globalizado e conectado em redes.

Ontem, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tentou minimizar os efeitos do reajuste dos combustíveis, a partir de medidas que estão sendo tomadas como a mudança no ICMS aprovada ontem pelo Senado: a criação de uma Conta de Estabilização dos Preços dos combustíveis (CEP). A proposta ainda precisa do aval da Câmara dos Deputados, cujo presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), reagiu duramente em relação ao aumento: “Me causou espanto a insensibilidade da Petrobras com os brasileiros — os verdadeiros donos da companhia. O aumento de hoje (ontem) foi um tapa na cara de um país que luta para voltar a crescer”, disse.

Reinaldo Azevedo: Bolsonaro ainda pode vencer

Folha de S. Paulo

Presidente é o primeiro direitista que consegue dar expressão popular à voz da reação porque fala aos simples

Chegamos a meados de março, e a candidatura de Jair Bolsonaro à reeleição não derreteu como muitos previam. Nunca apostei nessa possibilidade, como sabem os que me acompanham aqui e alhures. Ao contrário: escrevi, e mantenho a avaliação, que ele deve chegar competitivo ao segundo turno.

Subestimá-lo, ignorando a arena sanguinolenta das redes sociais em que também se trava a disputa, foi o erro mais tolo cometido em 2018. Por "competitivo", entenda-se: o presidente pode ser reeleito.

Lula parece ter a mesma avaliação. Em encontro com lideranças femininas na manhã desta quinta (10), foi direto: "A luta não será fácil. Não existe essa do ‘já ganhou’. Eleição, a gente só sabe o resultado depois da apuração".

Bruno Boghossian: Banco de reserva

Folha de S. Paulo

Manobra no PSD realça dificuldade na faixa que ainda tenta se espremer entre Lula e Bolsonaro

Notícias do território separatista da terceira via: o senador Rodrigo Pacheco desistiu de concorrer ao Planalto e deve ser substituído pelo governador gaúcho Eduardo Leite como presidenciável do PSD. Com o anúncio, sai um candidato que marcava 1% nas pesquisas e entra um nome que marca, no máximo, 3%.

A troca tem tudo para deixar a disputa eleitoral exatamente como está, mas também revela uma dificuldade crescente na faixa do mercado político que ainda tenta se espremer entre Lula e Jair Bolsonaro.

A busca do PSD por um candidato reserva realça a ideia de que o partido não está na corrida para valer. O lançamento de Pacheco era visto como uma manobra para evitar o alinhamento de políticos da sigla com o PT ou com o bolsonarismo ainda no primeiro turno. É difícil acreditar que Leite seja escalado para desempenhar um papel muito diferente.

Hélio Schwartsman: Segurar preço pode ser má ideia

Folha de S. Paulo

Russos experimentarão as piores dores das sanções, mas o resto do mundo também sofrerá

É possível que as sanções econômicas que a comunidade internacional baixou contra a Rússia surtam efeito. Empobrecer repentinamente a elite e a classe média de um país é uma receita infalível para minar a popularidade do governante de plantão. A incógnita é se Putin ainda depende do apoio de seus súditos para manter-se no poder ou se já criou uma estrutura sólida o bastante para resistir a pressões internas.

De certo, temos que, se são os russos que experimentarão as piores dores das sanções, o resto do mundo também sofrerá.

Ruy Castro: O Brasil ripado

Folha de S. Paulo

Teme-se pelas riquezas culturais e se sobrará alguma coisa quando o pesadelo acabar

"A Funai acabou", disse o fotógrafo Sebastião Salgado ao Globo. A instituição que hoje usa os mesmos nome, endereços, verbas, aviões e mordomias não é a mesma que, em seus primeiros 52 anos, fez o que pôde para proteger os índios. A Funai dos últimos três anos parece querer exterminá-los. Salgado responsabilizou-a pela contaminação em massa com Covid dos indígenas korubo, povo do Vale do Javari, no Amazonas, pelos invasores estimulados pelo governo. E esse é só um dos povos ameaçados.

Outra instituição, a Biblioteca Nacional, está à deriva há muito tempo. Seu ex-presidente nominal, um discípulo de Olavo de Carvalho, foi removido para a Secretaria Especial de Cultura, ex-Ministério da Cultura, este reduzido a humilhante apêndice do Ministério do Turismo, cujo atual titular é o sanfoneiro particular de Bolsonaro. Para dirigir a Biblioteca, indicaram um oficial da reserva da Marinha. A Biblioteca Nacional, uma das dez maiores do mundo, já teve como presidentes em seus 224 anos Raul Pompéia, Celso Cunha, Plínio Doyle, Eduardo Portella e Muniz Sodré. Nenhum deles jamais comandou um navio.

Celso Ming*: A pancada da gasolina e do diesel

O Estado de S. Paulo.

A pancada da correção dos preços da gasolina (+18,7%), do óleo diesel (+24,9%) e do gás de cozinha (+16,0%) terá efeitos econômicos e psicológicos.

Há meses o governo vem dando trombadas sucessivas entre seus ministros na tentativa de substituir o critério de definição dos preços internos aos equivalentes aos das importações (Paridade dos Preços Internacionais). Por não conseguir eleger outro critério, a Petrobras tem de aplicar o que está a seu dispor.

A ideia de que a variação dos preços internacionais não deve ser aplicada imediatamente, mas com certo intervalo, tem o inconveniente da superdosagem: em temporada de alta, quando feitos os reajustes nessas condições, a paulada pode ser bem menos suportável, como agora. Desta vez, a Petrobras ficou 57 dias sem corrigir os preços dos combustíveis.

O principal impacto econômico dessa correção é mais inflação na veia, que não acontece apenas por meio do aumento de custos.

Simon Schwartzman*: O apagão do ensino médio

O Estado de S. Paulo.

O que se tem é uma reforma confusa, sem ter quem a lidere e com alunos prejudicados por dois anos de escolas fechadas

Levantamento recente da Secretaria de Educação de São Paulo mostra o impacto da pandemia no ensino médio do Estado, que já não vinha bem. Em Língua Portuguesa, em 2019, os alunos que terminavam o ensino médio já estavam, em média, 3,83 anos atrasados em termos do que haviam aprendido, ou seja, sabiam menos do que o esperado no 9.º ano do ensino fundamental. Em 2021, este atraso havia aumentado para 4,24 anos. Em Matemática, o atraso, que era de 5,14 anos, aumentou para 6,53 anos, ou seja, tinham o nível próximo ao esperado no 5.º ano. É provável que, no resto do País, o impacto tenha sido maior.

É assim que estes estudantes estão entrando, em 2022, no novo ensino médio, estabelecido em 2017. Pela lei, os estudantes que entram no ensino médio como um caminho para o ensino superior deveriam escolher as áreas de estudo de sua preferência; para a maioria, sobretudo da rede pública, que não irá além do nível médio, seria possível obter uma qualificação profissional valorizada no mercado de trabalho.

Pedro Doria: MBL e a política da dopamina

O Estado de S. Paulo / O Globo

Mais que afundar a carreira política do deputado estadual paulista Arthur do Val (sem partido), o impacto das mensagens em áudio que ele gravou e foram vazadas traz lições importantes. Algumas são lições bastante antigas, bastava ter lido qualquer guia derivado de Maquiavel que se proponha à autoajuda do político iniciante. Mas outras não são tão triviais. Tratam dos limites do tipo de ação política digital usado pelo MBL, pelo bolsonarismo e mesmo pelo que alguns chamam de neobolchevismo digital. Arthur foi abatido pelas armas que sempre usou. Mais: por causa das armas que sempre usou.

É bom antes definir que arsenal é esse. É tratar política de forma histérica. Tudo é escândalo, e nunca há possibilidade do diálogo. O objetivo é manter o giro do conteúdo das redes sociais, um conteúdo que mobilize, deixe os seguidores sempre alertas. Como o escândalo de anteontem é sempre esquecido, é preciso se manter no ataque. É uma política movida a altas doses de dopamina. O neurotransmissor surgiu no processo evolutivo para nos deixar em estado de alerta quando há risco de vida, também regula o prazer, por isso mesmo é aquele jorro fugaz. A dopamina ativa aquilo que o viciado sente. Explode, aí passa rápido.

Fernando Abrucio*: 2013 foi o ovo da serpente

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Se quisermos mudar o país para termos um futuro melhor, a renovação não pode se pautar pelo despreparo, insensibilidade social e moralismo hipócrita

A história humana é repleta de eventos paradoxais. Um dos mais comuns é a existência de momentos marcados pela busca do novo, que, ao final, resultam em retrocessos. A Revolução Francesa gerou Napoleão Bonaparte; a Russa, o totalitarismo de Stalin. No Brasil, multidões foram às ruas em junho de 2013 para pedir a renovação da política brasileira. Apostou-se muito no que viria daquele movimento cívico de massas. Porém, os principais grupos surgidos daquele episódio demonstraram ser o inverso do que diziam: só representam o retrocesso de tudo que o país conquistou desde a redemocratização.

Na verdade, nunca nutri grande esperança no discurso presente naquelas jornadas de junho de 2013, especialmente quando ouvia as soluções propostas para os problemas do país. Estava na avenida Paulista no dia 20 de junho, saindo do trabalho, e ouvi grupos gritando: “Sem partido”, frase que me lembrou a Marcha sobre Roma comandada por Mussolini em 1922. Parecia mais com a metáfora do ovo da serpente, para citar o famoso filme de Ingmar Bergman sobre as origens do nazismo. Pressenti tempos sombrios e, infelizmente, eles vieram.

Não se trata de criticar uma parte da agenda de problemas apresentados pelas ruas, como a necessidade de melhorar os serviços públicos, mas sim o ideário vencedor desse processo político. Ele se baseava num discurso agressivo, tanto na forma como no conteúdo, contra a velha política e as instituições sociais mais relevantes, em nome de uma mistura mal combinada de um ultraliberalismo quase infantil com um conservadorismo moral modernizado pela linguagem das redes sociais. Havia um sentimento de superioridade muito grande naquelas lideranças, quase todas muito jovens, que imaginavam que sabiam tudo e que podiam se contrapor aos seus adversários de forma desrespeitosa e pouco democrática.

José de Souza Martins*: O Estado suspeito

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

É preocupante que cheguemos às eleições de 2022 sem que as estruturas paralelas do poder abusivo e corrupto tenham sido devidamente investigadas, denunciadas e neutralizadas

Menções a corrupção e suas variantes têm sido frequentes no Brasil, as mais recentes relativas ao transporte, pela FAB, de parentes e amigos de membros do governo. Iniciativas têm sido tomadas para regulamentação tópica de anomalias como essa. Mas só essa. O resto permanece.

Há ainda os casos de uso de dinheiro público para viagens de membros do governo nem sempre claramente justificadas como sendo viagens por razões propriamente de Estado. É tal a falta de clareza que pesa sobre elas a suspeita de objetivos que não as justificam.

Ainda não se fez uma pesquisa consistente sobre a história da corrupção no Brasil para explicar-lhe as causas, as metamorfoses e a persistência. Pesquisa que abranja desde a época colonial, quando ainda não se usava essa palavra e o que hoje chamamos de corrupção ainda era outra coisa, mas era.

Claudia Safatle: Governo quer conter impacto da guerra sobre o diesel

Valor Econômico

Redução a zero da alíquota de PIS e Cofins sobre o combustível custará ao país R$ 13,5 bilhões

Uma decisão está tomada: assim que o projeto de lei complementar nº 11, aprovado ontem no Senado, for submetido à Câmara e sancionado pelo presidente Bolsonaro, o governo anunciará a redução a zero do PIS e da Cofins cobrado sobre o diesel. A medida valerá até o fim do ano e custará aos cofres públicos cerca de R$ 13,5 bilhões. São arrecadados com esse tributo cerca de R$ 18 bilhões por ano. Se tudo der certo, a redução dos impostos sobre o diesel valerá por nove meses e terá um impacto sobre o preço final do produto de algo entre R$ 0,30 e R$ 0,50 por litro.

Essa medida não afeta a lei do teto do gasto público e é, por enquanto, a única inciativa pronta do governo para enfrentar a substancial elevação de preços do óleo no mercado internacional, em decorrência da guerra da Ucrânia, país invadido pela Rússia no dia 24 de fevereiro.

A decisão da Petrobras de anunciar, ontem, o reajuste de 18,7% nos preços da gasolina e de 24,9% nos do diesel, aguçou o senso de urgência tanto no Senado quanto no Executivo. Passou-se da conversa para votação de duas propostas. Ambas foram aprovadas.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Norte para o STF deveria sempre ser o comedimento

O Globo

Duas decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) trazem certo alívio em relação a uma questão, ao mesmo tempo, espinhosa e crítica para o futuro da democracia brasileira: o risco representado pelo ativismo judicial.

Na primeira, o Supremo manteve o trecho do Orçamento que destinou R$ 4,9 bilhões ao fundo eleitoral deste ano. Embora o relator, ministro André Mendonça, tivesse em seu voto de estreia defendido uma posição mais razoável dos pontos de vista político e moral — limitar o fundo aos valores de 2018 corrigidos pela inflação —, o Supremo não tem autonomia para mexer em destinações orçamentárias, atribuição constitucional do Parlamento.

Na segunda decisão, a Corte se recusou a rever o prazo que a Lei da Ficha Limpa estabeleceu para a inelegibilidade dos condenados: oito anos depois do cumprimento da pena. Como o STF já se pronunciara sobre a lei e, de lá para cá, não houve nada que justificasse reexaminar a questão, os ministros novamente se contiveram. Nem deram conhecimento à liminar do ministro Nunes Marques, que estipulava prazo de oito anos depois da condenação.

Poesia| Bertold Brecht: Precisamos de você

Aprende - lê nos olhos,
lê nos olhos – aprende
a ler jornais, aprende:
a verdade pensa
com tua cabeça.

Faça perguntas sem medo
não te convenças sozinho
mas vejas com teus olhos.
Se não descobriu por si
na verdade não descobriu.

Confere tudo ponto
por ponto – afinal
você faz parte de tudo,
também vai no barco,
"aí pagar o pato, vai
pegar no leme um dia.

Aponte o dedo, pergunta
que é isso? Como foi
parar aí? Por que?
Você faz parte de tudo.

Aprende, não perde nada
das discussões, do silêncio.
Esteja sempre aprendendo
por nós e por você.

Você não será ouvinte
diante da discussão,
não será cogumelo
de sombras e bastidores,
não será cenário
para nossa ação

Música | Coral Edgard Moraes e Maestro Marco César - Risos de Mandarim (Getúlio Cavalcanti)