sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Luiz Carlos Azedo - Operação da PF pode bater em generais golpistas

Correio Braziliense

Havia um golpe em marcha em 8 de janeiro de 2023, cujo objetivo era destituir Lula, prender Alexandre de Moraes e, possivelmente, tirar a então presidente do STF, ministra Rosa Weber, do comando da Corte

No livro Artes da política: diálogo com Amaral Peixoto, uma longa entrevista com um dos caciques do antigo PSD — que foi senador, governador eleito do antigo Estado do Rio e embaixador nos Estados Unidos — concedida a Aspásia Camargo, Lucia Hippolito e Maria Celina D'Araújo (Rio de Janeiro: Nova Fronteira/CPDOC-UFF, 1986), a velha raposa política conservadora explica de forma simples e clara a razão pela qual não apoiou o golpe de 1964: era "a morte da política".

Na cúpula do PSD, seu aliado foi Tancredo Neves, porque o ex-presidente Juscelino Kubitschek e Ulysses Guimarães — que depois viria presidir o MDB e liderar a oposição ao regime dos generais —, àquela ocasião, apoiaram o golpe de Estado no qual os militares destituíram o presidente João Goulart. Ao longo de 20 anos de ditadura, gradativamente, os políticos liberais de todos os matizes derivaram para a oposição. Ao contrário da Revolução de 1930, os militares não delegaram o poder para os civis golpistas.

Havia um golpe em marcha em 8 de janeiro de 2023. O objetivo era destituir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, quiçá a então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber, que se aposentou no ano passado. Houve resistência ao golpe na cúpula do governo, liderada pelo presidente do PP, senador Ciro Nogueira (CE), e pelo ministro das Comunicações, Fabio Faria (PP-RN), com apoio do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jorge Oliveira, que fora secretário-geral da Presidência da República. No grupo de militares palacianos, a única voz discordante era o então ministro de Assuntos Estratégicos, almirante Flávio Rocha.

Orlando Thomé Cordeiro* - Eleições municipais e polarização

Correio Braziliense

Sem dúvida, a estrutura partidária vigente e a legislação a ela associada permitem, e até mesmo estimulam, a participação de pessoas em que a motivação principal é ter uma instituição cartorial para chamar de sua

A pouco mais de oito meses para as eleições municipais, estamos presenciando a habitual movimentação de pré-candidatos escolhendo as legendas pelas quais concorrerão e costurando suas alianças. E mais uma vez, como parte da nossa trágica tradição política, essas tratativas passam longe de alinhamento em torno de programas de governo.

Sem dúvida, a estrutura partidária vigente e a legislação a ela associada permitem, e até mesmo estimulam, a participação de pessoas em que a motivação principal é ter uma instituição cartorial para chamar de sua. Uma característica marcante na maioria das 29 agremiações atualmente registradas no TSE, independentemente de seu tamanho, é a figura do chamado "dono do partido". Para agravar o cenário, o site da Justiça Eleitoral apresenta uma lista com pedidos em andamento para criação de 25 partidos! É óbvio que tal miríade ultrapassa, e muito, uma real representação de visões ideológicas ou programáticas presentes na sociedade.

Hélio Schwartsman - Biden ainda é o favorito

Folha de S. Paulo

Trump avança na disputa para obter indicação dos republicanos, mas enfrentará obstáculos na eleição

A esperança é a última que morre, mas acho que, a essa altura, nem Nikki Haley acredita muito em suas chances de tirar de Donald Trump a indicação do Partido Republicano para concorrer à Presidência em novembro. Se havia um estado em que um republicano anti-Trump tinha condições de vencer as primárias, era New Hampshire, mas ela não conseguiu. Perdeu por 54% a 43%. Ao que parece, teremos mesmo um repeteco da disputa Biden-Trump.

Vinicius Torres Freire - Instituições funcionam para o mal

Folha de S. Paulo

Tem mafuá entre Congresso e STF, bocas ricas no Estado e favores para a 'burguesia'

"As instituições estão funcionando" é uma frase de quem passa pano para a crise democrática e econômica brasileira. De tão batida, no seu emprego irrealista ou picareta, se tornou cediça, podre, e motivo de sarcasmo gaiato.

Além de defeitos de base, por beneficiar quem tem mais poder ou sustentar hierarquias nefastas, o funcionamento das instituições se tornou ainda pior desde 2013, lama da qual não saímos.

Basta dar uma olhada no noticiário para notar várias instituições funcionando como uma fossa séptica entupida.

Bruno Boghossian - A 'inteligência' da Abin paralela

Folha de S. Paulo

Aparelho foi criado para bisbilhotar rivais e ajudar família do presidente a fugir da polícia

Quando passou um pito em sua equipe e reclamou dos órgãos de inteligência que deveriam abastecer seu gabinete, Jair Bolsonaro pegou mais leve com um departamento específico. Na famosa reunião ministerial de abril de 2020, o presidente se queixou da Polícia Federal e das Forças Armadas, mas disse que a Abin lhe dava "algumas informações".

Bolsonaro afirmou que a agência ainda tinha um problema de "aparelhamento". Meses depois, o problema foi resolvido. Em julho, a Abin criou uma máquina operada por homens de confiança do diretor-geral, Alexandre Ramagem, para bisbilhotar rivais e buscar informações para proteger a família do presidente.

André Roncaglia* - Histeria anti-indústria revela o atraso de economistas liberais

Folha de S. Paulo

Eles ficam presos a ideias obsoletas na sanha de perpetuar o atual modelo extrativo-agrofinanceiro

A histeria que se seguiu à apresentação do pacote inicial de medidas pelo MDIC/BNDES revela o atraso de economistas liberais brasileiros; na sanha de perpetuar o atual modelo extrativo-agrofinanceiro, prendem-se a ideias obsoletas.

A pandemia e a temporada de guerras quentes catalisaram profundas mudanças geopolíticas, as quais exigem um olhar renovado sobre a economia, como destacou estudo recente do FMI (2024).

A prestigiada Harvard Business Review destacou a "nova era da política industrial". O plano Biden prova que até Washington abandonou o consenso dos anos 1990, com seu trilionário pacote de subsídios e incentivos setoriais.

A revista The Economist (02/01) desnudou o novo espírito do tempo com sua típica objetividade: "uma economia deve evoluir da pobreza agrária para indústrias diversificadas [para] que possam competir com países rivais que são ricos há séculos."

Cláudio Carraly - Pela Imediata Reinstalação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos

Hoje, nos deparamos com um chamado que transcende as divisões políticas, ideológicas e temporais. Este é um apelo à nossa consciência coletiva e ao nosso compromisso inabalável com os princípios fundamentais da justiça, dos direitos humanos e da verdade histórica. Trata-se da necessidade urgente de reinstalar a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, uma instituição que desempenhou um papel essencial em nossa jornada rumo a uma sociedade mais justa e democrática.

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, instituída em 1995, emergiu como uma luz de esperança em meio às sombras do passado autoritário de nossa nação. Sua missão era clara: investigar e documentar os casos de indivíduos que foram mortos ou desapareceram durante a ditadura no Brasil, que perdurou de 1964 a 1985. Durante seu funcionamento, a comissão se tornou um farol de humanidade, respondendo a uma questão inerentemente humanitária, a busca por entes queridos perdidos e a verdade por trás de suas histórias. A justiça, a verdade e a memória histórica são os pilares sobre os quais nossa sociedade democrática se apoia.

Poesia | Quando olho para mim, de Fernando Pessoa

 

Música | VILA ISABEL Carnaval 2024 - Samba Enredo

 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Trump representa perigo imenso para o mundo

O Globo

Prévias republicanas mostram que é preciso desde já levar a sério o risco de sua volta à Presidência

As duas primeiras prévias do Partido Republicano — nos estados de Iowa e New Hampshire — confirmaram o favoritismo de Donald Trump. Descartados efeitos de eventos imprevisíveis, como condenações judiciais nos processos em que é réu, o mais provável é que seu nome esteja nas cédulas em novembro. Pelas pesquisas, ele hoje derrotaria o presidente Joe Biden, virtual candidato democrata, na maioria dos estados necessários para vencer a eleição. É verdade que tudo pode acontecer até lá, mas o risco de uma eventual vitória de Trump precisa ser levado a sério desde já.

Líderes políticos e empresariais de todo o mundo começam a traçar cenários sobre sua volta à Casa Branca. Não causa surpresa que as conclusões sejam preocupantes. As avaliações, afinal, não são feitas com base em suposições. Nos quatro anos em que ocupou a Presidência, entre 2017 e 2020, Trump criou um clima de caos e incerteza em torno de sua personalidade errática e mercurial. Desagradou mais a aliados que a inimigos históricos dos Estados Unidos. Foi explícito ao pôr em questão a Otan, aliança militar com os europeus. Aproximou-se de Vladimir Putin, Kim Jong-un e outros autocratas. Num eventual segundo mandato, a única certeza é a incerteza.

Paulo Sternick* - A trama da desatenção

O Globo

O sentimento de impotência substitui o idealismo, e um realismo conformista ocupa o lugar que era do romantismo

‘Eu não sei dizer, nada por dizer, então eu escuto’ — diz a bonita letra musical. Podia ser frase de psicanalista à espera de um sinal do inconsciente, em meio ao jorro de falas do analisando. Mas também um canto retraído e perplexo do sujeito atual, diante dos absurdos que o cercam. Afinal, dizer o quê? Como se a palavra já tivesse morrido, tamanha sua inocuidade. E o escritor, enquanto nada articula, escuta sua alma discutir a função e a utilidade da escrita. O dilema paralisante pode ser injusto com os que precisam manter o espírito aceso por ideias que os ajudem a encontrar sentido para suas perplexidades.

Será o escritor capaz de atender à expectativa, emergir da banalidade e articular ideias instigantes, ressuscitando a palavra — como na arte que se afasta ou distorce a realidade para, em seguida, desvelar suas nuances? Pois bem. Uma conspiração mundial estaria em curso — anônima, inconsciente, coletiva. Mas, ao mesmo tempo, como se houvesse um desígnio subterrâneo, um projeto intencional, tão efetivo que se expressa em sua universalidade automática. Com a cumplicidade das vítimas. A estratégia é deixar todos os indivíduos desatentos. É uma conspiração da desatenção, de manter os seres entorpecidos — mesmo aqueles que, na superfície, parecem resistir e criticar.

Merval Pereira - Simulacros e arremedos

O Globo

Por que será que o presidente Lula se considera no direito de fazer de Guido Mantega — ministro da Fazenda do desastroso governo Dilma Rousseff, responsável pela fracassada “nova matriz econômica” — presidente da Vale? Será que ele não se lembra de que a Vale é uma empresa privada? Será que não sabe que os fundos de pensão das estatais são sócios minoritários, sem força para eleger o presidente da empresa? Será que não se convenceu de que os fundos de pensão de estatais não podem ser manipulados politicamente, pois acabam prejudicando os trabalhadores aposentados?

Até hoje há aposentados de estatais, como a Petrobras, que sofrem desconto do que recebem para compensar o prejuízo causado pelo petrolão. Claro que Lula sabe dessas coisas, e muito mais. Sabe que a vida da Vale pode virar um inferno se o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) ou a Agência Nacional de Mineração (ANM) quiserem boicotar a empresa nas concessões de licenças ambientais e de mineração.

Luiz Carlos Azedo - Eleição paulistana tem potencial de desagregar o governo

Correio Braziliense

Ao se engajar diretamente na disputa paulistana, Lula dá uma guinada à esquerda na sua política de alianças, que se estreita em São Paulo

O envolvimento direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições para a Prefeitura de São Paulo é o epicentro de um realinhamento de forças políticas nas eleições municipais de consequências imprevisíveis. Até agora, Lula está se saindo melhor, com a refiliação de Marta Suplicy ao PT e sua indicação para a vice de Guilherme Boulos (PSol), o candidato de esquerda que lidera as pesquisas. Com isso, o candidato de Lula amplia suas possibilidades eleitorais em direção às periferias paulistas, onde a ex-prefeita é popular, e a sua capacidade de interlocução com a elite de São Paulo, da qual ela faz parte.

Na cidade de São Paulo, Lula venceu as eleições contra Bolsonaro. Obteve 3.677.921 votos, o que corresponde a 53,54% dos votos válidos, ante 3.191.484 votos — ou seja, 46,46% dos votos válidos do ex-presidente. Natural, portanto, que o prefeito Ricardo Nunes (MDB) busque o apoio da extrema direita, não apenas por intermédio do governador Tarcísio de Freitas (PR), mas com o engajamento direto do ex-presidente na sua campanha.

Maria Cristina Fernandes - Segurança pública sob comando bandeirante

Valor Econômico

Equação montada por Lula enfrentará teste. Estendeu ao grupo que comanda o enfrentamento ao bolsonarismo o poder sobre a segurança pública. E nomeou Dino para equilibrar o poder deste mesmo grupo no STF

O titular será um ex-desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo (Ricardo Lewandowski) e o secretário de segurança pública, um procurador-geral de Justiça (Mario Sarrubbo), a ser empossado graças ao apoio de um ex-SSP-SP que hoje é ministro do Supremo Tribunal Federal (Alexandre de Moraes). Não há dúvida de que o Ministério da Justiça terá domínio paulista.

A mudança não se limita ao sotaque bandeirante. Se o modo como se imbricam justiça e polícia em São Paulo for exportado para o Planalto, aguardem-se mudanças a reverberar para a política.

A mosca azul que pousou no STF com os inquéritos que caçam o bolsonarismo, ameaça aportar sobre a política de segurança pública. Se a Corte asfixia o bolsonarismo de um lado, o medo face à escalada do crime organizado o alimenta do outro.

Nelson Niero - É hora de os empresários voltarem a ter voz

Valor Econômico

Como o liberalismo, novo ou velho, não colou no país, continuamos atrás do Estado redentor

É certo, a se crer nas estatísticas, que a vida do empreendedor brasileiro melhorou nos últimos anos. Tome-se como medida o dado do Banco Mundial que mostra quantos dias demoram para se abrir uma empresa. O Brasil passou de 86,6 dias em 2013 para 16,6 dias em 2019 - comparado a meio dia na Nova Zelândia e 230 na Venezuela, só para situar o país entre dois extremos.

Um avanço significativo, porém pequeno diante das dificuldades que o candidato a empresário terá de enfrentar. Por exemplo, no indicador que mede a facilidade de se fazer negócios, o Brasil ficou na 140º posição, atrás do Senegal e à frente dos vizinhos Paraguai e Argentina. Nova Zelândia, outra vez no primeiro lugar, é seguida por Cingapura, país que a megavarejista de origem chinesa Shein escolheu como sede e de onde ela exporta seus produtos superbaratos para o Brasil.

Pedro Cavalcanti Ferreira/Renato Fragelli Cardoso* - A velha nova política industrial

Valor Econômico

Ao priorizar setores e aumentar as distorções e custos impostos ao resto da economia, a nova política industrial reproduz erros cometidos no passado

Nesta semana, o governo anunciou o plano Nova Indústria Brasil (NIB), uma nova política industrial. Ele tem coisas novas e coisas ruins. As novas não são boas.

O NIB parte da premissa de que uma indústria forte seja pré-condição para o desenvolvimento de uma nação. Diante da queda da participação da indústria no PIB brasileiro, observada nas últimas três décadas, o diagnóstico é que o país está se desindustrializando precocemente, não havendo possibilidade de os setores de serviços e agropecuária liderarem a retomada do crescimento. Conclui que, a fim de reverter o processo, uma nova política industrial se torna necessária.

Ocorre que isso já foi tentado no passado e não deu certo. Com raras exceções, após a retirada dos subsídios e apoios públicos, os setores beneficiados regrediram. A suposta novidade está no conceito de missões e de um setor público empreendedor. Esses pontos parecem ter como origem o pensamento da economista Mariana Mazzucato. A ideia de missão é congregar esforços de inúmeros órgãos públicos e do setor privado em torno de um objetivo estratégico. A atual política terá missões, ou objetivos temáticos, ligados aos setores de agroindústria, saúde, infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade.

William Waack - Elites e Estado indutor

O Estado de S. Paulo

Problema para políticas industriais, entre outras, é a escolha de estratégias

A recém-anunciada política industrial do governo foi chamada de velha pelo próprio Lula antes mesmo de começar, mas o problema não é ser uma ideia antiga. É não se conseguir entender o que aconteceu com o que já se tentou.

Na leitura que Lula faz do passado recente, tudo ia maravilhosamente bem até a derrota “das elites” na eleição de 2014. O esperneio de derrotados inconformados juntou-se à Lava Jato (e aos ianques) e tramou-se então o golpe que interrompeu o caminho natural das coisas, o da permanência indefinida do PT no poder.

Nessa visão histórica, não eram as políticas públicas que estavam equivocadas. Faltou tempo (devido à interrupção causada pelo golpe) para sua devida implementação. Nessa forma de se ver as coisas foram fatores puramente políticos que impediram, por exemplo, que dessem certo projetos como incentivar a indústria naval ou construir refinarias monumentais.

José Serra - O Brasil na era das ferrovias?

O Estado de S. Paulo

O esforço do governo em buscar receitas novas para financiar o desenvolvimento do setor está alinhado com a agenda mundial

Vem sendo anunciado um plano para ampliar a malha ferroviária no Brasil, mediante a retomada de investimentos públicos em parcerias público-privadas no setor. Ao sinalizar uma estratégia de desenvolvimento – sem a falsa narrativa de que o capital privado pode financiar sozinho os gargalos no setor, o Ministério dos Transportes indica que o Brasil se insere na agenda global de investimentos em infraestrutura ferroviária.

Como autor do projeto de lei que se converteu no Marco Legal das Ferrovias – Lei n.º 14.273, de 2021 –, vejo com bons olhos a proposta do governo. Fui um crítico do teto de gastos e um dos parlamentares a propor um novo arcabouço fiscal, para preencher lacunas que hoje ainda estão na Lei de Responsabilidade Fiscal. Na vigência do teto, prevaleceu no País a ideologia de que o setor privado pode resolver sozinho todos os gargalos da infraestrutura de grande vulto, em especial ferrovias. Virou pecado falar em um orçamento de capital para promover o setor.

Eugênio Bucci - O fator humanista das emissoras públicas

O Estado de S. Paulo

A democracia depende da existência de uma população educada, culta e questionadora, assim como a pregação totalitária depende de massas ignorantes, raivosas e obedientes

Desde o final de semana, protestos eclodiram em dúzias de cidades da Alemanha. Nas ruas de Berlim, Munique, Hamburgo, Dresden, Colônia e outros centros urbanos, centenas de milhares de manifestantes marcharam juntos. O objetivo foi um só: repudiar os planos da extrema direita de expulsar do país milhões de imigrantes, mesmo aqueles que já tenham cidadania.

A conspiração de xenofobia era mantida em segredo, mas foi revelada por uma reportagem investigativa do Correctiv, um site jornalístico independente, apartidário e sem fins lucrativos. Logo após veiculação da notícia, as passeatas vieram. Foram a primeira reação, em tempo devido e em bom volume, e foram bem recebidas pela opinião pública internacional.

Mas, como sabemos, passeatas não bastarão para barrar a intolerância e o ódio que grassam na Europa. No ano passado, extremistas de direita ganharam posições mais altas na Suécia e na Holanda. Agora, de modo perturbador, surge esse fato novo na Alemanha. O que mais vem por aí? Será que estamos à beira de um revival da distopia da morte, na terra que é o berço e o túmulo do nazismo?

Celso Ming - Um plano de muitas intenções

O Estado de S. Paulo

Não são apenas os jornalistas rabugentos que receberam com críticas a recém-anunciada política industrial, que leva o título de Nova Indústria Brasil.

Até o presidente Lula reclamou da falta de “pontos concretos” e também de “problemas nos prazos para o cumprimento das metas estabelecidas”, conforme revela matéria da Folha de S.Paulo desta quarta-feira.

De dentro do Ministério da Fazenda também foram disparadas flechadas envenenadas. O assessor especial e coordenador da agenda verde do Ministério da Fazenda, Rafael Dubeux, declarou ao Estadão que a política industrial deveria ter como objetivo o aumento da competitividade, e não a proteção da indústria. E, no entanto, são vários os tipos de protecionismo que transparecem no plano.

Bruno Boghossian - Candidatura de Trump coroa degeneração da direita americana

Folha de S. Paulo

Republicanos abraçam populismo e incorporam extremismo trumpista sem olhar para trás

Ron DeSantis gastou milhões de dólares para convencer os republicanos a indicarem um candidato um pouco mais normal do que Donald Trump. Nikki Haley defendeu muitas das propostas do ex-presidente, mas disse que era hora de deixar o caos para trás. O primeiro foi moído nas eleições primárias. A segunda deve ter o mesmo destino.

Se a escolha de Trump como candidato em 2016 pareceu uma pegadinha e sua derrota em 2020 soou como um alerta, a provável indicação do ex-presidente para disputar a Casa Branca em 2024, com boas chances de vitória, coroa uma transformação decisiva na direita americana.

Maria Hermínia Tavares* - O que ele não poderia dizer

Folha de S. Paulo

Difícil entender por que um político de ficha democrática ceda a intolerância que aviva a polarização e beneficia a extrema direita

Em toda parte, a radicalização sempre foi um empreendimento das lideranças políticas, gerido por seus seguidores mais ativos. No Brasil, desde as eleições de 2014, a disputa pelo poder se encrespou.

O impeachment de Dilma Rousseff e o terremoto no campo da direita que culminou com a eleição de Jair Bolsonaro só fizeram nutrir a radicalização de posições. No governo, o ex-capitão dedicou-se a cevá-la.

O resultado do pleito de 2022 e a derrota da intentona do 8/1 sustentam a crença confortável de que tudo aquilo foi parar na proverbial lata de lixo da história. Um governo de amplíssima coalizão, chefiado por um grande negociador, parece ter sucesso em atrair as forças da direita mais pragmática.

Ruy Castro - Porta afora, alegremente

Folha de S. Paulo

Se estivesse vivo, Nelson Rodrigues acharia o furto de seu busto no cemitério a glória definitiva

"Vestido de Noiva" (1943), peça de Nelson Rodrigues, começa com o atropelamento da protagonista, a tentativa de salvá-la na mesa de cirurgia e sua morte. "Valsa nº 6" (1951) é o monólogo de uma menina morta. "A Falecida" (1953), a história de uma mulher que quer um enterro de luxo, com cavalos de penacho. O romance-folhetim "Asfalto Selvagem" (1959), uma festa de mortes naturais, suicídios e assassinatos, sempre por amor.

Toda a obra de Nelson Rodrigues, em teatro, ficção ou crônica, é uma galeria de viúvas (algumas, porém, honestas), mulheres de luto, crianças-fantasmas e figuras espectrais. Sua vida, aliás, foi definida pelo assassinato de seu irmão e consequente morte de seu pai. E ninguém escreveu mais sobre velórios. A morte era o grande assunto de Nelson.

Poesia | Tenho tanto sentimento, de Fernando Pessoa

 

Música | Lenine com Casuarina - Eu quero é botar meu Bloco na rua

 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Ao aceitar corte de gastos, Haddad revela sensatez

O Globo

Para cumprir meta fiscal e aumentar credibilidade, ministro deveria adotar plano de contenção de despesas

É conhecida a resistência do PT a cortar gastos para equilibrar as contas públicas. A ideia de que “gasto é vida” e a dívida pública apenas uma distração infelizmente continua a ter adeptos com gabinetes na Esplanada dos Ministérios ou acesso ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Felizmente, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem demonstrado bom senso em relação à questão. Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Haddad afirmou haver espaço para corte de gastos na máquina pública — necessidade há muito evidente para cumprir a meta de déficit fiscal zero.

Ao explicar não haver incongruência entre ser de esquerda e a favor do equilíbrio das contas públicas, Haddad diz uma obviedade, é certo, mas trata-se de mensagem necessária em Brasília — e mais importante neste ano de teste do novo arcabouço fiscal. Ainda que de forma oblíqua e cautelosa, Haddad demonstrou ter noção de que, com toda a cooperação do Congresso no ano passado aprovando diversas medidas para aumentar a arrecadação, não haverá como equilibrar as contas apenas pela via das receitas. Será preciso cortar.

Ele disse acreditar ser possível haver consenso no tema, tendo como ponto de partida a redução ou a extinção de despesas que não despertam controvérsia. “Tem de começar pelo que ninguém vai discutir se é justo”, disse. “Um pacto a começar de cima para baixo, e aí cortando com racionalidade, levando em consideração justiça social, desigualdade, princípios com os quais todo mundo é capaz de concordar.”

Vera Magalhães – Acabou a lua de mel?

O Globo

Atritos e falta de interlocução ameaçam tanto investimentos do PAC quanto pauta arrecadatória

O casamento entre o governo Lula e o Congresso nunca foi convencional. Interesses mútuos ditaram uma lua de mel pragmática, sem amor, que durou da PEC da Transição à reforma tributária. Agora, a relação entrará numa nova fase na volta do recesso, e, por ora, os sinais são de crise.

Arthur Lira precisava do governo para se reeleger sem sustos. O governo precisava de Lira para colocar as promessas de campanha de Lula no Orçamento de Bolsonaro. Esses foram os termos que ditaram a união nada estável. O 8 de Janeiro acabou reforçando os laços que ainda eram bem tênues. A governabilidade trôpega foi construída a partir desse pacto fundador, e graças a ela foram aprovadas medidas como o marco fiscal e a reforma tributária.

Mas para que os votos sejam renovados há algumas dificuldades adicionais. A começar pelo fato de a agenda do governo não ser única. Há o projeto de Fernando Haddad de colocar as contas públicas nos eixos aumentando a arrecadação, para o qual ele depende do Congresso. E existe a outra plataforma, de Lula e Rui Costa, que é fazer deslanchar o canteiro de obras, para a qual o governo e o Congresso competem por recursos na inflada coluna do gasto. Haja DR para compatibilizar tantos interesses dispersos.

Bernardo Mello Franco - Todos querem ser frente ampla

O Globo

Campanhas de Guilherme Boulos e Ricardo Nunes disputam mesmo rótulo em SP; na esquerda e na direita, propaganda tenta dar verniz de nobreza à negociação de palanques

Frente ampla virou a expressão da moda na eleição de São Paulo. A ex-prefeita Marta Suplicy reivindicou o termo ao anunciar o apoio a Guilherme Boulos. Na segunda-feira, o governador Tarcísio de Freitas discordou. Disse que ampla mesmo é a frente do prefeito Ricardo Nunes.

A propaganda mastiga as palavras até esvaziar seu sentido. Na disputa paulistana, a ordem é dar verniz de nobreza à velha negociação de palanques.

Líder das pesquisas, Boulos mostrou força ao tirar Marta da gestão do rival. A ex-prefeita abandonou um cargo no governo para se juntar ao candidato da oposição. Daí a falar em frente ampla, é outra história. A chapa terá titular do PSOL e vice do PT. As siglas pertencem ao mesmo campo político e já são aliadas no plano federal.

Elio Gaspari - Sem metas, a Nova Indústria é velha

O Globo

Como disse Lula, 'que a gente possa cumprir isso que a gente escreveu no papel'

Faz tempo, quando o governo do presidente Ernesto Geisel divulgou seu Plano Nacional de Desenvolvimento, o professor Mário Henrique Simonsen, seu ministro da Fazenda, comentou:

— Não leio obras de ficção.

Quem as lê pode perder algum tempo com o programa Nova Indústria Brasil e suas “metas aspiracionais”, com seis missões. Provável mesmo é que a Viúva colocará na mesa créditos de R$ 300 bilhões até 2026.

(Durante a fala de Geraldo Alckmin, ministro do Desenvolvimento e vice-presidente, a câmera percorreu parte da audiência, e pelo menos nove convidados — três dos quais colegas de ministério — liam papéis ou mensagens nos celulares.)

Louvem-se os autores. Eles chamaram as metas de “aspiracionais”. Enunciaram desejos, em vez de cravar promessas. Na Missão 3 aspira-se a “reduzir em 20% o tempo de deslocamento de casa para o trabalho” (atualmente, esse tempo médio é de 4,8 horas semanais).

Na defesa dessa nova política industrial, os doutores repetiram que países como Coreia e Japão cresceram porque suas indústrias foram amparadas pelo governo. Deixando de lado o fato de lá empresários larápios irem para a cadeia e não receberem alívio do Supremo Tribunal Federal, essa é uma velha questão. No Japão e na Coreia havia metas, compromissos e penalizações. Quais serão as metas que as empresas se obrigam a cumprir com a Nova Indústria? Por enquanto, nem uma palavra.

Zeina Latif - Política industrial: use com muita moderação

O Globo

Poderia haver a seguinte regra: para cada nova política proposta, outra ineficiente precisa ser eliminada

Políticas industriais (PIs) visam compensar falhas de mercado prejudiciais ao investimento em setores que geram externalidade ou benefício público superior ao ganho privado. Alguns exemplos são o apoio à indústria nascente e às atividades de pesquisa e inovação.

No entanto, há uma grande distância entre a intenção e a entrega.

A questão é se, na prática, há governança e instrumentos adequados para o governo identificar corretamente o setor a ser contemplado, e desenhar e implementar boas políticas. Isso inclui suspender a PI que fracassou ou não fez bom uso do recurso público.

Apesar da maior quantidade de iniciativas em países desenvolvidos, isso não significa que lá são mais utilizadas – elas tampouco escapam de questionamentos de sua efetividade. O correto é considerar os recursos dispendidos como proporção do PIB dos países (um retrato ainda parcial pela dificuldade de incluir as proteções regulatórias).

Fernando Exman - Segue a marcha da impositividade orçamentária

Valor Econômico

Processo foi iniciado durante o governo Dilma, passou pelas administrações seguintes e agora tenta dar novos saltos

O ano começa com mais um capítulo da disputa entre governo e Centrão em torno do controle do Orçamento. Existe, na visão de integrantes do Executivo, uma “marcha” do Congresso em busca da impositividade da execução das emendas parlamentares. Um processo iniciado durante o governo Dilma Rousseff que, com “galopes trienais”, passou pelas administrações seguintes e agora tenta dar novos saltos.

O movimento teve início a partir de 2013. Candidato a presidente da Câmara, o ex-deputado Henrique Eduardo Alves (MDB-RN) prometeu aos seus pares durante a campanha pelo comando da Casa aprovar o orçamento impositivo para emendas parlamentares individuais.

Ele argumentava que era preciso acabar com a “humilhação do conta-gotas”, numa referência ao esforço empreendido pelos deputados junto ao Executivo para a liberação das emendas. Nas palavras de Alves, que foi eleito presidente da Câmara e depois conseguiu emplacar uma emenda constitucional nesse sentido no ano seguinte, buscava-se um Orçamento “respeitosamente” impositivo.

Nilson Teixeira* - Projeções do PIB são pouco confiáveis

Valor Econômico

Sem ação bem coordenada nos próximos anos, cenário dominante é o de manutenção de baixo crescimento de longo prazo com eventuais surtos de expansão seguidos por períodos recessivos

O erro absoluto da média diária das projeções de crescimento do PIB formadas em dezembro do ano anterior na série do Focus iniciada em 2000 varia entre 0,3 ponto percentual (pp) em 2005 e 5,5 pp em 2019, sendo o erro mediano de 1,4 pp. Das 24 observações disponíveis, as projeções subestimam o crescimento em 11 anos, com mediana de 1,5 pp, e o superestimam em 13 anos, com mediana de 1,3 pp.

De forma simplificada, assume-se que a realização do crescimento do PIB no ano é distribuída de acordo com uma curva normal, com o centro sendo o resultado mais provável e a probabilidade dos outros possíveis valores diminuindo à medida que esses se afastam do centro da distribuição. Apesar de curta, a série não sugere que essa hipótese seja razoável até, pelo menos, a divulgação em março dos resultados do PIB do 4º trimestre do ano anterior.

A mediana das projeções de mercado do Focus de 19 de janeiro para o crescimento do PIB em 2024 foi de 1,6%, com o mínimo de 0,0% e o máximo de 2,5%. A análise dos dados não descarta a hipótese de distribuição uniforme para valores distantes da mediana das previsões em cerca de um ponto percentual. Assim, a projeção máxima do Focus para 2024 de 2,5% ou uma expansão de apenas 0,5% não deve ser lida como mais improvável do que a chance de ocorrer um crescimento similar à atual mediana das previsões de 1,6%.

Martin Wolf* - Os perigos de um mundo imprevisível

Valor Econômico

Fragilidades do sistema econômico global são reais e devem ser enfrentadas

Na semana passada, discuti cinco motores de longo prazo da economia mundial - demografia, mudanças climáticas, avanço tecnológico, difusão mundial do conhecimentos e o próprio crescimento econômico. Esta semana analisarei choques, riscos e fragilidades. Eu sugiro que, juntos, todos eles moldam a economia em que vivemos.

Um “choque” é um risco que se concretiza. Riscos, por sua vez, são quase todos imagináveis. Na fraseologia útil de Donald Rumsfeld, eles são “desconhecidos conhecidos”. Mas a probabilidade de que aconteçam e sua gravidade são desconhecidas. Estamos rodeados por tais riscos - novas pandemias, instabilidade social, revoluções, guerras (inclusive guerras civis), megaterrorismo, crises financeiras, colapsos do crescimento econômico, reversões na integração econômica mundial, transtornos cibernéticos, fenômenos climáticos extremos, colapsos ecológicos, terremotos muito fortes ou erupções de supervulcões. Todos são imagináveis. Que um deles se concretize aumenta a probabilidade de que pelo menos alguns dos outros também aconteçam. Além disso, as fragilidades conhecidas tornam maiores as chances desses choques, ou no mínimo sua provável gravidade.

Luiz Carlos Azedo - Novo cenário frustra a política externa de Lula

Correio Braziliense

O presidente brasileiro vive um dilema na escolha entre a audácia e a prudência ante a mudança de conjuntura mundial. Duas guerras impactaram a política e a economia global

“De quanto pode a fortuna nas coisas humanas e de que modo se lhe deva resistir” (Quantum fortuna in rebus humanis possit, et quomodo illis sit occurren dum) é um capítulo de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, que trata das virtudes e da fortuna dos governantes. Tem mais a ver com as contingências do que com o acaso ou a sorte propriamente. “Muitos têm tido e têm a opinião de que as coisas do mundo sejam governadas pela fortuna e por Deus (…) Essa opinião se tornou mais aceita nos nossos tempos pela grande modificação das coisas que foi vista e que se observa todos os dias, independentemente de qualquer conjectura humana”, disse Maquiavel.

“Contudo, para que o nosso livre arbítrio não seja extinto, julgo poder ser verdade que a sorte seja o árbitro da metade das nossas ações, mas que ainda nos deixe governar a outra metade, ou quase”, concluiu. A releitura de Maquiavel nos faz refletir sobre as mudanças que ocorreram na política mundial desde a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que assumiu o poder com a memória de quem foi considerado “o cara” por Barack Obama e amplo apoio internacional, sobretudo depois do 8 de janeiro, quando se completou o diagnóstico das principais chancelarias do Ocidente de que o ex-presidente Jair Bolsonaro seria mesmo uma ameaça à democracia.

Vera Rosa - O dia em que dona Marta do PT gritou

O Estado de S. Paulo

Ex-prefeita já mandou Maluf calar a boca e não tem perfil para vice decorativa

O debate estava tenso quando, de repente, um grito ecoou no auditório da TV Bandeirantes: “Cala a boca, Maluf!”. A “ordem” partiu da psicóloga Marta Suplicy, que, dias antes, havia ensaiado aquela forma impactante de interromper Paulo Maluf, seu adversário no segundo turno da disputa pela Prefeitura de São Paulo. Era outubro de 2000.

Durante a campanha, marqueteiros apresentavam Marta como uma mulher que não levava desaforo para casa. Mas pesquisas mostravam que São Paulo era uma capital conservadora. A estratégia foi traçada, então, para buscar um meio-termo, na tentativa de não colar o nome da candidata ao PT de Luiz Inácio Lula da Silva.

Fábio Alves - Dilma, é você?

O Estado de S. Paulo

O novo plano industrial do governo gerou receios de volta de fantasmas fiscais

O primeiro impacto do plano Nova Indústria Brasil poderá ser um indigesto aperto das condições financeiras, apesar de o Banco Central estar no meio de um ciclo de corte de juros, diante dos temores de investidores e analistas de que o governo Lula irá ressuscitar os fantasmas fiscais e parafiscais da gestão da ex-presidente Dilma Rousseff.

Um pacote de R$ 300 bilhões até 2026, sem transparência suficiente sobre como os gastos serão financiados – com aumento do crédito subsidiado –, tampouco metas concretas de avaliação da sua eficiência em termos de política pública, lançado num momento em que a política fiscal do governo Lula sofre uma grave crise de credibilidade com a ameaça de mudança da meta de déficit primário zero já no primeiro ano de vigência do novo arcabouço fiscal.

Cláudio Carraly* - Obsolescência programada - um crime premeditado

A obsolescência programada, estratégia em que fabricantes limitam deliberadamente a vida útil de produtos para impulsionar o consumo, é uma questão complexa e multifacetada, essa prática tem suas raízes no início do século XX, quando as empresas perceberam que podiam aumentar suas vendas limitando a vida útil dos seus produtos, analisando as teorias estratégias que impulsionaram esse fenômeno, é possível entender como a busca incessante pelo lucro moldou esse modelo econômico perverso. Vários países e entidades internacionais, buscam um aparato jurídico para  enfrentamento da obsolescência programada evidenciando a complexidade do problema, enquanto alguns Estados estão na vanguarda dessa discussão, adotando medidas rigorosas, como a França que criou a lei de transição energética, outros países ainda carecem de regulamentações específicas, a análise de tratados internacionais e as propostas de padronização legal são cruciais para o enfrentamento dessa questão, compreender como diferentes nações buscaram soluções e unificar essas abordagens é fundamental para resolução definitiva desse problema. 

Bruno Boghossian - Anabolizante nacional

Folha de S. Paulo

Petista enxerga nacionalização como oportunidade para recuperar terreno e manter viva rejeição a Bolsonaro

Apesar de conhecer as contraindicações, Lula aplicou um anabolizante nacional nas eleições municipais. O presidente definiu a disputa pela Prefeitura de São Paulo como "uma confrontação direta" entre ele e Jair Bolsonaro. Na sequência, estendeu a lógica para o restante do país.

"A disputa é entre um governo que coloca o povo em primeiro lugar, para tentar resolver os problemas dele, e o governo das fake news", disse o petista à rádio Metrópole.

Nenhum político desafia à toa a máxima de que, na hora de votar para prefeito, o eleitor está mais preocupado com buracos nas ruas do que com embates partidários. Mas Lula parece enxergar a nacionalização como uma oportunidade.