segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

O caminho para o autoritarismo - Steven Levitsky e Lucan A. Way*

Folha de S. Paulo

[Resumo] Cientistas políticos americanos argumentam que a democracia nos EUA está à beira da ruína em seus principais pilares neste segundo mandato de Donald Trump. A isso se seguirá, dizem, não uma ditadura clássica, mas um modelo de autoritarismo competitivo. Embora nesses casos a ordem liberal pareça preservada, autocratas no poder usam sistematicamente a máquina do Estado para reprimir a oposição, usar brechas da lei a seu favor e fortalecer seu poder.

A primeira eleição de Donald Trump à Presidência em 2016 desencadeou uma defesa enérgica da democracia por parte do establishment americano, mas seu retorno ao cargo foi recebido com uma indiferença marcante.

Muitos políticos, comentaristas, figuras da mídia e líderes empresariais que viam Trump como uma ameaça agora tratam essas preocupações como exageradas —afinal, a democracia sobreviveu ao seu primeiro mandato. Em 2025, preocupar-se com o destino da democracia americana tornou-se quase banal.

O momento dessa mudança de humor não poderia ser pior, pois a democracia está em maior perigo hoje do que em qualquer outro momento da história moderna dos EUA. A América tem regredido por uma década: entre 2014 e 2021, o índice anual de liberdade global da Freedom House, que avalia todos os países em uma escala de 0 a 100, rebaixou os Estados Unidos de 92 (empatado com a França) para 83 (abaixo da Argentina e empatado com o Panamá e a Romênia), onde permanece.

Os aclamados controles constitucionais do país estão falhando. Trump violou a regra cardinal da democracia quando tentou reverter os resultados de uma eleição e bloquear uma transferência pacífica de poder.

No entanto, nem o Congresso nem o Judiciário o responsabilizaram, e o Partido Republicano, tentativa de golpe à parte, escolheu-o novamente para disputar a eleição.

Trump conduziu uma campanha abertamente autoritária em 2024, prometendo processar seus rivais, punir a mídia crítica e mobilizar o Exército para reprimir protestos. Ele venceu, e graças a uma decisão extraordinária da Suprema Corte, desfrutará de ampla imunidade presidencial em seu segundo mandato.

A democracia sobreviveu ao primeiro mandato de Trump porque ele não tinha experiência, plano ou equipe. Ele não controlava o Partido Republicano quando assumiu o cargo em 2017, e a maioria dos líderes partidários ainda estava comprometida com as regras democráticas do jogo.

Poesia | Tenho em mim todos os sonhos do mundo - Fernando Pessoa

 

Música | Pérola negra - Agnes Nunes e Seu Jorge

 

domingo, 23 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Seria um desatino ressuscitar ‘jabutis’ em PL das eólicas

O Globo

Derrubar vetos de Lula equivaleria a aumentar conta de luz 9% por 25 anos. Congresso não pode cometer tal absurdo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou em janeiro, com vetos, a lei que regula a instalação de usinas eólicas em alto-mar. Da forma como fora aprovado no Congresso, o projeto continha uma profusão de artigos alheios à proposta original, popularmente conhecidos como “jabutis”. Lula fez bem em vetá-los. Os “jabutis” contribuiriam para tornar a conta de luz bem mais cara ao longo das próximas décadas. Aparentemente, o problema estava resolvido. Mas os vetos ainda correm o risco de ser derrubados no Legislativo. Seria uma afronta aos brasileiros se, já sufocados com a alta de preços, ainda tivessem de pagar energia mais cara para satisfazer a interesses particulares.

Trump, Putin e a contrarreforma - Luiz Sérgio Henriques

O Estado de S. Paulo

Os totalitarismos se parecem: o ‘inimigo interno’ de stalinista linhagem ressurge indiferentemente no vocabulário do atual líder russo ou no do presidente dos EUA

Coerente defensor da liberal-democracia – e menos lido do que ironizado por causa da antiga tese, de tom hegeliano, sobre o fim da História –, Francis Fukuyama alarmou-se com a vitória de Donald Trump. Seria como se os norte-americanos tivessem escolhido Vladimir Lenin, surpreendeu-se recentemente o filósofo. Não está aqui minimamente em questão a diferença de estatura entre Lenin e Trump. O primeiro, ao contrário de Stalin, era um político e intelectual de vocação ocidentalizante, sabedor das taras antidemocráticas do nacionalismo grão-russo. O segundo, um político de parcos recursos intelectuais e admirador declarado dos traços recessivos da cultura russa, personificados no aliado Vladimir Putin. A seu favor, um singular domínio de palco eletrônico, usado com perícia de entertainer.

Um pouco de Marx para explicar as loucuras de Trump – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Para modernizar a sua economia e enfrentar a China, o presidente dos Estados Unidos põe em xeque tudo o que obstrui suas intenções, inclusive a democracia e a ordem mundial

O filósofo e historiador norte-americano Marshal Berman foi um pensador que perseguiu o humanismo ao longo de toda a sua obra, encerrada precocemente, em setembro de 2001, aos 72 anos. Em As Aventuras do Marxismo (Companhia das Letras), uma coletânea de artigos, alguns escritos após o fim do União Soviética, o autor refletia sobre o que ainda seria útil no pensamento de Karl Marx, ao qual dedicara boa parte de seus estudos, ao lado da interpretação da vida das cidades que mais amava: Paris, São Petersburgo e, sobretudo, Nova York.

Sinais dos tempos - Merval Pereira

O Globo

À falta de nomes, cria-se uma disputa indireta entre Janja e Michele Bolsonaro

Duas mulheres são protagonistas da política brasileira hoje, e podem representar seus devidos grupos políticos nas próximas eleições, por mais que esse embate presumível represente o declínio final de nosso sistema político-partidário. Já previ aqui, com toques de ironia, que do jeito que a coisa vai a próxima eleição para presidente da República pode se dar entre Michele Bolsonaro, ex-primeira dama, e Janja da Silva, a atual, e volta e meia elas estão nos noticiários políticos.

Janja é a bola da vez da oposição, diz Lula, acrescentando que os palpites da primeira-dama o ajudam a governar. Tornou-se fato corriqueiro a queixa de aliados do presidente contra a primeira-dama, que estaria cerceando a atividade política de Lula em benefício de uma restrita agenda doméstica. Já há pelo menos um ponto favorável a Janja nessa metade de governo: foi dela que partiu a advertência de que não deveriam convocar os militares para uma ação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) naquele 8 de janeiro de 2023, sob o risco de os militares tomarem conta do Poder. Vê-se agora que era justamente esta a última cartada dos golpistas, criar um ambiente de revolta popular que fosse o gatilho para a ação militar. Janja demonstrou naquela ocasião um faro político afiado.

Bolsonaro, Lula e seus destinos - Míriam Leitão

O Globo

De um lado, Lula lida com a crise dos preços de alimentos e perda de apoio. De outro, Bolsonaro enfrenta o cerco da Justiça e pode ser preso

Uma avalanche caiu sobre a oposição ligada ao bolsonarismo. O ex-presidente e seu quartel general foram denunciados, a delação do ajudante de ordens revelada e os vídeos expostos. Os fatos e diálogos descritos na denúncia exibem a evidência de uma longa urdidura contra a democracia. Já o governo Lula passou a semana em disputas internas, frituras públicas e encarando a crise de preços de alimentos agora encarnada no ovo. Cada um vive sua agonia, mas com uma enorme diferença. Lula enfrenta as agruras de governar um país com orçamento apertado, coalizão parlamentar adversa, preços instáveis. Jair Bolsonaro está sob o cerco da Justiça pelo crime de tramar um golpe de Estado. Lula está perdendo popularidade, Bolsonaro pode ir para a prisão.

A denúncia da PGR exagerou no ‘anuiu’ – Elio Gaspari

O Globo

A denúncia do procurador-geral Paulo Gonet é esmagadora até a página 127, quando passa a relatar fatos do dia 9 de novembro de 2022. Naquela manhã, o general da reserva Mario Fernandes imprimiu, no Palácio do Planalto, o plano Punhal Verde Amarelo. Ele previa atentados contra Jeca (Lula, presidente eleito), Juca (Geraldo Alckmin, vice-presidente) e Joca (“eminência parda” de Lula, que ainda não foi identificado).

A denúncia da PGR diz que o plano foi impresso “para apresentação a Jair Messias Bolsonaro e seu endosso” e vai adiante, com outro assunto. Muito antes (página 19), a PGR havia tratado do Punhal, dizendo que “o plano foi arquitetado e levado ao conhecimento do Presidente da República, que a ele anuiu”.

Preparados? – Dorrit Harazim

O Globo

Não está fácil pensar em 2028 quando vivemos apenas um mísero mês dos quatro anos da governança Donald Trump/Elon Musk

Braço e mão nunca ficam muito tempo esticados em diagonal, à frente do peito — apenas o suficiente para o gesto ser fotografado e tachado de saudação nazista. Foi assim com Elon Musk na semana retrasada. Foi assim com Steve Bannon na semana passada. O gesto nada tem de casual ou impensado. É provocação calculada, testando o terreno. Aos poucos, poderá fazer parte da coreografia trumpista, somando-se ao inocente uso do boné Make America Great Again (Maga), sinalizando um porvir radioso. A linguagem, por enquanto, ainda é subliminar. Ou melhor, nem tanto:

— Vocês estão preparados para lutar por este país? — perguntou Bannon à plateia que lotava o Centro de Convenções National Harbor para os três dias da Conferência Política de Ação Conservadora (CPAC).

Orador carismático, o formulador de uma ordem global extremista prossegue, sob roncos de aprovação:

— Os dias mais difíceis e duros estão por vir, mas sabem o quê? Riad, Berlim, Pequim, Moscou, Londres estão todos aqui [referia-se à presença de delegados dessas cidades]. Isto aqui é invencível! Só perderemos se desistirmos, só seremos derrotados se nos rendermos. E só não venceremos se recuarmos. Mas não o faremos! Lutem, lutem, lutem! — concluiu com o braço direito em riste.

O império e os canudos - Bernardo Mello Franco

O Globo

Guerra aos canudos de papel pode soar anedótica, mas expõe método do republicano

Desde que voltou à Casa Branca, Donald Trump já ameaçou invadir países amigos, defendeu uma limpeza étnica em Gaza e deixou o mundo à beira da guerra comercial. Mas nenhuma medida de seu primeiro mês de governo parece resumi-lo tão bem quanto a ofensiva contra os canudos de papel.

O presidente dos EUA assinou uma ordem executiva para banir os canudos biodegradáveis. Pregou o retorno aos canudos de plástico, apontados como vilões da poluição de rios e oceanos. “Esses negócios não funcionam”, disse, referindo-se aos tubinhos de papel adotados nos últimos anos. “Eles quebram, eles explodem”, delirou.

A traição americana - Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Ao dividir Ucrânia entre EUA e Rússia, Trump repete pacto entre Hitler e Stalin que dividiu Polônia

Os movimentos de Donald Trump não podem ser entendidos da óptica convencional da geopolítica. As motivações comuns são o colonialismo mercantilista, a ideologia iliberal e nativista.

Trump tentou impor a Volodmir Zelenski pagamento de US$ 500 bilhões e 50% de todas as receitas provenientes de minerais raros, gás, petróleo, portos e o resto da infraestrutura da Ucrânia.

No Tratado de Versalhes, em 1919, os aliados impuseram à Alemanha reparação de guerra equivalente a 200% do PIB alemão. Os US$ 500 bilhões representam 264% do PIB ucraniano. A Alemanha foi a agressora na 1.ª Guerra. A Ucrânia é vítima da agressão russa.

Picanha vai bem, mas falta cardápio duradouro - Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Num país emergente, é preciso combinar os objetivos sociais com políticas de crescimento e projetos bem desenhados

O povo vai voltar a comer picanha, prometeu o presidente Lula, sem esclarecer, no entanto, como pretende conter a inflação, mas admitindo ser muito difícil frear os preços “do dia para a noite”. Além disso, comprometeu-se a cuidar das contas públicas sem “fazer o povo pobre se sacrificar”. Picanha para todos é uma bandeira conhecida, mas a atenção às contas do governo tem um ar de novidade. Muito mais frequente, no discurso e nas ações presidenciais, tem sido a identificação entre governar e gastar. Além disso, governar para todos, em vez de cuidar dos 35% mais endinheirados, pode resultar em déficit, observou o presidente em recente fala sobre o programa Pé-de-Meia.

Acorda, Lula! - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Transformar o julgamento do golpe em ‘governo x oposição’ é ótimo para Bolsonaro, péssimo para o País

A maior burrice que o presidente Lula pode cometer, se é que já não começou a cometer, é cair na armadilha do antecessor Jair Bolsonaro, que se move para tirar o julgamento do golpe da seara jurídica e puxar para a arena política. Transformar o julgamento numa disputa “governo versus oposição” é tudo o que Bolsonaro, sua defesa, os acusados e a tropa bolsonarista da internet querem. Até porque Lula não está com essa bola toda.

Pegaram você, Jair - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Ex-presidente só se livrará da cadeia se centrão pegar carona em anistia

Para que Deltan Dallagnol conseguisse tantas provas contra Lula quanto as que a Polícia Federal descobriu contra Bolsonaro, teria que ter encontrado uma gravação em que o atual presidente da República discursasse ao PT em 2004 dizendo: "Companheiros, vamos roubar a grana da Petrobras!"; teria que ter achado um cofre secreto no sítio de Atibaia com uma placa dizendo "grana que ganhei como suborno"; e teria que ter ouvido de Fidel Castro que Lula lhe propôs roubar "mucha plata" para poder distribuir "biberones de carajo" nas creches brasileiras.

Nada disso existe. O que existe é o seguinte:

Os comandantes do Exército e da Aeronáutica disseram à polícia que Jair Bolsonaro lhes propôs um golpe. A minuta de declaração de golpe apresentada aos militares foi encontrada na casa do ministro da Justiça de Bolsonaro, Anderson Torres. Torres deixou o ministério no final do ano e tornou-se secretário de segurança de Brasília, sendo, portanto, responsável pela completa inação da polícia no dia 8 de janeiro.

Novo consignado, acerto de Lula 3 - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Medida pode reduzir custo de crédito pessoal em mais de 60%, para dezenas de milhões

O novo consignado é uma boa providência do governo Lula. Não se conhece ainda o texto legal que vai explicar a operação da coisa, mas as linhas gerais são bem pensadas, úteis, e o alcance deve ser grande.

A medida tem sido tratada mais como tentativa de Luiz Inácio Lula da Silva de fazer pontos nas pesquisas de opinião (é também isso) e populismo (não é isso). É considerada também como empecilho para a queda da inflação e meio de evitar esfriamento maior da economia —pode até vir a ser isso, mas não é simples assim.

Empréstimo consignado é aquele pago com desconto direto em salários ou em benefícios do INSS, grosso modo (há modalidades menores). Empregados do setor privado têm acesso a esse tipo de crédito se houver acerto entre empresas em que trabalham e bancos. A novidade é que os celetistas poderão firmar eles mesmos contratos com bancos em uma plataforma digital (um site de negociações). Há cerca de 40,7 milhões de celetistas no setor privado, incluindo 1,45 milhão de empregados domésticos.

Na frigideira do Palácio – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Reforma ministerial começa ao gosto das cozinhas palacianas: na base da fritura

Com aviso prévio, mas sem direito a inauguração oficial, a reforma do ministério já começou. E daquele jeito bem ao gosto das cozinhas palacianas: na base da fritura.

De acordo com a conhecida receita, primeiro o nome do candidato à demissão é posto em marinada; depois cozido em fogo lento por tempo suficiente à circulação dos boatos sobre virtuais substitutos até que, torrado e digerido internamente, o prato é servido ao público no anúncio do felizardo.

Felizarda, no caso da presidente do PT, a deputada Gleisi Hoffmann, cotada para o lugar de Márcio Macêdo (PT) na Secretaria-Geral da Presidência.

O sentimento que não prescreve - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Hoje, o que se expressa na memória coletiva funda-se nas evidências tenebrosas de relatos de vítimas

Há sinais de reação popular à tentativa de supostos novos donos do poder de pautar anistia aos golpistas do 8 de Janeiro. Anistia, do latim "amnestia", mesma etimologia de amnésia, implica perdão e esquecimento. A capricho dos algoritmos, o digitalismo esquece, mas a vida histórica pode não ser tão leviana. Indicação é como o ex-presidente foi recebido no estádio Mané Garrincha em Brasília. Bateu em retirada às pressas sob os gritos da multidão de "uh, vai ser preso!".

"Ainda estamos aqui", uma apropriação do filme aclamado, virou lema de recordação proativa dos traumas cívicos infligidos à sociedade. Não apenas lembrar, também manifestar um espírito ainda vivo e resistente, como um invisível do sentimento de existência, que é o modo geral de apreensão da experiência de vida.

A forma das coisas invisíveis - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro de neurologista britânico descreve a imaginação como superpoder humano, que nos diferencia de outros hominídeos

Não é preciso mais do que fotos de satélite para perceber que humanos, como espécie, chegamos mais longe do que nossos primos chimpanzés. Para ficar nuns poucos exemplos, nós construímos cidades, criamos grandes plantações, cavamos canais marítimos entre continentes e eles não.

Qual é o superpoder humano que nos deu vantagem? Já apareceram vários candidatos ao posto, como a linguagem, o polegar opositor, a capacidade de correr longas distâncias. Em "The Shape of Things Unseen" (a forma das coisas invisíveis), o neurologista britânico Adam Zeman sugere que nosso superpoder é a imaginação.

Lançamento: O Moderno Príncipe de Gramsci

MODERNO PRÍNCIPE DE GRAMSCI, O - COSMOPOLITISMO E ESTADO NACIONAL NOS CADERNOS DO CÁRCERE

Autor: Francesca Izzo

Sinopse

O livro de Francesca Izzo é um estudo rigoroso do pensamento de Antonio Gramsci. Uma das novidades que aqui emergem atesta que a contradição entre “cosmopolitismo da economia e nacionalismo da política” se constitui como eixo orientador em torno do qual Gramsci irá refletir sobre a necessidade de novas formas políticas capazes de dar conta da dimensão supranacional que delineava os traços de uma nova época na qual o declínio do poder estatal – fundado no território – era evidente. Voltado inteiramente para essa questão, este estudo chama atenção para as razões que fizeram com que, nos Cadernos do cárcere, Gramsci substituísse o termo “internacionalismo” por “cosmopolitismo de novo tipo”. O livro examina essa e outras mudanças conceituais e semânticas no texto gramsciano – como filosofia da práxis, revolução passiva, hegemonia, Moderno Príncipe –, que estimularam sua revisão do marxismo, além de sugerir que o pensamento de Gramsci nos apresenta, mesmo que embrionariamente, um perfil inédito do sujeito histórico dessa nova época. (Alberto Aggio)

Francesca Izzo é filósofa, foi professora de história das doutrinas políticas na Universidade de Estudos de Nápoles “L’Orientale” e faz parte da direção da Fundação Gramsci de Roma. Entre suas publicações mais importantes estão Democracia e cosmopolitismo in Antonio Gramsci (Carocci, 2009) e Le aventure dela libertà. Dall’antica Grecia al secolo delle donne (Carocci, 2016)

Poesia | Não me peçam razões, de José Saramago

 

Música | Os Amantes - com Demônios da Garoa, Paulo Miklos e Roberta Sá

 

sábado, 22 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ibama deveria autorizar pesquisa na Margem Equatorial

O Globo

Com rigor ambiental e recursos para transição energética, é viável conciliar descarbonização e prospecção de petróleo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem expressado impaciência com o Ibama pela demora em autorizar a pesquisa de petróleo na região conhecida como Margem Equatorial, faixa oceânica do Amapá ao Rio Grande do Norte. Descreveu como “lenga-lenga” a demora na liberação da licença ambiental. É certo que Lula não deveria tentar interferir na deliberação de agências independentes como o Ibama. Mas a procrastinação de decisões técnicas também não faz bem ao país. O embate tem sido contaminado por dois grandes equívocos. O primeiro é confundir quem apoia a prospecção com negacionistas do aquecimento global. O segundo é achar que as sondas da Petrobras significarão a devastação da Foz do Amazonas.

Por onde anda o debate público? - Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

As redes, frequentadas por milhões, fazem com que as vozes fiquem presas em si mesmas, reverberando em nichos igualizados que travam debate e ‘lacram’ a torto e a direito

Fala-se muito, discute-se pouco. Há lacração demais, ponderação de menos. A polarização é permanente. Atolamos numa situação na qual o livre falar de muitos não gera debates efetivos sobre as questões centrais da época. A demarcação de espaços e a defesa de interesses restritos são mais fortes do que qualquer esforço para que se componham perspectivas coletivas. A política simbólica prevalece: o que importa são as bandeiras, as novas linguagens, o ruído adjetivado.

É como se a sociedade civil – em que os grupos lutam para “dirigir” intelectual e moralmente a sociedade – não existisse, ou não tivesse como cumprir suas funções e ser o “conteúdo ético do Estado” (Gramsci). O resultado é que a vida social flutua sobre o nada, submetida ao movimento dos “fatos”, dos interesses, das postulações identitárias, das cobranças e das reclamações. Não se trata de manobras da extrema direita, mas de uma predisposição geral, que afeta de igual modo as posições libertárias e progressistas.

Um enigma dentro de um mistério - Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

Como sugeriu o embaixador George Kennan, a mente misteriosa de certos governantes pode abrigar riscos incalculáveis para todo o planeta

Em qualquer parte do mundo, está certíssimo o cidadão que nutre sérias dúvidas sobre a qualidade de seus líderes e se sente inseguro sobre as loucuras que cedo ou tarde eles poderão aprontar.

Os nomes de alguns dos atuais governantes – Donald Trump, Nicolás Maduro, Daniel Ortega, Viktor Orbán, Vladimir Putin – cintilam entre os que mais causam preocupações. Com um elenco como esse, realmente, não há enredo ou cenário que preste. No Brasil, com Lula praticamente fora do baralho e Jair Bolsonaro já denunciado pela Procuradoria-Geral da República por envolvimento na tentativa de golpe, o horizonte clareia um pouco, a não ser, naturalmente, na área econômica.

O inferno de Bolsonaro - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ex-presidente que sempre defendeu tortura agora busca se socorrer de direitos humanos para tentar saída jurídica

Dante Alighieri imaginou um inferno em que os suplícios impostos aos condenados guardam algum tipo de ligação com o pecado que determinou sua perdição. Os iracundos, por exemplo, são relegados ao quinto círculo, onde golpeiam uns aos outros dando vazão à sua raiva sem fim.

A ideia de que nossos infernos pessoais são desenhados para nos afligir de forma particularmente dolorosa está ganhando inesperada materialidade nos périplos jurídicos de Jair Bolsonaro.

Um golpe sabido de cor e salteado - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Gonet inocentou o Exército, mas o golpe fracassado tinha o DNA da farda

Era pule de dez. A investigação da Polícia Federal sobre o golpe fracassado de 2022 foi ampla e detalhista, mas sobretudo técnica, resultando no relatório de 884 páginas baseado nos depoimentos e no cruzamento de informações colhidas ou recuperadas de celulares e computadores, além de documentos, entre os quais a famosa minuta, e anotações dos acusados.

(O general Heleno fazia garranchos numa agenda. O que os golpistas pretendiam ao deixar, com a certeza da impunidade, um rasto tão acessível e incriminatório? A glória dos heróis? A adoração dos netinhos?)

Plano Safra, emendas e férias do Congresso - Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

A decisão do Congresso Nacional de empurrar com a barriga a votação do Orçamento como barganha política para as negociações das emendas parlamentares não deixa de estar por trás da mais nova crise política envolvendo a suspensão das linhas subsidiadas do Plano Safra.

O Congresso não fez nada relevante, após a volta do recesso de fim de ano, à espera do resultado da reunião de conciliação chamada pelo STF para dar transparência no pagamento das emendas parlamentares. Para os congressistas, as férias continuam.

A audiência no Supremo está marcada para o próximo dia 27 e não deve acabar com o impasse.

Cavalo de Troia contra os direitos indígenas - Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Comissão de conciliação mostrou que salvaguardar esses direitos não é seu objetivo

Embora o Supremo tenha declarado inconstitucional a tese do marco temporal, o Congresso Nacional aprovou em 2023 nova legislação reintroduzindo esse obstáculo ilegítimo à demarcação de terras indígenas em nosso ordenamento jurídico.

Sob o pretexto de pacificar e reconciliar as partes envolvidas em conflitos em torno de terras indígenas, foi criada uma comissão de conciliação no âmbito do STF. A condução da comissão surpreendeu mesmo os mais céticos.

Desde o início dos seus trabalhos a comissão deu sinais de que salvaguardar os direitos originários dos povos indígenas não era seu objetivo. Afinal, sendo direitos originários e inalienáveis, não poderiam ser objeto de barganha.

O elo fraco da denúncia da PGR – Pablo Ortellado

O Globo

Há pouquíssimos elementos mostrando a intenção golpista da própria organização dos protestos

O 8 de Janeiro não é apenas o evento da trama golpista cuja interpretação mais divide a opinião pública, com apoiadores do presidente Bolsonaro considerando-o meramente um protesto que saiu do controle, enquanto críticos o veem como tentativa frustrada de golpe de Estado. Os eventos do 8 de Janeiro também são elemento fundamental da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), aparecendo como momento final de uma série de ações progressivas e coordenadas com o objetivo de desestabilizar o Estado Democrático de Direito e depor o governo legitimamente eleito.

Prece para São Sidônio – Eduardo Affonso

O Globo

Dai uma guaribada na minha imagem, recuperai minha popularidade e fazei com que eu continue no páreo em 2026

Recorro a vós, São Sidônio Apolinário — bispo de Arveni, na Gália, e genro de Epárquio Ávito, imperador romano —, não só porque vos tornastes santo apesar de terdes mais fé na política que na religião, mas, principalmente, por Santa Rita de Cássia e São Judas Tadeu, padroeiros das causas impossíveis, estarem com a agenda lotada depois da denúncia da PGR.

Vós, que nestes mais de 1.500 anos desde que fostes canonizado, não tendes nenhum milagre no currículo, não desperdiceis a oportunidade que vos ofereço de tirar esse atraso — e em grande estilo: dai uma guaribada na minha imagem, recuperai minha popularidade e fazei com que eu continue no páreo em 2026.

O poder de destruição de Trump – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Se forem retirados milhões de imigrantes, faltará mão de obra. E isso atrasa e encarece a produção

O iPhone é projetado pelos engenheiros da Apple na sede da empresa, na Califórnia. O projeto vai para a China, onde duas companhias se encarregam da montagem dos aparelhos, Foxconn e Pegatron. Elas têm fábricas espalhadas por sete cidades. Uma delas, Zhengzhou, é conhecida como “iPhone city”. A fábrica lá pertence à Foxconn e é a maior produtora mundial desse celular. Em Chengdu, a companhia produz os iPads. A Pegatron tem em Xangai sua maior montadora de iPhones. As duas empresas construíram fábricas noutros países (Índia, Vietnã, Taiwan, Indonésia, México, República Tcheca) para diversificar a produção de celulares. Nelas também montam peças e componentes. Só a Foxconn tem uma unidade nos Estados Unidos.

Justiça histórica - André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

É o momento de pegar a possibilidade de produzir petróleo no extremo norte como forma de levar progresso àqueles brasileiros que viveram isolados e esquecidos pelos brasileiros do sul nos últimos séculos

Quando o Brasil alcançou sua independência de Portugal, a colônia lusitana na América do Sul era dividida em duas partes. No norte, o Grão Pará e Maranhão era separado da colônia do Brasil e mantinha relacionamento diplomático e comercial direto com Lisboa. Não dependia do Rio de Janeiro para nada. No entanto, o imperador Pedro I fez questão de colocar toda a Amazônia dentro de seu país que estava nascendo em 1822. Mandou o almirante Cochrane resolver o assunto. Ele enviou seus navios, ameaçou bombardear e arrasar Belém. Assim foi feito. A Independência do Brasil, no Pará, ocorreu em agosto de 1823.

A miopia nostálgica da esquerda - Cristovam Buarque

Os partidos e políticos de direita entendem melhor, hoje, o eleitor

A esquerda cresceu eleitoralmente por defender a distribuição dos benefícios da economia e ampliar os direitos sociais, durante a era de abundância propiciada pelo aumento da produtividade, graças aos avanços da tecnologia. Não estava preparada, porém, para o despontar de novos produtos, como os aplicativos de mobilidade, que mudaram as relações de trabalho. Não se preparou para a substituição da abundância pela compulsória necessidade de limites, ecológicos, sobretudo, porque o aumento no consumo provoca danos climáticos. Não sabe o que fazer com o tamanho do Estado, esgotado fiscal, gerencial e moralmente, atalho para corrupção e privilégios. Perdeu-se diante do dilema entre a soberania nacional e a globalização nas cadeias de produção e finanças. Não estava pronta para enfrentar o planeta movido a individualismo. Brotaram ainda limites na urbanização diante da violência e da imigração; e houve a ampliação dos direitos de minorias que se chocam com valores éticos tradicionais. A esquerda, enfim, vem sendo derrotada eleitoralmente, agora, por ter se esgotado como portadora de utopia.

Ainda sobre o semipresidencialismo - Marcus Pestana

Diante das crescentes dificuldades de todos os presidentes da República brasileiros em conquistar maioria parlamentar para implantar seus programas de governo, nas últimas duas décadas, os deputados Luiz Carlos Hauly (PODE/PR) e Lafayette de Andrada (REP/MG) apresentaram a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº. 02/2025 propondo a adoção no país do chamado sistema semipresidencialista.

Os regimes democráticos tinham seus sistemas de governo classificados como parlamentarista ou presidencialista. O presidencialismo está presente, por exemplo, nos EUA, no México e em toda América Latina. Já o parlamentarismo convive com formas de governo combinadas com monarquias constitucionais (Reino Unido, Espanha, Canadá, Holanda, Bélgica, Suécia, Noruega) ou a República sendo o Chefe de Estado o seu presidente (Portugal, Alemanha, Itália, Grécia). O semipresidencialismo seria uma mescla do presidencialismo com o parlamentarismo, com o presidente da República tendo poderes maiores que os Chefes de Estado com funções decorativas ou restritas à defesa nacional e à diplomacia.

Dá para recuperar? - Aldo Fornazieri

Só a mobilização popular é capaz de virar o jogo da popularidade do governo Lula

Muitos se surpreenderam com o tombo do governo Lula nas pesquisas. No Datafolha, foram 11 pontos em dois meses, de 35% para 24%. Para quem acompanhava os acontecimentos com senso crítico e sem a tradicional adulação, a queda era, no entanto, previsível. O governo entrou no modo crise praticamente ao longo de todo o ano de 2024. Dois elementos principais alimentaram a combustão interna. De um lado, as sucessivas declarações do presidente Lula que minaram sua credibilidade e desgastaram a sua imagem. De outro, o ataque sistemático à equipe econômica feito por outros ministros e dirigentes do PT, com a condescendência do presidente em vários momentos e com a colaboração da primeira-dama.

Nenhum governo pode minar sua equipe econômica, desacreditá-la. Por coordenar os interesses do Estado, da sociedade e dos agentes econômicos, ela deve ser o centro fiador da credibilidade do governo e do presidente. Sem isso, não há administração capaz de sustentar a confiança e de coordenar as expectativas, imprimindo uma direção e um sentido ao País. Esse é o principal fulcro da crise política.

Proezas do nazitrumpismo - Luiz Gonzaga Belluzzo*

A ameaça do totalitarismo está sempre presente, à espreita, nas sociedades modernas

Deus!, ó Deus!,onde estás que não respondes?
Em que mundo, em que estrela tu te escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito, 
Que embalde desde então corre o infinito… 
Onde estás, Senhor Deus?… 
Castro Alves – Vozes D’África

Nestes dias de trombadas do agente laranja – as “trumpadas” – é recomendável não tirar o olho da sucessão de atentados trumpistas às instituições republicanas. Pensei em escrever liberais-republicanas. Recuei porque, no momento atual, o pretendido liberalismo político-econômico se transmuta em nazifascismo.

Veja o caro leitor que Elon Musk e os demais ricaços do trumpismo não exibem originalidade. São descendentes de antecessores da mais elevada estirpe. A sociedade norte-americana apresenta uma trajetória marcada pelo liberal-oportunismo consubstanciado no mando e controle do Estado pelos ricaços.

Nos Estados Unidos das últimas décadas do século XIX e no início do século XX, as peripécias financeiras, especulativas e corruptas dos “barões ladrões” levaram a sucessivos episódios de destruição da riqueza e das condições de vida dos mais frágeis. As falcatruas se desenvolveram à sombra de um Estado cúmplice da concorrência darwinista. O Estado deixou-se contaminar de alto a baixo, da polícia ao Judiciário, pela lógica da grana.

O chefe do bando - André Barrocal*

Na primeira denúncia, a Procuradoria-Geral coloca Bolsonaro no centro da tramoia golpista

Em 30 de dezembro de 2022, antevéspera do fim do mandato, Jair Bolsonaro viajou para a Flórida, nos Estados Unidos. Um major-brigadeiro e colaborador na Presidência da República, Mauricio Pazini Brandão, mandou-lhe uma mensagem de celular no mesmo dia: “Estou na casa de meu filho em ­Clermont, a oeste de Orlando. Se for de seu interesse, gostaria de conversar contigo. Favor sinalizar, quando possível”. Em 2 de janeiro de 2023, com Lula no poder, Pazini, afeito a demonizar as urnas eletrônicas, escreveu de novo ao capitão: “O plano foi complementado com as contribuições de sua equipe. Aguardamos na esperança de que será implementado. Bom dia. A ‘minha tropa’ (hehehehe) continua com ‘sangue nos olhos’..… Bom dia. Feliz Ano-Novo. Conversa hoje com o Amir. Desmobilizamos a tropa ou permanecemos em alerta?”

Poesia | Cada um de nós é por enquanto a vida, de José Saramago

 

Música | Falsa Baiana - Roberto Silva & Roberta Sá