terça-feira, 22 de agosto de 2023

Míriam Leitão – Nada garante quem ameaça

O Globo

Encontro com os comandantes deixa a impressão de que as Forças Armadas precisam ser acalmadas e compensadas, mesmo com os recentes episódios

Só um país em crise faz uma reunião, sábado, de seis às oito da noite, no palácio residencial, entre os comandantes militares e o presidente da República. A crise foi gerada pelo envolvimento de muitos militares no projeto de um novo golpe contra as instituições democráticas. Em uma parte da reunião, eles falaram sobre investimentos que o governo pretende fazer nas Forças Armadas. No PAC, até 2026, seriam R$ 53 bilhões. De novo, o esforço dos civis é para tentar compensá-los e acalmá-los não se sabe por qual motivo. É simplesmente inconcebível que quepes pairem sobre a República. Mas essa presunção dos militares foi plantada há muito tempo.

O historiador Carlos Fico, da UFRJ, lembra que um erro da Constituição de 1891, a primeira da República, acabou se eternizando na história constitucional brasileira.

—Durante a constituinte de 1988, Afonso Arinos, José Genoíno e Fernando Henrique Cardoso, quer dizer, direita, esquerda e centro, tentaram evitar que o artigo 142 fosse redigido daquela maneira. Não conseguiram. Por pressão do general Leônidas Pires Gonçalves. Nunca conseguimos enfrentar o que se iniciou em 1891. Rui Barbosa, na época, incluiu o artigo 14 na Constituição de 1891, estabelecendo que as Forças Armadas eram a garantia dos poderes constitucionais. Mas o que era isso? Era uma atribuição do poder moderador do Imperador que, por causa desse artigo, foi atribuído às Forças Armadas. Esse fantasma, que vem do século 19, continua a assombrar. Há dezenas de exemplos na história. É um problema muito arraigado na sociedade, no imaginário militar e em muitos setores civis também.

Carlos Andreazza – Contrabandos

O Globo

As versões do advogado de Mauro Cid produziram muitos efeitos

O terceiro advogado de Mauro Cid tinha dado — até o momento em que escrevo, tarde de segunda (21 de agosto) — pelo menos cinco entrevistas desde que assumira a defesa do tenente-coronel, na terça, dia 15. Na última, domingo (20), falou ao Estadão:

— Vou dar 20 ou 30 versões. Posso dizer o que quiser. A versão da defesa, efetivamente, vai vir nos autos.

A comunicação da obviedade é clara: a versão da defesa ainda não existe. Não existe a defesa. Não ainda. Há o verbo, em movimento e reforma constantes, do advogado. Há testes especulativos e recados. Que produzem (produziram) efeitos. Mais que expectativas — a de que Cid confessaria, a maior de todas—, efeitos.

Dora Kramer - Demora ministerial

Folha de S. Paulo

Astuto, Lula procrastina reforma para suavizar efeito da entrada do centrão no governo

Há quem considere que o presidente da República tenha errado ao deixar seus ministros anunciarem a dita reforma ministerial para em seguida ele mesmo procrastinar o ato formal da atração de deputados da chamada oposição.

Luiz Inácio perdeu o "timing", dizem nas entranhas do Congresso os mais impacientes. Mas Lula, em sua astúcia, pode ter optado por dar esse enorme tempo ao tempo no intuito de normalizar a entrada do centrão no governo.

Tivesse batido o martelo lá atrás, em meio à demissão da então ministra Daniela Carneiro, do Turismo, provavelmente seria alvo de pesadas críticas devido à adesão ao fisiologismo explícito, ao toma lá dá cá de raiz.

Hélio Schwartsman - Democracia lotérica

Folha de S. Paulo

Trocar eleições por sorteio para cargos públicos protegeria sistema de personalidades perigosas

Vamos acabar com as eleições? Calma, a ideia não é minha, mas de Adam Grant, que não é exatamente um golpista de quatro costados, mas um acadêmico, interessado em aprimorar a democracia. Ele expôs essa ideia em artigo que acaba de ser publicado no New York Times.

Grant é um psicólogo organizacional e, se há algo que psicólogos organizacionais temem, é a chamada tríade sombria, o nome dado à conjunção de altos teores de narcisismo, psicopatia e maquiavelismo numa mesma personalidade. Essa combinação é característica de líderes autoritários e bem mais comum entre políticos do que na população geral. Uma das razões para isso é que portadores da tríade tendem a ter ambição política e a ser bons manipuladores, o que lhes dá vantagem nas urnas.

Alvaro Costa e Silva - Preso na miséria da favela

Folha de S. Paulo

Modelo de Bukele, o ditador de El Salvador, já é realidade no Brasil

Na campanha eleitoral de 2018, Wilson Witzel —político que "tentando a subida desceu", como a Conceição de Cauby Peixoto— disse que iria construir navios-presídios em alto mar para abrigar presos. A cadeia flutuante é realidade nos EUA e, no Brasil, remete aos tempos da chegada da Corte portuguesa, em 1808, com as presigangas fundeadas na baía de Guanabara que funcionavam como depósito de "escravos em correção".

Não duvide que a ideia volta, impulsionada pelo efeito Nayib Bukele, o ditador de El Salvador que surfa numa onda de popularidade de 90% após adotar uma política de julgamentos e detenções em massa, assassinatos e tortura. Bukele se orgulha de ter inaugurado o maior presídio da América Latina, com capacidade para 40 mil pessoas. Apesar de ser um risco real à democracia, serve de inspiração para candidatos à Presidência do Equador e Guatemala. Logo, logo, surge um Bukelezinho por aqui.

Rubens Barbosa* - A tirania da mediocridade

O Estado de S. Paulo

A busca da eficiência e de resultados com visão de futuro, com uma nova liderança política e uma burocracia mais competente, é do que o Brasil precisa

Poucos pensam e discutem o Brasil acima de preocupações político-partidárias e de interesses pessoais. Não se trata de criticar a ação do governo de turno e de outros que o precederam. Hoje, na prática, o País está sem projeto de nação, que defina os rumos da economia; sem estratégia nacional de segurança, que defina o lugar do Brasil no mundo em rápida e profunda transformação; sem uma clara definição de objetivos modernos para a educação que dê base para a inovação e o desenvolvimento tecnológico; e sem saber como equacionar seus problemas sociais e ambientais no médio e no longo prazos.

Com forte influência populista, o País está dividido ideologicamente e politicamente. Ao não ousar, vê seu crescimento reduzido, as desigualdades aumentando, a violência crescendo, a base industrial se deteriorando e as vulnerabilidades econômicas, comerciais, sociais, militares e de defesa aumentarem. A segurança jurídica está abalada por decisões contraditórias e a competitividade da economia, paralisada pela ineficiência da burocracia e do tamanho do Estado.

Eliane Cantanhêde - PF e Coaf de volta à ativa

O Estado de S. Paulo

Enquanto PF e Coaf abrem os podres do bolsonarismo, Lula reúne cúpula militar em torno da piscina

Tão perseguidos e asfixiados nos últimos quatro anos, a Polícia Federal, que teve quatro diretores, e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que pulou de galho em galho, recuperaram prestígio e estão trabalhando a todo o vapor, de forma firme, discreta e com uma eficiência poucas vezes vista. Além de se abastecerem mutuamente, também fornecem dados fundamentais e luzes para a CPMI do Golpe.

São dois caminhos, que passam por militares da ativa e da reserva, tipos condenados e presos, advogado apelidado de “cleaner” (que limpa a “sujeira”)

e chegam diretamente ao ex-presidente Jair Bolsonaro e ao Planalto durante o seu governo. Um é o do golpe, o outro é o das joias e contas, lembrando que “só” as joias, por mais diamantes que tenham, não justificam a movimentação financeira astronômica identificada pelo Coaf no entorno de Bolsonaro.

Andrea Jubé - Debate sereno sobre militares surpreendeu

Valor Econômico

Encontro reuniu militares, políticos de diferentes matizes e pesquisadores acadêmicos na CCJ na quarta-feira

Em meio ao escândalo da venda de joias do acervo da Presidência da República, que implica a participação de militares de altas patentes; e ao avanço da comissão parlamentar de inquérito (CPI) mista que investiga os atos antidemocráticos de 8 de janeiro, que envolvem a participação de militares de todas as patentes, o debate sobre os limites constitucionais de atuação das Forças Armadas, realizado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados nesta conjuntura tão explosiva, surpreendeu pelo tom majoritariamente conciliador.

Como se sabe, os desdobramentos das investigações da Polícia Federal sobre os desvios de joias do patrimônio público sugerem o envolvimento direto do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), do tenente-coronel Mauro Cid - militar da ativa, que foi seu ajudante de ordens na Presidência, e se encontra preso -, e do pai dele, general de quatro estrelas Mauro Lourena Cid, oficial da reserva.

Assis Moreira - Brasil prevê exportações de US$ 90 bi para a China, apesar da crise

Valor Econômico

Brasília monitora também eventual aumento de importações vindas da China, no rastro da desaceleração

O presidente da China, Xi Jinping, desembarca em Joanesburgo para a cúpula do Brics no rastro de um acúmulo de indicadores econômicos em declínio no país nas últimas semanas, que elevam significativamente os riscos para nações em torno do mundo.

O presidente Lula tem razões para estar atento: nada menos de 30% do que o Brasil exportou entre janeiro e julho foi para o mercado chinês, ilustrando o tamanho da exposição ao país asiático.

As notícias ruins na segunda maior economia do mundo começaram com uma mudança de expectativa em torno de expansão robusta, após a suspensão da política de zero covid, por temores de desaceleração severa. As vendas no varejo, a produção industrial e o investimento em ativos fixos cresceram em ritmo mais lento em julho do que no mês anterior. O desemprego entre os jovens atingiu um recorde de 21,3%. Os preços de bom número de produtos caíram e entraram em território deflacionista, prenúncio de menor atividade comercial.

Pedro Cafardo - Por que os Brics deveriam ser Cirbs

Valor Econômico

Infelizmente, o Brasil continua sendo a maior decepção entre os quatro países do grupo original

No dia em que começa a reunião de cúpula dos líderes do Brics, em Joanesburgo, é oportuno atualizar os dados sobre o crescimento dessas nações que, 20 anos atrás, eram consideradas as grandes potências econômicas emergentes do século XXI.

Infelizmente, o Brasil continua sendo a maior decepção entre os quatro países do grupo original, formado também por Rússia, Índia e China.

Vale recordar que esse grupo surgiu de um estudo feito em 2003 pelo economista Jim O’Neil, então do Goldman Sachs, e assinado também por Dominic Wilson e Roopa Purushothaman.

O estudo é detalhista e ousado em “profecias”. Projeta o crescimento do Produto Interno Bruto, ano a ano, para cada um dos quatro países desde o ano 2000 até 2050, quando o quarteto, em conjunto, deveria superar o PIB do G6, formado por EUA, Alemanha, Japão, França, Inglaterra e Itália. A África do Sul não fez parte do estudo e só entrou no grupo em 2011.

Janaína Figueiredo* - Milei muito além da dolarização

O Globo

Em todos os setores da sociedade há argentinos desiludidos com um país que há 80 anos vive aos trancos e barrancos

Se o candidato de extrema direita Javier Milei for eleito presidente da Argentina, o país — que em dezembro completará 40 anos consecutivos de democracia, fato inédito desde o golpe militar de 6 de setembro de 1930, contra o presidente Hipólito Yrigoyen, da tradicional União Cívica Radical — poderá abrir um capítulo inesperado em sua História recente. Muito se fala da proposta de dolarização do candidato do jovem partido A Liberdade Avança, e poucos sabem que sua vice, a advogada Victoria Villarruel, defende uma “revisão da década de 70” e considera as Mães e Avós da Praça de Maio, acima de qualquer coisa, mães de terroristas.

À medida que passam os dias, o fenômeno Milei cresce, e é preciso entender profundamente o que ele representa, porque sua eventual vitória terá impacto dentro e fora da Argentina. O economista e suas ideias penetraram em todos os setores sociais do país — ricos, classe média e pobres. Essencialmente, porque em todos esses setores há argentinos desiludidos com um país que há 80 anos vive aos trancos e barrancos, sem encontrar saída sustentável para sucessivas crises econômicas. São pessoas em situação precária, marginalizadas do mercado de trabalho formal, mas também profissionais bem remunerados que vivem em casas luxuosas de grandes condomínios da província de Buenos Aires. Para todos, a Argentina precisa de uma alternativa radical, de alguém que chute o balde, que faça o país “explodir” (expressão literal, que ouvi da boca de muitos argentinos), para ressurgir das cinzas e voltar a ser a nação rica e próspera do início do século passado.

Luiz Carlos Azedo - E se Trump fosse o presidente dos EUA?

Correio Braziliense

Defender a democracia como valor universal é um escudo antigolpista. Tanto no plano interno quanto na política internacional

O ex-chanceler do México Jorge Castañeda disse à CNN Internacional, no sábado, que o golpe do ex-presidente Jair Bolsonaro para continuar no poder não ocorreu em 8 de janeiro porque os Estados Unidos atuaram para “persuadir” as Forças Armadas brasileiras a não aderir aos atos golpistas. Seu comentário foi feito num contexto em que criticou a atuação do presidente Joe Biden em favor da democracia na América Latina. Cientista político, economista e diplomata, Castañeda foi secretário das Relações Exteriores do México de 2000 a 2003, durante a presidência de Vicente Fox. Escreveu livros sobre os movimentos de esquerda na América Latina, entre os quais uma biografia de Che Guevara.

“Com a exceção do Brasil, os Estados Unidos não foram uma fonte de força para a democracia na América Latina, em um momento que ela estava enfraquecida por todos esses eventos que nós vínhamos falando. No caso do Brasil, sim, os Estados Unidos convenceram, persuadiram as Forças Armadas brasileiras a não perseguir um golpe militar contra o presidente Lula, que foi eleito no final do último ano e tomou posse em primeiro de janeiro, e foi quase deposto em um golpe com grande participação militar em 8 de janeiro”, disse na entrevista, divulgada aqui no Brasil pelo site Congresso em Foco.

O que a mídia pensa: editoriais / opiniões

Volta do imposto sindical seria um retrocesso

O Globo

Projeto que ministro Luiz Marinho pretende encaminhar ao Congresso estabelece valor fora da realidade

Mesmo antes de tomar posse, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva jamais escondeu a intenção de rever a reforma trabalhista aprovada em 2017. O Ministério do Trabalho foi entregue a Luiz Marinho, que comandou o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC como Lula e já fora ministro em mandatos anteriores. Agora, enquanto o Supremo demora a julgar se é constitucional haver uma contribuição obrigatória a sindicatos, Marinho confirma que o governo remeterá ao Congresso um projeto que, na prática, recria o imposto sindical (ainda que com outro nome).

Até 2017, cada trabalhador recolhia o equivalente a um dia de trabalho por ano para sustentar a burocracia sindical. Na reforma, a obrigatoriedade acabou. Foi um avanço, pois os sindicatos deixaram de ter uma fonte cativa de recursos sem fazer esforço e precisam se aproximar das categorias que representam. Os sindicalistas, há décadas habituados ao privilégio, tiveram de começar a justificar com seu trabalho o sustento das entidades.

Poesia | Pablo Neruda - A Dança

 

Música | Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise - Valsa Brasileira

 

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Fernando Gabeira - Um golpe fora do lugar

O Globo

Os dados rocambolescos e a incompetência de golpistas não podem ser usados como atenuantes

Na minha idade, é impossível falar de golpe de Estado no Brasil e se desvencilhar da memória. Ouço isso desde garoto. Quando comecei a trabalhar no Rio, conheci um repórter veterano chamado Redento Júnior. Ele cobria a Aeronáutica e estava sempre esperando algo: Aragarças, Jacareacanga, movimentos em que um grupo aterrissava na selva amazônica para derrubar o governo.

Era até um pouco romântico. Vi o capitão Lameirão andando pelas ruas de Juiz de Fora, carregava a memória de rebeliões fracassadas. Em 1961, aos 20 anos, no Rio, acompanhei eletrizado o sequestro do transatlântico Santa Maria pelo capitão português Henrique Galvão e pelo general Humberto Delgado. Era uma ação espetacular contra a ditadura salazarista.

Em 1964, cobri com uma dor no coração o golpe que derrubou Goulart. Entrevistei o general Mourão e me vinguei no primeiro parágrafo da matéria: o comandante da marcha militar contra o Rio sofreu um enfarte depois de andar alguns quilômetros em Copacabana.

Demétrio Magnoli - A cor é política

O Globo

Tribo chique da pureza racial precisa do racismo para prosperar

A cor é política. Só assim entende-se a mudança captada pelo IBGE na declaração de cor/raça entre 2012 e 2022. No curto intervalo, os pretos saltaram de 7,4% para 10,6% dos brasileiros, enquanto a parcela de brancos caiu de 46,3% para 42,8%. As alterações, que parecem refletir o efeito das leis de preferências raciais, não tiveram impacto sobre os autodeclarados pardos: 45,6% em 2012; 45,3% em 2022. É uma prova, entre tantas outras, do fracasso do identitarismo racial.

“Mestiçagem, identidade e liberdade”, o novo livro do antropólogo Antonio Risério, publicado pela TopBooks, esclarece a finalidade das políticas de raça. Não se trata, como alegam seus arautos, de oferecer oportunidades a pessoas em desvantagem, via acesso às universidades ou a empregos públicos. Busca-se, de fato, dissolver a consciência da mestiçagem que sustenta nossa identidade nacional, substituindo-a pela imagem de um país bicolor, dividido entre “brancos” e “negros”.

Marcus André Melo* - Bolsonaro e a morte anunciada

Folha de S. Paulo

As duas faces da corrupção e suas consequências políticas

Em coluna publicada em 2019 afirmei que "a exposição da grande corrupção favoreceu Bolsonaro; a da pequena poderá fraturar sua base". A conjetura mostrou-se acertada. Na atual conjuntura o caso das joias está levando o ex-mandatário a uma bancarrota política inédita.

A literatura especializada distingue a petty corruption (corrupção de pequena escala) da grand corruption (de grande escala). A primeira diferencia-se por ser transações singulares, individualizadas, e não institucionalizadas; a segunda por ser institucionalizada, envolvendo burocracias públicas, partidos políticos, estatais, sendo recorrente e de elevado valor.

Referia-me na coluna às rachadinhas e ao papel que a exposição na opinião pública do mensalão e petrolão teve na ascensão de Bolsonaro. O caso teve pelo menos dois desdobramentos institucionais –no Coaf e na Polícia Federal— nos quais teve participação ativa com custos políticos e derrotas no STF. A fratura na base acarretou a defecção dos setores que apoiavam a Lava Jato da coalizão que levou Bolsonaro ao Planalto. Seu símbolo foi a saída de Moro do governo. Ao que se seguiu o rapprochement do governo com o centrão e a marginalização de olavistas e militares.

A pequena corrupção no país é uma das menores da América Latina e similar à média da OCDE. Já no pioneiro Barômetro da Corrupção (2011) a percentagem de brasileiros que declaravam ter pago propina (a policiais, fiscais, provedores de serviço etc.) foi de 4%, baixa comparada aos 12% da Argentina, 21% do Chile e 31% do México. Em 2019, continuou a menor da região (11%).

Camila Rocha* - Bolsonaro e o futuro dos militares

Folha de S. Paulo

Era difícil imaginar que o golpismo militar poderia se tornar novamente uma fonte de preocupação

Para parte expressiva dos brasileiros que cresceram após a redemocratização do país, as Forças Armadas são tidas como sinônimo de ditadura.

No entanto, há 20 anos era difícil imaginar que o golpismo militar poderia se tornar novamente uma fonte de preocupação.

Afinal, os defensores da ditadura pareciam se restringir às comemorações emboloradas do golpe de 1964, manifestações de pequenos grupos neonazistas, e à circulação restrita de uma obra revanchista, publicada após a transição democrática, intitulada "O Livro Negro do Terrorismo no Brasil", mais conhecida como "Orvil", livro de trás para a frente.

Porém, em meio às investigações que se avolumam em torno de Jair Bolsonaro e dos militares que o apoiaram em suas intenções golpistas, os anos 1980 nunca pareceram tão atuais.

Em 1989, na coletânea Democratizing Brazil, a cientista política Maria do Carmo Campello de Souza publicou um texto intitulado: "A Nova República sob a Espada de Dâmocles".

Ana Cristina Rosa - Uma dívida irreparável

Folha de S. Paulo

O Brasil está diante de um déficit gigante no que tange à regularização fundiária e de uma dívida irreparável com a vida

O assassinato da ialorixá Bernadete Pacífico, Coordenadora Nacional da Articulação de Quilombos (Conaq) e liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares, na Bahia, dia 17, expôs a violação de ao menos quatro direitos constitucionais reiteradamente sonegados aos negros no Brasil: vida, liberdade, segurança e propriedade.

A execução de Mãe Bernadete um mês após ter se encontrado com a presidente do STF e alertado para os riscos que corria expôs a omissão do Estado. Ou, nas palavras dela (gravadas em vídeo), "o descaso das autoridades, principalmente quando se trata do povo negro (....) É justo? O que nós recebemos é ameaças (....) Vivo assim, eu não posso sair, minha casa toda cercada de câmeras".

Apesar da gravidade da denúncia, nenhum mecanismo foi efetivado para proteger a vida da ialorixá que, ao representar sua ancestralidade e lutar pela titulação das terras habitadas por quilombolas, incomodou e contrariou interesses.

Bruno Carazza* - Votações mostram que Centrão já é governo

Valor Econômico

PP, Republicanos e PL são responsáveis por mais de um quarto dos votos a favor do Executivo na Câmara

Natural de Sertânia, no interior de Pernambuco, Ulysses Lins de Albuquerque exerceu três mandatos de deputado federal entre 1946 e 1959. Da discreta carreira política, pouco ficou de relevante - embora tenha feito o filho, Etelvino Albuquerque, senador e governador.

A grande obra de Lins de Albuquerque talvez seja seu livro de memórias, publicado pela Editora José Olympio em 1957. “Um Sertanejo e o Sertão” é um compilado de lembranças e causos deliciosos que retratam as relações políticas e sociais no Nordeste agrário entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX. Relações ainda presentes no Brasil atual - e que não são exclusivas do sertão nordestino.

Uma das histórias narradas no livro é a do coronel Manuel Inácio, líder político na então vila de Alagoa de Baixo desde a Monarquia. O velho coronel tinha duas características marcantes: a violência com que impunha a ordem na região e sua coerência política. Dizia ele: “Eu não tenho culpa de os governos mudarem, eu é que não mudo!”. E arrematava: “Estou sempre com o governo”.

Sergio Lamucci - A melhor resposta para o cenário externo mais adverso

Valor Econômico

A redução das incertezas fiscais é o melhor caminho caso o ambiente externo se mostre mais complicado

O segundo semestre se mostra mais complicado para a economia brasileira. Enquanto o cenário internacional se tornou menos benigno para países emergentes, com a alta forte dos juros de longo prazo nos EUA e a fraqueza econômica da China, as perspectivas fiscais e políticas domésticas se turvaram um pouco. A piora do ambiente externo, em especial, tem pressionado os preços de ativos brasileiros: o dólar voltou a se aproximar de R$ 5, os juros futuros subiram e a bolsa registrou 13 pregões seguidos de baixa. Não há, ao menos por ora, um quadro de grande pessimismo, mas a maior tranquilidade do fim do primeiro semestre ficou para trás. Para evitar maiores turbulências, o ideal seria o governo dar sinais mais firmes de compromisso com o esforço fiscal. No fim das contas, reduzir as incertezas sobre a situação fiscal do país é o que pode de fato assegurar um ciclo mais longo e sustentado de queda dos juros.

Carlos Pereira* - O escondido sempre pode ser revelado

O Estado de S. Paulo

A democracia brasileira demonstra que não é compatível com comportamentos desviantes

Têm sido cada vez mais comum afirmações de que a imposição de perdas a governantes brasileiros seriam consequência direta de erros por eles cometidos na tentativa de acobertar seus malfeitos. Como se os governantes “criminosos” tivessem sido pegos apenas por suas “limitações cognitivas”.

Essa interpretação, ainda que tentadora, é limitada, pois desconsidera o ambiente institucional em que os atores políticos desviantes estão inseridos.

O Brasil já impôs perdas judiciais e políticas não triviais a vários dos seus governantes, por comportamentos desviantes, independentemente da sua coloração ideológica.

Collor, por exemplo, sofreu impeachment e, recentemente, foi condenado pelo STF; Lula foi condenado em dois processos criminais em três instâncias judiciais por corrupção passiva e lavagem de dinheiro e passou 580 dias preso em regime fechado, até ter suas penas anuladas por questões processuais; Dilma também sofreu impeachment por crimes fiscais e orçamentários.

O que a mídia pensa: Editoriais /Opiniões

Contestar números da violência não tem cabimento

O Globo

‘Padronização’ aventada pelo ministro Rui Costa não passa de maquiagem para evitar embaraço a governo do PT

Não faz sentido a ideia de “padronizar” as estatísticas de violência no país, aventada pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, em entrevista à GloboNews. Costa, o ministro da Justiça, Flávio Dino, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniram na semana passada no Palácio da Alvorada para tratar do assunto. A intenção declarada do governo é criar um “marco legal” para o setor e fixar um “parâmetro único” para os dados.

Não se sabe exatamente o que o governo pretende com a tal padronização. Há um evidente embaraço de Costa com os números da Bahia, estado que governou e está sob gestão do PT desde 2007. O anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado no mês passado, mostrou que, dos 50 municípios mais violentos do Brasil com mais de 100 mil habitantes, 12 são baianos.

Poesia | Fernando Pessoa - Contudo, Contudo

 

Música | Beth Carvalho -O mundo é um moinho & As rosas não falam (Cartola)

 

domingo, 20 de agosto de 2023

Merval Pereira - Um país de ficção

O Globo

Tivemos recentemente a prova de que, como dizia o grande filósofo Tom Jobim, o Brasil não é para amadores. O ex-juiz Sergio Moro, hoje senador, um dos protagonistas das principais cenas políticas da história recente, viu-se às voltas com pelo menos duas situações exemplares das tramas rocambolescas que dominam nossa vida nacional.

Como senador, foi um dos interrogadores do advogado Cristiano Zanin quando sabatinado para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF). Zanin foi o super-inimigo de Moro na defesa de Lula, e agora está no Supremo, onde poderia estar Moro, o mesmo STF responsável por anular todas as condenações do atual presidente da República.

Mais adiante, estava no plenário do Senado interrogando o hacker Walter Delgatti, responsável pelo crime de invasão de privacidade dos celulares dos procuradores de Curitiba que ajudou a desacreditar todo o processo da Operação Lava Jato comandado por Moro. Delgatti sugeriu que viu mensagens pessoais de Moro que indicariam que ele era um “criminoso contumaz”. O senador retrucou dizendo que Delgatti era tão inocente quanto Lula, o beneficiário final do desmonte da Lava-Jato, que o levou de volta à presidência da República.

Elio Gaspari - A raiz de todos os delitos

O Globo

Quando os governos se metem com resolvedores de problemas, acabam criando encrencas muito maiores

Quando os governos se metem com resolvedores de problemas, as tramas ganham muitos detalhes, mas na essência, saem da mesma raiz e acabam criando encrencas muito maiores.

No filme Oppenheimer apareceu brevemente a figura do coronel americano Boris Pash.

Ouvindo grampos do FBI, ele tentou afastar Robert Oppenheimer do projeto da bomba atômica.

Filho de um padre russo, Pash havia combatido na guerra civil contra os bolcheviques. De volta aos Estados Unidos, casou-se com uma aristocrata e, durante a Segunda Guerra Mundial, entrou para o Exército. Em 1945, numa operação brilhante, ele participou da captura de toneladas de urânio bruto e material radioativo na Alemanha.

Luiz Carlos Azedo - Uma janela de oportunidade para o Brasil

Correio Braziliense

É preciso uma agenda nova, voltada para a integração às novas cadeias de valor da economia globalizada, que está se reestruturando a partir da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China

Numa conversa recente, o ex-deputado José Anibal (PSDB), que é economista formado na Sorbonne durante o seu exílio, me chamou a atenção para uma passagem muito interessante de Celso Furtado na sua obra clássica Formação Econômica do Brasil, na qual compara os Estados Unidos e o Brasil. O economista liberal Samuel Pessôa classifica Furtado como o mais influente pensador econômico de nossa história, embora questione um aspecto crucial da sua teoria: subestimar o papel da microeconomia no nosso desenvolvimento.

A propósito, as grandes companhias norte-americanas realizam muitos treinamentos de equipe, inspirados na teoria dos jogos, nos quais a cooperação e a competição são exercitadas de forma prática. Um deles, muito usado aqui no Brasil, é a formação de grupos representando duplas de países com as mesmas características, mas que se distinguem das demais em razão de caraterísticas socio-econômicas, como população, recursos financeiros, reservas de matérias-primas, produção de alimentos e capacidade bélica.

Míriam Leitão - Se os telefones deles falarem

O Globo

A investigação da PF e da CPMI descortina o nível de contaminação das Forças Armadas e o risco que o Brasil correu no governo anterior

Muitos telefones apreendidos estão sobre a mesa da Polícia Federal sendo periciados. São os quatro aparelhos do advogado Frederick Wassef, o de Mauro Cid e os do pai dele e do ex-ministro da Justiça Anderson Torres. Isso estatisticamente aumenta a chance de se encontrar informações relevantes. Há ainda o sigilo fiscal e bancário de Jair e Michelle Bolsonaro, quebrados pelo ministro Alexandre de Moraes. A CPMI pediu ao Coaf os RIFs, relatórios de investigação financeira, do casal. Tudo isso manterá viva a investigação sobre o que aconteceu no Brasil naquele tempo estranho em que o presidente mandava vender joias e presentes do governo e liderava a trama por um golpe de Estado. O dia 8 de janeiro não terminará tão cedo e a prisão de Jair Bolsonaro é uma possibilidade cada vez mais concreta.

Os militares estão em aparente silêncio. Dentro dos quartéis, a conversa é intensa. O general Tomás Ribeiro Paiva, comandante do Exército, segundo as apurações que eu fiz, tem até agora se mantido firme na convicção de que quem cometeu os crimes que responda por eles. “Tomás impede qualquer reação”, me disse uma autoridade. Muitos oficiais estavam, até recentemente, reclamando muito do “método da investigação”, dizendo que as Forças Armadas estavam sendo muito expostas. Na realidade, elas foram expostas pelos líderes que se envolveram no complô contra a democracia.

Bernardo Mello Franco – Blindagem verde-oliva

O Globo

Relatora promete indiciar Bolsonaro, mas não mexe com blindagem à cúpula militar

A CPI do Golpe ainda não chegou à metade, mas a relatora parece já ter um veredicto: o capitão é culpado e os generais são inocentes. Na quarta-feira, a senadora Eliziane Gama confirmou que pedirá o indiciamento de Jair Bolsonaro. Mas indicou que poupará os militares de alta patente que conspiraram contra a democracia. “A instituição Forças Armadas impediu um golpe no país”, afirmou, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo.

A declaração envelheceu rápido. No dia seguinte, Walter Delgatti Neto contou à CPI que ajudou o Ministério da Defesa a redigir um relatório para minar a confiabilidade da urna eletrônica. O hacker disse ter colaborado com dois ex-comandantes do Exército. Um deles, o general Paulo Sérgio Nogueira, foi titular da Defesa no último ano do governo Bolsonaro.

Dorrit Harazim - Deu ruim

O Globo

Hoje, à luz dos múltiplos desdobramentos das operações em curso pela PF, o capitão-ex-presidente já parece saber que sua casa caiu

Domingo passado, neste mesmo espaço, o texto sobre o intrigante périplo das joias presenteadas ao Estado brasileiro, e dele subtraídas por Jair Bolsonaro, terminava assim: “Daqui para a frente são só notícias amargas para o capitão... é possível que logo mais seu passaporte seja retido; provável que venha a ser indiciado, denunciado, julgado, quiçá condenado — não só pelo rastro de ladroagem deixado. Talvez ainda não saiba, mas sua casa já caiu”.

Hoje, à luz dos múltiplos desdobramentos das operações em curso pela Polícia Federal (PF), o capitão-ex-presidente já parece saber. E os demais envolvidos também. Com todos juntos e embolados no inquérito sobre milícias digitais e atos golpistas do 8 de Janeiro, a investigação sob a regência de Alexandre de Moraes dá até a impressão de já conhecer o final do enredo. Apenas não atropela. Deixa decantar cada novo pacote de buscas e apreensões, para só então avançar ao patamar seguinte. E é bom que assim seja. Qualquer estrelismo, precipitação nas acusações ou atropelo à lei e às garantias constitucionais seria simplesmente desastroso.

Muniz Sodré* - Um olhar a mais

Folha de S. Paulo

O grotesco televisivo nada escondia, já franca-tripas e prima-donas de agora servem de tapa-olho a tenebrosas transações, civis e militares

"Quando for a hora certa, eu o Senhor farei acontecer." O versículo (Isaías 60:22), recém-invocado como guia pela ex-primeira-dama e autodeclarada aspirante à Presidência da República, deixa em suspenso o sentido de "acontecimento". Mas, em performance recente, pede à acompanhante, deputada federal, que retire sua prótese ocular. Aquiescente, a outra leva a mão ao rosto e entrega um olho de vidro, que a aspirante se apresta a guardar, como uma joia, no bolso do jeans. Então garante à plateia: "Esta é uma mulher que faz acontecer".

Meio século atrás, no programa "A Hora da Buzina", de Chacrinha, "acontecia" quem inserisse primeiro no nariz um carretel de linha. O pano de fundo popularesco permitiu à emergente indústria da televisão granjear uma audiência de migrantes de primeira e segunda gerações nas periferias urbanas do Sul. Podia-se receber como prêmio um quilo de bacalhau ou um eletrodoméstico.

Celso Rocha de Barros* - E se Bolsonaro for preso?

Folha de S. Paulo

Uma condenação pelos crimes do 8 de janeiro deve dividir direitistas moderados e radicais

Nos últimos dias, novas evidências aumentaram bastante a probabilidade de Jair Bolsonaro ser preso.

Nas investigações sobre o golpe de 8 de janeiro, a cela de Jair Bolsonaro já tem duas paredes e meia construídas. No caso do roubo das joias, já são três paredes e meia. A cela para os crimes da pandemia mal começou a ser erguida. Mas será.

Na quinta-feira, o hacker Walter Delgatti declarou à CPI que Bolsonaro lhe convidou para cometer crimes contra a democracia. Invasão de urnas, do sistema de informática do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), produção de registros falsos contra Alexandre de Moraes, campanhas de desinformação sobre as urnas, tudo com promessa de anistia presidencial.

Bruno Boghossian -Bolsonaro está vulnerável

Folha de S. Paulo

Ameaça de confissão de Mauro Cid tem pouco valor até agora, mas já produziu efeitos

A ameaça de confissão feita pela defesa de Mauro Cid produziu efeitos antes mesmo de o coronel decidir se vai realmente abrir a boca. O principal deles foi escancarar a condição de Jair Bolsonaro. O ex-presidente nunca esteve tão vulnerável.

O poder dava a Bolsonaro a proteção de órgãos de controle e uma generosa boa vontade no mundo político. Depois que ele deixou o Planalto, a blindagem se desfez rapidamente, e a luz do dia expôs segredos que submeteram o ex-presidente a um desgaste igualmente acelerado.

Restaria a Bolsonaro um ativo importante para se resguardar: a lealdade de aliados fiéis que testemunharam seus passos ou estiveram envolvidos nas suspeitas que recaem sobre o ex-presidente. Se o mais próximo desses parceiros vacilasse, a muralha poderia cair de uma vez.

Eliane Cantanhêde - A vaquinha vai pro brejo?

O Estado de S. Paulo

Nova frente de investigação: a vaquinha de R$ 17 milhões. Foi lavagem de dinheiro?

Ao quebrar o sigilo bancário e fiscal do ex-presidente Jair Bolsonaro e Michelle, o STF abre uma nova frente de investigação para a Polícia Federal: a história da vaquinha de R$ 17 milhões para pagar uma multa de R$ 1 milhão se sustenta em pé? Ou foi uma saída criativa e parte dos depósitos foi para “esquentar” ou “lavar” o dinheiro vivo do casal?

O esquema de venda de presentes, joias e relógios que funcionava dentro do Planalto é demolidor para o destino e a imagem de Bolsonaro, porque revela crime e reforça o gosto da família por dinheiro em espécie, rachadinhas e compra e venda de imóveis. Mas isso não explica tudo.

Não explica os quase R$ 12 milhões que o tenente coronel da ativa Mauro Cid e seus subordinados na Ajudância de Ordens movimentaram em um ano e meio, nem todos os repasses para Bolsonaro e Michelle. De onde vem o resto?