sexta-feira, 4 de julho de 2025

Opinião do dia – Tavares Bastos*

“A miséria moral, como a pobreza material, não a compramos com a independência: herdamo-las. Colônia alguma recebeu de um povo europeu mais rico legado. Seja embora! As heranças veneram-se. Nós veneramos os nossos prejuízos. Nossa miséria histórica é a nossa riqueza.

O passado instalou-se no presente, acompanha-o, excede-o, esconde-o, cobre-o, ele, uma sombra!

O passado é a ideia inata dos governos e o critério da população. Aquele não ousa feri-lo de frente. Esta afere tudo pela medida das máximas consagradas.”

*Aureliano Cândido Tavares Bastos (1839-1875) foi um deputado, escritor e jornalista brasileiro. É considerado um precursor do federalismo, por sua luta contra a centralização administrativa durante o Segundo Reinado. 'Prefácio das Cartas do Solitário', p. 21, edição eletrônica da UFRJ.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ataques ao Congresso são inaceitáveis

O Globo

Parlamento não é imune a críticas, mas ele tem legitimidade e papel essencial na solução dos problemas

Não é possível ficar inerte ante os ataques ao Congresso que partem de hostes governistas. Depois que os parlamentares derrubaram a alta no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o governo entrou em modo de combate. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu ao Supremo e chamou a decisão de “absurda”. O PT ampliou a propaganda em prol da taxação dos “super-ricos”. Tomaram conta das redes sociais de inclinação petista vídeos alvejando o Parlamento, em particular o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Num deles, Motta é exibido como defensor de menos imposto para ricos e de “congelar” o salário mínimo. Noutro, mais agressivo, o Congresso é tachado de “inimigo do povo”.

Nem todos os vídeos foram endossados pelo governo ou pelo PT. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, desautorizou ataques a Motta: “Não é assim que vamos construir saídas para o Brasil, dentre as quais se destaca a justiça tributária”. Apesar da tentativa de apaziguar ânimos, militantes atenderam ao apelo pela radicalização ocupando um banco na Avenida Faria Lima, em São Paulo. Depois do primeiro vídeo, e antes dos demais, a oposição reagiu com uma paródia. Ninguém deve cair na armadilha de ser arrastado a uma batalha em que o país só perde. O “nós contra eles” aponta um caminho perturbador.

Imigração é necessária para o mundo - Fernando Abrucio*

Valor Econômico

A ideia de que o mundo europeu e norte-americano, ao se livrar dos incômodos imigrantes, terá mais empregos e prosperidade aos locais é um engodo

O nacionalismo é a base do mundo contemporâneo. Ser um país com instituições, identidade cultural e um projeto de desenvolvimento tem sido objetivo de todos os povos que se organizam politicamente. Mas a maioria das nações só se desenvolveu graças ao contato com o exterior e pelo fluxo migratório, enviando ou recebendo pessoas. A despeito disso, os imigrantes se tornaram um dos grandes bodes expiatórios da política atual, especialmente por meio do discurso da extrema direita, que ganha votos assim e encurrala a maioria dos adversários, hoje perdidos nesse debate. O que se vê como risco, no entanto, é a melhor solução civilizatória para o século XXI.

Preconceitos contra o estrangeiro, pessoas de outras culturas ou cor sempre estiveram presentes na humanidade. Guerras foram geradas por esse sentimento, bem como a separação entre as sociedades. Só que o contato entre os povos tem se tornado mais global. Primeiro, a partir do projeto colonista europeu, depois com as independências nas Américas, que receberam milhões de imigrantes, particularmente da Europa e da Ásia, e continuou ainda no pós-guerra até os dias atuais, agora com um fluxo imigratório preponderantemente dos países mais pobres aos mais ricos.

O número dos deputados federais - José de Souza Martins*

Valor Econômico

Se Lula for o político hábil que sempre foi, vetará o aumento. Se for esperto, talvez não arruíne sua relação com o Legislativo. Estamos em face do efeito bumerangue na política

A elevação do número de deputados federais de 513 para 532 a partir das eleições de 2026, por decisão das duas casas do Congresso Nacional, surpreendeu muitos brasileiros que consideram que o número de membros da Câmara já é excessivo. Parece mais um episódio em que os políticos brasileiros decidem em causa própria.

Os que votaram o projeto exibem um comportamento revelador de consciência pouco política a respeito de si mesmos, geralmente oportunista. Em que fica claro que sabem que o que decidem a respeito de seus próprios interesses, mesmo em face da repulsa pública, é para fazer com que o malfeito pareça legal e não expressão de reprováveis interesses corporativos. E, desse modo, pareça que a “culpa” é da lei e das instituições.

Quanto Lula quer crescer nas pesquisas até o fim do ano - Andrea Jubé

Valor Econômico

O objetivo é que ele alcance 40% de ótimo e bom

Aprendi uma palavra nova, não com a inteligência artificial, mas com o poeta Manoel de Barros (1916-2014), uma quase terapia nesses tempos de muito embate e intolerância, instabilidade e reveses. “Arúspices”: palavrinha estranha e feia, mas que dialoga com o ambiente político. Ela me fez pensar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva em confronto com o Congresso, e sob alta pressão dos aliados porque 2026 chegou mais cedo, a campanha está nas ruas, nas redes digitais e sua popularidade estacionou abaixo da margem de segurança.

Traduzo. A palavra apareceu num poema em que Manoel de Barros conta a história de “Mário-pega-sapo” que, de noite, entretinha-se em abrir os anfíbios que capturava de dia em riachos, barrancos e terrenos baldios. “Abria um por um de canivete os sapos para ler nas entranhas deles o seu futuro. Eu pensava que aquele Mário-pega-sapo fosse um descendente dos arúspices, sacerdotes romanos que adivinhavam o futuro remexendo no altar as entranhas de seus inimigos”.

Campanha calça popularidade, leva conflito à rua e divide governo - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Congresso usou reação empresarial para arrancar demandas do governo, mas foi surpreendido pela reação das redes e recuou

As pesquisas diárias que o Palácio do Planalto faz para mensurar a avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostraram uma elevação de cinco pontos percentuais na sua popularidade desde o início da ofensiva do governo para caracterizar o embate em torno das medidas fiscais como uma batalha entre ricos e pobres.

Gabinetes da Avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, já estavam de posse do resultado desses “trackings” quando aconteceu a ocupação, por manifestantes da Frente Povo Sem Medo, do saguão do prédio que abriga o Itaú BBA na avenida Faria Lima, em São Paulo. Levavam as faixas com as mesmas palavras de ordem da campanha governista: “O povo não vai pagar a conta”, “Chega de mamata”, “Taxação dos super ricos já”. Os manifestantes permaneceram duas horas e depois deixaram o prédio.

Economia vai bem, obrigado, mas disputa eleitoral precoce atrapalha - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Quem olha para o cenário político tem razões para ser pessimista, porque o impasse entre o Palácio do Planalto e o Congresso transbordou para a virulência nas redes sociais

O Ibovespa bateu novo recorde ontem, em meio a uma crise política protagonizada pelo Palácio do Planalto e o Congresso, em razão da antecipação da disputa eleitoral de 2026, tanto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto pela oposição, que é liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. A Bolsa avançou 1,35% e encerrou o dia aos 140.928 pontos, atingindo um novo recorde. Até então, o maior nível havia sido registrado em 20 de maio, quando bateu 140.110 pontos. O dólar continua em queda, cotado a R$ 5,4049, o menor nível desde junho de 2024 (R$ 5,3605).

Como explicar uma situação como essa, num momento em que as análises são as mais catastrofistas em relação ao desempenho da economia por parte dos analistas do mercado financeiro e dos políticos de oposição? Ainda mais num momento de impasse em relação ao ajuste fiscal, no qual o governo quer aumentar a arrecadação e não cortar os gastos sociais, enquanto a oposição e o mercado pregam exatamente o contrário.

'Nós contra eles' é tiro no alvo ou no pé? - Vera Magalhães

O Globo

Ao partir para o contra-ataque, governo e PT ao menos deram um argumento a seus militantes, que andavam meio desnorteados

O limiar que separa um tiro em direção ao alvo e um que acerta o próprio pé na política é bem mais tênue que noutros momentos da vida, literais ou metafóricos. No caso da efetividade da nova versão do discurso do “nós contra eles” adotada pelo governo Lula, o sucesso ou o fracasso da estratégia mora em detalhes que não são descartáveis nem parecem fáceis de calibrar diante da profunda cizânia entre o Executivo e o Congresso.

O primeiro fator essencial que poderia levar a que se desse um tiro n’água foi notado pelos responsáveis por colocar a campanha na rua: não adiantava o “nós” serem apenas os pobres beneficiários de políticas sociais, e “eles” serem todo o resto da sociedade. Por uma questão de matemática básica, Lula perderia o embate ao dividir a sociedade assim.

Daí por que a classe média, fatia maior e mais heterogênea do bolo demográfico (e eleitoral), foi rapidamente colocada do lado de Lula no cabo de guerra, tradução escolhida por uma das muitas peças publicitárias lançadas para martelar a ideia.

Centrão agora quer limitar ações no STF contra abusos do Congresso - Bernardo Mello Franco

O Globo

Alcolumbre e Lira defendem impedir partidos pequenos de recorrerem à Justiça

Davi Alcolumbre quer limitar o direito de partidos políticos recorrerem à Justiça contra decisões do Congresso. O presidente do Senado reclamou que hoje “todo mundo” pode propor ações ao Supremo, o que precisaria ser alterado “com urgência”. “Esse é um problema seriíssimo”, sentenciou.

A ideia de Alcolumbre não é boa nem nova. Já havia sido defendida pelo deputado Arthur Lira. Ontem o ex-chefão da Câmara disse que é preciso “subir o sarrafo” dos partidos aptos a questionar o Supremo. Ele participa do chamado “Gilmarpalooza”, evento em que políticos e magistrados brasileiros discutem temas brasileiros em Lisboa.

A ofensiva do Centrão tem endereço certo. O bloco que manda no Congresso quer impedir que partidos pequenos, como PSOL, Rede e Novo, entrem com ações no Supremo. De quebra, quer restringir os poderes da Corte para invalidar leis aprovadas pelos parlamentares, mesmo que elas violem a Constituição.

Governo ganha embate nas redes sociais pela primeira vez – Flávia Oliveira

O Globo

O comportamento de deputados e senadores catalisou uma reação negativa que aproximou eleitores e opositores de Lula

O governo foi às cordas; reagiu com tática, até então, exclusiva da oposição; voltou ao ringue. Tomara a freada de arrumação empurre o país para o tão necessário quanto urgente debate sobre equilíbrio fiscal e justiça tributária. Faz um par de semanas, um Congresso Nacional, ao mesmo tempo empoderado e hostil ao presidente da República, tramou o enfrentamento que ameaçava minar, na avaliação do Planalto, o espaço que ainda resta a Lula para governar o país. Além de impor a aplicação de mais de R$ 50 bilhões do Orçamento via emendas parlamentares, deputados e senadores avançaram contra um decreto presidencial, prerrogativa do Executivo. De quebra, alinharam-se a medidas que vão de encontro aos interesses do eleitorado.

Um colapso anunciado - Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Executivo, Parlamento e Judiciário caminham celeremente para o colapso não porque escolhem essa saída, mas porque são incapazes de mudar seu comportamento

Num ano em que o Brasil recebe a COP-30 e, certamente, falará de seu imenso potencial, estamos às voltas com uma situação difícil, que aponta para um colapso financeiro em 2027.

Será que isso acontecerá como alguns economistas preveem? E se acontecer, corremos o risco de repetição de algo como a crise grega de 2010? O que vimos acontecer na Grécia é suficiente para um grande esforço para evitar o colapso, mesmo que tenha proporções menores. De qualquer forma, será um sofrimento desnecessário.

Executivo, Parlamento e Judiciário caminham celeremente para o colapso não porque escolham essa saída, mas porque são incapazes de mudar seu comportamento, porque foram contaminados pelo poder num país em que fazem e desfazem diante de uma certa passividade social.

Mais um BBB caiu nas redes – Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Marketing de Lula mira o Congresso com o BBB da moda: Bancos, Bets e Bilionários

Não se trata do show de televisão, da nota das agências de rating, nem mesmo das famosas bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia, o novo BBB que está na moda é outro, Bancos, Bets e Bilionários, criado pela varinha mágica do marketing político para tentar resgatar a popularidade perdida do presidente Lula e a aprovação, que não anda nada boa, do seu governo.

Fórmula populista que tem tudo a ver com o PT e o próprio Lula, o novo BBB joga a luta de classes no terreno da atual polarização política, que já passou pelo “nós contra eles” e desaba agora no “pobres contra ricos”, com o governo obrigando o PT a pegar em armas na internet. Parece criativo, engenhoso, nesse complexo mundo do marketing, mais e mais alavancado pelas redes, mas tem riscos.

Nós, quem? Contra eles, quem? - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Houve um tempo em que o presidente Lula anunciava que governava para o interesse de todos os brasileiros, inclusive dos que votaram contra ele.

Hoje, vai sendo imposto o mantra do “nós contra eles”, sem que fique claro quem sejam esses “nós” e quem sejam esses “eles”. Nós, os pobres? Nós, os proletários? Nós, os do Partido? Nós, os democratas? Contra quem? Contra a direita? Contra a Faria Lima? Contra os mandachuva de sempre? Seja o que – e quem – for, é o discurso da polarização, que pretende antecipar o debate eleitoral.

No momento, serve para defender o renitente aumento de impostos, em detrimento de um mínimo de objetividade: como é que o aumento do IOF, que deveria servir apenas para fins regulatórios – e não arrecadatórios –, beneficiaria o “andar de baixo” e não os lobbies favorecidos pelo Congresso, se atinge em cheio as pequenas e médias empresas, os microempreendedores individuais (MEIs) e o comércio que pratica o crédito denominado “risco sacado”?

Presidentes que confrontaram Legislativo perderam - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Discurso em favor de justiça tributária energiza eleitores do PT, mas talvez não traga novos apoios

As próximas movimentações dirão se a escalada retórica de Lula é só uma tentativa de se reposicionar para negociar melhor com o Congresso ou se o petista vai mesmo para o tudo ou nada com o Legislativo.

Acredito mais na primeira hipótese. Todos os presidentes que partiram para o confronto direto se deram mal. Collor e Dilma sofreram impeachment e Bolsonaro, que ameaçara governar diretamente com o povo, acabou se entregando gostosamente ao centrão, que foi agraciado com o orçamento secreto. Lula assistiu a tudo isso da primeira fila. Custa-me crer que não tenha assimilado a lição.

Taxação BBB leva luta de classes ao reality da crise - Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Defesa da taxação a bancos, bets e bilionários se apoia em iniquidade tributária, mas por si não é solução para os impasses em cena

A crise entre Executivo e Congresso, em torno da derrubada do decreto do Executivo que aumenta o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), acabou por reforçar a estratégia do governo Lula de se reapresentar como defensor dos pobres contra os abastados.

Nesse reality show da política que tenta antecipar o paredão de 2026, surge nas redes lulistas a "taxação BBB", que reivindica justiça tributária com aumento de impostos sobre bancos, bets e bilionários. A ideia, discutível como estratégia, é colocar uma pitada de luta de classes no debate e colar no Congresso a pecha de defensor de privilégios.

Guerra de extermínio antes da hora - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Governo e Congresso não têm nada a ganhar com uma ruptura em tempo ainda de indefinição eleitoral

A fotografia do momento é de confronto sem solução boa à vista. Ocorre, porém, que há muito filme a ser rodado e por isso os personagens desse enredo eleitoral não devem ir agora ao tudo ou nada. Ainda não é hora.

Não interessa à direita nem à esquerda partir para um embate cujo desfecho depende de muitas variáveis. Luiz Inácio lula da Silva (PT) não tem certeza se vale a pena tentar a reeleição e Jair Bolsonaro (PL) precisa decidir o que fará quando e se vier a provável condenação por tentativa de golpe de Estado.

Invertebrados e acoelhados – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Em vez de lutar por suas ideias, golpistas estão descobrindo que não vale a pena pagar por Bolsonaro

Na invasão do STF em Brasília no 8/1, o mecânico Fábio de Oliveira foi filmado aboletando-se na poltrona do ministro Alexandre de Moraes. "Cadeira do Xandão, aqui, ó! Aqui, ó, vagabundo! Aqui é o povo que manda!", zurrou. Ouve-se a voz de seu irmão Erlon, que gravava o vídeo: "Cadeira do Xandão agora é do meu irmão Fábio! Nós tomou a cadeira do Xandão, aí, ó!". Diante da pena de 17 anos de prisão a que o voto de Moraes há dias o condenou, Fábio balbuciou: "Era uma brincadeira. A gente não sabia que seria transmitido ao vivo".

Poesia | A espantosa realidade das coisas, de Fernando Pessoa

 

Música | Sebastião Junior canta "Vermelho"

 

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Opinião do dia - Ulysses Guimarães*

“O inimigo mortal do homem é a miséria. Não há pior discriminação do que a miséria. O estado de direito, consectário da igualdade, não pode conviver com o estado de miséria. Mais miserável do que os miseráveis é a sociedade que não acaba com a miséria.”

*Trecho de discurso em 5 de outubro de 1988, durante a sessão de promulgação da nova Constituição brasileira.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Governo extrapola ao recorrer ao STF para manter alta do IOF

O Globo

Decisão é juridicamente frágil e contribui para acirrar tensões em momento que exige negociação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou uma decisão temerária ao orientar a Advocacia-Geral da União (AGU) a entrar com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a derrubada do decreto legislativo que suspendeu o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). A iniciativa acirra o conflito entre Executivo e Legislativo num momento em que o país não precisa de mais tensão, mas de tranquilidade e capacidade de negociação para pôr em ordem as finanças públicas.

O Executivo não deveria ter insistido na estratégia de aumentar impostos para cobrir buracos no Orçamento. O risco político era evidente. Líderes do Congresso haviam deixado claro ser contra ampliar a carga tributária já excessiva. A reação era previsível. Em derrota acachapante para o Planalto, a Câmara aprovou por 383 votos a 98 o decreto legislativo anulando o aumento do IOF, referendado no Senado por votação simbólica. Para espanto de ninguém, a derrubada contou com a votação maciça de parlamentares da base governista. A raridade da decisão — desde 1989, a Câmara aprovou menos de 1% dos projetos de decreto legislativo que visavam à suspensão de atos presidenciais — demonstra o grau de insatisfação no Parlamento.

Os fatos nas palavras - Merval Pereira

O Globo

A partir do momento em que um deputado se recusou a ser ministro, partiu-se o cristal. Acredito que o governo Lula, para este Congresso, está acabado

O Brasil, onde na teoria vigora o regime presidencialista, na prática hoje exercita um sistema semiparlamentarista, tendo já passado pelo hiperpresidencialismo muito recentemente. O povo brasileiro já reafirmou sua preferência pelo presidencialismo em pesquisas e plebiscitos. Parece fadada ao insucesso a tentativa de mudar o regime para o parlamentarismo, que já adotamos numa emergência política depois da renúncia do presidente Jânio Quadros, para que o vice João Goulart fosse aceito pelos militares.

Há ainda propostas para adotarmos o semipresidencialismo, que vige em Portugal e na França. Todos esses regimes são tentativas de superar problemas político-partidários que nos perseguem, pois não conseguimos alcançar um equilíbrio institucional que permita ao país se desenvolver. O hiperpresidencialismo recente anulava o Congresso, que era manipulado pelos presidentes por meio da distribuição de emendas parlamentares, cargos públicos e até ministérios. Regimes presidencialistas como os Estados Unidos têm uma divisão de Poderes bastante rígida, tanto que um parlamentar que queira virar ministro (secretário por lá) de um governo precisa abrir mão do mandato que ganhou nas urnas para representar os eleitores. No Brasil, há muito tempo o presidencialismo tem uma porta giratória por onde entram e saem políticos, num vaivém constante entre Executivo e Legislativo.

Semipresidencialismo ganha força como saída para crises - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

É um sistema de governo que combina o presidencialismo e o parlamentarismo. Os dois modelos clássicos são os da França e de Portugal. Duas PECs tramitam no Congresso

Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assume a presidência do Mercosul, em Buenos Aires, na Argentina, a elite política e a alta magistratura brasileira se reúnem no Fórum Jurídico de Lisboa, criado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), um dos autores da proposta de implantação do semipresidencialismo no Brasil. Ao saudar os presentes, entre eles o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), destacou o caráter transdisciplinar e internacional do evento, que conta com 57 painéis, quase 500 palestrantes de várias nacionalidades e estimativa de 2,5 mil participantes. “O Fórum se consolidou como um ponto de encontro fundamental para o diálogo entre o Brasil e a Europa”, afirmou.

Brics: a busca da agenda concreta - Míriam Leitão

O Globo

Mesmo com a sombra dos conflitos globais, o desejo do Brasil na presidência do bloco é ter uma pauta para enfrentamento de problemas reais

Os negociadores que preparam a reunião de cúpula do Brics estão tentando fechar declarações à parte sobre três assuntos: saúde, clima e inteligência artificial. Isso além da declaração conjunta dos chefes de Estado. O objetivo do Brasil é fortalecer a agenda de desenvolvimento nos debates e buscar avanços concretos. Mesmo assim, a sombra dos conflitos globais estará presente. O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, não virá mais. Ele chegou a confirmar a presença logo após o ataque de Israel, mas quando houve o bombardeio americano, avisou que não poderia deixar o país.

O que o Brasil quer é menos geopolítica e mais agenda de desenvolvimento que foque na natureza econômica do bloco. Um diplomata que está no centro da negociação dos documentos me explicou a visão brasileira.

Sem recuo à vista no #congresso damamata - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Governo escalou o tom nas redes para abrir espaço ao armistício

A estética do confronto chegou para ficar como condição necessária, ainda que insuficiente, para o governo chegar ao armistício com o Congresso. O primeiro sinal de que o bombardeio #congressodamamata incomodou foram os recibos passados pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), (“Quem alimenta o nós contra eles acaba governando contra todos”) e pelo presidente do União, Antônio Rueda, (“Não consegue resolver o problema fiscal e joga a culpa no Congresso”).

Esta percepção, de um ministro que é conselheiro de colegas petistas sem nunca ter sido do PT, e tem linha direta com os presidentes da Câmara e do Senado, não se restringe a aplaudir a reação governista até aqui. Advoga que o próprio presidente da República vá pra cima nas redes sociais dizendo que o Congresso não quer votar a isenção do IR ou o aumento de imposto para rico e pretende congelar o salário-mínimo.

Por um orçamento compreensível - Maria Clara R. M. do Prado

Valor Econômico

A ignorância alija o cidadão da possibilidade de influenciar o conteúdo dos orçamentos públicos

PPA, LDO, LOA. Quem consegue entender essas siglas? Pouca gente. Por certo, os especialistas em orçamento, os analistas fiscais e, talvez, alguns congressistas. Todas dizem respeito a procedimentos relacionados às contas públicas do governo federal, uma trata do planejamento com metas para quatro anos, outra aponta as orientações para o orçamento e a terceira define receitas e despesas para cada ano. Sem dúvida, são providências importantes nos trâmites do Orçamento Geral da União, mas nada dizem aos contribuintes brasileiros que sustentam as despesas públicas.

Despesas, diga-se, em boa parte arbitradas ao sabor de quem detém poder na cúpula de Brasília. Em nome do povo, tomam-se decisões nem sempre benéficas à uma sociedade seccionada por um fosso profundo, uma realidade conhecida há pelo menos dois séculos e que tende a se agravar com a polarização entre a direita e a esquerda.

Os donos do poder - Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

Sem respeito ao dinheiro público, todos brigam, quase ninguém tem razão e o pão continua a faltar. O essencial, cuidar dos interesses dos que mais dependem do Estado, torna-se secundário

O clássico  Os donos do poder, de Raymundo Faoro, publicado em 1958, nunca foi tão atual. Na Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, onde me graduei, ganhei um exemplar das mãos do estimado Professor Marcos Fernandes Gonçalves da Silva, há 20 anos.

Apreendi sua mensagem, que é muito clara: o Estado brasileiro compõe-se, em muitos casos, de estamentos, fatias ou nacos de poder voltados a interesses privados. Atacar esses interesses desperta os instintos mais primitivos dos que operam esse sistema não republicano.

O episódio do decreto presidencial do IOF, especialmente no capítulo mais recente – sua derrubada pelo Congresso seguida de judicialização – é sintomático. Vivemos uma situação delicada e perigosa, em que a responsabilidade fiscal é confrontada diuturnamente.

Sem respeito ao dinheiro público, todos brigam, quase ninguém tem razão e o pão continua a faltar. O essencial, cuidar dos interesses dos que mais dependem do Estado, torna-se secundário. O privilégio aos amigos do rei, principal. Responsabilidade fiscal não é tecnicismo de especialista, mas o único caminho para promover políticas públicas sustentáveis, fazendo cumprir a Constituição Cidadã.

Estratégia tresloucada - William Waack

O Estado de S. Paulo

É óbvio que o PT sem Lula corre o sério risco de resvalar para o ocaso. As últimas decisões políticas do chefão estão acelerando esse processo.

A causa principal é a perda de leitura da realidade por parte do próprio Lula. Leia-se mudanças sociais no País, alteração das relações de força entre os poderes e o enfraquecimento das capacidades físicas e intelectuais do líder.

Tem remotas possibilidades de sucesso as mais recentes decisões “estratégicas” para ganhar as eleições de 2026 e reverter poderes do Congresso. De novo, pelo óbvio: não reúne a massa crítica política necessária nem para um nem para o outro.

Lula se encontra hoje vítima da tática “boa constrictor” (o nome científico da jiboia) do Centrão, e sua ida ao STF para anular o decreto legislativo que anulou o decreto executivo não vai folgar o aperto dos anéis dessa gulosa serpente. Ao contrário, qualquer que seja a decisão do Supremo.

IOF colocou a corrida eleitoral na rua - Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Não havia outra saída para Lula, porque é uma questão de sobrevivência

A crise política gerada pelo decreto de alta do IOF do ministro Fernando Haddad colocou a corrida eleitoral de 2026 na rua.

Ainda que os principais atores da disputa façam gestos na direção de abertura do diálogo, como fez nesta quarta-feira (02), Davi Alcolumbre ao receber o número 2 da Fazenda, a guerra está em curso e com chance quase nenhuma de um acordo de paz até o desfecho eleitoral no final do ano que vem.

Não havia outra saída para o presidente Lula. Trata-se de uma questão de sobrevivência. Como ele mesmo explicitou ao reconhecer que, se não fosse ao STF contra a derrubada do IOF pelo Congresso, não governaria mais.

Lula vs. Congresso ou justiça tributária? - Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

A imprensa está perdendo a oportunidade de debater seriamente a justiça tributária

A cobertura da imprensa nacional, inclusive da Folha, sobre o decreto do IOF superdimensiona a linha editorial Lula vs. Congresso e, assim, perde a oportunidade de debater seriamente a justiça tributária.

Ao leitor vende-se a ideia de que a notícia do dia é, para usar a famosa metáfora jornalística, que o cachorro mordeu seu dono, quando na verdade estamos diante da rara situação em que desta vez foi o dono que mordeu seu cão: no debate sobre IOF, estamos diante não de mais um episódio corriqueiro de picuinhas políticas, mas sim de um momento atípico, em que se discutem, finalmente, projetos distintos de país.

No vale-tudo dos jornais —no qual o debate sobre taxação de super-ricos é traduzido como pauta antiCongresso e de polarização social—, sabe-se mais sobre quem almoçou com quem e quem ignorou a ligação de quem e menos sobre os interesses privados que sustentam a pouca ou nula taxação de super-ricos no país e como esses interesses interseccionam com os de parlamentares dispostos a sacrificar a estabilidade fiscal.

Sem mágicas no Brasil real - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

O conservadorismo do Congresso não é o efeito espúrio do sistema eleitoral

O conflito entre o Executivo e o Congresso sobre o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) põe a nu tensões de várias origens.

De um lado, trata-se de um capítulo do rearranjo das relações entre os dois Poderes, requerido pelas mudanças nas respectivas forças relativas.

Como se sabe, a Presidência perdeu em parte sua capacidade de controlar a agenda legislativa e o Parlamento ganhou mais protagonismo, por força de mudanças institucionais que se sucederam ao longo dos anos. Entre elas, a regulamentação das medidas provisórias; o crescimento, em tipo e valor, das emendas impositivas; e o aumento do fundo partidário, que fortaleceu as lideranças das legendas representadas na Câmara e no Senado.

Onde a fome se junta à vontade de jantar - Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Quem tem boca vai a Lisboa; só a ingenuidade não foi convidada

Começou o mais bonito encontro da conciliação colonial. O "Festival do Arranjinho", nas palavras da mídia portuguesa, apegada à letra e ao antieufemismo.

Onde jabá corporativo e dinheiro público alimentam a corrupção supramagistocrática. Onde a fome por lobby se junta à vontade de jantar. De jantar muitos jantares com empresários, políticos, magistrados e ministros de governo. De entreter conversas anódinas, de risadas amigas e programadas.

Onde presidente da Câmara, o do Senado e o anfitrião devem pedir pacificação: supersalários e subsídios não se discutem; tributação equânime entre ricos e pobres, entre professor de escola pública, policial militar, médico do SUS e CEOs não se discute; cortar recursos da saúde e de políticas de redução da pobreza se discute. Em mais uma vitoriosa conciliação nacional.

Poesia | A espantosa realidade das coisas, de Fernando Pessoa (Por Mário Viegas)

 

Crônica | Divagação sobre as ilhas, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | "Último Dia"/ "Mexe com Tudo"- Antonio Nóbrega - DVD Nove de Frevereiro

 

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Opinião do dia - Gaetano Salvemini*

“Ridicularizar, desvalorizar, injuriar a democracia, na medida em que é conjunto das ‘instituições democráticas’ modernas, é algo que se compreende nos militares, na alta burocracia civil, nos magnatas da terra e da indústria, das finanças, nos intelectuais que alcançaram uma posição econômica superior... Mas que as pessoas em geral, que militam em partidos não-oligárquicos, não-plutocráticos, não-autoritários, e mais, que pretendem combater as plutocracias, as oligarquias rígidas e hereditárias, os regimes autoritários, ridicularizarem a democracia, é prova de uma verdadeira estupidez.”

*Gaetano Salvemini (1873-1957), foi um político, historiador e escritor antifascista italiano, texto escrito logo depois da Marcha sobre Roma, citado por Norberto Bobbio, “Ensaio sobre Gramsci e o conceito de sociedade civil”, p.86. Paz e Terra, 2002.

 

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Decisão do STF não resolve crise fiscal fluminense

O Globo

Liminar de Toffoli traz alívio, mas, enquanto não fizer ajuste robusto nas contas, estado precisará de socorro

A decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), de prorrogar até o fim do ano a permanência do Rio de Janeiro no Regime de Recuperação Fiscal (RRF) dá algum fôlego às combalidas finanças fluminenses. O estado poderá continuar pagando parcelas mais suaves da dívida que, no mês passado, chegou a R$ 224 bilhões, além de ganhar tempo para negociar adesão ao novo programa federal de financiamento, o Propag. Mas o governo precisa ter em mente que, se não promover um ajuste robusto nas suas contas, logo estará novamente batendo à porta da União ou da Corte em busca de socorro.

No entendimento de técnicos federais, o Rio descumpriu as regras do RRF ao tomar decisões — como aumento salarial para servidores — que geraram rombo de mais de R$ 3 bilhões em 2023. O governo fluminense contesta e recorreu ao STF. Toffoli manteve o Rio no RRF e estabeleceu um teto de R$ 4,9 bilhões por ano para pagamentos da dívida (equivalente ao de 2023). Não tivesse conseguido um novo respiro, o Rio poderia ser obrigado a quitar R$ 8,2 bilhões até o fim do ano.

Lula e o cerco invisível: a maratona de governar um país que se recusa a ser nação - Paulo Baía*

Há países que caminham. Outros correm. O Brasil parece arrastar consigo as correntes de sua própria história, como se cada passo fosse vigiado por fantasmas antigos. Desde que Luiz Inácio Lula da Silva retornou ao centro do poder, eleito não apenas pelas urnas mas pela esperança fatigada de um povo exausto, o que se viu não foi a travessia serena de um novo tempo, mas o cerco sutil e persistente de um país que, em seu íntimo, parece se recusar a ser governado.

Lula não venceu um oponente. Tocou em feridas abertas. Despertou memórias inconciliadas. Provocou, com sua vitória, não apenas a derrota de um projeto anterior, mas o retorno do medo, o acirramento dos ressentimentos e a reanimação de uma máquina de negação que opera em silêncio, com precisão cirúrgica. A oposição não desapareceu com a derrota de Bolsonaro. Antes, se alicerçou. Reorganizou-se com disciplina. Não apenas resiste, mas disputa, com intensidade e inteligência, o campo simbólico e concreto da política nacional. O bolsonarismo não é mero eco do passado. É estrutura viva, operante, ardilosa. Tem narrativa, tem fé, tem povo. Tem um líder que, mesmo silenciado por circunstâncias jurídicas, permanece como espelho e estandarte.

Não é possível revogar o ano de 2025 - Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Votos de deputados e senadores para anular uma medida do Executivo mostram que as eleições de 2026 estão no comando dos fatos

Mais do que o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o decreto legislativo baixado pelo Congresso Nacional na semana passada parece ter revogado o ano de 2025. Os votos de deputados e senadores para anular uma medida do Executivo mostram que as eleições de 2026 estão no comando dos fatos. Ontem, contrariando os conselhos da turma do “deixa disso” que quer preservar o diálogo com o Legislativo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu à Justiça para combater o que julga ser uma invasão de suas prerrogativas constitucionais no caso do IOF. O modo embate segue acionado.

Desembarque do Centrão ao som de Tim Maia - Fernando Exman

Valor Econômico

Marcar posição defendendo limites a um impopular aumento da carga tributária era tudo o que as legendas de centro e direita queriam

A turbulência institucional provocada pelo impasse envolvendo o decreto que elevava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) tem trilha sonora. É “Me dê motivo”, clássico da MPB consagrado na voz de Tim Maia e transformado em música de fundo pelo Centrão para colocar um pé fora da canoa do governo Lula.

Marcar posição defendendo limites a um impopular aumento da carga tributária, mas sem necessariamente deixar de imediato os cargos que ocupam na máquina pública federal, era tudo o que as legendas de centro e direita queriam neste momento em que piscam para os pré-candidatos de oposição.