O Estado de S. Paulo
Sem respeito ao dinheiro público, todos
brigam, quase ninguém tem razão e o pão continua a faltar. O essencial, cuidar
dos interesses dos que mais dependem do Estado, torna-se secundário
O clássico Os donos do poder, de Raymundo Faoro,
publicado em 1958, nunca foi tão atual. Na Escola de Economia de São Paulo da
Fundação Getulio Vargas, onde me graduei, ganhei um exemplar das mãos do
estimado Professor Marcos Fernandes Gonçalves da Silva, há 20 anos.
Apreendi sua mensagem, que é muito clara: o
Estado brasileiro compõe-se, em muitos casos, de estamentos, fatias ou nacos de
poder voltados a interesses privados. Atacar esses interesses desperta os
instintos mais primitivos dos que operam esse sistema não republicano.
O episódio do decreto presidencial do IOF,
especialmente no capítulo mais recente – sua derrubada pelo Congresso seguida
de judicialização – é sintomático. Vivemos uma situação delicada e perigosa, em
que a responsabilidade fiscal é confrontada diuturnamente.
Sem respeito ao dinheiro público, todos
brigam, quase ninguém tem razão e o pão continua a faltar. O essencial, cuidar
dos interesses dos que mais dependem do Estado, torna-se secundário. O
privilégio aos amigos do rei, principal. Responsabilidade fiscal não é
tecnicismo de especialista, mas o único caminho para promover políticas
públicas sustentáveis, fazendo cumprir a Constituição Cidadã.