O Globo
Não há incompatibilidade em marchar por
jovens negros vivos e discutir equilíbrio fiscal e proteção ao meio ambiente
Das urnas, seja no Brasil, seja nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, irromperam sinais de apreço à democracia e repúdio ao arbítrio. No histórico discurso de promulgação da Carta de 1988, o presidente da Assembleia Nacional Constituinte, deputado Ulysses Guimarães (1916-1992), fez referência à contribuição ao texto “de gente, de rua, de praça, de favela, de fábrica, de trabalhadores, de cozinheiras, de menores carentes, de índios (sic), de posseiros, de empresários, de estudantes, de aposentados, de servidores civis e militares”. Tal como nos anos 1980, o povo tomou parte na festa que, aqui, concedeu a Luiz Inácio Lula da Silva o quarto mandato presidencial; lá, restituiu via arrastão de votos aos candidatos democratas a correlação de forças entre a Casa Branca e as duas Casas Legislativas.
No Brasil, o comparecimento no segundo turno,
contrariando tendências, cresceu quase 2 pontos percentuais. Praticamente 3
milhões de brasileiros que não haviam votado em 4 de outubro apareceram três
semanas depois. Nos Estados Unidos, três dias antes da eleição, o total de
votos antecipados, 51,3 milhões, já havia batido o recorde de 2022, 45,9
milhões. Iniciada a apuração, o Partido Republicano, de Donald
Trump, havia perdido, de uma só vez, a liderança da Câmara, do Senado,
governos estaduais e uma enxurrada de cargos locais. Os eleitores deixaram
claro: não foi em nome deles que Trump entrou em guerra contra o Irã,
inflacionou o orçamento das famílias, tocou o terror na política de imigração.
A plataforma do New York Times com os
resultados da eleição por gênero, raça, faixa etária, escolaridade e até
comparecimento em pleitos anteriores confirmou o tsunami na direção dos
democratas. O partido de Barack
Obama, Joe
Biden e Kamala
Harris recebeu 63% dos votos dos que não votaram em 2024 e 60% dos que
faltaram às últimas midterms. Ao todo, somou 56% dos votos, ante 43% destinados
aos republicanos. Os democratas avançaram 15 pontos percentuais sobre dois anos
atrás, quando Trump venceu tanto na escolha popular quanto no colégio
eleitoral. Desta vez, homens entregaram 17 pontos a mais aos democratas (51%
dos votos); mulheres, 13 pontos (61%); negros, 9 (91%); hispânicos,
impressionantes 28 pontos adicionais (69%).
A virada nos votos dos latinos sugere repúdio
às violentas operações de captura e deportação em massa de estrangeiros, nem
todos indocumentados. Noutra evidência de rejeição ao presidente, adesivos da
campanha “I voted” (em português, “eu votei”) foram parar nos memoriais em
homenagem a dois cidadãos americanos, Renee Good e Alex Pretti, assassinados
pelo ICE em Minneapolis, durante protestos contra a política de imigração no
início deste ano.
O pleito nos Estados Unidos foi um inequívoco
“não” ao racismo, à xenofobia, à misoginia, traços de governos de extrema
direita. Nunca um elenco tão diverso foi içado simultaneamente às cadeiras do
poder. Em 2027, quatro estados (Maryland, Flórida, Wisconsin e Nevada) serão
comandados por homens negros; 15, por mulheres. A Geórgia elegeu Keisha Lance
Bottoms, primeira governadora negra da História do país; o Texas, Gina
Hinojosa, a primeira latina; o Novo México, Deb Haaland, primeira indígena. Ao
todo, uma centena de mulheres comporá a bancada democrata na Câmara; em 1987
eram 12. Hakeem Jeffries deverá se tornar o primeiro presidente negro da Casa.
New Hampshire levará a D.C. o primeiro senador abertamente homossexual, Chris
Pappas; Michigan, o primeiro muçulmano, Abdul El-Sayed. No Alabama e em
Washington, duas mulheres trans, Allison Montgomery e Jaelynn Scott, integrarão
os Legislativos locais.
Pessoas diversas foram escolhidas pelo povo
para assumir funções públicas, num país em que, há um par de anos, o presidente
pôs fim a ações afirmativas e proibiu o uso em documentos, sites e programas
oficiais de centenas de palavras relacionadas à agenda progressista ou à
cultura que chamam de woke.
A luta por direitos das minorias — que, no Brasil, gostam de chamar de
identitarismo — nunca foi unidimensional. Taí a deputada federal Erika
Hilton (PSOL-SP), negra e trans, capaz de brigar pela inclusão dos
LGBTQIA+ e pautar o fim da escala 6x1. Quem se espanta ao ver uma candidata
preta, aqui, ou latina, nos Estados Unidos, tratar de custo de vida, educação
integral ou tarifa zero nos transportes está refém da miopia que reserva a
universalidade aos homens brancos, donos do mundo. Não há incompatibilidade em
marchar por jovens negros vivos e discutir equilíbrio fiscal e proteção ao meio
ambiente. Trago boas-novas. A diversidade é potente, tem ideias, faz justiça. E
venceu.

Um comentário:
Visão oposta de Thaís Oyama - Só há um equívoco,a Érica Hilton é negra,mas não é preta,segundo o IBGE,os pardos também são negros.
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