sábado, 7 de novembro de 2026

Os EUA confirmam: a democracia vive, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Com a retomada do controle das duas casas legislativas, o Partido Democrata foi capaz de impor uma derrota política inquestionável a Donald Trump, que vem amargando um índice de popularidade decrescente

O resultado das eleições norte-americanas ofereceu uma surpresa mesmo a quem já antecipava a possibilidade de uma "onda azul". Retomando o controle das duas casas legislativas, o Partido Democrata foi capaz de impor uma derrota política inquestionável a Donald Trump, que vem amargando um índice de popularidade decrescente à medida que inflação e piora das condições gerais de vida avançam.

A diminuição da abstenção e as manifestações de massa puxadas por estudantes que vimos por lá ecoaram a energia e o humor que testemunhamos por aqui semanas antes. Em países da Europa, como Espanha e França, e junto aos nossos vizinhos, como a Argentina, a esperança de um revigoramento do que se convencionou chamar de centro-esquerda democrática é mais perceptível, especialmente em contexto de crise compartilhada nos países do Ocidente.

O Brasil, nesse sentido, foi um exemplo interessante de que a democracia é capaz de encontrar saídas para reagir a projetos autoritários. Mobilização popular, articulação partidária, engajamento da sociedade civil aparecem como recursos poderosos, em sociedades em que a democracia já se consolidou como cultura política.

A eleição desponta periodicamente como um exercício de teste: diante do espelho, a sociedade escolhe o futuro que deseja para si, o que está de acordo ou não com seu projeto de vida boa. Para todos os efeitos, 2026 foi um ano que nos provou que o voto ainda importa, ainda é manifestação de poder, e que há alternativas possíveis ao radicalismo político.

Por tudo que temos testemunhado, podemos respirar um pouco, reconhecendo que a captura das liberdades adquiridas é mais desafiadora do que parece. Mesmo com a intervenção de grandes empresas de tecnologia, mesmo com uma cooperação transnacional observada com os grupos de extrema direita, há uma força que resiste, e que se relaciona justamente com o amadurecimento da consciência política.

Por mais que se insista que a sociedade brasileira é ideologicamente polarizada, não há como negar que, em certas pautas, há uma maioria muito sólida: a maioria da sociedade brasileira não está disposta a renunciar à rede de proteção social conquistada ao longo de décadas de desenvolvimento. O direito à educação de qualidade, o direito à saúde, a proteção mínima ao trabalhador, a garantia da previdência, a defesa forte da soberania nacional não são pautas controversas para o brasileiro. Todos querem viver bem, com dignidade e qualidade de serviços públicos.

Divergências políticas são saudáveis e dão brilho à experiência de um país livre. Por isso, não deixa de ser um alívio constatar que, superadas as nossas diferenças, continuamos acreditando no potencial de um governo do povo para o povo.

*Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade Federal do Ceará

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