sábado, 7 de novembro de 2026

Governo de continuidade, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Lula foi transparente na campanha. É coerente agora. Não tem pressa. E, no seu ritmo, reunindo-se com Mantega e outros mercadantes, distribui comunicação política clara: a agenda fiscalista foi derrotada nas urnas. Derrotados, segundo nos informa o presidente reeleito, o mercado financeiro e o Banco Central, aplicador de juros – comunica-se também – para punir o País. O governo, inflacionário e endividador, trata remédio como doença.

(A propósito, que Galípolo se prepare: o inconformismo petista com a autonomia do BC, combatente único da inflação, materializar-se-á num novo grau de agressividade contra a sua gestão e ele próprio, um traidor.)

Vitorioso nas urnas, motor para a mobilização de eleitores ausentes no primeiro turno, o discurso de defesa-ampliação de programas sociais, contra a ameaça do tesouraço bolsonarista. Vitorioso nas urnas, afinal, o governo “quatro anos em um mês” – o compromisso acelerado com a expansão de gastos. A isso se subordinará aquilo que Lula 4 fizer em termos de ajuste fiscal. O que quer que venha, virá a serviço de encaixar o aumento da conta.

Veremos isso no pronunciamento do presidente à Nação, a ser transmitido no domingo, em que a responsabilidade fiscal, porção secundária no texto, comporá o aceno conciliatório àqueles que o rejeitam.

Esta é a mensagem difundida diariamente, desde 25 de outubro: Lula não disputará um terceiro turno contra a pautapressão dos que, avalia, chantageiam-no. Vai viajar, enquanto Dario Durigan (cuja cotação para permanecer à frente da Fazenda subiu) prepararia um cardápio magro de possíveis medidas, dentre as quais, quando voltar, e sem afã, escolherá salada com tomate, quiçá, por ousadia, acrescida de um franguinho.

Lula escolherá algo que diminua o ritmo de crescimento da dívida pública. Noutras palavras: tentará rolar a bomba adiante.

O presidente reeleito não considera que o problema fiscal do Brasil seja grave; não para impor respostas urgentes e estruturais. Essa é a premissa a ser entendida por quem pretende projetar a gestão econômica de Lula 4 – um governo (outra premissa) de continuidade. O presidente reeleito avalia que este é seu melhor governo.

Houve incompreensão sobre o que declarou assim que vitorioso: “(...) vamos mudar o jeito de governar este país.” Falava de forma. Do jeito. E falava de comunicação, ante o efeito Janones. Falava sobre como comunicar melhor sobre o seu (melhor) governo.

Depois da reunião com Mercadante e outros mantegas, em 5 de novembro, disse: “Precisamos saber que, para a gente atrair, a gente vai ter que ter uma economia arrumada. Ninguém vai querer vir fazer investimento em uma economia totalmente desordenada.” O conceito de “economia arrumada” é relativo. Lula tem certeza de que o seu melhor governo tem a “economia arrumada”.

 

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