domingo, 2 de novembro de 2014

O mito da nação partida ao meio

• Com toda a tragédia, todas as reviravoltas e toda a paixão, a disputa de 2014 está sendo vista como marco na cisão nacional, mas é o contrário: num ritmo sólido e lento, próprio de países estáveis, o eleitor está-se afastando do PT, eleição após eleição

João Paulo Martins e André Petry – Veja

Uns poucos meses antes do pleito presidencial, qualquer estudioso da política diria que o PT estava irremediavelmente perdido. Nas democracias, os fatores que ditam uma eleição, ensinam os analistas, são três: estado e percepção da economia, popularidade do governo e tempo de permanência do partido no poder — quanto mais tempo, pior. A economia brasileira entrava em recessão técnica e o pessimismo crescia, a popularidade de Dilma Rousseff estava perto do fundo do poço e o PT completava doze anos no Palácio do Planalto, o mais longo período da nossa história democrática. Os três indicadores, portanto, favoreciam o PSDB.

Diz o cientista político Antonio Lavareda: "Os tucanos sabem, interna e reservadamente, que perderam pela campanha que fizeram, pelos erros estratégicos que cometeram". O PT explorou impiedosamente tudo que lhe caiu no colo. Aproveitou a adjetivação "leviana" do tucano à presidente para retratá-lo como um candidato desrespeitoso com as mulheres. Utilizou a derrota do PSDB para o governo de Minas Gerais para embalar o bordão que se revelou eficaz: "Quem conhece Aécio não vota em Aécio". Quando tudo conspirava para sua derrota, o PT virou o jogo. Por pouco, mas virou.

A boa notícia para o PSDB é que o partido encerra a campanha em ascensão. Seu desempenho cresce a cada pleito, enquanto o do PT cai. De 2002 para cá, o eleitorado petista encolheu 10 pontos porcentuais, de 61% para 51%, num ritmo gradual mas sem recuos. Na primeira vitória presidencial, Lula perdeu só em Alagoas. Em 2006, perdeu nos três estados do Sul, nos dois Mato Grosso, em Roraima e em São Paulo. Quatro anos depois, Dilma acrescentou Acre, Rondônia, Espírito Santo e Goiás à lista de perdas. Agora, foi-se o Distrito Federal.

Nos cinco maiores colégios eleitorais do país, o cenário é parecido. Em dois, São Paulo e Rio Grande do Sul, os tucanos estão à frente dos petistas. Entre os paulistas, a vantagem é de 29 pontos. Entre os gaúchos, são 7. Nos outros três, o PT ainda tem mais votos, mas vem caindo em todos. Em Minas Gerais, a dianteira petista reduziu-se para 5 pontos. No Rio de Janeiro, para 10. Na Bahia, a liderança é de estratosféricos 40 pontos, mas mesmo lá ela vem se estreitando. Mantida a tendência que se verifica desde 2002, o PT não faz o sucessor na próxima eleição. Talvez por isso, nem bem estava terminada a apuração, Lula já se insinuava como candidato em 2018, quando terá 73 anos.

A dança dos números, eleição após eleição, já confronta, por si só, a tese segundo a qual o Brasil saiu das urnas rachado ao meio — tese motivada, em parte, pelo resultado nacional tão apertado: 51,64% para Dilma e 48,36% para Aécio. Na página seguinte, o leitor verá dois mapas. O menor mostra o Brasil vermelho ao norte e azul ao sul, produzindo a ilusão cromática de um país partido ao meio. É um país inventado. O mapa maior, porém, retrata a realidade, mais complexa e nuançada: o eleitorado não se divide pela geografia, com sulistas de um lado e nordestinos de outro, mas pela situação socioeconômica. Por isso, Aécio, embora bem votado nas áreas ricas e avançadas, também tem votos no Piauí, ainda que poucos. Pela mesma razão, Dilma. candidata dos rincões pobres, tem votos em Santa Catarina, poucos, mas tem. Resume Lavareda: "Não se trata de um apreço setentrional ao PT ou uma aversão meridional ao PT".

Tome-se o caso da região mais populosa e rica do Brasil, o Sudeste. Nos quatro estados da região, Aécio conseguiu 25,5 milhões de votos, mas Dilma recolheu 19,9 milhões. Obviamente, foi um desempenho decisivo para a sua vitória. Na região Sul, em que Aécio venceu com 9,7 milhões de votos, 6,8 milhões de eleitores optaram por Dilma. O equívoco divisionista é traduzir a vitória de um candidato em determinada região como se toda a região tivesse votado no vitorioso. (Aos que andaram pregando a estupidez de dividir o país, faltou consultar os 26,6 milhões de eleitores do Sul e do Sudeste que votaram no PT. Ou os 8 milhões de nordestinos que escolheram o candidato do PSDB.)

A interpretação de que o Nordeste, populoso e pobre, é o responsável pela reeleição de Dilma faz parte das mitologias enganosas da política. Dilma ganhou porque teve um desempenho sólido — nunca inferior a 40% — em todas as regiões do país. O Nordeste lhe deu a votação mais vistosa, mas, sem o apoio razoavelmente expressivo dos eleitores do Sul e do Sudeste, Dilma não apenas perderia a eleição. Levaria uma lavada.

Os 20 milhões de votos que Dilma colheu nos nove estados do Nordeste reforçaram a ideia de que o Bolsa Família, o maior programa social do país, é a melhor explicação para o sucesso eleitoral do PT na região. Sem dúvida, o programa tem peso extraordinário na definição do voto dos mais pobres, tanto que há uma correlação visível: onde tem muito Bolsa Família, tem muito voto no PT. Mas sua influência é relativa. Em pesquisa feita entre os dias 25 e 29 de agosto passado, o cientista político Alberto Carlos Almeida perguntou aos eleitores se haviam melhorado de vida e, em caso positivo, o motivo da melhora. O nível de emprego ganhou, com 50% das menções. Só 24% apontaram as políticas sociais e 18%, o aumento do salário mínimo.

É fácil supor que o PT, tomando o lugar do poder privado, tenha virado no Nordeste o coronel do século XXI e o Bolsa Família seja seu voto de cabresto — e, parodiando Victor Nunes Leal, autor do clássico Coronelismo, Enxada e Voto, teríamos agora o "Petismo, Bolsa Família e Voto". A melhor explicação para o desempenho petista no Nordeste, no entanto, está na confluência de um conjunto de políticas sociais — do financiamento do estudo universitário às habitações populares — com um trabalho exemplar de marketing. Em poucos anos, o PT, que antes se identificava com a massa de trabalhadores organizados e as classes médias urbanas, perdeu contato com sua base original e, mais que depressa, propagandeou-se como defensor dos pobres, reencarnando um brizolismo extemporâneo. "O PT conseguiu criar para si a imagem do partido dos pobres", diz o cientista político Jairo Nicolau, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Na hora de apertar o botão da urna eletrônica, isso pesa para o eleitor da Baixada Fluminense, do Vale do Jequitinhonha." No Nordeste, além da imagem projetada pelo PT, entra em jogo o próprio desempenho da região, que vem sistematicamente crescendo mais do que a média brasileira.

Nos cinco primeiros meses deste ano, a economia nacional encolheu 0,6%, enquanto a economia nordestina cresceu 4%, segundo dados do Banco Central. Os investimentos federais na região são maciços. Em Pernambuco, no mandato de Dilma, são 8 bilhões de reais só para a habitação. No Ceará, perto de 9 bilhões de reais. São 4,5 bilhões no Rio Grande do Norte. De 2000 para cá, com a construção de sete universidades na região, o número de nordestinos no ensino superior saltou de 400 000 para 1,4 milhão. O progresso na região, aliado às políticas sociais, mostra que os nordestinos têm motivos sólidos para querer a reeleição de Dilma.

O Santo Graal da ciência política é descobrir as razões do voto. As teses sociológicas e psicológicas, nascidas entre os anos 50 e 70, acabaram cedendo espaço à chamada "escolha racional", corrente majoritária hoje. Por essa interpretação, o eleitor sempre usa a racionalidade na hora do voto, ainda que nem tenha plena clareza sobre isso. Ele calcula sua situação, compara com as opções e vota — com egoísmo, quando pensa só nele, ou com altruísmo, quando pensa nos outros. Parece simples, mas é um processo quase indecifrável de tão complexo. Será mesmo que o voto é racional? Será que o eleitor tem informação suficiente para decidir racionalmente? Mesmo sem essas respostas, é notável constatar que, geralmente, o eleitor tem ótimas razões para votar como vota.

Fernando Henrique Cardoso: "A oposição não deve temer Lula. Ele perdeu prestígio"

• O ex-presidente diz que a promessa de diálogo da presidente Dilma, por enquanto, são apenas palavras – e que é difícil passar uma borracha sobre as “infâmias” da campanha

Guilherme Evelin – Época

Após o anúncio da reeleição da presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso seguiu para o México para participar do 15º encontro do Foro Ibero-Americano, evento criado pelos escritores Carlos Fuentes e Gabriel García Márquez que, anualmente, reúne ex-chefes de governo e outras personalidades dos países ibero-americanos. Num dos intervalos do encontro, FHC conversou com ÉPOCA sobre o resultado da eleição, o papel da oposição diante dos acenos de diálogo da presidente Dilma e as perspectivas para 2018. Condenou a proposta de reforma política pela via do plebiscito e disse que o caminho correto é o referendo, desde que haja um acordo sobre o conteúdo das mudanças.

ÉPOCA – Como o senhor avalia a reeleição da presidente Dilma?

Fernando Henrique Cardoso – A vitória de Dilma foi bastante apertada, e Aécio chegou muito perto de ganhar. Isso mostra que o Brasil tem dúvidas sobre o melhor caminho. Do ponto de vista do PSDB e da oposição, é a primeira vez que chegamos tão perto, desde quando fui presidente. O Brasil tem força de mudança, e a própria presidente deve ter notado isso. O discurso dela pelo menos mostra isso.

ÉPOCA – Como recebe a promessa de diálogo da presidente?

FHC – Por enquanto, são palavras. E palavras, o vento leva. Temos de ver como ela agirá. Em junho, ela tentou negociar, mas não o fez de maneira apropriada e se precipitou. O mesmo parece acontecer agora. Ela fala em reforma política, mas não fala o que haverá nela. Fala em um plebiscito, quando o termo mais apropriado é referendo. Nós, da oposição, temos de manter a cabeça altiva e os olhos atentos. Importa o que ela fará, não o que ela diz.

ÉPOCA – Plebiscito sobre reforma política é inaceitável?

FHC – O próprio PMDB não aceita isso. Plebiscito é uma fórmula muito propícia à manipulação por parte do governo. É preciso haver primeiro um amplo debate político, para que as ideias amadureçam. Caso haja uma maioria no Congresso em torno de uma posição, submete-se então a questão a um referendo. O plebiscito funciona de outra forma. Se “plebiscitarmos” se deve haver pena de morte ou não, a resposta será sim. Se a maioridade penal deve ser reduzida, a resposta será sim. Aumentar o número de anos na cadeia? A resposta será sim. Tudo o que for mais autoritário normalmente encontrará uma resposta inicial favorável. A grande questão da democracia não é o voto, mas sim o modo como se chega ao voto. A maneira mais apropriada é o referendo.

ÉPOCA – É possível ter um acordo, então, em torno de um referendo sobre reforma política?

FHC – Primeiro, precisamos ver quais são os pontos da reforma política e a melhor maneira de fazê-la. Fora isso, há apenas palavras. Além disso, a campanha foi baseada em agressões pessoais. A respeito do Aécio, a respeito do Aloysio (Nunes Ferreira), a respeito da Marina (Silva). Fizeram reiteradas afirmações falsas a respeito do meu governo. Atribuíram a mim palavras que não disse sobre o Nordeste. Então, vamos passar uma borracha sobre tudo isso? Não! Tem de beijar a cruz. Fizeram uma campanha de ódio.

ÉPOCA – O acirramento da campanha permanecerá?

FHC – Espero que não permaneça. Mas, para ele não permanecer, estamos num jogo de xadrez. A iniciativa está com as pedras brancas. A movimentação é do governo, não nossa. Quem criou esse clima todo não fomos nós. Foi o governo. Quem falou que representamos o capital financeiro, que o Aécio é um playboy, que os tucanos quebraram o Brasil não fomos nós. Foi o governo. Se tivessem usado outra linguagem, apontando as diferenças reais que existem, seria possível conversar. Divergências políticas são sustentáveis. Com infâmias, não é possível conversar.

ÉPOCA – Aécio saiu com a melhor votação desde seu governo. Qual será, em sua opinião, o papel dele a partir de agora?

FHC – Ele deve valorizar o resultado, honrar a confiança depositada nele e ser o porta-voz da oposição no Congresso, fazendo um combate correto, sem agressões. O futuro de Aécio depende só dele.

ÉPOCA – Ele se tornou o líder natural do PSDB após a eleição?

FHC – Liderança não é um posto. É um exercício. Se ele exercer, será sim.

ÉPOCA – Por causa do petrolão, já há uma crise política contratada para 2015. Como a oposição reagirá às investigações?

FHC – Esse fato não é político, mas policial. E tem graves proporções. Um dos pontos importantes para o fortalecimento da democracia no Brasil é fortalecer as instituições de Estado: o Ministério Público, os Tribunais, a Polícia Federal. Na medida em que as instituições funcionarem, de forma adequada, cabe à oposição prestigiá-las. Não é a oposição que deve buscar os culpados e indiciá-los. As consequências políticas virão depois. Quem será atingido? Como a presidente reagirá? Ela não reagiu bem aos questionamentos sobre o Vaccari (João Vaccari, tesoureiro do PT). Ela fará como o presidente Lula, que finge que não aconteceu nada? Ou agirá como estadista? Estamos num momento delicado. Por enquanto, as coisas funcionam, mas ainda é cedo para falar na extensão delas. Suspeito que não seja apenas a Petrobras. Há os fundos de pensão, sabe-se Deus quanto a Eletrobrás está envolvida. Há um panorama que leva a crer que haja uma corrupção organizada, sistematizada e com bênçãos políticas. Isso é crime institucional.

ÉPOCA – A presidente disse que não deixará pedra sobre pedra.

FHC – O que aconteceu com a Erenice (Guerra, ex-ministra da Casa Civil)? Nada. Você lembra quando acusaram a Ruth (Cardoso) e a mim sobre os cartões corporativos do governo? Alguém apurou? Nada. Então, precisa ver se serão só palavras. Acredito na boa vontade da Dilma, mas tenho dúvidas se ela conseguirá escapar do sistema político em que está envolvida.

ÉPOCA – Em março de 2013, o senhor deu uma entrevista para ÉPOCA em que afirmou haver um “sentimento mudancista” na sociedade. Esse sentimento se manifestou nas eleições?

FHC – O sentimento mudancista se expressou. Não há dúvidas. Tanto que os dois lados usaram a palavra mudança por todo lado. Em São Paulo, vi um clima com similitude às Diretas Já! A classe média foi às ruas, numa demonstração de que o movimento começa a ganhar contornos políticos. Agora, o aproveitamento eleitoral do sentimento mudancista não foi generalizado. O ponto mais surpreendente foi Minas Gerais. Houve falhas. Não sei se do Aécio. Mas, da campanha, sim.

ÉPOCA – O senhor escreveu, há alguns anos, um texto em que afirmava que o PSDB deveria mirar as classes emergentes. A classe C não foi para Aécio na hora decisiva? O que aconteceu?

FHC – Não tenho dados para dizer o que ocorreu. A classe C de São Paulo, de Estados do Sul, do Mato Grosso, provavelmente, votou em Aécio. Mas, onde o governo tem influência, talvez a classe C tenha votado no PT. O fator determinante não foi a classe em si. Mas como ela se relaciona com o Estado. Onde o PSDB costuma ganhar e agora se reforçou? No Sul, São Paulo e em toda a zona que penetra Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e vai até o Acre. É a fronteira do agronegócio. É o Brasil moderno, que pulsa. Há presença do Estado, mas não é predominante. A divisão não foi entre os mais pobres e os mais ricos. Os mais pobres em locais modernizados votaram em Aécio. Agora, onde a máquina pública é mais influente, votaram no outro lado. Houve uma mudança na composição do PT. Ele nasceu no ABC, em São Paulo, mas agora perdeu no ABC e se enraizou em outras áreas do país, onde há dependência clientelística do governo. No passado, aconteceu uma coisa semelhante, entre MDB e Arena. O PSDB deve continuar a mirar nas classes médias emergentes. Isso é a modernização, o avanço, o progresso. Assim se cria uma classe mais empreendedora, mais autônoma, menos dependente do Estado.

ÉPOCA – O PT caminha para 16 anos de governo e já lançou Lula para 2018. Poderemos ter no Brasil algo semelhante ao que representou o PRI, no México?

FHC – O PT gostaria de ser o que o PRI foi no México do passado: um partido hegemônico atrelado ao Estado. O PT gostaria de ser hegemônico não só do ponto de vista político, mas também do ponto de vista das ideias. Ele usa o instrumental do Estado para modelar as imagens. Mas não consegue ser hegemônico. O PRI tinha muito mais votos que o PT. O PT sozinho não tem essa votação toda. Agora, caíram. São 70 deputados em 513. Mesmo essa questão de o Lula ser candidato... A oposição não deve temer o fantasma do Lula, não. Ele perdeu o prestígio. Onde ele indica, os nomes não ascendem.

ÉPOCA – Dilma disse que tentará mudar. O senhor acredita?

FHC – É difícil que alguém mude. Mas ela aceitou a noção do jogo político, que será desfavorável se continuar do jeito como está. Mas reitero: é preciso mudar com fatos, não com palavras.

Luiz Werneck Vianna: “Plebiscito sobre reforma política jogaria o país num labirinto”

• O cientista social vê um momento de virada no país, em que a democracia poderá se aprofundar. Tudo pode sair mal, no entanto, se as lideranças políticas não jogarem direito

Guilherme Evelin – Época

Um dos principais cientistas sociais do país, o carioca Luiz Werneck Vianna viu com preocupação a iniciativa da presidente Dilma Rousseff, logo no primeiro discurso depois de reeleita, de propor, mais uma vez, uma reforma política pela via do plebiscito. O caminho correto para uma reforma, diz Werneck Vianna, é pela via do Congresso Nacional. Se o governo insistir na tese do plebiscito, ele acredita que poderemos ir para uma situação parecida ao dos tempos do ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe de 1964. Nela, um Executivo enfraquecido tenta se fortalecer mobilizando setores da sociedade contra o Legislativo. A despeito dessa preocupação, Werneck vê um momento de virada na sociedade brasileira, em que a democracia poderá se aprofundar no país. Ele adverte, porém, que esse momento poderá se tornar “péssimo”, se as lideranças políticas não souberem jogar direito. Ele falou com ÉPOCA durante o encontro anual da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), em Caxambu (MG).

ÉPOCA – Como avalia os ensaios para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff? É boa a proposta de reforma política por meio de um plebiscito?

Luiz Werneck Vianna – Essa proposta é inviável. Ela jogaria o país no labirinto. Nem responsável é, porque ela é inteiramente incapaz de dar uma solução ao problema. Você precisa de uma reforma política que faça as coisas andar e não de uma que paralise o país, que oponha um Executivo, mobilizador de setores da sociedade, a um Legislativo, pressionado a aprovar determinado projeto. Isso não vai a lugar nenhum. A via correta para a reforma política é a congressual.

ÉPOCA – Dilma saiu enfraquecida politicamente dessas eleições?

Werneck Vianna – Saiu.

ÉPOCA – Não é uma contradição que ela fale em diálogo e coloque a carta do plebiscito na mesa de negociação, quando ela está enfraquecida?

Werneck Vianna – Sim. É contraditório falar em diálogo e vir com uma proposta de reforma política via plebiscito. Se ela for nessa direção, atenção,eu estou falando na condicional,se ela for nessa direção, isso quer dizer que ela vai procurar apoio na sociedade para se fortalecer contra o poder Legislativo, contra a oposição. Lembra um pouco os tempos do Jango, com suas reformas de base. É o Executivo tentando realizar reformas contra o Legislativo.

ÉPOCA – Há diferentes diagnósticos sobre a influência das jornadas de junho de 2013 nas eleições. Qual é a sua opinião?

Werneck Vianna – Foi muito grande. A agenda dessa campanha, com a discussão das políticas públicas de saúde e principalmente de educação, derivou das manifestações de junho.

ÉPOCA – A polarização política entre PT e PSDB tende a permanecer?

Werneck Vianna – Acho muito difícil que nós nos convertamos numa estrutura bipartidária, mas a polarização pode permanecer, sim. Nos Estados Unidos, a polarização entre democratas e republicanos está aí desde sempre. No Reino Unido, entre conservadores e trabalhistas, também. Por que não pode permanecer no Brasil? Pode, sim. A questão é outra: seria desejável? No nosso caso, eu acho que não. A existência de outras forças políticas pode reforçar a ligação do sistema político com a sociedade civil complexa e heterogênea que temos. No mundo real, o brasileiro tem se mostrado avesso a estruturas políticas muito simplificadoras.

ÉPOCA – O que achou do acirramento de ânimos provocado por essa eleição?

Werneck Vianna – Esse acirramento não foi bom, porque ele não se deu em torno de questões substantivas. Ele foi muito personalizado, fulanizado. Isso é ruim, porque não educou a sociedade.

ÉPOCA – Como observador da nossa política há muitos anos, o que lhe chama a atenção nessas eleições?

Werneck Vianna – Nós estamos num momento de uma grande virada. A democracia brasileira criou condições de se enraizar. Mais agora do que em qualquer outro momento. Está claro para a sociedade, eu penso, que as reformas e as mudanças sociais derivam do processo eleitoral – e não de ações externas ao processo eleitoral. Vale dizer: as eleições no Brasil são uma forma superior de luta da agenda social. As pessoas vizualizaram, por experiência própria, que o caminho de conquistas sociais está no aprofundamento da democracia política.

ÉPOCA – Isso já não existia antes?

Werneck Vianna – Já existia. Mas pegou mais força, mais consistência, mais densidade.

ÉPOCA – Que tipo de consequência isso pode ter?

Werneck Vianna – A sociedade precisa se organizar, os partidos precisam melhorar suas estruturas para que o debate político ganhe mais consistência.

ÉPOCA – É um bom momento para o país, então?

Werneck Vianna – É um bom momento, do ponto de vista sociológico.Se será um bom momento de verdade, dependerá da ação dos atores políticos. Se eles jogarem de forma desastrada, pode ser um mau ou até um péssimo momento. Se insistirem nesse caminho da reforma política pelo plebiscito, os atores políticos estarão jogando no sentido de turvar e obstaculizar as belas possibilidades de aprofundamento da democracia, com que contamos agora.

Com o país na cabeça

• Aécio Neves tinha fortes razões para acreditar que venceria, mas reagiu rapidamente à derrota e se prepara para voltar a enfrentar Dilma como o líder da oposição

Bela Megale – Veja

O champanhe da comemoração já estava no gelo. No apartamento de Andrea Neves, irmã de Aécio Neves, em Belo Horizonte, garçons de um bufê contratado serviam uísque e cerveja aos mais de cinquenta convidados que esperavam ansiosos o momento de erguer o brinde da vitória. Estavam lá aliados do candidato tucano, correligionários de todo o país e amigos como o apresentador Luciano Huck. O otimismo dos presentes se devia à enxurrada de boas notícias que chegavam ao apartamento desde as 18 horas daquele dia 26. Boletins de urnas e seções eleitorais mostravam o candidato do PSDB com até 10 pontos de vantagem em relação à petista Dilma Rousseff — e isso com a apuração já na reta final. Em São Paulo, a informação era de que Aécio tinha conseguido alcançar a marca de 64% dos votos. O deputado e aliado Beto Albuquerque (PSB-RS), que foi vice de Marina Silva, ficou tão animado com as informações que recebeu sobre o Rio Grande do Sul que chegou chamando Aécio de presidente.

Pouco antes do anúncio do resultado, às 20 horas, o senador chamou para ficar ao seu lado a mãe, Inês Maria, a filha Gabriela e a mulher, Letícia. O prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, colocou-se a postos para filmar com o celular a mensagem da vitória, que também seria registrada por um cinegrafista profissional. Mas a cena que as câmeras captaram foi a de Gabriela levando as mãos à boca, perplexa com os números que via na TV. Aécio deteve os olhos na tela apenas por uma fração de segundo. "Não dá mais", disse. "Faltam só 5%." Letícia abraçou o marido e uma salva de palmas tomou o apartamento. "Depois disso, foi pior que o 7 a 1 da Copa", resumiu um aliado. "Baixo-astral geral."

Ao menos da parte de Aécio, no entanto, o desânimo durou pouco. Sempre que vai à hoje famosa fazenda em Cláudio, no interior de Minas Gerais, o senador aproveita para se desligar da política. Não fala do assunto, não fica ao telefone e mantém distância da internet. Dedica-se apenas a aproveitar a companhia da família e passear a cavalo, sobretudo à noite. Na semana passada, porém, quebrou a tradição. Retirado na pequena cidade desde terça com a mulher e os filhos gêmeos de 4 meses, Julia e Bernardo, Aécio Neves não largou o celular. Falou sem parar com aliados e assessores próximos, acompanhou todo o noticiário, disparou mensagens convocando líderes do PSDB para uma reunião na quarta-feira com a executiva nacional do partido e gravou um vídeo que, divulgado nas redes sociais, deixou para trás o tom conciliatório do candidato vencido que discursou no domingo. No vídeo, Aécio disse estar "atento e vigilante para que cada compromisso da campanha seja agora cumprido".

Com a reação rápida, o tucano mirou dois objetivos: debelar a frustração de apoiadores e aliados com a derrota e aproveitar a mobilização remanescente da que foi registrada na reta final do segundo turno. Na mesma terça-feira em que Aécio divulgou seu vídeo, o líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy, se reuniu com os líderes Mendonça Filho (DEM) e Rubens Bueno (PPS) e o deputado Paulinho da Força (SD), representantes de partidos que apoiaram Aécio no segundo turno. O deputado Beto Albuquerque (PSB), que também integrou a coligação do tucano, não estava presente, mas conversou com o grupo por telefone. Na reunião, os representantes dos partidos combinaram articular uma candidatura conjunta à presidência da Câmara dos Deputados, representando o bloco oposicionista, e unificar estratégias para fazer frente ao governo.

Da parte do PSDB, por enquanto, as prioridades são lançar uma grande campanha de filiação para tentar captar os eleitores que não votaram no PT e coletar assinaturas para não deixar morrer a investigação sobre o escândalo da Petrobras na CPI que corre no Congresso — e com previsão de acabar neste ano. O partido também pretende trabalhar duro para evitar a dispersão do contingente de insatisfeitos que foi às ruas na reta final da campanha. Para isso, fincará o pé nas redes sociais, universo em que a sigla atua ainda timidamente, se comparada ao PT. Fernando Henrique Cardoso é, entre os tucanos, quem defende com maior vigor a necessidade de investir no segmento jovem.

No Senado, o plano do PSDB é fazer com que o seu ex-candidato à Presidência fale "menos no âmbito congressual e mais para a sociedade", de acordo com um deputado que atuou na coordenação da campanha, querendo dizer que ninguém verá o mineiro travando debates verbais da tribuna com adversários menos graduados. Aécio será preservado para assumir o papel reservado a ele: o de líder da oposição. No que depender do senador, e a contar pela sua movimentação nos últimos dias, a arena já não está vazia.

"O Brasil perdeu o medo do PT"

Pelo telefone, a voz de Aécio Neves em nada se parece com a do candidato vencido que, no domingo, ao assumir a derrota, discursou em tom abatido por pouco mais de dois minutos. O timbre mudou – é de novo o de alguém em combate. De sua fazenda em Minas Gerais, o tucano falou a VEJA sobre os erros da campanha, os planos para o futuro e o novo país que ele acredita ter saído destas eleições.

O senhor saiu desta eleição com a maior votação que um candidato do PSDB já teve no segundo turno, o apoio de 51 milhões de brasileiros e o título de "líder natural da oposição". Como pretende usar esse patrimônio?

Pretendo usá-lo para cumprir minha parte no que será a missão do nosso partido a partir de agora: ser a voz e o sentimento de mais de 50 milhões de brasileiros que demonstraram com a contundência do voto que estão cansados da incompetência e dos desvios éticos desse grupo que está no governo. Desvios éticos que na eleição ficaram ainda mais patentes como o modo de ser deles. O uso despudorado da máquina pública e o terrorismo com que o PT intimidou os eleitores são manifestações de uma mesma visão de mundo, a de que eles são donos do país e podem fazer impunemente tudo o que quiserem. Essa violência não tem paralelo na nossa história democrática. Foram cruéis com os eleitores ao mentir descaradamente para eles. Na baixeza para com seus adversários, o PT estabeleceu também um novo e degradante patamar. Primeiro o Eduardo Campos e depois a Marina Silva foram tratados não como adversários políticos com visões diferentes das deles. Foram tratados como inimigos da humanidade, como seres humanos moralmente defeituosos, maus e insensíveis. Uma eleição ganha dessa maneira diminui o Brasil perante o mundo e perante nós mesmos. A torpeza de métodos do PT depois se voltou contra mim com toda a força, o que me fez pensar com mais carinho em Eduardo e Marina, pessoas decentes, figuras públicas com contribuições sociais extraordinárias para o povo brasileiro, destroçadas sem dó pela máquina do PT. Mas essa campanha produziu um avanço importante. Enquanto o PT envenenava o horário eleitoral, surgia nas ruas uma reação espontânea de resistência cívica popular. As pessoas retomaram as ruas, redescobriram a coragem. Finalmente, depois de tantos anos, o Brasil perdeu o medo do PT.

Esse sentimento cívico que o senhor despertou vai durar quanto tempo?

A vitalidade que esta campanha injetou nas pessoas é uma força que não se dissipará facilmente. Ela vai nos manter unidos. Esse Brasil sem medo do PT vai ser percebido logo pelo governo.
A sociedade está muito mais atenta, vigilante e serenamente imune ao discurso raivoso dos petistas. A oposição saiu revigorada desse processo. Estou pronto para assumir meu lugar nela.

Sem trégua nem lua de mel, como disse o senador (e candidato a vice na chapa tucana) Aloysio Nunes?

Os 51 milhões de brasileiros que se puseram na oposição nas eleições esperam que seus representantes no Congresso sejam vigilantes e firmes. Que se oponham ao governo, e não ao país. Seremos firmes porque nossos eleitores reprovaram nas umas os métodos do PT, sua visão de mundo, seus desvios éticos, a forma como compõe o governo e a forma como governa. Não vamos permitir que o governo desvie a atenção dos brasileiros do maior escândalo de corrupção da nossa história, o da Petrobras.

A presidente Dilma declarou na semana passada que pensa em "chamar para conversar" o senhor e Marina Silva. O senhor vai conversar?

Antes de qualquer coisa, temos de aguardar para ver que cara terá esse governo e que caminhos ele escolherá. Depois disso, claro, podemos pensar em conversar sobre propostas que tenham claro e efetivo efeito positivo para o Brasil. Mas ir lá só para tomar um café não faz sentido. Por tudo o que a convivência com ela nesta campanha mostrou, não seria sequer agradável.

Como recebeu a notícia da derrota?

Houve um primeiro momento de perplexidade com o resultado. Porque o clima era de vitória, era de mudança... Mas minha frustração não foi propriamente por ter perdido a eleição, mas por ter chegado muito próximo de poder dar ao Brasil um novo projeto de futuro, mais generoso para com a sociedade, mais qualificado na economia, mais ousado na política externa. Eu me preparei pessoalmente e em termos de equipe para isso. Tomo emprestada a frase da Marina sobre "perder ganhando". Fizemos uma campanha digna, honrada, que fez com que pessoas que não se conheciam se abraçassem nas ruas e voltassem a acreditar que podem ser protagonistas do seu destino, do seu futuro. Isso tudo me deu a certeza de que perdemos ganhando. Já a nossa adversária, pelo nível da campanha que fez, ganhou perdendo. E o Brasil vai perder se ela mantiver no governo o mesmo padrão de aparelhamento, de distribuição de cargos em troca de apoio, de total descaso pela gestão e de política econômica que espanta o investimento produtivo do nosso país.

Danilo de Castro, presidente do PSDB, disse que Minas Gerais "falhou com um grande estadista". O que o fez perder para Dilma em seu estado natal?

Tenho plena consciência das conquistas e dos avanços que o meu governo proporcionou a Minas Gerais, mas, infelizmente, a força destrutiva que o PT direcionou para o meu estado foi
tão intensa que muita gente pode ter tido dúvidas.

Erros estratégicos, seus ou de sua campanha, pesaram?

Não ter me envolvido diretamente com mais frequência em Minas pode ter sido um erro estratégico.

Foi um fator o desempenho de Pimenta da Veiga, candidato do PSDB que perdeu a eleição para governador no primeiro turno?

Não é justo pôr a culpa nele.

Dilma disse que espera "ser uma presidente e uma pessoa melhor". O senhor acredita nisso?

Um bom começo é ser mais verdadeira, mais atenta à sua consciência e menos ao seu marqueteiro e agir acima das conveniências políticas, pondo em primeiro lugar o interesse dos brasileiros.

*Fernando Henrique Cardoso - Diálogo ou novas imposturas?

- O Estado de S. Paulo / O Globo

Numa democracia não cabe às oposições, como ao povo em geral, senão aceitar o resultado das urnas. Mas nem por isso devemos calar sobre o como se conseguiu vencer, nem sobre o por que se perdeu. Os resultados eleitorais mostram que a aprovação ao atual governo apenas roçou um pouco acima da metade dos votos. Ainda que a vitória se desse por 80% ou 90% deles, embora o respeito à decisão devesse ser idêntico ao que se tem hoje com a escassa maioria obtida pelo lulopetismo, nem por isso os críticos deveriam calar-se.

É bom retomar logo a ofensiva na agenda e nos debates políticos. Para começar, não se pode aceitar passivamente que a "desconstrução" do adversário, a propaganda negativa à custa de calúnias e deturpações de fatos, seja instrumento da luta democrática. Foi o que aconteceu, primeiro, com Marina Silva e, em seguida, com Aécio Neves.

O vale-tudo na política não é compatível com a legitimidade democrática do voto. Marina, de lutadora popular e mulher de visão e princípios, foi transformada em porta-bandeira do capital financeiro, o que não é somente falso, mas inescrupuloso. Aécio, que milita há 30 anos na política, governou Minas Gerais duas vezes com excelente aprovação popular, presidiu a Câmara dos Deputados e é senador, foi reduzido a playboy, farrista contumaz e "candidato dos ricos".

Até eu, que nem candidato era, fui sistematicamente atacado pelo PT, como se tivesse "quebrado" o Brasil três vezes (quando, como ministro da Fazenda, ajudei o País a sair da moratória), como se tivesse deixado a Presidência da República com a economia corroída pela inflação (como se não fôssemos eu e minha equipe os autores do Plano Real, que a reduziu de 900% ao ano para um dígito), como se os 12% de inflação em 2002 fossem responsabilidade de meu governo (quando se deveram ao temor de eventuais desmandos de Lula e do PT).

Não me refiro à língua solta de Lula, que diz o que quer quando lhe convém, mas ao fato de a própria presidenta e sua campanha terem endossado que o PSDB arruinou o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, quando os repôs em sadias condições de funcionamento. E assim por diante, num rosário de mentiras e distorções, insinuando terem sido postos em baixo do tapete vários "escândalos", como o "da pasta rosa", ou o "do Sivam", ou "da compra de votos" da emenda da reeleição, etc., factoides construídos com matéria falsa, levantada pelo PT, submetida a comissões parlamentares de inquérito (CPIs), investigações várias e julgamentos que deram em nada por falta de veracidade nas acusações.

Mas isso não é o mais grave. Mais grave ainda é ver a reeleita colocando-se como campeã da moralidade pública. Entretanto, não respondeu à pergunta de Aécio Neves sobre se era ou não solidária com seus companheiros que estão presos na Papuda. Calou ainda diante da afirmação feita no processo sobre o petrolão de que o tesoureiro do PT, senhor Vaccari, era quem recolhia propinas para seu partido. Havendo suspeitas, vá lá que não se condene antes do julgamento, mas até prova em contrário deve-se afastar o indiciado, como fez Itamar Franco com um ministro e eu fiz com auxiliares, inocentados depois, no caso Sivam. Então, por que manter o tesoureiro do PT no Conselho de Itaipu?

Pior. A propaganda incentivada pela liderança maior do PT inventou uma batalha dos "pobres contra os ricos". Eu não sabia que metade do eleitorado brasileiro, que votou em Aécio, é composta por ricos... É difícil acreditar na boa-fé do argumento quando se sabe que 70% dos eleitores do candidato do PSDB, segundo o Datafolha, se compunham de pessoas que ganham até três salários mínimos. A propaganda falaciosa, no caso, não está defendendo uma classe da exploração de outra, mas enganando uma parte do eleitorado em benefício dos seus autores.

Isso não é política de esquerda nem de direita, é má-fé política para a manutenção do poder a qualquer custo. Igual embuste foi a insinuação de que a oposição é "contra os nordestinos", como se não houvesse nordestinos líderes do PSDB, assim como eleitores do partido no Nordeste.

Também houve erros da oposição. Quem está na oposição precisa bradar suas razões e persistir na convicção, apontar os defeitos do adversário até que o eleitorado aceite sua visão. Para isso precisa organizar-se melhor e enraizar-se nos movimentos da sociedade. Felizmente, desta vez Aécio Neves foi firme na defesa de seus pontos de vista e, sem perder a compostura, retrucou os adversários à altura, firmando-se como um verdadeiro líder.

Diante do apelo ao diálogo da candidata eleita devemos responder com desconfiança: primeiro mostre que não será leniente com a corrupção. Deixe que os mais poderosos e próximos (ministros, aliados ou grandes líderes) respondam pelas acusações. Que se os julgue, antes de condenar, mas que não se obstruam os procedimentos investigatórios e legais (Lula tentou postergar a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o mensalão o quanto pôde). Que primeiro a reeleita se comprometa com o tipo de reforma política que deseja e esclareça melhor o sentido da "consulta popular" a que se refere (plebiscito ou referendo?). Que se debata, sim, na sociedade civil e no Congresso Nacional, mas que se explicite o que ela entende por reforma política. Do mesmo modo, que tome as medidas econômicas para vermos em que rumo irá o seu governo.

Só se pode confiar em quem demonstra com fatos a sinceridade de seus propósitos. Depois de uma campanha de infâmias, fica difícil crer que o diálogo proposto não seja manipulação. Só o tempo poderá restabelecer a confiança, se houver mudança real de comportamento. A confiança é como um vaso de cristal, uma pequena rachadura danifica a peça inteira.

*Sociólogo, foi presidente da República

Merval Pereira - Entre o vermelho e o azul

- O Globo

Dizer que a presidente Dilma foi reeleita devido aos 12 milhões de votos que tirou de diferença para Aécio Neves no Nordeste do país é simplificar a explicação para sua vitória, uma simplificação que coloca o Nordeste contra o Sul, pobres contra ricos, nós contra eles, mote reducionista que, este sim, divide o país, mas foi muito usado na campanha petista, especialmente por Lula nos palanques.

Uma presidente que venceu no Rio e em Minas Gerais não pode ser tida como representante apenas de uma parte do país. E um candidato oposicionista que teve 48,3% dos votos não pode representar apenas os eleitores mais ricos e instruídos. O que divide o país hoje pode ser a disputa de petistas e antipetistas, mas com várias nuances. Há o antipetista de direita, mas os há também na esquerda.

E em diversas regiões do país. É inegável que o PT vem perdendo eleitores ao longo desses doze anos. Em 2002, o mapa do Brasil foi pintado de vermelho com um solitário pontinho azul, o estado do Piauí, único onde Serra venceu. O interessante é que, naquele ano, o Piaui era o Estado onde havia mais bolsas assistencialistas no governo Fernando Henrique.

O avanço das oposições foi lentamente pintando o mapa de azul, e os candidatos do PSDB que chegaram ao segundo turno, fosse Serra ou Alckmin, receberam cerca de 40% dos votos. Em 2010, a votação oposicionista cresceu para 44% e este ano chegou a 48,3%. É possível também dizer-se que Aécio Neves perdeu a eleição justamente em Minas Gerais, Estado que o PSDB governava há 12 anos e de onde ele esperava sair já no primeiro turno com cerca de 3 milhões de votos à frente de Dilma.

Não só perdeu a eleição para governador no primeiro turno como foi derrotado pela presidente Dilma nos dois turnos. É fato que ele reduziu bastante a diferença para o PT, que sempre venceu em Minas para presidente, a ponto de os maus resultados de Serra e Alckmin no Estado serem atribuídos a um suposto corpo mole dos tucanos.

O resultado deste ano provou que Minas é também um Estado vermelho no tocante à disputa presidencial, e que a dificuldade para vencer lá foi subestimada pela candidatura tucana. Se Aécio, que perdeu por cerca de 550 mil votos no segundo turno, tivesse vencido por uma diferença de 1 milhão e 800 mil votos, como Dilma venceu em 2010 e os tucanos mineiros esperavam, ele teria saído vencedor da eleição presidencial.

O panamenho José Perigault, que fundou o Ibope juntamente com Paulo Montenegro, descobriu certa ocasião que o bairro do Méier era representativo de todo o Estado do Rio de Janeiro. O resultado de uma pesquisa no bairro dava praticamente o mesmo resultado do estado. Muitos anos depois, Carlos Augusto Montenegro, filho do fundador e atual presidente do Ibope, descobriu que o Estado de Minas Gerais é o reflexo do Brasil. Tem sua parte nordeste na região do Vale do Jequitinhonha, e por isso faz parte da Sudene; ao mesmo tempo é a segunda economia do país (disputando com o Rio), com uma região fortemente industrializada, grande influência paulista na divisa com São Paulo; Juiz de Fora é muito ligada ao Rio de Janeiro; e o estado tem no agronegócio uma parte influente de sua economia.

Minas Gerais deu um grande e decisivo empurrão para Dilma, onde presidente reeleita teve cerca de 52,40% dos votos válidos no Estado, enquanto o tucano teve por volta de 47,60%. No país, o resultado final foi 51,64% para Dilma contra 48,36% de Aécio. Enquanto o tucano ganhou em Belo Horizonte e no Sul de Minas, a petista venceu no próspero Triângulo Mineiro e em cidades médias importantes, como Juiz de Fora, assim como na região mais carente do Estado, o Vale do Jequitinhonha, onde teve uma votação nordestina: 65,82% dos votos. No Norte, ela obteve 71,07%.

A presidente venceu ainda no rico Triângulo Mineiro, com 56,81%. Aécio levou vantagem em Belo Horizonte, com 64,27%. Por isso, o tucano venceu na mesorregião chamada Metropolitana de Belo Horizonte e no Sul/Sudoeste; Oeste; e Central Mineira. Segundo dados do TRE mineiro, Dilma Rousseff conseguiu a maior votação, proporcionalmente, em Bonito de Minas, município no Norte do estado, enquanto o candidato pelo PSDB Aécio Neves alcançou o melhor desempenho em Santa Rita do Sapucaí, no Sul.

Em Minas, como no Brasil, o norte é vermelho e o Sul é azul, mas há muitas nuances entre esses dois extremos.

Dora Kramer - Agenda na mesa

- O Estado de S. Paulo

Amanhã a presidente Dilma Rousseff volta do merecido descanso depois da estafante campanha eleitoral, retomando o expediente no Palácio do Planalto e junto com ele - é de se imaginar - o bom senso. Ao menos esse foi o tom de suas palavras nos primeiros dias após a vitória.

Duas delas receberam especial destaque - diálogo e união - embora não tenham sido acolhidas com grande crédito. Natural. Depois de anos de contradições, espetáculos do crescimento que não se realizaram, ausência de compromisso com a palavra dita e permanente contencioso com a realidade, a desconfiança é mera consequência.

Cabe à presidente recuperar esse patrimônio. Para isso foi eleita. Para isso recebeu a delegação de conduzir o País nos próximos quatro anos. No calor da comemoração prometeu ser uma governante "melhor". Abrandado o entusiasmo, chega a hora de demonstrar.

E explicar o que quis dizer com isso. Começando por conferir confiabilidade às propostas de diálogo e união apresentando à sociedade em geral, ao Congresso em particular, qual seria a agenda em torno da qual o governo pretende dialogar com o País.

É de se supor que um grupo que está há 12 anos no poder não tenha dificuldade para detectar quais são as demandas que realmente interessam ao público. Uma tarefa que não pode ser delegada ao departamento de propaganda do Palácio do Planalto nem procurar de maneira sorrateira atender aos interesses partidários.

Nos últimos quatro anos o governo teve como pauta quase que exclusiva a reeleição da presidente Dilma. Por pouco não teve interrompido seu projeto de poder. De onde se depreende que tenha compreendido a necessidade de mudar a qualidade da relação com a sociedade.

Começou tropeçando no plebiscito, pois é evidente que não é por aí que se pacifica nem se unifica muito menos se mobiliza a população em torno de coisa alguma.

O Brasil já viveu momentos esplêndidos de energia positiva na luta pela redemocratização, no pós-impeachment de Fernando Collor, a incorporação da estabilidade como valor social na implantação do Plano Real. Está nas mãos do governo mostrar que não quis outro mandato apenas para contabilizar mais uma vitória sobre os tucanos.

Ordem unida. No entender dos especialistas o aumento da taxa de juros denota autonomia do Banco Central. Pois liberdade de decisão de fato haveria se a decisão fosse tomada no curso da campanha, e não após as eleições, de modo a não atrapalhar o discurso da candidata que acusava o adversário de "gostar" de juros altos.

Guinada. Em 2002, Henrique Meirelles foi escolhido para a presidência do Banco Central depois de ter sido eleito deputado federal pelo PSDB de Goiás. Agora entra da lista dos candidatos ao Ministério da Fazenda depois de ter escrito artigos com contundentes críticas à política econômica de Dilma e por isso ter sido cogitado para integrar a chapa de Aécio Neves como vice antes de o PSD atender aos apelos de Gilberto Kassab para renovar a aliança com o PT.

Bem entendido. O pedido de auditoria feito pelo PSDB ao Tribunal Superior Eleitoral não contesta o resultado da eleição. Ao contrário. A ideia seria pôr fim às teorias conspiratórias que nessa eleição chegaram ao auge da paranoia.

Se bem que esse não é o melhor caminho para dirimir as dúvidas da desconfiança difusa, baseada no fato de que só o Brasil adota na integralidade esse sistema, pois a auditagem acaba dando margem a outras interpretações.

O ideal seria que o TSE insistisse em explicar de maneira simples e didática o funcionamento e o sistema de segurança das urnas eletrônicas.

Eliane Cantanhêde - O preço da vitória

- Folha de S. Paulo

A reeleição completa uma semana hoje e Dilma 2 já está num mato sem cachorro. Com a economia destrambelhada --como, aliás, todo mundo sabia-- ela tem três alternativas para tratar o rombo recorde das contas públicas. Todas ruins, ou melhor, péssimas.

Com os gastos em alta, porque em eleições "faz-se o diabo", e a arrecadação estagnada, por causa do crescimento devagar, quase parando, a presidente Dilma tem de cortar gastos e/ou investimentos. Como assim? A candidata Dilma não martelou durante todo o segundo turno que só Aécio Neves e Armínio Fraga assassinariam os gastos?

A segunda saída para tentar fechar as contas, um dia, talvez, quem sabe, é aumentar a arrecadação. Como assim? Será que Dilma, Guido Mantega, de aviso prévio, ou o novo ministro da Fazenda teriam coragem de aumentar impostos? Isso entraria para a história com um único nome: estelionato eleitoral.

E a terceira opção seria... não fazer nada, aprofundar os erros e continuar insistindo na versão eleitoral, mesmo depois da eleição: a de que o governo "optou pelo melhor para o país", como disse Arno Augustin, do Tesouro. Ah! E ele é um dos cotados para substituir Mantega.

Responda rápido: o que vai ser menos pior? Cortar programas, aumentar impostos ou lavar as mãos? Engana-se quem pensa que deixar tudo como está, ampliando mês a mês o primeiro déficit desde o Plano Real (1994), será "a melhor para o país". Melhor para quem, cara pálida?

O déficit fiscal tem efeito cascata sobre a economia e deságua no descrédito de investidores, gerando um círculo vicioso: inflação, juros... Quanto mais pobre, mais sofre.

Nada disso é surpresa. Era a história de um desastre anunciado e só não sabiam os menos escolarizados e quem ficou cego e surdo diante da realidade. Agora, aguenta.

Politicamente, o desafio de Dilma é conciliar palavras e atos. Será que João Santana dá jeito? Duvido.

Luiz Carlos Azedo - O lado B da presidente Dilma

• A montagem da nova equipe do governo passa pela substituição das peças que enguiçaram e não deram conta do recado, a começar pelo ministro da Fazenda

- Correio Braziliense

A presidente Dilma Rousseff foi reeleita porque deu uma guinada à esquerda no discurso de campanha, escondeu os aliados à direita que poderiam tisnar o discurso “coração valente” — Collor, Barbalho, Kassab, Maluf, Costa Neto, Renan, Sarney — e apostou todas as fichas no legado social dos oito anos de governo Lula. Também turbinou alguns projetos sob medida para o discurso da igualdade de oportunidades, com o Minha Casa, Minha Vida e o Pronatec, além do Bolsa Família e do Mais Médicos, sobre os quais o PT espalhou boatos de que seriam extintos caso a oposição vencesse as eleições. Esse foi o lado A da Dilma, que acusou a oposição de querer promover a alta dos juros, o desemprego e a privatização dos bancos públicos.

Vitoriosa, em férias na base naval de Aratu, na Bahia, um paraíso ecológico no estado onde o ex-governador Jaques Wagner deu-lhe a mais retumbante e surpreendente vitória nas eleições, Dilma tem um encontro marcado com o seu lado B, aquele que quase deu a vitória à oposição: o baixo crescimento econômico, a alta da inflação, o maior déficit fiscal desde o Plano Real, o colapso iminente do setor elétrico, a seca no Sudeste, os altos índices de criminalidade, os atrasos nas grandes obras de infraestrutura, o mau atendimento à população na saúde, na educação fundamental e nos transportes etc. Ou seja, precisa cuidar da banda do governo que fracassou no primeiro mandato.

A montagem da nova equipe passa pela substituição das peças que enguiçaram e não deram conta do recado, a começar pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, que, tão logo a eleição acabou, disse que o resultado era a aprovação, pela população, da política econômica atual. É por aí que começa o enrosco da Dilma A com a Dilma B. Todo mundo sabe que Mantega só fez o que a presidente da República queria. Antes de escolher o novo ministro, Dilma precisa decidir se vai abandonar a “economia política” e deixar a Fazenda a cargo de um profissional do mercado. Se não for isso, provavelmente será uma troca de seis por meia dúzia.

Depois da encruzilhada da economia (crescem as críticas dos petistas, por causa da alta dos juros e do aumento das tarifas de energia, além do ajuste fiscal que está sendo preparado por Mantega a pedido do própria presidente da República), há que cuidar de outras pastas que ficaram mal na fita. É o caso do Ministério da Justiça, cujo titular, José Eduardo Cardozo, está com a cabeça a prêmio por causa da atuação da Polícia Federal. Único dos “três porquinhos” da campanha de 2010 que se manteve no governo durante todo o mandato, é o responsável por uma das áreas pior avaliadas do governo. Cardozo tem a confiança de Dilma, mas nunca teve a simpatia do ex-presidente Lula e sofre duras críticas da cúpula petista, que o considera uma espécie de rainha da Inglaterra por causa da Operação Lava-Jato. Dilma gostaria de mantê-lo no ministério até que abrisse uma nova vaga para ministro no Supremo Tribunal Federal (STF).

Outra pasta em disputa é a das Comunicações, cujo ministro, Paulo Bernardo, é um dos derrotados na eleição, porque a candidatura da ex-ministra Gleisi Hoffmann, sua esposa, fracassou na disputa pelo governo do Paraná. A bancada petista na Câmara se mobiliza para emplacar no lugar dele o atual ministro de Relações Institucionais, Ricardo Berzoini, cuja tarefa seria implantar o projeto de controle social da mídia. É mais uma encruzilhada para Dilma, que precisa decidir se vai mesmo partir pra cima dos meios de comunicação, como os colegas da Argentina, da Bolívia e da Venezuela, ou se pretende “desestressar” a relação com a mídia. Nesse caso, pode optar, por exemplo, pelo ex-governador da Bahia Jaques Wagner, que sempre foi hábil negociador e teve amplo acesso à imprensa. O petista não está interessado em substituir Berzoini na articulação política do Palácio do Planalto, prefere ir para a Esplanada.

Capital político
Na próxima quarta-feira, a cúpula do PMDB vai se reunir para discutir a participação no governo, já que Edison Lobão (MA), das Minas Energia, e Garibaldi Alves (RN), da Previdência, estão voltando ao Senado. Caciques do PMDB, como o senador Eunício de Oliveira (CE) e o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), derrotados pelo PT nos seus estados, estão com uma conta sem tamanho para apresentar ao Palácio do Planalto na reforma ministerial. Qual será o lado do PMDB no novo governo?

De agosto a 25 de outubro, Dilma conseguiu melhorar progressivamente a avaliação de seu desempenho, que chegou a 58% de aprovação, contra 37% de desaprovação. Para 46% dos eleitores, o governo é ótimo ou bom; 30% o consideram regular; e 23%, ruim ou péssimo. Essa foi a maior proeza do marqueteiro João Santana. O horário eleitoral, porém, já acabou e a percepção da população voltará a ser aquela do cotidiano, confrontada com as promessas de campanha. A presidente da República não tem muito tempo para conciliar o lado A de seu governo com o lado B, sob risco de sofrer um desgaste de imagem muito grande antes mesmo de assumir o segundo mandato.

Ferreira Gullar - Herança maldita

• O Brasil que Dilma Rousseff inventou não tem inflação, não tem corrupção e está crescendo sem problemas

- Folha de S. Paulo / Ilustrada

Como todo mundo previa, qualquer um dos dois candidatos à Presidência da República que ganhasse, ganharia por pequena vantagem. E assim foi: Dilma, 51,6%, Aécio, 48,4%. Noutras palavras, o país dividiu-se ao meio.

Esse fato resulta, inevitavelmente, em problemas para o futuro governo, que terá contra si uma oposição respaldada por uma vasta parte da opinião pública. Dilma sabe disso, claro, e por essa razão mesma, ao falar ao país após o resultado das urnas, pregou a união, ou seja, o apoio ao seu governo daqueles que não a querem governando.

Veja bem, não pregou o diálogo com a oposição, sequer mencionou, em seu discurso, o candidato derrotado; na verdade, pregou a adesão ao seu governo dos que votaram contra sua eleição.

Ela sabe que o país está dividido, não apenas eleitoralmente; está dividido, sobretudo, por ela, Dilma, que, em seus comícios no Nordeste, provocou essa divisão. Todos ouviram e viram, na televisão, ela afirmar que Aécio considerava o Nordeste uma região de ignorantes, que só por isso votavam no PT.

Era mais uma das mentiras que alimentaram a campanha de Dilma e que é, aliás, o procedimento normal das campanhas eleitorais do PT. Já falei aqui desse uso da mentira, pelos petistas, como método nas disputas eleitorais.

Todo mundo assistiu ao uso desse recurso contra Marina --quando era ela quem ameaçava ir para o segundo turno-- e, depois, contra Aécio, ao se tornar o adversário final de Dilma.

Atribuir a um candidato tal ofensa a toda uma região do país é ao mesmo tempo subestimar a inteligência do eleitor dessa região e do candidato, já que tal afirmação equivaleria a um suicídio político. Mas os petistas sabem que muita gente embarca nessas calúnias e se toma de ódio contra o candidato caluniado.

Não por acaso, Dilma conseguiu, no segundo turno, no Nordeste, mais de 70% dos votos. Mentira semelhante os petistas usaram, no Rio de Janeiro, onde distribuíram impressos, com o retrato de Aécio, afirmando que ele era contra o Rio. Mas são águas passadas.

Não pretendo com isso negar a legitimidade da vitória de Dilma Rousseff. Lamento que tenha se valido de tais recursos mas, de qualquer modo, se tantos acreditaram nessas mentiras e votaram em função delas, por alguma razão foi.

De qualquer modo, o resultado das urnas tem que ser respeitado e Dilma governará o país por mais quatro anos. Quatro anos difíceis, uma vez que o Brasil real é muito diferente daquele que ela inventou em seus discursos e nos debates na televisão.

O Brasil que ela inventou não tem inflação, não tem corrupção e está crescendo sem problemas. Esse discurso contraria o que os próprios dados oficiais têm demonstrado. A mesma afirmação tem sido feita por instituições internacionais que avaliam o desempenho dos diferentes países.

Mas nada disso a impediu de afirmar o contrário durante a campanha. Sucede que a campanha acabou e ela vai ter que governar o Brasil real, que não cresce e cuja inflação sobe a cada dia.

Vai ter que aumentar os preços dos combustíveis e da energia elétrica, que por sua vez farão subir os preços de tudo o mais que consumimos.

Não resta dúvida que a festa acabou e, como não há almoço de graça, o país vai pagar o preço das bondades que permitem ao lulismo se manter no poder.

Mas essas não são as únicas heranças que Dilma recebe de si mesma: há ainda as denúncias da Lava Jato. Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef, em suas respectivas delações premiadas, revelaram o esquema de corrupção que foi montado na Petrobras com a participação do PT, do PMDB e do PP.

O representante do PT nessa falcatrua, era nada menos que o seu tesoureiro, João Vaccari. O PT embolsava 3% da propina, que montava a centenas de milhões de reais, sendo que esse dinheiro financiou a campanha do partido em 2010, quando Dilma se elegeu pela primeira vez.

A última revelação de Youssef afirma que Lula e Dilma estavam a par de tudo. Como se trata de delação premiada, tais denúncias só podem ser oficialmente divulgadas após a comprovação de sua veracidade, o que se dará dentro de uns poucos meses, ao começar o novo governo de Dilma. Essa é a verdadeira herança maldita.

João Bosco Rabello - Fora do tom e da realidade

- O Estado de S. Paulo

Pode ser que de volta das férias pós-eleitorais a presidente Dilma Rousseff corrija o discurso errático da vitória, em que diálogo e união são apelos apenas retóricos.

Mas, por ora, o tom que trai o discurso foi dado pelo líder do PT no Senado, Humberto Costa, ao classificar os críticos dos conselhos populares de "débeis mentais".

O destempero de Costa foi dirigido aos jornalistas que criticaram o decreto de criação dos tais conselhos, mas ao atacá-los estende os impropérios à maioria parlamentar que derrubou a proposta, enviada ao Congresso mesmo o governo ciente de que seria derrotada.

O PT parece desconhecer o tamanho da crise que Dilma herda de Dilma. Na economia, o cenário ocultado na campanha exibe números assustadores: rombo de R$ 20 bilhões nas contas públicas, aumento imediato dos juros, ao que se seguirá o da gasolina, asfixia do setor elétrico, entre tantos reveses de uma longa lista.

No campo político, não disporá da trégua concedida a novos governos. A vitória apertada da reeleição favorece as dissidências formadas na base na campanha, com um PMDB motivado pela redução da bancada do PT a buscar a isonomia no tratamento político com o rival na estrutura de governo.

A oposição também cresce em número e motivação, com PSDB, DEM, PSB e PPS, em diferentes graus de atuação, unidos na disposição de impor ao governo o exercício político ao qual se recusou desde a opção pelo esquema de cooptação dos partidos que compõem sua extensa base de sustentação.

O modelo de cooptação encontra seu esgotamento nas consequências judiciais que gerou, no mensalão e, agora, na Petrobrás. Não acabará da noite para o dia, mas está mais vigiado e inibido pelo medo que as prisões já executadas - e as previsíveis - incutem no ambiente político.

A derrota recente não é o que preocupa o governo. Significativa é a liberação da bancada da Câmara para que seu líder, Eduardo Cunha (RJ), construa sua candidatura à presidência da Casa. É uma resposta imediata ao presidente da legenda, Michel Temer, que defendeu a vez para o PT. A situação de Temer é difícil, pois atua contra o interesse do partido, em nome de uma pouco sedutora tese de unidade da base aliada.

O gesto de Temer atiça, de outro lado, o ânimo já alto da oposição para impedir que o PT chegue à presidência da Casa. O cenário indica que haverá, pelo menos, três candidaturas postas para a sucessão de Henrique Eduardo Alves - a de Cunha, pelo PMDB; de Arlindo Chinaglia ou Marco Maia, pelo PT; e de Júlio Delgado (PSB), ou outro nome, pela oposição.

Elio Gaspari - Lembra o filminho dos banqueiros?

• Quando Neca Setúbal defendeu a autonomia do BC, o PT crucificou Marina Silva e produziu um filme mostrando uma família de trabalhadores de cuja mesa sumia a comida.

- O Globo

Segundo a repórter Claudia Safatle, Nosso Guia fez três sugestões à doutora Dilma para o lugar de Guido Mantega: Henrique Meirelles, Luiz Carlos Trabuco e Nelson Barbosa, ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda. Cada um é cada um, mas o simples fato de se colocar Meirelles na roda mostra como as campanhas eleitorais têm uma opção preferencial pela mistificação.

Quando a educadora Neca Setúbal defendeu a autonomia do Banco Central, o PT crucificou Marina Silva e produziu uma peça histórica: um filmezinho mostrava uma família de trabalhadores de cuja mesa sumia a comida, fazendo contraponto com uma reunião de banqueiros sorridentes.
Pudera. A família de Neca Setúbal é grande acionista do maior banco do país, o Itaú, e, nele, seu irmão Roberto é o principal executivo.

Lula deve ter seus motivos para sugerir o nome de Trabuco, presidente do Bradesco, que vem a ser o segundo maior banco. É na entrada de Meirelles na lista de Nosso Guia que a porca torce o rabo. Ex-presidente do Banco de Boston, ele dirigiu o Banco Central de 2003 a 2010, e sua administração foi vista como um dos fatores que mantiveram o barco petista à tona no mundo financeiro.

Neca defendeu a autonomia do Banco Central botando a cara na vitrine. Numa conversa protocolar com o embaixador americano Clifford Sobel, em agosto de 2006, Meirelles fez a mesma coisa, no escurinho do cinema.

Segundo a narrativa de Sobel ao Departamento de Estado, “Meirelles pediu que o governo dos Estados Unidos use discretamente sua relação com o governo brasileiro para discutir a importância de levar ao Congresso uma legislação garantindo essa autonomia”.

Nesse mesmo encontro, sempre segundo Sobel, Meirelles mostrou-se disposto a ajudar “nos bastidores” para a criação de um clima amigável para os investimentos americanos no Brasil.

O comissariado e muita gente boa condenam a ideia de se dar autonomia ao Banco Central, mas, quando o Comitê de Política Monetária sobe os juros três dias depois de uma eleição, sente-se cheiro de queimado naquilo que a doutora Dilma chama de “independência”.

No barato, o Copom podia divulgar as transcrições dos debates dessas reuniões. O Federal Reserve americano, que tem autonomia, faz isso, respeitando um embargo de alguns anos.

O telegrama de Sobel foi revelado pelo Wikileaks em 2011. Conhecem-se dezenas de milhares de documentos da diplomacia americana no Brasil. Poucos são tão explícitos. Isso pode ser atribuído ao fato de que Sobel era um empresário republicano de Nova Jersey, premiado por George W. Bush com uma embaixada.

À época da divulgação do telegrama, Meirelles não estava mais no governo e deu uma breve explicação, informando que “as palavras que me foram atribuídas não refletem adequadamente os assuntos das conversas que tive”. Sobel não quis comentar a matéria, o comissariado fez que não percebeu, e a vida seguiu.

Passaram-se oito anos do encontro narrado por Sobel, outros três da divulgação do telegrama, e a autonomia do Banco Central entrou na máquina de moer gente da campanha eleitoral. De duas, uma: Lula não soube do telegrama de Sobel ou não viu o filminho da família triste e dos banqueiros alegres.

*Gaudêncio Torquato - A democracia brasileira

- O Estado de S. Paulo

O Brasil que sai das urnas mostra ser um dos maiores laboratórios da democracia contemporânea. Nossos 142 milhões de votantes põem o País no quarto degrau do ranking eleitoral - os três primeiros são ocupados pela Índia, com 815 milhões de eleitores, os EUA, com cerca de 215 milhões, e a Indonésia, com 187 milhões.

O termo laboratório aponta para um sistema democrático em fase de consolidação, não significando, portanto, uma democracia plena, nos termos do Índice Democrático criado pela prestigiada revista The Economist por meio de pesquisa em 167 países. Nessa planilha - que leva em consideração categorias como o processo eleitoral e o pluralismo, as liberdades civis, o funcionamento do governo, a participação popular e a cultura política - ocupamos a 45.ª posição, ao lado de países de democracia imperfeita, entre os quais, pasmem, democracias de forte tradição como a francesa (29.ª), a italiana (31.ª) e a grega (32.ª). A Índia, por exemplo, está na mesma faixa do Brasil, em 39.º lugar.

São visíveis os sinais de que temos dado vigorosos passos no caminho do aperfeiçoamento, basta considerar que há 50 anos o País entrava na escuridão de um golpe militar que durou 21 anos, tendo fixado as linhas mestras de sua democracia só a partir de 1988, com a chamada Constituição cidadã, que veio atender às demandas da sociedade organizada. Sob uma pletora de liberdades, direitos e deveres garantidos pela Carta, realizou-se o pleito mais competitivo das últimas décadas. A animação da vida cívica que se viu constitui expressiva amostra da efervescência inerente às democracias incipientes. Não há motivo para assombro. Se formos projetar os tipos de voto dados aos candidatos da situação e da oposição, encontraremos pontos em comum com as competições de outros países.

Em maio, por exemplo, o partido nacionalista hindu obteve vitória esmagadora sobre o Partido do Congresso, acabando com dez anos de poder da dinastia Gandhi-Nehru, deteriorada pelo precário crescimento da Índia e por uma batelada de escândalos de corrupção. Já nos EUA a votação dos democratas é geralmente associada a grupos e setores avançados, progressistas, simpáticos às causas sociais; os votos republicanos são oriundos de polos conservadores nas áreas dos costumes (contra o aborto, o casamento gay e a legalização de drogas), dos valores morais e da economia (defesa do Estado mínimo, redução de impostos, privatizações, fim de programas sociais, etc.).

Não se trata simplesmente de comparar as eleições no seio das democracias para concluir que todos os países são assemelhados nesse quesito, mas pinçar a hipótese de que existe uma razoável carga de conteúdos comuns às nações democráticas. Parcela do acervo temático é geradora de animosidade entre grupos e partidos, contribuindo para o acirramento do debate, extrapolando o campo das ideias para entrar na vida íntima dos atores políticos. A campanha negativa empreendida pelas duas bandas foi a marca mais forte da competição. O alto teor de agressividade expresso por candidatos e seus gurus lembrou a histórica disputa de 1989, quando Collor, que acabou vitorioso, jogou no ar o bombástico depoimento de Miriam Cordeiro sobre pedido de Lula, de quem era companheira, para fazer um aborto.

Ora, as insinuações malévolas dos dois lados na arena eleitoral não diferem da bateria de insultos e acusações que os competidores democrata e republicano desfecham entre si em campanhas nos EUA. Lá a "linguagem da lama" (mudslinging) é frequente, sendo usada de forma intensa na mídia eletrônica. Por aqui essa estratégia acabou sendo usada pesadamente e com efeitos deletérios. Cada exército lutou por sua meta: de um lado, a continuidade do ciclo petista; de outro, a abertura de uma nova era.

A mais disputada peleja da contemporaneidade refletiu a fisionomia cultural do nosso corpo político. Mais que uma luta esganiçada entre regiões, como incautos chegaram a enxergar, o que se viu foi uma batalha entre duas forças: uma, abrigando o voto material; outra, o voto valorativo.

A primeira reúne os contingentes atentos às coisas materiais, concretas, como os pacotes assistencialistas do governo - Bolsa Família, Luz para Todos, Minha Casa, Minha Vida... O sufrágio ligado ao bolso e à barriga foi despejado nas urnas, sobretudo, pelas massas que dependem do Estado. 

A segunda força votou na carta de valores: a ética, a dignidade, a seriedade, a moral, tendo como pano de fundo, o repúdio aos escândalos e às denúncias.

A previsível dualidade balizou o pleito até o fim. O voto material suplantou o valorativo. Não significa que as duas modalidades se tenham repartido plenamente. A petista também teve voto valorativo e o tucano ganhou voto material.

A explicação para tal composição estava escancarada, mas passou ao largo da percepção da campanha tucana: a maior base eleitoral do País ainda se situa nas margens e no primeiro andar da classe média (C), que votam olhando para o bolso. Apelo a valores é, para ela, uma abstração.

A cultura desse aglomerado tende a repartir o lixo imoral da corrupção por toda a esfera política. Por isso a pregação de princípios éticos não o comoveu, tão somente consolidou a opinião dos "convertidos", a banda que já decidira o voto no senador mineiro.

A tuba de discriminação que se espraiou pelas redes sociais - culminando com abordagens defendendo a divisão do País -, a par de leitura enviesada de resultados (os dois tipos de votos permearam a votação em todas as regiões), funcionou como canal da livre manifestação, mostrando ainda intensa participação do eleitor no processo político. Mais um atestado de vitalidade democrática.

Não há razão para temor em relação ao amanhã. A divisão das urnas é o mais eficaz antídoto contra o autoritarismo.

*Jornalista, professor titular da USP

Antônio Nóbrega - Lunário Perpétuo

Carlos Drummond de Andrade - A Máquina do Mundo

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

sábado, 1 de novembro de 2014

Opinião do dia – Roberto Freire

“Este é o resultado: o governo se endividando para pagar o custeio da máquina, déficit fiscal ampliado e a economia cada vez mais com números negativos. Agora, começam a aparecer os acertos de conta, os reajustes nos serviços públicos, que foram contidos estrategicamente pelo governo durante a campanha.”

Roberto Freire, presidente nacional do PPS e deputado federal (SP), Brasília, 31 de outubro de 2014.