domingo, 5 de julho de 2015

Empresários temem ambiguidade do PMDB

• Pesos pesados apostam em Michel Temer como contraponto a ações de Eduardo Cunha e Renan Calheiros no Congresso

• Investigados pela Lava Jato, presidentes da Câmara e do Senado agem para ampliar o desgaste do governo

Andréia Sadi, Valdo Cruz - Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Enquanto alguns dos líderes do PMDB trabalham para ampliar o desgaste do Palácio do Planalto, empresários têm procurado o partido para discutir saídas para a crise política e econômica.

Em encontros reservados, pesos pesados da economia têm exposto aos peemedebistas a avaliação de que, se a economia afundar ainda mais, o setor privado irá junto e o país corre o risco de enfrentar graves tensões sociais.

Segundo um empresário ouvido pela Folha, o vice-presidente Michel Temer, que é do PMDB e ameaçou deixar a articulação política do governo na semana passada, virou figura central do processo.

O empresariado não quer nem ouvir falar em sua saída da nova função, porque acham que isso representaria um agravamento da crise, com desfecho imprevisível.

O problema é que Temer hoje rema para um lado, enquanto dois peemedebistas tão ou mais fortes do que ele, os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (RJ), e do Senado, Renan Calheiros (AL), navegam na direção oposta.

A poucos metros da residência oficial de Cunha, quatro senadores têm se reunido há meses para discutir a crise. Além de Renan, participam do grupo Romero Jucá (RR), Eunício Oliveira (CE) e o ex- presidente José Sarney (MA).

O diagnóstico feito reservadamente é que o governo está no chão, sem capacidade de se levantar, e eles não têm condições de ajudar o Palácio do Planalto a superar a crise.

Na última quarta (1º), Renan deu uma demonstração pública do que é tratado nos bastidores: horas após ouvir um apelo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ajudar a presidente Dilma Rousseff no Congresso, o Senado aprovou o reajuste dos salários do Judiciário, que ameaça as contas do governo.

Renan sabia que Dilma vetaria o projeto, mas não quis perder a oportunidade de provocar desgaste do governo. Renan e Eduardo Cunha são chamados no Palácio do Planalto de "maestros do caos". Desde março, jogam ora juntos, ora separados. Mas sempre contra o governo.

Em uma coisa, pelo menos, o Planalto e os dois concordam: a relação se rompeu depois que os peemedebistas foram incluídos na lista de políticos investigados pela Operação Lava Jato sob suspeita de envolvimento com a corrupção na Petrobras. Os dois acreditam que o governo estimulou o procurador-geral Rodrigo Janot a incluí-los na lista, hipótese que o governo e o procurador refutam.

Nas últimas semanas, Temer, Cunha, Jucá e outros peemedebistas passaram a ser procurados por empresários que querem saber a possibilidade de um impeachment. Outros querem discutir saídas para a crise, do parlamentarismo à posse de Michel Temer.

Os peemedebistas dizem que não apoiam o impeachment da presidente. Mas reconhecem que a rejeição ao governo contamina o ambiente político e econômico.

"O governo precisa tomar cuidado para não entrar no cheque especial de popularidade'', ironiza Cunha, que tem poder para dar andamento a qualquer pedido de impeachment que venha a ser levado à Câmara.

As chances de o PT e o PMDB voltarem a trabalhar na mesma frequência são praticamente nulas. A avaliação da cúpula do PMDB é que atender ao pedido de Lula para ajudar Dilma politicamente serviria, no fundo, para que os petistas recuperassem o seu poder. O que figura como último item na lista de prioridades do PMDB

Crise eleva chances de intervenção de Lula no governo

• PT incentiva movimento, mas enfrenta resistência de Dilma, que afirma não depender mais de seu mentor

• João Santana, que estava afastado da sigla, voltará da Argentina para fazer programa de TV que será exibido em agosto

Marina Dias, Andréia Sadi – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A crise aguda do governo Dilma Rousseff elevou a possibilidade de uma intervenção branca comandada pelo seu antecessor no cargo, Luiz Inácio Lula da Silva.

Tal pressão, estimulada pelo PT, enfrenta resistência da presidente. A dinâmica da relação, que sofre grande inconstância desde a reeleição de Dilma em 2014, tende a ficar mais tensionada.

Um indicador da gravidade inédita da crise atual e da relação criador-criatura foi atestado em Brasília na segunda passada (29).

Enquanto Dilma, nos Estados Unidos, tentava se livrar, sem sucesso, da agenda negativa decorrente das novas revelações do delator Ricardo Pessoa na Operação Lava Jato, Lula chegava à capital.

Em vez de alívio pela presença do político mais experiente do PT, o clima no Planalto foi de tensão sobre o que o ex-presidente iria falar aos congressistas do partido.
Isso porque dias antes ele havia feito críticas públicas ao governo, algo incomum, dizendo que ele e Dilma estavam no "volume morto".

O petista pediu "união em defesa do governo" a dirigentes do PT e em reunião com as bancadas. Ainda assim, horas depois interlocutores de Dilma o chamavam de "confuso", com atitude "descompensada".

Lula está irritado com o rumo do governo, que parece incapaz de responder à crise política e econômica que corroeu a popularidade de Dilma e tornou o Planalto refém de um Congresso hostil.

Mas, segundo interlocutores, o petista resolveu amainar as críticas porque percebeu que sangrar publicamente Dilma terá reflexos na sua provável candidatura presidencial em 2018.

De forma algo paradoxal, o PT incentiva a intervenção branca. O primeiro passo foi chamar de volta o marqueteiro João Santana, que, afastado desde a eleição, participou dos encontros na segunda.

Lula vinha reclamando da ausência de Santana, responsável pelas campanhas do PT ao Planalto desde 2006. Ele está na Argentina, onde atua na pré-campanha de José Manuel de la Sota, hoje azarão na disputa pela Casa Rosada.

Santana topou voltar. Fará o programa de TV petista que vai ao ar em 6 de agosto. Tem o desafio de evitar mais um "panelaço" contra o partido e ainda angariar simpatias.

As perspectivas de Lula e Dilma são diferentes. O ex-presidente já confidenciou a amigos que tem medo de perder as eleições e o capital político de alguém que encerrou o mandato com aprovação acima de 80%. Só sai candidato se a situação melhorar.

Já Dilma demonstra incômodo com a situação. Aos próximos, diz que não depende mais de Lula e que suas ambições políticas acabam com seu mandato --que, ao contrário de muitos no meio político, ela diz ter certeza de que encerrará integralmente.

Cada vez mais, cita que as denúncias de corrupção envolvendo o PT e até sua campanha à reeleição, alvo da Lava Jato, não a atingem pessoalmente. Repete que está "com a biografia mantida".

A situação do Planalto agravou-se com os depoimento de Pessoa, dono da UTC, que disse ter doado R$ 7,5 milhões à campanha de Dilma no ano passado para resguardar negócios com a Petrobras.

Brasília é campo neutro para ‘festa da unidade’

Pedro Venceslau - O Estado de S. Paulo

• Escolha é estratégica após o 'lançamento' das candidaturas de Aécio Neves e Geraldo Alckmin à presidência em 2018

Depois que o senador Aécio Neves e o governador Geraldo Alckmin foram “lançados” como pré-candidatos presidenciais por seus correligionários em Minas e São Paulo, o PSDB escolheu Brasília como campo neutro para a convenção nacional.

A previsão inicial dos organizadores era de que 500 pessoas estariam no evento, mas na contabilidade final esse número saltou para 2 mil tucanos na “festa da unidade”, entre eles todos os governadores, deputados, senadores e dirigentes da sigla.

Para garantir uma reeleição tranquila, Aécio aceitou todas as exigências feitas pelos emissários de Alckmin. Os paulistas emplacaram três nomes diretamente ligados ao governador em cargos estratégicos na máquina partidária: o deputado federal Eduardo Cury, que atuará na montagem dos palanques municipais do PSDB em 2016; o deputado Silvio Torres, que será secretário-geral; e o suplente de senador José Aníbal, que presidirá o Instituto Teotônio Vilela.

O ex-governador paulista Alberto Goldman foi escolhido para permanecer em uma das vice-presidências do PSDB.

O Estado governado por Alckmin conta com a maior “bancada” da convenção. São 100 delegados dos 500 presentes. Aécio ficará no cargo até maio de 2017, quando terminará o armistício tucano. O sucessor do senador mineiro controlará a máquina partidária e comandará a montagem dos palanques regionais para a disputa presidencial de 2018.

Relógio. O cerimonial do partido fez um roteiro sob medida para contemplar seus maiores caciques. Os governadores terão entre 2 e 5 minutos para falar. O ciclo será fechado por Alckmin, que não precisará olhar o cronômetro.

O governador, aliás, chegará a Brasília com o senador José Serra para sinalizar a “unidade paulista”. Depois de Alckmin, será a vez de o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso usar a palavra. Ele ficará estrategicamente postado entre Alckmin, Aécio e Serra. O mineiro fechará o evento com um discurso duro contra a presidente Dilma Rousseff, pontuado por recados e sinalizações.

Aécio anunciará a carta de princípios do partido como um aceno para a “velha guarda”, mas deixará uma porta aberta para radicalizar o discurso contra o PT. Com o mote “oposição a favor do Brasil”, ele deve finalizar sua fala exaltando a unidade partidária, que será simbolizada pela formação do palanque.

Aécio fica no comando tucano com 2018 incerto

Pedro Venceslau - O Estado de S. Paulo

• Líder com melhor desempenho em disputas presidenciais, senador já não é consenso

Oito meses depois de receber 51.041.010 no 2.º turno da eleição presidencial do ano passado e sair consagrado como o tucano que teve o melhor desempenho eleitoral desde a eleição de Fernando Henrique Cardoso para o Palácio do Planalto, o senador Aécio Neves (MG), de 55 anos, será reconduzido hoje a mais um mandato à frente do PSDB com o desafio de se manter como principal líder da oposição ao governo Dilma Rousseff num País cada vez mais insatisfeito com a gestão da presidente.

No entanto, ao contrário do que ocorreu em 2013, quando assumiu pela primeira vez o comando do partido já em clima de pré-campanha presidencial, Aécio não é mais um nome de consenso para a disputa de 2018. Os ritual preparado pelo cerimonial tucano para a convenção nacional do partido, que será realizado em um hotel de Brasília, deixa isso claro.

Conforme o combinado, o senador mineiro e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, chegarão juntos ao evento. Os dois subirão ao palco ladeados pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e farão discursos pregando a unidade partidária. “A nossa unidade é o principal combustível para vencer as eleições. O candidato do PSDB a presidente surgirá no momento certo, que não é agora, e será aquele que tiver as melhores condições”, diz Aécio.

Apesar da ode à unidade, os tucanos já vivem o clima de disputa interna pela vaga de candidato presidencial. Ambos foram “lançados” sem cerimônia nas convenções do PSDB em Minas e São Paulo. “A candidatura do Geraldo é a mais viável. Ele sai em vantagem em relação a quem não está no governo”, disse ao Estado o deputado estadual Pedro Tobias, presidente do PSDB paulista. “É miopia política colocar no centro a disputa interna”, pontua o deputado Marcus Pestana, ex-presidente dos tucanos em Minas e braço direito de Aécio no Estado.

Sem caneta. A fala de Tobias toca em um ponto nevrálgico sobre o longo caminho que Aécio terá de percorrer para conseguir uma nova chance em 2018. Se conseguir a vaga, ele será o primeiro tucano desde a eleição de 1989 a entrar em campo sem a retaguarda de um governo estadual aliado. Pior: terá de se dividir entre o tabuleiro nacional e a difícil missão de retomar o governo de Minas, que hoje está com o PT. E, se perder, ficará sem mandato a partir de 2019.

“Alckmin fez Aécio se movimentar e isso é bom. Feliz do partido que tem dois nomes de peso”, diz o deputado Bruno Araújo (PE), líder da oposição na Câmara.

A reportagem fez uma sondagem informal entre os deputados e senadores do PSDB sobre 2018. Enquanto a ala “jovem” do partido defende que Aécio tenha uma nova chance, os “veteranos” tratam do assunto com mais cautela. “As pesquisas de hoje não têm valor algum. É só recall. Não há possibilidade de perdurar essa situação”, pontua o senador Álvaro Dias (PR). Ele se refere a simulação de eleição para presidente da República feita pelo Datafolha, na qual Aécio alcançou 35% das intenções de voto, o que lhe garante a liderança da disputa com dez pontos de vantagem sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A estratégia de Aécio não podia ser outra: fazer o recall render. Para isso, ele vai fazer já em 2015 um tour por vários Estados brasileiros. A série de viagens foi batizada de “Caravana da Gratidão”. Depois de visitar em junho Manaus e Parintins, no Amazonas, em agosto o senador vai passar por cidades do Nordeste.

Carta de princípios. Em seu segundo mandato à frente do PSDB, Aécio terá de administrar uma divisão interna que vai além da escolha do presidenciável tucano. Enquanto deputados e novas lideranças defendem a radicalização do discurso e pregam o impeachment de Dilma, a “velha guarda”, com FHC à frente, tenta evitar que a sigla abandone seu programa original e se volte contra o legado do partido no poder.

Um deputado tucano que integra a direção nacional da legenda ressalta que, dos 54 deputados da bancada tucana na Câmara, 29 estão em primeiro em mandato. “O saudosismo de 1994 e 1998 é legal, mas a bancada está mesmo é sintonizada com 2014. Pergunte lá quem se lembra do Arnaldo Madeira”, diz o parlamentar, referindo-se as críticas feitas pelo ex-deputado e ex-líder do governo FHC, que acusou o partido de renegar suas bandeiras ao votar a favor de temas como a mudança do fator previdenciário.

O deputado Carlos Sampaio (SP), líder do PSDB na Câmara, é mais cauteloso com as palavras, mas segue a mesma linha. “Há um choque de geração, e isso é saudável”, afirma.

Na semana passada, as diferenças ganharam contorno de polêmica depois que o partido votou quase integralmente pela redução da maioridade penal. Inconformados, tucanos da velha guarda resgataram trechos de entrevistas nas quais o ex-governador Mário Covas criticava veementemente a redução e as divulgaram nas redes sociais.

Para acalmar os ânimos, Aécio anunciará na convenção uma carta de princípios do partido. (Colaboraram Valmar Hupsel Filho, Eric Decat e Daniel Vivacqua, especial para o Estado).

Pró-Aécio, PSDB articula para evitar racha em 2018

• Dirigentes dão como certo o nome do senador para concorrer à Presidência; apenas SP estaria com Alckmin

Isabel Braga e Maria Lima – O Globo

BRASÍLIA- Se houvesse uma prévia hoje entre os novos dirigentes dos diretórios estaduais do PSDB para a escolha do candidato do partido a presidente, o senador Aécio Neves ( MG), que será reeleito hoje para comandar o partido por mais dois anos, teria uma maioria esmagadora. Em conversas reservadas, tucanos próAécio fazem um paralelo com 2010, quando defenderam as prévias entre o senador José Serra (SP) e Aécio: se tivessem sido feitas, teria dado 26 a 1 para Serra. Aécio só tinha Minas Gerais. Hoje, diz um tucano, se houvesse prévias, daria o contrário: 26 pró-Aécio e apenas São Paulo com o governador Geraldo Alckmin.

Apesar das manifestações pró-Aécio como o candidato natural, todos, entretanto, têm uma preocupação comum: para os tucanos, a maior armadilha para o partido, que tem chances reais de voltar ao Planalto daqui a 3 anos, é estar rachado para enfrentar o PT. Presidente do partido, Aécio, no entanto, procura minimizar a questão.

— Talvez uma das maiores tarefas, nestes dois anos, seja preservar a unidade do partido. E esse discurso é discurso de quem teme muito o PSDB e fica desde já estimulando a nossa divisão. E para isso eu tenho que, infelizmente, dar uma má notícia: nós estaremos unidos e prontos para vencer as eleições para o bem do Brasil — ironiza Aécio.

Recall da última eleição
Aécio tem o comando de uma máquina turbinada pelo novo Fundo Partidário e um recall ( taxa de conhecimento pelo eleitorado) da última eleição. Mas Alckmin tem nas mãos o comando de São Paulo e terá no Diretório Nacional homens de confiança: o deputado Silvio Torres como secretário geral; o ex-governador Alberto Goldman, que continua como um dos vice-presidentes ; e o deputado Eduardo Cury (SP), que será o interlocutor do partido junto aos prefeitos de todo o país, o que permite ter capilaridade no Brasil. O suplente do senador José Serra ( SP), o ex- deputado José Aníbal, disputa o comando do Instituto Teotônio Vilela com o deputado José Carlos Hauly (PR).

O fato de, em São Paulo, a última pesquisa ter dado Aécio na frente de Alckmin também é "sugestivo", segundo tucanos. Eles alegam que Aécio fez uma boa campanha e estreitou laços com os políticos nos estados, o que ajudaria bastante. No entanto, Alckmin também tem bom trânsito no partido, mas não foi candidato na última eleição.

O discurso para alertar a todos, entretanto, é que o PSDB não pode cair na armadilha e se lançar numa guerra fratricida, porque, se chegar dividido em 2018, perde a possibilidade de vitória contra um PT em crise.

Tucanos apostam no desgaste de Dilma para voltar ao poder

• Crise alimenta ambições presidenciais de Aécio, Alckmin e Serra e estimula conversas com o PMDB

• Senador mineiro diz a aliados que duvida de recuperação de Dilma; para Serra, presidente não concluirá mandato

Daniela Lima – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Quando as luzes do painel de votação do Senado se acenderam, Aécio Neves (PSDB-MG) virou-se para o colega de bancada Cassio Cunha Lima (PB). "Pode fazer uma foto", disse cochichando. "Esse é o retrato de um governo que está no fim."

Foi na última terça (30), logo após o Senado aprovar um reajuste salarial de mais de 70% para os servidores do Judiciário, por 62 votos a zero, impondo uma derrota humilhante ao Palácio do Planalto.

O discurso público é mais ameno. "A presidente, a cada dia, vem perdendo as condições de governabilidade", disse Aécio à Folha. "À crise econômica se soma uma crise social, e a cada dia eles vivem o imponderável da Lava Jato."

Segundo pesquisa feita pelo Datafolha em junho, o senador mineiro teria 35% das intenções de voto se uma nova eleição presidencial fosse realizada hoje, e largaria na frente do ex-presidente Lula.

Aécio não é o único tucano que vê Dilma numa situação limite. Numa conversa recente com aliados, o senador José Serra (SP) disse não acreditar numa recuperação do governo e apostou que Dilma não concluirá seu mandato.

"Há uma combinação rara de crises que se auto-alimentam", afirmou. "Na política, a tempestade não se dá apenas no Congresso, mas dentro do PT. É o governo mais fraco de que tenho memória. Perto dele, a gestão Jango parece ter tido uma solidez de granito", concluiu.

Serra tem conversado sobre a situação com o PMDB, o partido do vice-presidente Michel Temer, seu amigo. Líderes peemedebistas também tratam do assunto com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que exerce papel moderador dentro de seu partido. FHC esteve recentemente com o senador Romero Jucá (PMDB-RR).

Paralisia
Um desfecho repentino para a crise, com a renúncia ou o afastamento de Dilma, frustraria as ambições do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que se apresenta ao partido como uma alternativa para a eleição de 2018.

O paulista vem travando com Aécio uma disputa por protagonismo na legenda e sabe que, se o governo Dilma afundar antes do fim de seu mandato, as chances de ser o próximo candidato dos tucanos à Presidência da República no lugar de Aécio seriam praticamente inexistentes.

Alckmin tem conversado com parlamentares, governadores e prefeitos de outras legendas. Os relatos sobre a paralisia do setor público que tem ouvido lhe parecem alarmantes. Ele está preocupado com os efeitos da crise econômica em São Paulo, que ameaça reduzir a arrecadação do Estado em mais de R$ 500 milhões.

Alckmin defende a tese de que seu partido não deve apostar na estratégia de desgastar Dilma e o PT a qualquer custo. A posição mais moderada tem a ver com o cálculo que ele faz sobre seu futuro político. "Se ela cair, o Planalto cai no colo do Aécio", diz um integrante do primeiro escalão do governo estadual.

Depois da derrota de Aécio no ano passado, os tucanos moveram uma ação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para pedir a cassação de Dilma e Temer por abuso de poder econômico e político durante a campanha eleitoral.

O processo pode criar uma situação delicada. Se Dilma for cassada, o TSE poderá convocar novas eleições ou dar posse a Aécio, o segundo colocado na última eleição. O senador se recusa a falar sobre esse cenário publicamente, mas, a aliados, rechaçou a segunda hipótese. Disse que apenas uma nova eleição daria a um novo governo a legitimidade necessária.

Fernando Henrique Cardoso - A responsabilidade das oposições

- O Estado de S. Paulo

Diante da paralisia governamental, da expansão incontrolada da ação legislativa, da recessão econômica e do ativismo da Justiça, vê-se muita cobrança: e as oposições, e o PSDB? Sumiram? Que farão com os mais de 50 milhões de votos que receberam?

Compreende-se a angústia, mas é preciso distinguir os papéis da oposição e os do governo. Como no jogo de xadrez, o governo joga com as pedras brancas, as iniciativas têm de partir dele. Tomou algumas no desespero, para enfrentar as agruras financeiras. Ao tomá-las foi buscar quadros e medidas no arsenal da oposição. Quer isso dizer que a oposição deve ficar paralisada? Não. Política econômica é questão de dosagem e de credibilidade. A dose parece excessiva e todo esforço fiscal pode se esvair na falta de atividade econômica, que encolhe a arrecadação. Segundo, sem um horizonte de esperança, qualquer ajuste pode ser letal. Com este governo não há recuperação de credibilidade à vista, pois o cristal se quebrou. E os escândalos de corrupção revelados diariamente se encarregam de corroer qualquer elo de confiança que o governo queira tecer.

Cabe às oposições mostrar no dia a dia, e não só no Congresso, que o sofrimento do povo é consequência da ação desatinada dos governos de Lula e Dilma - da dupla, e não só da última -, que desdenharam das boas práticas de gestão do Estado. Só na Petrobrás, os prejuízos causados por decisões erradas para atender a pressões políticas chegam a R$ 34 bilhões, fora os R$ 6 bilhões de propinas! E que dizer do desrespeito sistemático à Lei de Responsabilidade Fiscal? É prova de imprudência no uso do dinheiro público.

É preciso reavivar a memória do povo, a cada instante, para mostrar que este ajuste violento não corresponde ao que foi pregado pelo PSDB, não é “o que o Aécio faria”. O ajuste vai cair nos ombros da população. O aumento de impostos pega todos, empresários e consumidores, desemprego e reajustes salariais abaixo da inflação pegam os trabalhadores. A alta das taxas de juros em doses excessivas aumenta a dívida pública e dificulta o próprio ajuste. Essas medidas podem eventualmente controlar a inflação, mas reduzem a massa salarial e diminuem o consumo. Como o governo não corta despesas, a retomada do crescimento - se houver - terá sido conseguida a enorme custo para o povo.

O refrão das oposições deve ser: chegamos a tais medidas e ao descalabro atual porque os governos lulopetistas foram irresponsáveis, não se preocuparam em controlar o gasto público e enganaram o povo, enveredando pela megalomania. Os royalties do pré-sal, diziam, vão resolver os problemas da educação, faremos ao mesmo tempo o trem-bala, a transposição do São Francisco, a Norte-Sul e a Transnordestina, sem falar nos 800 aeroportos! Concessão de serviço público é coisa de vende-pátria neoliberal. Daremos empréstimos no Fies e no Minha Casa, Minha Vida, as bolsas acomodarão os miseráveis e o BNDES dará subsídios em abundância aos empresários. O Tesouro Nacional pagará a farra.

Tanto pior, melhor? Não. Anotada e registrada a responsabilidade política do petismo, as oposições, em particular o PSDB, têm compromissos com a Nação. Nada justifica arruinar ainda mais o futuro, votando pela derrubada do fator previdenciário. Nada explica apoiar aumentos de gasto que no futuro serão pagos com mais impostos, mais inflação e mais ajustes. Em suma, a oposição deve criticar as políticas petistas, e não se confundir com elas. Não deve, porém, votar contra os interesses da Nação.

Espera-se mais das oposições. Espera-se que apresentem sua visão de futuro, apontando um rumo ao País. Espera-se que se comprometam com a construção de uma economia de baixo carbono, impulsionada pela inovação, regida por regras claras e estáveis, com agências regulatórias independentes, melhor e mais integrada ao mundo e às cadeias globais de valor. Espera-se que defendam a reindustrialização do País, sem hesitar na crítica a políticas canhestras de conteúdo nacional que, sob a pretensão enganosa de estimular a produção local, acabam por isolar o Brasil e condená-lo à obsolescência tecnológica. Espera-se que façam da educação não um slogan, mas de fato uma prioridade do Estado e da sociedade; que tenham a coragem de dizer que, embora avançando, o Brasil está ficando para trás em relação a países comparáveis ao nosso; que diante da sombra que esse quadro projeta sobre o futuro do País não receiem enfrentar dogmas e pressões corporativas que dificultam reformas e inovações indispensáveis a um salto de qualidade em matéria de educação.

Espera-se das oposições que sejam progressistas também no campo comportamental: que não defendam a redução da maioridade penal, mas sim a extensão da pena dos menores infratores em dependências que sejam condizentes com a dignidade humana; que apoiem como legítimo e justo o casamento entre pessoas do mesmo sexo; que não fujam ao debate sobre as drogas e não temam proclamar que o encarceramento dos usuários é parte do problema, e não da solução; que sejam assertivas na luta pela igualdade de gênero e contra o preconceito e a discriminação racial, com o uso adequado de cotas e demais medidas compensatórias; e que não aceitem retrocessos legais na questão das terras indígenas.

Espera-se das oposições, sobretudo, que reafirmem seus valores democráticos. Que digam, em alto e bom som, ser possível e necessário atuar contra a deliberada violação de direitos humanos, principalmente em países vizinhos, sem com isso ferir o princípio da não intervenção.
Da mesma maneira, espera-se que reiterem não ter o propósito antidemocrático de derrubar governos, mas tampouco o temor de cumprir seus deveres constitucionais, se os fatos e a lei assim o impuserem.

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Fernando Henrique Cardoso é sociólogo e foi presidente da República

Luiz Werneck Vianna - O pandemônio e o elogio da serenidade

- O Estado de S. Paulo

Não está fácil entender o que se passa ao redor. Pelos padrões usuais na interpretação dos fatos da política isso aí que nos ronda tem algo de insondável, talvez porque esteja inextricavelmente ligado a um affaire policial, grande parte dos principais envolvidos em sua trama sujeitos a uma eventual delação premiada, terreno próprio para enigmas psicológicos estudados na teoria dos jogos. Para qual cenário deve o observador fixar sua atenção: no dos poderes políticos ou no dos tribunais?

Se salvar a pele parece ser uma estratégia comum, como avaliar as intenções – se genuinamente políticas ou devidas a cálculos do tipo dilemas do prisioneiro, frequentes em processos criminais – daqueles que têm resgatado a autonomia da vida parlamentar, ou dos que ameaçam o abandono do centro político, depois de vencedores em quatro disputas presidenciais consecutivas em amplíssimas coalizões pluripartidárias, em favor de alianças ditas de esquerda, em trânsito abrupto de uma ética de responsabilidade dos tempos Antônio Palocci-Henrique Meirelles para, presumidamente, uma de convicção?

Se o ajuste fiscal, expressão com que se evita o estigma dos programas de austeridade europeus, é necessário – diagnóstico da oposição nos debates da campanha presidencial, que a situação, para estupefação geral, referendou logo após sua vitória eleitoral –, por que a principal liderança do PT, mentor da indicação de Joaquim Levy, membro do seu primeiro governo, para o Ministério da Fazenda, se opõe agora a ele e ao seu programa de ação? Augura-se à presidente Dilma a má sorte de, mais uma vez, se desdizer e de governar por quase quatro anos sem sustentação parlamentar e sem o apoio do partido que por duas vezes a elegeu?

Não existe, como se sabe, impeachment branco. Qual é o método dessa loucura? Trata-se de uma estratégia política sofisticada, explorando novos e mais promissores recursos no volume morto da sociedade, contrariando práticas vencedoras e até mesmo as preferências pela razão pragmática em política, tantas vezes declaradas pelo ex-presidente Lula? Ou uma simples demonstração de força a fim de dissuadir os que desejam empurrá-lo para a vala comum da Operação Lava Jato?

Dado que o reino das intenções e dos móveis humanos, ninguém ignora, é de difícil acesso, melhor seguir Maquiavel, que nos recomenda atentar para “la verità effetuale delle cose”. De fato, não há como fugir: são dois cenários, o da política e o judicial, que se intercomunicam, embora cada qual seja animado por lógicas próprias. A aprovação da PEC da Bengala, por exemplo, dilatando o tempo de serviço dos ministros do Supremo Tribunal Federal, certamente teve como alvo retirar da presidente Dilma o poder de substituir uns cinco ministros que, no curso do seu mandato, seriam automaticamente aposentados.

A votação inesperada dessa emenda constitucional, de resto talvez necessária e absolutamente defensável, se o mundo das coisas reais importa, deve-se, como sabem as pedras da rua, menos às boas intenções que ela também abriga, e sim ao andamento da Operação Lava Jato, que assombra como o fantasma do pai de Hamlet as noites e os dias dos altos círculos do poder. Não se deve esperar processo diferente nas eleições para procurador-geral da República, ora em seus movimentos iniciais.

Se a política se tornou um lugar assombrado, em que um bilhete escrito por um prisioneiro e interceptado por seus guardiões ou eventuais palavras imprevistas e mal calculadas em depoimentos ou em acareações policiais arriscam desatar reações desastradas tanto no processo político como no judicial, já passou da hora, em defesa da nossa democracia política, a invocação da virtude da serenidade, tão bem defendida por Norberto Bobbio em brilhante ensaio com esse título.

A serenidade não como uma virtude passiva, que Bobbio reprovaria, mas ativa, no sentido de nos credenciar a avaliar à margem desses apetites desvairados por poder que nos infestam e dos ódios que envenenam a política – mesmo os dos dissimulados que, ao reprová-los, fazem cara de paisagem para as práticas delituosas que nos trouxeram ao estado de coisas que aí está –, a fim de que, tal como na teoria dos jogos, sopesemos o que já ganhamos e o que podemos perder.

Na coluna dos ganhos, a autonomia com que têm operado as instituições republicanas, inclusive o Tribunal de Contas da União e a Polícia Federal, para não falar no derruimento da cultura bastarda que informou o nosso presidencialismo de coalizão. Não é pouco, e essa listagem está longe de ser completa. Uma política de serenidade deve nos proteger de pormos em risco a democracia política que já conquistamos a fim de, continuamente, aperfeiçoá-la.

Tudo somado, em que pese a gravidade da crise atual, ela, como se diz, pode abrir uma janela de oportunidade para a afirmação da atividade política, como se pode entrever no retorno à ribalta do tema do federalismo, calcanhar de aquiles desde o Império, do autoritarismo político entre nós, nas mudanças com que os partidos políticos já se empenham em busca de enraizamento na vida social, na reforma política, ainda em andamento no Parlamento, cujo desenlace pode ser mais feliz do que os céticos preveem. E last but not least, com a constatação de que acaba de soar o canto de cisne do capitalismo de Estado que, ora mais, ora menos, informou nosso longo processo de modernização, pavimentando o caminho para a cultura da estatolatria, que medra melhor quando se reduz a sociedade à passividade.

São transformações relevantes ao alcance da mão, se encontrarem o tempo necessário para sua maturação, que, com os auxílios da virtude da serenidade, podemos garantir. Tanto no front político ou judicial, nesse pandemônio em que nos metemos, não há bala de prata que nos livre, de um só golpe, dos males que nos afligem.

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Luiz Werneck Vianna é sociólogo e dá aula na PUC-Rio

Merval Pereira - Em busca do consenso

- O Globo

Conseguir um consenso entre seus componentes, ou um resultado perto disso, parece ser, no momento, a principal preocupação dos dois tribunais que estão às voltas com processos contra o governo Dilma, ambos com capacidade potencial de inviabilizá-lo ainda no seu primeiro ano.

A favor ou contra, o resultado dos julgamentos idealmente deveria refletir uma maioria que não dê margem a dúvidas, para o fortalecimento das instituições democráticas. Por isso, o depoimento de Ricardo Pessoa, da UTC, o chefe do clube das empreiteiras que coordenou a corrupção na Petrobras e, tudo indica, em outras estatais, é considerado essencial para decisão do Tribunal Superior Eleitoral sobre as contas da campanha que reelegeu Dilma.

Assim como a resposta do Planalto aos questionamentos do Tribunal de Contas da União sobre irregularidades nas contas do mesmo ano, último do 1º mandato de Dilma, selará a decisão dos ministros, que se inclinam majoritariamente à rejeição das contas, certos de que não há explicações dentro da lei para as irregularidades já detectadas pelo relator Augusto Nardes.

O exame das contas eleitorais de Dilma pelo TSE está em aberto, depois que o ministro do Supremo Tribunal Federal e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes, prorrogou por um ano o prazo para que elas permaneçam disponíveis na internet.

A decisão foi motivada por suspeitas de irregularidades, que ele considera "gravíssimas", como o pagamento de R$ 20 milhões a uma gráfica fantasma ou a uma firma, a Focal, para montar palanques presidenciais, no valor de R$ 25 milhões. Há, além disso, outros dois processos no Tribunal Superior Eleitoral contra a campanha do PT de 2014, a partir de denúncias do PSDB, uma com a ministra Maria Teresa, outra com o ministro João Noronha, ambos do STJ.

Paulo Roberto Costa e o doleiro Youssef já foram ouvidos sobre as denúncias de uso de dinheiro desviado da Petrobras na campanha de 2014. É nesse processo que o ministro Noronha marcou para 14 de julho o depoimento de Ricardo Pessoa, da UTC, que em sua delação premiada revelou ter doado dinheiro desviado da Petrobras para a campanha de Dilma em 2014, depois de já ter feito o mesmo na campanha de Lula em 2006.

No depoimento, Youssef contou que foi procurado por uma pessoa ligada à campanha de Dilma, de nome Felipe, que sondou a possibilidade de repatriar R$ 20 milhões de uma conta no exterior. O próprio empreiteiro contou que abriu conta na Suíça para repassar dinheiro ao PT.

Na investigação sobre o mensalão já surgira uma conta no exterior do PT, quando o marqueteiro Duda Mendonça admitiu que recebeu pagamento do PT em um paraíso fiscal. Também no mensalão houve um momento em que o dinheiro dos partidos não foi pago, e o então ministro Dirceu deu como desculpa o fato de que alguns doleiros haviam sido presos, e por isso estava difícil transferir o dinheiro do exterior.

Na campanha de Dilma, Youssef alegou que não chegou a fazer a transferência porque foi preso na Lava-Jato. A impugnação da chapa por "abuso de poder político e econômico" pode ser uma das consequências da denúncia, o que provocaria uma nova eleição se o caso for resolvido na Justiça Eleitoral nos dois primeiros anos de mandato, isto é, até o final de 2016.

No caso do TCU, além das "pedaladas", novas descobertas sobre as contas públicas foram incluídas no relatório do ministro Augusto Nardes, como: pagamento de dívida contratual junto ao FGTS sem autorização orçamentária em 2014; excesso de recursos, para além dos valores aprovados, por Amazonas Distribuidora de Energia, Araucária Nitrogenados, Boa Vista Energia, Energética Camaçari Muricy I (ECM I) e Petrobras Netherlands, além de Telebras, Transmissora Sul Litorânea de Energia S.A. (TSLE) e Furnas; pagamento de despesa sem previsão no orçamento de investimentos pelas empresas públicas Araucária Nitrogenados S.A., ECM I e TSLE; ausência de contingenciamento de R$ 28,54 bi em decreto presidencial de novembro de 2014.

Algumas das medidas são competência específica da Presidência, o que pega diretamente Dilma, mesmo que o Planalto alegue que os responsáveis pelas “pedaladas” sejam o ministro Mantega ou o secretário Augustin. Diante dos fatos, é mais fácil obter consenso de reprovação das contas de Dilma do que o contrário.

Bernardo Mello Franco - Adeus às ilusões

- Folha de S. Paulo

Para o escritor Frei Betto, o modelo de crescimento da era Lula ajuda a explicar a rejeição galopante ao PT e à Dilma. Enquanto sobrava dinheiro, diz ele, o governo apostou na inclusão social pelo consumo e não investiu o que devia nos serviços públicos, como saúde, transporte e educação. Agora que a festa acabou, quem pensava ter melhorado de vida percebeu que boa parte do bem-estar era ilusória.

"Essa inclusão não tinha lastro econômico e criou uma nação consumista", afirma o dominicano. "As pessoas estão chateadas porque não podem mais viajar de avião, ir ao restaurante, fazer a mesma compra na feira. A raiva vem daí. Tiraram o sorvete da boca da criança."

Na Flip para lançar seu 62º livro, "Paraíso Perdido" (Rocco), Frei Betto também está desiludido com o partido que apoiou em tantas eleições. "O PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Agora paga pelos erros que cometeu", critica. Ele diz que o petismo está imobilizado pela coalizão que montou para governar. "O PT construiu uma base fisiológica, não ideológica. Depois do mensalão e do petrolão, alimentar esse sistema ficou mais difícil."

Ex-assessor de Lula no Planalto, o escritor lamenta que o partido tenha se afastado dos movimentos sociais. "O PT resolveu se apoiar nos inimigos. Antes, criticava o mercado e o Congresso dos 300 picaretas. Agora é refém dos dois e não sabe como sair do impasse."

Em Paraty, ele trocou ideias com o romancista Leonardo Padura e comparou o que vem pela frente ao chamado período especial de Cuba, após o fim da União Soviética. "Guardemos o pessimismo para dias melhores", brinca. A sério, Frei Betto diz que a situação é "muito crítica". "Não vejo uma luz no fim do túnel."

O ajuste fiscal, avisa o escritor, só vai agravar a insatisfação dos mais pobres e a rejeição ao governo e ao PT. "A Dilma só tem uma saída: povo na rua. Mas agora quem vai para a rua defendê-la?", questiona.

Dora Kramer - Sem pai nem mãe

- O Estado de S. Paulo

O fato mais notável da passagem do ex-presidente Luiz Inácio da Silva na semana passada por Brasília nem foi a mudança brusca do tom do discurso de ataque anterior para a defesa do governo da presidente Dilma Rousseff, apontada como sinal de que ele ficou satisfeito com as críticas dela às investigações da Operação Lava Jato.

Digno de nota realmente foi o fracasso da tentativa de Lula de retomar a condição de grande liderança política com capacidade inequívoca e inesgotável de fazer amigos, influenciar pessoas, apaziguar contrariedades, aglutinar forças, organizar a tropa, apontar o rumo e restabelecer a ordem unida.

Pois Lula passou dois dias na capital da República em conversas e articulações com vista a animar os aliados a superar a crise, unir esforços em torno de uma agenda positiva e ninguém deu a menor bola.

O PDT avisou que queria devolver o Ministério do Trabalho. O ministro da Justiça, cansado da guerra interna, falou reservadamente que está farto e admitiu publicamente que não seja por isso, a um sinal da presidente está pronto para deixar o cargo. O PT precisou explicitar apoio ao ministro em nota depois de tê-lo confrontado no tocante ao legítimo exercício de suas funções e o PMDB simplesmente passou a defender ruptura, enquanto Lula falava em unidade.

É de se começar a perceber aqui as razões pelas quais a oposição “oficial” não investe no politicamente tortuoso caminho do impeachment da presidente. Primeiro, porque o governo tem dado margem a contestações com base na lei. E, depois, do desgaste no campo político os amigos têm dado conta do recado com muito esmero.

Note-se que a presidente Dilma pode até não deixar o governo antes do término regulamentar de seu mandato como, de resto, nada de concreto no momento indica que esteja no horizonte medianamente próximo. De outro lado há sinais de que o governo – aqui entendido como os integrantes dele – anda querendo “sair” de Dilma Rousseff, distanciar-se dela e de seu um dígito (9%) de avaliação positiva junto à opinião pública.

Algarismo mortal, notadamente se buscarmos na memória o tempo em que o dígito único representava aqueles que avaliavam negativamente o governo do PT. Parcela da população tratada como “resíduo” a ser ignorado, feito de chacota e usado como salvo conduto para o cometimento de quaisquer tipos de barbaridades. “Prova” de que a exigência por condutas corretas era coisa de uma minoria inconformada com a ascensão de um operário ao poder.

Dado o caráter fictício do enunciado, a canoa virou. E virou porque não souberam remar no oceano democrático em que não cabem pais dos pobres nem mães do PAC. Apenas filhos de uma sociedade em busca de qualidade, igualdade, legalidade, civilidade, verdade, transparência, maturidade e educação moral e cívica no melhor e mais democrático dos sentidos.

Pegadinha. Em meio a tantas e tão atribuladas votações relativas à legislação eleitoral – equivocadamente chamadas de reforma política –, a Câmara dos Deputados decidiu que as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral, referentes a um pleito, terão de ser baixadas com um ano e meio de antecedência.

Já as mudanças nas leis continuam podendo ser feitas até um ano antes. O ex-deputado Arnaldo Madeira desvenda a jogada: com isso, quando os parlamentares considerarem que as decisões do TSE contrariam seus interesses, têm prazo de seis meses para adaptar a legislação e, se for o caso, invalidar a resolução do tribunal.

São muitos os casuísmos da dita reforma, mas esse havia passado despercebido.

Luiz Carlos Azedo - Lulu Massa e o paraíso

- Correio Braziliense

• Em vez do prometido aos trabalhadores durante a campanha eleitoral, em seis meses de segundo mandato, o governo Dilma abriu-lhes a porta do inferno

A classe operária vai ao paraíso (La classe operaia va in paradiso) é um clássico do cinema engajado. Filme italiano, lançado em 1971 e ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, no ano seguinte, foi dirigido por Elio Petri, com argumento e roteiro dele próprio, e Ugo Pirro.

A história mostra a realidade das fábricas e dos ambientes além das linhas de produção. No Brasil, nos anos de chumbo, fez sucesso em cinemas alternativos e cineclubes. Era o contraponto aos sindicatos controlados por pelegos que apoiavam o regime militar, muitos dos quais ex-interventores do Ministério do Trabalho.

O protagonista da história é Lulu Massa, um operário consumido pelo capital e cujo trabalho estranhado consome sua vida. A fábrica adota sistema de cotas (metas) que intensifica a produção. Ele é o operário-padrão da fábrica, sendo hostilizado pelos demais companheiros de chão de fábrica.

Após perder um dedo na máquina, Lulu adota uma atitude crítica ao modelo de exploração, confrontando a gerência. Os operários (situação e oposição sindical) contestam as cotas. Após uma greve, Lulu é demitido. Depois de negociações, ele consegue ser readmitido na fábrica, volta à linha de produção. Torna-se um líder autêntico.

É inevitável a comparação com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o líder operário que chegou ao paraíso do poder. Protagonista da primeira grande greve operária do regime militar, depois das paralisações isoladas de Osasco (SP) e Contagem (MG), em 1968, Lula emergiu para a cena política nacional nas greves de metalúrgicos do ABC paulista de 1978. Foi essa a gênese da criação do PT, em 1979, e da CUT, em 1983, instrumentos que o levaram à Presidência da República.

Quatro anos e meio após deixar o poder, Lula está de volta às assembleias e encontros sindicais. Luta para salvar do fogo do inferno o seu legado político. Na sexta-feira, participou da plenária da poderosa Federação Única dos Trabalhadores (FUP), em Guararema, São Paulo, vestido de macacão laranja, a cor dos uniformes da Petrobras. Já não organiza a defesa de empregos e salários, seu objetivo é a preservação do poder, que escorre pelos dedos com o fracasso do governo Dilma Rousseff.

Mais uma vez, Lula puxou a orelha da presidente da Republica, a pretexto de defendê-la: “Eu penso que ela tem que priorizar andar por esse país. Ela tem que botar o pé na estrada. Em vez de ficar na televisão ou na internet ouvindo os que falam mal dela, ela tem que ir para a rua conversar com o povo, que está torcendo e querendo que ela governe esse país da melhor maneira possível”. Acontece que Dilma não tem condições de correr para o abraço com o povo. Aonde for, será vaiada; aplausos, só da claque organizada, como a de Guararema.

Fábricas paradas
A CUT, como o PT, perdeu capacidade de mobilização. De nada adianta o “Lula lá” dos sindicalistas reunidos no litoral paulista diante das consequências da roubalheira na Petrobras, para a qual os sindicatos fizeram e ainda fazem vista grossa. Na véspera do encontro, por exemplo, o Estaleiro Mauá, localizado em Niterói, suspendeu suas atividades por tempo indeterminado.

Cerca de 2 mil trabalhadores foram dispensados após o término do expediente. O setor já cortou mais de 14 mil vagas desde o início do ano, atingindo mais de 100 mil pessoas indiretamente. Motivo: atrasos nos repasses da Transpetro e da Petrobras.

A Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE mostra que a massa salarial real habitual (sem o 13º salário) diminuiu 10% entre novembro do ano passado, pico dos últimos anos, e maio deste ano. E a situação se agrava. A Volkswagen negociou com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC a inclusão de mais 2.350 trabalhadores no sistema de lay-off , a partir de amanhã.

A Ford vai promover “parada técnica” de produção e férias coletivas para trabalhadores nas fábricas de São Bernardo e Taubaté. Até a JBS, “campeã nacional” do processamento de carne, anunciou que concederá férias coletivas a 400 funcionários da sua unidade de bovinos em Nova Andradina, em Mato Grosso do Sul. Um dia antes, suspendeu as operações em sua planta industrial de Cuiabá (MT).

Em vez do prometido aos trabalhadores durante a campanha eleitoral, em seis meses de segundo mandato, o governo Dilma abriu-lhes a porta do inferno. A inflação esperada para 2015 era de 6,4%; hoje, a expectativa está na casa dos 9%.

A elevação estimada da taxa Selic para o ano é de 14,25%, em comparação com 12,5% previsto em janeiro. Previa-se, no início do ano, uma contração de 0,5%. A recessão, porém, é mais acentuada e pode chegar a menos 2%. Numa imagem figurada, é como se Lulu Massa travasse a engrenagem da linha de produção com uma barra de ferro. O país enguiçou.

Eliane Catanhêde - Prazo de validade

- O Estado de S. Paulo

Reforma ministerial está para governos em crise assim como reforma política está para Congresso em crise: é uma panaceia para ganhar tempo e fingir que alguma coisa vai mudar para manter tudo como está - mesmo que esteja afundando. Há, porém, um outro lado na troca de ministros em momentos graves: a sensação de que estão pulando de uma canoa furada ou de um Titanic que vai a pique.

Desde dezembro, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, ensaia sua saída do governo e reclama com amigos e com a própria presidente Dilma Rousseff que está com o “prazo de validade” vencido. Ele joga isso ao vento, porém, no pior momento. Só aumenta a tempestade.

Um ministro da Justiça não é um ministro qualquer. E Cardozo não é só um ministro da Justiça, é um dos solitários conselheiros a resistir bravamente a uma presidente que não sabe ouvir e não suporta conselhos. Com Aloizio Mercadante e Edinho Silva na linha de fogo do delator Ricardo Pessoa e Cardozo na linha de fogo da Executiva do PT, quem é que sobra?

Alguém poderia responder: Jaques Wagner, da Defesa. Esse carioca-baiano tirou nota 10 em política ao virar um lulista importante no governo Dilma, que encheu o Planalto de não-lulistas. Com tal esperteza, Wagner está no governo, mas dividido entre terra, mar e ar, tão distante da crise quanto possível. Alguém tem visto o ministro batendo continência para Dilma nas reuniões de emergência sobre a crise?

O ex-presidente Lula gosta de Jaques Wagner, mas não suporta Mercadante nem Cardozo e trabalha contra os dois desde os primeiros minutos do segundo mandato. Com o chefe da Casa Civil, o ataque de Lula deu certo. Lula bateu, Mercadante se recolheu aos bastidores e nunca mais se ouviu um pio sobre sua suposta ambição de disputar a Presidência. Com o ministro da Justiça, o ataque pode dar, pode não dar certo. Os movimentos de Cardozo têm duas interpretações. Ele alardeia que está para sair porque está mesmo ou, na direção oposta, para que o PT acorde para a gravidade de sua saída e para que Dilma reforce sua posição?

Para Cardozo, jogar a toalha seria um alívio. Ele poderia concluir o doutorado em Salamanca e encher as burras como advogado, com a consciência dos justos, desses que nem tentam nem têm como limitar ou manipular as investigações da Polícia Federal, e mais: que, pelo se saiba, passam pelo poder sem ceder à tentação de mensalões e sem desfrutar do assalto à Petrobras.

Horizonte político ele já não tem mesmo. Não concorreu a nada nas últimas eleições, está num governo com futuro sombrio, não tem espaço em quaisquer que sejam os planos de Lula e só iria para um partido de oposição se quisesse jogar sua reputação para o alto, porque lealdade na desgraça não é opção, é obrigação. A não ser que, como é bem possível em momentos de grandes crises, haja uma rearrumação das forças políticas. Isso não está descartado.

E para Dilma? Não importa por que e para que, a saída de Cardozo, numa hora dessas, seria a desgraça dentro da desgraça. Acentuaria de forma dramática a sua fragilidade política, e até pessoal, e elevaria ao máximo a desconfiança de que ela não tem capacidade para conduzir o governo e perdeu o controle da situação.

Pior do que discutir a queda do ministro da Justiça seria discutir a queda do ministro da Justiça simultaneamente à renúncia de Michel Temer, vice-presidente da República, da estratégica e vital coordenação política de um governo que não sabe fazer política. Sem contar que o peso da crise e o gelo do PT estão fazendo mal à saúde e tirando oxigênio do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que faltou ao anúncio dos cortes no Orçamento alegando uma “gripe forte” e acaba de ser internado com suspeita de embolia pulmonar.

Perder o ministro da Justiça já é grave. Perder o ministro da Justiça e o coordenador político é dramático. E perder o ministro da Justiça, o coordenador político e o cérebro da economia pode ser fatal.

Fernando Gabeira - O passado como esconderijo

- O Globo

• Considero uma farsa comparar um empresário que enriquece com a Petrobras com os militantes que deserdaram na luta armada

Passei a semana navegando pela costa do Maranhão, caprichosamente desenhada pelo mar. São as Reentrâncias Maranhenses, e as percorri já dentro dos limites da Amazônia Oriental. Meu objetivo era o arquipélago de Maiau. Ao chegar mais próximo dele, o nome das cidades já tem um traço indígena: Cururupu, Apicum Açu. Deixei para trás uma grande crise política. Na Ilha dos Lençóis, consegui ver com os nativos alguns noticiários de tevê. Impressionou-me o impacto da Bolsa Família nessas ilhas maranhenses: a maioria dos habitantes ganha salário do governo.

Quando as notícias eram sobre corrupção na Petrobras eles associavam seu lamento à situação da saúde pública: tanta gente precisando, os hospitais caindo aos pedaços. A tese de Dilma de que não respeita os delatores, comparando-os aos que trocaram de lado no período da ditadura, entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

O que penso sobre isso ficou claro num artigo que escrevi, criticando a má-fé dos que comparam os delatores premiados a Judas e Joaquim Silvério dos Reis.

Na Ilha dos Lençóis não existe polícia, nem uma cultura antipolicial. Os problemas são resolvidos pela comunidade. Um criminoso jamais pode fugir porque da ilha só se sai de barco e, passando a voz, os barqueiros se recusam a tirá-lo de lá.

Considero uma farsa comparar um empresário que enriquece com a Petrobras com os militantes que deserdaram na luta armada. Naquela época havia tortura. A denúncia, por mais condenável, visava à preservação física. E havia também um compromisso coletivo de tudo fazer para preservar a vida e a liberdade dos companheiros soltos. Será que Dilma considera o grupo de empresários que manobrava as licitações na Petrobras companheiros que devam resistir a tudo para salvar os outros e o projeto do socialismo? Será que considera que o grupo mafioso formado por políticos e milionários tinha nosso mesmo objetivo pretérito: o socialismo, a ditadura do proletariado? Não acredito que ela coloque os interesses nacionais de uma investigação no mesmo nível das torturas e prisões do período militar.

Ela não é tão pouco inteligente assim. Como comparar um sonho, ainda que equivocado, de transformação social, com o propósito puro e simples de roubar a maior empresa estatal? Será que ela considera todo o núcleo desbaratado e preso pela Polícia Federal uma célula transformadora, com outros objetivos além de enriquecer e se perpetuar no poder? Não acredito que ela confunda a VAR-Palmares com o Clube dos Empreiteiros. Nem que ela considere o Ricardo Pessoa aquele Bom Burguês, um homem rico que ajudava o MR8.

O lugar onde estou é muito louco. Dunas intermináveis, o vento forte, a crença de que o Rei Dom Sebastião, morto em 1578, em Alcacer Quibir, está enterrado aqui com seu cavalo branco e todas as joias que conseguiu trazer. No entanto, pareceu-me uma loucura maior uma presidente do Brasil dizer, nos EUA, com todas as letras, que não respeita delator, assim de forma abstrata, como se colaborar com a polícia fosse uma das maiores baixezas humanas. Se a mensagem que Dilma e o PT querem transmitir de que o roubo na Petrobras se equivale à resistência armada e de que a corrupção é apenas uma continuidade no combate ao capitalismo, tenho razões para protestar.

Escrevi muita coisa criticando a luta armada. Estou cansado de tocar no assunto. Infelizmente, tenho de voltar a ele por uma questão de justiça: a resistência era feita por idealistas. Mesmo quando se assaltava um banco, arriscava-se a vida. O dinheiro, ao que me consta, não era tocado por indivíduos mas destinado à organização. Os assaltos eram feitos com declarações políticas inequívocas. Ninguém enriqueceu. Pelo contrário: os que não aderiram ao PT têm grandes dificuldades, como todos os brasileiros.

Dilma atua, nesse caso, talvez inspirada pelos marqueteiros, como uma cafetina da luta armada. Tenta justificar um assalto aos cofres públicos desqualificando os assaltantes que se arrependeram e querem devolver o dinheiro ao país. No seu discurso, acusados pelo rombo na Petrobras, ela, Lula e os tesoureiros que ainda estão soltos substituem os idealistas da resistência.

Ninguém deve ter acreditado no argumento de Dilma. Vejo que seu índice de rejeição está nas alturas. Não pretendia voltar ao tema, mas ele introduz uma novo atalho para a impunidade. Sabe com quem está falando? No passado, descobertas no crime, autoridades se escudavam no poder. Na versão atual, mistificadores escondem-se atrás do próprio passado.

Alguns presos do mensalão entraram de punho erguido na cadeia. Eles queriam dizer que a prisão era apenas a continuidade de sua luta. Dilma achou a maneira simbólica de erguer o punho, ao ser revelado o elo do petrolão com sua campanha. Foi traída pela delação. Mesmo quando arruínam o país, querem passar por incompreendidos salvadores.

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Fernando Gabeira é jornalista

Elio Gaspari - Ela termina o mandato?

- O Globo

• A pergunta é fácil e cada um responde como quiser, mas restam outras: Como? Para quê? Para botar quem?

Desde que Ricardo Pessoa começou a colaborar com as autoridades, essa pergunta tornou-se um complemento rotineiro aos comentários para quaisquer fatos. Milton Pascowitch fechou seu acordo de colaboração e José Dirceu pediu um habeas corpus preventivo. Será que ela termina o mandato? Jorge Luiz Zelada, ex-diretor da Petrobras, está preso. Será que ela termina o mandato? O deputado Eduardo Cunha sugere que seu aliado Michel Temer abandone a coordenação política do governo porque, enquanto ele costura alianças de dia, o PT descostura-as à noite. Se o PMDB se afastar ainda mais do Planalto, será que ela termina o mandato?

O regime democrático brasileiro elegeu quatro presidentes: Fernando Collor, FHC, Lula e Dilma. Um foi para casa antes de concluir o mandato. Se isso acontecer a outro, chega-se a uma taxa de mortalidade de 50%. (A do vírus Ebola esteve em 70%.)

Indo aos mecanismos práticos existentes, Dilma Rousseff pode ser impedida pelo Congresso. Nesse caso, assume Michel Temer para concluir o mandato. Trocar Dilma por Temer vem a ser o quê?

Dilma também pode ter o seu mandato anulado pelo Tribunal Superior Eleitoral e há processos que, algum dia, podem acabar dando nisso. Nesse caso, a vice de Temer vai junto e assume Aécio Neves. No país do futebol, entregar a taça a quem perdeu a final é uma coisa meio girafa.

Noutra hipótese, o TCU pode rejeitar as contas da doutora, enviar sua decisão ao Congresso e vê-la referendada, o que provoca um impedimento com padrinho. É uma fórmula engenhosa, mas o Tribunal de Contas não chega a ser um tribunal e sua relação com as contas dos poderosos jamais encantou a plateia.

Nenhum desses três mecanismos fica de pé sem o ronco da rua. Não se pode dizer se ele virá, nem como virá. Quando se tratava de mandar Collor para casa, empossar Itamar Franco pareceu uma boa ideia. E foi.

Presidente com um dígito de aprovação antes de completar um ano é coisa nunca vista. Quem levou a doutora Dilma à situação em que está não foi a oposição, muito menos os moinhos de vento que o PT vê a cada esquina. Foi ela mesma. Como sairá dessa, só ela poderá saber. As razões pela qual entrou nessa enrascada foram muitas. Talvez a maior delas, por desnecessária e megalomaníaca, tenha ocorrido dias depois de sua vitória no ano passado, quando o PT tentou atropelar o PMDB.

O fascínio petista pelo caminho do brejo
Em oito meses aconteceram tantas coisas em torno do governo da doutora que algumas delas parecem esquecidas. Às vésperas do segundo turno da eleição de 2014, Dilma Rousseff, horas antes de uma reunião com o companheiro João Pedro Stedile e outros chefes de movimentos sociais, anunciou que "a reforma política é a condição para o efetivo combate à corrupção". O comissariado propunha uma reforma plebiscitária com um receituário que poderia incluir o famoso voto de lista.

Nesses dias os companheiros já sabiam que o Congresso não comprava sua reforma. Mais: sabia que Eduardo Cunha era candidato a presidente da Câmara. Inebriados pela vitória, resolveram atropelar. Enfrentariam Cunha e tocariam a agenda do rolo compressor. (Já tinham escolhido um banqueiro para sequestrar o programa econômico de Aécio Neves mas, como podiam tudo, isso era um detalhe.)

A reforma plebiscitária e o lançamento do petista Arlindo Chinaglia para disputar com Eduardo Cunha indicavam que o PMDB seria atropelado. Foram ao embate, tomaram uma sova, pulverizaram a liderança parlamentar do governo e acabaram entregando a coordenação ao príncipe do PMDB, Michel Temer. Era isso ou rolar escada abaixo. Queriam tudo, entregaram os anéis e alguns dedos.

Mal do bem
Há males que vêm para o bem. As últimas maluquices aprovadas pela Câmara podem se transformar num fator de fortalecimento do Planalto junto aos mercados internacionais. Quanto mais clara for a percepção de que podem aprovar o que quiserem, mais a doutora Dilma canetará as doideiras com vetos, melhor para a batalha do ministro Joaquim Levy, tentando evitar um rebaixamento do crédito do país.

Papéis americanos
Durante a visita da doutora Dilma a Washington, o governo americano anunciou que pesquisou 2,5 milhões de páginas de documentos relacionados com o Brasil, produzidos entre 1964 e 1985. Desse garimpo, extraíram 4.500 páginas que podem ser úteis para jogar luz sobre a história da ditadura e das suas transações com Washington. O material foi entregue ao governo brasileiro e, digitalizado, ficará acessível na base do Arquivo Nacional Americano.

Tomara que não se repita o vexame da entrega de 43 papéis velhos e inúteis pelo vice-presidente Joe Biden no ano passado. Alguns deles estavam na internet há anos.

Lula em campo
Nosso Guia tornou-se o principal articulador de uma reaproximação com o PMDB. Em 2003, ele implodiu uma costura de José Dirceu nessa direção e cevou os pequenos partidos. Deu no mensalão. Aos poucos, Lula percebe que seu trabalho será em vão se não costurar o PT.

Cardozo
Repentinamente, o pedaço do comissariado que vinha atirando no ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, deu-se de conta de que há uma hora em que é preferível sair do que ficar.

Nabuco e Eufrásia
Até o fim do ano sairá um livro que tem tudo para cativar. É "Um Mapa Todo Seu", o décimo romance da escritora Ana Maria Machado. Conta a história de amor de dois grandes personagens. Ele é Joaquim Nabuco, o charmeur dos salões como "Quincas, o Belo" e das ruas como um campeão do abolicionismo na segunda metade do século 19. Nabuco tinha tudo, menos dinheiro. Ela é Eufrásia Teixeira Leite, rica herdeira de uma fortuna do café. Quando morreram-lhe os pais, foi morar num palacete em Paris, onde multiplicou sua riqueza.

Os dois foram e vieram durante 14 anos, quase casaram. Ela morreu solteira. Ele casou-se e detonou a fortuna da mulher investindo em papéis de um banco inglês que quebrou na Argentina.

Há um enigma nesse romance. Por que não se casaram? Ela não queria sair de Paris? O abolicionismo dele ofendia a origem da fortuna dela? Incompatibilidade patrimonial?

Ana Maria Machado construiu sua hipótese, mas para se chegar a ela será preciso esperar o livro. Uma coisa é certa: vai-se aprender mais sobre essa fantástica senhora que soube viver e acumular riqueza investindo o que tinha. Só não conseguiu dar-lhe um destino, pois deixou quase tudo para os pobres de Vassouras, e o pecúlio esfarelou-se em Lava Jatos desta vida.

Engano
A doutora Dilma disse que não demite ministro pela imprensa. Enganou-se. Demitiu Guido Mantega do Ministério da Fazenda pelos jornais e fez mais, mantendo-o no cargo, insepulto, por vários meses.

Carlos Sampaio - A uma "pedalada" da cassação

- Folha de S. Paulo

• Caso sejam rejeitadas as contas de Dilma, não haverá outro caminho que não seja um processo de cassação a ser conduzido no Congresso

O TCU (Tribunal de Contas da União) foi protagonista de uma manifestação histórica de independência e seriedade na fiscalização do Executivo ao exigir da presidente Dilma Rousseff, num prazo de 30 dias, esclarecimentos sobre 13 gravíssimas irregularidades cometidas pelo governo nas contas de 2014.

Trata-se de um marco no relacionamento entre as instituições democráticas brasileiras, pois é a primeira vez que tal exigência é feita. A rejeição das contas também seria algo inédito e feriria de morte o governo da presidente Dilma, que estaria, assim, sujeita à cassação por crime de responsabilidade.

Tanto o ministro-relator do processo no Tribunal de Contas, Augusto Nardes, como o procurador do Ministério Público no TCU, Júlio Marcelo de Oliveira, foram enfáticos e contundentes ao afirmarem que Dilma é a responsável direta pelas irregularidades encontradas.

Para eles, a presidente afrontou a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Constituição, a Lei de Diretrizes Orçamentárias e o decreto que rege as aplicações dos recursos do Tesouro com o objetivo de fraudar as contas públicas para beneficiar-se politicamente em pleno ano eleitoral.

Esse entendimento embasa representação assinada pelo PSDB e por outros partidos da oposição, entregue à PGR (Procuradoria Geral da República) no final de maio. No documento, solicitamos que a PGR apresente ao Supremo Tribunal Federal uma ação penal contra Dilma "pela prática continuada dos crimes contra as finanças públicas". Ainda aguardamos um posicionamento.

São tantas as atrocidades fiscais cometidas pela presidente que seria demasiado enfadonho ao leitor relacioná-las neste espaço. Mas, apenas para termos uma ideia da bandalheira, cito as duas principais ilegalidades: infringir a Lei de Responsabilidade Fiscal por causa das "pedaladas" e omitir dos resultados fiscais do seu governo as transações deficitárias da União junto ao Banco do Brasil, BNDES e FGTS.

Por tudo isso, é grande a expectativa da oposição e dos brasileiros de bem com relação ao posicionamento do TCU. Caso as contas de Dilma sejam rejeitadas, não haverá outro caminho que não seja um processo de cassação de seu mandato a ser conduzido no Congresso.

O impeachment da presidente Dilma é uma hipótese cada vez mais considerada entre os parlamentares. Fragilizada politicamente, ilhada pela corrupção em seu governo e pela crise na economia, pressionada pelas vozes das ruas e pela baixíssima popularidade, a presidente pode, sim, ser alvo de um irreversível processo de cassação.

Isso sem falar nos desdobramentos da Operação Lava Jato, que já começam a subir a rampa do Planalto, com novas e reveladoras delações.

As "pedaladas" de Dilma podem marcar o fim melancólico de um governo que já entrou para a história como o mais corrupto, mentiroso e incompetente de que se tem notícia. A depender da vontade esmagadora dos brasileiros, esse governo poderia muito bem terminar assim, numa "pedalada" e pronto!

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Carlos Sampaio, 52, procurador de Justiça licenciado, é deputado federal pelo PSDB-SP e líder do partido na Câmara dos Deputados

O PT se mexe e não sai do lugar – Editorial / O Estado de S. Paulo

José Dirceu, o “guerreiro do povo brasileiro”, entra na Justiça com habeas corpus preventivo contra a Operação Lava Jato. A companheirada quer a cabeça do ministro da Justiça porque não admite que ele seja “frouxo” e não faça nada para impedir que as investigações sobre a corrupção na Petrobrás continuem botando petistas na cadeia. Lula exorta a tigrada a “partir para cima” da Polícia Federal, do Ministério Público Federal, da Justiça Federal e de todos que estiverem acumpliciados na campanha que as elites malvadas promovem contra o PT. Mais um ex-diretor da Petrobrás, Jorge Zelada, vai para o xilindró, em Curitiba, enquanto Alberto Youssef, ex-doleiro preferido dos salvadores da Pátria, conta uma história nebulosa sobre trazer do exterior R$ 20 milhões para a campanha de reeleição de Dilma.

O PMDB não vê a hora de se livrar da “aliança” com o governo, para não afundar junto, e quer que Michel Temer se livre do abacaxi da articulação política. E a presidente da República está de volta do exterior, com a “agenda positiva” embaixo do braço, para anunciar novas proezas que farão os brasileiros esquecer da “crise passageira” que o País enfrenta. O noticiário político está repleto de uma ampla variedade de assuntos que se resumem a um só: o fundo do poço cavado por Lula, Dilma, o PT & Cia.

José Dirceu sabe muito bem quais são suas próprias vulnerabilidades. E tem ampla experiência em processos criminais e rotina carcerária. Com 70 anos, cada vez que olha para sua tornozeleira eletrônica deve pensar que já está na hora de saborear em paz os frutos de seu prestigiado trabalho e convocou um batalhão de bem pagos advogados para garantir isso. É realmente melhor prevenir transtornos do que ser obrigado a enfrentá-los – só que a Justiça recusou-lhe o habeas corpus.

Já o ministro da Justiça, a quem a Polícia Federal está subordinada, parece não acreditar em prevenção de danos, porque não faz nada para impedir as investigações e “vazamentos seletivos” de delações que apontam o dedo para o PT. Está na hora, portanto, de José Eduardo Cardozo deixar o cargo, proclamam os petistas atrás da moita, ao mesmo tempo que divulgam um comunicado com juras de amor eterno ao ministro.

Esse movimento pendular do PT, um dos segredos de sua bem-sucedida trajetória política, faz parte da estratégia de mobilização geral do partido exigida por Lula para neutralizar os efeitos dos escândalos de corrupção que, melhor do que ninguém, ele próprio deve saber que ainda não vieram todos à tona. A prisão de Jorge Zelada, sucessor de Nestor Cerveró na diretoria da Petrobrás, é uma evidência disso. Dessa perspectiva, a exortação de Lula aos petistas soa como um pedido de socorro.

Não é à toa, portanto, que o PMDB anda ansioso para se livrar do peso de sua aliança com o governo Dilma. Partidos se aliam ao governo para compartilhar o poder. Com a presidente da República à beira do precipício, o PMDB tem hoje mais poder de fato do que ela, como se vê pelas votações no Congresso. E o comandante dos peemedebistas, Michel Temer, parece estar chegando ao limite de sua lealdade a Dilma Rousseff, que lhe atribuiu a articulação política do Planalto, mas não consegue – ou não quer – que o governo entregue os cargos que tem prometido em troca de apoio. Assim, Eduardo Cunha, que não para de bater no governo, tornou-se ardoroso defensor da tese de que Temer deve aproveitar, provavelmente em agosto, a conclusão da votação do ajuste fiscal no Congresso para dar como cumprida sua missão de articulador político.

Não é provável que, no curto prazo, o PMDB oficialize seu rompimento com o governo. Isso lhe acarretaria mais problemas do que vantagens, principalmente quando se leva em conta que ocupa seis Ministérios. Mas é provável que, quando 2018 estiver mais perto, se o atual equilíbrio de forças se mantiver, o rompimento se tornará inevitável, até para viabilizar o eventual lançamento de candidatura própria à sucessão de Dilma.

Mas tudo isso é especulação. O que há de concreto hoje é o acúmulo de evidências, no noticiário político, do esgotamento do ciclo petista.

A ‘agenda positiva’ buscada pelo lulopetismo está visível – Editorial / O Globo

• Não é difícil concluir que o melhor a fazer para o país é tratar de remover o entulho deixado pelo experimentalismo da política do ‘novo marco macroeconômico’

O aprofundamento da crise de popularidade da presidente Dilma, neste início de segundo mandato, coincide com danos consideráveis à imagem do PT causados à medida que avançam as investigações da Lava-Jato, operação da Polícia Federal, com apoio no Ministério Público, de desmontagem do enorme esquema de corrupção instalado na Petrobras sob as bênçãos lulopetistas.

Dilma paga elevado preço ao ser pilhada no desencontro entre o que prometeu nos palanques e o que foi obrigada a fazer na economia. Não tinha saída, caso contrário mergulharia em turbulências ainda maiores. O Lula de 2003 sabe do que se trata.

Já a Lava-Jato, ao atingir desta vez a Norberto Odebrecht, da qual o ex-presidente Lula sempre demonstrou especial proximidade, passou a ser vista como uma ameaça ainda maior ao petismo.

O próprio Lula se movimentou, fez críticas às investigações, ao governo Dilma, ao PT e elevou os decibéis na defesa de uma “agenda positiva” para se contrapor ao ajuste fiscal.

Subentende-se que, ao lançar projetos e programas “propositivos” de governo, Dilma se contraporá ao pessimismo reinante. Por este ponto de vista limitado, não importa se a volta do otimismo dependa do próprio ajuste.

Mas se o propósito é lançar bandeiras que mobilizem, elas não faltam. Uma delas, prioritária, pode ser a busca por maior competitividade para a economia brasileira, um indiscutível flanco vulnerável do país.

Demonstra bem este problema o Índice de Competitividade Mundial, calculado desde 1989 pelo International Institute for Management (IMD), no Brasil associado à Fundação Dom Cabral.

Nos últimos anos, o país tem caído de posição: no levantamento deste ano, ficou no 56º lugar, 18 posições abaixo de 2010. Agora, o Brasil só não está pior que Mongólia, Croácia, Argentina, Ucrânia e Venezuela. Perde, por exemplo, para Bulgária, Peru, África do Sul e Jordânia.

Não é coincidência que o descenso do Brasil neste ranking coincida com a execução da política do “novo marco macroeconômico”, iniciada ainda na Era Lula, e de cujas ruínas a própria Dilma tenta se soerguer.

Contribuem para a piora na avaliação da competitividade brasileira o baixo crescimento e seus desdobramentos (desemprego, por exemplo), inflação e o ambiente institucional, incluindo a transparência do governo. Portanto, ajudam a melhorar a competitividade do país acabar com a “contabilidade criativa” e combater a corrupção. Quer dizer, muitos dos pontos negativos decorrem dos erros de política econômica. Assim, a “agenda positiva” tão procurada pelo lulopetismo está visível: as mudanças de rumo que Dilma tenta fazer para corrigir erros cometidos desde o segundo mandato de Lula.

Orlando Silva - Modinha

Graziela Melo - Cacos da vida

Os cacos
de vida
que me restam

Misturados
a pedaços
ainda inteiros

Dos meus ossos
que pululam
sem guarida

Pelos becos
obscuros
deste mundo,

pelas rampas
inclinadas
desta vida

São vestígios
de um corpo
destruído,

fragmentos
de uma nuvem
deluída
pelos temporais
que circundam
o universo,

nos meus tempos
de transtornos
rotineiros

oriundos
de desgostos
verdadeiros!