sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Vera Magalhães - O desastre de antecipar 2026

O Globo

Jornalistas e auxiliares de Lula erram ao iniciar bolsa de apostas que prejudica a largada do governo e mantém acirramento na sociedade

Lula ainda não completou uma semana de mandato, mas as bolsas de apostas para a sucessão presidencial de 2026 estão a todo vapor.

O erro é comum à imprensa e aos integrantes do próprio governo, e, além de ser o caminho certo para fofocas e conchavos que podem inviabilizar a largada da gestão, invariavelmente produzirá análises equivocadas.

Quem escreve coleciona uma série desses equívocos, frutos da tentação de passar a esquadrinhar a eleição seguinte tão logo é anunciado o resultado da última.

Depois de eleger João Doria prefeito de São Paulo em 2016 e na sequência governador do estado, Geraldo Alckmin foi apontado por todos, inclusive por mim, como nome forte para 2018. Teve menos de 5% dos votos válidos.

O próprio Doria, eleito duas vezes em dois anos, responsável por viabilizar a primeira vacina anti-Covid em 2021, era nome dado como certo na cédula de 2022, mas chegou avariado à campanha e bateu em retirada.

Voltando ainda mais no tempo e evocando o passado petista, em 2003, quando Lula subiu a rampa do Planalto, imediatamente se deflagrou uma disputa pelo posto de seu sucessor, entre José Dirceu, então instalado na Casa Civil, e Antonio Palocci, responsável pela Fazenda. Mudança de script: os dois se inviabilizaram por escândalos distintos e não chegaram vivos a 2010; sobrou para Dilma Rousseff, que no bolão dos cotados de sete anos antes não teria sequer um voto.

José de Souza Martins* - Mudança de presidente

Eu & Fim de Semana / Valor Econômico

Durante todo o mandato, ele se esforçou na performance teatral de militar durão, irremovível. Sai reduzido a um melancólico estereótipo

Ganhou algum destaque, no vazio pós-eleitoral do noticiário, o início da mudança dos objetos pessoais do casal presidencial para um condomínio em Brasília. Um jornal chegou a publicar fotos de alguns dos objetos, entre os 7,5 mil que o presidente da República recebeu de presente durante o mandato.

No geral, expressam a mentalidade de seus adeptos e a representação imaginária que dele têm os que o admiram. É a imagem de um herói, embora nada conste sobre heroísmo em sua biografia.

Uma pintura retrata um Bolsonaro misto de Dom Pedro na proclamação da Independência e de marechal Deodoro na proclamação da República. Um outro quadro, inteiramente feito com cápsulas de balas de revólver, anuncia uma “Aliança pelo Brasil”. Outro, ainda, é o retrato de Bolsonaro cercado de animais de patas dianteiras juntas, em posição de oração, olhando para os céus. Um Noé de direita cercado de bichos crentes.

Fez sucesso uma escultura de madeira, de título “Harley mito”, uma moto em tamanho natural. Objeto de difícil acomodação num palácio, de espaços amplos porém de uso restrito, específicos para as obras de identificação solene da monumentalidade do recinto do poder. A peça era exibida diante da tribuna presidencial em cerimônias oficiais.

César Felício - Quem deve sair primeiro do governo Lula

Valor Econômico

Situação dos ministros do União Brasil é vulnerável

Na bolsa de apostas de qual será a primeira demissão no Ministério de Lula, a ministra do Turismo, Daniela Carneiro, está disparada em primeiro lugar. Ela chamou atenção esta semana por sua imagem sorridente ao lado de milicianos, mas este não é seu único ponto vulnerável.

O episódio da foto da ministra com o “Jura”, revelado pela “Folha de S.Paulo” e por “O Globo” caminhava para a inconsequência, a tomar por base os comentários sobre a imagem feitos ontem pelo senador Jaques Wagner e o ministro Paulo Teixeira, no estilo “quem nunca?”. Mas aí apareceu, no fim da tarde, outra foto com outro miliciano, o “Marcinho Bombeiro”, que não é um miliciano qualquer: foi vereador em Belford Roxo, o reduto político da ministra, e teve dois parentes empregados na prefeitura. No começo da noite, mais uma: “O Globo” divulgou a foto da ministra ao lado de “Fabinho Varandão”, durante a campanha. O miliciano número 3 festejou nas redes sociais a chegada da deputada na Esplanada. Trata-se portanto de uma crise em curso.

Armando Castelar Pinheiro* - Rumos da política econômica

Valor Econômico

A maioria do que se propôs até agora vai no sentido de reduzir o crescimento e aumentar a inflação

A forte polarização nas últimas eleições ajudou a dar ainda menos espaço que o normal para que os candidatos apresentassem e discutissem suas propostas de política econômica. Passados dois meses desde a vitória do já agora presidente Lula, porém, ainda pouco se sabe sobre que rumo o novo governo pretende dar à política econômica. Diria que, das declarações e discursos feitos nesse período, se depreendem dois possíveis determinantes desse rumo.

Primeiro, o novo governo pretende que o setor público venha a gastar muito mais. Isso explica a prioridade dada à emenda constitucional 32/2022, a PEC da Transição ou da Gastança, como uns e outros a batizaram, que aumenta significativamente o espaço orçamentário para acomodar despesas do governo federal. Aparentemente também se pretende gastar mais por meio das empresas estatais, que passariam a investir mais e a financiar diferentes planos de governo. E fazer com que os bancos públicos expandam e barateiem seus créditos, alavancando mais gastos.

Hélio Schwartsman - O cálculo democrático

Folha de S. Paulo

Para a democracia funcionar, os resultados que ela produz não podem ser irreversíveis

Bolsonaro deve ser punido por crimes que tenha cometido durante a Presidência? Eu penso que sim, mas a discussão é menos simples do que parece.

A democracia, considerada em seus elementos mais essenciais, funciona porque previne a violência política. O jogo deve ser armado de tal forma que valha mais a pena para os derrotados em um pleito entregar o poder pacificamente do que resistir à força. Não é preciso ser um Von Neumann para concluir que o risco de prisão desbalanceia essa conta, tornando mais atrativa a hipótese de aferrar-se ao poder por todos os meios. Ademais, se testemunharmos muitos ex-presidentes passando longas temporadas na cadeia, criamos um desincentivo para que pessoas, eventualmente capazes e bem-intencionadas, concorram ao cargo.

Ruy Castro - Assim se passaram quatro anos

Folha de S. Paulo

Um dia, alguém nos perguntará como aturamos viver sob Bolsonaro por tanto tempo

Há dias, numa roda de amigos que falavam dos 21 anos da ditadura (1964-1985) e de como os militares tinham vergonha de sair à rua fardados, o filho adolescente de um de nós perguntou: "Se eles eram tão impopulares, por que vocês deixaram que ficassem tanto tempo no poder?".

Boa pergunta e difícil de responder. Alguém explicou que os militares não estavam sozinhos, que contavam com civis dispostos a alterar e corromper as instituições para lhes dar respaldo jurídico. Que, em certo momento, rapazes e moças, com coragem e ingenuidade suicidas, pegaram em armas para tentar derrubá-los, mas foram esmagados à custa de prisão, tortura e mortes; e que, em outro, fomos às ruas aos milhões exigindo eleições diretas —em vão. Derrotados, conformamo-nos em esperar que os milicos se cansassem e nos devolvessem o país.

Bruno Boghossian - O pêndulo da frente ampla

Folha de S. Paulo

Após desautorizar ministro, presidente deixa claro que será o árbitro final das pautas e concessões do governo

O então presidente do PSDB, Geraldo Alckmin, apoiou a reforma da Previdência de 2019. O petista Fernando Haddad foi contra. A senadora Simone Tebet (MDB) disse que o aperto nas aposentadorias era uma prioridade para o país. O chefe do PDT, Carlos Lupi, chamou de traidores e ameaçou expulsar da sigla os deputados que aprovaram a medida.

Os quatro estarão na mesma sala nesta sexta (6), na primeira reunião ministerial de Lula. O compromisso já estava previsto, mas passou a ser vendido como um encontro para "afinar o discurso" depois que o governo precisou negar uma "antirreforma da Previdência" anunciada por Lupi, ministro da área.

A reunião se tornou um dos principais fatos políticos da primeira semana de Lula e seus ministros. Um dos objetivos do encontro é determinar que qualquer proposta do novo governo só vai adiante se tiver aval do presidente. A ideia é delimitar o campo de ação da equipe e calibrar o pêndulo da frente ampla que se instalou no primeiro escalão.

Luiz Carlos Azedo - Simone Tebet no governo Lula esvazia a “terceira via”

Correio Braziliense

Propostas que rompem a linha de convergência da coalizão e as declarações desastradas sobre pautas específicas dos novos ministros de Lula são fatores de acirramento de desconfianças em relação ao governo

Qual o significado principal da presença da ex-senadora Simone Tebet no governo Lula? Numa visão economicista, diríamos que servirá de contraponto liberal à política do ministro da Fazenda, Fenando Haddad, supostamente estatizante e sem compromisso com a responsabilidade fiscal, como apontam a maioria dos oposicionistas que criticam o governo Lula por sua política econômica, desde antes mesmo de sua posse. Errado: a presença de Simone Tebet exerce um papel simbólico e político que transcende suas responsabilidades no Ministério do Planejamento e Orçamento: reforça o caráter de centro-esquerda da coalizão democrática de governo. Não é pouca coisa.

É óbvio que a política econômica do novo governo, que está em disputa, terá um papel decisivo para o posicionamento da elite econômica e da classe média que não apoiou Bolsonaro nem Lula no primeiro turno, preferindo Simone Tebet ou Ciro Gomes (PDT). É óbvio que as propostas que rompem a linha de convergência da coalizão e as declarações desastradas sobre pautas específicas dos novos ministros de Lula são um fator de acirramento de desconfianças em relação ao novo governo, que acaba associado ao fracasso da “nova matriz econômica” que levou à derrocada econômica o governo Dilma Rousseff. Mas a questão de fundo, mesmo para esses setores, é política: Simone no governo significa o esvaziamento da chamada “terceira via”, ou seja, da possibilidade de romper a polarização Lula versus Bolsonaro por meio de uma terceira alternativa de poder desde já.

Eliane Cantanhêde - Carne aos leões

O Estado de S. Paulo

A cada ‘forasteiro’, há um petista ou afim como contraponto. Isso causa ruído e agita a oposição

O presidente Lula reúne seu Ministério hoje, depois de uma primeira semana de emoção, simbologia, muitos anúncios de despesas, nenhum de receitas, “algumas divergências” entre ministros, como admitiu Simone Tebet, do Planejamento, e solavancos e um sobe e desce da Bolsa e do dólar.

Tebet (MDB) é liberal e Fernando Haddad (PT), da Fazenda, nem tanto. José Múcio (exPFL), da Defesa, tem fala mansa e Flávio Dino (PSB, ex-PCdoB), da Justiça, fala duro. Carlos Fávaro (PSD), da Agricultura, tem de pacificar o agronegócio, já Paulo Teixeira (PT), do Desenvolvimento Agrário, e Marina Silva (Rede, ex-PT), do Meio Ambiente, precisam pôr as “boiadas” de volta no curral.

Vejam que, nesta “frente ampla”, em que há um “forasteiro” de MDB, PSD, União Brasil, há um petista ou aliado de primeira hora como contraponto, lembrando a verdadeira origem e a alma do terceiro governo Lula. E o presidente vai deixar claro, hoje, que quem manda é ele.

Fernando Gabeira - Democracia sempre, com toda a precaução

O Estado de S. Paulo

Frase de Lula na posse implica um trabalho permanente de vigilância e diálogo para que não haja retrocessos

A última frase do discurso de Lula da Silva na posse de domingo fala em democracia sempre. Expressa um alívio, porque escapamos de destinos indesejáveis como o da Hungria ou mesmo, na outra ponta do espectro, o da Nicarágua.

A “democracia sempre” revela que a sociedade resistiu às ameaças de Jair Bolsonaro, mas implica também um trabalho permanente de vigilância e diálogo para que realmente não haja retrocessos.

Uma das variáveis interessantes no futuro próximo é desenhar o destino desse movimento que apoiou Bolsonaro e, parcialmente, resistiu na porta dos quartéis até o dia da posse de Lula.

Há quem pense que esses eleitores voltam ao leito original da direita clássica. Discordo. Eles são produto de uma nova época e se organizam de outra maneira, através de instrumentos que não existiam no passado.

Flávio Tavares* - O que nos espera?

O Estado de S. Paulo.

Sobre Haddad e suas ações recai o peso total de um governo que nos libertou de um pesadelo, mas que ainda engatinha

A primeira semana de 2023 se encerra como se o ano recém despertasse tal qual um tresnoitado que tenha caído da cama na madrugada, acreditando já haver Sol. Hoje é Dia de Reis no calendário cristão, mas já não recordamos a data.

Na voraz sociedade de consumo, vivemos sempre no amanhã. No Brasil, o novo governo federal desponta como se estivesse emaranhado nos 37 ministérios criados por Lula da Silva para administrar o País. Faltam até prédios na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para lá instalar o primeiro escalão do novo governo.

Aumentar o número de ministérios pode não obedecer, no entanto, a uma forma de melhor governar, mas, sim, a uma tentativa de obter (no conhecido “jeitinho” brasileiro) maioria no Congresso.

Pergunto: trata-se do ressurgimento (ou continuidade) da velha politicalha dominante na partidocracia brasileira?

Para disfarçar, dão a isso a denominação pomposa de “presidencialismo de coalizão”, mesmo que entre em atrito ou colisão com a forma democrática de governar para a totalidade dos cidadãos e não apenas como “moeda de troca” entre os políticos.

Elena Landau* - Quem não se comunica ...

O Estado de S. Paulo

Primeira semana do novo governo faz lembrar Chacrinha e Stanislaw Ponte Preta

Lembrei de Abelardo Barbosa e Sergio Porto nesta primeira semana de governo. Chacrinha usava muito o bordão “eu vim para confundir, e não para explicar”. Foi exatamente o que se passou nas idas e vindas sobre o Marco do Saneamento. Uma enorme confusão sobre o papel da Agência Nacional de Águas (ANA), que deixou no ar a possibilidade de retrocesso numa das mais importantes reformas regulatórias dos últimos anos. O novo marco gerou um aumento significativo do investimento privado e impôs metas de universalização, dando esperanças de acesso a água e esgoto à população de baixa renda abandonada na lama por anos de atuação estatal.

Stanislaw Ponte Preta criou a expressão Febeapá (“Festival de Besteiras que Assolam o País”). A semana foi pródiga. Na sua posse, Lupi bradou: “A Previdência não é deficitária”. É terraplanismo puro em governo que promete respeitar a ciência. Sua “antirreforma” foi mais um anúncio a ser desmentido em menos de 24 horas.

Bernardo Mello Franco – Uma encrenca no Turismo

O Globo

Na campanha, Lula atacou Jair Bolsonaro por discursos e homenagens a milicianos. Eleito, entregou o Ministério do Turismo a uma deputada que mantém laços políticos com a mesma turma.

A nomeação de Daniela Carneiro, que se apresentava até outro dia como Daniela do Waguinho, criou desgaste desnecessário para o novo governo. Além de expor a contradição entre discurso e prática, o caso escancara a falta de critério nas últimas escolhas para a Esplanada.

A ministra foi indicada pelo União Brasil, resultado da fusão do PSL com o DEM. Ao celebrar o acordo, Lula fez mesuras ao “companheiro” Luciano Bivar, que alugou seu antigo partido para o capitão em 2018. Todos os presidentes são obrigados a engolir sapos, mas é preciso algum cuidado para evitar a indigestão. Neste caso, uma consulta ao Google poderia ter poupado o petista do desconforto.

Flávia Oliveira - Diversidade é atitude

O Globo

Nem todas são chefes de família impossibilitadas de assumir posições fora das cidades de origem

No domingo em que a vitória da democracia se consumou, corações e mentes, Brasil afora, se emocionaram com o par de cenas de reconhecimento da existência de indivíduos e grupos sociais habitualmente desapercebidos — no sentido de desassistidos mesmo. Como o antecessor voou para os EUA, Luiz Inácio Lula da Silva subiu a rampa do Palácio do Planalto acompanhado de oito representantes do povo, entre os quais o cacique Raoni, Francisco, o menino negro campeão de natação, e Aline Sousa. A essa mulher negra, mãe de sete filhos, terceira geração de catadoras de material reciclável, coube pôr a faixa presidencial em quem saiu vencedor das urnas em outubro. Foi a imagem marcante da transição de poder.

Pedro Doria - AGU começou mal combate à desinformação

O Globo

Não pode, numa democracia, o governo definir o que é uma ‘política pública corretamente executada’

O governo Lula quer bater de frente com a máquina de desinformação que ameaça faz já pelo menos cinco anos a democracia brasileira. Ponto para ele. Mas começou mal — de forma atabalhoada, desastrada e, ora, no mínimo desinformada. É que a Advocacia-Geral da União tomou para si o trabalho de definir desinformação. As aspas são oficiais:

 “Mentira voluntária, dolosa, com o objetivo claro de prejudicar a correta execução das políticas públicas com prejuízo à sociedade e com o objetivo de promover ataques deliberados aos membros dos Poderes com mentiras que efetivamente embaracem o exercício de suas funções públicas.”

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Combate a fake news deve ser feito com cautela

O Globo

Ainda que bem-intencionada, ação da AGU precisa ser revertida para evitar abusos e censura

Ao erodir barreiras contra a propagação de fake news, a revolução digital apresentou um enorme desafio para sociedades democráticas. Discussões sobre liberdade de expressão e necessidade de proteger o Estado Democrático de Direito, que estavam adormecidas, voltaram com força. Nessa tendência, que é global, o Brasil teve papel de destaque. Após uma disputa acirrada, o resultado das eleições interrompeu um projeto de viés autoritário alavancado por fake news.

Nesta primeira semana do novo governo, não faltaram declarações e a criação de órgãos contra a propagação de desinformação tendo a defesa da democracia como mote. Mesmo que tudo seja feito de boa-fé, é preciso que a sociedade analise com objetividade e precaução essas iniciativas para que se evite a criação de estruturas que possam ser utilizadas para o cometimento de abusos e censuras, neste ou em qualquer futuro governo.

Poesia | Para além da curva da estrada - Fernando Pessoa

 

Música | Casuarina - Lapinha ( Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Maria Cristina Fernandes – Livramento

Valor Econômico

Velório de Pelé ensina a diferença entre emoção e alívio

Fez muito bem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva suspender as audiências que se acumulam em seu gabinete para comparecer ao velório de Pelé. Santos foi tomada por um público superior a 230 mil pessoas e para lá se deslocaram 1.190 jornalistas de 32 países.

A posse de Lula atraiu mais do que o dobro de sua primeira investidura, em 2003. Foi uma multidão bem maior do que aquela reunida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (100 mil) em 7 de setembro do ano passado, mas, ante o velório de Pelé, Lula foi súdito. Atraiu 407 jornalistas de 16 países e cerca de 150 mil pessoas.

Os números são uma tentativa tacanha de colocar números na diferença entre dois sentimentos, emoção e alívio. Ao reverenciar Pelé, compartilhando da emoção que só a morte é capaz de despertar, Lula o reconhece como o único símbolo que hoje une a nação.

O que não deixa de ser um bom começo para reconhecer os limites dos muitos simbolismos de sua posse. Alguns, como as cores trocadas nas gravatas dele e do vice, Geraldo Alckmin, foram dirigidos ao conjunto do eleitorado.

Cristiano Romero - Ministério, um perfil

Valor Econômico

Equipe espelhou setores da economia em 2003; agora, sociedade

O primeiro ministério do terceiro mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva é o mais representativo da diversidade social brasileira. Além de criar pasta dedicada aos temas relacionados aos povos originários, iniciativa inédita na história do país, o presidente convidou uma mulher, Sonia Guajajara, para comandá-la.

Originária de Araribóia (MA), onde vive o Povo Guajajara/Tentehar, Sonia é deputada federal pelo PSOL e, no ano passado, em reconhecimento ao seu ativismo, foi eleita pela revista americana “Time” uma das cem pessoas mais influentes do mundo. Com a criação do Ministério dos Povos Originários, Lula dá à questão indígena a importância que o tema exige. Até agora, cabia apenas à Funai, autarquia que, a depender dos interesses da ocasião, vinha migrando de ministério, como um estorvo com o qual a maioria dos políticos não gosta de lidar.

Conrado Hübner Mendes* - A Constituição manda polarizar

Folha de S. Paulo

Incluir, cuidar e punir são ordens jurídicas, não revanche ideológica

Palavras nunca foram só palavras, mas também ação concreta. Proferidas por autoridades, ainda mais. Palavras ditas por presidentes da República geram efeitos em corpos e mentes individuais e no patrimônio coletivo: fazem subir ou descer desmatamento, violência doméstica, ataque homofóbico, armamento ilegal, invasão de terra indígena, uso de máscara e vacina, sufocamento por Covid, indicador econômico.

Quando Bolsonaro presidente falava, periferias simbólicas e territoriais do país sentiam na pele. Seus cânticos do porão, entoados por quatro anos, acentuaram sofrimento, adoecimento e morte nessas periferias e nas UTIs. O assédio, a violência e a bala perdida com alvo certo, também. Não foi coincidência, nem mero discurso.

Lula, quando fala, não faz os pilotos da Faria Lima ou comentaristas de jornal temerem pela vida. Eles não levam tiro nem fatiam a merenda. Mas estrilam verbosamente. Cada vírgula lulista se sujeita a escrutínio crítico, psicográfico, ético e estético. A delinquência verbal bolsonarista passa como indelicadeza na sala de jantar.

Maria Hermínia Tavares* - Pragmatismo bem temperado

Folha de S. Paulo

Terminada a festa, começa o percurso no qual propostas ambiciosas terão de se ajustar às limitações

Não faltaram afirmação de valores nem ambição aos discursos que inauguraram o terceiro mandato de Lula. O empenho na redução das desigualdades ocupou o centro dos dois pronunciamentos —para os convidados que lotavam o Senado e para a massa compacta diante do Palácio do Planalto. O compromisso foi reiterado na cerimônia mais forte do dia, quando representantes do povo pobre subiram a rampa com o novo mandatário e lhe entregaram a faixa presidencial.

Menos que agenda de governo, os discursos explicitaram um roteiro progressista para a construção de um país democrático e mais equânime. Incisivo na defesa das instituições representativas; claro nos compromissos sociais; atualizado na identificação dos muitos destinatários de iguais direitos; contemporâneo no peso dado aos riscos e oportunidades ambientais; assertivo quanto à atuação do país no mundo —e algo passadista na visão dos caminhos para o crescimento.

Bruno Boghossian - Bagagem pesada na Esplanada

Folha de S. Paulo

Ligação política com família de miliciano não é trivial e aumenta custo de nomeação

Daniela Carneiro se tornou ministra do Turismo num acerto de última hora. Nos dias finais da montagem do governo, dois parlamentares da União Brasil recusaram cargos na Esplanada. A fila andou, e o partido indicou a deputada para a pasta.

A ministra leva uma bagagem pesada para o primeiro escalão. O grupo de Daniela na Baixada Fluminense tem ligações políticas com a família de um ex-policial condenado por chefiar uma milícia na região, como revelou a Folha. Para se eleger deputada em 2022, ela fez campanha ao lado da mulher do ex-PM.

A equipe de Lula tirou a máquina de calcular do bolso quando a história veio à tona. Concluiu que, com o que se sabe até aqui, o desgaste de demitir Daniela na primeira semana de mandato seria maior que o prejuízo de mantê-la no cargo. O núcleo do governo considerou um mau precedente derrubar uma ministra antes da depuração do caso.

Luiz Carlos Azedo - Geraldo Alckmin e Marina Silva completam Esplanada

Correio Braziliense

Compatibilizar a retomada industrial com a economia verde e combater o desmatamento desenvolvendo a economia local com a floresta em pé são prioridades do novo governo

O vice-presidente Geraldo Alckmin, no Desenvolvimento, Indústria, Comércio e serviços, e a deputada Marina Silva, no Meio Ambiente, protagonizaram, ontem, as cerimônias de posse mais concorridas da Esplanada, com discursos que apontam para duas prioridades, entre outras: a reindustrialização do país, que perdeu complexidade industrial, e o combate ao desmatamento, um verdadeiro ovo de Colombo do ponto de vista ambiental. Os dois setores estão entre os mais prejudicados pela política econômica do governo Bolsonaro.

Ao lado do presidente Lula, Alckmin fez um longo discurso sobre a situação da estrutura produtiva do país e destacou que “a reindustrialização é essencial para que possa ser retomado o desenvolvimento sustentável e que essa retomada ocorra sob o único prisma que a legitima: o da justiça social”. Para Alckmin, a recriação do ministério foi necessária para “reconstruir o país e retomar o caminho do desenvolvimento”. A novidade na proposta de Alckmin, porém, é compatibilizar a retomada industrial com a economia verde, para que o Brasil possa ser um “grande protagonista do processo de descarbonização da economia global” e possa integrar às cadeias globais de valor com investimentos em inovação e novas tecnologias nas áreas onde pode ter competitividade.

Merval Pereira - Batendo cabeça

O Globo

Governo está emitindo sinais desconexos e o mercado está reagindo mal

Faz bem o presidente Lula de aproveitar a primeira reunião ministerial amanhã para dar um freio de arrumação em seu ministério. Esse novo governo está batendo cabeça em público desde o primeiro dia. É preciso dar uma organizada nessa falação toda, impedir que a empolgação de ter voltado ao poder provoque os estragos que vem provocando.

Não se trata de receio do “mercado”, mas de evitar prejuízos econômicos concretos numa economia de mercado devido a uma palavra mal colocada. E, se ela foi colocada com segundas intenções, pior ainda. Não custa recordar as palavras do economista Gustavo Franco, anos atrás, quando disse:

— Goste-se ou não, o mercado é a forma mais eficiente e influente de expressão da opinião pública, e transparência é tudo quando se trata do funcionamento do mercado.

Para ele, uma coisa é certa:

— Quanto mais distantes do mercado estiverem as relações entre o público e o privado, quanto mais discricionárias as decisões, e quanto menor a transparência, maior será a corrupção.

Míriam Leitão - Entre os ruídos e a nova melodia

O Globo

Governo precisa acertar o tom na economia, para que esses ruídos não atrapalhem a melodia que voltou a ser ouvida em diversos pontos de Brasília

Existem os ruídos e a melodia. É preciso alertar sobre os ruídos antes que eles desliguem a música que se ouviu de maneira tão forte aqui em Brasília nos últimos dias. Marina disse que a defesa do meio ambiente “não é uma forma de fazer, é uma forma de ser”. Silvio Almeida convocou cada um de nós para dizer que existimos e somos importantes para o Estado brasileiro. Os indígenas percorreram as salas da Funai, com cantos e chocalhos, tomando posse do que sempre foi deles. “Nada sobre nós sem nós”, disse Sonia Guajajara. Isso é música.

Brasília nesta transição de poder está tomada de emoção e está intensa. Posses, discursos, mudanças, declarações, conflitos, acertos e erros, tudo ao mesmo tempo. É um daqueles momentos em que a História se acelera. Toda a transição de poder tem seus fortes simbolismos, mas essa ocorre depois de um longo padecimento do país e de um ataque direto à democracia.

Cora Rónai - Ufa! Ou... o valor dos símbolos

O Globo

Agora pisaremos no terreno fundamentado da democracia, e não na zona minada do golpismo

Eu sei: já é quinta-feira e a posse foi no domingo, quase uma vida atrás. Mas vou falar da posse mesmo assim, porque há muito tempo eu não via uma cerimônia cívica tão bonita e tão carregada de símbolos positivos. Nós estávamos muito precisados disso, de beleza e de uma simbologia representativa do que temos de bom, do lado melhor da nossa natureza.

Foi exaustivo passar quatro anos sob peso de rancor e ressentimento, exprimidos em mãos fazendo arminhas, em motociatas intermináveis e naquele profundo desprezo a qualquer forma de gentileza, de educação e de diversidade.

Na vida pública tudo é símbolo, e foi uma alegria imensa rever o Brasil simbólico de que tanto gostamos subindo a rampa numa celebração de cores; foi um alívio ver seres verdadeiramente humanos em desfile, na companhia triunfal de Resistência, a Primeira Cã.

O ar está mais leve, respiramos melhor.

William Waack - O espírito de acomodação

O Estado de S. Paulo.

É muita coisa que Lula pretende conciliar em pouco tempo

O homem parece um pouco mais cansado, mas o velho espírito de acomodação do presidente Lula continua o mesmo. Apesar de muito mais exigido e já de início do terceiro mandato confrontado com a escassa paciência de imensa parte do público em aguardar resultados.

“Quando é que eles saem de lá?”, esbravejou Lula em seu novo/velho gabinete no Planalto ao saber que, passadas 48 horas de início de seu governo, acampamentos de bolsonaristas perduravam em áreas militares diante de quartéis do Exército.

Foi necessário acomodar o “espírito de pacificação” de seu ministro da Defesa, que qualificou os protestos nos quartéis de democráticos (e achou melhor esperar que eles acabem sozinhos), com o espírito de punição do ministro da Justiça.

Além de influentes vozes da advocacia no entorno do presidente, que já queriam a cabeça do recém-empossado ministro da Defesa. Tido como excessivamente pacificador, tinha conversado com Bolsonaro sobre a nomeação dos comandantes militares do governo Lula.

Adriana Fernandes - É com anistia

O Estado de S. Paulo

O consignado do Auxílio foi um ato de irresponsabilidade fiscal e social sem precedentes

O governo Bolsonaro e aliados no Congresso deram o aval ao lançamento do consignado para os beneficiários do programa Auxílio Brasil já sabendo que, logo à frente, teriam de encontrar uma solução para o problema que criaram na tentativa de ganhar as eleições.

Esse ponto estava nos cálculos caso o presidente Bolsonaro tivesse saído vitorioso em outubro, segundo relatos coletados pela coluna antes e depois do lançamento do consignado.

É uma bola cantada, a de que o programa se mostrará insustentável mais cedo ou mais tarde. Avaliação feita até mesmo por quem fez o consignado.

Foi um ato de irresponsabilidade fiscal e social sem precedentes permitir o endividamento de beneficiários de um programa de transferência de renda a juros elevadíssimos.

Celso Ming - Haddad e a conta a pagar

O Estado de S. Paulo.

Uma coisa é sair por aí dizendo o que tem de ser feito na economia e proclamar sustentabilidade social e fiscal, sem explicar como se faz isso. E outra é executar essas coisas. O governo Lula começa a ter que lidar com trombadas e a ter de fazer escolhas dolorosas.

Política econômica é como o velho jogo do pega-varetas. É preciso concentração e habilidade para libertar pauzinho por pauzinho, porque o deslocamento de um pode desequilibrar irremediavelmente o outro e fazer ruir o todo.

O caso dos subsídios federais aos combustíveis que levou o governo ao primeiro bate-cabeças é a prova disso. O ministro Fernando Haddad dava como certa a revogação dessas isenções tributárias, porque entendeu que é preciso reduzir o rombo fiscal. A área política vetou, pelo seu impacto sobre o orçamento do consumidor. A decisão do presidente Lula foi adiar a revogação das isenções – o que desautorizou Haddad –, que tinha anunciado outra coisa.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Lula precisa barrar antirreforma de Carlos Lupi

O Globo

Ministro da Previdência usa ficção contábil para negar déficit e propõe anular avanços já conquistados

Foi desastroso o discurso de posse de Carlos Lupi, presidente do PDT, como ministro da Previdência em Brasília nesta semana. No auditório do ministério, ele negou o óbvio. Disse que não existe déficit nas contas da Previdência. Embalado pelos aplausos de apoiadores, esbanjou populismo ao declarar que aposentadoria é dívida da União com os trabalhadores, como se estivesse sobrando dinheiro nos cofres do governo federal para outras áreas igualmente importantes.

Antes de acabar seu discurso, ainda anunciou que criará uma comissão formada pelo governo, por sindicatos patronais, trabalhadores e aposentados para analisar “com profundidade” as mudanças feitas no governo anterior. De profundo, tal iniciativa só deverá gerar atraso e confusão. É desanimador.

O argumento de Lupi para tentar negar o déficit não para em pé. O novo ministro diz que as receitas previdenciárias devem incluir a arrecadação do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e também a do PIS/Cofins, criado originalmente para ajudar a financiar a Previdência. A questão é que esse imposto também banca outros benefícios, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Poesia | E agora José - Carlos Drummond de Andrade (Musicado)

 

Música | Portela 2023 - Samba ao vivo

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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Paulo Fábio Dantas Neto* - Política, festa e roda-viva

Tentarei explicar o que percebi, talvez impropriamente, como uma gramática identitária regendo a investidura, marcantemente festiva, de Luiz Ignácio Lula da Silva no seu terceiro mandato presidencial. É um juízo impressionista. Decorre de um estado de alma que defino como alívio - pela derrota eleitoral da extrema-direita – mas desprovido de ânimo, efeito do êxito, político e moral, no campo democrático, de uma esquerda autorreferente, amarrada ao seu passado, que supõe, entre outras imodéstias, fazer o léxico identitário (de gênero, de raça, de cultura, de costumes) incidente no Brasil e em todo o Ocidente, servir a uma aventura - também identitária, mas de partido e movimento – através do túnel do tempo.

A impropriedade da minha parte talvez seja elevar esse ilusionismo semântico à categoria de gramática. A concessão traduz um sentimento de apreensão com a possibilidade de a esperteza política crescer demais, virar bicho, engolir o dono e todos os que amarramos nossos botes à deriva ao seu velho navio.

Incapaz de traduzir racionalmente esse sentimento nos limites de minhas palavras, apelo a Chico Buarque de Holanda, poeta dos maiores da nação, a grande ausente naquele woodstock de fragmentos:

Tem dias que a gente se sente

Como quem partiu ou morreu

A gente estancou de repente

Ou foi o mundo então que cresceu

A gente quer ter voz ativa

No nosso destino mandar

Mas eis que chega a roda-viva

E carrega o destino pra lá

Expropriado por uma roda-viva: assim me senti no dia da posse. Aliás, assim me sentia desde que a dita transição arriou suas malas. Com vontade de embarcar num vapor barato, eu e uma obsessão política.

Luiz Carlos Azedo - Adeus reformas. Agenda possível é mais modesta

Correio Braziliense

1964 serve de exemplo para o governo Lula, que precisa adotar um programa democrático, porém, mais modesto do ponto de vista das reformas

O mais ambicioso programa de reformas de estrutura da história do Brasil foi o do presidente João Goulart (1961-1964), que havia assumido governo no lugar de Jânio Quadros, em meio a uma tentativa de golpe e graças a uma solução de compromisso: a adoção do parlamentarismo. Em razão das nossas desigualdades, no seu governo havia um cenário de radicalização político-ideológica e intensificação dos conflitos sociais.

Jango, como era chamado, sofria fortes pressões do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), principalmente de seu cunhado, Leonel Brizola, e de outras lideranças de esquerda, como o líder comunista Luís Carlos Prestes e Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, para realizar reformas estruturais na sociedade, entre as quais a agrária. Com a volta do presidencialismo, decidida por um plebiscito em 1963, Jango se sentiu fortalecido para levar adiante o projeto nacional-desenvolvimentista da esquerda brasileira.

Vera Magalhães - Os limites do revogaço

O Globo

Revisão de atos monocráticos de Bolsonaro é bem-vinda, mas não se confunde com a ideia equivocada de revisitar reformas aprovadas pelo Congresso e já em vigor

Os primeiros atos de Lula foram voltados para revogar decretos, portarias e resoluções de Jair Bolsonaro e seu governo que ele já havia anunciado largamente na campanha que anularia.

Liberação de armas e munições sem qualquer controle, sigilos de cem anos para proteger o ex-presidente e familiares, desmonte ambiental e medidas que atingiam de morte a inclusão de pessoas com deficiência entraram nesse pacote.

Todas essas medidas tinham em comum o aspecto ideológico que pautou sua edição e a forma arbitrária, sem discussão com a sociedade, o Congresso e as minorias atingidas pela sua adoção.

Portanto, o “revogaço”, e nos primeiros dias — como o então candidato anunciou na propaganda que faria —, deve ser saudado, porque significa começar a corrigir os retrocessos em marcos civilizatórios e de direitos que o Brasil viveu nos últimos quatro anos.

De outra natureza é a tentação de rever indiscriminadamente todas as medidas dos governos Michel Temer e Bolsonaro que tenham sido fruto de análise do Congresso Nacional e já tenham gerado consequências jurídicas e de investimentos depois de adotadas. E em poucos dias de governo são muitas as sinalizações de ministros de que pretendem enveredar por esse caminho que pode se mostrar desastroso.

Bernardo Mello Franco – O impasse dos quartéis

O Globo

Lula subiu a rampa, Bolsonaro fugiu para a Disney e seus seguidores continuaram nas portas dos quartéis. A permanência dos extremistas criou um problema para o novo governo. Se não for resolvido logo, poderá ganhar contornos de crise institucional.

Ao assumir o Ministério da Justiça, Flávio Dino prometeu investigar os responsáveis por atos contra o resultado das urnas. “O extremismo não deve ter lugar neste país”, afirmou. A 500 metros dali, o novo ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, preferiu apostar na acomodação. Afagou os bolsonaristas e classificou os acampamentos pró-golpe como “manifestações da democracia”.

Dino mandou a Polícia Federal apurar todas as tentativas de ruptura desde o segundo turno. Citou os bloqueios ilegais de rodovias e o quebra-quebra em Brasília no dia da diplomação do presidente. Acrescentou que praticar atos terroristas e incitar as Forças Armadas contra o poder civil são “crimes gravíssimos e imprescritíveis”. “A democracia tem o dever se se defender daqueles que querem destruí-la”, concluiu.