sábado, 5 de agosto de 2023

Dora Kramer - Sete anos de perdão

Folha de S. Paulo

Anistia a dívidas de partidos põe representantes de novo de costas para representados

A emenda constitucional que anula R$ 40 milhões em dívidas de partidos começou a tramitar na Câmara dos Deputados numa comissão especial. Uma vez aprovada, de lá segue para o plenário para exame do colegiado de representantes que, tudo indica, votará contra a vontade majoritária dos representados.

O perdão alcança o período entre 2015 e 2022 e sucede a outros tantos atos de indulgência autoconcedidos a legendas devedoras ao longo dos últimos anos.

Pelo texto que saiu da Comissão de Constituição e Justiça, ficam zerados débitos decorrentes de gastos irregulares e de multas pelo descumprimento das cotas para mulheres e negros. A fim de minorar ainda mais os contratempos financeiros, o pagamento poderá ser feito com doações de empresas.

Alvaro Costa e Silva - A matança como espetáculo eleitoral

Folha de S. Paulo

São Paulo, Bahia e Rio lideram campeonato da brutalidade em favelas

Um timing perfeito, tão sincronizado que parece coisa ensaiada e pensada nos mínimos detalhes. Depois da operação na Baixada Santista, que deixou pelo menos 16 mortos, deputados da bancada da bala na Alesp cobraram a retirada das câmeras dos uniformes de policiais militares em São Paulo. Nem precisavam cobrar. Desde a campanha eleitoral Tarcísio de Freitas tem se mostrado a favor da medida linha-dura. O governador resiste ao aumento gradual do número de câmaras (são pouco mais de 10 mil para uma corporação com cerca de 80 mil policiais).

A estatística revela queda nas mortes de policiais e de suspeitos após a implementação do Programa Olho Vivo. Os dados derrubam a tese terraplanista de que o crime organizado se aproveita do equipamento para identificar e atacar PMs.

Demétrio Magnoli - A palavra blasfema

Folha de S. Paulo

Identitarismo racial almeja fazer do Brasil cópia de modelo social americano

Acendam as fogueiras inquisitoriais! O título abre-se com uma palavra classificada como blasfema pelos sacerdotes da religião do "racismo estrutural": "Mestiçagem, Identidade e Liberdade". O autor, caluniado sistematicamente nesta Folha, é o alvo principal da seita Jocevir (Jornalistas pela Censura Virtuosa): Antonio Risério.

Na síntese de Roberto Mangabeira Unger, autor da apresentação, o livro é "uma análise do papel da mestiçagem na formação do povo brasileiro" e uma crítica da "política identitária dessa pseudoesquerda" que "abriu espaço para as guerras culturais da direita". O ensaio contém material abundante para reflexão, debate e discordância. Mas seu compasso rigoroso ilumina diferenças cruciais entre as experiências históricas de Brasil e EUA –e, por essa via, desnuda a finalidade política do identitarismo racial.

O rigor está numa distinção conceitual. Risério: "reservo a miscigenação para designar processos de cruzamento genético", enquanto "a mestiçagem só se manifesta a partir do momento em que a miscigenação é reconhecida social e culturalmente". Há miscigenação em todas as sociedades, pois os genes humanos entrecruzaram-se ao longo de milênios. Nem todas, porém, admitem essa realidade.

Carlos Alberto Sardenberg - Tanto pró e muito contra

O Globo

Ambiente melhorou mais pelo que o governo não fez. Não reestatizou a Eletrobras, não desfez venda de ativos da Petrobras

A revista The Economist já decolou com o Cristo Redentor — um foguete na direção do desenvolvimento —, mas depois teve de afundá-lo na Baía de Guanabara. Na edição desta semana, a publicação não chegou a recuperar o foguete, mas passou um certo otimismo em relação aos primeiros movimentos do governo Lula.

Trata-se de bom jornalismo — nem precisaria dizer, mas é prudente nestes tempos de polarização. A revista reflete o ambiente encontrado por aqui neste início do segundo semestre, claramente bem melhor que no começo do ano. Basta ver as expectativas atuais do setor privado e do Banco Central, comparadas às de janeiro. Inflação menor e PIB maior, juros menores, dólar abaixo dos R$ 5, Bolsa em alta.

Alvaro Gribel - Autonomia passou em mais um teste

O Globo

Nem Campos Neto tentava sabotar o governo, nem os diretores do Lula forçaram uma queda abrupta dos juros

A autonomia do Banco Central passou em mais um teste, e por muito tempo a reunião da última quarta-feira será lembrada. Ela é simbólica por vários motivos. Primeiro, porque o corte de juros reafirma a confiança da autoridade monetária de que a gestão da economia pelo PT não será leniente com a inflação. Segundo, porque a decisão dividida em 5 a 4 mostrou que o debate interno foi intenso, e esse é o objetivo da independência do Banco. Terceiro, o alinhamento entre os votos do presidente Roberto Campos Neto e dos diretores Gabriel Galípolo e Ailton Aquino mostra que nem o primeiro tentava sabotar o governo, como acusavam radicais petistas, nem os diretores indicados por Lula tentaram forçar uma queda abrupta da Selic, como temiam céticos da Faria Lima. A instituição saiu fortalecida desse encontro do Copom.

Pablo Ortellado - Polícia não pode agir como gangue

O Globo

Moradores do Guarujá relataram à imprensa que pelo menos algumas mortes pareciam execuções extrajudiciais

A semana que passou foi marcada pelos desdobramentos da operação da polícia que, em reação à morte de um policial no Guarujá, matou 16 pessoas em apenas seis dias — a mais violenta operação da polícia de São Paulo desde o Massacre do Carandiru. O número elevado de mortes, na mesma região, num curto espaço de tempo, levantou a suspeita de que pode ter sido vingança contra o crime organizado que tinha tirado a vida de um dos seus. A suspeita foi corroborada por depoimentos de moradores das regiões onde a operação aconteceu. Eles relataram à imprensa que pelo menos algumas mortes pareciam execuções extrajudiciais, fora do contexto de resistência armada à ação da polícia. Há também relatos de torturas.

Eduardo Affonso - A cadeira 41 da ABL

O Globo

Os Buarques de Holanda bem poderiam ter ocupado quatro posições na Academia, em vez de apenas uma

A Academia Brasileira de Letras é uma instituição que, segundo Millôr Fernandes, se compõe de 39 membros e um morto rotativo. Paradoxalmente, é esse defunto que a mantém viva, garantindo-lhe periódicas transfusões de sangue novo.

Reza a lenda que, para aspirar à imortalidade, é preciso mais que ter apreço à literatura, cultivar a língua e escrever um livro: tem de dar festa, beijar mão, cabalar voto — talentos de que nem todo postulante é dotado. Por isso muita gente boa acaba tomando não o chá das quintas-feiras, mas o de cadeira — ou de sumiço.

Para reparar injustiças culturais — ou, pelo menos, meditar sobre elas —, a ABL programa periodicamente o ciclo de palestras “Cadeira 41”, em referência à cátedra virtual reservada aos que nem tentaram ou morreram na praia.

A 41ª cadeira é como o quarto poder, exercido pela imprensa, ou o 12º jogador, também conhecido como torcida. Sem autoridade formal, mas uma espécie de soft power, entidade não fungível, patrimônio imaterial.

Miguel Reale Júnior* - Não é normal por ter sido sempre assim

O Estado de S. Paulo

A chantagem só será desfeita ao se colocar nos trilhos as relações entre Legislativo e Executivo, fundadas na cooperação na execução de plano de governo, e não na compra disfarçada de votos

O governo Lula conseguiu, na mesma semana, aprovar na Câmara dos Deputados a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) modificativa de parte do sistema tributário e, também, que a determinação de empate no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) fosse favorável à União, e não ao contribuinte, redundando em aumento considerável da arrecadação.

O apoio da Câmara dos Deputados decorreu da liberação de mais de R$ 5 bilhões para pagamento das emendas parlamentares, que estavam represadas, enviando aos municípios numerário para obras e serviços definidos genericamente, indicando-se apenas destinarse ao atendimento da saúde, ou da educação, ou de obra viária. Os deputados, dessa maneira, demonstram prestígio e angariam créditos em seus redutos eleitorais, valendo a troca do voto pelo empreendimento conquistado na busca de reeleição.

Fabio Gallo* - Paciência. Quem tem?

O Estado de S. Paulo

Dar foco excessivo em notícias recentes, como boletins diários, sobre o mercado cria

A nossa economia está dando bons sinais. Não que tudo esteja resolvido, mas temos um panorama melhor. A inflação acumulada em 12 meses está em 3,16%, começou o ciclo de queda da Selic, o Congresso está em vias de aprovar a reforma tributária e o arcabouço fiscal. Mas, mal começamos um ciclo mais positivo, e o mercado já está agitado.

As pessoas começam a ser bombardeadas com “oportunidades de investimentos”. No entanto, tomar decisões na pressão não é uma boa. Jean-Jacques Barthélemy tem uma frase que deve nos orientar: “A paciência é amarga, mas seu fruto é doce”. Manter a calma e ter paciência são essenciais para investir com mais equilíbrio entre o retorno desejado e o risco aceitável. É comum em momentos de mudanças rápidas que as pessoas fiquem desconfortáveis e por ansiedade mudem o foco do longo prazo para o curto prazo.

João Gabriel de Lima* - O bônus de ter uma floresta

O Estado de S. Paulo

Após um período como vilão do clima, o Brasil volta a buscar protagonismo

Um dos assuntos mais comentados da COP do Egito, em novembro passado, foi a criação da “Opep das florestas”. Esse foi o apelido dado às conversas entre Brasil, Congo e Indonésia, que abrigam 52% das matas tropicais do planeta. Assim como os exportadores de petróleo, os três países começaram um intercâmbio – no caso, para preservar aquilo que o Estadão chamou, em editorial, de “tesouro verde”.

A Indonésia e o Congo são convidados especiais na Cúpula da Amazônia, que ocorre em Belém a partir da terça-feira, dia 8. O evento reunirá representantes dos países signatários do TCA, Tratado de Cooperação da Amazônia: Brasil, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia, Suriname e Venezuela. Haverá espaço para propostas da sociedade civil, incluindo um documento multidisciplinar do movimento Uma Concertação pela Amazônia.

Cristovam Buarque - Primeiro, o alicerce

Revista Veja

O país melhoraria com atenção para a educação de base

A educação de base deve oferecer o conhecimento do mapa necessário para cada pessoa caminhar na busca da felicidade individual e participar da construção do país. Sem isso, asfixiamos a juventude no analfabetismo e sufocamos a universidade por falta de alunos bem preparados. Mas a política educacional nas últimas décadas se caracterizou por uma espécie de neoliberalismo social orientado para atender à demanda de alguns por diploma universitário, ignorando a necessidade de educação de base para todos. Entre 1995 e 2020, multiplicamos por 5 o número de alunos no ensino superior, e apenas por 2 o número de concluintes do ensino médio, sem melhorar a qualidade do que eles aprendiam.

Fernando Schüler - Anatomia de um instante

Revista Veja 

Ninguém está acima dos direitos inscritos na Constituiçã0

Sempre gostei das histórias malditas, dos personagens improváveis, que por alguma razão se perdem por aí. Um desses personagens é um comediante chamado Bismark Fugazza, e sua história nos dá um flash do transe brasileiro atual. Fugazza e um colega haviam denunciado o ministro Alexandre de Moraes à Corte Interamericana de Direitos Humanos, por violar os “direitos de liberdade de expressão” no país, com “várias prisões” e “multas desproporcionais” sem o devido processo legal. Foi preso no Paraguai, com direito a uma operação internacional e a fechar por alguns minutos a Ponte da Amizade, e passou três meses em cana. O motivo é o de sempre, as “ameaças à democracia” e coisas afins. Na cobertura do caso, quase nenhuma, o carimbo “influenciador bolsonarista” parece resumir a questão. O relatório da Polícia Federal sobre o seu caso foi taxativo: “Não foi possível evidenciar, de maneira minimamente razoável, que Fugazza tenha promovido atos atentatórios às instituições democráticas no 8 de Janeiro”.

Marcus Pestana* - Voto, maioria e governabilidade

O velho estadista inglês nos advertiu: “a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”.  A democracia é invenção humana. Imperfeita como tudo o que é humano. Repleta das virtudes e dos pecados que marcam a vida de nós, pobres mortais. A própria ideia de representação é, por definição, imperfeita. Introduzidos filtros para a escolha dos representantes da sociedade, distorções são inevitáveis. Os representantes não são um espelho absolutamente fiel dos representados.

No Brasil, optamos pelo presidencialismo. A maioria absoluta dos países desenvolvidos optou pelo parlamentarismo, que se mostra muito mais fluído e flexível para lidar com as inevitáveis crises e impasses. O presidencialismo americano só funciona bem por ser um sistema bipartidário, ancorado no voto distrital puro, onde a ligação entre representantes e representados é estreita.

Luiz Gonzaga Belluzzo* -Vanguardeiros do avanço

Carta Capital

Apesar do notório fracasso, eles querem manter o roteiro da dupla Temer-Bolsonaro 

Inspirou-me, ainda uma vez, o editorial da Folha de S.Paulo intitulado “A Vanguarda do Atraso”. A peça opinativa condena a mobilização do BNDES em direção ao financiamento das empresas brasileiras, porventura empenhadas em empreendimentos no exterior.

Com argumentos do mesmo jaez, esses Vanguardeiros do Avanço contribuíram para a montagem do sólido arranjo conservador que avassalou o País na Era Temer-Bolsonaro. Em sua caminhada produziram o “encolhimento” da economia brasileira. Destruíram empresas, amofinaram a indústria, tudo em nome da modernidade e da globalização. Os resultados todos sabem: o desemprego, a deterioração das grandes cidades, a violência, que não para de aumentar.

As mudanças na composição da riqueza explicam a combinação entre as políticas econômicas de austeridade e a sanha das privatizações de bens públicos, sobretudo empresas estratégicas para o crescimento, tais como a Eletrobras. O privatismo à brasileira é irmão gêmeo do rentismo que exercita seus propósitos ao extrair valor de um ativo já existente e gerador de renda monopolista, criado com dinheiro público. A onda de privatizações obedece à lógica patrimonialista e rentista do capital financeiro, em seu furor de aquisições de ativos já existentes. Nada tem a ver com a qualidade dos serviços prestados, mesmo porque os exemplos são péssimos. Em geral, no mundo, a qualidade dos serviços prestados pelas empresas privatizadas declinou, acompanhando o aumento de tarifas e a deterioração dos trabalhos de manutenção.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Devastação do Cerrado requer ação do governo

O Globo

Enquanto desmatamento vem sendo contido na Amazônia, bate recorde no segundo maior bioma do país

Os últimos números de desmatamento do sistema Deter, do Inpe, divulgados na quinta-feira, trazem motivos para comemoração e, ao mesmo tempo, preocupação. A comemorar, a redução significativa na devastação da Amazônia, um alento depois de sucessivos recordes de destruição durante a gestão de Jair Bolsonaro. A preocupar, o aumento da perda de vegetação no Cerrado, que atingiu o maior patamar desde o início da série histórica, em 2019.

Na Amazônia, os alertas de desmatamento registrado pelo Deter somaram 7.952 quilômetros quadrados entre agosto de 2022 e julho de 2023, a menor marca anual em quatro anos. De acordo com o Inpe, a área desmatada é 7,4% menor que no período anterior (2021-2022). Considerando apenas o mês de julho (tradicionalmente o mais crítico), a redução foi de 66%. A boa notícia não se restringe aos números. De acordo com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o recuo aconteceu em vários estados e municípios, atestando uma queda consistente.

Poesia | Fernando Pessoa - O meu olhar é nítido como um girassol

 

Música | Zeca Pagodinho e Marisa Monte - Preciso me encontrar (Candeia)

 

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Fernando Abrucio* - Lula III e o desafio da coordenação

Eu & / Valor Econômico

É preciso colocar o diálogo político a serviço de boas ideias e dos melhores compromissos entre posições diferentes

O principal problema institucional brasileiro pode ser definido hoje, sinteticamente, pela palavra fragmentação, e sua solução passa pela ideia de coordenação. O sistema político tornou-se muito mais fragmentado do que já era e a capacidade de o presidente eleito governar depende muito mais de acordos e divisão de poder do que previa o presidencialismo de coalizão derivado da Constituição de 1988. Não obstante, é possível encontrar caminhos integradores entre os atores no curto prazo, embora seja muito difícil voltar, pelo menos no curto prazo, ao modelo que vigorou nas presidências anteriores de FHC e Lula. Entre o mundo ideal e as críticas à situação vigente, talvez haja um meio termo mais efetivo e menos romântico.

O modelo político brasileiro construído ao longo da redemocratização combinava ampla divisão de poderes com grande capacidade de comandar o processo político nas mãos do presidente da República e da União. De um lado, estava o aspecto consorciativo, com um sistema multipartidário, maior autonomia e salvaguardas federativas aos governos subnacionais, um reforço inédito de poder aos órgãos de controle e um Congresso bicameral capaz de exigir que só se poderia governar por coalizão, seja pela ausência de maioria parlamentar, seja pela necessidade constante de se aprovar reformas constitucionais ou, ainda, pela capacidade de pressionar o Executivo por meio de CPIs e, no limite, processos de impeachment.

Fernando Gabeira - A dança dos números depois de Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Quanto mais soubermos sobre o Brasil, quanto maior for a qualidade de nossos dados, mais chance teremos de crescer

A indicação do economista Marcio Pochmann para o IBGE trouxe uma pequena polêmica. Aproveito-me dela para tratar de um tema maior: a importância da estatística.

O campo passou por um momento tenebroso. Jair Bolsonaro não quis financiar o Censo. Foi obrigado a isso e acho que a resistência a essa loucura foi pequena, revelando que o Brasil ainda não valoriza a coleta e análise científica dos dados. Apenas alguns ex-presidentes do IBGE e um grupo pequeno de jornalistas tentaram pressionar o governo para retirá-lo do que consideravam suas duas trincheiras: a ignorância sobre o valor do trabalho estatístico e a vontade de evitar que o Brasil contemplasse o próprio retrato.

O problema ocorreu num período de pandemia, em que Bolsonaro se dedicou a uma dupla negação: a da existência do vírus e a dos dados sobre seu impacto. Foi necessária uma associação de órgãos de imprensa e autoridades estaduais para que pudéssemos acompanhar ao menos o número de contaminações e o de mortes. No entanto, o trabalho com os números poderia ter sido um instrumento muito mais poderoso na luta geral contra a pandemia.

Vera Magalhães – Tributária sem oba-oba no Senado

O Globo

Falta de estimativa sobre alíquota de novo imposto, superpoderes de conselho e lista sem critérios para isenções são pontos considerados falhos do texto da Câmara

Aquele clima de momento histórico, de que “agora vai”, visto na votação da reforma tributária na Câmara dos Deputados está longe de refletir a disposição com que o Senado se debruçará sobre a matéria, que só chegou à Casa ontem, pois o texto final ainda estava sendo redigido.

A avaliação da cúpula do Senado é que a bola saiu mais quadrada da Câmara do que o oba-oba visto pela contingência, de fato notável, de aprovar uma reforma de tamanha importância depois de tantas décadas permitia supor.

Existe um desconforto com pontos fulcrais da reforma, entre eles o principal, que não está no texto da Proposta de Emenda à Constituição: afinal, qual será a alíquota dos dois correspondentes ao IVA, o imposto sobre consumo dual que substituirá uma cesta de outros tributos?

Eliane Cantanhêde - Questão de ‘tempo’

O Estado de S. Paulo

Lula tem ‘o seu tempo’ para definir vagas do Centrão, Lira tem o dele para a âncora fiscal

Aqueda de braço entre o presidente Lula e o presidente da Câmara, Arthur Lira, que ganha novos contornos e novos personagens, começa a preocupar, principalmente, a área econômica do governo. Afinal, Lira quer ministérios para o Centrão e eleger seu sucessor no cargo e Lula tem de garantir margem sólida de apoios no Congresso e, neste momento, a aprovação da âncora fiscal na Câmara.

Os dois adoram testar forças, estão armados até os dentes, sabem usar essas armas e não terão pruridos em disparar um contra o outro: Lira e Lula, governo e Câmara. Essa brincadeira, ou guerra, pode ter alto custo para ambos, e não só agora, também depois, depois e depois. Os precedentes são muitos, Dilma Rousseff e Eduardo Cunha que o digam.

Bernardo Mello Franco – O preço do Centrão

O Globo

Nas democracias mais funcionais, as eleições dividem os políticos em dois grupos. Quem ganha vai para o governo. Quem perde vai para a oposição. No Brasil, a regra é diferente. Quando as urnas se fecham, os derrotados entram na fila para aderir aos vencedores. Ninguém quer ficar fora da distribuição de cargos.

No ano passado, o Centrão pediu votos para Jair Bolsonaro. A fidelidade ao capitão durou até a noite do segundo turno. Parte da tropa desertou entre a eleição e a posse. Agora é a vez dos retardatários, comandados pelo deputado Arthur Lira.

Luiz Carlos Azedo - Zanin toma posse no Supremo com a imagem de “ministro do Lula”

Correio Braziliense

Não fosse a posse do novo titular da vaga de Lewandowski, que se aposentou, a coluna desta sexta-feira seria sobre a violência policial na Bahia, onde foram mortas 19 pessoas no fim de semana

O criminalista Cristiano Zanin tomou posse, nesta quinta-feira, no Supremo Tribunal Federal (STF) carimbado como ministro ligado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porque foi seu advogado nos processos da Operação Lava-Jato, num dos quais o petista foi condenado e preso, antes de ter a sentença anulada pelo Supremo, após mais de 500 dias de cadeia. Desde a petição inicial, o novo ministro sustentou que o juiz federal Sergio Moro não deveria ser responsável pelo processo do triplex do Guarujá, que nunca fez parte do escândalo da Petrobras.

A tese do “juiz natural” teve apoio da maioria dos ministros no Supremo, depois de uma longa batalha jurídica, que consagrou Zanin como criminalista e fez com que o presidente Lula o indicasse para ocupar a cadeira deixada pelo ministro Ricardo Lewandowski, outro grande amigo de Lula, que se aposentou em abril. A indicação do presidente teve excelente receptividade entre os ministros do Supremo, além de amplo apoio no Senado, cuja maioria queria mais um ministro “garantista” na Corte. Desafeto de Lula e Zanin, Moro hoje ocupa uma cadeira no Senado, mas é um estranho no ninho, não teve a menor condição de obstruir a indicação.

Reinaldo Azevedo - Lula vai do caos à decolagem

Folha de S. Paulo

Lembram-se da frase 'É a economia, estúpido!'? Então... É a política!

Quando se divulgaram os dados do primeiro turno das eleições do ano passado, que anunciavam a composição do Congresso, não conheço uma só alma, e eu mesmo estava entre elas, que não tenha se deixado tomar pelo pessimismo. Dado que Lula era o favorito no segundo turno, antevia-se o cenário de um presidente "progressista" —para empregar um termo mais abrangente— com o Congresso mais reacionário da história em tempos democráticos. E efetivamente o é. O temor era óbvio: a paralisia ou a ingovernabilidade. E, no entanto, o país se move.

"É a economia, estúpido!", sentenciou em 1992 James Carville, assessor do então candidato democrata à Presidência dos EUA, Bill Clinton, ao definir a frente principal de combate ao adversário republicano, George Bush, o pai, candidato à reeleição. É uma dessas divisas que, parafraseando o filósofo bigodudo, já "nascem póstumas". Ela ganhou tal força que praticamente amarrou a ciência política a uma espécie de determinismo: se a economia vai bem, o governismo vence eleições; se vai mal, perde.

Bruno Boghossian - A grama do vizinho

Folha de S. Paulo

Equilíbrio entre centrão e outros partidos da coalizão pode desaguar em mudança mais ampla no futuro

A arrastada negociação para o embarque do centrão no governo envolve uma concorrência dentro da futura base de Lula. A disputa passa pelo mercado imobiliário da Esplanada, com o espaço cobiçado pelos novos inquilinos e o tamanho do terreno ocupado por antigos moradores.

Na montagem do governo, Lula deu nove ministérios a partidos que não haviam feito parte de sua aliança eleitoral: MDB, PSD e União Brasil. Entraram no pacote latifúndios políticos como Cidades, Agricultura e Desenvolvimento Regional, com peso grande na distribuição de verba para os redutos dos parlamentares.

Ruy Castro - O novo Brasil

Folha de S. Paulo

Chegou a vez dos srs. Luva de Pedreiro, Cara de Sapato, Gil do Vigor, Yuri do Paredão e outros notáveis

Ibrahim Sued, que era pobre e ficou rico com sua coluna social, dizia que sua dinastia começava com ele. Isso de fato aconteceu, mas, quando Ibrahim morreu, em 1995, sua dinastia morreu com ele. Por sorte, o Brasil tinha dinastias mais sólidas, com aqueles nomes compostos que todos sabiam pertencer aos capitães da indústria, das finanças ou do society, como os Monteiro de Carvalho, os Peixoto de Castro, os Mello Alves, os Guilherme da Silveira, os Orleans e Bragança. Mas elas também sumiram.

Os colunistas de hoje estão mais atentos aos líderes das possíveis novas dinastias, todos já com admiradores na casa dos milhões. Vide o sr. Iran Luva de Pedreiro, youtuber e influenciador internacional, na flor dos seus 21 anos; o sr. Antonio Cara de Sapato, ex-BBB e ex-lutador de MMA; e o sr. Gil do Vigor, também ex-BBB, criador da dança do tchaki-tchaki e autor do livro "Tem que Vigorar! Como me Aceitei, Venci na Vida e Realizei Meus Sonhos". Dizem que o sr. Vigor tem aspirações à Presidência.

César Felício - Cartão de crédito na alça de mira do Congresso

Valor Econômico

O corte de meio ponto percentual da taxa Selic nesta quarta-feira abriu caminho para uma polêmica entre a classe política e o mercado financeiro: virá pressão para alterar a taxa do financiamento rotativo do cartão de crédito, ou mesmo eliminá-lo.

A preocupação no mercado financeiro é grande. Se o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), foi visto muitas vezes como uma trava a qualquer avanço heterodoxo do Executivo, desta vez teme-se mais o que pode vir pelas mãos do Congresso do que o que talvez brote pelo Ministério da Fazenda.

Na próxima semana, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, deve se encontrar com o líder do União Brasil na Câmara, Elmar Nascimento (BA), e com o deputado Alencar Santana (PT-SP). Elmar é autor do projeto que determina um limite para o rotativo, a ser definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). E ainda detalha no texto: “as taxas de juros remuneratórios não poderão ser superiores a limites já estipulados para modalidades de crédito com perfil de risco semelhante, a exemplo do que já ocorre com as taxas cobradas sobre o valor utilizado do cheque especial”. Santana é o relator da matéria. O petista quer apresentar seu parecer direto em plenário dentro de dez dias.

Armando Castelar Pinheiro* - Pouso suave?

Valor Econômico

Núcleos seguem apontando inflação resiliente e algumas das quedas de preços observadas nos últimos meses tendem a ser revertidas

Julho foi um bom mês para o mercado financeiro, com forte valorização de ativos, fruto da consolidação de um cenário que vem sendo chamado de um “pouso suave” da economia: a queda das taxas de inflação, dos patamares muito altos de um ano atrás, a caminho das metas com que trabalham os bancos centrais (BCs), sem a necessidade de uma desaceleração mais forte da atividade, que implicaria subida das taxas de desemprego.

Isso significa que os BCs não precisarão manter a política monetária apertada por muito tempo, ao mesmo tempo em que as empresas continuarão a apresentar crescimento e bons lucros, valorizando as ações e os papéis de dívida de empresas e governos. É um quadro que se vê lá fora e também aqui no Brasil.

Claudia Safatle - Depois do juro, falta melhorar a produtividade

Valor Econômico

Crescimento de longo prazo é um fenômeno mais de oferta do que de demanda

Com a queda da taxa de juros, o Banco Central abre as comportas da economia para aumentar o crescimento. Certo? Não. O crescimento econômico vem do aumento da produtividade, e não da queda dos juros. Os juros têm efeito de curto prazo, estimulando ou desestimulando a demanda. Mas o crescimento de longo prazo é um fenômeno mais de oferta do que de demanda. “O crescimento econômico não tem nada a ver com os juros”, disse Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas, FGV Ibre.

“Os juros reagem ao crescimento, mas eles não produzem crescimento”, sintetizou Pessôa.

Há países que têm uma situação crônica de carência de demanda agregada. Esse é caso do Japão, que desde meados dos anos 1990 vive nessa situação. Países que têm esse problema crônico vivem anos seguidos de deflação, taxa de juros zero etc.

Já no Brasil, “temos um problema de excesso de demanda sobre a oferta”, salienta Pessôa.

Na reunião do Comitê de Política Monetária, ocorrida nesta semana, o Banco Central cortou a taxa Selic em 0,50 ponto, de 13,75% ao ano para 13,25% ao ano. Foi uma decisão apertada. O placar foi de cinco votos a favor do corte de 0,50, inclusive o do presidente do BC, Roberto Campos Neto, e quatro votos por um corte menor, de 0,25 ponto.

Lula, que fez duras críticas ao Banco Central por não reduzir os juros nas reuniões passadas e na quarta feira -, enquanto o Copom se reunia ele dizia, em entrevista aos correspondentes estrangeiros, que o presidente do BC não entendia nada de Brasil -, ontem nada comentou.

José de Souza Martins* - Oppenheimer e a suspeita generalizada de comunismo

Eu & / Valor Econômico

O grande interesse pelo filme de Christopher Nolan sobre o físico americano mostra que persistem inquietações quanto ao poder político paralelo de ignorantes e toscos

Na apreciação da biografia de J. Robert Oppenheimer, que liderou a criação da bomba atômica, mais importante do que as explosões no Japão e suas consequências trágicas é o episódio das vítimas da retaguarda, ele próprio incluído. O das vítimas do poder político pelas bombas criado, o poder da morte e de um novo medo social.

O grande interesse pelo filme de Christopher Nolan mostra que persistem inquietações não só quanto à destruição de Hiroshima e Nagasaki: em 6 segundos, mais de 100 mil seres humanos foram transformados em pó. Mas também a um novo poder político paralelo, o dos poderios de ignorantes e toscos que sobrepõem suas aspirações de mando ao conhecimento e seus limites éticos.

A concepção perversa de que é político matar o outro, eliminar o diferente, inventou uma nova economia da morte intencional, tornou mais rápida e barata a guerra de extermínio. Colocou no centro da história a possibilidade da bomba no lugar da guerra. Transformou a incerteza na única certeza do mundo. Qualquer irresponsável que saiba manipular essa incerteza, por diferentes meios, como a religião, o populismo, o militarismo, pode usurpar o poder legítimo.

Nos países que têm vivido surtos e tendências autoritários, como o do trumpismo, do bolsonarismo, do orteguismo, de vários modos essa incerteza define um inesperado tipo de dominação política, o da ignorância apoiada na falta de ética.

Pedro Doria - A roupa nova do hacker

O Globo

Bíblia numa mão, PowerPoint na outra e todo o moralismo do planeta sobre os ombros, Deltan foi completamente irresponsável

Gente como Nélson Rodrigues ou Dias Gomes faz falta, sabe? De formas muito distintas, eles tinham essa habilidade de olhar para aquilo que há de ridículo na vida brasileira e ressaltar. Sublinhar. Nos expor. Esse personagem que não vai embora da vida pública, o hacker de Araraquara, talvez fosse apresentado de forma muito diferente por um ou por outro. Mas ambos mostrariam o que deveria estar evidente, porém não está. Tem algo de pequeno, de tacanho, em essência de ridículo neste arco dos últimos dez anos da política brasileira.

Não temos mais um Nélson ou um Dias porque não seria possível com os humores correntes. Hoje tudo é muito sério, tudo é muito grave, tudo precisa ser denunciado. Ninguém é ridículo. As pessoas podem ser violentas, criminosas, intolerantes, racistas, misóginas, até fascistas. Mas nunca são ridículas. O ridículo nunca é perigoso. Quando o menino grita que o rei está nu, o muito grave se mostra pelo que realmente é. Nada grave, pois ridículo.

Flávia Oliveira - Sem defesa legítima

O Globo

Até 1830, maridos tinham o direito legal de matar esposas flagradas em adultério

Durou o tempo de um Brasil inteiro até o Supremo Tribunal Federal sepultar a barbaridade jurídica da legítima defesa da honra, que, décadas a fio, sacramentou a impunidade para feminicidas e agressores de mulheres. Somente no primeiro dia de agosto deste ano, por unanimidade, dez ministros — o 11º, Cristiano Zanin, só tomaria posse ontem — entenderam que a argumentação retórica contraria os princípios constitucionais da dignidade humana, da proteção à vida e da igualdade de gênero. Assim, a estratégia não poderá mais ser utilizada por defesa, acusação, autoridade policial e juízo, tampouco em julgamentos do Tribunal do Júri.

A legítima defesa da honra, como tantas violações contra indivíduos e grupos sociais no Brasil, é herança do período colonial, quando a honra masculina era tida como bem jurídico. Até 1830, ano da promulgação do Código Criminal do Império, maridos tinham o direito legal de matar esposas flagradas em adultério. As Ordenações Filipinas — compilação jurídica vigente em Portugal e também no Brasil até ali — caducaram, mas a estrutura de poder que subjuga mulheres não.

— O crime de feminicídio é de extrema e irreversível violência, pois atenta radicalmente contra todos os direitos e garantias estabelecidos nas leis internacionais e nacionais. Trata-se de um ato de ódio, que distorce todo o sentido de humanidade. Consolida no tempo a visão hegemônica masculina sobre as mulheres como propriedade, objeto de transgressão e símbolo de fraqueza. A legítima defesa é uma tese absurda e machista que valida a brutalidade — diz Fabiana Dal’Mas Paes, promotora do MP-SP e presidente da Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica (ABMCJ-SP), que atuou no STF pela inconstitucionalidade reivindicada na ação movida pelo PDT.

Rogério Furquim Werneck - Pochmann, Mantega e muito mais

O Globo

A incapacidade de Lula de aprender com erros de política econômica passados

Passada a onda de manifestações de indignação com a deplorável nomeação de Marcio Pochmann para a presidência do IBGE, é preciso reflexão mais ampla sobre o significado do fato. Há que se dar atenção ao que a decisão revela sobre a visão de mundo torta e retrógrada que ainda viceja na Presidência da República e na cúpula do Partido do Trabalhadores (PT).

Não se trata de fato isolado. A nomeação apenas realça com cores mais fortes evidências que se acumulam. E que apontam para a extensão das dificuldades que o presidente continua a enfrentar para se livrar do que há de mais arcaico no seu vasto acervo de ideias equivocadas.

Com tamanho apego a tal credo, Lula resiste a se permitir o aggiornamento de sua visão de mundo que lhe daria condições de conduzir seu partido e seu governo num projeto de efetiva modernização do país.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Argentina vai às urnas em meio a crise e recessão

Valor Econômico

Eleições podem não resolver impasses econômicos e políticos do país

A Argentina corre contra o tempo para evitar uma nova e grave crise econômica. A ajuda incomum do Fundo Monetário Internacional ao país não é capaz de assegurar que seja possível evitá-la. Em situações críticas, as eleições tendem a ser um caminho para romper impasses e apontar saídas. Ao que tudo indica, não será o caso argentino. Sergio Massa, peronista e ministro da Economia, não tem programa econômico e se limita a evitar uma ruinosa desvalorização antes que se encerre a eleição presidencial, em novembro. Os candidatos de oposição da Juntos pela Mudança, Patricia Bullrich, mais à direita, e Horacio Larreta, prefeito de Buenos Aires, não parecem ter carisma e propostas arrojadas suficientes para unir o país e a classe política na tarefa de retirá-lo da beira do abismo em que se encontra.

Os peronistas, como o presidente Alberto Fernández e sua vice, Cristina Kirchner, demonizaram o FMI por ter oferecido ao país o maior pacote financeiro da história da instituição, de US$ 53 bilhões, e o qualificaram de eleitoreiro, feito para a garantir a reeleição de Mauricio Macri. Desde o acordo, feito em 2018, e já sob o governo de Fernández, o país não cumpre as metas do programa, um dos mais suaves já aplicados pelo Fundo. É o dinheiro do FMI que mantém a Argentina à tona, mas os peronistas o execram, no que são seguidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que acusa o Fundo de manter uma “espada” sobre a cabeça de Fernández e de “afundar” países endividados.

Poesia | Fernando Pessoa - Nada fica de nada. Nada somos.

 

Música | Nilze Carvalho - Kid Cavaquinho/Brasileirinho(João Bosco/Aldir Blanc)/(Waldir Azevedo)

 

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Merval Pereira – Chanchada

O Globo

Walter Delgatti, o hacker de Araraquara, comparado pela esquerda a Snowden, acabou nos braços de Bolsonaro

Este caso do hacker de Araraquara, que ajudou a tirar Lula da cadeia e pode levar Bolsonaro a ela, é típico de uma chanchada bem brasileira. Walter Delgatti jura que entrou no aplicativo Telegram dos procuradores da Lava-Jato e do então juiz Sergio Moro, por acaso, quando estava hackeando um juiz que o condenara. Fez o trabalho sujo de revelar os diálogos do que ficou conhecido por Vaza-Jato de graça, sem interesses políticos ou monetários.

Como teria ficado magoado com o tratamento do PT, que não lhe deu o devido valor pela desmoralização da Lava-Jato e consequente soltura do hoje presidente Lula, foi procurar abrigo no governo Bolsonaro e acabou invadindo a rede do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a pedido da deputada federal Carla Zambelli.

O advogado Ariovaldo Moreira, em entrevista memorável no Estúdio I, da GloboNews, em que seu silêncio confirmou muitas informações, insinua que Delgatti prepara-se para uma delação premiada. Teria ouvido de Bolsonaro pessoalmente, e depois por celular frio, uma encomenda para invadir as comunicações do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e para provar que as urnas eletrônicas eram vulneráveis. As urnas passaram no teste, e o hacker não conseguiu invadi-las. Mas o sistema do CNJ e os dados do ministro do Supremo teriam sido violados, a ponto de Delgatti ter expedido uma ordem de prisão de Moraes contra si mesmo, numa molecagem eletrônica sem valor jurídico, mas de resultado político inegável. Bolsonaro deve ter morrido de rir.