terça-feira, 16 de setembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Normalização da violência política ameaça a democracia

Por Correio Braziliense

Tem-se perdido a capacidade de diálogo em detrimento de práticas covardes que abalam um dos pilares da democracia: o pluralismo

Em tempos de polarização exacerbada, os embates políticos ficam limitados aos fatos que "fogem da curva": sejam eles verdadeiros ou não. Assim, a notícia de um golpe bilionário em assistidos pelo INSS e a invenção de que creches públicas recebem mamadeiras eróticas mobilizam agentes políticos e cidadãos comuns da mesma forma, em uma falta de filtros que atravanca a condução de pautas imprescindíveis para o bom funcionamento do país. Essa agenda deslocada vai além: é cáustica para a convivência democrática, levando a uma espécie de normalização da violência política.

A execução a tiros de Charlie Kirk, nos Estados Unidos, na semana passada, é a prova mais recente de como esse fenômeno contamina o Brasil e o resto do mundo. A troca de acusações sobre as motivações do atirador se deu na mesma velocidade com que as imagens do influenciador sendo baleado no pescoço se disseminaram pelas redes sociais. Um suspeito chegou a ser preso logo em seguida ao crime, e o presidente Donald Trump tratou de inflar a disputa ideológica imediatamente. Culpou a "esquerda radical" por "demonizar aqueles de quem se discorda". O desenrolar das investigações evidenciou que veredictos não podem ser instantâneos.

Nova página. Por Merval Pereira

O Globo

Veremos se Tarcísio, com a radicalização que demonstrou nos dias recentes, não perdeu boa parte da centro-direita, da direita dita civilizada, abrindo espaço a outro governador, como Ratinho Junior, do Paraná, ou Ronaldo Caiado, de Goiás

A manobra que o presidente da Câmara, Hugo Motta, articula nos bastidores — derrotar a proposta de anistia ampla, geral e irrestrita para, em seu lugar, aprovar outra, que abra a condição de o Supremo Tribunal Federal (STF) reduzir penas já dadas aos integrantes da “massa de manobra” da intentona do 8 de janeiro de 2023, mas sem atingir os organizadores e financiadores da tentativa de golpe — pode ser arriscada, mas é uma solução para não pressionar o Supremo, que acabou de condenar os integrantes do “núcleo crucial”.

Sócios do golpismo sob a mira de mais delações. Por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Benefícios de Cid aquecem novamente o mercado de delações e facilitam a captura daqueles que, na política e no setor privado, engancharam os vagões seculares do atraso na carona da locomotiva golpista

O Supremo Tribunal Federal não se limitou a promover uma condenação inédita na história das quarteladas do país, também abriu as portas para que as delações sejam novamente recebidas na sala de visitas do combate à impunidade. O julgamento coincide com uma operação policial que pode levar ao banco dos réus aqueles que pegaram carona na irresponsabilidade bolsonarista que colocou o país no pódio de mortes da covid-19. Impunes, prosseguiram no assalto aos aposentados. E não apenas.

O ministro Flávio Dino foi o primeiro a demonstrar que as ações sob seu comando também podem ganhar um gás com a ressurreita delação. Nesta segunda, o ministro suspendeu repasses às emendas Pix de nove municípios, entre os quais duas capitais (Rio de Janeiro e Macapá), com base em relatório da Controladoria-Geral da União, e ainda encaminhou o apanhado para a Polícia Federal investigar os indícios de crime.

Mesmo condenado, Bolsonaro pauta agenda política. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A chamada “pacificação nacional” é defendida pelos bolsonaristas como eufemismo para impunidade. É uma encruzilhada: anistiar o crime de golpe de Estado ou enfrentar o risco de radicalização e instabilidade institucional

Menos de uma semana depois de ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros quatro crimes, o ex-presidente Jair Bolsonaro segue ditando a pauta política em Brasília. Embora em prisão domiciliar, continua articulando com aliados para reverter o efeito de sua condenação. Ontem, sua defesa pediu ao ministro Alexandre de Moraes autorização para receber visitas de lideranças estratégicas, entre elas o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o relator do projeto de anistia na Câmara, deputado Rodrigo Valadares (União Brasil-SE), que já apresentou parecer favorável à medida.

Bolsonaro conserva a capacidade de mobilizar sua base parlamentar e tensionar as instituições. Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a proposta de anistia avança com o apoio do PL e de setores do Centrão, sob a narrativa de “pacificação nacional”. Mas, na prática, funciona como um instrumento para esvaziar a decisão histórica do STF e abrir caminho para sua reabilitação política.

Como dialogar com o discurso do ódio. Por Fernando Gabeira

O Globo

Quem não assume cegamente um dos lados do conflito estará sujeito sempre a um nível de hostilidade

Tirei férias das atividades cotidianas na televisão. Tempo de estudo tranquilo para chacoalhar a ignorância, matar a curiosidade. A última semana foi intensa. Um longo júri no Brasil, Nepal em chamas, tensão na França, o assassinato de Charlie Kirk em Utah. Uma das questões que me vieram à cabeça durante o julgamento de Bolsonaro: seria possível fazer júris simulados nas universidades como organizávamos no passado?

Neles, os estudantes eram os defensores e promotores. Pelos conflitos da mesma semana passada na Universidade Federal do Paraná, creio que um júri desse tipo poderia terminar em pancadaria.

Sinto saudades do tempo em que se debatia com respeito pelas posições alheias. E a pergunta é esta: será que, diante da hostilidade atual, o gênio pode voltar para a lâmpada?

A força. Por Pedro Doria

O Globo

Não importa se Tyler Robinson é de direita ou de esquerda. Ele é movido a ódio

Existe uma razão para tanto a esquerda quanto a direita jogarem para o lado adversário o acusado do assassinato do ativista americano Charlie Kirk. É porque os sinais emitidos por Tyler Robinson, em sua vida, são mesmo confusos. Nas balas que estavam no rifle usado no crime havia inscrições como “Bella Ciao”, hino antifascista italiano, ou acenos em favor de pessoas trans. Ao mesmo tempo, ele vem de uma família profundamente trumpista, e em sua vida on-line está clara uma aproximação dos groypers, movimento de extremíssima direita. O certo é que Robinson, de 22 anos, é um gamer ativo nesses lugares da internet frequentados por muitos rapazes como ele. Solitários. Ressentidos. E, se paramos para reconhecer que ele simplesmente não tem ideologia definida, os sinais que emitiu podem nos trazer clareza não só sobre o assassinato, como também sobre o momento da política.

É unânime: houve uma tentativa de golpe de Estado no Brasil. Por Maíra Fernandes e João Vicente Tinoco

Correio Braziliense

Mesmo a análise divergente do ministro Luiz Fux — tão festejada pelo bolsonarismo — reconhece que a prova dos autos mostra a existência do atentado contra a democracia

Nas últimas semanas, o Supremo Tribunal Federal (STF) foi palco de dias históricos para o país. Pela primeira vez por aqui, um ex-presidente da República foi julgado por tentar golpear a democracia e subverter o Estado Democrático de Direito. Ao lado de Jair Bolsonaro, ocuparam o banco dos réus, na condição de próceres da aventura golpista, militares das Forças Armadas e influentes integrantes de seu governo. Com a sonora condenação proclamada na última quinta-feira, a Corte anuncia que golpes e quarteladas — práticas, infelizmente, frequentes na história brasileira — não encontram mais lugar em nossa experiência democrática pavimentada pela Constituição Cidadã. 

A anistia e a aberração sistêmica. Por Lenio Streck, Pedro Serrano e Mauro Menezes

Correio Braziliense

Seria um monumento à insensatez dizer que, se a Constituição proíbe anistia a grupos armados civis e militares, poder-se-á permitir anistia a quem tenta destruir a democracia

Uma falsa polêmica está no ar. Condenados os golpistas, começam a leituras jurídicas deformadas. Agora sobre anistia, assim já foi com o artigo 142 da Constituição Federal (CF), quando alguns defendiam que as Forças Armadas seriam uma espécie de poder moderador. Acreditaram naquilo que o Supremo Tribunal Federal (STF) denunciou como "terraplanismo jurídico". Deu no que deu. A fraude interpretativa fomentou o golpismo, culminando com o 8 de Janeiro.

Agora, a lenda em construção é: a anistia seria constitucional porque não haveria vedação expressa na Constituição. Já adiantaremos nossa tese: a CF proíbe, sim, a anistia. E o STF, lendo corretamente o texto constitucional, já disse ser inconstitucional. 

O bem que Bolsonaro fez. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Quem condenou generais à prisão e à desgraça não foi Alexandre de Moraes, foi Jair Bolsonaro

Quiseram os deuses, o destino, as circunstâncias e a história que fosse justamente um “mau militar”, cadete medíocre e capitão insubordinado, o agente do que nem os grandes juristas ou políticos haviam conseguido até este 2025: prisão, desonra e desgraça de oficiais das maiores patentes por tentativa de golpe de Estado. Quem condenou generais, um tenente-coronel e um almirante, além de dois delegados federais, não foi Alexandre de Moraes, foi Jair Bolsonaro.

Traição light. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O mundo real se impõe e faz acelerar. O julgamento dos golpistas acuou o bolsonarismo puro-sangue, decretou o fim de 2025 e projetou no porvir a perspectiva de um novo esquema de poder. A rapaziada saliva ante a chance de partilhar a esplanada – de controlar a corda e a caçamba – com Jair encostado, seja preso ou indultado. A perspectiva de trair com respeito.

Estamos no pós-Bolsonaro, em função do que todos os agentes políticos e econômicos se orientam; até os Bolsonaro, ora empurrados à condição de reagentes. (Condição sine qua non para o exercício do imponderável, da qual poderá ascender uma dissidência desafiante como a encarnada por Pablo Marçal.)

Creem os militantes em seus mitos? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Caso do Pizzagate mostrou que a maioria dos que diziam acreditar numa narrativa ideológica não agiram de acordo com a crença

Militantes políticos acreditam de verdade nas narrativas que seus grupos impulsionam? Um experimento natural mostra que não ou, pelo menos, não cegamente.

Em 2016, durante a campanha presidencial americana, ganhou corpo a teoria conspiratória do Pizzagate, segundo a qual membros do Partido Democrata, incluindo Hillary Clinton, faziam parte de uma quadrilha que aprisionava crianças no porão de uma pizzaria em Washington, a Comet Ping Pong, para utilizá-las como escravas sexuais. Pelas pesquisas, milhões de americanos "acreditavam" no Pizzagate, mas um único indivíduo, Edgar Welch, tomou a atitude compatível com sua crença e tentou libertar as crianças. Armado, ele invadiu a Comet. Após cerco policial, foi preso.

A hora do vamos ver. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A direita vive um paradoxo, porque onde impera o radicalismo não é possível prosperar a moderação

Enterrada a fantasia de que Jair Bolsonaro (PL) possa pela arte do impossível vir a ser candidato à Presidência da República em 2026 ou enquanto estiver submetido à pena de quase três décadas imposta pelo Supremo Tribunal Federal, a direita terá de falar sério sobre a próxima eleição.

A realidade impõe o desafio de herdar os votos dos radicais e, ao mesmo tempo, conquistar o apoio dos moderados. Tarefa difícil, dado o paradoxo. Onde reina o radicalismo, por óbvio não viceja a moderação.

Chefes da direita já ignoram o mito em desgraça. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Ao acatar a decisão do STF, presidente do PL revela o enfraquecimento do clã Bolsonaro

E o mundo não se acabou... Na esteira da condenação de Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão, não houve registros de alguém dançando em trajes de maiô e beijando a boca de quem não devia. O sol não nasceu antes da madrugada. Houve sim um pequeno Carnaval improvisado em ruas e bares, com o Rio na vanguarda da folia, mas nada que lembrasse a catarse coletiva descrita no samba de Assis Valente gravado por Carmen Miranda.

Charlie Kirk vive. Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Influenciador tinha muitas opiniões detestáveis, mas sua única arma era a palavra

É de se imaginar que, dentre aqueles que se creem defensores da democracia, seria consenso que assassinar adversários políticos é um ato reprovável. Aparentemente, não é. E isso ficou claro com as reações ao assassinato do ativista americano de direita Charlie Kirk.

Não foram poucas as celebrações e mesmo as defesas do atirador. As posições de Kirk eram tão horríveis, e sua veiculação tão violenta contra diversos grupos, que a bala que o matou era quase uma legítima defesa das minorias oprimidas.

Poesia | O laço e o abraço, de Mário Quintana

 

Música | Dominguinhos + Hermeto Pascoal [Juazeiro / Asa Branca]

 

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Narcogarimpo ameaça segurança da Amazônia

Por O Globo

Apesar das sucessivas operações policiais, garimpeiros ilegais persistem, em aliança com o tráfico

A informação de que o Sul do Pará volta a ser ocupado por balsas do garimpo ilegal, apesar de sete operações realizadas apenas neste ano na região, reflete a dificuldade de estabelecer uma política eficaz de segurança pública para a região. Tal política não pode se resumir às operações, cujo efeito se assemelha a enxugar gelo. As distâncias na Amazônia podem ser maiores, mas, como nas áreas urbanas, o combate à ilegalidade exige informação e estratégia para sufocar os criminosos.

Os alvos mais recentes dos garimpeiros são a Terra Indígena Kayabi e o Refúgio de Vida Silvestre Rio São Benedito e Azul, criado pelo governo do Pará em 2021. A corrida à região é motivada pela duplicação do preço do ouro em apenas um ano, para R$ 630 por grama. A rentabilidade do negócio se tornou tão grande que garimpeiros, ao ser surpreendidos, preferem afundar suas balsas e tentar recuperá-las depois. Em reportagem do GLOBO, um morador da região comparou o que acontece no Sul do Pará à descoberta de ouro em Serra Pelada nos anos 1980, quando era comum habitantes de fora venderem tudo o que tinham para tentar a sorte no garimpo.

Entrevista |‘Discurso da defesa da anistia é um discurso conveniente’

Cientista política diz que no Congresso a discussão sobre eventual anistia tende a ser colocada em segundo plano

Por Marcos de Moura e Souza / Valor Econômico

O ex-presidente Jair Bolsonaro e outros condenados por tentativa de golpe não devem nutrir muitas esperanças de que uma mobilização de seus aliados no Congresso leve à aprovação de uma anistia que os beneficie. O caminho mais provável para eventual reversão de suas penas é outro.

“Eu acho que as chances deles são mais por uma saída de algo que faça a reversão do processo que os condenou. Algo pela esfera judicial”, disse em entrevista ao Valor a doutora em ciência política e professora da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP), Lara Mesquita, citando a influência do contexto político nas decisões.

“Se o nosso Judiciário fosse menos politizado, seria possível ter mais segurança de que essa decisão não vai ser revertida daqui a alguns anos.” 

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Este é o país dos capitães, generais e almirantes? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

País precisa extrair lições do julgamento e banir militares da política para que atentados contra a democracia não se repitam

A mineira Cármen Lúcia, responsável pelo voto decisivo no julgamento encerrado na quinta-feira, iniciou sua fala relembrando um poema de Affonso Romano de Sant’Anna - outro mineiro, embora ela seja de Montes Claros e ele, falecido recentemente, fosse natural de Belo Horizonte.

Ou melhor: o poeta era mineiro, mas a ministra se considera “geraizeira”, como esclareceu numa célebre entrevista alguns anos atrás a Pedro Bial. Sim, “Minas é muitas; são, pelo menos, várias Minas”, sentenciou Guimarães Rosa num ensaio de 1957.

Cármen Lúcia explicou no “Conversa com Bial” que existe a região das Minas, dos subterrâneos de ouro e das montanhas de ferro, e há também os Gerais, o descampado de cerrado dos “Grandes Sertões: Veredas”. Essa dupla geografia se manifesta em tipos com personalidades completamente diferentes nascidos no mesmo Estado.

A nova ameaça de Trump sobre compra de diesel russo. Por Assis Moreira

Valor Econômico

Combustível representa mais da metade das importações brasileiras vindas da Rússia até agosto

O Brasil gastou US$ 3,8 bilhões com a compra de diesel da Rússia entre janeiro e agosto, representando 54,5% de tudo que importou daquele país. É 16,4% menos do que no mesmo período do ano passado, mas ainda um fluxo significativo.

Agora, Donald Trump reativou as baterias e pressiona os outros países do G-7 – Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Japão, Canadá, além da União Europeia – a se juntarem a Washington na imposição de tarifas aos países que compram petróleo à Rússia.

Violência como política de governo de Trump. Por Jan-Werner Mueller*

Valor Econômico

Mais do que um “gosto pela divergência”, seu governo vem fermentando um gosto pela crueldade

O horrendo assassinato do ativista de extrema direita Charlie Kirk foi recebido com reações apaziguadoras, dignas de estadistas, nos dois lados do espectro político. No entanto, também demonstrou, mais uma vez, uma assimetria fundamental na política contemporânea dos Estados Unidos. As manifestações de muitas figuras destacadas da direita, chegando até o presidente do país, Donald Trump, representaram nada menos do que um pedido de retaliação contra a “esquerda radical” - e isso tudo sem que ainda existam informações sobre o assassino e suas motivações.

Trump vem sinalizando, há cerca de dez anos, que a violência política cometida por seus apoiadores é aceitável e até passível de ser recompensada. Entre os que receberam seu perdão presidencial pela insurreição em 6 de janeiro de 2021 no Congresso dos EUA, muitos haviam sido condenados por crimes violentos. Ainda assim, Trump e muitos de seus seguidores mais devotos não consideram essa conduta como violência, mas uma autodefesa legítima, até patriótica; da mesma forma que outros populistas de direita, eles se retratam como perpétuas vítimas.

Um voto esdrúxulo, um efeito virtuoso. Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

O dissenso no STF legitima suas decisões e reduz o ímpeto de ofensivas de court-curbing

É difícil saber os reais determinantes do voto minoritário do ministro Luiz Fux no julgamento do “núcleo 1” – considerado crucial – dos envolvidos na trama golpista de Bolsonaro. O fato é que sua posição destoou não apenas da maioria da Corte, mas também de sua própria postura anterior, quando proferiu votos duros nas condenações de réus do 8 de Janeiro.

Apesar de inconsistente, o voto de Fux pode ter efeitos institucionais relevantes. Ao romper a unanimidade, reduziu a força do argumento de Bolsonaro e de seus seguidores radicais de que o Supremo estaria agindo de forma parcial, em um julgamento de cartas marcadas. Em contextos de alta polarização política, o dissenso interno reforça a legitimidade externa da Corte.

Entre a política e a economia. Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Real valorizou-se porque sanções americanas não vieram; Bolsa caiu porque sanções ainda podem vir. Especulação fica ao gosto do freguês

O dólar caiu, e o real se valorizou na última sexta-feira, primeiro dia útil depois da condenação de Bolsonaro. Foi um movimento expressivo. O dólar fechou a R$ 5,35, nível mais baixo desde junho de 2024. Na semana do julgamento, a moeda americana acumulou queda de 1,10%, algo que não se via faz tempo.

Se a cotação do dólar é um indicador do nível de estresse no mercado, então parece que vai tudo bem por aqui. E não apenas no mercado financeiro. Todos costumam olhar a taxa de câmbio por um viés bem definido: dólar caro assusta — e como! —, dólar barato alivia. Isso mesmo que não haja viagem marcada para o exterior.

O herói vingador que sabe mais. Por Demétrio Magnoli

O Globo

Para seus eleitores, ele acalenta um plano sigiloso, de longo curso, que trará a redenção

Atônitos desde a derrota de Kamala Harris, os democratas acreditam que acharam uma bússola. O norte, imaginam, chama-se Jeffrey Epstein. Divulgando uma página do “livro de aniversário” dos arquivos judiciais do caso Epstein, um documento de 2003, sonham lancetar o coração político de Trump.

A página contém um diálogo ficcional entre Trump e Epstein, pleno de subentendidos sexuais e emoldurado pelos contornos de um corpo feminino. A assinatura parece ser Trump, algo que ele nega. Trata-se de mais uma prova da amizade pretérita entre os dois, fato de domínio público, mas não constitui evidência de envolvimento nas aventuras criminosas do financista pedófilo. Por que, então, os democratas sentem o cheiro do sangue?

O julgamento visto das quebradas. Por Preto Zezé

O Globo

STF, ao condenar um ex-presidente, envia recado. Mas, se ele não chega traduzido às favelas, vira só notícia de rico pra rico

A condenação de Bolsonaro, de generais e gestores pelo Supremo entra para a História como marco contra a tentativa de golpe. Mas, nas favelas, o reflexo é ambíguo. Para alguns, vitória da democracia. Para outros, mais uma cena de um teatro onde a favela nunca é chamada a atuar — só a sangrar. Ali, Justiça não chega de toga, mas de viatura: bate de madrugada, enquadra sem explicação, executa sem defesa. Eis a chance de mostrar que o Estado de Direito vale para todos.

O Brasil segue dividido entre quem tem o direito de ser cidadão e quem vive sob punição permanente. A polarização política virou método de deseducação. O menino da favela aprende cedo que justiça é só para rico; certo e errado não estão na lei, mas no bolso de quem pode pagar por ela. Por isso, a condenação de um ex-presidente não traz alívio imediato, mas desconfiança:

Constituição cidadã gerou punição a militares por golpe, dizem historiadores. Por Gustavo Zeitel

Folha de S. Paulo

Ampliação de direitos básicos à população criou consciência sobre democracia, mas anistia perpetuaria impunidade

Em voto decisivo no julgamento da trama golpista, a ministra Cármen Lúcia, do STF (Supremo Tribunal Federal), recordou os sucessivos golpes de Estado no Brasil, citando a ruptura democrática de 1964 que instaurou a ditadura militar. Se já é clichê ver um marco histórico na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a 27 anos de prisão, também é verdade que a punição aos oito integrantes da conspirata não pode ser compreendida sem a clareza dos motivos que levaram ao tão alardeado ineditismo.

Afinal, excedidos movimentos regionais, como a Revolta Paulista de 1924, é de fato a primeira vez que militares são punidos no Brasil por atentados contra o poder constituído. Historiadores identificam três razões que viabilizaram, enfim, a responsabilização dos militares: a Constituição de 1988, que expandiu e legitimou direitos da sociedade, construindo um consenso sobre a preservação da democracia, a diminuição da desigualdade social e a falta de apoio da elite econômica à impunidade dos golpistas.

Anistia a Bolsonaro é tentativa de golpe por outro caminho. Por Christian Lynch*

Folha de S Paulo

Extrema direita pede indulto em nome de suposta pacificação, mas não abandona extremismo

[Resumo] Campanha por anistia a Bolsonaro e demais condenados por trama golpista retoma vício que macula a história do Brasil desde o Império. Suposta pacificação defendida por coalização reacionária na verdade é método para minar democracia liberal e restaurar pela ditadura o poder de grupos dominadores tradicionais.

O tema da anistia não pode ser considerado em abstrato, mas nas circunstâncias concretas da política contemporânea, no Brasil e no mundo. Vivemos um período de ataque frontal à democracia liberal por parte de uma extrema direita articulada internacionalmente.

À luz da experiência nazifascista, as democracias do pós-Segunda Guerra ergueram muralhas institucionais contra o autoritarismo. Não bastava confiar no jogo político: era preciso blindar o regime com constituições liberais e republicanas claras, cortes constitucionais fortes e amplos poderes de proteção contra arroubos de maiorias circunstanciais.

Com a globalização dos anos 1980-1990, esse modelo se disseminou, inclusive no Brasil. Ele abriu espaço para a emergência de novos grupos sociais dentro de cada nação —formalmente incorporados, mas até então mantidos como subalternos— e para novos países fora do Atlântico Norte no cenário internacional. Parecia o anúncio de uma era igualitária, capaz de dissolver os vestígios da velha ordem oligárquica e imperial.

Foi então que os grupos que sempre se viram como donos do poder passaram a sentir-se ameaçados. Contra adventícios, imigrantes e diferentes, essas elites tradicionais reagiram, reivindicando sua suposta condição de povo "autêntico", enraizado em famílias cristãs patriarcais e mitos nacionalistas de fundação que justificariam sua superioridade histórico-cultural.

Anistia a Bolsonaro jogaria estabilidade democrática no chão. Por Leonardo Weller

Folha de S. Paulo

Perdão a golpistas é retrocesso que pode nos levar novamente ao chumbo da ditadura

[Resumo] Conceder indultos a golpistas e conspiradores tem sido uma tradição no Brasil do pós-guerra, o que só incentiva novas tentativas de tomada armada do poder. Se a anistia de 1979 revelou-se depois indispensável para pacificar o país, afinal os militares ainda estavam no poder, repetir agora o perdão judicial a Bolsonaro e demais réus condenaria a uma instabilidade política que já parecia superada, avaliar autor.

Vários políticos de direita defendem uma anistia aos réus envolvidos na trama golpista liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo reportagem da Folha, o grupo inclui cerca de 300 deputados, maioria na Câmara. Por detrás desta reação contra o julgamento do STF está o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que se move com medo da família Bolsonaro e de olho nas eleições presidenciais do ano que vem.

Entrevista | Daniel Aarão Reis: Não acredito em anistia 'irrestrita', mas talvez se chegue a meio-termo

Professor da UFF avalia que condenação de Bolsonaro e militares é importante para abalar certeza de impunidade, mas indica que golpismo não é vencido só com julgamento judicial

Por Bernardo Mello / O Globo  

O historiador Daniel Aarão Reis avalia que, apesar da forte representação do bolsonarismo no Congresso e da simpatia de parte do Centrão, uma anistia "ampla, geral e irrestrita" dificilmente será aprovada. Professor da UFF, ele acredita, no entanto, que talvez haja um meio-termo, com redução de penas. Um efeito muito positivo do julgamento da trama golpista, indica Aarão Reis, é que "a certeza da impunidade, que parece ter sido importante no golpe de 1964, agora ficou abalada".

É possível dizer que a democracia brasileira mostrou força ao se condenar um ex-presidente e militares por tentativa de golpe?

O ineditismo do julgamento e da condenação é um aspecto importante, especialmente com nosso histórico de golpes e anistias. Mas ideias só são vencidas por ideias, e não por condenações jurídicas. Seria um erro tomar o julgamento como prova de que se derrotaram as ideias golpistas.Venho alertando para o problema de subestimar a extrema-direita, que se fortaleceu no país desde 2013, inicialmente de forma subterrânea. A democracia é um dos poucos regimes que permitem que seus inimigos se pronunciem. Isso confere a ela uma instabilidade básica, embora também possa ser fundamentada em maior ou menor medida.

A tragédia e a farsa. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidente americano voltou à Casa Branca porque instituições dos EUA não funcionaram

Um presidente de índole autoritária tenta se reeleger, é derrotado nas urnas e se recusa a aceitar o resultado. Inflamados por suas mentiras, extremistas invadem e depredam o Congresso na esperança de mantê-lo no poder.

Aconteceu como tragédia nos Estados Unidos, em 6 de janeiro de 2021. Repetiu-se como farsa no Brasil, em 8 de janeiro de 2023.

As semelhanças entre os dois episódios pararam na destruição do patrimônio público. Depois da selvageria, cada país escolheu seu modo de lidar com o ataque às instituições democráticas.

Nos EUA, o candidato a autocrata driblou a Justiça, ficou impune e conseguiu voltar à Presidência. No Brasil, seu imitador acaba de ser condenado a 27 anos e três meses de prisão.

Mudanças institucionais históricas e o julgamento de Bolsonaro. Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Os julgamentos de presidentes por golpes ou corrupção representam avanços, mas o saldo institucional líquido para o STF terá sido negativo

O caráter histórico do julgamento da conspiração tem sido reiterado por analistas de diversas matizes. Douglass North (Nobel de Economia) e coautores enfatizam o controle civil sobre os militares como uma das pré-condições para a transição a uma "ordem social de acesso aberto" (que combina democracia e prosperidade) ao lado do império da lei e de organizações impessoais.

Julgamentos e condenações de presidentes por golpes ou corrupção têm se tornado muito mais frequentes em todo mundo inclusive na Europa. Da Ros e Gehrke, com dados para 1946-2022, mostram que há, a partir dos anos 1990, mudança qualitativa e quantitativa: a proporção de líderes condenados sobe de cerca de 2% para 9%. As condenações criminais tornam-se mais comuns e a punição violenta e arbitrária menos frequente. Considerando todos os chefes de governo que deixam o cargo, a probabilidade de um líder ser morto, encarcerado ou ir para o exílio no primeiro ano pós-mandato cai de mais de 30% (1960–1980) para apenas 12% (2000–2015).

A Semana da Pátria de 11 dias. Por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Responsabilizar aqueles que tramaram contra a democracia representa o rompimento com a tradição de impunidade

A Semana da Pátria, pelo calendário oficial, compreende os dias entre 1º e 7 de setembro, período dedicado à celebração da soberania nacional. Em 2025, porém, excepcionalmente a Semana da Pátria se estendeu até o dia 11 de setembro, quinta-feira passada, data da inédita condenação de um ex-presidente da República por liderar uma trama de golpe de Estado —entre outros crimes— na tentativa de se manter no poder depois da derrota na eleição 2002.

Muito, muito, mas muito além de preferências político ideológicas ou de disputas partidárias, o momento é emblemático e decisivo para a defesa e preservação do Estado Democrático de Direito. Responsabilizar aqueles que tramaram contra a democracia representa o rompimento com a tradição de impunidade que historicamente beneficiou criminosos de colarinho branco no Brasil.

Pacificação é dar paz ao povo e não a golpistas poderosos. Por Camila Rocha

Folha de S. Paulo

Para nossa democracia ser segura, nosso povo também precisa se sentir seguro

Na corrida por votos em 2026, candidatos à direita falam em "pacificar" o país. O que passa, em sua visão, por perdoar golpistas poderosos. Nada é mais contraintuitivo. Se a ideia é promover paz, vamos deixar de responsabilizar pessoas que querem impor sua vontade por meio de ameaças e violência?

Vamos fingir que nada grave aconteceu e seguir a vida? Vamos deixar o caminho aberto para que novas violências, e talvez mais graves, sejam cometidas? Que paz é essa?

Poesia | Embriaguem-se, de Charles Baudelaire

 

Música | Elis Regina & Hermeto Pascoal | Asa Branca, Montreux Jazz Festival

 

domingo, 14 de setembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Um roteiro para a pacificação do País

Por O Estado de S. Paulo

Erra quem pensa que a pacificação virá com a anistia a golpistas, mas também quem crê que basta a punição dos inconformados com a democracia para superar as tensões. É preciso mais

“A pacificação do País depende do respeito à Constituição, da aplicação das leis e do fortalecimento das instituições”, disse o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no introito do julgamento da Ação Penal 2.668, sobre o atentado à ordem constitucional democrática, cujo principal réu era o ex-presidente Jair Bolsonaro. “Nós precisamos de pacificação. E o Congresso pode fazer gestos por essa pacificação”, pregou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, convertido em principal porta-voz da tese bolsonarista segundo a qual a anistia a Bolsonaro terá o condão de “pacificar” o Brasil.

Como em muitos momentos de tensão observados na história brasileira, fala-se muito em “pacificação”, “união” ou “solução política” como forma de mudar um estado de crispação, virulência e conflito institucional. Não se questiona tal desejo, mas o problema é de outra ordem: nenhuma receita de paz social vai prosperar caso se concentre em um só lado da história. De fato, não há paz fora do império da lei, tampouco sob a confusão premeditada entre pacificação e impunidade. Mas, admitindo-se que seja necessário pacificar o País, o que de resto é discutível, erra quem pensa que essa pacificação virá com a anistia, e erra também quem acredita que a pacificação se resume à punição dos inconformados com a democracia. É preciso mais.

Sem anistia. Por Merval Pereira

O Globo

A anistia seria uma derrota do estado de direito diante da exigência de um grupo político condenado justamente por ter atentado contra a democracia

Não há razão para anistiar o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus companheiros de aventura golpista, sobretudo porque a reivindicação vem a bordo de uma chantagem política baseada na ameaça de um governo estrangeiro. A anistia, assim, seria uma derrota do estado de direito diante da exigência de um grupo político condenado justamente por ter atentado contra a democracia. Seria uma incoerência em si mesma uma decisão nesse sentido, que destoaria dos demais processos históricos anteriores, quando a anistia sempre foi dada como maneira de pacificação por parte do governo legitimamente eleito, ou, como no caso da anistia no golpe militar de 1964, da ditadura agonizante que buscava salvar os seus diante da tendência majoritária no país contrária à sua permanência.

Tanto que a extinção do AI-5 já havia sido decretada e, em seguida, a eleição, mesmo indireta, garantiu o fim da ditadura elegendo Tancredo Neves presidente da República. Em todos os casos, a anistia veio como um gesto de pacificação de governos legítimos ou de ditaduras decadentes. Agora, os perdedores querem anistia para continuar a ameaçar a democracia, aproveitando-se dela para tentar desmontar o estado de direito por dentro.

O país e o julgamento. Por Míriam Leitão

O Globo

A democracia não se vinga, mas não pode ignorar o que deu errado no passado, nem deixar de almejar um futuro diferente para as próximas gerações

A democracia não se vinga, mas deve se proteger. Durante mais de um século, esteve frágil diante dos atentados, por um erro plantado no berço da República: a pretensão de que os militares seriam os tutores do poder civil. De tempos em tempos, os que têm as fardas e as armas, fornecidas pelos cofres públicos, assombraram o país ou tomaram o poder diretamente. Sou da geração que pagou o preço mais alto. Pela primeira vez, temos a chance de construir um pacto novo, no qual os militares terão seu papel, sempre essencial, mas jamais para exercer o poder.

A poesia de Affonso Romano de Sant’anna foi trazida aos autos, no voto da ministra Cármen Lúcia que condenou os réus. No poema “Que país é este?”, há versos que parecem simples e são definitivos. “Uma coisa é um país, outra um regimento”.

O ministro Luiz Fux ficou sozinho no seu voto divergente. A democracia sempre aceitará os divergentes, mas o erro do ministro foi ver fatos isolados, onde havia um plano. Ele foi executado à luz do dia, gritado nos palanques de avenidas, analisado em reuniões ministeriais, dito em datas nacionais, escrito em documentos. O mais macabro dos papéis descobertos pela Polícia Federal foi impresso no Palácio do Planalto, e trazia o nosso verde-amarelo entregue a um punhal.

Julgamento dá orgulho. Por Dorrit Harazim

O Globo

Cármen Lúcia foi concisa, de clareza não entediante e natural, o que é raridade entre as disputas por holofotes do colegiado

Dependendo do que cada um faz da própria vida, 27 anos é uma medida de tempo que se esgota rápido. Tomem-se gigantes da cultura musical como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones, Kurt Cobain, Amy Winehouse. Cada um escolheu um viver em intensidade máxima, acelerada, que durou 27 anos. Morreram prematuramente de forma trágica, deixando órfãs suas legiões de seguidores. No outro extremo está Jair Bolsonaro. A sentença de 27 anos e três meses de prisão, mesmo se algum dia reduzida para um sexto da pena ou aliviada para prisão domiciliar, encontra um homem condenado a um perpétuo vazio. O vazio da desumanidade que semeou.