Folha de S. Paulo
Nos primeiros três blocos, houve a sensação
de alguma civilidade entre os dois candidatos
Última parte voltou a lembrar os piores
momentos do encontro na Band, que entrou para a antologia da política
brasileira
Cinco dias depois do debate na Band, um
confronto eleitoral que entrou para a antologia dos momentos mais baixos da
história política brasileira, a Globo blindou o
seu evento, no esforço de subir um pouquinho o nível. Conseguiu em partes.
Não que o público tenha assistido a
um debate esclarecedor a dois dias de uma das eleições mais
disputadas da história do Brasil. Não que a emissora tenha evitado a difusão de
mentiras a granel. Não que os candidatos não tenham fugido de muitas perguntas
feitas.
Mas, no geral, com regras mais rígidas, a emissora carioca conseguiu baixar a temperatura do embate e enquadrou os candidatos quase o tempo todo. Foi um evento intencionalmente frio, que ofereceu, nos primeiros três blocos, a sensação de alguma civilidade entre Lula e Flávio Bolsonaro.
César Tralli,
no comando do debate ao vivo, adotou um tom professoral. Na maior parte do
tempo, limitou-se a informar as regras e dar informações sobre os tempos que os
candidatos tinham para fazer perguntas, respostas e réplicas. Um robô poderia
ter feito esse trabalho.
Tralli também teve a função de informar aos
candidatos se eles teriam direito de resposta a supostas acusações ou mentiras
de que foram alvo, sem esclarecer as razões para as decisões que penalizaram
ambos.
A Globo ofereceu checagem de fatos em tempo
real nos seus canais na internet, mas não esclareceu o espectador que
acompanhava o debate pela televisão sobre as mentiras ditas ao vivo.
Os sites que fizeram esse trabalho de
checagem registraram uma enormidade de fake news ou afirmações imprecisas.
Flávio Bolsonaro, como já havia ocorrido no primeiro debate, liderou nesse
quesito.
Lula, especialmente no primeiro bloco, tentou
fazer graça, dirigindo-se aos espectadores: "Galera, dá um Google".
Também disse que o seu adversário tinha feito "decoreba". E insistiu:
"É só procurar o Google".
O debochado Flávio Bolsonaro do
debate na Band, que não respondeu a quase nenhuma pergunta de Lula, adotou
uma postura aparentemente mais séria na Globo. Fugiu menos das perguntas e foi
menos agressivo. Mas insistiu nas mentiras, como indicaram os sites de
checagem.
Mesmo recorrendo a um tom mais
"suave", Flávio Bolsonaro referiu-se aos "nove
dedos" do presidente. Cobrado por Lula, pediu desculpas pela
referência preconceituosa. Também ofendeu o presidente, dizendo que estava com
dificuldade de entender o que o presidente falava e que Lula ouvia mal.
As regras do debate na Globo também limitaram
a movimentação dos candidatos pelo palco. Na Band, Flávio Bolsonaro se
posicionou nas costas de Lula e fez gestos debochando do presidente.
Na Globo, os candidatos poderiam se
movimentar pelo palco somente no quarto e último bloco. Mas, calejado pela má
impressão que causou, Flávio Bolsonaro se conteve.
Este último bloco, no qual os candidatos
poderiam circular pelo estúdio e administrar um tempo de oito minutos cada um,
voltou a lembrar os piores momentos do debate na Band.
Lula insistiu em algumas poucas questões,
como a ilha que o jogador Richarlison
afirma ter sido tomada por Flávio Bolsonaro e um sócio. Flávio Bolsonaro reagiu
falando de um uísque que Lula teria ganhado do ex-banqueiro Daniel
Vorcaro.
Os oito minutos que cada candidato teve foram
muito mal usados por ambos. Como havia ocorrido no debate da Band, não há
conversa possível entre os dois. Flávio Bolsonaro abusou do cinismo, enquanto
Lula, aparentemente desconcertado, não conseguiu trazer a conversa para temas
da realidade.
Quebra do sigilo bancário, acusações sobre os
familiares, tergiversações... Tudo foi jogado no ar, sem chance nenhuma de
esclarecimento sobre nada. Para quem assistiu, especialmente a este último
bloco, foi uma decepção.

Um comentário:
Lula desmascarou o Pinóquio...
Postar um comentário