sábado, 7 de novembro de 2026

O identitarismo perdeu a eleição , por Thaís Oyama

O Globo

Eleitores escolheram quem acreditam poder atender seus interesses, não necessariamente quem se parece com eles

Direita e esquerda têm uma tendência irresistível a idealizar vitórias. Jair Bolsonaro, em 2018, e Donald Trump em 2024, falaram em “libertação da pátria” e “restauração moral” da sociedade. Na esquerda, o “triunfo da consciência democrática” foi o mote do discurso da vitória de Lula em 2022. Agora, a virada épica do petista sobre o rival, reza a narrativa vencedora, deveu-se à mobilização da juventude que saiu às ruas para lutar contra o fascismo. Quem ganha a eleição gosta de acreditar que o eleitor abraçou seus ideais mais elevados. A possibilidade de que ele tenha votado para gastar menos no supermercado, ganhar mais benefícios, melhorar de vida, ficar com o “menos pior” ou simplesmente se livrar de quem governa fica sempre em segundo plano.

Parte da esquerda brasileira entregou-se outra vez a esse devaneio nas eleições americanas de terça-feira. Reportagens e artigos descreveram a lavada dos democratas contra os republicanos como a “vitória da diversidade” — fruto da mobilização de comunidades negras, latinas e indígenas que, unidas por um mesmo ideal, promoveram um levante contra o ultraconservadorismo branco de Donald Trump. Muito bem.

Que a eleição trouxe avanços de representação, isso é fato e merece ser celebrado. Outra coisa, porém, é atribuir o resultado à força do discurso identitário. Não foi o que ocorreu, como sugeriram as campanhas dos festejados “pioneiros”. A de Gina Hinojosa, primeira latina eleita governadora do Texas, concentrou-se em promessas econômicas, algumas francamente populistas, como distribuir cheques de US$ 1.500 às famílias do estado. Abdul El-Sayed, o primeiro muçulmano eleito senador, resumiu assim sua plataforma:

— Tirar dinheiro da política, pôr dinheiro no bolso do cidadão e aprovar o Medicare for All.

Deb Haaland, primeira governadora indígena, eleita no Novo México, priorizou educação, custo de vida, segurança e saúde; Chris Pappas, primeiro homem abertamente gay eleito senador, foi mais explícito e disse que não concorria “para fazer História”. Sua plataforma concentrou-se na recuperação do poder de compra. Nenhum desses candidatos deixou de apresentar suas origens, sua fé ou sua orientação sexual — mas não fez delas o tema da campanha.

Os eleitores tampouco parecem ter tomado a representatividade como bússola. Parcelas das comunidades agora celebradas pelo levante contra o ultraconservadorismo branco ajudaram a levá-lo ao poder dois anos antes. Em 2024, Trump praticamente dobrou sua fatia no eleitorado negro (foi de 8% para 15%) e recebeu 48% dos votos hispânicos, quase a mesma percentagem que levou a democrata Kamala Harris, 51%. A mudança na preferência desse eleitorado agora, pede, portanto, outra explicação que não o voto identitário. Até o momento, essa explicação parece ser o custo de vida. A guerra contra o Irã encareceu os combustíveis e espalhou seus efeitos pela economia. A insatisfação com os preços — que ajudou a eleger Trump em 2024 — em 2026 foi crucial para derrotar seu partido.

Se o resultado das midterms não foi a vitória da política de identidades, isso deveria alegrar os progressistas. Candidatos de grupos minoritários conquistaram eleitores sem se limitar a falar pelos seus; eleitores escolheram quem acreditam poder atender seus interesses, não necessariamente quem se parece com eles. Os candidatos ampliaram suas pautas, e os votantes suas opções.

A perda de centralidade do discurso identitário na esquerda americana, evidentemente, não significa o fim do identitarismo. Mas permite esperar que comece a perder força — na política, na cultura, nas universidades e nas relações de trabalho — a ideia de reduzir as pessoas a seu gênero, raça, religião ou orientação sexual e fazer dessas características uma medida de valor moral.

 

4 comentários:

Mais um amador disse...

Ok

ADEMAR AMANCIO disse...

Thaís sendo Thaís,rs.

Anônimo disse...

O texto da colunista, correto e claro, é totalmente CONTRADITÓRIO com seu título! Lamentável, Thaís! Como ela, também acho o identitarismo problemático em muitos casos, mas não dá pra forçar que, com base nos exemplos e argumentos usados, ele tenha perdido as eleições nos EUA.

Pablo De Las Torres disse...

Basta ver as eleições no Congresso Brasileiro que evidenciam a apropriação das pautas das identidades pela direita. As mulheres mais vitoriosas foram da direita. A deputada campeã no RJ, uma indígena. Identitarismo em política dá em fascismo.