terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ex-ministro de Lula diz que impeachment está 'na boca do povo'

Isadora Peron - O Estado de S. Paulo

Cristovam Buarque saiu em defesa de líder do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima,que usou a tribuna para negar que a tentativa de destituir a presidente seja 'golpismo'; petista Lindbergh Faria rebateu acusações

Brasília - O ex-ministro da Educação no governo Lula, Cristovam Buarque (PDT), afirmou nesta segunda-feira, 9, que o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) está "na boca do povo". "Eu não acho que a palavra impeachment deva causar arrepios. O que causa arrepio é estar na boca do povo, e silenciá-lo é que seria golpismo", disse.

O senador cujo partido faz parte da base aliada do governo, fez a declaração para reforçar a fala do líder do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima (PB), que defendeu na tribuna da Casa que falar sobre o impeachment da presidente não pode ser considerado "golpismo" nem causar "arrepios" nos petistas. Segundo o senador, apesar de esse não ser esse o caminho que o PSDB quer trilhar, as pessoas têm falado cada vez mais no assunto.

"Não se pode falar em golpismo quando se fala em impeachment. A palavra impeachment está escrita Constituição. Portanto, ao pronunciar a palavra impeachment, não se pode produzir arrepios. Não é esse o caminho que queremos trilhar. Mas quem fala isso e fala cada vez mais alto é o povo brasileiro", afirmou.

Coube ao senador petista Lindbergh Farias (RJ) rebater as manifestações.Ele afirmou ser "precipitado" falar sobre o assunto e disse que o PSDB deveria aceitar a derrota sofrida nas urnas no ano passado. "Eu defendi o impeachment de (Fernando) Collor porque havia fatos concretos. Agora não há nada. Vocês é que são maus perdedores. Falar em impeachment depois de um processo eleitoral democrático é golpismo."

A fala do senador tucano, reforçada por Cristovam Buarque, ocorre dois dias após a divulgação da última pesquisa Datafolha que mostrou que a popularidade da presidente Dilma despencou, atingindo a pior marca de um presidente da República desde Fernando Henrique Cardoso, em 1999. A avaliação do Dilma caiu de 42% de ótimo/bom em dezembro para 23%, segundo o levantamento. Por outro lado, 44% dos entrevistados disseram que o governo dela é ruim ou péssimo - em dezembro, eram 23%.

Dilma avalia pronunciamento na TV para defender ajuste e medida anticorrupção

• ‘Batalha da comunicação’. Presidente estuda utilizar a rede nacional de rádio e televisão para explicar providências tomadas com objetivo a economia, além de divulgar versão de que o governo não está acuado e enfrenta as irregularidades ‘doa a quem doer’

• Presidente quer enviar projetos ao Congresso ao mesmo tempo em que Procuradoria denunciar políticos citados na Operação Lava Jato

Vera Rosa e Rafael Moraes Moura - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Na tentativa de amenizar o impacto da ação da Procuradoria Geral da República, que após o carnaval enviará ao Supremo Tribunal Federal os inquéritos contra pelo menos 28 políticos suspeitos de desviar dinheiro da Petrobrás, a presidente Dilma Rousseff mandou acelerar o pacote anticorrupção. Dos cinco projetos prometidos por Dilma na campanha eleitoral, dois serão encaminhados ao Congresso, ainda neste mês, com pedido de regime de urgência.

A estratégia do Palácio do Planalto consiste em enviar as medidas para o Legislativo quase ao mesmo tempo em que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, denunciar os políticos - muitos dos quais da base aliada - por corrupção na Petrobrás. Trata-se de uma operação casada para tentar se afastar do novo escândalo que se avizinha.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, reuniu auxiliares, na noite de ontem, para dar os últimos retoques nos projetos de lei. Uma das propostas endurece as penas de funcionários públicos que tiveram enriquecimento ilícito. Outro projeto, para o qual o governo também deve pedir urgência, prevê o confisco dos bens oriundos da corrupção.

No momento em que o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, é acusado de ser o operador de um esquema que desviou US$ 200 milhões da Petrobrás para o partido - fato que ele nega -, Dilma vai bater na tecla da reforma política. A ideia é propor que o caixa 2 seja considerado crime.

Duas medidas "vendidas" na campanha, porém, devem ficar para depois: a criação de juizados especiais para crimes de improbidade administrativa e a aceleração dos julgamentos de processos contra políticos no Supremo. Essas ações, que mexem com a estrutura da Justiça e envolvem a tramitação de processos, dependem de maior discussão com os próprios juízes.

Reação. Sob o impacto negativo da Operação Lava Jato, Dilma quer mostrar, com o pacote no Congresso, que o governo não está acuado e enfrenta a corrupção. Na "batalha da comunicação", a presidente decidiu dar mais entrevistas para divulgar as realizações da equipe e reagir à temporada de más notícias na política e na economia.

Dilma chegou a avaliar a possibilidade de fazer um pronunciamento em rede nacional de rádio e TV, após o carnaval, para anunciar o pacote anticorrupção, defender as medidas de ajuste na economia e divulgar uma agenda positiva, com agrados à classe média e aos empresários. Na noite de ontem, porém, a Secretaria de Comunicação da Presidência garantiu que Dilma não fará qualquer pronunciamento neste sentido.

A ideia do pronunciamento veio a público no fim da tarde. Um ministro do Planalto chegou a confirmar ao Estado a informação, sob a condição de anonimato. Se não mudar de ideia, porém, a presidente deve primeiro dar uma entrevista a um grande jornal, para só depois fazer um pronunciamento, que pode ser em 8 de Março, Dia Internacional da Mulher.

A estratégia para driblar a temporada de más notícias foi discutida ontem por Dilma com o núcleo duro do governo. Em almoço no Palácio da Alvorada com os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil), Pepe Vargas (Relações Institucionais), Miguel Rossetto (Secretaria-Geral), Jaques Wagner (Defesa), José Eduardo Cardozo (Justiça) e Ricardo Berzoini (Comunicações), ela disse que não ficará na defensiva.

O governo está preocupado com a queda expressiva de popularidade após o ajuste fiscal e o escândalo na Petrobrás. Após o desgaste sofrido ao vetar a correção de 6,5% na tabela do Imposto de Renda, com a base aliada dividida e pressionada por adversários, que querem abrir uma nova CPI da Petrobrás, Dilma decidiu partir para a ofensiva.

Contrariado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu a emissários que alertem Dilma sobre a necessidade de viajar mais pelo País e dar mais entrevistas, com o objetivo de defender sua gestão. Na festa de 35 anos do PT, em Belo Horizonte, na sexta-feira, os dois apareceram juntos diante das câmeras, mas não conversaram reservadamente.

Por imagem, Dilma busca ajuda de Lula e de marqueteiro

Para tentar reação, Dilma vai recorrer a Lula e a marqueteiro

• Após queda na popularidade apontada pelo Datafolha, petista encontrará antecessor, de quem anda afastada

• Governo deve enviar proposta anticorrupção ao Congresso em breve; auxiliares querem que presidente viaje mais

Natuza Nery, Mariana Haubert – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Mergulhada na pior crise de imagem desde que o PT chegou ao poder, a presidente Dilma Rousseff vai buscar a ajuda do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do marqueteiro João Santana para afinar uma estratégia de recuperação da popularidade.

Segundo a Folha apurou, Dilma e Lula ficaram de se encontrar nesta semana. A reunião, porém, depende de um espaço na agenda de ambos. No caso de João Santana, o encontro será na sexta (13).

Dilma e Lula estiveram juntos na sexta (6), na festa de 35 anos do PT, em Belo Horizonte. O encontro, o primeiro desde a posse da petista, ocorreu antes da divulgação da pesquisa do Datafolha.

A presidente não ouve os dois há muito tempo. No caso de Lula, apesar do encontro recente, os dois não tiveram tempo para falar sobre os problemas do governo.

Em relação a Santana, a única vez em que estiveram juntos foi no ano passado, quando ele a ajudou a produzir o discurso de posse.

O Datafolha mostrou forte deterioração da avaliação da presidente. Cerca de metade (47%) dos brasileiros a considera desonesta, falsa (54%) e indecisa (50%). Esses dados, somados à perda de apoio em estratos mais pobres, foram o que mais assustaram Dilma.

A pesquisa apontou que 44% classificam o governo como ruim ou péssimo. É a mais baixa avaliação desde Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

O encontro com Lula deve colocar em marcha um conjunto de ações para uma reação. A relação entre os dois sofreu um esfriamento desde a eleição. Acostumada a consultá-lo, Dilma tem tomado decisões mais solitárias, como a que levou Aldemir Bendine ao comando da Petrobras.

Nesta segunda (9), a presidente e seus principais ministros resolveram finalizar, o mais rápido possível, o pacote de medidas anticorrupção a ser enviado ao Congresso.

A ideia é tentar, com isso, reverter alguns pontos de desaprovação nas pesquisas. O pacote, porém, é promessa antiga, feita ainda na eleição.

O tema corrupção, impulsionado pelos desdobramentos das investigações sobre os desvios na Petrobras, rivaliza com a saúde pública como o principal problema do país, mostrou o Datafolha --21% e 26%, respectivamente.

Estratégia
A estratégia de reação será definida com Lula e Santana. Essa foi a principal decisão de Dilma após reunião com seus principais ministros.

O governo tem um cardápio de ações com recomendações elementares de comunicação: conceder mais entrevistas, promover mais solenidades no Planalto e viajar mais.

Assim como o pacote anticorrupção, o roteiro não é novo. Há anos o PT vem batendo na tecla de que Dilma precisa correr o país e divulgar sua gestão. Ela, porém, costuma vetar agendas fora e, desde novembro, não dá entrevistas. Seu programa de rádio, "Café com Presidenta", desativado na campanha, até agora não voltou ao ar.

Auxiliares defendem que ela use a rede nacional de rádio e TV para explicar o pacote de medidas para reequilibrar as contas públicas e ações no combate a desvios éticos. A chefe, por ora, resiste, com receio de que isso acentue a percepção de crise.

Autocrítica

- O Globo

A QUEDA vertiginosa da popularidade da presidente Dilma, e em tão pouco tempo , segundo pesquisa Datafolha, é o pagamento de uma fatura extensa e múltipla: há a rebordosa de uma campanha eleitoral conduzida por golpes baixos da marquetagem política e existem os efeitos corrosivos do petrolão .

A CAPACIDADE de a presidente reparar os danos sofridos vai depender do entendimento que tiver dos resultados da pesquisa. Se for guiada pelos velhos cacoetes lulopetistas de vitimizar-se e sempre buscar causas externas para os problemas, será um exercício inútil.

PMDB quer nova regra para eleger deputados

• Novo presidente da Câmara colocou a reforma política como prioridade e promete acelerar tramitação do texto

• Cúpula do partido é a favor de que as empresas continuem podendo fazer doações nas disputas eleitorais

Ranier Bragon, Márcio Falcão - Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O PMDB, partido do novo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ), vai apresentar uma proposta fechada de reforma política cujo carro-chefe é o chamado "distritão", modelo que altera a forma como são escolhidos os deputados federais.

Desde que derrotou o PT e o Palácio do Planalto na disputa pelo comando da Câmara, Cunha colocou a reforma política como sua prioridade inicial e, nesta terça (10), vai instalar a comissão especial para discutir o tema.

O "distritão" que será defendido pelo PMDB é uma bandeira antiga do vice-presidente da República, Michel Temer. Cunha também apoia a mudança.

Pelo modelo, serão eleitos os candidatos a deputado federal mais votados em cada Estado. São Paulo, por exemplo, tem direito a 70 cadeiras na Câmara --logo, seriam eleitos os 70 candidatos mais votados no Estado.

Pelo sistema atual, nem sempre o mais votado é o eleito. Isso porque os votos válidos (em candidatos ou na legenda) são divididos pelo número de vagas de cada Estado, chegando-se ao chamado quociente eleitoral.

Se esse quociente for de 100 mil votos, o partido ou a coligação de partidos elegerá deputados a cada 100 mil votos válidos que obtiver. Se atingiu cinco vezes o quociente eleitoral, elege os cinco deputados mais votados do partido ou da coligação.

Esse sistema é criticado por distorções como a ocorrida na eleição de Enéas Carneiro em 2002. Seu 1,5 milhão de votos levou o nanico Prona a atingir o quociente eleitoral seis vezes, o que levou para a Câmara outros cinco candidatos da legenda. Um deles havia recebido apenas 275 votos.

O PMDB ainda discute os outros pontos de sua proposta, que será subsidiada por um questionário já respondido por mais de 3.000 dirigentes regionais e filiados.

A principal polêmica é relacionada ao financiamento das eleições. A maior parte dos peemedebistas que respondeu às perguntas prefere que as doações a candidatos sejam restritas a pessoas físicas ou que seja exclusivamente público. Mas a cúpula do PMDB, Cunha incluído, é a favor de que as empresas, hoje as maiores financiadoras das disputas eleitorais, continuem podendo fazer doações.

O STF (Supremo Tribunal Federal) caminha para proibir essa possibilidade, mas a Câmara pretende aprovar mudança na Constituição para incluir a doação de empresas antes que o tribunal conclua o julgamento, o que ainda não tem data para acontecer.

"Do ponto de vista da realidade social e política do país, das ruas, há o entendimento de que esse sistema de financiamento é um estímulo à corrupção", diz o ex-ministro Moreira Franco, que defende mudança no atual modelo.

Segundo ele, outros pontos que têm amplo apoio entre os peemedebistas são o voto facultativo, o fim da reeleição, a unificação das eleições (de quatro em quatro anos), a restrição a partidos com baixíssimo desempenho nas urnas, fim dos suplentes de senador --na ausência do titular, assumiria o mais votado-- e realização de um referendo para ratificar ou não o que o Congresso aprovar sobre o tema.

Após reunião com Cunha nesta segunda-feira (9), o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), afirmou que a reforma política também é prioridade do Senado.

Reforma política opõe outra vez PMDB e PT na Câmara

• Tema que divide os dois partidos está relacionado ao financiamento das campanhas. Defendida por Eduardo Cunha, PEC permite dinheiro das empresas; PL, encampado pelos petistas e pelo Planalto, sugere o seu fim

Edla Lula – Brasil Econômico

Duas propostas antagônicas colocarão em lados opostos, novamente, o PT e o PMDB na Câmara a partir desta terça, quando será instalada a Comissão Especial da Reforma Política: uma é a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 352/2013, à qual o PMDB é favorável e tem no presidente da Casa, Eduardo Cunha (RJ), o seu maior defensor; a outra, o Projeto de Lei das Eleições Limpas (PL 6316/13), construído pela sociedade civil e que tem o apoio do PT e do Palácio do Planalto. O principal tema a dividir os dois partidos está relacionado ao financiamento das campanhas eleitorais. Enquanto a PEC permite o financiamento empresarial de campanha, o PL preconiza o seu fim, abrindo possibilidade para apenas pessoas físicas contribuírem, com limite de R$ 700. Embora a PEC seja resultado de um Grupo de Trabalho presidido pelo ex-deputado petista Cândido Vaccarezza (PT-SP), é frontalmente rechaçado pelo partido no Congresso. "Somos absolutamente contra a PEC que está sendo colocada por entendermos que o financiamento empresarial é inconstitucional.

É a fonte de onde se origina a corrupção no país", diz o deputado Alessandro Molon (PT-RJ), ao defender que a comissão aprecie também o Projeto de Lei de iniciativa popular, que chegou ao Congresso antes das assinaturas que estão sendo recolhidas por organizações da sociedade civil lideradas pela OAB e pela CNBB. O PL foi acolhido ainda em 2013 na Câmara, com autoria da deputada Luiza Erundina (PSBSP). As assinaturas, somando no mínimo 1,5 milhão de eleitores, devem chegar em março. "O mais importante em relação a essas assinaturas é o peso que elas darão ao projeto que já está sendo discutido na casa. O que não podemos é permitir que a PEC torne constitucional algo que vai contra a Constituição", argumenta Molon. Apesar de também ser defendido por outros partidos de oposição, como Psol e PV, a proposta de iniciativa popular já é vista como um projeto chapa branca.

Como neste início de ano os parlamentares se mostram reticentes em relação ao governo e ao PT, analistas observam que o apoio governamental mais prejudica do que ajuda. "Além do tema "reforma política" não encontrar a boa vontade dos parlamentares, há hoje uma animosidade crescente de todos os partidos dentro do Congresso contra o PT. Dificilmente a proposta de iniciativa popular sairá vitoriosa", observa o cientista político Paulo Kramer. O ministro chefe da Secretaria Geral da Presidência, Miguel Rossetto, tem dedicado parte de sua agenda a visitas de apoio às organizações que encabeçam as assinaturas. Na última sexta-feira foi ter com o presidente da CNBB, Dom Raymundo Damasceno, depois de já ter se encontrado com o presidente da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coêlho.

Mas as instituições procuram desvincular o Planalto do projeto das eleições limpas. Foi o que fez, na semana passada, Coêlho, na cerimônia da primeira sessão plenária da OAB neste ano. "A reforma política não é do governo nem da oposição: ela é da sociedade", disse o presidente da Ordem. Ao Brasil Econômico, o coordenador da campanha Eleições Limpas, Cezar Britto, reforçou o argumento. "Não há nenhuma intenção de que este seja um projeto governamental. Nossa intenção é que seja um projeto que venha da população. Contar com o governo é importante porque o presidente da república tem uma base de sustentação no parlamento que será importante para votar", explica. No entender do cientista político, no entanto, a proposta de reforma defendida pelos movimentos sociais favorece ainda mais a hegemonia do PT. Ele cita como exemplo o sistema eleitoral proporcional em dois turnos, em que o eleitor vota primeiro no partido político e, em um segundo momento, nos candidatos.

"Os demais partidos não aceitarão fácil este modelo porque dará ainda mais força para o PT, atualmente o único partido, junto com o PMDB, que tem a força da legenda", aponta Kramer, ao mencionar que, no Brasil, há a tradição do voto "na pessoa em primeiro lugar e depois no partido". Kramer lembra ainda que o financiamento público de campanhas eleitorais, outra bandeira tanto dos movimentos sociais quanto do governo, é outro item a fortalecer o petismo. "O PT possui a cultura do dízimo pago pelos filiados. O partido terá facilidade de se sustentar pela militância. Os demais partidos não têm esta cultura", reforça.

Merval Pereira - Lula, a missão

- O Globo

Em recente conversa, o ex-presidente Lula disse a um interlocutor o seguinte: "Vamos ter que passar dois anos comendo merda, para depois tentar sair da crise. Mas nesse período tem que fazer política, e a Dilma não faz".

Confirmado o diagnóstico com a recente pesquisa Datafolha mostrando a popularidade da presidente Dilma no chão, Lula resolveu trazer para si a tarefa de "fazer política" , e a primeira providência foi liberar a informação de que, sim, será candidato a presidente da República em 2018. Menos de dois meses do segundo mandato de Dilma, e a candidatura de Lula já está na rua para alimentar os militantes com uma expectativa de poder que a cada dia fica mais escassa diante das diversas crises que envolvem o governo , da economia à política. Lula em campanha, viajando pelo país revivendo a Caravana da Cidadania dos velhos tempos , é uma barre ir a política formidável a movimentos de descontentamento na sociedade e a manobras políticas que possam levar ao impeachment da presidente Dilma.

Com o decorrer do processo , veremos se a insatisfação popular crescerá a ponto de in viabilizar a campanha de rua de Lula ou se ele ter á força suficiente para neutralizar as previsíveis manifestações contrárias ao governo , nesses dois anos em que os governistas terão que "comer merda ". Assim como fez no mensalão, Lula começa sua campanha sobre o petrolão pregando "humildade e coragem " no discurso em Belo Horizonte no aniversário de 35 anos do PT . E, assim como em 2005, ele fala em re construir o partido , voltar às suas origens . Na célebre reunião na Granja do Torto em que ele se disse "traído", Lula lembrou a fundação do PT em 1980: "(...) no início da re democratização decidi criar um partido novo que viesse para mudar as práticas políticas , moralizá-las e tornar cada vez mais limpa a disputa eleitoral no nosso país. (...) Quero dizer a vocês , com toda a franqueza , eu me sinto traído.

Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento . Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia, e que chocam o país. (...) eu não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas ". Pois bem. Em 2015, Lula assume a mesma postura diante do petrolão: "Temos a oportunidade histórica de elaborar um novo Manifesto do PT , capaz de traduzir nossos compromissos para os dias de hoje e para os próximos 35 anos ".

Ele propôs "o desafio " de resgatar os ideais dos anos de fundação do partido , em 1980. "O Partido dos Trabalhadores surge da necessidade sentida por milhões de brasileiros de intervir na vida social e política do país para transformá-la . (...) O PT nasceu para mudar". Mais uma vez Lula falou em traição: "Se alguém tiver traído a nossa confiança, que seja julgado e punido , dentro da lei, porque o PT , ao contrário dos nossos adversários , não compactua com a impunidade ". Para Lula , o problema do PT é que ele "se tornou um partido igual aos outros. Deixou de ser um partido das bases para se tornar um partido de gabinetes . Há muito mais preocupação em vencer eleições , em manter e re produzir mandatos, do que em vitalizar o partido ". Lula citou a "militância paga" , sempre criticado pelo PT na "política tradicional". "(...) É nesse ambiente que alguns, individualmente , cometem desvios que nos envergonham diante da sociedade e perante a história do PT . (...) Penso que esse processo chegou ao limite no PT", decretou Lula .

Estaria tudo certo se, a partir do mensalão, Lula tivesse comandado uma refundação do PT, e o partido mudasse de atitudes. Como se vê agora no petrolão, enquanto Lula discursava quase chorando no mensalão, estava em curso um escândalo muito maior dentro da Petrobras, e sabe-se lá onde mais. No intervalo entre o julgamento do mensalão, com a condenação das principais lideranças petistas, e o surgimento do petrolão , Lula mudou o discurso e chegou a afirmar que o mensalão nunca existir a. Prometeu até mesmo se dedicar a demonstrar ao povo brasileiro que tudo não passou de uma farsa , coisa que nunca fez. Agora, ele encurtou o caminho: ao mesmo tempo em que fala em reencontrar as raízes fundador as do PT , Lula sugere que o caso do petrolão está sendo utilizado politicamente para criminalizar seu partido . Essa atitude dúbia faz parte do seu show, com o qual pretende neutralizar os efeitos das crises política e econômica que envolvem o segundo mandato de Dilma.

Dora Kramer - Com ferro foi ferida

- O Estado de S. Paulo

A notícia de que a perplexidade tomou conta do Palácio do Planalto com a derrocada dos índices de popularidade e confiabilidade da presidente da República é prima-irmã daquela irritabilidade que recai sobre a pessoa de Dilma Rousseff quando algum fato tem repercussão negativa na opinião pública.

Ambas são versões oficiais destinadas a criar um espaço de prudente (embora falsa) distância entre ela e a má nova. Ou velha, tanto faz. Algum ato de governo pegou mal? "Dilma ficou muito irritada", avisa a assessoria.

O brasileiro não gostou de constatar que Dilma mentiu na campanha eleitoral a respeito de rigorosamente todos os principais temas em debate com os oponentes? Mais que depressa o departamento de propaganda do governo informa que foi um choque para ela saber disso.

Ora por quem sois. A pesquisa do Instituto Datafolha explicitou em números uma realidade que os fatos estavam contando por si todos os dias. Ou alguém no Palácio do Planalto poderia esperar algo de diferente quando uma presidente da República recentemente reeleita simplesmente some de cena enquanto são anunciadas medidas que, segundo a candidata a conquistar votos, não seriam tomadas em hipótese alguma?

Ou, por outra, seriam impostas cruelmente ao País caso o eleitorado optasse por escolher um de seus adversários. Qualquer um dos dois, Marina Silva ou Aécio Neves, seriam os culpados por graves agruras. Ela, Dilma Rousseff, seria o caminho das soluções. Note-se o silêncio pós-posse que contrariou até o discurso da noite da vitória em que ela conclamava a Nação à união e ao "diálogo".

Daí em diante não explicou mais nada. Quando falou, limitou-se a monólogos fantasiosos seguindo a mesma toada da agenda ilusória montada para a campanha eleitoral. A roubalheira na Petrobrás era culpa de um ou outro funcionário; a crise econômica, decorrência da situação internacional;, a inflação, inexistente e o que mais não vá bem, produto de pessimismo.

Deixou o ponto crucial que era o ajuste na economia ao encargo do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, como quem tenta se preservar e - aqui de novo, se distanciar - da má notícia. Deu a seguinte impressão: se sair errado, a culpa é dele.

A se acreditar que a presidente da República e seu grupo fechado de conselheiros foram realmente pegos de surpresa com o efeito dessa conjunção de desastres - nem todos citados, pois de conhecimento geral -, é de se concluir pela gravidade da situação de isolamento total do núcleo governante.

Não há no tão competente departamento de comunicação governamental um acompanhamento permanente de pesquisas? E aquela consulta que o PT anunciou que contrataria para detectar as razões do claudicante desempenho eleitoral? Dela nunca mais se ouviu falar.

A julgar pela reação improvisada e repetitiva do anúncio da montagem de uma "agenda positiva" como se a agenda negativa não fosse fruto do choque de ações do governo com a agenda ilusória da campanha, há um apagão de sensatez no Palácio do Planalto. Ou um surto de ingênua credulidade no poder eterno do ilusionismo.

E ausência de noção de limite. João Santana, o marqueteiro, extrapolou, exagerou e ganhou a eleição. Entregou a mercadoria. O dia seguinte é serviço de quem ganhou. Há um dado terrível para a presidente na pesquisa do Datafolha: 47%, 54% e 50% dos consultados consideram que ela é desonesta, falsa ou indecisa.

Produto de quê? Da exacerbada contradição entre o discurso de campanha e as ações logo depois. Portanto, talvez não seja um exagero concluir que, se não tivessem sido tantas e tão flagrantes as mentiras, se a campanha de Dilma não tivesse procurado colocar na boca dos opositores palavras que nunca disseram, possivelmente a crise não atingiria tão gravemente a imagem da presidente.

Hélio Schwartsman - Bem feito!

- Folha de S. Paulo

Quase a metade dos brasileiros (47%) considera a presidente Dilma Rousseff desonesta. Para 54%, ela é só falsa. Esses dados, que saíram da pesquisa Datafolha publicada no fim de semana, devem estar doendo no fundo da alma da presidente. Exceto no caso de cleptocratas patológicos, o que move políticos é, em última instância, o desejo de ser amado por todos.

O baque, porém, é justo. A mandatária nem sequer fingiu guardar um luto decente antes de começar a adotar as medidas que não só prometera jamais aplicar como ainda acusara seus adversários de planejar. O problema, é claro, não está nas medidas, cujo sentido geral é correto, mas no fato de ter enganado o eleitor. Segundo o Datafolha, 60% consideram que ela mentiu na campanha.

Seria precipitado, porém, ver aí o colapso do governo Dilma. Para o bem e para o mal, a raiva é uma emoção quente, que não se sustenta por muito tempo. Logo denúncias envolvendo parlamentares se tornarão públicas e a carga de indignação deve, senão arrefecer, ao menos distribuir-se de modo mais equânime.

É preciso, ainda, reconhecer uma virtude em Dilma. Ela até caminha prazenteiramente para o abismo, mas, quando vê o precipício, refuga e não salta, ao contrário de uma Cristina Kirchner ou um Nicolás Maduro. Ainda que muito a contragosto e de forma claudicante, ela agora está fazendo o que é preciso para evitar que a economia se deteriore mais.

Crises trazem uma boa dose de sofrimento para a população, mas são também uma oportunidade para o país avançar institucionalmente. Seria importante aproveitar uma conjuntura de Executivo e Legislativo enfraquecidos para aprovar uma agenda de reforma do Estado que reduza o poder discricionário de autoridades (fonte de corrupção e ineficiência) e o substitua por rotinas e processos tão impessoais quanto possível. A Magna Carta, vale lembrar, surgiu de um rei fracassado.

José Roberto de Toledo - De fora a fora, FHC a Dilma

O Estado de S. Paulo (09 Fevereiro 2015)

Como previsto, Dilma Rousseff experimenta o "efeito FHC" no começo de seu segundo governo. A popularidade da petista descreve a mesma curva descendente e abrupta que o tucano traçou 16 anos atrás. Ambos trocaram o patamar de 40% de ótimo/bom no final do primeiro mandato por 44% de ruim/péssimo no começo do segundo governo, segundo o Datafolha. A diferença é que Dilma está caindo ainda mais rápido do que Fernando Henrique caiu.

FHC demorou de setembro de 1998 a junho de 1999 para inverter o sinal e sair de um saldo positivo de 26 pontos para um déficit de 28 pontos em sua popularidade. Dilma precisou de cinco meses a menos para converter 22 pontos de saldo em 21 pontos de déficit. Se a história se repetir, há dois fatos a lembrar: a impopularidade de FHC aumentou muito antes de começar a cair, e ele nunca mais recuperou o prestígio do primeiro mandato.

A popularidade da petista descreve a mesma curva descendente e abrupta que o tucano traçou 16 anos atrás.

Em setembro de 1999, 56% dos brasileiros diziam ao Datafolha que o governo Fernando Henrique era ruim ou péssimo, contra só 13% que o consideravam bom ou ótimo. Foi o pior momento do tucano. Dezenas de milhares faziam manifestações contra o presidente, os sindicatos e a oposição ameaçavam parar o País com uma greve geral, e deputados do PT diziam que o presidente deveria renunciar. Uma década e meia depois, inverteram-se os papéis.

Do "Fora FHC" ao "Fora Dilma", o que ambos os presidentes fizeram de parecido para dividir um histórico tão semelhante junto à opinião pública? Por que viram seu poder evaporar tão cedo? Os dois quebraram as expectativas econômicas da população.

Nos dois momentos, os brasileiros perderam poder de compra e ficaram mais pessimistas em relação à inflação e ao emprego - embora os dois presidentes-candidatos prometessem o contrário.

Durante ambas as campanhas pela reeleição, a petista e o tucano jogaram com a incerteza provocada pela mudança do poder. Exageraram o risco em caso de vitória do rival. Apelaram ao mais básico instinto do eleitor, o medo. A mensagem de fundo das duas campanhas era "o que está ruim pode ficar pior". Pois ficou. Na época de FHC, o PT popularizou a expressão "estelionato eleitoral". Agora, é a vez de os tucanos resgatarem o termo.

Se o miolo do enredo é parecido, o desfecho é ainda incerto. Aos trancos, FHC terminou seu segundo mandato - embora tão por baixo que foi esquecido por três campanhas presidenciais seguidas do PSDB: 2002, 2006 e 2010. Só foi ser resgatado por Aécio Neves em 2014. Ainda assim, com o mesmo sucesso. E Dilma?

É provável que, como FHC, ela experimente uma piora de sua avaliação antes de ter chance de melhorar. O tucano enfrentou o racionamento de energia quando se recuperava. Dilma terá pela frente o racionamento de água, ao menos. Embora as manchetes sejam todas para os escândalos de corrupção, será o volume da caixa d'água e, principalmente, do bolso do eleitor que determinará o futuro da presidente. Nem Marchiori, nem Youssef, nem Cunha. Dilma depende é de Levy - e de São Pedro.

Censura, de novo. Como não há nada mais importante acontecendo no Brasil, o primeiro pedido de CPI a conseguir assinaturas suficientes para ser apresentado ao novo presidente da Câmara dos Deputados foi contra as pesquisas eleitorais. Seu autor quer "apuração matemático-estatística" - seja lá o que signifique - sobre suposta manipulação de resultados. Ao mesmo tempo, o deputado apresentou projeto de lei para proibir a divulgação de pesquisas até 15 dias antes das eleições.

O argumento para justificar o obscurantismo é o mesmo de sempre: você, eleitor, é, no fundo, um idiota. Incapaz de pensar por si próprio, deixa-se levar por qualquer porcentagem. Logo, é preciso vedar os olhos e tapar os ouvidos do eleitor para que ele não seja influenciado. Seguindo nesse raciocínio, que tal proibir a propaganda dos candidatos e acabar com o horário eleitoral na TV?

José Casado - Na poeira da ruína

• Corrupção e má gerência deixaram em agonia o projeto mais ambicioso dos governos Lula e Dilma. Na Sete Brasil há algo insólito: conseguiram desmoralizar o ‘conteúdo nacional’

- O Globo

Um legado de corrupção e má gerência deixou em agonia o projeto industrial mais ambicioso dos governos Lula e Dilma Rousseff: um empreendimento de US$ 89 bilhões (R$ 240,3 bilhões) para construção e operação de 23 navios-sonda e seis plataformas vitais à Petrobras na exploração da camada pré-sal.

Lula mobilizou empresários com o privilégio da reserva de mercado. Uniu a mão invisível do Estado à calculadora do banqueiro André Esteves, do BTG Pactual.

O presidente recebeu a confirmação do nascimento da Sete Brasil na quarta-feira 22 de dezembro de 2010, uma semana antes de passar a faixa presidencial a Dilma Rousseff.

A reunião inaugural aconteceu no número 228 da Praia de Botafogo, no Rio, sob o comando de João Carlos de Medeiros Ferraz e Pedro José Barusco Filho, saídos da estatal de petróleo. Era um conglomerado com mais de três dezenas de subsidiárias e um só ativo (29 contratos) — tudo com um único cliente, a Petrobras.

Oficialmente, o grupo é privado, controlado pelo fundo FIP-Sondas (95%) e Petrobras (5%).

Na vida real não é bem assim. O governo determinou a fundos de pensão (Previ, Petros, Funcef e Valia) que comprassem metade do FIP-Sondas. Junto com a Petrobras têm 59% das cotas.

O BTG de Esteves lidera o bloco privado (com 20%), seguido pelo Bradesco e Santander (12%, somados). O restante (9%) está fracionado entre EIG Global , Lakeshore e Luce Venture Capital.

Antes de fechar seu primeiro balanço, em 2011, a Sete Brasil já acumulava US$ 75 bilhões (R$ 202,5 bilhões) em contratos com a Petrobras. Para cada um criou uma sociedade com grupos nacionais (Camargo Correa, Engevix, Queiroz Galvão, Odebrecht, UTC e OAS) e asiáticos (Keppel Fels, Jurong, Kawasaki e Cosco).

A Petrobras topou pagar US$ 720 milhões (R$ 1,4 bilhão) por cada sonda. E mais US$ 500 mil (R$ 1,3 milhão) por diária de operação.

Tudo acertado, no final de 2011 os principais executivos, João Carlos Ferraz (presidente) e Barusco Filho (diretor financeiro), desembarcaram em Milão para jantar com gerentes do Banco Cramer, de Lugano (Suíça). Com eles estava Renato Duque, diretor de Serviços da Petrobras.

Quem os ajudou foi Julio Camargo, que já intermediava-lhes propinas da OAS, Setal e Toyo Engeneering (Japão). Depois, uniu-se ao grupo Eduardo Musa, também diretor da Sete Brasil.

No seu último balanço, de 2013, a Sete Brasil revelou dívidas não pagas de US$ 3,1 bilhões (R$ 8,5 bilhões). Indicou promessas de US$ 4,1 bilhões (R$ 11,2 bilhões) do BNDES, que exigia vários documentos. Auditores anotaram: “A situação indica uma incerteza material que pode suscitar dúvidas significativas sobre a continuidade operacional da companhia.”

Na semana passada, 19 meses depois, a empresa ainda negociava a documentação com o banco estatal, quando se tornou pública parte da confissão de Barusco sobre US$ 97 milhões (R$ 261,9 milhões) em subornos que ele e outros receberam.

A lenta agonia da Sete Brasil deixa transparecer algo insólito: conseguiram desmoralizar até o “conteúdo nacional".

O que era construção dissipa-se na poeira da ruína. E uma nova conta vai sobrar para os cofres públicos, via Petrobras e fundos de pensão estatais.
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José Casado é jornalista

Celso Ming - Paralisia

• A percepção geral é a de que a presidente Dilma está atordoada com a perda de força da economia. E, sem rumo claro, o investimento não deslancha

- O Estado de S. Paulo

Em reunião realizada nesta segunda-feira em Istambul, perante autoridades do Grupo dos 20, o Banco Central anunciou um programa destinado a recuperar o investimento no Brasil, que vem caindo assustadoramente (veja o gráfico) e deve cair ainda mais este ano.

A percepção geral é a de que a presidente Dilma está atordoada com a perda de força da economia. E, sem rumo claro, o investimento não deslancha.

Está pintando evolução negativa do PIB em 2015. A inflação vai disparando para acima do teto da meta. O rombo fiscal é muito maior do que o esperado e crescem dúvidas sobre se o ministro Joaquim Levy conseguirá entregar o superávit primário de 1,2% do PIB (R$ 66,3 bilhões) prometido para 2015. As contas externas podem melhorar, mas ninguém garante isso.

A presidente Dilma esperava assumir seu segundo mandato com forte exibição de capital político, mas também aí está dando o contrário. Na área econômica, uma das principais vítimas tende a ser o investimento. E é sobre isso que convém fazer uma avaliação.

O governo aponta para as estatísticas sobre o afluxo de capitais de longo prazo (Investimento Estrangeiro Direto – IED), que chegou a US$ 62,5 bilhões no ano passado, e quer convencer a todos de que está sobrando confiança. Nota-se, também, certa movimentação de investidores chineses, de olho nas matérias-primas e no mercado interno. Mas isso é pouco.

O momento é declaradamente de ajuste da economia. Maiores restrições fiscais e monetárias (alta dos juros) devem provocar ou forte contração do setor produtivo ou alguma recessão, o que desestimula a ampliação dos negócios. O mercado financeiro vem avisando que as operações de crédito serão contidas porque as famílias e as empresas já estão endividadas demais. É fator que freia os negócios. 

O fim das desonerações e dos incentivos fiscais, o aumento da carga tributária e a inflação elevada devem moer o poder aquisitivo. A perspectiva de desaceleração do consumo, por sua vez, deve levar as empresas a atitudes mais conservadoras, à espera da virada.

Paralisadas pela Operação Lava Jato, as empreiteiras vêm reduzindo seu ritmo. As restrições de caixa obrigaram a Petrobrás a parar as obras de três refinarias (Premium 1, Premium 2 e segundo trem da Abreu e Lima) e a rever para baixo seu Plano de Negócios. É movimento que deverá levar milhares de fornecedores a puxar os freios.

Além do déficit geral de confiança, a indústria de transformação enfrenta mais duas sérias incertezas: sobre os suprimentos de energia elétrica e de água tratada. São fatores que tendem a adiar projetos de expansão. A baixa oferta de mão de obra, especialmente da qualificada, é outro dado da equação que estimula mais a espera do que a iniciativa. Talvez ajude a destravar projetos na área de Tecnologia da Informação, que aumenta a produtividade e também poupa mão de obra. Mas isso há de se ver.

Está mais do que na hora de lançar um programa de investimentos. Mas, como outros antes dele, só terá sucesso depois que os fundamentos da economia forem reforçados e a confiança tiver sido resgatada.

Vinicius Torres Freire - Maus humores e efeito pobreza

• Além de a renda crescer mais devagar, patrimônios do "andar de cima" padecem com efeitos da crise

- Folha de S. Paulo

O efeito social e político da lerdeza econômica começa a aparecer nas pesquisas de humor dos brasileiros. "Começa". Apesar da degradação desastrosa do prestígio dos governantes e do aumento brutal da ansiedade econômica, como demonstrado pelo Datafolha, o pleno impacto dos efeitos colaterais de Dilma 1 sobre o dia a dia do cidadão ainda está por aparecer, em especial no emprego, no salário e no consumo, que são os termômetros das ruas.

Mas há outros indícios menos visíveis de empobrecimento que já devem estar causando estragos: o patrimônio, os estoques de riqueza, param de crescer ou já começam a perder valor real. É o efeito pobreza.

No ano passado, ficamos "mais pobres" em um sentido mais "pop". Para ser mais preciso, a renda ou a produção média por cabeça diminuiu. Isto é, o PIB deve ter crescido quase nada, menos que a população. No entanto, a renda do trabalho ainda cresceu, embora o ritmo do avanço venha sendo cada vez menor. O desemprego diminuiu, embora a quantidade de gente ocupada nas metrópoles tenha ficado estagnada. As rendas "sociais" (transferências do governo) também.

Como tanto repetiram os economistas da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo e esquerdistas governistas, "o país ia mal, mas o povo ia bem", embora não lidassem com o assunto nesses termos.

Neste 2015, o efeito de uma inflação mais acelerada com reajustes menores de salário, devidos ao aumento do desemprego, tende a comer os aumentos de renda. Além do mais, a inflação mais visível, aquela que afeta o consumo de bens e serviços mais cotidianos, anda ruim. A inflação de alimentos e bebidas anda a quase 9%. A de habitação, quase 11%.

Do lado de cima da pirâmide social, deve haver uma percepção de empobrecimento na acepção mais estrita da palavra. Todo o mundo soube da enorme inflação do preço dos imóveis, que levou os preços de casas e apartamentos em bairros de rico de Rio e São Paulo para níveis londrinos. Pois bem, essa inflação acabou. Nos últimos 12 meses, na média o preço dos imóveis subiu menos que o IPCA, por exemplo. Mas, nos últimos 36 meses, vinham subindo ao ritmo de 36% em grandes cidades e a 40% em São Paulo, ante um IPCA de pouco menos de 20%.

O patrimônio líquido dos fundos de investimento aumentou ainda 4,6% no ano passado, em termos reais, mas nos menores ritmos da década, afora 2013 e os anos horríveis de 2008 (colapso mundial) e 2002, resultado de perdas de capital, rentabilidade baixa e captação (aplicações) minguantes.

Nesses fundos estão R$ 2,6 trilhões da riqueza dos brasileiros. O Ibovespa estava em cerca de 70 mil pontos no primeiro mês de Dilma 1, janeiro de 2011; anda pela casa de 49 mil pontos agora. Além de perda de patrimônio, do ponto de vista do indivíduo, trata-se ainda de um indicador de baixo interesse pelas empresas e pela expansão dos negócios.

Para lembrar num "indicador" meio precário, mas visível de poder de compra, o valor do "dólar" anda pelos níveis mais altos em meia dúzia de anos (trata-se aqui da taxa real efetiva de câmbio). Para o conjunto da economia, a médio prazo, tende a ser uma boa notícia. Para quem mede conforto em importados e viagens, é um indício de possibilidades diminuídas.

Míriam Leitão - Recessão encomendada

- O Globo

O Brasil caminha para a recessão porque o governo cometeu sucessivos erros. Aumentou os gastos e produziu um enorme déficit ; reprimiu tarifas ; ignorou os alertas sobre a crise elétrica, permitindo que as empresas pegassem empréstimos para repassar aos preços. Agora é a hora do ajuste: a inflação subiu, a crise elétrica se agravou e os gastos têm que ser cortados.

Os problemas que o país enfrentará este ano não foram culpa do mundo. São crises feitas aqui mesmo. Para piorar, os governos estaduais, principalmente o de São Paulo, cometeram o mesmo erro de adiar as medidas que tinham que ter tomadas para mitigar os efeitos da seca. Agora, a economia já enfraquecida terá que enfrentar dois racionamentos: de água e energia. Apolítica industrial falhou completamente no primeiro mandato da presidente Dilma. E falhou porque estava errada e desatualizada. No ano em que o governo gastou R$ 104 bilhões em desoneração, a indústria teve um tombo de 3,2%. Só é comparável com o ano da crise de 2009. A queda é tal que contamina o ano de 2015, em que a indústria já começa lá em baixo, tendo que refazer o caminho da volta. A queda não foi um fato isolado . A situação da indústria é dramática há bastante tempo . Nos últimos seis anos , foram três períodos de queda e três de alta.

Em 2011, houve um raquítico crescimento de 0,4%, seguido de um tombo de 2,3%, em 2012. Em 2013, alta de 2,1%, e agora a retração de 3,2%. A produção está num nível 8% menor do que em setembro de 2008 quando começou a crise financeira internacional. O governo apostou nos subsídios e redução de impostos. As medidas não funcionaram e causaram distorções como os rombos nas contas públicas. O setor de veículos automotor es, reboques e carrocerias — tão beneficiado pelo governo, com redução de impostos , restrição a importados e estímulo ao crédito — ter minou o ano com uma retração de 16,8% no ano passado, pelos números do IBGE. Foi o que mais caiu. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) acha que há "risco de colapso nos investimentos ". A re tração nos investimentos ocorre há três trimestres seguidos na indústria, como mostram os números da produção de bens de capital.

Os dados da Abimaq, entidade que representa a indústria que produz máquinas e equipamentos, já mostravam que o ano havia sido ruim para o investimento. Houve queda de 15% no consumo aparente de máquinas (consumo da produção interna mais as importações) e fechamento de 12 mil postos de trabalho de janeiro da dezembro. Pelas contas da consultoria Rosenberg Associados, caso a indústria não encolha mais e mantenha o mesmo nível de produção de dezembro ao longo de todos os meses deste ano, ela fecharia 2015 com retração de 4,1%. É o chamado carregamento estatístico, que este ano será negativo. Os bancos e consultorias ouvidos pelo Banco Central projetaram ontem crescimento zero para o PIB este ano. E várias instituições estão prevendo queda de 0,5%. A MB Associados está com a previsão de um PIB negativo de 1%, a mesma calculada por Alexandre de Ázara, sócio e economista-chefe do Banco Modal, que ainda estima inflação de 7,9%.

Na produção industrial, os números estão sendo revistos para baixo há cinco semanas seguidas pelo mercado financeiro, com a ameaça cada vez maior do tarifaço e do racionamento de energia. Há um mês, a projeção era de alta de 1%. Ao mesmo tempo em que o consumo interno perde força, o crescimento industrial pela exportação é pouco provável, mesmo com a desvalorização do real. O país não fez acordos comerciais nos últimos anos e ficou dependente da venda de produtos manufaturados para o Mercosul. Os argentinos são os principais compradores e estão em crise cambial, subindo barreiras comerciais e atrasando pagamentos a seus fornecedores. O governo colhe agora o que plantou. O problema é que quem paga pela má colheita somos nós. A alta da inflação , o tarifaço de energia, a alta dos juro s vão re tira r renda das famílias . A administração errática da presidente Dilma produziu queda de confiança em todos os segmentos empresariais . E agora pesa sobre as famílias e as firmas o risco do racionamento de energia.

A impopularidade que Dilma construiu – Editorial / O Estado de S. Paulo

Surpresos e alarmados com a forte queda nos índices de avaliação da presidente Dilma Rousseff, o governo e o PT se articulam, não necessariamente entre si, para recolher os cacos da desastrada atuação da criatura de Lula em todas as frentes, da política à econômica, obra que em seu conjunto é tida como a mais grave ameaça concreta, em 12 anos, ao projeto de poder do lulopetismo.

Em apenas dois meses, como revelou pesquisa Datafolha, despencou quase à metade, de 42% para 23%, o número de brasileiros que consideram ótimo/bom o governo de Dilma, enquanto aumentou de 24% para 44% o daqueles que o julgam ruim/péssimo. É o reflexo do choque de realidade pós-eleitoral para o qual a chefe do governo contribui decisivamente com a soberba e a teimosia que inspiram suas decisões quase sempre balizadas por uma bitola ideológica estreita e arcaica. A escalação da equipe econômica foi, pelo menos até aqui, uma surpreendente exceção a essa regra.

Ganhar a Presidência por estreita margem de votos nas urnas em outubro havia sido uma dificuldade desconhecida pelo PT nos três pleitos anteriores. Pesaram decisivamente no resultado eleitoral a raspa do tacho da credibilidade do lulopetismo nas camadas mais populares do eleitorado e também, talvez decisivamente, o despudor com que o marketing da campanha submeteu os brasileiros ao terrorismo eleitoral, lançando na conta dos adversários o espectro da fome e do desemprego.

O pior, contudo, vê-se agora, foi a falta de escrúpulos com a qual a campanha petista mentiu sobre a intocabilidade dos benefícios trabalhistas, acusando os adversários de planejar o retorno à estabilidade econômica à custa de conquistas sociais, para no dia seguinte à posse o governo anunciar "correções" de algumas "distorções" daqueles benefícios. Hoje, ministros e dirigentes petistas enfatizam a necessidade de "explicar as medidas do governo". Mas o que compromete a credibilidade de Dilma é, menos do que o efeito dessas medidas, o fato de a então candidata ter mentido sobre elas. 
Uma grande mentira que se explicitou no momento em que Dilma cedeu à imposição dos fatos e contrariou suas próprias convicções ao nomear uma equipe "neoliberal", sob o comando de Joaquim Levy, para enfrentar o desafio de, desde logo, botar as contas do governo em ordem. Acresce a isso, decisivamente, o escândalo da Petrobrás, que macula indelevelmente personagens favorecidos por frequentadores e aliados do Planalto e respinga na chapa vencedora do pleito de 2014, beneficiados por dinheiro de procedência mais do que duvidosa. Compromete Dilma sua incapacidade de dialogar e de se articular com os demais protagonistas da cena política - consequência do voluntarismo de quem se julga onisciente. É conhecida a falta de disposição de Dilma para o chamado jogo político.

Isso até poderia ser visto como mérito, quando se leva em conta o nível de fisiologismo a que o jogo político foi rebaixado durante os oito anos de Lula, a pretexto de garantir a "governabilidade". Mas Dilma nada fez para sanear o pântano moral criado por seu mentor. Ao contrário, serviu-se dele quando conveniente e não será torcendo o nariz, fingindo que resolve tudo sozinha e deixando o jogo correr que a presidente conseguirá governar.

A aversão da presidente ao diálogo é tão profunda que nem mesmo com seu partido ela conversa. Reduziu o núcleo duro do poder a um punhado de políticos com os quais tem afinidades ideológicas - ou que trocam a fidelidade à chefe pela possibilidade de desenvolver projetos políticos ou pessoais próprios. Assim, alijou do seu círculo próximo a corrente majoritária do PT e aquele que é ainda seu maior símbolo e liderança.

Nesse cenário ameaçador para seu projeto de poder, o PT, Lula à frente, vai ter de encontrar seu caminho apesar do governo. O escândalo da Petrobrás, que entra agora na fase mais polêmica, a do indiciamento dos políticos; a vigorosa reação do maior aliado, o PMDB, à frustrada tentativa de Dilma de minar seu poder no Congresso; as previsões pessimistas sobre a recuperação da economia no curto prazo; a corrosão do apoio popular à presidente e a possível volta das manifestações de rua - tudo isso anuncia dias difíceis para o País. Piores ainda para o PT, e que se tornarão intoleráveis se, finalmente, a oposição decidir desempenhar o papel para o qual foi eleita.

Ocupação do Estado foi a base do petrolão – Editorial / O Globo

• A explosão do número de contratos fechados sem licitação confirma a intenção criminosa do esquema, e, mesmo assim, órgãos de fiscalização nada fizeram

Entre os aspectos que se pode considerar irrefutáveis no petrolão está o da relação incestuosa entre diretores da estatal apadrinhados por políticos e partidos — PT, PP, PMDB — e um grupo de grandes empreiteiras.

Foi dessa grande conspiração contra o Erário — deve-se sempre lembrar que a Petrobras é controlada pela União — que se montou a eficiente máquina de arrecadação de propinas, financiada pelo superfaturamento de contratos assinados pelas empresas com a estatal.

O esquema se aproveitou de uma correta mudança feita durante a gestão de FH, após a quebra do monopólio da companhia, para torná-la mais ágil a fim de competir em igualdade de condições com os concorrentes privados. O governo isentou a estatal de seguir a lei de licitações aplicada ao setor público, e disso se valeu o esquema para destinar bilhões a um fechado grupo de empreiteiras, preferência retribuída na forma de propinas, em percentuais diversos — a alguns diretores, partidos e políticos, cujos nomes ainda serão revelados.

Reportagem publicada no GLOBO de domingo comprova a manobra: se em 2004, segundo ano do primeiro governo Lula, apenas 8% dos R$ 15,3 bilhões empenhados pela estatal foram provenientes de cartas-convite a empreiteiras, para fechar contratos sem licitação, este índice no ano seguinte chegou a 60%. Em 2009, atingiu o auge: 76,24%. Quando os diretores de Serviços e Abastecimento, Renato Duque, apadrinhado pelo PT/José Dirceu, e Paulo Roberto Costa, indicado pelo PP, foram demitidos por Graça Foster, em 2012, o peso dos contratos originados de cartas-convite no total foi de 47,51%, tendo subido para 59,56% em 2014.

Não é simples coincidência a chegada do grupo lulopetista à estatal e o grande aumento das contratações de empreiteiras sem licitações. A liberdade de contratar fornecedores sem a burocracia da lei de licitações, como qualquer empresa privada, foi usada para “malfeitos”.

A extensão do assalto à Petrobras é grande. Já foi identificada rapina na Transpetro, e há pouco entrou na lista do petrolão a BR, subsidiária de distribuição da estatal, para onde havia sido transferido Nestor Cerveró, implicado pela própria presidente Dilma na esquisita compra bilionária de uma refinaria velha em Pasadena, Texas.

Está claro que a solução não é voltar a incluir a Petrobras na lei de licitação, a de nº 8.666. Isso significará punir a instituição, quando o certo é zelar para que a empresa seja bem administrada.

Os organismos do governo que deveriam assumir esta tarefa nada fizeram. A começar pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), paralisada pelo aparelhamento de que foi vítima. Também não agiu a Controladoria Geral da União (CGU).

O petrolão só aconteceu também porque o aparelhamento de segmentos vitais da máquina pública preparou o terreno para ele. O contexto do escândalo, portanto, é bem mais amplo.

Todos iguais – Editorial / Folha de S. Paulo

• Pesquisa Datafolha mostra que 71% dos brasileiros não têm partido de preferência, um recorde; número de simpatizantes do PT desaba

Na sexta-feira (6), num evento organizado em Belo Horizonte para comemorar os 35 anos do PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou que a legenda venha se tornando "um partido igual aos outros", deixando de ser uma agremiação de base "para se transformar num partido de gabinete".

Na mesma ocasião, a presidente Dilma Rousseff afirmou, sem citar nomes, que as pessoas devem pagar por seus erros, mas ressalvou a legenda: "Devemos preservar a história deste partido".

Falava sobre o escândalo na Petrobras, assunto que também preocupa José Dirceu. Condenado no julgamento do mensalão e cumprindo prisão domiciliar, o ex-ministro tem dito a amigos que, sem uma reação, a Operação Lava Jato pode vir a representar a "pá de cal" na imagem da agremiação.

Pesquisa Datafolha publicada nesta segunda-feira (9) mostrou o quanto os três estão certos. A fatia dos entrevistados que declara preferência pelo PT encolheu de 22%, em dezembro, para 12% agora.

Ainda se trata da legenda com mais simpatizantes, mas já não se distancia tanto de PSDB (5%) e PMDB (4%). Em seu melhor momento, registrado em abril de 2012, o PT tinha o apoio de 31% dos brasileiros, no mínimo 27 pontos a mais do que qualquer outro partido.

Desde que o Datafolha faz esse levantamento, jamais houve queda tão acentuada na predileção por uma legenda. Quanto ao PT, seu novo patamar o deixa em posição mais desconfortável do que a vista na esteira do mensalão, quando caiu a 15% das preferências.

Talvez mais simbólico, o percentual atual devolve a agremiação de Lula e Dilma ao nível de dezembro de 1998. Na pesquisa seguinte, de fevereiro de 1999, pela primeira vez o PT conquistaria mais adeptos do que o PMDB (15% a 12%).

Beneficiando-se da perda de popularidade do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) no segundo mandato, o PT consolidou-se como oposição e logo seria o único a sempre ostentar dois dígitos nos levantamentos sobre opção partidária.

Esse patrimônio, que parecia bastante sólido após ter resistido ao mensalão, dá sinais de que vai ruir. O fracasso na economia e a percepção do estelionato eleitoral, aliados aos bilionários desvios na Petrobras, levam cada vez menos gente a se identificar com o Partido dos Trabalhadores.

Após 12 anos no poder, a agremiação caminha para se igualar às demais também na baixíssima capacidade de representar o eleitor --hoje, 71% dos brasileiros não têm legenda de preferência, um recorde nas medições do Datafolha.

Na nossa democracia, a classe política mostra-se cada vez mais disposta a agir em nome dos próprios interesses, e não surpreende que a maior apreensão dos líderes petistas neste momento seja com a imagem e a história; simplesmente não lhes ocorre que deveriam se preocupar antes com as atitudes de seus correligionários.

Luiz Carlos Azedo- À flor da terra

• Ao acusar a oposição de golpista e transformar o assunto num escudo contra as denúncias da Operação Lava-Jato, o PT levou para as redes sociais a palavra maldita

Correio Braziliense

Será que já caiu a ficha no Palácio do Planalto? A presidente Dilma Rousseff está diante de uma nova correlação de forças na sociedade, na qual a oposição passou a ter sintonia com a maioria da população, e o governo perdeu a iniciativa política. Recém-reeleita, ela caminha para a desagregação de suas bases de sustentação e o isolamento político. Aparentemente, Dilma não se deu conta de que deveria estar na defensiva; parece aquele lutador que beijou a lona e volta disposto continuar uma luta franca no centro do ringue, em vez de procurar as cordas para ganhar tempo e esperar bater o gongo.

Foi mais ou menos essa a reação do Palácio do Planalto ao resultado da pesquisa Datafolha divulgada no sábado, que mostra o derretimento da imagem do governo e do prestígio popular de Dilma Rousseff. A primeira reação do governo foi reorientar a agenda externa da presidente da República e decidir relançar programas anunciados na campanha eleitoral, como o Minha Casa, Minha Vida 3 e o Mais Especialidades, na área da Saúde. Parece autismo.

Os sinais de desapego à realidade surgiram na reunião ministerial em que a presidente da República negou a mudança que houve na política econômica do governo a partir da posse de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda. Resultado: em dezembro passado, Dilma tinha 42% de ótimo e bom e 24% de ruim e péssimo; na pesquisa divulgada no sábado, o ótimo e bom desabou para 27% (ou seja, 23 pontos de queda), e o ruim e péssimo explodiu: foi a 44%, ou seja, 20 pontos a mais.

Uma espécie de tempestade perfeita formou-se no país: a inflação disparou, o nível de emprego caiu, as tarifas de transportes e energia elétrica subiram, a gasolina ficou mais cara, a água sumiu das torneiras de São Paulo, Minas, Rio e Espírito Santo e agravou-se a seca no Nordeste. O prestígio de Dilma desabou em todo o país.

Em vez de cortar na própria carne, reduzir o ministério (são 39 ministros) e enxugar os cargos comissionados de direção e assessoramento (22,7 mil) para dar o exemplo, o governo resolveu fazer o ajuste fiscal somente à custa da sociedade, com elevação de impostos, corte de benefícios sociais e de um confisco salarial da classe média via Imposto de Renda, cujo reajuste de 6,5% Dilma vetou.

A imagem dela foi diretamente atingida pela corrupção na Petrobras, que a presidente tentou varrer para debaixo do tapete: 80% dos entrevistados acham que a presidente da República sabia das irregularidades e 52% acreditam que deixou que os desvios continuarem. Para 50%, ela perdeu seu maior ativo de imagem: a honestidade. É muita gente invocada: 54% consideram Dilma falsa, e outros 50% a chamam de indecisa. É aí que mora o perigo.

Impeachment
O Brasil pós-eleições ficou mais parecido com a Argentina e a Venezuela, com maquiagem de estatísticas, irresponsabilidade fiscal, manipulação de preços e tarifas, decisões voluntaristas e discurso populista. Dilma venceu as eleições, mas não parece capaz de fazer um bom governo. Acreditava que a saída da crise mundial seria lideradas pelos países emergentes, entre os quais o Brasil, mas a recuperação da economia está sendo liderada pelas velhas potências do Ocidente das quais se distanciou: Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra, principalmente.

A nova política econômica busca recuperar a credibilidade do Brasil no mercado financeiro mundial, mas Dilma quer manter a estratégia desenvolvimentista que entrou em colapso devido aos escândalos envolvendo a Petrobras e as principais empreiteiras do país. A contaminação pode chegar à Eletrobras e aos fundos de pensão, por causa das obras superfaturadas, dos contratos e dos aditivos irregulares. Os financiamentos privilegiados, no apagar das luzes de 2014, custaram R$ 30 bilhões aos cofres do Tesouro para tapar o rombo do BNDES.

O novo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que impôs uma derrota humilhante ao governo na sua eleição, tomou as rédeas da iniciativa política das mãos da presidente da República. A toque de caixa, pretende votar uma reforma eleitoral e partidária a tempo de implementá-la nas próximas eleições municipais. E o impeachment? Não, não está na pauta dos políticos, mas, ao acusar a oposição de golpista e transformar o assunto num escudo contra as denúncias da Operação Lava-Jato, o PT levou para as redes sociais a palavra maldita.

Arnaldo Jabor - Cabeças cortadas

• Como disse Stálin, que matou mais de 15 milhões: 'A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística'

- O Globo / Segundo Caderno

A grande descoberta dos terroristas do Estado Islâmico foi a mídia. Diferentemente da Al-Qaeda e de outros grupos menores, eles não querem nos atacar, como fez Osama no 11 de setembro; eles querem nos corroer por dentro. Eles são pós-Osama. Estão testando nossos sentimentos — nós que nos pensamos civilizados. Sentimentos como compaixão, perdão, moral, respeito ao outro... Entre um holocausto e uma Hiroshima, entre Coreia e Vietnã, somos bons, somos sensatos amantes da liberdade, da fraternidade (igualdade, nem pensar).

Os pavorosos assassinos do EI jogam com isso, criando a internet de fogo, nos acostumando à novas formas de crueldade. Um dia, ficaremos entediados com o horror: “Porra, meu... outro incendiado? Esses caras têm de inventar novas torturas!”.

Porém, mais do que nos assustar com sua violência, eles tiveram uma ideia sinistramente genial: em vez de matar 5.000 desconhecidos como em Nova York, eles escolheram o indivíduo, o morto antes de morrer, o solitário no vídeo para a degola ou o fogo. Eles atacam nosso individualismo. Como disse Stálin, que matou mais de 15 milhões: “A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística”. Essa foi a grande sacada desses ratos, pois todo mundo se identifica com o pobre diabo diante da morte. Hiroshima nos leva a dizer: “Que horror!” Essas cenas do EI nos fazem pensar: “Já imaginou eu nessa situação?. Só choramos por nós mesmos.

Há alguns anos eu vi um homem sendo decapitado. Chegou um vídeo completo na TV e vi. Um bando de demônios de preto, gritando “Só Deus é grande!” agarram o pobre sujeito e lhe cortam o pescoço como o de um porco. Ele grita enquanto a cabeça lhe é arrancada, com grande profusão de sangue que suja as mãos dos carrascos que gargalham de felicidade porque sentem-se mais perto do céu, pois a cada cão infiel morto à faca, eles sobem de ranking para a salvação.

Essas cenas nos levam a um anti-islamismo inevitável, mas isso é o que eles querem: nos chamar a atacá-los com bombardeios ferozes e, assim, inibir os muçulmanos moderados e fazê-los mais rancorosos contra nós. Só os islâmicos podem limitar os terroristas, mas nunca o farão. Aqueles que se declaram contra o EI não se decidiram por uma reação concreta aos assassinos — não os apoiam, mas, no fundo, celebram uma vingança secreta. Cada vez mais nos governa a Lei de Murphy: “Tudo que pode piorar, piora”.

Além disso, eles testam a si mesmos, querendo atingir níveis inimagináveis de crueldade, crucificando crianças, enterrando-as vivas, como fazem também outros horrendos zumbis como o Boko Haram e o Talibã. Querem despertar em nós a violência recíproca, pois em nossa mente surge o vingador implacável, o desejo de arrancar da face da Terra esses espelhos de nossa própria animalidade. Não queremos contemplar nossa bruta agressividade — eles são como nós. “Ahh... se eu pudesse metralhar esses filhos da puta!” Desejamos exterminar esses assassinos do pobre jordaniano e do japa. Mas, eles escapam de nossas balas e de nosso ódio, porque não são “napoleônicos” no combate, mas dispersos demônios no deserto. O modo napoleônico de fazer a guerra não funciona contra forças irregulares. Napoleão procurava a destruição do exército adversário e queda do governo desse Estado. Contudo, num combate irregular — subversão — não há uma batalha decisiva.

Agora, a guerra virou loucura pura. Se um dos inimigos não tem medo de morrer, muda tudo, não há vitória.

De uma forma repugnante, a verdade do mundo atual apareceu. Estão irrompendo todas as misérias do planeta para além do circuito Helena Rubinstein: uma religião da vingança e da morte, formada pela ignorância milenar de desgraçados no deserto, com inveja das conquistas do Ocidente e o cultivo do martírio.

Os fanáticos do Oriente são a pulsão de morte recalcada, a morte que mandamos para debaixo do tapete. Agora a sujeira está voltando em nossa cara. Não temos a sólida estupidez dos islamistas; nossa violência tem sempre uma racionalização, mentiras sob o pretexto da busca de um “bem”. Mas estão ficando claras a fragilidade e a impotência do Ocidente, sob a capa de antiga competência invulnerável. E esta nova forma de horror se dá em pleno século XXI, quando foguetes americanos já viajam entre os anéis de Saturno e aterrissam em cometas. Alguns dirão: “Bem feito, pois o Ocidente gerou isso tudo com sua exploração colonial e imperialista”.

Não, agora os terroristas não são mais reativos; são inventivos, bem armados pela Rússia e pela China, além do armamento pilhado da “primavera árabe”. Não são mais “consequência” de nada; são a vanguarda de uma nova forma de morte, são a invenção de uma perversidade que nasceu deles mesmos, da estupidez fanática da “sharia”, de séculos de ignorância e atraso. Claro que o Ocidente já aprontou muito, mas nada disso é mais a causa de coisa alguma, agora que tiveram a ideia genial de usar as máquinas do Ocidente — aviões e mísseis contra os infiéis. E convocam malucos ingleses e americanos (mais de mil) para o EI, que voltam para infernizar seus países de origem. Eles estão pautando nossa agenda. Agora, só resta aos países ameaçados a defesa.

Subitamente, fomos arrojados de volta a uma era pré-política. Os nazistas queriam um milênio ariano, os comunas queriam construir um paraíso social, os fanáticos do Islã querem construir nada. Já estão prontos. Já chegaram lá. Já vivem na eternidade. Querem apenas destruir o demônio — que somos nós.

Tudo o que fazemos tem o alvo da finalidade, do progresso. O Islã não quer isso. Quer o imóvel, a verdade incontestável. O Islã transcendeu o político há muito tempo. Suas multidões jazem na miséria, conformadas, perfazendo o ritual obsessivo cotidiano do Corão que os libertou da dúvida e do medo.

A morte ocidental é diferente da morte oriental. Como uma vez disse o líder dos talibãs Muhammed Omar, com desdém: “Nós amamos a morte; vocês sempre gostaram de viver!”.

Maria Rita - Conversa de Botequim ( Noel Rosa)

Vinicius de Moraes - Soneto de Devoção

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez… — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Opinião do dia – Rubens Bueno

“Caiu a máscara de Dilma. Esta queda na avaliação é resultado do estelionato eleitoral, já que a petista da campanha disse que não ia ter aumento de impostos, de energia, dos juros e que ninguém ia mexer no direito dos trabalhadores,

É pena que alguns não tenham acreditado naquilo que a oposição alertou durante o primeiro mandato de Dilma e, mais intensamente, na campanha eleitoral. “

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Rubens Bueno, deputado federal (PR) e líder do PPS na Câmara Federal, em declaração à imprensa.

'Chocado', Planalto avalia reação à queda na popularidade de Dilma

• Diagnóstico do governo aponta que população se sentiu traída pelo discurso da campanha

• Assessores também veem falhas na redução da comunicação da presidente com a equipe e a sociedade

Natuza Nery – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O governo ficou chocado com a pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (8) e ainda não tem uma estratégia para reagir à queda de 19 pontos na aprovação da presidente Dilma Rousseff revelada pela sondagem.

Por ora, o diagnóstico feito por integrantes do governo é o de que a população se sentiu traída pelo discurso feito pela candidata Dilma durante a campanha e a realidade mostrada no período pós-eleitoral: energia mais cara, racionamento de água em São Paulo e apagão em alguns Estados do país.

Além disso, membros do Executivo fazem uma auto-crítica sobre o processo de anúncio das medidas de ajuste fiscal, que envolveram aumento de tributos, bloqueio provisório de gastos, corte de subsídios para o setor elétrico e mudanças nas regras de benefícios sociais.

A avaliação é que o governo alimentou a expectativa negativa sobre o futuro próximo, sem conseguir explicar que o cenário de aperto se destinava a preservar conquistas da última década.

A parcela da população que considera o governo de Dilma ótimo e bom caiu de 42% para 23% de dezembro para fevereiro. No mesmo período, a fatia que disse achar o governo ruim e péssimo passou de 24% para 44%.

O ministro Miguel Rossetto (Secretaria-Geral da Presidência), porém, tem um diagnóstico menos pessimista sobre os efeitos do cenário levantado pela pesquisa do que outros membros do governo ouvidos pela Folha.

"Já convivemos com períodos de baixa aprovação nesses últimos 12 anos e mostramos que, com trabalho, somos capazes de recuperar", disse.

Para Rossetto, a eleição polarizada, seguida de uma agenda "difícil", ajudam a explicar a queda de popularidade do governo.

"As denúncias sobre corrupção ocupam boa parte da agenda política e não há punição ainda, o que cria um descontentamento na população, que espera velocidade das instituições", disse.

"O reajuste das tarifas de energia elétrica e da gasolina geraram um impasse, mas são necessários para a retomada do crescimento econômico com geração de emprego e renda ainda em 2015", acrescentou o ministro.

Comunicação
Outros assessores presidenciais ressaltam o fato de a presidente ter reduzido drasticamente a comunicação com a sociedade, o que teria contribuído para o governo "queimar gordura muito rápido".

Internamente, Dilma também reduziu a comunicação com sua equipe. Desde a eleição, ela só se encontrou com o marqueteiro João Santana uma vez. Auxiliares defendem que Santana seja chamado a ajudar na recuperação da imagem da presidente.

Apesar do cenário pessimista reforçado pela pesquisa, na avaliação interna há uma coisa boa revelada pelo Datafolha: a crise está acontecendo bastante cedo, dando margem e tempo para uma possível recuperação antes do fim do segundo mandato.