domingo, 12 de junho de 2016

Promessas vãs, ao vento - Eliane Catanhêde

- O Estado de S. Paulo

Não bastasse deixar a economia destroçada e um saldo de 11,5 milhões de desempregados, a presidente afastada Dilma Rousseff vem agora prometer “um novo governo” para a minoria que apoia cegamente o PT e acenar com um plebiscito sobre eleições antecipadas para tentar seduzir os senadores que votam o impeachment definitivo.

Novo governo a esta altura? E eleições já? Seria brincar com fogo. Os candidatos não se sabe quais serão, mas o Congresso e os partidos continuarão os mesmos, acossados por denúncias e acordando todas as manhãs assombrados por novos inquéritos ou pedidos de prisão. O presidente sai, a crise fica. Melhor dar dois anos e meio para o governo interino tourear a economia e a Lava Jato limpar o terreno.

Voltar para quê? – Bernardo Mello Franco

- Folha de S. Paulo

Neste domingo (12), completa-se um mês desde que Dilma Rousseff assinou a notificação do impeachment, deixou o Palácio do Planalto e se recolheu ao Alvorada. Na temporada de exílio, ela criticou o substituto e prometeu lutar para voltar à Presidência. Faltou responder a uma pergunta: voltar para quê?

Dilma deve uma explicação sobre o que pretende fazer na hipótese, por ora improvável, de o Senado revogar o seu afastamento. Na noite de quinta-feira, surgiu uma pista. Na entrevista à TV Brasil, ela indicou que convocaria um plebiscito sobre a realização de novas eleições.

"A consulta popular é o único meio de lavar e enxaguar essa lambança que está sendo o governo Temer", disse. "Eu acho que pode ser um plebiscito de alguma forma. Eu não vou aqui dar o menu total, mas essa é uma coisa que está sendo muito discutida", acrescentou.

O bonde da Educação - Luiz Carlos Azedo

• Professores engajados num projeto de poder não respeitam a maioria dos colegas e a minoria das minorias (o jovem monarquista) não pode se expressar sem apanhar

- Correio Braziliense

Um jovem monarquista que protestava contra a convocação de uma greve geral na Universidade de Brasília foi agredido por colegas que desejam paralisar a universidade em protesto contra o impeachment e o governo Temer, na terça-feira passada, porque estendeu uma bandeira do Brasil Império. Debaixo de socos e pontapés, conseguiu recuperá-la. Essas cenas da agressão, do tipo todos contra um, ocorreram na ala norte do Instituto Central de Ciências (ICC), o famoso “Minhocão”, e foram expostas na internet; no dia seguinte, o jovem agredido voltou às redes sociais para dizer que não se deixaria intimidar. Ele acredita que a agressão foi um sinal de que a bandeira da monarquia, diante da crise ética, está incomodando.

Na quarta-feira, durante assembleia da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), que reuniu 148 professores, o pós-doutor em bioética Volnei Garrafa sugeriu que a delegação da ADUnB apresente, no congresso do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), em Roraima, uma proposta para que o segundo semestre das universidades federais não se inicie enquanto a presidente Dilma Rousseff não voltar ao comando do governo. A maioria apoiou a proposta. O presidente da associação, Virgílio Arraes, disse que a sugestão será encaminhada, mas ponderou que a instituição tem cerca de 2.500 professores.

A Associação dos Docentes da UnB fez uma pesquisa eletrônica para saber a opinião dos colegas sobre os temas abordados na assembleia. Apenas 478 professores responderam ao questionário, dos quais 225 (47,47%) concordam com a tese de que o impeachment é golpe e 249 (52,53%) discordam; 300 professores (63,29%) são a favor de debater o assunto e 174 (36,71%) são contra. Mais: 265 professores (55,91%) foram contra a realização da assembleia; e 209 (44,9 %), a favor. Ou seja, uma situação na qual professores engajados num projeto de poder não respeitam a maioria dos colegas e a minoria da minoria (o jovem monarquista) não pode sequer se expressar sem apanhar. Esse é o ambiente político numa das melhores universidades do país.

Excelência já foi elogio, mas faz tempo - Rolf Kuntz

- O Estado de S. Paulo

Excelência, em Brasília, é principalmente uma palavra usada por deputados e senadores antes de xingar outro congressista. Pode-se empregá-la com muita elegância em frases do tipo “vossa excelência é uma cavalgadura”. Poucos devem lembrar-se, mas esse termo serviu, em outros tempos, para indicar qualidades positivas encontradas – podem acreditar – até no setor público. Vale a pena lembrar esse velho emprego da palavra, quando se discute a profissionalização das chefias de estatais. Muito antes de ser envolvido no mensalão, o Banco do Brasil foi apontado, mais de uma vez, como centro de excelência. De seus quadros saíram funcionários para o recém-criado Banco Central, nos anos 60, e para muitos postos importantes do governo. Quem desconhece esses fatos pode ter dificuldade para acreditar nessa história. Afinal, tudo parece negá-la. Saqueada durante mais de dez anos, a Petrobrás tornou-se uma empresa superendividada, incapaz de manter seu programa de investimentos e forçada a vender uma porção de ativos para fazer caixa.

A Eletrobrás, segunda maior estatal brasileira, continua devendo ao mercado de capitais de Nova York a publicação do balanço de 2014. Os Correios, acumulando prejuízos desde 2013, poderão precisar de financiamento no segundo semestre para pagar salários e outras despesas operacionais. O prejuízo de 2015, como informou o Estado na quinta-feira, pode ter chegado a R$ 2,12 bilhões. Faltava, ainda, a publicação do balanço do ano passado, embora já se tenha chegado à metade de 2016.

Pilares da lei - Míriam Leitão

- O Globo

No ambiente incandescente da sala de reunião da Comissão do Impeachment, o auditor fiscal do TCU não altera o tom de voz sereno. “Enquanto a sociedade pagar o meu salário, eu vou fiscalizar o cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal”. E disse que desrespeitá-la era “atentar contra a democracia”. Essa crise está mostrando a força das leis e das instituições brasileiras.

O auditor é Antônio Carlos Costa D’Ávila e foi ele quem detectou, numa auditoria, as pedaladas do governo Dilma. “Não posso acreditar que estão fazendo isso”, espantou-se quando descobriu os truques contábeis. Diante das primeiras respostas do governo aos seus questionamentos, negando as irregularidades, ele disse que sentiu um “frio na barriga” e pensou que estivesse errado. Não ficou feliz em confirmar que estava certo. Fora montado um esquema através do qual os bancos públicos financiavam o governo, e o Banco Central, responsável pelas estatísticas, não as registrou. Explicou que é muito difícil fiscalizar um governo, que tinha na época 38 ministérios, e cujo órgão oficial, que deveria mostrar os números, os escondeu.

O jovem Lobão ficou zangado – Elio Gaspari

- Folha de S. Paulo

O senador Edison Lobão (PMDB, ex-PFL, ex-PDS, ex-Arena) chegou ao Congresso em 1979, governou o Maranhão, foi ministro de Minas e Energia de Lula (2008-2010) e de Dilma Rousseff (2011-2014). Assumiu falando em usinas "termas", mas acostumou-se a dizer "térmicas". Na sua carreira conseguiu muito. É nome de município (18 mil habitantes), fez de um filho senador (cavalgando a suplência) e da mulher deputada federal. Tem uma emissora de televisão e rádios. Os interesses de sua família incluíram uma construtora e uma distribuidora de bebidas. Tudo isso e mais a amizade de José Sarney.

Com sua seca figura, Lobão atravessa tempestades sem perder a calma. Já foi acusado de participar do loteamento de fundos de pensão estatais, de companhias de eletricidade, da mina de Serra Pelada e do Instituto de Resseguros. Foi um dos primeiros marqueses jogados na frigideira da Operação Lava Jato e coleciona acusações de pelo menos sete colaboradores da Justiça, dois dos quais falaram em nome da Camargo Corrêa e da Andrade Gutierrez. O senador atravessa esse tiroteio negando qualquer má companhia, pois já chegou a se queixar: "Vejo com profunda tristeza. Fica difícil fazer parte da vida pública". Seu filho homônimo chegou a filosofar: "A ética é uma coisa subjetiva, muito abstrata".

O padrão Lobão de serenidade foi quebrado por Márcio, o filho do senador que desde 2008 dirige a Brasilcap, braço dos planos de capitalização do Banco do Brasil. Grande comprador de obras de arte, casou-se com a filha de um dos maiores colecionadores do país e empregou-a no gabinete do pai. Ele foi sócio de um ruinoso presidente do fundo Postalis numa importadora de BMWs, mas sempre manteve-se discreto.

Sérgio Machado localizou-o informando que lhe passava R$ 300 mil mensais de sua caixa de propinas. A informação foi divulgada pelo repórter Lauro Jardim, a quem Márcio Lobão mandou uma carta dizendo o seguinte:

"O delator Sérgio Machado é um rato roedor. Roeu a decência. Roeu o respeito pelo próximo. Roeu a própria família, inclusive o filho, e agora, de forma vil e irresponsável, está a roer todos os amigos do seu falecido pai [...] roendo também a educação que recebeu".

Por duas vezes, chamou Machado de "cagueta" e, para felicidade geral, anunciou que vai processá-lo. Se isso acontecer, virão por aí fortes emoções.

Celso Furtado, teoria e prática
Celso Furtado viveu 84 anos, foi superintendente da Sudene, ministro do Planejamento e da Cultura e nunca teve seu nome envolvido no sumiço de um só alfinete. Em 2011, o comissariado petista lançou ao mar o petroleiro que leva seu nome, e Dilma Rousseff discursou festejando a obra da Transpetro: "No Brasil, muita gente dizia que dava para crescer, mas que poucos ficariam ricos. Celso Furtado disse que crescimento era uma coisa e desenvolvimento era outra, que país só se desenvolvia se o povo crescesse junto".

Em 2015, o estaleiro de onde saiu o "Celso Furtado" fechou, desempregando 2.000 trabalhadores, mas uns poucos maganos ficaram ricos.

A memória do presidente da Transpetro, Sérgio Machado, mostrou a distância que há entre as teorias de Celso Furtado e a prática da criação de polos navais no Brasil. Desde 1955, os contribuintes financiaram três, e todos quebraram.

Machado contou que a construção do "Celso Furtado" atrasou e que ele embolsou um capilé para aliviar o valor da multa. Em 2011, a Transpetro contratou a construção de oito navios, metendo Sérgio Buarque de Holanda e o economista Rômulo de Almeida na fantasia. O contrato ficou em US$ 536 milhões. A lasca de Machado foi de US$ 1,5 milhão.

Foge o irrecuperável tempo – Editorial / O Estado de S. Paulo

Como relator dos processos relativos à Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, o ministro Teori Zavascki tem imensas responsabilidades, pois toma decisões que podem produzir fortes impactos no mundo político. Por essa razão, faz bem o magistrado em ser prudente e abrigar-se, na discrição e no silêncio, das fortes pressões que naturalmente vem sofrendo – fazendo jus ao apelido de “esfinge”. No entanto, não se pode confundir prudência com procrastinação. Ao adiar decisões por tempo demasiado, como tem feito com frequência em casos de grande repercussão e com potencial de abalar o governo e o Congresso, o ministro adiciona desnecessária tensão a situações que já são, por sua própria natureza, explosivas.

O caso mais recente foi o encaminhamento, por parte do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, do pedido de prisão dos caciques peemedebistas Renan Calheiros, presidente do Senado; José Sarney, ex-presidente da República; Romero Jucá, senador e ex-ministro; e Eduardo Cunha, presidente afastado da Câmara. Todos eles são acusados de tramar para sabotar a Lava Jato.

Ponto de equilíbrio – Editorial / Folha de S. Paulo

O governo de Michel Temer (PMDB) promete em breve enviar ao Congresso a proposta de inscrever na Constituição um limite imediato para o crescimento da despesa federal. Mais do que peça central do programa econômico do presidente interino, trata-se da maior tentativa de reforma do Estado em três décadas.

A fim de que o plano se torne viável, não basta escrever em pedra que os gastos serão reajustados apenas pela inflação do ano anterior, sendo na prática congelados. Algumas cláusulas adicionais precisam ser bem lapidadas.

A primeira diz respeito às regras que impedirão o crescimento da rubrica social. A segunda, à duração desse congelamento.

O dispêndio se expande sem limite devido ao aumento vegetativo de certos desembolsos (número de beneficiários da Previdência), a indexações (reajustes de benefícios sociais ou de salários) e a vinculações orçamentárias (por lei, a verba para saúde e educação aumenta junto com a arrecadação).

Momento para se quebrar a rigidez das leis trabalhistas – Editorial / O Globo

• Permitir que patrões e empregados se entendam para manter e criar empregos é fórmula buscada no Brasil e em outros países, como na França

Nos 13 anos de lulopetismo, houve uma encenação de negociações em torno de reformas jamais realizadas. Era para isso mesmo. Foi assim sobre a Previdência (INSS), os sindicatos e em questões trabalhistas. Criaram-se fóruns em que representantes do capital, do trabalho e governo gastaram tempo em debates inconclusos, porque os sindicatos dos trabalhadores jamais concordaram com avanços nas legislações previdenciária e trabalhista, e o governo os apoiava. Foi puro teatro.

Agora, a situação é outra, e não apenas porque o PT está afastado do poder por decisão do Senado, no processo de impeachment de Dilma. Mas devido à gravidade da situação criada no país pelo lulopetismo: a maior recessão da História — superior à da Grande Depressão mundial de 1929/30 —; inflação que ronda os dois dígitos; e desemprego nas alturas, quase em 11%, e em elevação.

O quadro é de emergência, e por isso reformas têm de ser feitas. Uma delas é a da legislação trabalhista, para que ela ganhe flexibilidade, a fim de incentivar a geração de empregos, neste momento de redução drástica do mercado de trabalho.

Moralismo popular versus política - José de Souza Martins

• O voto de uma deputada federal desconhecida, Tia Eron, desenhará os rumos do País. Depois desse voto, ela nunca mais será a mesma

- O Estado de S. Paulo

O moralismo popular tem sido o fundamento da precária consciência política dos que, de um lado e outro das polarizações ideológicas, desde o mensalão e particularmente desde as manifestações de 2013, vão às ruas e pedem a cabeça de alguns acusados de corrupção ou pedem o reconhecimento de sua inocência. Mas o moralismo popular colide com a política, que é amoral. E é melhor que ela seja assim. Os que defendem os acusados e lhes reconhecem a inocência fazem-no na concepção imoral de que é lícito usar imprópria e indevidamente o dinheiro e o patrimônio públicos em favor de partidos que tem o presumível mandato de beneficiar os pobres e simples, e para eles governar. O que lhes daria o direito de recorrer à corrupção. Porém, na cultura popular brasileira, corrupção é coisa de ladrão, ladrão é ladrão e gente é gente.

Encontro com Oswald – Ferreira Gullar

- Folha de S. Paulo

Na rua do Ouvidor, entre a avenida Rio Branco e a rua da Quitanda, ficava naquela época a Livraria José Olympio, onde, certa tarde, deparei com Graciliano Ramos, sentado numa cadeira e fumando cigarro.

Foi ali também que, poucos meses depois, comprei um exemplar de "Serafim Ponte Grande", de Oswald de Andrade, a preço de refugo. Havia, num canto, uma ruma de exemplares do livro, postos em liquidação.

Levei o livro para casa e, ao lê-lo, surpreendeu-me a linguagem saborosa do autor. Disse isso a Mário Pedrosa, que concordou comigo e me emprestou um exemplar do livro de poemas de Oswald, "Pau Brasil". Era um volume pequeno, quadrado, tendo na capa o losango da bandeira brasileira. Fascinou-me o sabor de mato verde que experimentei ao ler os seus versos.

Poema em linha reta – Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Teresa Cristina - Pranto do Poeta

sábado, 11 de junho de 2016

Opinião do dia - Cristovam Buarque

“Mais grave pecado é o desperdício da democracia. Em 30 anos elegemos quatro presidentes: o primeiro foi afastado por impeachment, a quarta está afastada para o julgamento de mais um impeachment. Nestas três décadas, não conseguimos realizar os dois propósitos da democracia: aglutinar a população presente e conduzir a nação ao progresso futuro.”

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Cristovam Buarque é senador (PPS-DF). ‘Democracia desperdiçada’, O Globo, 11/6/2016

Janot pede que STF envie caso de Lula a Moro

Janot solicita que denúncia contra Lula e Delcídio seja enviada a Moro

• Ex-presidente foi denunciado pela Procuradoria-geral da república após o senador cassado acusá-lo de pagar pelo silêncio e evitar a delação premiada do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró

Gustavo Aguiar - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao ministro Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), para que a denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador cassado Delcídio Amaral (sem partdio-MS) seja remetida ao juiz Sérgio Moro, na primeira instância.

O processo também inclui o ex-assessor de Delcídio, Diogo Ferreira, o advogado Edson Ribeiro, o pecuarista José Carlos Bumlai, seu filho, Maurício Bumlai, e o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual.

Procurador pede que caso de Lula seja enviado a Moro

A Procuradoria-Geral pediu o envio da denúncia contra o ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro. O petista é acusado pelo ex-senador Delcídio de ordenar a compra do silêncio de Cerveró, delator da Lava-Jato.

Janot recomenda que denúncia contra Lula vá para as mãos de Moro

• Ex-presidente é suspeito de tentar evitar delação de Cerveró

Vinicius Sassine - O Globo

-BRASÍLIA- A Procuradoria-Geral da República (PGR) emitiu parecer pedindo envio da denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à primeira instância da Justiça Federal, mais especificamente para as mãos do juiz Sérgio Moro, em Curitiba. A decisão sobre a mudança de instância será do ministro Teori Zavascki, relator dos processos da Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF).

O inquérito em que Lula foi denunciado é o que trata da suposta tentativa de obstrução de Justiça pelo então senador e líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (sem partido-MS). O ex-senador chegou a ficar preso por tentar impedir a delação premiada do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró.

Janot defende que denúncia contra Lula seja enviada para Sergio Moro

Márcio Falcão, Valdo Cruz – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviou parecer pedindo que o STF (Supremo Tribunal Federal) encaminhe para o juiz Sergio Moroa denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista é acusado de ter atuado para evitar a delação do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró na Lava Jato.

Segundo a Folha apurou, a tendência é de que o ministro Teori Zavascki, relator do processo, encaminhe a acusação nos próximos dias para a Justiça do Paraná.

A denúncia envolve ainda Delcídio do Amaral (ex-PT-MS) que perdeu a vaga no Senado após virar delator do esquema de corrupção. Com a cassação de mandato de Delcídio, não há mais acusados com foro privilegiado.

A denúncia ainda tem como alvo o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula, seu filho, Maurício Bumlai, o banqueiro Andre Esteves, e Diogo Ferreira, ex-assessor de Delcídio. A ideia seria evitar que fossem delatados pelo ex-diretor.

Segundo a Procuradoria, eles teriam atuado para comprar por R$ 250 mil o silêncio de Cerveró.

Lula reedita ataque ao Congresso e chama deputados de 'picaretas'

Catia Seabra, Carolina Linhares, Paula Reverbel, Reynaldo Turollo Jr. – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reassumiu o discurso de oposição em ato contra o governo do presidente interino, Michel Temer (PMDB), e reeditou o ataque ao Congresso feito há 22 anos chamando os deputados de picaretas.

"É só olhar para a cara deles para saber que os 300 picaretas que eu falei em 1994 aumentaram um pouco", disse, em discurso na avenida Paulista na noite desta sexta-feira (10).

O protesto, segundo os organizadores, reuniu cerca 100 mil pessoas, mas havia grandes espaços vazios na avenida. A PM não divulgou estimativa de público.

País tem primeiro protesto nacional contra o governo Temer

• Manifestações ocorreram em quase todas as capitais; Lula faz discurso na Avenida Paulista

Valmar Hupsel Filho* - O Estado de S. Paulo

A primeira manifestação de caráter nacional contra o governo do presidente em exercício Michel Temer foi realizada ontem em pelo menos 24 Estados e no Distrito Federal pelas frentes Brasil Popular e Povo sem Medo.

Em São Paulo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou do protesto concentrado na Avenida Paulista, onde quatro quarteirões foram fechados nos dois sentidos e foram tomadas pelos manifestantes. Em seu discurso, Lula, com voz muito rouca, mandou recados para Temer. “Temer, você é um constitucionalista, sabe que não agiu correto assumindo a Presidência interinamente. Permita que o povo retome o poder e participe das eleições em 2018”, declarou.

Os organizadores estimaram um público de 100 mil pessoas. A Polícia Militar não havia informado o número aproximado de manifestantes até a conclusão desta edição. Além dos movimentos sociais, participaram também representantes dos estudantes e da classe artística.

As mensagens em faixas e cartazes pediam o retorno da presidente afastada Dilma Rousseff, a saída de Temer e também do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Já sobre a proposta de consulta popular para convocar novas eleições caso o Senado não aprove o impeachment de Dilma, o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, afirmou que o coletivo não fechou questão sobre o tema. “O MTST está discutindo isso internamente. Ainda não tomamos decisão”, disse. Anteontem, Dilma defendeu a iniciativa em entrevista veiculada na TV Brasil. “A consulta popular é o único meio de lavar e enxaguar essa lambança que está sendo o governo Temer”, declarou a petista.

Além de Lula, estiveram presentes o presidente nacional do PT, Rui Falcão, o presidente estadual do PT-SP, Emidio de Souza, o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), o presidente da CUT, Vagner Freitas, o coordenador nacional da Central de Movimentos Populares (CMP), Raimundo Bonfim, e o coordenador do MST, Gilmar Mauro. “Não elegemos um governo para fazer reforma da Previdência”, disse Boulos. O presidente da CUT acrescentou que pode haver greve geral caso reforma seja aprovada. “Se passar a pauta conservadora e a reforma da Previdência e trabalhista, vamos organizar a maior greve geral que esse País já viu”, ressaltou Freitas.

No Rio de Janeiro, os manifestantes se reuniram ao redor da Igreja da Candelária, no centro. Além de Temer, foram alvo do protesto Cunha e o deputado Pedro Paulo Carvalho Teixeira (PMDB-RJ), pré-candidato a prefeito do Rio e que, no ano passado, admitiu ter agredido a ex-mulher. A Polícia Militar acompanhou o ato pacífico. A instituição não estimou o número de participantes. Organizadores calcularam em 800 o número de pessoas presentes.

No Sul, o frio de 9º C não impediu que cerca de mil manifestantes, segundo a Brigada Militar, protestassem contra o governo interino no centro de Porto Alegre.

No Nordeste, o ex-ministro de Dilma Jaques Wagner (Casa Civil) e o ex-presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli participaram do ato que terminou na praça Castro Alves. Em Teresina, os manifestantes se misturaram às pessoas que acompanhavam a tocha olímpica, tentando apagá-la, sob o grito de “Fora Temer” e “Por novas eleições”.

*Colaboraram Fábio Grellet, Lucas Azevedo, Heliana Frazão e Luciano Coelho

Protestos anti-Temer

Sindicatos e movimentos sociais fizeram protestos em 24 estados e no DF contra o presidente interino, Michel Temer.

Protestos contra o governo em 24 estados

• Em discurso na Paulista, Lula diz que ainda pode ser candidato

Mariana Sanches e Lauro neto - O Globo

-SÃO PAULO E RIO- Pelo menos 24 estados e o Distrito Federal registram atos contra o presidente interino, Michel Temer, ontem. A maior manifestação aconteceu em São Paulo, na Avenida Paulista, que, segundo estimativas extraoficiais de PMs no local reuniu cerca de 30 mil pessoas. Não houve dados oficiais sobre o número. Em discurso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas ao impeachment, ao governo Temer e aos “vazamentos ilícitos” decorrentes da Lava-Jato.

— Ninguém tem o direito de dizer que o PT é uma organização criminosa. Eu tô de saco cheio de dizerem que o dinheiro que financia as campanhas do PT é dinheiro sujo. Só faltam falar que o dinheiro que financia os tucanos é da Sacristia da Catedral da Sé — disse Lula, para depois dizer: — Mas eu não perdoo a atitude de vazamentos ilícitos. Sinceramente, não admito. Aquilo tinha como objetivo tentar execrar a minha imagem. E eu queria dizer para vocês: Quanto mais provocarem, mais eu corro o risco de ser candidato a presidente.

ABERT condena ataque a emissoras

Duas afiliadas da TV Globo foram atacadas durantes protestos contra o governo interino de Michel Temer ontem. Em Palmas, no Tocantins, um grupo de manifestantes se concentrou em frente à TV Anhanguera. Alguns manifestantes atiraram, na fachada da emissora, ovos, tinta e um ácido que deixou três pessoas feridas. Entre elas estava um segurança particular que ficava na entrada do prédio. A Polícia Militar tenta localizar os possíveis responsáveis pela agressão.

Em Fortaleza, manifestantes ocuparam a recepção da sede da TV Verdes Mares, afiliada da Globo no Ceará. Gritando palavras de ordem, eles tentaram invadir o prédio, mas foram impedidos pela segurança. Os manifestantes deixaram o local cerca de 20 minutos depois, sem intervenção de policiais ou funcionários da afiliada.

Em nota, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) afirma que as emissoras “cumprem o papel de informar com isenção e qualquer tentativa de intimidação é uma afronta à liberdade de imprensa e de expressão”.

Gestão Temer dá prazo para Dilma devolver 20 assessores

• Presidente afastada entrou com recurso na Justiça para evitar as restrições ao uso de voos da FAB

Catarina Alencastro e Cristiane Jungblut – O Globo

-BRASÍLIA- O governo do presidente interino, Michel Temer, vai dar um prazo para a presidente afastada, Dilma Rousseff, devolver cerca de 20 dos assessores que pediu ao ser afastada do mandato. A petista será notificada pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) sobre a decisão da Casa Civil, que emitiu um parecer na sexta-feira da semana passada restringindo as prerrogativas da presidente afastada. E caso não exonere alguns de seus auxiliares “num prazo razoável”, a Casa Civil irá demitir assessores de Dilma para reaver esses cargos.

Senadores discutem reação a Rodrigo Janot por pedidos de prisão

Thais Arbex – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Um grupo de senadores se reuniu nesta quinta-feira (9) no gabinete de Tasso Jereissati (PSDB-CE) para discutir uma reação do Senado ao pedido de prisãodo presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), do senador Romero Jucá (PMDB-PR) e do ex-presidente da República José Sarney (PMDB-AP).

Para os senadores, a decisão do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, abriu precedente para uma crise entre as instituições do país e que, para evitá-la, é necessário que seja encaminhado ao Congresso uma explicação para os pedidos de prisão.

A avaliação é que os trechos que vieram a público das gravações feitas por Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, não caracterizam "provas concretas", principalmente no que diz respeito a Renan.

Congresso quer ser fiador de afastamento

• Em parecer enviado ao Supremo, Senado defende que decisão da Corte sobre punição a parlamentares devem passar pelas duas cassas legislativas

Isadora Peron e Isabela Bonfim - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O Senado enviou um parecer ao Supremo Tribuna Federal com o entendimento de que o afastamento de qualquer parlamentar precisa ser aprovado pelo plenário da Câmara ou do Senado. A posição pode reverter, por exemplo, o afastamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), aprovada pelo STF no dia 5 de maio.

Garantias constitucionais - Eloísa Machado de Almeida

- O Estado de S. Paulo

A Constituição estabelece uma série de medidas de proteção aos parlamentares, como a inviolabilidade de suas opiniões, o julgamento com foro privilegiado e a vedação de prisão antes da condenação, exceto em flagrante de crime inafiançá-vel. Nesse caso, Câmara dos Deputados ou Senado poderão, ainda, rever a decisão de prisão em flagrante e determinar a liberdade do parlamentar. Não são garantias pessoais, mas institucionais, voltadas a proteger o exercício do mandato eleitoral e sua função pública.

Dilma não quis discutir plebiscito meses atrás e agora é tarde, diz líder do governo na Câmara

• André Moura não quis comentar a viabilidade da proposta da consulta popular na Câmara, porque diz não ver 'possibilidade nenhuma' da presidente afastada barrar o processo de impeachment no Senado

Julia Lindner - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O líder do governo na Câmara, deputado André Moura (PSC-SE), afirmou nesta sexta-feira, 10, que a sugestão da presidente Dilma Rousseff de fazer um plebiscito sobre novas eleições, caso reassuma a presidência da República, é tardia. Segundo Moura, diversos partidos propuseram a ideia para Dilma há alguns meses, porém "sua arrogância e prepotência não permitiram" que ela aceitasse debater o assunto.

"A presidente podia perfeitamente ter sensibilidade de entender que o Brasil chegou ao limite com o governo dela e ter feito essa proposta antes. Ela tinha autoridade para colocar isso em prática, mas quando teve a oportunidade não fez", disse. "Essa proposta foi feita lá atrás e ela, no alto da sua arrogância, nem se quer quis discutir isso. Portanto agora ela não tem mais legitimidade para fazer essa proposta", criticou o líder do governo.

Dilma e a televisão que dá traço - Jorge Bastos Moreno

- O Globo

O presidente interino, Michel Temer, está disposto a extinguir a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). A ideia tem o apoio de dois de seus principais auxiliares, Geddel Vieira Lima e Moreira Franco. Temer já encomendou estudo para acabar com a rede, chamada de “Traço” por Dilma, presidente afastada. Apresidente afastada, Dilma Rousseff, nunca escondeu seu pouco apreço pela EBC, cujo comando hoje é um dos motivos de polêmica entre petistas/dilmistas e o grupo do presidente Michel Temer.

Poucas semanas antes de ser afastada, a presidente ligou para o então ministro chefe da AGU, José Eduardo Cardozo. Impaciente pela demora com que ele foi encontrado, ela lhe perguntou:

— Cardozo, onde você está?

— Agora, estou na EBC, presidenta.

— O que você tá fazendo aí? Sai daí, preciso de você aqui. — Estou dando entrevista. — Que perda de tempo. Sai daí, Cardozo. Aí é traço! Traço!

Na última quinta-feira, Dilma deu uma entrevista de uma hora e quatro minutos para a TV “Traço”.

Para dizer, entre outras coisas, que foi vítima de um golpe. O programa foi gravado com o apoio logístico do governo que a substitui interinamente, até decisão do Senado.

João Vaccari decide quebrar o silêncio

• O homem que arrecadou e distribuiu mais de 1 bilhão de reais em propina para o PT, do qual foi tesoureiro, se prepara para falar à Lava Jato

Por: Robson Bonin – Veja

Em março passado, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto teve uma conversa reveladora com um de seus companheiros de cárcere. A situação de abandono do superburocrata petista, sentenciado a mais de 24 anos de prisão e com pelo menos outras quatro condenações a caminho, fez o interlocutor perguntar se ele não considerava a hipótese de tentar um acordo de delação com a Justiça.

Conhecido pelo temperamento fechado, que lhe rendeu o apelido de "Padre" nos tempos de militância sindical, Vaccari respondeu como se já tivesse pensado muito sobre o assunto: "Não posso delatar porque sou um fundador do partido. Se eu falar, entrego a alma do PT. E tem mais: o pessoal da CUT me mata assim que eu botar a cara na rua".

Algo aconteceu nos últimos dois meses. Depois desse diálogo travado com um petista importante e testemunhado por outros presos, Vaccari não resistiu às próprias convicções e resolveu romper o pacto de silêncio. O caixa do PT, o homem que durante décadas atuou nas sombras, o dono de segredos devastadores, decidiu delatar.

Por que Janot pede a prisão de alguns políticos e de outros não?

• Ao pedir a prisão por obstrução de Justiça de Renan, Jucá, Sarney e Eduardo Cunha e poupar Dilma, Mercadante, Lula e Cardozo, que cometeram o mesmo crime, o procurador-geral da República Rodrigo Janot demonstra parcialidade, provoca reações no Congresso, no STF e coloca em risco a própria Lava Jato

Sérgio Pardellas - IstoÉ

Uma escultura em granito adorna a entrada por onde atravessam todos os dias os ministros do Supremo Tribunal Federal. A estátua caracteriza Têmis, uma das deusas da Justiça na mitologia grega. Como símbolo da imparcialidade, exibe os olhos vendados para significar decisões tomadas às cegas, ou seja, sem fazer qualquer distinção entre as partes nem privilegiar um lado em detrimento do outro a partir de ideologias, paixões ou interesses pessoais. Na última semana, não fosse matéria inanimada, a venda teria escorregado como manteiga do rosto de Têmis. O responsável por submeter a retina da Justiça a situações constrangedoras, das quais ela deveria estar sempre e a qualquer tempo blindada, é o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Ao pedir a prisão por obstrução de Justiça de Renan Calheiros, Romero Jucá, José Sarney e Eduardo Cunha, todos do PMDB, e poupar pelo mesmo crime Dilma Rousseff, Lula, José Eduardo Cardozo e Aloizio Mercadante, do PT, Janot, chefe do Ministério Público, um órgão auxiliar da Justiça, mandou às favas o princípio da isonomia o qual deveria perseguir cegamente. Na régua elástica do procurador-geral, os rigores da lei válidos para os peemedebistas contrastam com a condescendência dispensada no tratamento a políticos do PT.

O incendiário

• Primeiro na linha sucessória de Renan, Jorge Viana tramou para implodir a Lava Jato. Caso ascenda ao comando do Senado, o petista fará de tudo para salvar Dilma

Mel Bleil Gallo – IstoÉ

Caso Renan Calheiros (PMDB-AL) venha a ser afastado da Presidência do Senado, o responsável pela condução do processo de impeachment na Casa será o senador Jorge Viana, do Acre. Trata-se de um dos petistas mais empenhados na defesa da presidente afastada, Dilma Rousseff, e um dos maiores entusiastas em barrar a Lava Jato. Em março deste ano, após a condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para prestar depoimento à Polícia Federal, o senador acriano telefonou para o advogado Roberto Teixeira e sugeriu uma ação criminosa como estratégia para desmoralizar o juiz Sérgio Moro e tumultuar as investigações. O que o senador não sabia é que a conversa estava sendo gravada, com autorização judicial. A gravação foi entregue à Procuradoria-Geral da República, que até agora não se pronunciou.

Democracia desperdiçada - Cristovam Buarque


  • Centenas de bilhões de reais são gastos com obras inacabadas
- O Globo

T anto quanto as pessoas, as nações também cometem pecados. A Europa cometeu o pecado do colonialismo sobre os povos africanos e ameríndios; os Estados Unidos promoveram guerras, usaram a bomba atômica, implantaram ditaduras pelo mundo. O Brasil tem os pecados da escravidão, da desigualdade, da degradação ambiental e o pecado do desperdício.

Por todos os lados, percebe-se centenas de bilhões de reais gastos com obras inacabadas, pontes e estradas que vão do nada a lugar algum, caracterizando o desperdício de dinheiro, recursos materiais, trabalho humano. Parte destes desperdícios vem de erros técnicos, a maior parte, da corrupção.

Ganhar a paz - Igor Gielow

- Folha de S. Paulo

Passado o armistício de 1918, o premiê francês Georges Clemenceau afirmou: "E agora cumpre ganhar a paz. Talvez seja mais difícil do que ganhar a guerra".

Que o diga Michel Temer, completando neste domingo (12) o primeiro mês de seu turbulento mandato interino. O caminho para seu Tratado de Versalhes, se consumada a deposição constitucional de Dilma Rousseff, está sendo como previsto: cheio de recuos, percalços e mistificações.

A mais recente é a quimera vendida pelo PT segundo a qual Dilma, reempossada, promoveria um plebiscito visando novas eleições. É um embuste típico, já usado como resposta aos protestos de junho de 2013, só para cair no esquecimento.

Trata-se de fumaça, mas cujo odor agrada a quem não apetece tapar o nariz para a parte podre da gestão Temer, além da turma de sempre que vai em ordem unida para a Paulista. E irrealizável, para não falar nos aspectos legais, bastando analisar as votações no Congresso que demonstram até aqui coesão governista inédita nos últimos anos.

Mal-estar - Merval Pereira

- O Globo

Os procuradores da República estão em pé de guerra contra o que identificam ser uma movimentação orquestrada dos políticos contra a Lava-Jato. A afirmação do coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, de que há um “ataque incisivo” ao combate à corrupção por “alguns políticos específicos”, numa referência clara aos líderes do PMDB flagrados em gravações clandestinas pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, é a explicitação desse sentimento, e explica muito por que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu a prisão deles, criando um conflito com o Legislativo que agora o Supremo Tribunal Federal vai ter que mediar.

Além do ministro Teori Zavascki, são poucas as pessoas fora do Ministério Público que têm conhecimento das bases do pedido de Janot, mas, tomando em consideração outros pedidos feitos pelo PGR, há um entendimento generalizado de que ele deve estar baseado em mais coisas além dos áudios divulgados.

A primeira mulher - Demétrio Magnoli

- Folha de S. Paulo

A "primeira mulher" candidata à Presidência dos EUA seria uma notícia tão histórica quanto o "primeiro negro" na Casa Branca, com a condição de que o nome dela não fosse Hillary. A verdadeira novidade da campanha eleitoral americana não é uma Clinton, mas um Trump —o Donald. A candidata democrata representa o establishment; o republicano, uma revolta contra o establishment. Desse contraste emana o perigo real de triunfo do Donald.

Hillary mantém o favoritismo, apesar do empate técnico registrado nas últimas sondagens. A demografia milita ao seu lado: Trump enfrenta a rejeição majoritária das mulheres, dos hispânicos e dos negros. O sistema eleitoral joga no campo democrata: nos 11 Estados oscilantes, campos de batalha decisivos, Obama obteve 11 vitórias em 2008 e dez em 2012. Contudo, Trump não é um McCain ou um Romney, expoentes da tradição republicana, mas um tipo diferente de candidato: a imagem do som e da fúria de uma nação profunda, imersa nas águas do rancor.

Risco inglês - Míriam Leitão

- O Globo

O cenário internacional, neste momento que estamos passando por uma das crises econômica e política das mais complexas da nossa história, tem um ponto em vermelho no calendário: dia 23 de junho. Dentro de menos de duas semanas os cidadãos do Reino Unido vão decidir se querem ou não continuar na União Europeia. E isso pode ter várias consequências.

Ontem, as bolsas caíram no mundo e no Brasil depois que foi divulgada uma nova pesquisa mostrando aumento do apoio à saída dos ingleses da União Europeia. Aumentou o percentual dos que apoiam a retirada contra os que querem ficar. A pesquisa divulgada pelo jornal “Independent”, na Inglaterra, mostrou que o “sim”, favorável à saída, subiu quatro pontos nas intenções dos ingleses enquanto o “não” caiu quatro. Com isso, o “sim” abriu 10 pontos à frente do “não”, com 55% contra 45%. Essa é a maior vantagem desde que pesquisas começaram a ser feitas.

Vitórias, por ora – Editorial /Folha de S. Paulo

Em meio à tensão provocada pelo avanço da Operação Lava Jato no encalço de líderes do seu partido, o presidente interino, Michel Temer (PMDB), colheu nos últimos dias vitórias significativas no Congresso.

Primeiro, os parlamentares autorizaram a mudança da meta orçamentária do governo, que resolveu incorporar às projeções oficiais um deficit de R$ 170,5 bilhões.

Depois, na quarta-feira (8), o Senado aprovou a prorrogação da DRU (Desvinculação de Receitas da União), mecanismo que permite ao governo deixar de cumprir alguns gastos obrigatórios. O assunto seguirá para a Câmara.

Horas depois, em uma votação previsível, os senadores avalizaram o nome de Ilan Goldfajn para presidir o Banco Central.

Cunha ultrapassa todos os limites – Editorial / O Globo

• Deputado tem contra si um impressionante número de problemas, no Legislativo, no Judiciário e no Ministério Público, e todos justificados

Um dos personagens centrais da crise política, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deputado de mandato suspenso pelo Supremo, parece estar cada vez mais próximo dos cadafalsos colocados à sua frente, nos planos político-parlamentar e judicial. Não é sempre que um político enfrenta tantas ameaças, e todas justificadas.

Impressiona o número de problemas que o deputado semeou contra si mesmo. O ministro do Supremo Teori Zavascki, relator das denúncias na Lava-Jato contra políticos com foro privilegiado, acaba, por exemplo, de liberar para julgamento pela Corte o processo em que o deputado é acusado de ter aberto contas bancárias na Suíça para abastecê-las de dinheiro de propinas.

A hora de Cunha se aproxima – Editorial / O Estado de S. Paulo

Nos últimos dias, surgiram vários sinais de que a longa epopeia de desfaçatez e de impunidade protagonizada por Eduardo Cunha pode finalmente estar perto de seu epílogo. O aríete que começou a pôr abaixo os portões do castelo em que esse notório parlamentar está refugiado – e que ele considerava invulnerável – está sendo conduzido tanto pela Justiça quanto por alguns dos principais partidos da Câmara, que, mesmo sendo adversários entre si, encontraram em Cunha o inimigo comum.

No âmbito judicial, uma das novidades mais importantes foi a decisão do juiz Sérgio Moro, tomada na quinta-feira, de aceitar denúncia contra a mulher de Cunha, Cláudia Cordeiro Cruz, transformando-a em ré no processo em que o deputado é acusado de receber propina de um empresário português para conseguir contratos da Petrobrás na África. Cláudia teria ocultado valores em contas secretas no exterior e lavado dinheiro por meio da compra de bens de luxo e do pagamento de despesas.

O Cão Sem Plumas – João Cabral de Melo Neto

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Raphael Rabello & Gal Costa - Resto de Saudade (Capiba)