sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Vinicius Torres Freire – Para quando Bolsonaro voltar das férias

- Folha de S. Paulo

Eleições nos EUA e aqui permitem que governo ignore o furacão de problemas que virá

Faz semanas, Jair Bolsonaro está em férias do seu desgoverno. Quer dizer, não tem sido nem ao menos obrigado a deixar de tomar decisões sobre assuntos cruciais ou ignorá-los, que é o seu padrão habitual de conduta.

O mundo está distraído pela situação horrorosa dos Estados Unidos e os parlamentares brasileiros estão ocupados com eleições municipais e de conchavos para a escolha do comando do Congresso em 2021 e de novos ministros. Nas votações que ainda acontecem, deputados e senadores fazem mais ou menos o que querem.

A folga vai acabar. A distração maior pode passar, caso os Estados Unidos não entrem em convulsão. Daqui a dois domingos, no dia 15, acaba a eleição municipal na maior parte do país, embora restem algumas segundas rodadas.

Então, haverá problemas a resolver, como o Orçamento de 2021; como manter (ou não) o teto de gastos, o auxílio para os muitos pobres extras que a calamidade econômica e sanitária deixará, para nem falar de uma política racional de vacinação, se houver vacina (mais improvável ainda é que haja razão). Há mais, mas passemos, por ora.

Reinaldo Azevedo - A democracia e as mulheres sob ataque

- Folha de S. Paulo

Ascensão da extrema direita populista, ancorada nas redes sociais, traz desafio

O único regime, já escrevi aqui, em que tudo pode é a tirania. Assim é para o próprio tirano e para os seus amigos. A democracia tem interdições. E aí está o busílis. A ascensão da extrema direita populista, ancorada nas redes sociais, traz um desafio.

Não raro, sólidas reputações liberais, inclusive neste jornal, confundem, por exemplo, a prática de crimes com a liberdade de expressão, pedra angular da civilidade. E tal confusão é um caminho muito curto para que se tome a liberdade de expressão por um crime.

Assim tem sido nos Estados Unidos, no Brasil e em toda a parte em que a democracia ainda resiste. O momento é delicado. O sistema tem sido refém de uma leitura liberticida de suas próprias premissas. Há uma pergunta, que não é recente, mas que está ainda a pedir resposta adequada: a democracia deve tolerar a ação daqueles que se aproveitam de suas garantias para solapá-la caso cheguem ao poder?

Angela Alonso* - Metamorfose pela metade

- Folha de S. Paulo

Neste mundo kafkaniano, Donald Trump não é um Gregor Samsa solitário

Na noite eleitoral de 2016, muitos norte-americanos foram dormir sonhando com uma mulher na presidência. Despertaram de um sonho intranquilo, com o presidente metamorfoseado num Trump gigantesco. Quem achava que este 3 de novembro daria fim ao pesadelo, entrou em insônia prolongada.

E, em vez de sediar a ansiada marcha dos civilizados sobre os bárbaros, a quarta foi de cinzas, entre festa e ressaca. Na quinta, Biden, tudo indica, venceu; mudará a configuração política do planeta. Não é pouco. Mas foi por pouco. Governará no meio a meio, Câmara e Senado partidos, Suprema Corte adversa.

As urnas atestaram o tamanho do apoio à pessoa, aos valores e às atitudes do presidente. Depois de quatro anos sob sua égide, o inaceitável para a metade azul soou bom o bastante para a vermelha. Trump perdeu a rodada, mas o conservadorismo ostentou seu enraizamento.

A derrota é tranco para adeptos do "make my country great again" mundo afora, mas não é antídoto que reponha o Ocidente no jazz de Clinton-Blair. Embora Trump fosse sua face mais vistosa, uma rede internacional de extrema direita se desenvolve desde a valsa Reagan-Thatcher.

Hélio Schwartsman - O que deu errado?

- Folha de S. Paulo

Trump driblou os caciques para ser indicado pelos republicanos à Presidência

Donald Trump não perdeu de lavada. O que isso diz sobre os EUA em particular e sobre o mundo em geral? Não faltavam motivos para votar contra o presidente americano. Para começo de conversa, ele é um mentiroso compulsivo que não tem o menor respeito por minorias nem pelas instituições, incluindo a própria democracia.

Como se não bastasse, sua gestão foi um fracasso frente à pandemia de Covid-19, tendo transformado os EUA num dos países mais mortíferos do planeta. A economia, que poderia ser uma razão plausível para votar em Trump, ia bem até a chegada do vírus, mas, desde então, entrou em forte recessão.

Ruy Castro* - Manual de trampolinagem

- Folha de S. Paulo

Carbono de Trump, Bolsonaro está atento às lições do mestre da trapaça política

Em 1983, o colunista Zózimo Barrozo do Amaral noticiou que o empresário americano Donald Trump e o libanês-brasileiro Naji Nahas estavam se associando numa empreitada. A firma ainda não tinha nome. Zózimo, conhecedor das vísceras da dupla e pela eufonia de seus nomes, sugeriu: "Trampolinagem". Você sabe: golpe, mentira, trapaça.

Era 1983, lembre-se. Seis anos depois, em 1989, os negócios de Naji Nahas quebraram a Bolsa de Valores do Rio. Ela nunca mais voltou a existir. E, agora, ao tentar ganhar uma eleição no grito, Donald Trump pode estar quebrando a espinha dos EUA.

Em Brasília, do banquinho onde se senta sobre as traseiras e saliva ao ouvir a voz do dono, Jair Bolsonaro acompanha, temeroso e extasiado, a eleição americana. Por um lado, o resultado das urnas o assusta --é uma amostra do que também pode esperá-lo por aqui, embora ele, precavido, esteja dedicando todo o seu primeiro mandato a fazer campanha com dinheiro público para assegurar um segundo mandato. Por outro, está recebendo uma aula de trampolinagem eleitoral, à base de coices na democracia.

Eliane Cantanhêde - Caindo na real

- O Estado de S.Paulo

Se Trump perder, arrasta junto a política externa e os delírios internacionais de Bolsonaro

O Brasil é o Brasil, o presidente Jair Bolsonaro é o presidente Jair Bolsonaro. O que é bom para o Brasil não é necessariamente bom para Bolsonaro e a recíproca é verdadeira. Aliás, muitas vezes é o oposto. O risco de derrota de Donald Trump é também de Bolsonaro, com sua política externa e seus delírios ideológicos, mas não para o Brasil, que lucra com um mundo melhor.

Com Trump e os Estados Unidos era uma coisa, sem ambos é outra. O projeto de um mundo de extrema direita vira um sonho (ou pesadelo) de uma noite de verão. É hora de acordar e cair na realidade – que, aliás, não está fácil, com pandemia, economia quebrada, dívida pública descontrolada e milhões de desempregados. O caos não é ideológico, é real.

Em 2018, após a vitória do pai, o deputado Eduardo Bolsonaro patrocinou a Cúpula Conservadora das Américas, em Foz do Iguaçu, como contraponto ao Foro de São Paulo, das esquerdas, mas a sociedade não deu bola para um nem para o outro. Em 2019, no primeiro ano de governo, ele voltou à carga, anunciando “o maior evento conservador do mundo” em São Paulo, mas só se ficou sabendo que o filho 03 foi recebido aos gritos de “mitinho” e que o seu guru só apareceu no telão, direto da Virgínia.

Pedro Doria – O golpe de Trump e as redes

- O Estado de S. Paulo

Nesta semana, um presidente americano tentou impedir que votos fossem contados. Isto tem nome. É golpe de Estado.

É inevitável, nesta semana eleitoral americana, que nos debrucemos sobre a constatação de que mudou de vez a maneira como se portam as plataformas de redes sociais. Facebook, Instagram e Twitter agiram ativamente para conter a circulação e alertar os usuários a respeito das tentativas de inflamar a população e dos ataques frontais aos ritos democráticos pelo presidente americano, Donald Trump. A ação não surpreende — já haviam anunciado que fariam isso. A decisão é responsável. É também polêmica. Por um motivo muito simples: é uma decisão editorial. Uma decisão de editor.

A questão fundamental aqui é simples: o que é uma rede social? Melhor começar pelo que não é. Parece, mas não é a praça pública. Embora seja um ambiente no qual muitos de nós nos reunimos para conversar sobre o que é do interesse da sociedade ou mesmo nos informarmos, embora elas até pareçam com uma versão digital da praça pública, elas não são um bem coletivo. O problema não é nem que tenham dono, que sejam privadas. O problema é que seu controle é planetariamente concentrado nas mãos de poucos. O ideal é que tivéssemos muitas redes sociais e nenhuma fosse dominante, que todas fossem de donos distintos e que portanto seu impacto total fosse distribuído. Que a decisão de um destes donos não tivesse capacidade de estragos imensos na sociedade. Não é assim, infelizmente.

Carlos Melo* - Qual a razão da força de Trump?

- O Estado de S. Paulo

A força do mal-estar dos excluídos pela 4ª Revolução é que faz Trump ousar e contestar.

Goste-se ou não, Donald Trump é um forte. Pois, posto à sabatina do manuais da política, fez tudo ao contrário do que se pode esperar de um presidente de um grande país: governou basicamente para seus eleitores; fragmentou ao invés de agregar; açulou o ódio racial, o hedonismo, a arrogância. Criou mais confusões do que concórdia, não deu caminhos de solução para os problemas; não apontou saídas para os impasses de uma sociedade perdida na transição entre a velha e a nova economias. E, ainda assim, Donald Trump chegou longe, a ponto de, desde o início da apuração, deixar analistas assustados com a hipótese de mais uma surpreendente vitória. Seu desempenho é melhor do que muita gente esperava.

Qual a razão dessa força de Donald Trump? Seu poder não brota de qualidades pessoais, certamente. Ela não reside no seu carisma duvidoso; na rudeza de seus gestos ou na estreiteza de sua sofisticação intelectual. No palco da grande política mundial, Trump não passa da categoria de canastrão incapaz de ombrear-se com grandes nomes da história – a comparação que tentou forjar com Abraham Lincoln soou risível. Seus atos e seu texto são limitados, voltados para o público do que os próprios americanos chamariam de soap opera, novelas e dramalhões de gosto duvidoso.

Flávia Oliveira - Esplendor da diversidade

- O Globo

Como os EUA, o Brasil também anda repartido entre retroceder ou avançar na agenda de direitos civis

Em tempos de democracias ameaçadas, bom saber que, em 120 anos, nunca tantos — e tão diferentes — eleitores votaram nos Estados Unidos do pleito facultativo. A Universidade da Flórida estimou que pelo menos 160 milhões de pessoas participaram da eleição presidencial. O comparecimento de dois em cada três eleitores é o maior desde a virada do século XX, com pandemia, com tudo. Um feito. No voto popular, Joe Biden tornou-se o candidato à Casa Branca mais votado da História, escolha de quase 73 milhões de eleitores; o presidente Donald Trump ultrapassou a própria marca e alcançou 69 milhões de votos. A diferença pequena entre o democrata e o republicano é evidência de que foi a polarização o combustível da participação recorde do eleitorado. Significa que, quando sair da apuração, o país estará mais dividido que nunca. E dará esse recado ao mundo.

Impressiona o engajamento a Trump numa campanha, para ficar em dois grandes temas, ancorada na inépcia de uma gestão federal que deixou os EUA, o país mais rico do mundo, serem o primeiro em mortes pela Covid-19; e na leniência do presidente da República com movimentos de supremacia branca e criminalização das manifestações antirracistas, as maiores em meio século. Em discurso na convenção democrata, transmitido do Museu da Revolução Americana, na Filadélfia, o ex-presidente Barack Obama foi direto: “O que está em jogo agora é nossa democracia”.

Nelson Motta - Ouro negro

- O Globo

No Brasil, quando não é ostensivo e explícito, o racismo é disfarçado

De Machado de Assis a Pelé, o Brasil é negro da cabeça aos pés. Até os racistas sabem disso. De Pixinguinha a Ismael Silva, a Cartola, a Paulinho, a Gil, a Djavan, a Tim Maia, a Jorge Benjor, foi construída a música brasileira que divertiu e alegrou o mundo. É incontável a lista de brasileiros negros que contribuíram decisivamente para nossa identidade cultural, muitos ainda escondidos na História oficial. Um avanço é que muitos brasileiros estão deixando de se declarar pardos, ou mulatos, para se assumirem como negros no Censo do IBGE. Os programas de cotas estão funcionando. E o racismo nunca foi um tema tão discutido no Brasil. Novas estrelas negras surgem no jornalismo e nas artes.

Desmoralizada a farsa da harmonia racial, apesar de a grande maioria da população ser afrodescendente, o Brasil ainda é um dos países mais racistas do Ocidente. Nos Estados Unidos, com 12% da população, os negros conquistaram muito mais espaço, poder, dinheiro e prestígio em muitos setores da sociedade. Tiveram até o presidente Obama e ainda enfrentam problemas crônicos de violência policial. Mas lá quem não é branco, preto é, não há mulatos.

O QUE A MÍDIA PENSA – Opiniões / Editoriais

O resgate da democracia – Opinião | O Estado de S. Paulo

Joe Biden lembrou em seu pronunciamento que a disputa eleitoral é o momento em que o povo é soberano para escolher seu governante.

Em discurso de estadista, o candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, disse que “ninguém vai nos tirar nossa democracia, nem agora nem nunca”. Foi um pronunciamento destinado a relembrar que a disputa eleitoral, numa democracia, não é uma guerra em que o adversário deve ser aniquilado, mas o momento em que o povo é soberano para escolher seu governante. 

Para que esse processo seja legítimo, enfatizou Joe Biden, “todo voto tem de ser contado”. Parece uma obviedade, mas não é: quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tudo faz para interromper a contagem que indica sua derrota e denuncia, sem qualquer prova, uma suposta fraude nos votos já contados, é preciso lembrar do que é feita a democracia, conceito que é estranho a Trump e, infelizmente, a muita gente nos Estados Unidos – como mostra a expressiva votação que o atual presidente obteve.

Por isso, fez muito bem o candidato Joe Biden ao enfatizar que, se confirmada sua eleição, ganhará “como democrata”, em referência a seu partido, mas governará “como presidente”. E declarou: “Temos que nos ouvir uns aos outros, respeitar e cuidar uns dos outros, nos unir como nação. Sei que não será fácil. Sei como são profundas as diferenças, mas sei que, para progredirmos, precisamos parar de tratar os oponentes como inimigos”.

Trata-se de uma mensagem poderosa, uma brisa de bom senso em meio à tormenta autoritária que tomou os Estados Unidos desde a eleição de Donald Trump, há quatro anos. Nada disso significa, contudo, que o horizonte político norte-americano se desanuviará no curto prazo, pois as condições que possibilitaram a ascensão do populismo destrutivo de Donald Trump se mantêm.

Há uma imensa massa de norte-americanos que se consideram esquecidos pelo establishment político e econômico. São cidadãos ressentidos, predispostos a crer que são vítimas do “sistema” representado por Washington e Wall Street e que se sentem desrespeitados por minorias que desafiam seus valores conservadores para ganhar espaço político e impor sua agenda.

Música | Gal Costa e Marília Mendonça - Cuidando de longe

 

Poesia | Castro Alves - O livro e a América

Ao Grêmio Literário

Talhado para as grandezas,
P'ra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.

(...)

Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Gutenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto —
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.

Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
P'ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz!...

Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Merval Pereira - Paradoxos da democracia

- O Globo

Esta eleição presidencial dos Estados Unidos está sendo paradoxal, com cerca de 157 milhões de americanos comparecendo às urnas sem serem obrigados a isso, a maior participação popular nos últimos cem anos, ao mesmo tempo que o presidente Trump, que tenta a reeleição, coloca em dúvida a lisura da apuração em estados como Wisconsin e Michigan, mas joga suas fichas numa vitória em alguns outros estados que ainda apuram para impedir que Biden seja declarado presidente.

Ou seja, Trump quer parar a apuração em estados em que está perdendo, e acelerar a apuração nos que acredita poder vencer. Mas ele tenta parar também a apuração em estados em que vence, como a Pensilvânia, mas teme perder ao final, pois considera suspeita a recuperação de Biden com os votos vindos pelo correio.

A diferença entre Biden e Trump em vários estados é muito pequena, e o presidente Trump já começa a pedir recontagem. Mas ele venceu Hilary em 2016 por uma margem muito apertada também em vários estados, e não houve apelação dos democratas. Os republicanos na era Trump passaram a fazer jogadas políticas muito mais desleais do que historicamente acontecia. Trump dominou o partido republicano e suas práticas. Como nomear uma ministra da Suprema Corte em processo rapidíssimo, poucos meses antes da eleição, quando impediram que o então presidente Obama nomeasse o substituto de Antonin Scalia quase um ano antes da eleição.

Míriam Leitão - O estadista e a assombração

-  O Globo

O discurso de Joe Biden ontem à noite foi uma serena declaração de vitória, mesmo que ele tenha negado já ter vencido a eleição. Precisava confirmar seu lema de que “todo voto será contado”. Agiu e falou como um estadista tentando reunir o país após a eleição. No mesmo momento, o presidente Donald Trump queria parar a contagem dos votos. Trump continuará sendo forte após a derrota na eleição? Não. O que lhe deu força nos últimos quatro anos foi o extraordinário poder da presidência americana. Fora dela, será apenas o ex-presidente. Mas o país que sai das urnas está com fratura exposta, o que exigirá de Biden um enorme esforço para superar tão funda ferida.

O partido Republicano terá que fazer algum tipo de transição para uma liderança mais moderada para voltar a se comunicar com uma parte do eleitorado. Até por instinto de sobrevivência, precisará se afastar de Trump, o líder tóxico. O partido Democrata, mesmo vencendo a eleição, precisará de muita habilidade para governar. Primeiro, para costurar as diferenças das tendências internas, depois para governar sem o controle do Senado, e por fim, e mais importante, para reduzir a extrema tensão que dominou o país nos últimos anos.

Luiz Carlos Azedo - A vitória de Biden

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

A gravidade do que Trump está fazendo, ao tentar melar as eleições, é a ruptura com a ordem democrática dos Estados Unidos, o regime republicano mais antigo e estável do planeta

Ao contrário do republicano Donald Trump, que se declarou reeleito e prometeu contestar o resultado da apuração das eleições à Presidência dos Estados Unidos na Suprema Corte, o candidato democrata Joe Biden não cantou vitória antes da hora. Aguarda a conclusão da apuração dos votos em todos os estados, embora Arizona, Nevada e Wisconsin, desde a tarde de ontem, e Michigan, no começo da noite, já sinalizassem a vitória democrata, que ainda podem virar o resultado na Pensilvânia e ampliar a margem sobre os republicanos. Trump, porém, não quer deixar a Casa Branca, está fazendo tudo para melar a apuração dos votos e pode levar os Estados Unidos à inédita crise institucional, o que torna o pleito ainda mais paradigmático.

O sistema eleitoral norte-americano é complicado, difere de todos os demais países democráticos. As eleições nacionais são para a Câmara dos Deputados, o Senado e a Presidência. Há um total de 435 representantes na chamada Câmara Baixa (House of Representatives) do Capitólio americano, com mandato de dois anos. A cada 10 anos, um censo é realizado para contabilizar a população e dividir essas cadeiras. No Senado, a Câmara Alta, cada estado tem dois representantes, independentemente do tamanho de sua população, totalizando 100 senadores, com mandato de seis anos.

Há somente dois partidos grandes, o Partido Republicano e o Partido Democrata; os pequenos só têm abrangência estadual ou local. O sistema eleitoral foi criado em 1787, pela Constituinte, fruto da Revolução Americana. O pacto da Independência firmado pelos estados e as colônias, que se relacionavam diretamente com a administração britânica — o nome já diz, Estados Unidos da América —, estabeleceu um sistema que lhes garantisse a maior autonomia possível em relação à União. Por isso, o presidente não é eleito pelo voto popular direto, como ocorre no Congresso (Câmara e Senado). A instituição que escolhe o presidente é o Colégio Eleitoral, que tem previsão constitucional, formado por delegados indicados pelos estados. Foi a maneira encontrada para manter a influência dos estados e, assim, mitigar a decisão da maioria dos eleitores.

Ricardo Noblat - Trump deve perder, mas o trumpismo continuará vivo

- Blog do Noblat | Veja

Eleição histórica, mas não decisiva

Na noite de 4 de novembro de 2008, minutos depois de Barack Obama ter feito o discurso da vitória, começou nas redes sociais a articulação para eleger um presidente de direita. Para a eleição seguinte não deu – Obama foi reeleito com folga.

Mas deu para a próxima quando o empresário do ramo imobiliário e astro de televisão de nome Donald Trump derrotou a candidata democrata Hillary Clinton, duas vezes primeira-dama dos Estados Unidos e senadora pelo Estado de Nova Iorque.

A primeira eleição de Obama pode ser considerada histórica. Foi o primeiro presidente negro. A de Trump pode ser tachada de eleição improvável, surpreendente. Nem ele acreditava que fosse possível. Entrou na Casa Branca sem saber o que fazer.

Deverá sair por sua culpa. Subestimou a pandemia do coronavírus que já matou mais de 235 mil americanos, e que somente ontem registrou 100 mil novos casos, o que levou as pessoas a anteciparam seus votos e a votarem pelo Correio.

Bruno Boghossian – A testemunha da rachadinha

- Folha de S. Paulo

Com depoimento de ex-assessora, fica difícil negar festa com dinheiro público na Assembleia

Em agosto de 2011, Fabrício Queiroz não tinha ideia de que Jair Bolsonaro se tornaria presidente da República. Na época, o policial militar aposentado conduzia normalmente os negócios de um dos gabinetes da família. Uma nomeação que ele acertou naquele mês ressurge como um fator de risco para o clã que agora comanda o Planalto.

Uma ex-assessora de Flávio Bolsonaro admitiu a investigadores do caso da rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio que devolveu quase todo o salário para Queiroz por seis anos, como noticiou o jornal O Globo. Luiza Sousa Paes disse que repassava 90% da remuneração, os benefícios do cargo e até a restituição do imposto de renda.

Com a confissão, fica mais difícil esconder a festa com recursos públicos que, segundo os promotores, corria no gabinete do filho do presidente. A ex-assessora apresentou comprovantes dos depósitos para Queiroz e ainda se comprometeu a restituir a pequena parcela do dinheiro que ficou com ela no fim das contas.

Lúcia Guimarães - Trump não é uma anomalia

- Folha de S. Paulo

Falta de repúdio ao presidente mais perigoso da história americana é reveladora

Já sabemos o resultado da eleição americana de 2020. Não importa a lenta contagem da Pensilvânia, que pode ser decidida num tribunal. Ou o suspense de uma recontagem em outro estado.

O resultado que importa chegou mais rápido do que a inesperada vitória de Donald Trump, que os nova-iorquinos testemunharam na madrugada fria de 9 de novembro de 2016. Naquele dia, a multidão atordoada que vi se dispersar em Times Square, coração da metrópole democrata, parecia compartilhar a ilusão de que Trump era um acidente de percurso.

Os últimos quatro anos demonstraram que Trump não é uma anomalia. É um espelho do país que o elegeu. Sim, Joe Biden terá recebido o maior número de votos populares de qualquer candidato desde a fundação da República. É a sétima vez, em oito eleições, que o Partido Democrata sai vitorioso no voto popular, mas os republicanos levaram a Casa Branca em quatro delas.

Vinicius Torres Freire – Uber, alucinógenos e presidente fraco

- Folha de S. Paulo

Congresso e país divididos animaram os negócios nos mercados financeiros dos EUA

No estado do Oregon, aquele logo ao norte da Califórnia, ter pequenas quantidades de ecstasy, cocaína, LSD, metanfetamina e cogumelos alucinógenos ou seus derivados deixa de ser crime, decidiram os eleitores na terça-feira (4) de eleições e de outras votações americanas. Mais quatro estados legalizaram a maconha –agora são 15.

Na Flórida, aumentaram o valor do salário mínimo. Na Califórnia, o lobby das empresas de aplicativos de transporte e entregas convenceu o eleitorado a derrubar a decisão da Suprema Corte estadual que obrigava essas firmas a tratar motoristas e entregadores como empregados, não como terceirizados sem vínculo e direitos trabalhistas.

Mas o decisivo mesmo, como vai se vendo, é que os Estados Unidos continuam divididos até a medula, que o presidente não terá maioria no Congresso e que políticas públicas fundamentais podem não avançar por causa de impasses e desacordo partidário incontornável.

Maria Hermínia Tavares* - A sombra do populismo

- Folha de S. Paulo

Ganhando ou perdendo eleições, o populismo está aí para ficar

Se confirmada, a derrota de Donald Trump fará bem à democracia nos Estados Unidos e no mundo. Atestará que a corrosão das instituições representativas não é a única sina dos países que se entregaram a líderes populistas. Tendo ascendido pelo voto livre, podem ser por ele dispensados antes de consumar os seus projetos autoritários.

Mas o provável resultado das eleições americanas não garante a transferência suave do governo para os democratas. E ainda que ocorra no final das contas, enfraquecerá, mas não erradicará, lideranças que, naquele país ou em qualquer outro, e não apenas nos dias que correm, se afirmam representantes do "povo verdadeiro" —o volk, no jargão nazista— em contraposição a elites cosmopolitas, surdas aos anseios das pessoas comuns. Em seu nome, os populistas agem para solapar as regras que limitam o poder dos governantes e garantem os direitos de todos, inclusive das minorias.

Fernando Schüler* - Negacionismo democrático

- Folha de S. Paulo

Em vez de ajustar nossas opiniões à realidade, tendemos a ajustar a realidade a opiniões

 “Os cidadãos são racionais em sua visão das instituições políticas, atualizando sua avaliação em resposta ao que observam”, diz relatório recém-lançado da Universidade de Cambridge sobre a percepção da democracia.

A confiança nas instituições declina porque os governos falharam em coisas como “a coordenação econômica na zona do euro” e na resposta mais efetiva à “mudança climática global”.

Fiquei em dúvida se os autores listavam alguns itens de suas próprias predileções políticas ou de fato imaginam que sejam estas as preocupações das pessoas e causa de sua crescente insatisfação com a política. Mas este não é o ponto. O ponto é que suas conclusões expressam bem o que os professores Christopher Achen e Larry Bartels chamam de teoria “folk” da democracia.

Achen e Bartels discutem o tema em seu livro “Democracia para Realistas”. Seu alvo são as visões ingênuas que teimam em tratar a democracia como expressão dos “interesses” dos eleitores que talvez tenha florescido à sombra da famosa frase de Lincoln em Gettysburg.​

Zeina Latif* - Aqui, a música é outra

- O Estado de S.Paulo

Na eleição dos EUA, quem quer que seja o vencedor, terá dificuldades internas

A sociedade americana valoriza as liberdades individuais e isso se refletiu na construção do Estado, ao se evitar dar poderes excessivos ao chefe do Executivo. Esse aspecto foi reforçado historicamente pelo funcionamento de freios e contrapesos para conter excessos de governantes. Como resultado, há menos intervencionismo estatal e, assim, menor dependência da economia na ação governamental.

A despeito do descontentamento dos americanos com as instituições, os Estados Unidos são uma democracia madura. Os riscos de retrocessos e ações truculentas do presidente, que firam espírito da Constituição, são menores. Não há complacência das instituições democráticas. Exemplo disso foi a aprovação do impeachment do presidente Trump na Câmara dos Deputados. Não passou no Senado, mas o recado foi dado.

Trump se encaixa bem na figura de falastrão. Ainda que não se possa escrever em pedra promessas de campanha (nem nos Estados Unidos), o fato é que não seria justo acusá-lo de inação ou de trair seus compromissos. Enquanto isso, as instituições funcionam.

Eugênio Bucci* - A Terra plana, assim cantou José Miguel Wisnik

- O Estado de S.Paulo

Os terraplanistas sentem-se humilhados diante do saber e respondem com insultos

No dia 10 de setembro perdemos o astrofísico brasileiro João Steiner. Tinha 70 anos de idade. Professor titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, foi também diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da mesma universidade e coordenou a participação brasileira na construção do Telescópio Gigante de Magalhães, o maior já feito até hoje, que será inaugurado em 2024, nos Andes chilenos.

Sorriso acolhedor, cabelos brancos, longos, por vezes indisciplinados, João tinha o physique du rôle do gênio bonachão, um tipo meio cinematográfico. Não havia na USP ninguém mais desarmado e menos arrogante do que ele. Membro da World Academy of Sciences, foi uma das maiores autoridades do mundo em buracos negros, mas não botava banca. Amava a ciência e a humanidade.

Uma vez, almoçando com um colega menos graduado no restaurante que fica atrás da Faculdade de Economia, na Cidade Universitária, ouviu uma pergunta que o desconcertou: qual era a sua opinião sobre o fato de um astronauta ser ministro da Ciência e da Tecnologia no Brasil? João sabia perfeitamente do descalabro e da incultura que começavam a se instalar no poder, mas, discreto por estilo e convicção, não se prestava a alaridos panfletários. Serenamente, pousou as duas mãos sobre a mesa, uma de cada lado do prato, e achou um ângulo de escape onde só havia más notícias: “Pelo menos ele sabe que a Terra é redonda”. A inteligência de João Steiner era assim, sempre nos presenteava com um pouco de bom humor.

William Waack - Trump não perdeu

- O Estado de S.Paulo

A política americana, tal como personificada por Trump, continua intacta

Donald Trump não foi repudiado nestas eleições. Não se trata da pessoa Donald Trump, mas do que ele expressa em suas ações políticas, nesse intrincado jogo no qual o indivíduo é ao mesmo tempo sujeito (em pequena medida, dirão os historiadores clássicos) da História e apenas seu mero resultado. 

E o que Trump expressa? O fato de que foram destruídos em larga medida os hábitos de moderação – debate aberto e tolerante, a oposição leal – em cima dos quais prosperou o liberalismo americano e seu espírito de comunidade e Nação. Essa destruição ocorreu vigorosamente nos dois “grandes lados” do espectro político.

As elites de negócios conseguiram transformar o governo e suas agências de regulação em instrumentos que favorecem interesses paroquiais ou setoriais, em detrimento de outros. Em parte como resposta a crises financeiras, aprofundaram desigualdades e desequilíbrios que tem se perpetuado em função de movimentos demográficos e, principalmente, pelo “big divide” que é o acesso à educação (um dos grandes definidores de “elite”).

Ascânio Seleme - Frustração, vergonha e medo

- O Globo

Uma parcela gigantesca da população acreditou e segue acreditando em Trump

Mesmo que Joe Biden ganhe a eleição, o fato que se sobrepõe é que os poderosos Estados Unidos são uma nação aterrorizada pelo medo. Há diversas explicações para os milhões de votos dados a Donald Trump, o mais antidemocrático presidente americano de todos os tempos, mas o fantasma do radicalismo de esquerda é de longe o fator mais importante. Uma parcela gigantesca da população acreditou e segue acreditando na acusação de Trump de que Biden e os democratas são perigosos socialistas. Uma bobagem sem tamanho. Nas questões econômicas, os democratas estão mesmo à direita dos republicanos.

Ainda assim, o discurso de que políticas socialistas dos democratas mudariam a cara dos EUA se Biden ganhasse conquistou número astronômico de eleitores. O avanço de Trump sobre os votos hispânicos, tradicionalmente democratas, ajuda a explicar esse medo. Trump disse ao longo da campanha, e mesmo antes dela, que os democratas abririam as fronteiras. Mentira. Mas, se fosse verdade, poderia se supor que seria uma boa novidade, porque enfim os imigrantes se reuniriam com familiares que ficaram para trás. Nada disso. Mais de 75% dos hispano-americanos nasceram nos EUA, seus círculos familiares e pessoais estão lá assentados, e uma abertura ampla para imigração ameaçaria diretamente seu posto de trabalho.

Deve-se considerar também que os hispânicos são religiosos e conservadores. Na Flórida, onde Biden perdeu, os cubano-americanos lideram a comunidade e extravasam seu ódio ao comunismo desde 1960, quando Fidel Castro tomou o poder em Cuba. Nos últimos 20 anos, um grande contingente de venezuelanos imigrou para o estado americano, fugindo da política de Chávez e Maduro, e trouxe na bagagem o mesmo espírito. Além disso, ao redor dos Estados Unidos, o medo do desarranjo econômico que os “esquerdistas radicais” poderiam produzir também impulsionou a campanha de Trump.

Carlos Alberto Sardenberg - Que susto, hein?

- O Globo

Bolsonaristas vão dizer que Trump foi roubado, assim como Bolsonaro acha que foi roubado numa eleição que ganhou

Quando Donald Trump derrotou Hillary Clinton em 2016, fazendo jogo sujo, fazia sentido supor que isso tivesse acontecido por falta de conhecimento. Os americanos conheciam Trump como apresentador de TV e, digamos, um milionário metido a besta.

Era razoável supor também que boa parte dos eleitores estivesse farta da velha política, ali representada pela figura de um clã. Ok, Bill Clinton havia sido um bom presidente, Hillary tinha uma carreira pessoal de muito sucesso, mas de novo?

Também dava para imaginar que, depois de Obama, os americanos estariam decididos a experimentar uma virada à direita, como acontecia noutras partes do mundo.

Mas tudo isso se pensou depois da eleição. Porque, antes, era difícil imaginar que, depois de eleger o primeiro presidente negro, com o nome Barack Hussein, os americanos passassem para Trump.

Passaram, ganharam o benefício da dúvida.

Mas, passados quatro anos e Trump confirmando todo o jogo sujo que se esperava dele — e sendo agora amplamente conhecido como político —, admito que me surpreendi com a competitividade dele.

Bernardo Mello Franco – Democracias comparadas

- O Globo

Os americanos gostam de dar lições de democracia, mas não têm muito a ensinar sobre eleições. Mais uma vez, a corrida à Casa Branca terminou em tumulto. Ontem à noite, ainda não era possível cravar quem venceu a disputa presidencial.

Parte dos problemas decorre de um sistema arcaico. Os Estados Unidos resistem a abandonar o voto indireto, que distorce a vontade dos cidadãos. Quem recebe mais votos nem sempre leva a Presidência. Na matemática do colégio eleitoral, um morador do Wyoming vale por três da Califórnia.

A apuração dos votos também deixa a desejar. No país mais rico do mundo, muitos estados ainda usam cédulas de papel. Em 2000, a eleição empacou por falhas na contagem de cartões perfurados. Agora o problema é a demora para contabilizar os votos enviados por correio.

Na disputa deste ano, surgiu um novo e poderoso fator de incerteza. Mau perdedor, Donald Trump quer garantir sua reeleição no grito. Ele cantou vitória antes da hora e disse, sem qualquer prova, que haveria fraude para prejudicá-lo. Um factoide para tumultuar o processo e desacreditar os números oficiais.

Guga Chacra - O mundo paralelo de Trump

- O Globo

Quando me despedi dos meus filhos na terça-feira de manhã e vim para os estúdios da Rede Globo, em Nova York, para a cobertura da votação presidencial nos Estados Unidos, fiquei pensando se esta seria a última vez que os veria antes de uma derrota humilhante de Donald Trump, ou de uma reeleição heroica do republicano com a consolidação do trumpismo. O mais provável, porém, era de que não teríamos uma definição na noite eleitoral destas surreais eleições americanas. Foi o que aconteceu.

Desde 2000, no histórico embate da Flórida entre George W. Bush e Al Gore, não tínhamos uma eleição tão imprevisível ao se abrirem as urnas. Mesmo em 2016, ficou claro poucas horas depois do início da apuração que Hillary Clinton seria derrotada. Neste ano, ao escrever este texto, o resultado permanece incerto, mas há uma via mais clara para Biden ser vitorioso. Com as vitórias no Arizona, Michigan e Wisconsin, de acordo com a Associated Press, Biden precisa apenas confirmar a sua liderança em Nevada, o que é extremamente provável. Sequer precisaria vencer na Geórgia e na Pensilvânia, onde também tem chance.

Ivan Alves Filho* - O populismo, ontem e hoje

Trata-se de um equívoco acreditar que o fascismo seja um fenômeno de economias pouco desenvolvidas. Os fatos não mentem: tanto a Itália de Mussolini quanto a Alemanha de Hitler se alinhavam entre as nações mais industrializadas da Europa, nas décadas de 20 e 30, do século XX. O fascismo pode ser expressão do atraso, mas do atraso político.

O mesmo podemos dizer em relação ao populismo brasileiro. Seu berço maior é São Paulo, a chamada locomotiva do Brasil. Dali partiram Ademar de Barros, Jânio Quadros, Paulo Maluf e Lula da Silva.

Ademar foi interventor federal sob o regime estadonovista (1938-1941), duas vezes governador de São Paulo (1947-1951 e 1963-1966) e duas vezes candidato à presidência da República, ficando na terceira colocação em ambas as disputas (1955 e 1960). Deu origem ao ademarismo.

O QUE A MÍDIA PENSA – Opiniões / Editoriais

O abismo –Opinião | O Estado de S. Paulo

Foi-se o tempo em que o ministro da Economia era o esteio do governo federal, especialmente em tempos de crise. Com status privilegiado, o chefe da equipe econômica quase sempre teve autoridade e prestígio para suportar as pressões inerentes a seu cargo, sobretudo porque é dele que se esperam decisões que vão afetar diretamente a vida da maioria dos brasileiros. Hoje não é mais assim.

O presidente Jair Bolsonaro conseguiu a proeza de transformar seu ministro da Economia, Paulo Guedes, em personagem secundário no jogo de poder em Brasília. Nisso emparelhou com a presidente Dilma Rousseff, que fez de sua equipe econômica uma simples despachante de seus delírios fiscais.

E não se diga que a responsabilidade por esse fiasco é inteiramente do presidente da República e de sua patente incapacidade para estabelecer um rumo para seu governo. O ministro da Economia colaborou decisivamente para seu próprio apequenamento. 

Escalado para ser a face racional de um governo que tinha tudo para ser, digamos, excêntrico, o ministro Paulo Guedes frustrou todas as expectativas, graças à sua incapacidade de aceitar o diálogo político, único meio de encaminhar propostas numa democracia. O ministro foi inábil para convencer até mesmo o presidente Bolsonaro de suas ideias.

Música | Luiz Melodia - Estácio, Holly Estácio

 

Poesia | Vinicius de Moraes - Soneto do amor total

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.