terça-feira, 25 de abril de 2023

Yuen Yuen Ang* - Neoliberalismo e intervencionismo

Valor Econômico

Uma terceira opção, há muito negligenciada, é os governos supervisionarem processos de baixo para cima de improvisação e criatividade

Intervir ou não intervir. Esse tem sido o debate central sobre o papel do Estado na economia pelo menos desde o século XVIII. Nos últimos 40 anos, os Estados Unidos e outras democracias liberais do Ocidente defenderam o livre mercado, o livre comércio e um papel limitado para o governo - uma posição conhecida como neoliberalismo ou “fundamentalismo de mercado”. Para alguns comentaristas, a aprovação recente da Lei dos Chips e da Ciência e da Lei da Redução da Inflação (IRA, na sigla em inglês), as duas políticas industriais que são a marca do governo do presidente Joe Biden, representa o fim do neoliberalismo e o ressurgimento do intervencionismo como paradigma dominante.

Mas essa é uma falsa dicotomia. Os governos não estão limitados a uma escolha binária entre o laissez-faire e o planejamento de cima para baixo. Uma terceira opção, há muito negligenciada pelos formuladores de políticas e economistas, é os governos supervisionarem processos de baixo para cima de improvisação e criatividade, algo semelhante ao papel de um maestro de orquestra. É possível encontrar muitos exemplos disso na China e nos Estados Unidos.

O neoliberalismo surgiu como paradigma dominante de formulação de políticas no Ocidente na década de 80. Sob o presidente Ronald Reagan, os EUA buscaram a desregulamentação, cortaram impostos e reduziram os programas de assistência social. A intervenção do governo, dizia o pensamento, inevitavelmente leva a distorções de políticas, dependência de esmolas estatais e corrupção. Como Reagan disse em seu primeiro discurso de posse, “o governo não é a solução para o nosso problema; o governo é o problema”.

Íntegra do discurso de Chico Buarque após receber prêmio Camões

 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Câmara precisa imprimir urgência ao PL das Fake News

O Globo

Não há mais tempo a perder com debates quando está em jogo a sobrevivência da democracia

Está na pauta da Câmara a votação do regime de urgência para a apreciação do Projeto de Lei (PL) das Fake News, aprovado no Senado em 2020. É fundamental que os deputados sigam adiante com o plano de votar o requerimento amanhã e levar o PL à apreciação do plenário ainda nesta semana. Os eventos do 8 de Janeiro e os ataques recentes em escolas deixaram claro que é preciso agir com presteza. O Brasil não pode permitir que as redes sociais continuem a ser usinas de desinformação e violência.

A última versão do PL apresentada pelo relator, deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), está madura e incorpora os dispositivos da legislação mais moderna sobre o tema, em particular a europeia. É esperado que as plataformas digitais façam pressão para adiar a votação, mas os deputados precisam resistir. Devem evitar repetir o erro cometido ao não aprovar o PL antes das eleições do ano passado, abrindo caminho ao golpismo que se sucedeu.

Poesia | Manuel Bandeira - Desencanto

 

Música | Nara Leão - Grândola Vila Morena (Portugal: Viva a Democracia!)

 

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Opinião do dia – José de Souza Martins* (Fatalidade)

“Em graus variáveis, a anomia existe em todas as sociedades, em níveis compensáveis pela vontade coletiva em favor de elementos de identidade e de concepções relativas ao primado do bem comum. O que vem sendo chamado de política do ódio tem o deliberado propósito de dividir a sociedade, criar insegurança e medo, tornar a fatalidade mais do que um pretexto, um instrumento de controle social e político. A fatalidade se tornou um poder.”

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge, e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, é autor de "As duas mortes de Francisca Júlia A Semana de Arte Moderna antes da semana" (Editora Unesp, 2022). “A explicação de fatalidades no Brasil”, Valor Econômico, 20/4/2023.

Paulo Fábio Dantas Neto* - Turbulento abril: uma âncora na cabeça, bumerangues na mão

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Assombra-me a súbita impressão de incesto

 (“Fado tropical”, de Ruy Guerra e Chico Buarque)

Depois de ler os artigos publicados, neste 22 de abril, da jornalista Dora Kramer (“Trancos e barrancos” – Folha de SP) e do professor Pablo Ortellado (“Nada de bom pode sair do circo da CPMI” – O Globo), poderia me dispensar de escrever a coluna, enviar aos leitores os artigos citados e usar para outros fins este sábado de verão resiliente em Salvador. Acontece que o clima quente, abafado, semanas após findo o verão oficial, recusa-se a deixar a cidade, também por estar prenhe de nuvens recentemente formadas na política brasileira. A expectativa de que, a partir do céu da política, se atire ao mar uma âncora econômica e social para fincar em terreno firme o barco comum do país, avariado após uma década remando contra a maré, estremece sob impacto de raios muy amigos, anunciadores de trovões. Raios que exumam receios de nova tempestade em firmamento antes promissor, até prenunciador, conforme os mais otimistas, de um chão de estrelas. A reversão de turbina prende o colunista ao teclado em busca de compreender um pouco mais a cena atual, inclusive observando vértices entre política e sociedade.

O presidente Lula está em Portugal e por lá ficará cinco dias. Entre as cerimônias, a entrega, no emblemático dia 25, do prêmio Camões a Chico Buarque, homenagem luso-brasileira ao grande artista da nossa mãe gentil. Três dias depois, Chico estará no palco da Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, brindando o seu público progressista com boa música e um provável relato simpático, talvez entusiasmado, do momento ímpar da viagem, em que o presidente terá acertado no cravo depois de passar duas semanas golpeando a ferradura, em matéria de política externa. Nem tudo, contudo, será gentileza a Lula, nessa nova visita. Há visível contraste entre a recepção ali oferecida, em novembro, ao então presidente eleito e a que se desenha, agora, ao presidente efetivo. Noves fora cravos amistosos em recinto fechado e zagueiros russos espinhosos na rua (sejam extremistas empedernidos, ou ucranianos ressentidos), na diplomacia e na política oficial (salvo dribles desconcertantes que a torcida crente espera sempre de seus ídolos) uma polidez mais circunspecta assume o lugar da simpatia de ontem e uma expectativa atenta (para dizer o máximo), o lugar do entusiasmo de anteontem. É de depreciação veloz do capital político e simbólico adquirido nas históricas eleições brasileiras de outubro de 2022 que se fala ao se pensar nos estragos que o que se pode chamar de modo Amorim de fazer política externa causou à imagem de Lula, do governo e a um processo de reabilitação institucional do papel do Itamaraty que, bem ou mal, começou mesmo antes da posse do presidente.

Fernando Gabeira - Estilhaços da guerra na Ucrânia

O Globo

Lula começou a perder a condição de mediador ao sugerir que os ucranianos abrissem mão da Crimeia, invadida em 2014

Estilhaços da guerra na Ucrânia feriram levemente o Brasil, num momento ascendente de nossa política externa. O governo Lula conseguiu romper de forma rápida o isolamento a que Bolsonaro nos condenou. Primeiro, foi o discurso em Sharm el-Sheikh, no Egito, afirmando a política de preservação da Amazônia e do desenvolvimento sustentável. Em seguida, foram as viagens: Argentina, Uruguai, Estados Unidos e China. As coisas pareciam tão bem que Lula decidiu trabalhar pela paz na Ucrânia. É compreensível, porque segue a tradição brasileira e os fundamentos de nossa política externa: a defesa da paz.

Durante a campanha, Lula já fizera uma declaração ambígua sobre a guerra na Ucrânia. Mas isso desapareceu no oceano de declarações de uma eleição nacional em que política externa quase não conta. Lula afirmou que tanto a Ucrânia quanto a Rússia eram culpadas, pois numa guerra ambos os contendores são responsáveis. Talvez tenha sido uma manifestação radical do pacifismo que não bate com a realidade. A Ucrânia foi invadida. Os vietnamitas foram culpados por guerrear contra franceses e americanos invasores? Os antifascistas foram culpados na Guerra Civil da Espanha? Os aliados, por combaterem o nazismo?

Miguel de Almeida - A economia criativa pede passagem

O Globo

Em meio às lulices dos últimos dias, um dado passou despercebido: em 2020, a economia da cultura e das indústrias criativas (ECIC) movimentou cerca de R$ 230,14 bilhões. O valor corresponde a 3,11% do PIB brasileiro. Não é pouca coisa. Vou desenhar para que os bolsonaristas e os velhos petistas entendam o alcance dos dados: no mesmo ano, o setor automotivo representou 2,1%.

Os dados, divulgados pelo Observatório Itaú Cultural, foram montados a partir de uma metodologia própria com base no cruzamento de informações recolhidas junto ao IBGE. A ECIC reúne segmentos como cinema, rádio, mercado editorial, música, TV, artes cênicas e visuais, publicidade, design, museu, patrimônio e moda.

Outro número importante: em 2020, a ECIC empregava em torno de 7,4 milhões de trabalhadores em cerca de 130 mil empresas. De novo, é de tirar o chapéu. O PIB ECIC em 2019 representava 2,81% das riquezas brasileiras. Cresce bastante, apesar da pasmaceira brasileira.

Irapuã Santana - Violência, educação e discurso

O Globo

Alunos de unidades que passaram por seis ou mais operações policiais em 2019 apresentaram redução de 64% no aprendizado

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional determina que os sistemas de educação básica tenham, no mínimo, 200 dias letivos para a garantia de um calendário efetivo de atividades docentes.

Uma pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) diz que 74% das escolas municipais cariocas vivenciaram ao menos um tiroteio no entorno em 2019, relacionando dados do Instituto Fogo Cruzado aos fornecidos pela Secretaria Municipal de Educação do Rio sobre operações policiais próximas das escolas. O fato mais aterrorizante é que 232 unidades vivenciaram 21 ou mais tiroteios (uma em cada cinco).

Angela Alonso* - CPI ou furdunço?

Folha de S. Paulo

Se bem conduzida, comissão do 8/1 pode ser acerto de contas da nação

O Gonçalves Dias da vez é de uma pátria longe da edênica de sabiás e palmeiras. Sua imagem na invasão do Planalto abre-se a interpretações —agiu em suporte ou desbaratamento? O tempo da política é o instantâneo e, na dúvida, a cabeça do general, que não é poeta, rolou.

A celeridade do gesto governista não conteve a sanha da oposição em alongar o problema. Aí vem CPI (ou CPMI, o "m" indica o misto de senadores e deputados). O objetivo, em princípio, é esclarecer o 8 de janeiro. Mas, dada a polidez e o autocontrole dos oposicionistas, explicitados em sessão recente pelo deputado 03, pode desandar para outro propósito.

Reconstruir os fatos e responsabilizar os envolvidos, direta ou indiretamente, é imperativo. Já se investigou muito, mas também é muito o que falta. O evento ainda nem tem nome próprio. Prevalece o desnorteio nominativo: invasão, atos antidemocráticos, intentona, terrorismo, golpe. Nomear é delicado porque encaixa o acontecimento num molde, encaminha uma leitura.

Marcus André Melo* - O Jogo da Culpa

Folha de S. Paulo

A CPI será a arena para o Jogo da Culpa e aumenta o custo do apoio de Lira

Uma regularidade empírica já bem estabelecida na ciência política é que há um viés de negatividade na vida política. Os atores políticos preocupam-se menos com a reivindicação de crédito por ações benéficas do que com a negação de culpa por eventos com consequências negativas. O viés está associado à maior saliência dos custos em relação aos benefícios nos processos de decisão individual.

Em estudo experimental recente, Joshua Robison demonstrou que as estratégias de transferência de culpa são muito menos efetivas quando são oferecidas contra narrativas para os eventos negativos, comparadas com os casos em que não são oferecidas, controlando pelo grau de credibilidade das fontes (e se elas são independentes ou partidárias).

Ana Cristina Rosa - Entre a fome e o gato

Folha de S. Paulo

Relatório inédito evidencia como a pobreza energética aprofunda desigualdades

Já pensou no que você faria se tivesse de escolher entre comprar comida e pagar a conta de um serviço essencial como o fornecimento de energia elétrica? Esse é o tipo de dilema que assombra cotidianamente a vida de milhões de brasileiros privados de direitos básicos.

A pobreza é um fenômeno complexo, que sustenta a exclusão e a vulnerabilidade e ultrapassa a questão da renda. Não por acaso a chamada "pobreza energética" remete à insegurança alimentar, falta de acesso à informação e à educação – entre outros direitos da cidadania.

Considerando que a perspectiva interfere no diagnóstico de problemas sociais, a Rede Favela Sustentável e o Painel Unificador das Favelas decidiram assumir o controle da narrativa sobre esse tema nas comunidades do Rio de Janeiro.

Ruy Castro - Em defesa da empada

Folha de S. Paulo

Certas expressões ridicularizam os alimentos; muitas são de quando se amarrava cachorro com linguiça

Em coluna recente (16), comparei o ex-ator e ex-presidente dos EUA Ronald Reagan a uma empada. O leitor Marcos Benassi escreveu para defender a empada --compará-la a Reagan era uma ofensa, ele disse. E com razão. Admito publicamente o ato falho --logo eu, devorador das empadas do Caranguejo, em Copacabana-- e peço perdão. A partir de agora, vou pensar duas vezes antes de usar expressões que diminuam ou ridicularizem os alimentos. Exemplos.

Felipe Moura Brasil – Negacionista de si próprio

O Estado de S. Paulo

Quando o caldo entorna, Lula camufla suas pegadas com falsas narrativas, ecoadas por amigos

Em Portugal, Lula negou (“eu nunca igualei os dois países”) o Lula da China (“a guerra só está interessando, por enquanto, aos dois”), o Lula dos Emirados Árabes Unidos (“a decisão da guerra foi tomada por dois países”; Putin e Zelenski não tomam “a iniciativa de parar”), o Lula do Brasil (“quando um não quer, dois não brigam”) e o Lula da revista Time (“ele é tão responsável quanto o Putin, porque numa guerra não tem apenas um culpado”).

Para Lula mudar de princípios, basta mudar Lula de ambiente. Repercutindo a propaganda russa, ele vem adulando com falsas equivalências o tirano que mandou invadir e atacar um país democrático vizinho; culpando a vítima pela invasão; e acusando os EUA e a Europa, que saíram em socorro da Ucrânia, de incentivarem a guerra e darem “contribuição para a continuidade” dela.

Denis Lerrer Rosenfield* - Contradições da esquerda

O Estado de S. Paulo

O PT no poder esteve e está imerso em dilemas semelhantes aos da social-democracia alemã no final do século 19 e nas primeiras décadas do século 20

A social-democracia alemã, no final do século 19 e nas primeiras décadas do século 20, era um partido marxista inserido numa sociedade capitalista que se desenvolvia rapidamente, graças à indústria têxtil e, depois, à mineração e à metalurgia. Na perspectiva marxista, sua finalidade última (Endziel) era a implantação de uma sociedade comunista, baseada nos avanços da “luta de classes”, tendo como desfecho a revolução, identificada à salvação da Alemanha e da humanidade enquanto tal. No entanto, tal formulação era de pouca valia na condução dos assuntos corriqueiros e práticos do partido, que tinha se tornado uma grande organização, baseada em sindicatos fortes, com uma folha expressiva de salários e tendo suas próprias empresas, das quais extraía lucro.

Bruno Carazza* - Quando o pânico legisla

Valor Econômico

Ataques nas escolas estimulam epidemia de projetos ruins

Os ataques à escola Thomazia Montoro, em São Paulo, e à creche Cantinho Bom Pastor, em Blumenau, ocorridos em apenas dez dias, geraram pânico entre crianças, adolescentes e pais. Tentados a dar uma resposta diante da boataria de que uma “epidemia de ataques” estaria sendo planejada, não demorou muito para nossos políticos demonstrarem mais uma vez seu despreparo para indicar soluções para problemas complexos.

A deputada Silvia Waiãpi (PL-AP) foi a mais rápida. Tenente do Exército e integrante da bancada da bala, a novata protocolou no mesmo dia em que um adolescente matou a facadas a professora Elisabeth Tenreiro o PL 1.446/2023, que torna obrigatória a instalação de portais de raios-x nas escolas públicas e privadas do país. Era só o começo.

Segundo levantamento que realizei na página da Câmara na internet, de 27/03 a 20/04 foram apresentados 565 projetos de lei ordinária. Desses, nada menos que 104 (18,4%) tratavam de violência em ambiente escolar, cada um apresentando um caminho diferente para se prevenir e coibir atentados contra nossas crianças e adolescentes.

Alex Ribeiro - Por que o juro alto não baixou mais a inflação?

Valor Econômico

Impulso fiscal e juro neutro atrapalham o trabalho do Banco Central

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, admitiu na semana passada, em um evento em Londres, o que já estava implícito na comunicação do Comitê de Política Monetária (Copom): a queda da inflação está mais lenta do que o esperado, dados os altos níveis dos juros reais.

Do ponto de vista prático, ele deu uma sinalização importante: como a inflação não está caindo da forma prevista, não é possível antecipar quando o Copom poderá começar a cortar a taxa básica de juros. Isso significa que o mercado financeiro, que vinha precificando chances cada vez maiores de uma baixa prematura da Selic, deveria moderar as suas apostas.

Mas fica a pergunta: por que a Selic nos atuais 13,75% ao ano, tão combatida pelo governo, não está surtindo o efeito esperado para baixar a inflação? Os juros reais estão acima de 7% ao ano desde o segundo trimestre de 2022. Apesar disso, a média dos núcleos de inflação favoritos do BC, que excluem preços mais voláteis, segue em 7,8%, no acumulado em 12 meses. A inflação dos serviços mais afetados pelo ciclo econômico também está em 7,8%.

Entrevista | Yuval Harari: ‘Em Israel, tentam evitar a catástrofe e salvar a democracia’

Por Paola de Orte, Especial para O Globo

Yuval Noah Harari, um dos maiores pensadores da atualidade, diz que há risco de seu país, que completa 75 anos, ser dominado por um fundamentalismo messiânico com impactos globais

Nesta semana, Israel comemora 75 anos de fundação — no calendário judaico, uma vez que a criação do país ocorreu em 14 de maio de 1948 — vivendo um dos momentos mais críticos da sua História. Para Yuval Noah Harari — um dos pensadores mais importantes da atualidade, o autor dos best-sellers “Sapiens” e “Homo Deus” — há o risco de seu país virar uma teocracia messiânica. E, como tem tecnologia nuclear, poder militar e conhecimento tecnológico, os efeitos poderiam ser globais: “O que está acontecendo aqui pode ter impacto direto em processos e eventos muito além das fronteiras de Israel e até do Oriente Médio”, diz ele, sobre a proposra de reforma do Judiciário de Benjamin Netanyahu, que pode acabar com o controle sobre o governo e tem gerado confrontos que estão afastando investimentos, gerando violência e tornando a nação inviável.

Aos 47 anos, o pensador, que nasceu em Qiryat Atta — cidade no Norte do país, entre Haifa e Nazaré — Israel pode estar jogando fora uma história de conquistas importantes. Por isso, diz, muitos lutam: “as forças seculares e democráticas em Israel estão fazendo tudo o que podem para impedir esta catástrofe histórica e salvar a democracia israelense”.

O que a fundação de Israel significou para o mundo?

O estabelecimento de Israel reparou uma enorme injustiça histórica: a perseguição às comunidades judaicas durante séculos na maior parte das regiões em que viviam, culminando com o Holocausto. Foi também parte do processo de colapso dos impérios europeus e do estabelecimento de Estados-nação independentes após a Segunda Guerra. Quando me pedem para refletir sobre o país em seu 75º aniversário, digo que é preciso julgar sua política em comparação com outros países fundados ao mesmo tempo. Assim, Israel é talvez o mais bem-sucedido em termos econômicos, de cultura e de tecnologia, e o incrível é que conseguiu isso apesar de condições muito difíceis.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

CPMI é uma arma que pode e deve se voltar contra Bolsonaro

Valor Econômico

O governo subestimou o poder das forças antidemocráticas que patrocinaram a aventura de janeiro

Será uma das mais bizarras comissões parlamentares de inquérito da história - e não por falta de concorrência -, a que será formada para investigar a aventura golpista de 8 de janeiro. Mais de 1.300 pessoas foram presas pelos atos de vandalismo que destruíram parcialmente o Palácio do Planalto, a sede do Supremo Tribunal Federal e o Congresso, executados por apoiadores radicais do ex-presidente Jair Bolsonaro, que perdeu as eleições, não reconheceu sua lisura e não transmitiu oficialmente o cargo. Representantes dos suspeitos, os parlamentares bolsonaristas, agora aninhados principalmente no PL, insistiram em convocar a CPMI e, no final, conseguiram.

A CPMI será usada como propaganda de desgaste do governo pelos bolsonaristas e a chance de ela se tornar mais um circo histérico, repleto de fake news, é grande. A tese subjacente à convocação da comissão vem do universo paralelo radical: o governo Lula teria forjado uma tentativa de golpe contra si mesmo. Lula e seus principais assessores, com suas hesitações, contribuíram para turvar o ambiente nítido de responsabilidades pelas arruaças. A cadeia dos fatos que desembocaram nos atos criminosos não deixa dúvidas de que Jair Bolsonaro foi, no mínimo, o responsável intelectual pela tentativa golpista, ao lado de militares em posto de comando no Exército e nos vários órgãos encarregados da inteligência e da segurança de Brasília.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Verbo Ser

 

Música | Paulinho da Viola - Pecado Capital

 

domingo, 23 de abril de 2023

Celso Rocha de Barros – Comece pelo Natal, CPI

Folha de S. Paulo

Nenhuma interpretação em CPI livrará líderes bolsonaristas da cadeia

Um vazamento meio esquisito de vídeos gravados durante a Intentona Bolsonarista de 8 de janeiro de 2023 trouxe de volta a ideia da CPI do Golpe.

Se ela acontecer, sugiro que comece pela história de como os bolsonaristas tentaram explodir crianças que viajavam para visitar os avós no Natal de 2022.

No dia 24 de dezembro de 2022, véspera de Natal, três terroristas bolsonaristas tentaram explodir um caminhão de combustível no aeroporto de Brasília. A polícia conseguiu impedir a explosão e prendeu os terroristas.

Um dos terroristas, Wellington Macedo de Souza foi assessor no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, dirigido, ao longo de todo o governo Bolsonaro, pela agora senadora Damares Alves (Republicanos-DF).

Os outros dois terroristas da véspera de Natal, George Washington de Oliveira Souza e Alan dos Santos Rodrigues, estiveram no Congresso pouco tempo antes do crime. Foi em uma audiência pública convocada pelo senador bolsonarista Eduardo Girão (Podemos-CE).

Vinicius Torres Freire - Lula, imposto e conflito social

Folha de S. Paulo

Mudanças no Estado são travadas ou levam um quarto de século para serem resolvidas

Entre 2016 a 2022, a conversa dominante de quem tinha o poder de direito era a limitação do gasto do governo. Em tese, era o objetivo principal da política econômica. De 2023 em diante, o assunto central deve ser o aumento de impostos.

A economia e o país dependem de muitas outras mudanças, decerto. Mas o pilar do projeto de estabilização de Lula 3 é um aumento de arrecadação em ritmo muito maior do que o do crescimento da economia. A base desse projeto é o "novo arcabouço fiscal".

A fim de que o plano de estabilização funcione, é preciso ainda que o crescimento da economia seja, no mínimo, maior do que o da média dos últimos 30 anos e quase o dobro do que se viu nos anos menos anormais depois da Grande Recessão.

Muniz Sodré* - Um balido de ovelha

Folha de S. Paulo

Em briga de cachorro grande, neutralidade já é uma forma de intermediação

Não veio a público o teor da conversa entre o assessor especial da Presidência brasileira e Putin. Discrição de Estado, pode ser. Homem ponderado, o brasileiro poderia ter aproveitado, porém, para atualizar junto ao russo a fábula do lobo e do cordeiro.

No original de Esopo, o lobo, naturalmente mais forte, rejeita os argumentos do outro porque pretende devorá-lo a qualquer custo. Numa versão atualizada, o cordeiro poderia estar marcialmente preparado para dar uma surra no atacante.

Foi mais ou menos isso o que aconteceu entre Rússia e Ucrânia. Não que esta última, guarnecida por elites militares declaradamente neonazistas, como o Batalhão Azov, vestisse pacífica pele ovina. A invasão russa, porém, foi um ataque lupino, pretensiosamente mais forte e com o "argumento" apocalíptico das armas nucleares. Não funcionou.

Hélio Schwartsman - As visionárias

Folha de S. Paulo

Livro relata as vidas e explica as ideias de quatro filósofas do século 20

Wolfram Eilenberger encontrou uma fórmula de sucesso para escrever sobre filosofia para o grande público. Ele faz um "blend" de filósofos que tenham vivido na mesma época e tratado de problemas até certo ponto contíguos, escolhe uma década marcante para todos e a partir daí vai desfilando suas biografias com uma exposição bastante competente e didática de suas ideias.

Eilenberger testou essa receita em "Tempo de Mágicos", que já comentei aqui, e agora a repete, em versão feminina, em "As Visionárias". No primeiro livro, os pensadores escolhidos foram Walter Benjamin, Martin Heidegger, Ernst Cassirer e Ludwig Wittgenstein. No segundo, são Simone de Beauvoir, Simone Weil, Ayn Rand e Hannah Arendt.

Eliane Cantanhêde - Carne aos leões

O Estado de S. Paulo

A CPI vem aí e Lula alimenta o bolsonarismo, que é craque em inverter a verdade

O presidente Lula comete um erro grave ao reforçar um dos discursos bolsonaristas mais corrosivos contra ele: o que Lula 3, mais populista, esquerdista e petista do que nunca, estaria empurrando o Brasil para alianças com a extrema esquerda internacional e o comunismo. Um discurso que se consolidou na campanha de 2022 e é capaz de minar a confiança de boa parte do eleitorado que votou nele para evitar o “mal maior”.

Três décadas após a queda do muro de Berlim e do desmoronamento da União Soviética, nem os partidos que são “comunistas” na sigla são mais comunistas, mas o bolsonarismo insiste nisso, e Lula alimenta o discurso, a fantasia e o medo, principalmente, de quem acompanha a política pelas redes sociais. Ele não ganha nada e o bolsonarismo ganha muito com suas declarações e movimentos na direção de China e Rússia e contra os EUA e Europa, atribuindo à Ucrânia, invadida, a mesma culpa pela guerra que a Rússia, a invasora imperialista.

Lourival Sant’Anna -Uma leitura ultrapassada do mundo

O Estado de S. Paulo

Lula foi convidado a participar da cúpula do G-7, algo que não se repetirá se ele não aterrissar em 2023

A leitura que o Brasil faz do mundo é equivocada e ultrapassada. A intensificação do comércio e investimentos com a China, o estreitamento dos laços com a Rússia, a tentativa de se equilibrar e extrair vantagens entre os blocos das democracias e das autocracias e a abordagem mercantilista e imediatista do interesse nacional se baseiam em premissas que já não são válidas.

A prioridade de Xi Jinping de se perpetuar no poder lançou a China num ciclo de decadência. Como na época de Mao Tsétung, Xi devolveu o Partido Comunista Chinês (PCC) ao centro das decisões, no lugar do governo. É a derrota dos tecnocratas para políticos fiéis ao ditador, da competência para a obediência.

Rolf Kuntz - Lula perdido no vasto mundo

O Estado de S. Paulo

Com muito falatório e pouco governo, Lula se afunda em bobagens, iguala agressor e agredido e assusta os parceiros ocidentais

O mundo, mundo, vasto mundo de Carlos Drummond de Andrade é certamente maior que o universo petista, insuficiente até para eleger o candidato Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. Aparentemente esquecido da ampla diversidade política de seus eleitores, o presidente Lula insiste em agir como se o Brasil e o sistema internacional fossem extensões de Vila Euclides, berço sindical de sua carreira pública. Rebaixado à condição de pária pelo presidente Jair Bolsonaro, o País começou, com a mudança de governo, a retomar sua posição no sistema regional e na ordem global. Esse retorno seria mais fácil e mais seguro se o principal porta-voz brasileiro parasse de falar bobagens, levasse em conta o Direito Internacional, deixasse de afrontar sem razão Estados Unidos e Europa e considerasse mais seriamente os interesses nacionais.

O presidente brasileiro poderia, talvez, pensar no exemplo de seus gentis anfitriões na China, maior parceira comercial do Brasil. Sem descuidar de seus interesses, os chineses continuaram, nos últimos três anos, tomando espaço dos exportadores brasileiros nos maiores mercados sulamericanos. Em 2022, ocuparam o primeiro lugar nas vendas à Argentina.

Marco Aurélio Nogueira* - O difícil equilíbrio entre blocos e imperialismos

O Estado de S. Paulo

O Brasil precisa se movimentar com largueza de visão e flexibilidade. Sua política externa está obrigada a dialogar com todos, sem preferências ideológicas

No Brasil e em muitas partes do mundo, a esquerda atravessou o século 20 combatendo o imperialismo norte-americano. Fez isso por razões histórico-políticas e movida por variadas elucubrações ideológicas. Motivos havia: a afirmação dos EUA como superpotência foi agressiva e nem sempre respeitou o princípio da autodeterminação dos povos. Foram muitas intervenções, muitos golpes patrocinados, muita pressão sobre políticos e partidos reformadores.

Depois da 2.ª Guerra Mundial, as pretensões imperialistas dos EUA sofreram a concorrência de um segundo tipo de imperialismo, o soviético. Baseado na força política e econômica da Rússia, de seu desempenho militar contra o nazismo e nos influxos da revolução de 1917, constituiu-se um “império de esquerda” assentado sobre diversos Estados nacionais do Leste Europeu: a URSS.

Luiz Carlos Azedo - Entre a guerra e a paz, Lula perde a unanimidade externa

Correio Braziliense

Lula comprometeu o apoio ocidental por causa de declarações desastradas, na China, onde se encontrou com Xi Jinping, e durante a visita do chanceler russo, Serguei Lavrov, ao Brasil

Fundador do diário L’Humanité, em 1904, o socialista francês Jean Jaurés, um professor de filosofia de origem burguesa, foi dos mais eloquentes oradores de sua geração. Reformista, combatia os ortodoxos do partido socialista e defendia a reconciliação entre franceses e alemães, o que lhe valeu o ódio dos “revanchards” (revanchistas), que queriam um ajuste de contas com a Alemanha por causa da derrota na guerra franco-alemã de 1870. Por isso, era chamado de traidor.

Em 31 de julho de 1914, Jaurès foi morto por Raoul Villain, um chauvinista radical e desequilibrado, que o atingiu com um tiro de revólver quando estava sentado numa mesa do Café du Croissant, em Montmartre, Paris. Seu assassino gritava que o então deputado socialista se opunha à mobilização geral e à guerra iminente contra a Alemanha. Dois dias depois, a Primeira Guerra Mundial começou. No mês seguinte, os socialistas Jules Guesde e Marcel Sembat ingressaram no governo de União Sagrada para ajudar a conduzir a guerra contra a Alemanha. Seu assassino foi julgado e absolvido.

Naquela época, não era fácil pregar a paz. Entre os líderes da Segunda Internacional, somente a defenderam Rosa Luxemburgo, na Alemanha, onde a social-democracia aprovou os créditos de guerra, e Vladimir Lênin, na Rússia, mas com propósitos revolucionários, e não, pacifistas.

Merval Pereira - Um STF volúvel

O Globo

Mudanças de votos de ministros do STF causam insegurança jurídica, financeira e econômica

As permanentes mudanças de posição de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), tomando decisões que muitas vezes alteram o resultado final do julgamento de um caso em que, anteriormente, votaram ao contrário, traz à discussão os critérios para a escolha do futuro ministro. Mais que insegurança jurídica, essa volubilidade dos ministros provoca insegurança econômica e financeira.

O sistema de escolha pelo presidente da República pode ser contestado quando na decisão prevalecem critérios pessoais. A escolha de um ministro “terrivelmente evangélico” deveria ser o bastante para impugnar o ato, mesmo que o indicado tenha “notório saber jurídico”. Também a escolha de um ministro que atua como advogado pessoal do presidente da República, como é o caso de Cristiano Zanin, deveria invalidar a decisão, assim como, nos Estados Unidos, o então presidente George Bush tentou indicar sua advogada pessoal, Harriet Miers, e teve que recuar diante da reação negativa.

Míriam Leitão - A nova luta da verdade

O Globo

Os acertos do governo Lula na reação aos ataques contra a democracia evitaram o pior. Mas seus erros o colocaram na defensiva

O Brasil, a democracia, e o governo Lula foram vítimas no episódio de 8 de janeiro. Essa é a única verdade factual, histórica mas, por incrível que pareça, o governo está se deixando ficar na defensiva, pela série de erros estratégicos que cometeu. Não deveria ter colocado as imagens em sigilo, deveria ter analisado todas essas cenas com rapidez, para entender o comportamento de cada um dos servidores e não ser surpreendido, como foi na semana passada. Deveria ter feito uma imediata e completa mudança no Gabinete de Segurança Institucional, um dos centros mais ativos da conspiração antidemocrática. Por isso, faz bem o ministro Alexandre de Moraes de determinar o fim do inexplicável sigilo das imagens.

O que houve no dia 8 de janeiro foi uma tentativa de golpe de estado. Isso é inequívoco. Ninguém deveria ter que escrever isso novamente como faço agora. Imagina o que teria acontecido se o presidente Lula não tivesse voltado imediatamente para Brasília, se não tivesse mobilizado todos os poderes e a federação em torno da defesa da democracia? Imagina se os golpistas tivessem conseguido provocar um efeito contágio em outras capitais? Tudo ficou extremamente frágil naquelas horas tensas do 8 de janeiro.

Elio Gaspari - A CPI do 8 de janeiro dará trabalho

O Globo

Na quarta-feira deverá ser instalada a Comissão Parlamentar de Inquérito do 8 de janeiro. Ela tem todos os elementos para mostrar o óbvio: o Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal foram invadidos por uma multidão que pedia um golpe de Estado contra o governo de Lula. Apesar disso, o comissariado petista se enrolou, tentando administrar uma realidade paralela implausível. Nela, fazia-se de conta que o apagão da segurança de Brasília ocorreu fora do seu alcance.

O governo continuou cultivando a realidade paralela na semana passada, ao dizer que o general da reserva Gonçalves Dias “saiu por conta própria” da chefia do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Ele teve que ir embora depois da divulgação, pelo repórter Leandro Magalhães, dos vídeos gravados pelas câmeras do Planalto no 8 de janeiro. Eles mostraram a cordialidade do apagão no GSI invadido.

Esses vídeos, captados por 22 câmeras, somavam 165 horas, ocupando 250 gigabytes de memória e estavam sob a guarda do GSI. Em abril, ele negou o acesso à CPI da Câmara Distrital de Brasília, informando que a tarefa era impossível, dado o tamanho do material. Patranha, não só porque ele poderia ser copiado em poucas horas, mas também porque uma semana depois da invasão do Planalto uma parte dos vídeos havia sido divulgada. Segundo Gonçalves Dias, todos os vídeos foram entregues às autoridades que investigam os acontecimentos. Nenhuma câmera estava quebrada ou desligada. Elas mostram, por exemplo, que o relógio oitocentista do Planalto foi derrubado às 15h33m, recolocado no lugar às 15h43m e derrubado de novo às 16h12m.

Gonçalves Dias contou à repórter Delis Ortiz que chegou ao Planalto quando a manifestação passava pelo Ministério da Justiça. Logo depois informou que ao chegar ao Palácio ele já estava invadido. O chefe do Gabinete de Segurança Institucional não estava no Palácio. Basta.

Bernardo Mello Franco – O chefe do golpe

O Globo

Por ordem do STF, ex-presidente prestará primeiro depoimento sobre ataques de 8 de janeiro

Jair Bolsonaro tem novo encontro marcado com a Polícia Federal. Vai depor na quarta-feira sobre os atos golpistas de 8 de janeiro.

O ex-presidente já deu versões bem distintas para a intentona. Na noite após os ataques, disse condenar “depredações e invasões de prédios públicos”. “A gente lamenta o que aconteceu no dia 8, uma coisa inacreditável”, reforçou, na semana seguinte.

Depois da comoção inicial, ele mudou o tom e saiu em defesa dos extremistas. Acusou a PF de prender “chefes de família, senhoras, mães e avós”, que estariam sendo “tratadas como terroristas”. “No Brasil, tudo passou a ser fake news, atentado contra o Estado democrático de direito”, reclamou.

Dorrit Harazim - Uma pausa

O Globo

Nos 80 anos do Levante do Gueto de Varsóvia, nem a imprensa europeia deteve-se com o merecido vagar sobre efeméride tão marcante

Hoje em dia é difícil encontrar fôlego para pensar no ontem. Simplesmente não sobra espaço para o passado. Nossa tão fragmentada atenção é disputada o tempo todo por notícias, fatos e factoides — e estes, já no instante seguinte, são atropelados por mais notícias, mais fatos e mais factoides. Não espanta que vivamos num acelerado estado de inútil combustão mental, física, afetiva. Na semana passada, para o 80º aniversário do Levante do Gueto de Varsóvia, nem mesmo a imprensa europeia conseguiu deter-se com o merecido vagar sobre efeméride tão marcante para a Humanidade. Uma lástima, considerando a selvageria da atual guerra na Ucrânia, logo ali ao lado, e o ressurgimento do neonazismo acoplado ao antissemitismo por toda parte.

Foi num 19 de abril de 1943 que os judeus aprisionados feito gado num pedaço da capital da Polônia pegaram em armas. Do total inicial de 400 mil socados naquele gueto, mais de 250 mil já haviam sido deportados para os campos de extermínio nazistas. O levante destinava-se a tentar interromper as deportações. Os insurgentes sabiam que jamais venceriam as tropas nazistas. Também sabiam ser quase impossível sobreviver ao levante. Mas queriam, pelo menos, ser os donos do que lhes restava de vida. E ser donos da escolha de onde e como morrer.

Cristovam Buarque* - Um efeito colateral das bombas na Ucrânia

Blog do Noblat / Metrópoles

O atual presidente tem as qualidades de um estadista planetário

A repercussão internacional da visita do Presidente Lula à China mostra a importância do Brasil no cenário mundial como ator influente da política global. O atual presidente tem as qualidades de um estadista planetário: primeiro, graças ao tamanho e as características do Brasil, país síntese das riquezas e pobrezas do mundo moderno; segundo, por suas características pessoais, reconhecimento mundial e sensibilidade para os problemas atuais da humanidade, também por sua capacidade de dialogar e encontrar convergências. O mundo espera que o presidente use seu carisma, as carcteristicas do Brasil e a competência de nossa diplomacia para apresentarmos propostas que enfrentem os grandes problemas do planeta: pobreza, desemprego e desigualdade, mudanças climáticas, migração em massa, fluxos descontrolados de fake news e de finanças.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Erros recorrentes assombram pacote verde de Lula

O Globo

Subsídios a transição energética e redução de emissões trazem o risco de criar mais um setor pouco competitivo

Está anunciado para breve o lançamento, pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de um “pacote verde”, primeiro passo na política de “reindustrialização” brasileira dentro de uma visão estratégica que tenta reduzir as emissões de carbono. Nos corredores do governo, o projeto é comparado aos investimentos trilionários obtidos no Congresso pelo presidente americano, Joe Biden, para geração de emprego baseada em energia limpa.

No caso brasileiro, é evidente que a comparação não para de pé, já que mais de 80% da nossa matriz energética — baseada em hidrelétricas, parques eólicos ou painéis solares — já é limpa. As emissões de gases brasileiras são resultado sobretudo do desmatamento e, em menor grau, da criação de ruminantes (que emitem metano). Mesmo assim, não se pode descartar a priori nenhuma iniciativa voltada para descarbonizar a economia.

Poesia | Paulo Mendes Campos - Os Domingos

 

Dia do Choro | Nara Leão - Um chorinho chamado Odeon (Ernesto Nazareth e Vinicius de Moraes)