domingo, 7 de janeiro de 2024

João Gabriel de Lima* - Um retrato do país que não queremos

O Globo

Precisamos voltar a debater, de forma serena e adulta

Uma bandeira do Brasil atirada a uma poça de água suja. A foto de autoria de Guilherme Mazui, publicada no portal g1, resume o dia em que as três casas da democracia brasileira — Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal — foram vandalizadas. A bandeira em questão era uma pintura do artista Jorge Eduardo e estava no gabinete da Presidência desde o governo Fernando Henrique. Há um paralelo entre a foto do quadro no chão e outra imagem, de um viking pintado com as cores da bandeira americana. Uma representa o 8 de Janeiro brasileiro. A outra resume o 6 de Janeiro americano — dia em que o Capitólio, dois anos antes, fora invadido e depredado.

As duas datas infames e próximas — uma fez aniversário ontem, outra fará amanhã — têm um ponto de partida comum. Começaram a ser gestadas quando presidentes derrotados pelo voto popular — Donald Trump e Jair Bolsonaro — ignoraram a regra número um das democracias, de acordo com os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt: reconhecer os vencedores em eleições livres e justas. “Democracias são regimes em que se perdem eleições”, definiu de forma magistral o polonês Adam Przeworski, outro autor de referência.

Bernardo Mello Franco - O sol não é para todos

O Globo

Apreensão de jovens sem flagrante autoriza racismo e segregação em praias do Rio

A Procuradoria-Geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal que proíba a apreensão de jovens sem flagrante nas praias do Rio. A medida foi adotada pelo governo do estado na chamada Operação Verão. A justificativa oficial: garantir a segurança dos banhistas.

Em dezembro, a juíza Lysia Maria da Rocha Mesquita ordenou que a prática fosse suspensa. Em 11 páginas, ela descreveu uma rotina de abusos e arbitrariedades cometidas por autoridades de segurança.

Crianças e adolescentes são retirados de ônibus à força, sem ter praticado qualquer ato infracional. Levados a delegacias, passam a ser tratados como suspeitos até a chegada de um responsável. Fichados e impedidos de ir à praia, ainda têm suas imagens expostas ilegalmente nas redes sociais.

Eliane Cantanhêde - ‘Democracia inabalada’

O Estado de S. Paulo

O Brasil está dividido e as Forças Armadas também, mas já estiveram mais

O momento mais tenso de 8/1 de 2023, talvez até o mais, foi quando três ministros civis se reuniram no Quartel General do Exército (QG) com o então comandante, general Júlio Cesar Arruda, e descobriram, ou confirmaram, algo ainda mais assustador do que a invasão dos Três Poderes por vândalos: cooptadas pelo capitão insubordinado Jair Bolsonaro, as Forças Armadas, ou partes delas, não rechaçavam firmemente a tentativa de golpe.

Arrogante, com ar superior, Arruda agia como negociador, ou em favor, dos responsáveis pelo crime, que ainda chamava de “manifestantes”, enquanto os tanques em fila à frente do QG apontavam não para a turba acampada ali, mas para fora, tentando impedir a entrada do poder civil, representado, no primeiro momento, pelo interventor do DF, Ricardo Cappelli, acompanhado de policiais e do comandante da PM, coronel Fábio Augusto Vieira.

Celso Rocha de Barros - Falta punir estes aqui

Folha de S. Paulo

Os chefes do golpe estão soltos e seus aliados, na vida pública

Segunda-feira, dia 8, fará um ano desde que bolsonaristas invadiram a Praça dos Três Poderes para declarar guerra aos pobres que salvaram a democracia brasileira na eleição presidencial de 2022.

Em 8 de janeiro de 2023, os soldados rasos do bolsonarismo defecaram no STF, esfaquearam uma tela de Portinari, rasgaram exemplares da Constituição e vandalizaram as sedes dos três Poderes.

Fizeram tudo com a complacência da polícia do governador bolsonarista Ibaneis Rocha, cujo secretário de segurança pública era o ex-ministro da justiça de Bolsonaro, Anderson Torres.

Vinicius Torres Freire - O golpismo está forte e sacudido

Folha de S. Paulo

Políticos usam a data para demonstrar lealdade ao plano autoritário, por ação ou omissão

O "Democracia Inabalada", o ato de repúdio à intentona golpista do 8 de Janeiro, terá muita ausência notória e previsível.

É uma cerimônia para rememorar um grande ataque contra a República. Muitas lideranças políticas não querem que se recorde o vandalismo, pois apoiavam o governo que insuflou a baderna subversiva. Também não querem que fique na memória que participaram de um protesto contra uma tentativa de derrubada do regime democrático, ainda menos de um ato liderado por Luiz Inácio Lula da Silva e por ministros do Supremo, alvos de ódio do bolsonarismo e da extrema-direita.

Eles têm de manter a fama de maus, o prestígio com o eleitorado extremista, com as falanges bolsonaristas. Precisam de votos, de recursos e propaganda nas redes; precisam manter viva a mobilização antidemocrática.

Bruno Boghossian - Depois daquele domingo

Folha de S. Paulo

Bolsonarismo e grupos aliados transformaram princípios antidemocráticos em linha política disseminada

O fracasso da tentativa de golpe, a punição aos invasores e a relativa tranquilidade desde 8 de janeiro de 2023 não eliminaram um fator que foi determinante para os ataques e que se incorporou ao ideário de agentes políticos e de um largo contingente de eleitores: a tolerância com princípios antidemocráticos.

A ascensão do bolsonarismo elevou a uma posição central no debate público uma doutrina baseada em tendências autoritárias. O líder, seus auxiliares e muitos apoiadores seguiram uma linha que rejeitava controles institucionais, admitia o atropelo das regras do jogo e considerava o uso da força para fazer valer suas vontades políticas.

Hélio Schwartsman - O preço do tempo

Folha de S. Paulo

Livro conta a história dos juros e alerta para perigo de taxas muito baixas

Lula está em boa companhia quando impreca contra os juros. Ele faz coro a Platão, Aristóteles, Agostinho, Aquino, Dante, Lutero, Shakespeare e, é claro, Marx e Keynes. Cobrar para emprestar dinheiro é prática milenar. Mesopotâmicos já o faziam antes mesmo de aprender a pôr rodas em carroças, como ensina Edward Chancellor em "The Price of Time".

Muniz Sodré* - Ninguém aqui é mestiço

Folha de S. Paulo

O que de fato somos todos é fenotipicamente diversos, e mestiço é carapuça racial

Segundo a mais confiável fonte de dados primários do país, a maioria da população brasileira é parda. O IBGE falou, está falado. Mas cabe uma ressalva sobre certa recepção pública desse achado. É que da palavra pardo se deduziu mestiço (do latim "mixticius", misturado). Em termos etnológicos, a mistura seria combinar duas etnias. Dentro dessa lógica, se um louro dolicocéfalo alemão se casa com uma morena francesa, o filho será mestiço. O mesmo acontece com uma japonesa e um chinês. E, claro, uma ruandesa hutu com um tutsi.

Ruy Castro - Com admiração e amor

Folha de S. Paulo

Dois novos discos sobre Carlos Lyra reafirmam sua presença na aristocracia musical brasileira

Carlos Lyra, o mestre da bossa nova que nos deixou no dia 16 último, teve tempo de ouvir e se emocionar com "Afeto", o CD produzido pelo Sesc-SP (leiam-se Regina Oreiro e Danilo Miranda dos Santos), em homenagem aos seus 90 anos completados em maio. É um produto especial, com 14 faixas a cargo da aristocracia dos cantores brasileiros e do primeiro time dos músicos de hoje. Não há espaço para citá-los, mas, se o Brasil ainda é capaz de reunir tanta gente boa em um projeto, talvez possamos ser salvos.

Poesia | O Bicho - Manuel Bandeira

 

Música | UNIDOS DA TIJUCA Carnaval 2024 - Samba Enredo

 

sábado, 6 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Uma ode à democracia

Revista Veja

A incômoda lembrança dos ataques assustadores do 8 de janeiro é um modo de evitar que a estupidez se repita

Há exato um ano, em 8 de janeiro de 2023, o Brasil viveu um dos mais vergonhosos episódios de sua história. Depois de quatro décadas de redemocratização do país, uma horda terrorista depredou os edifícios dos três poderes, em Brasília. A turba — dita patriota, apoiadora do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas obtusa e irresponsável — protestava contra a eleição de Lula, em pleito evidentemente acatado pelo Legislativo e pelo Judiciário, porque assim funciona o estado de direito. Descobriu-se, após imediata investigação, ter havido algum grau de planejamento e tolerância das forças de segurança do Distrito Federal. Repetiam-se, como farsa, os estragos do Capitólio promovidos pelos pares de Donald Trump contra a escolha de Joe Biden.

A tragédia brasiliense foi um momento de triste memória, movido por cidadãos alimentados pelo ódio, o resultado mais nocivo da polarização que há pelo menos uma década emoldura o cotidiano dos brasileiros — na política, sem dúvida, mas também em outros escaninhos da sociedade, nas relações familiares, nos gostos artísticos, nas escolhas individuais. A incômoda lembrança daquela jornada assustadora é um modo de evitar que a estupidez se repita.

José Casado - Névoa política

Revista Veja

Falta consenso para resgatar o país de meio século de estagnação

Sob a lente da desigualdade social, continua sendo um país de 2 milhões de pessoas com renda média quase quarenta vezes superior à dos 100 milhões mais pobres (Wilson

O calendário é implacável: faltam apenas sete anos para o Brasil completar meio século estagnado no baixo crescimento econômico. O ano de 2030 está na esquina do tempo, à distância de mais sete réveillons, duas Olimpíadas e um par de Copas do Mundo.

Restam 84 meses. Se nada mudar, será o marcador de um longo ciclo de frustrações com o esquálido desenvolvimento e a desigualdade social recorde, que começam a derivar em sinais de desordem no sistema institucional. Por enquanto, a névoa espessa dos impasses políticos não deixa vislumbre de consenso sobre a melhor rota de fuga para o futuro.

O país tem perdido relevância. Estancado há quatro décadas e meia, deixou encolher sua participação no mapa-múndi da produção de riqueza na era da computação portátil e da inteligência artificial — caiu de 4,3% em 1980 para 2,3% do PIB global no ano passado, informa o Fundo Monetário Internacional.

Cristovam Buarque - O novo ensino conclusivo

Revista Veja

É ilusória a promessa de universidade para todos

A reforma do ensino médio é para fazê-lo etapa conclusiva da educação de base com máxima qualidade para todos. Há décadas se debate a reforma sem ênfase em “qual seu propósito”, “para quem deve ser oferecido”, “qual a estratégia para implantá-la” e “que nome” dar para essa etapa da formação. Por isto, aceita-se o adjetivo de “médio” ao considerá-lo apenas ponte para poucos ingressarem em ensino superior que será concluído por alguns raros dos quais com empregabilidade. Essa concepção tem relegado o direito de todos à escola com a necessária qualidade para cada brasileiro dispor do mapa para a busca de sua felicidade pessoal e das ferramentas para participar da construção de seu país eficiente, justo e democrático. Em vez do compromisso de “educação para todos com a máxima qualidade”, adota-se a ilusória promessa de “universidade para todos”, independente da qualidade.

Alvaro Gribel - Haddad tem a ciência do risco

O Globo

Ministro da Fazenda sabe que não pode errar na economia para evitar a volta da extrema direita ao poder

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem consciência de que o sucesso do governo Lula passa pela economia, e que essa é a principal agenda para se evitar a volta da extrema direita ao poder. Por isso, ele garante que a política fiscal não sairá do controle e que a equipe econômica fará de tudo para cumprir o arcabouço fiscal. Questionei Haddad nos bastidores da entrevista da última semana sobre esse risco, e a resposta foi objetiva: “Sim, tenho consciência”. Isso ajuda a entender por que o ministro está disposto a comprar a briga interna com o PT pelos rumos da economia, e por que a Fazenda insiste na Medida Provisória da reoneração da folha de pagamento. Embora já tenha perdido por duas vezes essa batalha no Congresso, com a aprovação da prorrogação e a derrubada do veto do presidente Lula, a pasta entende que é a desoneração é incoerente com tudo que foi feito em 2023. O grande buraco da política econômica, contudo, continua sendo a falta de uma agenda efetiva de cortes de gastos. Colocar todo o peso do ajuste no fim das renúncias fiscais e no aumento da arrecadação parece ser o principal erro da pasta.

Carlos Alberto Sardenberg - Calcinha com bolso

O Globo

Estamos admitindo que o furto de celular acontecerá em toda festa de rua ou mesmo sem festa

Apareceu na categoria esperteza: calcinha com bolso de zíper, na frente, para levar o celular. Novidade para o carnaval, espécie de contramalandragem para escapar dos furtos, devidamente anunciada nos sites de roupas femininas. Coloque no Google “calcinha com bolso”, e aparecem diversas opções de modelos e preços. Há cuecas, também, mas não têm, digamos, a mesma graça.

A recepção na imprensa foi positiva. Grande sacada. Destaca-se que a moça pode levar o celular e um cartão de débito, embora este seja dispensável. Pode-se pagar tudo pelo celular, não é mesmo? Também é verdade que, se ganha em segurança, a roupa íntima perde em sensualidade.

Demétrio Magnoli - A esquerda que elege Trump

Folha de S. Paulo

Contaminação do discurso democrata pelas políticas identitárias faz ex-presidente prosperar

Trump bebe no copo do nazismo: há pouco, parafraseando o "Mein Kampf", alertou para o "envenenamento do sangue americano" pelo influxo de migrantes hispânicos. Trump responde, como réu, à acusação de golpe de Estado: ele instruiu republicanos a fraudarem resultados das eleições de 2020 e, no 6 de janeiro de 2021, incitou a invasão do Capitólio para impedir a certificação da vitória de Biden. Como se explica, então, que as pesquisas o colocam como favorito nas eleições presidenciais de novembro próximo?

A resposta convencional, apoiada em sondagens, é que uma larga maioria de eleitores enxerga Biden como idoso demais para cumprir novo mandato. Daí decorrem as pressões –e articulações ainda subterrâneas– pela substituição do candidato presidencial democrata. Contudo, há algo mais profundo que escapa às análises protocolares: o Partido Democrata enfrenta rejeição popular superior à do Partido Republicano.

Luís Francisco Carvalho Filho* - Os golpistas

Folha de S. Paulo

Sobre conciliação e impunidade

"Eu tenho parentes lá", explicava José Múcio, com uma franqueza quase infantil, logo depois de tomar posse. Para o ministro da Defesa de Lula, os acampamentos na frente dos quartéis do Exército, em diversas cidades de muitos estados, pedindo intervenção militar para a anulação da eleição presidencial, eram "manifestação da democracia".

Regados a discursos inflamados, cumplicidade militar, churrascos, gincanas, banheiros químicos e shows de música gospel, os acampamentos (continuidade política da obstrução de estradas por caminhoneiros) já haviam emitido sinais de periculosidade.

Em 12 dezembro, diplomação de Lula no TSE, acampados tentaram invadir a sede da Polícia Federal em Brasília em represália à prisão de indígena bolsonarista. Cenas de quebra-quebra, bloqueio de ruas, incêndio de automóveis e ônibus.

Pablo Ortellado - Chamando as coisas pelo nome

O Globo

Lembrar o 8 de janeiro é especialmente importante diante do revisionismo torpe

Na próxima segunda-feira comemoraremos o primeiro aniversário dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. A data precisa entrar no calendário cívico brasileiro, como parte de nossa memória democrática, da mesma maneira como nos lembramos com pesar do 31 de março de 1964.

Lembrar o 8 de janeiro é especialmente importante diante do revisionismo torpe que quer fazer parecer que houve apenas uma manifestação pacífica de cidadãos, sem liderança e sem armas. De acordo com essa leitura mentirosa, o vandalismo foi cometido por petistas infiltrados, estimulados pela negligência das forças de segurança.

Miguel Reale Júnior* - Democracia e diversidade

O Estado de S. Paulo

Infantaria do 8/1 foi composta por pessoas simples, movidas por temas de costumes que se misturavam ao medo inoculado do ‘comunismo identitarista’

Dia de sol em Brasília, Lula da Silva subia a rampa do Palácio do Planalto junto a representantes da multiplicidade de nossa população, como o cacique Raoni Metuktire, o menino preto e a catadora de papéis, sendo difícil prever, nessa festa da democracia, que o palácio seria invadido por horda fantasiada com as cores da Pátria.

Causa tristeza relembrar o vandalismo destruidor das sedes dos Três Poderes, mas é revigorante saber ter sido a oportunidade de reafirmação do Estado de Direito. Oito de janeiro é a data da resiliência democrática.

Como se deram os fatos? Houve autores intelectuais, financiadores, instigadores e executores, ou seja, pessoas por detrás dos acontecimentos, e milhares na linha de frente, muitos seduzidas pelo discurso de ódio, o que não os desculpam em nada. A cada categoria foi instaurado um inquérito.

Dora Kramer - Para não esquecer

Folha de S. Paulo

O 8/1 deveria entrar no calendário como dia de unidade em defesa da legalidade

O ato de segunda-feira em Brasília marcará o primeiro ano desde o infamante ataque às instituições do regime democrático. É importante que esse 8 de janeiro de 2024 não se perca na história, que se repita ao longo do tempo e o acontecido de 2023 se eternize na memória da nação.

É preciso que o levante contra a sede dos três Poderes da República se torne inesquecível nas mentes dos brasileiros sejam quais forem suas tendências políticas, afetivas, religiosas ou em que estágio de exacerbação emocional estejam.

O que houve ali atinge a todos. É indispensável, por isso, que a compreensão desse todo alcance primordialmente autoridades responsáveis pelo bom andamento dos trabalhos da República. Tanto as ligadas ao governo como as de oposição.

Ricardo Rangel - Alexandre é otimista demais

Revista Veja

Em sua imperdível entrevista, o ministro do STF se esquece de Thomas Jefferson

Mais completo e minucioso relato feito até agora sobre a intentona bolsonarista de janeiro passado, a entrevista do ministro Alexandre de Moraes, do STF, a VEJA é absolutamente imperdível.

O único senão é a “nota 10” que o ministro dá ao grau de estabilidade política no Brasil hoje. É natural que Alexandre dê nota tão alta: é seu papel pôr a bola no chão, tranquilizar o público e não botar azeitona da empada do golpismo.

Mas a nota 10 é excessivamente otimista.

A contamização golpista em vastos setores do eleitorado, das Forças Armadas, da Polícia Rodoviária Federal, das Polícias Militares e do Congresso Nacional não mudou. E o problema das redes sociais, instrumentalizadas pelo bolsonarismo para disseminar fake news e estimular o ódio e a sedição, está longe de estar equacionado.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - De boas intenções…

CartaCapital

O ano mal começou e somos obrigados a ouvir o sermão contra os governos “gastadores”

Já nas saudades do Natal e do Réveillon, em 2 de janeiro, a Folha de S.Paulo brindou seus leitores com uma manchete de primeira página: “Dívida global bate recorde e cria trava para Brasil baixar juros e crescer mais”. A matéria do jornalista Fernando Canzian apresenta os dados coletados e elaborados pelo Institute of International Finance (reproduzidos nestas páginas).

No livro Dinheiro – O Poder da ­Abstração Real cuidei do trabalho de ­Richard Duncan The New Depression: The ­Breakdown of the Paper Money ­Economy. Nessa obra, Duncan examina as tendências e mudanças no endividamento dos setores da economia norte-americana entre 1945 e 2007. O autor assinala que, nesse período, nos Estados Unidos, a participação relativa dos setores – governo, empresas, famílias – no endividamento mudou radicalmente. Em 2007, a dívida pública caiu para 10% da dívida total. Um declínio expressivo, mas não surpreendente. A dívida pública abandonou os píncaros alcançados durante o esforço de guerra e declinou naqueles de prosperidade que acompanharam os 30 Anos Gloriosos. Não houve mudança na participação do endividamento do setor corporativo. Permaneceu inalterado em 13%. Os desenvolvimentos notáveis e críticos vieram no setor de famílias e no setor financeiro.

Poesia | A Felicidade - Vinicius de Moraes com narração de Mundo dos Poemas

 

Música | BEIJA-FLOR Carnaval 2024 - Samba Enredo

 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Crise financeira dos municípios exige controle de gastos

O Globo

Qualquer nova ajuda federal precisará estar condicionada à adoção de regras que favoreçam equilíbrio no caixa

As prefeituras fecharam o ano de 2023 com déficit estimado em R$ 4,7 bilhões, de acordo com estimativa de técnicos da Frente Nacional de Prefeitos noticiada pelo GLOBO. Entre janeiro e outubro, o déficit foi de R$ 2,3 bilhões, e o último bimestre concentra pagamentos vultosos e o décimo terceiro salário do funcionalismo. Pelos números do Banco Central, os municípios acumularam R$ 10,9 bilhões no vermelho nos 12 meses encerrados em outubro.

As prefeituras atribuem a deterioração nas contas à queda na arrecadação do ICMS depois que o Congresso aprovou reduções nas alíquotas para combustíveis e energia antes das eleições de 2022. Mas em junho o Supremo Tribunal Federal mediou um acordo para a União compensar estados e municípios em R$ 27,5 bilhões pelas perdas. De acordo com a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), as medidas de compensação — que também incluem a recomposição do Fundo de Participação dos Municípios — poderão alcançar R$ 14 bilhões em 2023.

Entrevista | Carlos Melo: ‘A tentativa de golpe acabou sendo um grande tiro no pé’

Cientista político ressalta atuação dos três Poderes e da comunidade internacional na resposta à intentona bolsonarista

Por Lucas Ferraz / Valor Econômico

A seguir os principais pontos da entrevista de Carlos Melo ao Valor:

Valor: Como o senhor vê o Brasil um ano depois do 8 de Janeiro?

Carlos Melo: Com certo alívio. Poderia ser muito pior. O 8 de Janeiro não deu certo, houve uma tentativa de golpe e escapamos. Um ano depois, poderíamos estar em situação muito complicada. De alguma forma, o país conseguiu sair com sabedoria desse processo. Quero destacar a inteligência do presidente Lula, porque parecia tudo uma cilada. Qual cilada? Ele chamar uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para colocar o Exército na rua e perder o controle. Soubemos depois que, se não era o Alto Comando ou o Exército institucionalmente, havia muitos oficiais, coronéis, majores, generais, muitos generais da reserva, todo mundo envolvido. Havia setores das PMs. Então poderia ser muito ruim. Houve certa sagacidade do presidente de não cair nisso e fazer uma intervenção civil conduzida pelo Ministério da Justiça, por meio do Ricardo Cappelli, que foi uma figura importante. Ele teve postura e autoridade. Poderíamos estar nesse momento numa quadra histórica complicada, de perigo para os civis e com a democracia em perigo. Eles tentaram o que tentariam em algum momento, se não fosse o 8 de janeiro, seria 15 de janeiro, 16 de fevereiro, sei lá. Algumas instituições agiram, como o STF. Algumas porque a Procuradoria-Geral da República (PGR) se omitiu.

Valor: O termo “golpe” é questionado pelos bolsonaristas. Do ponto de vista da ciência política, que elementos temos para dizer que houve uma tentativa de golpe?

Melo: Um motivo simples: você ocuparia o centro do poder em Brasília, a Praça dos Três Poderes. E aí o recurso às Forças Armadas, por meio da GLO, poderia se voltar contra o presidente eleito. Não foi um golpe porque não aconteceu, mas houve uma tentativa. Há elementos clássicos, como o virtual envolvimento das Forças Armadas. Parecia haver um roteiro para que isso ocorresse, para que setores das Forças Armadas se mobilizassem ou se amotinassem.

Entrevista | Maria Hermínia Tavares de Almeida: ‘Líderes estiveram à altura e foram fiéis à Constituição’

Para professora da USP, mimos de Bolsonaro à Forças Armadas não se traduziram em apoio à ruptura institucional

Por Lucas Ferraz / Valor Econômico

A seguir os principais pontos da entrevista de Maria Hermínia Tavares de Almeida ao Valor:

Valor: Como a senhora vê o Brasil um ano depois do 8 de Janeiro?

Maria Hermínia Tavares de Almeida: O tumulto de 8 de Janeiro foi parte de uma tentativa de golpe tabajara. O ex-presidente Jair Bolsonaro, durante meses, tratou de desacreditar as instituições eleitorais. Perdidas as eleições, incentivou os acampamentos de seguidores fanáticos, na frente dos quartéis, pedindo intervenção militar. Tendo adulado militares e PMs durante todo o mandato, parece claro que o ex-presidente, lá de Miami, imaginava que uma arruaça de grandes proporções pudesse fazer com que as Forças Armadas finalmente comparecessem para impor a ordem e, consequentemente, impedir de alguma forma o governo Lula. Deu errado.

Valor: É possível arriscar um lugar para o 8 de Janeiro na história política brasileira?

Vera Magalhães - Uma extrema direita que vive do caos

O Globo

Grupos como o MBL só vicejam na confusão; sem um presidente que dá ao público doses diárias de tumulto, as opções vão escasseando

A revelação feita pelo ministro Alexandre de Moraes da existência de exortações, em grupos bolsonaristas, a seu assassinato mostra o grau de doutrinação extremista a que foram submetidos os seguidores do ex-presidente mais predispostos à radicalização.

Um ano depois da explosão de insanidade golpista de 8 de janeiro de 2023, com mais de 30 condenados e outros tantos em julgamento, o que restou a essa extrema direita órfã de seu líder máximo, mas ainda viciada em estímulos ao ódio à esquerda? Factoides como a ideia de fazer uma CPI para investigar um religioso que dedica a vida a cuidar dos mais pobres.

Difícil imaginar a instalação de uma forca em plena Praça dos Três Poderes, onde seria executado o presidente da Corte eleitoral. Mas a veiculação dessa ideia desarrazoada em grupos fechados de mensagens e no submundo das redes sociais tem a função justamente de destravar os instintos mais primitivos de uma turba alimentada a discurso de ódio em doses diárias ao menos desde 2017, quando o bolsonarismo surgiu mais claramente como movimento antipolítica em plataformas como o Facebook.

José de Souza Martins* - Fragilidade do marco temporal

Valor Econômico

Nas culturas indígenas, o território é um instrumento da vida, não um mero instrumento de enriquecimento

O marco temporal é a limitação de durabilidade de direito que o Brasil oficial e branco decidiu sobrepor ao direito originário dos nossos indígenas às terras de vários modos reconhecidas como suas desde o período colonial. Aprovado, a maior parte de seus artigos foi vetada pelo presidente da República. Mas o veto foi derrubado pelo Congresso.

Um defensor desse marco argumenta que sem ele 15% do território nacional seria entregue a 1 milhão de indígenas, enquanto 85% caberiam a 206 milhões de brasileiros. Ou seja, uma suposta injustiça. O argumento é descabido: a imensa maioria desses 206 milhões não indígenas não tem acesso à terra nem o terá porque o mercado os exclui da possibilidade de tê-la. São 5 milhões os estabelecimentos agrícolas. Quando muito, uns 25 milhões de pessoas são deles proprietárias. Terra é aqui instrumento de injustiça social, não de injustiça tribal.

Bernardo Mello Franco – Um palanque contra o padre

O Globo

Perseguição a religioso combina discurso de ódio, uso de fake news e ataque a direitos humanos

Em outubro de 2020, o Papa Francisco ligou para um padre brasileiro que sofria ameaças. No dia seguinte, o pontífice disse ter conversado com um “mensageiro de Deus”. Falava de Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo da Rua de São Paulo.

O padre é conhecido pelo trabalho em defesa dos excluídos. Dedica-se a trabalhadores sem-teto, menores abandonados, dependentes químicos. Gente que vive na miséria na cidade mais rica do país.

Além de distribuir donativos, Lancellotti denuncia abusos e humilhações praticadas por agentes do Estado. Por isso tornou-se alvo de campanhas difamatórias. A mais recente é liderada pelo vereador Rubinho Nunes, do União Brasil.

Flávia Oliveira - Sacudindo a cidade

O Globo

Quinho foi uma estrela do carnaval do Rio, da cultura do Brasil

A última vez que vi Quinho foi em 14 de janeiro de 2023. Ele foi um dos homenageados com uma estrela na Calçada da Fama do Baródromo, o bar temático dedicado ao carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro. Já emagrecido pela doença, o ídolo do Salgueiro — e de todos que amamos a festa — apareceu vestido de branco, com o inconfundível suspensório e gravata vermelhos, chapéu Panamá. Cantou um punhado de sambas com Paulinho Bandolim e músicos. Ao fim, emocionado, agradeceu à fonoaudióloga, também presente, pelos exercícios que lhe permitiram soltar a voz, mesmo debilitado. Foi tão bonito de ver.

Fernando Gabeira - O ano de pensar as cidades

O Estado de S. Paulo

Vivemos majoritariamente nas cidades, e é nelas que as tragédias climáticas mais nos castigam no momento

Com tantas eleições importantes, o ano de 2024 não será simples. A começar pelos Estados Unidos, onde Donald Trump pode vencer as eleições, e a promessa chinesa de fortalecer a estratégia de anexar Taiwan.

No Oriente Médio talvez a guerra não fosse tão influenciada por uma virada nos EUA. Mas tudo indica que importantes mudanças virão. Benjamin Netanyahu já foi derrotado em sua lei que controlava a Justiça e pode ser alvo de uma comissão ainda neste ano. A tradição em Israel é a de constituir rigorosas comissões para apurar falhas de segurança, e a do 7 de outubro foi gigantesca.

A própria guerra dificilmente vai durar o ano inteiro. Há sinais de cansaço. Um jornal de Israel anunciou que a presença em Gaza vai custar em torno de US$ 20 bilhões nos próximos meses. Parte da tropa começa a ser retirada, principalmente porque não há mais o que destruir na infraestrutura do Hamas e na própria Faixa de Gaza.

Eliane Cantanhêde - Haddad, sobrevivente ou austericida?

O Estado de S. Paulo

Haddad X Gleisi: visão econômica, conveniência eleitoral e disputa por 2030

Fernando Haddad, o sobrevivente, vai evoluindo para Fernando Haddad, o “austericida”, confirmando a avaliação de um assessor próximo, que vive o dia a dia do Ministério da Fazenda: “Centrão? Que nada! Duro mesmo é conversar com o PT e a Gleisi Hoffmann”. O embate fratricida tem três frentes: a visão econômica, a conveniência eleitoral e a disputa pelo coração do presidente Lula e pela indicação para a eleição presidencial de 2030.

O PT e Gleisi, que foi chefe da Casa Civil de Dilma Rousseff, têm visão econômica mais para Dilma do que para Lula 1 e 2.

Haddad evoluiu para mais pragmatismo e respeito aos indicadores macroeconômicos e à responsabilidade fiscal como fatores fundamentais para o crescimento do País e também para a justiça social. O embate vem desde o início de 2023, passando pela desoneração dos combustíveis, âncora fiscal e agora o déficit zero, além da tática de combate aos juros estratosféricos.

Bruno Boghossian – As elites do golpe

Folha de S. Paulo

Tabelinha entre Bolsonaro e seus generais contra as urnas teve influência direta sobre atos golpistas

Trinta invasores do 8 de janeiro foram condenados pelo STF. Cerca de 150 acusados pelos ataques esperam julgamento. Um único homem foi denunciado pelo financiamento dos atos. E nenhum integrante das elites políticas e militares que instigaram uma insurreição foi incomodado até aqui.

Um ano depois, os processos das ações golpistas estão praticamente restritos àquele domingo. O personagem mais graduado a receber uma punição foi o ex-ministro Anderson Torres —preso pela omissão como secretário de Segurança no dia 8, não pelo envolvimento nos ataques às urnas ou pela elaboração da célebre minuta do golpe.

Vinicius Torres Freire - Trump, Milei, prefeitos e o Brasil

Folha de S. Paulo

Eleições nos EUA e outras, o destino de Milei e disputa municipal podem mudar ventos políticos

Este 2024 deve ser de economia morna no Brasil e no mundo e de política quente por muita parte.

Donald Trump pode voltar a ser presidente dos EUA, caso não seja impedido de se candidatar, o que também seria muito relevante.

Cada vez mais mussoliniano ou, melhor, mais putiniano, é mais capaz e decidido de manipular o "sistema" e derrotar o "deep state" que, diz, o impediu de restaurar a grandeza americana. A eleição vai ferver o ano inteiro, dado o rolo judicial; as primárias começam em janeiro.

No que diz respeito aos interesses do público brasileiro, a escolha do presidente americano deve ser a mais chamativa. Deve ser uma definição que pode mudar a direção dos ventos e percepções também das elites políticas brasileiras.

Hélio Schwartsman - Gula obscena

Folha de S. Paulo

Aumento das verbas destinadas ao fundo eleitoral deste ano contraria interesse público

É meio escandalosa a decisão do Parlamento de reservar R$ 4,9 bilhões do Orçamento para o fundo eleitoral destinado aos partidos no pleito deste ano. Nas eleições municipais de 2020, a verba foi de R$ 2 bilhões. E vale recordar que isso é só parte da conta. As milionárias despesas com o horário de rádio e TV, por exemplo, são pagas por meio de abatimento nos impostos das empresas de telecomunicações.

Ruy Castro - Tu focas, eu não foco

Folha de S. Paulo

'É o verbo mais feio da língua', diz um leitor; mas as pessoas continuam focando dia e noite

Numa coluna recente ("Simples assim", 28/12), sobre palavras e expressões que nos têm infernizado, citei o verbo focar. Sei que, neste quesito, estou em total minoria ---as pessoas gostam dele e focam com a maior naturalidade. Foi-se o tempo em que se usava enfocar, focalizar ou pôr em foco. Hoje foca-se dia e noite sobre qualquer assunto. Daí que, para minha surpresa, um leitor me escreveu para concordar e, talvez radicalizando, decretou: "É o verbo mais feio da língua". E, para provar seu ponto, mandou-me o verbo conjugado nos mais diferentes tempos e modos. Eis alguns.

Poesia | Poemeto irônico - Manuel Bandeira

 

Música | MOCIDADE Carnaval 2024 - Samba Enredo