quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Merval Pereira: Não a Bolsonaro

O Globo

A palestra do general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), em que ele diz que tem de se medicar com Lexotan na veia para impedir que o presidente Bolsonaro tome uma atitude radical em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF), é mais um desses absurdos que estão se tornando comuns no Brasil de hoje. Em qualquer país normal do mundo, com regras democráticas em vigor, seria um escândalo capaz de provocar a demissão do ministro ou o impedimento do presidente.

Quando diz, na mesma palestra, que o presidente Bolsonaro pode vir a sofrer um atentado fatal na campanha à reeleição, Heleno está criando um clima de suspeição que só favorece os que querem tumultuar a campanha. Por que Lula não pode sofrer também um atentado, diante da insensatez dos seguidores do bolsonarismo? O fato é que o presidente busca, até agora inutilmente, fazer uma ligação entre o atentado que sofreu na campanha passada e a atuação de partidos de esquerda, e essa advertência de Heleno é mais um ingrediente irresponsável nessa narrativa.

A cada pesquisa divulgada, uma coisa parece certa: há hoje um consenso no Brasil de que é preciso tirar Bolsonaro do governo. Depois se escolhe em quem votar. Se houver uma terceira via capaz de disputar o segundo turno, será fortalecida durante a campanha, e muita gente que hoje está com o ex-presidente Lula mudará de voto.

Malu Gaspar: Lexotan na veia

O Globo

Não é de Lexotan na veia que Bolsonaro precisa para sair do corner

Já nem se pode mais dizer que seja um roteiro surpreendente: Jair Bolsonaro alimenta a retórica de força e estoicismo, faz a linha herói da pátria, mas, quando a situação aperta, o que se vê é esperneio e ameaça. O último petardo saiu da boca do general Augusto Heleno, numa formatura da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin.

— Eu tenho tomado dois Lexotans na veia por dia para não levar o presidente a tomar uma atitude mais drástica em relação às atitudes que são tomadas por esse STF que está aí — disse o chefe do Gabinete de Segurança Institucional num áudio divulgado pelo repórter Guilherme Amado, do site Metrópoles.

O general provavelmente estava se referindo à última polêmica entre o Planalto e a Suprema Corte, em torno da exigência de certificado de vacinação para a entrada de visitantes estrangeiros no Brasil. O presidente é contra a exigência, diz que é uma “coleira”, mas o plenário do Supremo já confirmou que é para fazer. Bolsonaro pode, portanto, continuar reclamando, mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Polícia Federal (PF) terão de colocar em prática o passaporte vacinal.

Esse, aliás, não é o maior problema de Bolsonaro no momento. Nos últimos dias, ele foi convocado a depor no inquérito da PF que apura a divulgação de uma investigação sigilosa da própria PF sobre a segurança das urnas eletrônicas. A apuração não chegava a lugar nenhum, mas o presidente espalhou cópias em suas redes sociais, dizendo que o papelório provaria que houve invasão dos sistemas internos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante um ataque hacker em 2018.

William Waack: O presidencialismo de treta permanente

O Estado de S. Paulo.

Os Poderes brigam entre si sem que se definam os limites de cada um

O que parecia sinal sutil do “arranjo institucional” brasileiro virou evidência escancarada. O poder de mando espalhou-se por várias instâncias e a figura que mais atrai a atenção do público, a do presidente da República, sob Jair Bolsonaro perdeu importância relativa.

As atuais inéditas prerrogativas do Legislativo criaram a figura de dois primeiros-ministros: os presidentes da Câmara e do Senado. Individualmente ou em conjunto fazem avançar ou paralisam qualquer assunto, relevante ou não, por briga entre eles ou não, de interesse público ou não – com preferência para os interesses próprios.

São “moderados” em parte pelo STF que “modera” também o Executivo. Por desígnio ou circunstâncias políticas o Supremo interfere em assuntos do Legislativo e do Executivo. Às vezes através de decisões monocráticas referendadas em plenário por um espírito de corpo que os ataques de Bolsonaro à instituição só ajudaram a consolidar.

Celso Ming: As más notícias e o Banco Central

O Estado de S. Paulo.

Nem sempre as pessoas estão dispostas a ouvir verdades duras. Dario III, rei da Pérsia (século 4º antes de Cristo), exasperado quando soube que seu exército fora derrotado por Alexandre, mandou matar o mensageiro que lhe trouxe a notícia. Não deve ter sido o primeiro nem o último a ter esse procedimento.

Mesmo sem serem maiorais do mundo, alguns leitores dizem que não gostam de comentários sobre crises. Um deles chegou a mandar mensagem em que dizia que chega de notícia ruim. Em vez de apontar os males do Brasil e do mundo, por que não mostrar o lado cheio do copo ou, então, em vez de criticar o governo, por que não cada qual fazer o que pode, como proporcionar alguma ajuda aos necessitados e contribuições para a Legião da Boa Vontade?

A função de um analista – além de reconhecer acertos – é apontar os equívocos ou omissões das políticas públicas; não é acender um fósforo em vez de reclamar da escuridão.

De mais a mais, não são apenas os críticos que mostram as feridas. O Banco Central, que é instituição de Estado, na sua última ata do Copom, apontou enormes distorções da economia brasileira.

Míriam Leitão - Economia agrava piora do governo

O Globo

O maior banco central do mundo alterou a avaliação que fazia da inflação. O Fed suprimiu a palavra “temporária” com que definia a inflação e avisou que no ano que vem vai acelerar a retirada dos estímulos e começar a subir os juros. Haverá pelo menos três altas nas taxas. Isso piora muito o cenário para a economia brasileira, que já está enfrentando dificuldades com um governo que tem perdido apoio político, após três anos de desastrada condução do país. Ontem o Banco Central brasileiro anunciou que pelos seus cálculos a economia encolheu 0,4% em outubro, na véspera o IBGE avisou que o setor de serviços caiu 1,2%.

A economia será um dos grandes temas da eleição do ano que vem, e ela não vai nada bem. Os indicadores mostram que o país continua estagnado, sem capacidade de voltar a crescer. Há uma sequência de números negativos até outubro: a indústria cai há seis meses seguidos, o comércio, há três, e os serviços, há dois. A renda teve uma queda histórica. Após dois trimestres com o PIB no vermelho, o que é uma recessão técnica, o país pode novamente ter uma contração no último trimestre deste ano. O efeito da mudança da política monetária americana sobre um país com problemas fiscais como o Brasil é o enfraquecimento da sua moeda. Por isso, o dólar ontem rompeu novamente a casa de R$ 5,70.

Maria Cristina Fernandes: TCU avança sobre a Selic

Valor Econômico

Pano de fundo da cobrança sobre o Banco Central é transição para 2023

 “Confesso que fiquei surpreso em ver o TCU analisando politica macroeconômica, com toda franqueza, se me permitem”. Foi assim que Arminio Fraga, publicamente e ante o anfitrião, demonstrou sua estranheza com o evento para o qual foi convidado. Corria o seminário promovido pelo Tribunal de Contas da União, sobre a condução da política monetária.

Lá estavam, além de Fraga e do atual presidente do BC, Roberto Campos, três outros ex-presidentes da autarquia (Ilan Goldfajn, Affonso Celso Pastore e Henrique Meirelles) e um ex-diretor (André Lara Resende).

O escopo do seminário foi delineado pelo anfitrião, ministro Bruno Dantas, na abertura. Está em curso uma auditoria para avaliar a atuação do Banco Central no manejo dos instrumentos que lhe foram conferidos pelo chamado “Orçamento de guerra”.

Com a emenda constitucional do primeiro trimestre de 2020, a autarquia recebeu um mandato extraordinário para comprar e vender títulos do Tesouro sem as amarras vigentes em tempos menos calamitosos (“quantitative easing”). No Brasil, porém, ao contrário do que aconteceu com bancos centrais dos EUA, da União Europeia e do Reino Unido, esses instrumentos não foram usados.

Cristiano Romero: Inovação e o populismo de direita

Valor Econômico

Novas tecnologias favorecem disrupção nas democracias

O mundo ocidental assistiu com perplexidade à ascensão ao poder de líderes populistas de extrema direita, como Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no Brasil. Tanto o americano quanto o brasileiro, guardadas as devidas proporções considerando as diferenças culturais entre os dois países, eram vistos como aventureiros, personagens folclóricos, que jamais alcançariam a Presidência da República. Hoje, três anos após a inesperada vitória de Bolsonaro - equivocadamente ainda atribuída por muitos analistas à facada que ele sofreu a menos de um mês do pleito de 2018 - e cinco do triunfo de Trump, têm-se pistas, mas não certeza absoluta, do que, afinal, sucedeu para que líderes improváveis chegassem ao posto máximo de duas das cinco mais populosas democracias do planeta.

É imperioso logo mencionar que o populismo radical de direita - caracterizado em todos os cantos por forte viés antidemocrático - não deu as caras apenas no Novo Mundo. Na França, solo secular das liberdades democráticas, o político centrista Emmanuel Macron teve que fundar, a apenas um ano da eleição, um novo partido - o “Em Marcha” -, para disputar a Presidência da República e evitar a eleição de Marine Le Pen, candidata de extrema-direita da Frente Nacional.

Pedro Cavalcanti Ferreira, Renato Fragelli Cardoso*: Liberalismo de discurso, populismo de fato

Valor Econômico

O país caminha a passos largos para (mais) estagnação e um ambiente de regras e práticas muito ruins

Neste penúltimo ano de (des)governo, o país assiste a um retrocesso em várias áreas. Em curto espaço de tempo, observou-se uma mudança oportunista da regra do Teto dos Gastos, a deterioração do processo orçamentário, com gastos secretos e discricionários, e a aprovação de uma PEC que institucionalizou o calote de dívidas públicas. Isto tudo em um governo que se vendeu inicialmente como liberal, como aquele que faria uma revolução no sistema político e econômico.

O ímpeto liberal se limitou a temas técnicos que não mobilizam a opinião pública nem requerem complexas negociações políticas, como por exemplo algumas (boas) reformas setoriais - Lei do Saneamento, Lei do Gás, Lei dos Portos -, bem como algumas com impacto sobre toda a economia - nova Lei de Falências, Lei da Liberdade Econômica, e a independência do Banco Central. A reforma de mais impacto no longo prazo, a da Previdência, que já vinha sendo encaminhada pelo governo Temer, foi aprovada pelo Congresso sem o empenho de Bolsonaro. Entretanto, a revolução liberal anunciada não ocorreu, e nas dimensões que realmente importam - redução do tamanho do Estado, livre fluxo de mercadorias e serviços, reforma tributária e administrativa - muito pouco foi feito.

Eugênio Bucci*: Um colchão por domicílio

O Estado de S. Paulo.

66 mil paulistanos não têm casa para morar e 19 milhões de cidadãos passam fome no Brasil Como explicar nosso desprezo cruel pelo sofrimento alheio?

O casal mora lá, embaixo de uma longa marquise pintada de verde, a poucos minutos do cruzamento entre a Rebouças e a Faria Lima. Naquele mesmo endereço já funcionou um supermercado de luzes escassas, com ares mofados de entreposto comercial. Hoje, com suas portas de metal bem trancadas, o imóvel não tem mais nenhuma função social ou mercantil. Só a calçada, apenas ela, encontrou uma utilidade: virou dormitório popular. Foi lá que o jovem casal fixou residência, em pacífica vizinhança com outros moradores. Os colchões perfilados, mudos e discretos se organizaram para não incomodar ninguém: tiveram o cuidado de deixar livre uma boa faixa do calçamento para que os pedestres trafeguem, sem virar a cabeça.

A moça é alta, bonita. Dos seus olhos grandes e claros, realçados pelo tom bronzeado do rosto, escorre uma sensação de paz que às vezes alcança quem passa por ali. O nariz descreve um arco pronunciado, numa ponte fina entre a testa e os lábios. Elegante e delgado, o nariz denota personalidade, mas não arrivismo. Quando ela se espreguiça sobre o cobertor bem esticado, no meio da tarde, deixa ver que está feliz. Temos algo a aprender com ela.

Roberto Macedo*: A sofrência do PIB, que é mais forte no ‘per capita’

O Estado de S. Paulo.

Candidatos presidenciais precisam aprender e indicar como enfrentariam a péssima situação da economia

O termo sofrência ganhou projeção como modalidade de música sertaneja, fama esta que cresceu muito com o recente falecimento da famosa cantora Marília Mendonça, líder dessa modalidade. Meu dicionário (Houaiss) não contém esse termo, mas Roberto Teixeira da Costa, economista voltado para o mercado de capitais e relações internacionais, escreveu neste espaço, em 25 de novembro passado, o artigo Saindo da sofrência em busca da crescência, e esclareceu que no dicionário que consultou “a palavra é definida como substantivo feminino, condição de pessoa que sofre, que não consegue se livrar de uma situação de tristeza e de sofrimento”.

Usou o termo para se referir à situação atual do Brasil, afirmando que em “(...) mais de 60 anos de vida profissional (...)” não se recordava de ter “vivido um período de tamanha descrença no País e no seu futuro”. Também tenho o mesmo período de vida profissional e o mesmo sentimento. Teixeira da Costa aplicou o termo ao Brasil, e seu texto inspirou-me a usar sofrência para a situação que há muito tempo, desde os anos 1980, marca o Produto Interno Produto (PIB), indicador econômico das agruras por que passa o País.

Bruno Boghossian: No escurinho do Planalto

Folha de S. Paulo

Ministro insinua que reação autoritária ao STF é uma carta que está sempre na mesa Bolsonaro

No escurinho do Planalto, o golpismo continua em alta. Conselheiro presidencial e crítico contumaz do STF, o general Augusto Heleno reeditou a avaliação de que a corte tenta "esticar a corda até arrebentar" e insinuou que uma reação autoritária ao tribunal é uma carta que está sempre na mesa de Jair Bolsonaro.

"Eu tenho que tomar dois Lexotan na veia por dia para não levar o presidente a tomar uma atitude mais drástica em relação às atitudes que são tomadas por esse STF", disse o ministro na formatura de um curso para agentes da Abin, na última terça-feira (14). A fala do general foi divulgada pelo site Metrópoles.

Heleno é um personagem recorrente nos sonhos antidemocráticos dos bolsonaristas. Em 2020, ele publicou uma nota em que ameaçava o STF com "consequências imprevisíveis" caso o tribunal determinasse a apreensão do celular do presidente. General da reserva, ele empresta uma coloração militar aos planos autoritários do chefe.

Luiz Roberto Nascimento Silva*: A proteção do mais fraco

O Globo

Com a pandemia, aumentaram enormemente as ligações de telemarketing. Tinham diminuído, voltaram com força total. Muitas vezes desligam na cara da gente logo que atendemos porque, se conseguem que o usuário atenda, ganham pontos. O celular aposentou o fixo, que virou peça de museu. A maioria de meus amigos não atende mais números desconhecidos. Entretanto, quando se espera um serviço ou o contato de alguém não cadastrado, temos de atender.

Não adianta bloquear, pois as operadoras não nos protegem, e o bloqueio cai em pouco tempo. O site federal e o estadual que eram eficientes não funcionam mais. Você, o incomodado, o importunado, tem de gastar um tempo enorme preenchendo sua reclamação, que, na maioria das vezes, é ignorada. Exigem informações adicionais, detalhes para aceitar a reclamação. Indicam um número pequeno de empresas listadas como um cardápio fixo em que você tem de fazer seu pedido. Não aceitam pedidos de bloqueio de telefones simplesmente. Você tenta e não consegue. Enquanto isso, os algoritmos discam para você. O inferno são literalmente os outros, como advertiu Sartre, só que transfigurados em chamadas telefônicas.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Regular o lobby

Folha de S. Paulo

Projeto é bom ponto de partida, mas terá de superar a inércia do Legislativo

Um pacote anticorrupção proposto pelo governo de Jair Bolsonaro decerto não inspira grande confiança. Mas há medidas interessantes entre as recém-anunciadas —e merece destaque o projeto de lei que regulamenta o lobby no país.

Embora os termos "lobby" e "lobista" não gozem da melhor das reputações por aqui, a atividade pode ser perfeitamente legítima e legal, uma extensão do direito de peticionar consagrado na Constituição.

Para que o lobby legítimo prevaleça sobre a corrupção e o tráfico de influência, que seriam suas versões degeneradas, é importante que a atividade ocorra sob o primado da transparência e sob regras claras previamente estabelecidas.

O projeto do governo se afigura uma peça bastante técnica, elaborada pela Controladoria-Geral da União, sob inspiração da extensa documentação que a OCDE produziu sobre a matéria.

O texto escapa de velhas armadilhas. Tentativas anteriores de disciplinar o lobby vieram na forma de regulamentação profissional —o que não funciona bem, dado que indivíduos das mais diversas formações, de cientistas a relações públicas, passando pelos influenciadores digitais, podem em princípio fazer as vezes de lobistas.

Poesia | Charles Baudelaire: As Joias

A amada estava nua e, por ser eu seu amante,
Das joias só guardara as que o bulício inquieta,
Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante
Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.

Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,
Este universo mineral que à luz figura
Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro
As coisas em que o som ao fogo se mistura.

Música | Geraldo Azevedo, Elba Ramalho: Chorando e Cantando

 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Vera Magalhães: Velho Bolsonaro volta depois das 7 ondas

O Globo

Tão logo os brasileiros pulem as sete ondinhas e façam seus desejos para um 2022 que promete ser ainda mais duro que o último biênio, Jair Bolsonaro já terá rasgado a fantasia de moderado que Michel Temer lhe vestiu e estará de volta à velha forma conspiracionista, atirando contra tudo e todos. Desta vez com o cartão de crédito dos gastos populistas e eleitoreiros na mão e com limite alto.

Aos poucos, o presidente já vai se despindo do figurino que lhe causa desconforto, o que respeita as instituições e o contraditório.

Faz isso ao mesmo tempo que cerca sua base mais ideologizada à custa de bravatas e de promessas de benefícios financeiros ou empresariais.

A nova investida se dá junto aos policiais federais, num momento em que há muitas imbricações de interesses da sua família e dos seus sob responsabilidade da PF.

O prometido reajuste geral a servidores no ano eleitoral começou justamente pelos policiais. Veio na forma que também já se tornou usual no método bolsonarista: apenas avisando a Paulo Guedes que ele se vire para arrumar o dinheiro.

Bernardo Mello Franco: Lula favorito na eleição da fome

O Globo

O Ipec informa: Lula entrará no ano eleitoral como franco favorito para voltar ao Planalto. O ex-presidente lidera a disputa com 48% das intenções de voto. Todos os outros candidatos somam 38%.

Dez meses são uma eternidade na política, o que significa que o cenário pode mudar bastante até outubro de 2022. Mas o retrato mostrado pela pesquisa é inequívoco: se a eleição fosse hoje, o petista venceria no primeiro turno.

Lula registra os melhores índices entre os eleitores mais pobres (57%) e menos escolarizados (55%). São os grupos que mais sofrem com o retorno da fome e o aumento da inflação, duas marcas registradas do atual governo.

Em setembro, o Ipec constatou que fome e pobreza voltaram à lista dos temas que mais preocupam os brasileiros. Isso não ocorria desde 2002. Não por acaso, o ano em que o petista se elegeu pela primeira vez.

Elio Gaspari: O Fies saqueou a bolsa da Viúva

O Globo

O professor Mário Henrique Simonsen ensinava: se for bem enunciado, o problema mais difícil do mundo um dia será resolvido. Mal enunciado, o problema mais fácil do mundo jamais será resolvido.

Lula e Bolsonaro meteram-se na discussão do calote do Fundo de Financiamento Estudantil, o Fies. Na teoria, ele custearia as anuidades de jovens universitários que cursavam a rede privada de ensino. Na prática, desde 2011 virou um mecanismo que permitiu a transferência do risco da inadimplência para a conta da Viúva. Atendeu 3,4 milhões de jovens e tem a receber R$ 123 bilhões, ervanário superior ao déficit da União neste ano. Desse valor, R$ 27,9 bilhões foram contabilizados como ajustes para perdas.

Lula promete anistiar os devedores. Bolsonaro rebate: “Por que não fez lá atrás, pô? Está aí de sacanagem”. Noves fora a linguagem, quem abriu a porteira não foi Lula, mas Dilma Rousseff. O capitão correu atrás e agora oferece uma renegociação dessas dívidas. Está no seu terceiro ano de governo e ainda não apresentou um programa que faça sentido. Há pouco, mimou as universidades privadas, aninhando-as no ProUni.

Fernando Exman: O capitão na batalha das expectativas

Valor Econômico

Aliados queriam ver mais ousadia de um BC independente

A redução do poder de compra do brasileiro em 2022, ano eleitoral, ocupa um lugar central no rol de preocupações de auxiliares do presidente Jair Bolsonaro.

É o que explica, pelo menos em parte, recente esforço para o lançamento de uma série de medidas voltadas às famílias mais pobres. O pacote vai além do Auxílio Brasil, programa social que sucede o Bolsa Família com um valor inicial de R$ 400 já a partir de dezembro, antes do Natal, e para um número maior de beneficiários. O governo já sinalizou que o ticket médio deve subir para R$ 415.

Parlamentares aliados e auxiliares de Bolsonaro apontavam há meses que a alta dos preços dos alimentos poderia condenar o programa a já nascer desatualizado. Consideram, também, que o Banco Central (BC) poderia ter sido mais conservador nos últimos meses, a fim de construir as condições necessárias para a redução da Selic a tempo de viabilizar uma reativação da economia mais rápida no ano que vem.

Daniel Rittner: O que a eleição para o TCU deixou de contar

Valor Econômico

Órgão estaria deixando papel fiscalizador para assumir uma postura mais consultiva em relação ao Executivo

A eleição para a vaga recém-aberta no Tribunal de Contas da União (TCU) ignorou um debate que provoca cada vez mais aflições no governo e na iniciativa privada: por acaso o órgão de controle tem atuado não apenas como “watchdog” (que supervisiona a obediência às regras e à lei), mas assumido excessivamente as funções de “sheepdog” (conselheiro que guia políticas públicas e ações governamentais por meio da expedição de comandos)?

O tribunal já mexeu na taxa de retorno dos leilões de energia, multou diretores da Antaq por considerar que eles não regularam adequadamente a cobrança de uma tarifa por terminais portuários, entrou nos acordos de leniência com empreiteiras da Lava-Jato, travou a liquidação da estatal dos semicondutores (Ceitec), mandou os bancos públicos devolverem R$ 199 bilhões ao Tesouro. Suas decisões - não se discute se certas ou erradas - têm feito surgir uma safra de textos acadêmicos e análises sobre o raio de atuação do TCU.

Armando Castelar Pinheiro*: 2022: dosando o pessimismo

Valor Econômico

O antídoto mais eficaz é ter alguma clareza sobre o que esperar a partir de 2023

“Um dos principais trabalhos do cérebro é prever o futuro. (...) Algumas pessoas têm cérebros que são mais rápidos para detectar o perigo. Mesmo em situações ambíguas ou neutras, essas pessoas tendem a pensar, “algo ruim vai acontecer aqui”. Estas pessoas são as primeiras a preparar-se para o pior cenário, as primeiras a esperar um mau resultado. Em outras palavras, são pessimistas”.

Extrai esta citação do excelente livro de Elizabeth Blackburn e Elissa Epel, “The Telomere Effect: Living Younger, Healthier, Longer”. Ela me fez pensar se a maioria de nós, analistas da cena econômica, está olhando corretamente as perspectivas da economia brasileira em 2022, ou se nós nos tornamos, por variadas razões, pessimistas. Afinal de contas, às vezes parece difícil aceitar que estamos caminhando para um cenário tão ruim como o que temos hoje, sem a expectativa de que se faça algo para melhorá-lo.

Zeina Latif: De improviso em improviso

O Globo

O foco principal da política pública deve ser formação e requalificação de pessoas, dada a baixa qualidade da mão de obra e os avanços da tecnologia

É muito difícil ser empresário no Brasil. Recentemente ouvi de uma autoridade estrangeira que, se um CEO de multinacional sobrevive ao Brasil, está apto a conduzir a operação em qualquer outro país.

As empresas enfrentam muitos empecilhos — reduzido capital humano, infraestrutura e marcos jurídicos complexos e pouco previsíveis — que encarecem a produção e, assim, prejudicam o investimento e a inovação. A carga tributária elevada e a instabilidade econômica são sérios agravantes.

Como resultado, muitos buscam junto ao governo tratamento diferenciado, por meio de regimes especiais e isenções tributárias. São atalhos que podem até ajudar alguns no curto prazo, mas cobram preço elevado para a sociedade ao longo do tempo. Nem todos os pleitos dos empresários são justificáveis.

Fábio Alves: Os riscos de 2022

O Estado de S. Paulo

Os investidores vão encarar um 2022 que pode resultar em desfecho ainda mais extremo para o Brasil

Ressabiados por um ano em que a inflação e os juros subiram bem mais do que o previsto e a forte recuperação da economia, após o pior momento da pandemia de covid, minguou com rapidez, os investidores vão encarar um 2022 que pode resultar em desfecho ainda mais extremo para o Brasil.

Estariam os investidores precificando corretamente os riscos para a economia brasileira em 2022? Basicamente, são dois os maiores riscos domésticos e eles estão relacionados: o fiscal e o político. Para o primeiro, o mercado está relativamente otimista – ou será pura leniência? Para o segundo, a visibilidade é baixa.

Vinicius Torres Freire: Está lá um PIB estendido no chão

Folha de S. Paulo

Com economia no vermelho, arrocho de juros vai piorar e zumbis, enchem as ruas

Na então Grande Recessão do começo dos anos 1980, a gente via pessoas acampadas na rua, sob tendas de sacos pretos de lixo. O Brasil era como sempre pobre, mas não se tinha notícia daquilo, de crise tão longa e dos despejados pela crise expondo as nossas vergonhas cruéis até nas praças de bairros ricos.

Até então, ainda modernizávamos a pobreza, a desigualdade e outras opressões. Nem a ditadura militar era tão reacionária e cretina quanto essa gente que ora ocupa Brasília.

Mas o Brasil progrediu e o mundo nunca esteve tão bem de vida desde o Neolítico, como dizem os doutores Pangloss do capital. Agora, miseráveis vivem em pequenas barracas de camping e instalam centrais de lixo reciclável em praças e esquinas dos "bairros de bem". Houve progresso, né: em vez de sacos plásticos, tendas de armar e carroças de lixo com música.

No centro da cidade, os miseráveis são mais tradicionais. As "pessoas em situação de rua", como diz o eufemismo correto, deitam sobre papelão, envoltas em trapos que passam por cobertas. Muitos se aglomeram diante de centros de caridade que dão alguma comida ou roupa. Depois perambulam às centenas pelas redondezas da praça da Sé ou sob viadutos próximos da avenida Paulista.

Hélio Schwartsman: Bolsonaro, o pesadelo não acabou

Folha de S. Paulo

A capacidade de destruição da atual gestão ainda é considerável e exige que organizemos nossas defesas

Não é porque Jair Bolsonaro parou de atacar diuturnamente o Supremo Tribunal Federal e outras instituições que seu governo se tornou menos nefasto. Ainda que com menos estardalhaço, ele permanece altamente destrutivo.

No campo da economia, o país retrocedeu várias décadas com PEC dos Precatórios, que permitirá ao governo e seus cúmplices do centrão expropriar recursos privados cujo recebimento já havia sido determinado pela Justiça. Para usar um rótulo caro aos bolsonaristas, a medida recende um "comunismo" com o qual as gestões petistas nem sequer ousaram flertar. O pior é que teria sido perfeitamente possível criar um bom mecanismo de auxílio emergencial, que é mais do que necessário, sem incorrer nesse tipo de violação às regras do jogo. Bastaria ter revisto algum dos muitos programas e subsídios pouco eficazes que o Estado brasileiro distribui à farta.

Bruno Boghossian: Aras vai com Bolsonaro até o fim

Folha de S. Paulo

Em 2022, país terá procurador-geral que dá conforto ao presidente para praticar desmandos

Assim que Augusto Aras tomou posse, Jair Bolsonaro definiu a relação entre os dois como "um amor à primeira vista". O procurador-geral fez questão de retribuir a declaração: prometeu uma atuação alinhada à "cultura judaico-cristã", brindou o presidente com tolerância máxima e chegou a chamar de "festa cívica" os atos golpistas de 7 de setembro.

A tabelinha continua firme. Na segunda (13), Aras pediu que o STF cancele um inquérito contra Bolsonaro pela falsa associação feita por ele entre vacinas contra a Covid e o HIV. O procurador já havia tentado barrar o caso em novembro, elencando 14 motivos para não investigar o presidente. Agora, ele diz que o inquérito não é necessário porque já existe uma ação na corte sobre o caso.

Mariliz Pereira Jorge: A canalhice bolsonarista

Folha de S. Paulo

Para eles, quem ficava em casa em 2020 e agora voltou a participar de atividades sociais é hipócrita

A canalhice bolsonarista se renova a cada semana. Não basta o boicote ao uso de máscara e à vacinação, essa corja que apoia Jair Bolsonaro se tornou especialista em manipular fatos, para constranger cidadãos que sempre seguiram as recomendações de autoridades sanitárias ao longo da pandemia da Covid-19.

A moda entre a milícia que bajula o presidente é ressuscitar posts de formadores de opinião, com a bandeira do "fique em casa", levantada durante os meses mais dramáticos, e confrontá-los em razão de seu comportamento atual: sair, viajar, frequentar bares e festas. Ainda há riscos? Sim. Mas a realidade é diferente da de um ano atrás.

Famosos que participaram da festa de uma youtuber sofreram ataques. Acontece o mesmo com políticos de oposição em momentos de lazer. Um deputado da bancada evangélica compartilhou uma foto em que esta colunista estava em Copacabana. Eram 5h30, praia vazia. Nem os bandidos cariocas tinham acordado.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS:

PEC precária

Folha de S. Paulo

Revelação tardia de votantes é novo dano à imagem

É raríssimo encontrar motivos nobres na relutância de autoridades em prestar esclarecimentos básicos à sociedade. Um detalhamento da votação da PEC do Calote, a muito custo obtido da Câmara dos Deputados, vai confirmando a regra.

Só na segunda (13) esta Folha conseguiu que a Casa legislativa presidida por Arthur Lira (PP-AL) fornecesse a lista de oito deputados que participaram em condições excepcionais da análise em primeiro turno do texto, ocorrida há mais de um mês.

Graças a um ato da cúpula da Câmara, esses parlamentares puderam votar a distância, sem registro de presença no plenário, por estarem viajando em missão oficial. Com quatro apoios no grupo, a PEC passou com 312 votos —exatamente quatro acima do mínimo necessário.

Enfim divulgada, depois de um pedido com base na Lei de Acesso à Informação e da publicação de uma reportagem que relatava a resistência de Lira, a lista de imediato mostrou problemas. Um dos deputados relacionados não estava em viagem oficial naquela data; outro estava em Brasília e presente no plenário.

Os meandros do caso demandam mais apuração, mas desde já fica claro que o governismo empenhou energia, verbas e manobras regimentais para uma vitória milimétrica —e precária, dado que a PEC passou por alterações no Senado que voltam agora ao exame dos deputados.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: Procura da Poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Música | Elba Ramalho e Raimundo Fagner: Festa

 

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Cristovam Buarque* - "contrarrevolução"

Correio Braziliense

O Brasil atravessa uma contrarrevolução: retrocessos no padrão civilizatório. A eleição de um ministro evangélico para o Supremo Tribunal Federal poderia ser sinal de avanço se o novo ministro tivesse dito que sua escolha era vitória da República laica ao quebrar o predomínio histórico do catolicismo. Mas a comemoração em função de sua denominação religiosa indica passo atrás no que deveria ser um passo à frente.

Quebrar o quase monopólio católico seria um avanço, dividir o Supremo por religião é atraso. Ainda mais se o novo ministro servir para compor aliança contra as outras denominações que compõem o imaginário religioso brasileiro: as matrizes africanas, o judaísmo, o islamismo, o budismo e o pensamento ateu. Um ministro evangélico não ameaça conquistas, mas reconhecer que se fez ministro por ser "terrivelmente evangélico", e não por ser "terrivelmente jurista" pode indicar parte de uma contrarrevolução em marcha.

Merval Pereira - Guerra de narrativas

O Globo

A verdade, como definiu o austríaco Karl Popper, é inalcançável, o mais perto que se chegue dela é insuficiente. Mas é possível saber quando se apresenta o falso. Outro dia, Ruy Castro escreveu sobre a mudança no sentido das palavras nos dias de hoje, e a mais política delas é “narrativa”, que ganhou a conotação de uma versão falsa sobre determinado assunto. Pois estamos em meio a uma guerra de narrativas na disputa presidencial, que se tornará cada vez mais acirrada à medida que a campanha eleitoral acelere.

Os três candidatos que aparecem à frente nas pesquisas de opinião —Lula, Bolsonaro e Sergio Moro — estão envolvidos nos mesmos episódios históricos que serão determinantes na decisão do eleitor, e as narrativas se sucedem, às vezes coincidentes entre dois deles, para tentar desmoralizar o adversário, às vezes disparatadas entre si.

Carlos Andreazza - O pouso alegre dos Pachecos

O Globo

Deu neste GLOBO, no último sábado, em reportagem de Patrik Camporez: “Retomada da execução do orçamento secreto privilegia aliados do governo e do Congresso”.

Era só o que a cúpula do Parlamento e o Planalto, mas sobretudo a dupla Rodrigo Pacheco e Arthur Lira, buscavam com, respectivamente, o ato e o decreto que propuseram ao Supremo, ambos com a declarada — e falsa — intenção de dar transparência às emendas do relator: garantir a circulação discricionária dos dinheiros já empenhados no Orçamento de 2021 e assegurar que a máquina do orçamento secreto gire no ano eleitoral de 2022. Conseguiram, os senhores do orçamento público.

Com todos os olhares presos ao debate sobre transparência no manejo desses recursos orçamentários, transparência prometida para futuro vago, e dificultada relativamente ao passado, afinal formalizado o conceito público da meia transparência, passou despercebida a dimensão autocrática da emenda do relator, que distribui bilhões ao arrepio da equitatividade — para uns, porque votam comigo, e não para os outros.

Míriam Leitão - A truculência do ataque à imprensa

O Globo

Não é normal nem aceitável que um brutamontes, ostentando uma arma no coldre, ameace bater em jornalistas porque eles estão tentando entrevistar o presidente da República. Não é normal nem aceitável que uma repórter seja agarrada pelo pescoço por um segurança presidencial, naquele golpe chamado “mata-leão”. São servidores com salários pagos com os nossos impostos e só estão em torno de Jair Bolsonaro em atos de campanha antecipada porque ele exerce a Presidência. Proteger o presidente não é o mesmo que atacar os jornalistas. E os seguranças têm essa liberdade porque são estimulados pela violência do próprio presidente da República.

Vai começar um ano tenso, em que Bolsonaro vai escalar as agressões, porque ele é assim e porque ele está em desvantagem nas intenções de voto. Já sabemos que usará a encenação de valentia contra repórteres desarmados para animar os seus seguidores mais destemperados.

Zuenir Ventura - As agressões e os prêmios

O Globo

Equipes da TV Aratu, afiliada do SBT, e da TV Bahia, afiliada da Globo, foram agredidas por seguranças e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro neste domingo em Itamaraju, no sul da Bahia, região fortemente atingida pelas chuvas da última semana. O repórter Chico Lopes, da TV Aratu, levou tapa de um funcionário da segurança do presidente. Enquanto ele ameaçava os jornalistas, um apoiador de Bolsonaro furtou o microfone da repórter Camila Marinho, da TV Bahia. Em defesa da colega, Chico reagiu e foi ofendido pelo homem, que, contido por pessoas próximas, seguiu, de longe, proferindo ameaças e ofensas. Bolsonaro chegou a pedir calma ao segurança.

O que há de novo nessas cenas, que repetem um pouco os encontros do presidente com jornalistas — basta lembrar a recente visita a Roma —, é o emprego pela primeira vez do mata-leão, um tipo de estrangulamento usado nas artes marciais japonesas que consiste em imobilizar o oponente pelas costas. Camila Marinho chegou a sofrer o golpe.

Alvaro Costa e Silva – Os reis do garimpo

Folha de S. Paulo

Governo promove farra do garimpo de ouro na Amazônia

Para quem já admitiu que "o garimpo é um vício, está no sangue", o compadre Grota deve ser um herói, merecedor de ocupar a galeria dos maiorais, ao lado do ditador Augusto Pinochet, do torturador Brilhante Ustra e do Major Curió, também torturador e líder garimpeiro.

Compadre Grota é o nome de guerra de Heverton Soares, um dos narcotraficantes —o outro é Silvio Berri Júnior, ex-piloto de avião de Fernandinho Beira-Mar— apontados pela Polícia Federal como chefes de organizações criminosas no Pará e que ganharam do governo o direito de explorar uma área de mais de 810 hectares de garimpo de ouro.

Cristina Serra - Três meninos do Brasil

Folha de S. Paulo

Um país que não protege suas crianças, como as de Belford Roxo, morre com elas

Eles se chamavam Lucas, Alexandre e Fernando Henrique, tinham entre 8 e 11 anos de idade, moravam em Belford Roxo, Baixada Fluminense. No fim de 2020, saíram de casa para jogar bola. Nunca mais voltaram. Quase um ano depois, a polícia informa que eles foram torturados e assassinados por terem furtado dois passarinhos do tio de um traficante.

A história dos três meninos é de um grau tão desmedido de barbárie que é até difícil pensar e escrever sobre ela. Porque dói pensar sobre o Brasil em que Lucas, Alexandre e Fernando Henrique viviam. A brutalidade interrompeu a vida deles num cruzamento entre miséria, desigualdade, violência, crime, abandono, indiferença e tudo o mais que compõe o cenário onde parte da sociedade brasileira, majoritariamente pobre e negra, é largada aos deus-dará. "E se Deus não dá?", pergunta a canção de Chico Buarque.

Robert L. Funk* - O Chile e o problema da nova esquerda

O Estado de S. Paulo.

Uma análise da plataforma eleitoral de Gabriel Boric revela poucos indícios de radicalismo

No calor do debate eleitoral, é comum escutar opositores do candidato presidencial chileno Gabriel Boric acusá-lo de ser “controlado pelos comunistas”. Alguns dizem que, apesar de gostar de Boric pessoalmente, “o problema é quem está em seu entorno”. Esses comentários ressoam uma antiga antipatia contra o Partido Comunista do Chile, permitindo que oponentes classifiquem Boric como um político de extrema esquerda e definam a eleição como uma batalha entre dois extremos.

O curioso dessa dinâmica é que ela tenta colar em Boric políticas e atitudes que claramente não lhe pertencem. Como representante de uma nova esquerda no Chile, Boric tem criticado há muito a centro-esquerda que governou o país por grande parte das três últimas décadas, acusando os políticos desse campo de serem tímidos demais e “neoliberais”. Mas, ao mesmo tempo, Boric também tem se mostrado disposto a questionar a implícita atitude de superioridade moral que emerge de sua geração.

“Há realmente uma impressão na minha geração”, afirmou ele, em 2017, “de que a história começou em 2011. A Frente Ampla deve ter cuidado para manter a política no campo da política, não da moral.”

Como resultado, Boric tem se oposto com frequência a posições que o Partido Comunista sustenta (ou vice-versa) – como a oposição de Boric aos regimes venezuelano, cubano e nicaraguense ou seu apoio ao pacto multipartidário que colocou em marcha a atual Assembleia Constituinte no Chile.