*Antonio Gramsci(1891-1937), Cadernos do
Cárcere, V. 3, p. 349, Civilização Brasileira, 2007
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
quarta-feira, 9 de março de 2022
Opinião do dia | Antonio Gramsci*: "partido político"
Vera Magalhães: Pérolas de presente no 8 de Março
O Globo
Uma
das formas mais comuns nos discursos feministas para marcar que 8 de Março não
é uma data para vender flores ou perfumes, e sim uma oportunidade de fomentar
discussões a respeito da condição feminina e da desigualdade de gêneros no
Brasil e no mundo, foi pedir aos homens que, nesse dia, não deem flores às
mulheres.
Pois,
em 2022, o debate público trocou rosas por pérolas, mas não aquelas que adornam
lindas joias, e sim as bobagens que, na gíria, ganharam essa denominação.
Antes das 7h, ao levantar, fui surpreendida por um post da jornalista Natuza Nery republicando o anúncio de um ciclo de palestras sobre a participação feminina na política “estrelado” apenas por… homens! Jair Bolsonaro, os ministros Paulo Guedes (Economia) e Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura), o presidente da Câmara, Arthur Lira, e o vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, palestrariam, ao longo de vários dias, a respeito desse tema sobre o qual têm tanto a dizer. As mulheres? Estariam na plateia, claro, aprendendo.
Elio Gaspari: Alckmin na Vice de Lula
O Globo
A ideia é fazer um governo de coalizão
Lula e Geraldo Alckmin estão fechando a
aliança, e o ex-governador e ex-candidato do PSDB à Presidência será o vice na
chapa do petista. Como aliança, é um golpe de mestre. Vacina Lula e recoloca
Alckmin no cenário de que foi afastado por sucessivas derrotas e erros de
julgamento.
Na sua origem, estaria o interesse de Lula
de, uma vez eleito, formar um governo de coalizão, à semelhança da base
política que sustentou Angela Merkel na Alemanha. Esse raciocínio teria partido
de Lula.
Durante seus oito anos de governo, o líder petista teve um vice empresário, limpo e bem-sucedido. José Alencar foi leal e discreto. Quando fazia contraponto ao presidente na política econômica, combinava antes e demarcava limites razoáveis. Alckmin é um político correto e de lealdades acima da média, mas sua biografia não é a de Alencar.
Bernardo Mello Franco: A solidão de Moro
O Globo
Sergio Moro é novato na política, mas já
aprendeu a se livrar de aliados incômodos. O ex-juiz foi rápido para rifar
Arthur do Val, o Mamãe Falei. “Jamais dividirei meu palanque e apoiarei pessoas
que têm esse tipo de opinião”, tuitou na noite de sexta, quando o falastrão
ainda voava de volta da Ucrânia.
O deputado youtuber virou uma companhia
tóxica após ofender refugiadas em plena guerra. A questão é que ele sempre usou
“esse tipo de opinião” para se promover. Mesmo assim, Moro o havia escolhido
para dividir o palanque em São Paulo.
Fundador do MBL, Do Val integra a turma da nova direita que aposta no insulto como arma política. Em 2020, chamou o padre Julio Lancellotti de “cafetão da miséria”. Antes disso, xingou ministros do Supremo, invadiu a Faculdade de Medicina da USP, ofendeu colegas na Assembleia Legislativa e conseguiu ser expulso do DEM por mau comportamento.
Luiz Carlos Azedo: Doria avalia opções diante do próprio fracasso pré-eleitoral
Correio Braziliense
Não se pode descartar a
possibilidade de o tucano paulista desistir da candidatura à Presidência, mas
dificilmente o fará como derrotado por uma conspiração interna
Avança uma conspiração surda na bancada
paulista do PSDB para que o governador de São Paulo, João Doria, jogue a toalha
e desista de ser candidato. As conversas entre paulistas e tucanos dissidentes,
que querem pôr o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, no lugar de
Doria, têm conexões com os aliados do Cidadania, que aprovou uma federação com
os tucanos, e antigos líderes do União Brasil, que se afastaram de Doria por
causa da filiação do vice-governador Rodrigo Garcia (ex-DEM) ao PSDB.
A terra se move sob os pés de Doria porque as pesquisas mostram que sua rejeição é a mais alta entre todos os candidatos e sua candidatura não encorpa nem mesmo em São Paulo. Os tucanos paulistas estão chegando à conclusão de que a insistência de Doria com a candidatura pode resultar na derrota de Rodrigo Garcia — que assumirá o governo de São Paulo e concorrerá à eleição — para o ex-prefeito paulista Fernando Haddad. A consolidação do nome do ex-governador Geraldo Alckmin como vice na chapa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo PSB mostra que o conflito com o ex-governador Márcio França está sendo resolvido.
Vinicius Torres Freire: Petróleo sobe para nível de inflação séria, mas boicote americano não causa colapso
Folha de S. Paulo
Embargo dos EUA não será acompanhado pela
UE, que poderia levar preços além de US$ 200
O presidente
dos Estados Unidos, Joe Biden, confirmou na tarde desta terça-feira (8) que
barrou a compra de petróleo russo. O Reino Unido disse que vai reduzir suas
importações da Rússia a zero até o final do ano.
Por vários motivos, a decisão acaba por
colocar o preço do barril em novo patamar, perto de US$ 125 (R$ 636), por ora,
alta de 60% neste ano. É preço de inflação em alta no mundo inteiro, mas não de
colapso. O barril chegou a ficar menos caro depois do discurso de Biden. As
Bolsas subiram.
O embargo americano não será acompanhado
pela União
Europeia ("demos um passo que outros países não podem dar",
disse Biden), que importa da Rússia cerca de 25% do petróleo que consome. Um
embargo europeu poderia levar os preços além de US$ 200 (R$ 1.017). Não haveria
tão cedo produção alternativa na Opep, mesmo se sanções americanas contra Irã e
Venezuela fossem suspensas amanhã, um milagre político (mais sobre esse
problema mais adiante).
A decisão americana poderia tirar pouco petróleo do mercado, menos de 1% do total das exportações mundiais. Mas parte desses barris embargados por Biden pode ser vendida em outros mercados, para aliados da Rússia, como a China, que assim deixaria de comprar de outros produtores (embora essa decisão não seja simples, como mudar de padaria). A produção americana pode aumentar, por outros motivos que não o embargo. Europeus e americanos negociam aumentos de produção com outros países.
Bruno Boghossian: Petróleo e reeleição
Folha de S. Paulo
Ameaça de disparada de preços dos
combustíveis produziu um ajuste na máquina da reeleição
O risco de uma disparada
do preço dos combustíveis produziu um ajuste na máquina
eleitoral de Jair Bolsonaro. Embora defendam o uso de armas diferentes, a ala
política e a equipe econômica do governo sinalizam que alguma intervenção será
necessária para conter aumentos excessivos nas bombas nos próximos meses. A
campanha levou os dois lados a falarem línguas parecidas.
A reação do consórcio bolsonarista à nova alta do petróleo indica o perigo que esse grupo enxerga nas bombas de combustíveis. Símbolo do desconforto vivido pelos brasileiros nos últimos anos, a alta acentuada de preços é considerada dentro do governo uma das principais ameaças à recuperação da popularidade do presidente e à reeleição.
Mariliz Pereira Jorge: Bolsonaro e Arthur do Val são o retrato do homem médio brasileiro
Folha de S. Paulo
Deputado deu de cara com a parede de
tolerância zero erguida pelo movimento feminista
Para quem tem boa memória, o episódio
protagonizado pelo deputado estadual Arthur
do Val é só um revival ainda mais grotesco do que aconteceu na Copa da
Rússia, em 2018.
Torcedores brasileiros se aproveitaram da simpatia das mulheres do Leste Europeu, tão alardeada pelo membro do MBL, para abraçá-las e gritar "buceta rosa", enquanto elas sorriam sem entender o assédio que sofriam. Dias depois, mais de dez homens interromperam o trabalho de uma jornalista estrangeira aos gritos de "chupar xoxota é uma coisa linda".
Matheus Schuch: Bolsonaro pede a evangélicos apoio contra ‘ameaça socialista’
Valor Econômico
Presidente volta a sugerir ação política de
Forças Armadas
BRASÍLIA - Preocupado com o assédio de
outros candidatos à Presidência da República a líderes evangélicos, o
presidente Jair Bolsonaro recebeu dezenas de representantes do segmento, ontem,
em um café da tarde no Palácio da Alvorada. Em clima de campanha eleitoral,
pediu apoio contra o que chama de “ameaça socialista” no país e, se dirigindo
aos religiosos, prometeu dirigir o país “para o lado que os senhores
desejarem”.
Sob aplausos de pastores que antes anunciaram alinhamento a seu governo, Bolsonaro também exaltou seu compromisso em colocar um evangélico no Supremo Tribunal Federal (STF), já materializado com a indicação de André Mendonça, e voltou a dizer que vê autoridades no país atuando “fora das quatro linhas da Constituição” - discurso que já utilizou diversas vezes para atacar ministros da Corte.
Fernando Exman: A infértil lista de prioridades do Brasil
Valor Econômico
Governo lança plano de fertilizantes em
momento crítico
Da cadeira na qual estava recostado
observando o movimento, o vendedor de mudas, sementes e insumos agrícolas
conseguia avistar do outro lado da avenida o edifício que hoje abriga a Escola
Superior de Defesa.
A loja fica em frente ao amplo terreno que
já sediou a Escola Superior de Guerra (ESG) e a extinta Escola de Administração
Fazendária (Esaf), onde hoje grande parte das atenções devem estar na guerra
iniciada com a invasão da Ucrânia pela Rússia. E para lá chegar ele teria
apenas que atravessar a via expressa que liga o bairro do Jardim Botânico de ponta
a ponta. Caminhada curta, menos de 300 metros, mas precisaria enfrentar a
chuva.
Coisas de Brasília. Nesta época do ano, é possível safar-se de uma chuva torrencial apenas mudando de calçada.
Daniel Rittner: Sem boiada para mais fertilizantes
Valor Econômico
Aumentar produção de potássio requer debate
sem mentiras
Usar a guerra na Ucrânia como catapulta para o projeto de lei que libera mineração em terras indígenas coloca o debate sobre a dependência do potássio importado pelo Brasil no mesmo nível de maturidade da infame tentativa de “passar a boiada” sobre o meio ambiente enquanto as atenções do país se concentravam na pandemia. A opinião pública, o Parlamento, as organizações da sociedade civil, habitantes da Amazônia merecem uma discussão mais qualificada. Se não há interesse do governo em oferecê-la, eis alguns pontos de partida.
Paulo Delgado*: Os engajados
O Estado de S. Paulo.
Retrógrado, Putin quer ser tratado como poder não econômico, capaz de consolidar noções de honra e coexistência pela ferocidade militar
Quem só fala a verdade quando quer não se
importa de mentir quando precisa. A reputação nada vale onde o oportunismo
compõe o tipo sem compromisso, a mistura híbrida de esquerdista-direitista,
liberal-intervencionista, paz e amor-belicista, constitucionalista-compadraste
e cristão que não acredita no inferno. Vladimir Putin cavalga um cavalo morto
cujo galope medonho levará a Rússia ao abismo.
A cortesia deste ator dúbio e compulsivo
com a pátria é o engajamento brutal e “sincero” em empreendimentos
egocêntricos. Engajamento fanático que dá ao crédulo a impressão de ser um
forte. Cão de guarda da mentira, bobo da corte da verdade, tolera-se tudo em
democracia extraviada.
O engajado se encaixa rápido onde poucos pairam acima do seu tempo, têm mínima cultura clássica e não veem o orgulho como aristocracia da honra pessoal. É a síntese do mundo imperfeito do carreirista que se dá por esclarecido. Entusiasta dos atalhos, ele amontoa tudo e roda como moinho. Se o herói é ruim, ele se convence de que é um ruim melhor, pois o outro é o ruim deles.
Paul Krugman: Custos graves, não catastróficos
O Estado de S. Paulo.
Para países pobres, onde gastos com comida
pesam mais, choque no preço do trigo será severo
Quando Vladimir Putin invadiu a Ucrânia,
acho justo afirmar que a maioria dos observadores esperava que ele se sairia
bem. Em vez disso, aqui estamos, quase duas semanas depois, com Kiev e Kharkiv
ainda resistindo, e as forças invasoras retidas por uma feroz resistência
ucraniana – auxiliada pela rápida injeção de armas do Ocidente – e desastrosos
problemas logísticos. Ao mesmo tempo, as sanções do Ocidente contra a economia
russa claramente já surtem efeitos severos, que podem piorar.
Obviamente, tudo pode mudar. Por agora,
contudo, Putin está encarando consequências bem piores do que poderia ter
imaginado. Infelizmente, afrontar uma agressão não sai de graça. Os eventos na
Ucrânia e na Rússia devem impor, em particular, custos severos à economia
mundial. A questão é: quão severos?
Minha resposta preliminar é que serão
custos graves, mas não catastróficos. Especificamente, o choque de Putin não
parece tão grave quanto os choques do petróleo que abalaram o mundo nos anos
70.
Como naquela época, o golpe na economia mundial ocorre nos preços de commodities. A Rússia é uma grande exportadora de petróleo e gás natural; tanto a Rússia quanto a Ucrânia são – ou eram – grandes exportadores de trigo. Então, a guerra está surtindo grande impacto nos preços tanto da energia quanto dos alimentos.
Cristovam Buarque*: Lições da Ucrânia
Correio Braziliense
A primeira lição é o custo elevado de invadir um país. Até aqui, Rússia e Estados Unidos invadiram Afeganistão e Iraque, sem que os demais países impusessem sanções. Graças à Ucrânia, esses e outros países estão descobrindo o preço de invasões. A segunda lição é a constatação universal de que os mesmos países que rejeitam refugiados da Síria e da África são generosos e solidários com os ucranianos. Esta lição deve servir para o mundo cobrar da Europa os braços abertos aos refugiados obrigados a fugirem das guerras e da pobreza.
Outra lição: a guerra da Ucrânia permite
perceber o erro cometido, 30 anos atrás, quando as nações ocidentais não
aproveitaram a falência da União Soviética, para apoiar a Rússia, exigindo seu
desarmamento nuclear. Tudo indica que seria difícil provocar o desarmamento
unilateral absoluto da Rússia, mas não teria sido difícil aproveitar aquele
momento para obter-se o desarmamento nuclear pleno de todas as nações.
Mas, no lugar de estender a mão e ajudar na recuperação econômica da Rússia, em troca de incorporá-la em paz no capitalismo ocidental, o Ocidente preferiu fortalecer a OTAN, cercar a Rússia com armas. Tratou-a como se ainda fosse a União Soviética e a guerra fria continuasse; como inimiga sem justificativa, porque Ocidente e Oriente são capitalistas, não disputam ideias nem colônias. O Ocidente poderia ter evitado essa guerra na Ucrânia, se tivesse agido com mais visão para o futuro e menos prisão ao passado. Em 1945, o EUA teve esta sabedoria, quando deu apoio para reconstruir a Alemanha. Em 1922, poderia ter feito uma versão do Plano Marshall para a Rússia e incorporado este país no mundo ocidental, desarmado. A arrogância dos EUA e a da Europa Ocidental preferiram aproveitar a fraqueza russa e levar a OTAN até as fronteiras para cercar a ex-URSS. A Rússia encontrou um autocrata que manipulou regras democráticas para chegar ao poder e ficar por tempo indeterminado.
O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões
EDITORIAIS
Não existe saída fácil para a alta dos
combustíveis
O Globo
A história do controle de preços no Brasil
é uma tragédia — das cenas patéticas dos fiscais do Sarney correndo atrás de
gado no pasto ao descalabro que quase levou a Petrobras à bancarrota nos tempos
de Dilma Rousseff. Só o passado já recomendaria uma reflexão profunda antes de
qualquer decisão sobre controlar o preço dos combustíveis para compensar a alta
do petróleo resultante da invasão russa à Ucrânia.
É compreensível que qualquer governante sinta essa tentação. O diesel mais caro aumenta o custo dos fretes; esse aumento é repassado aos produtos transportados; e produtos mais caros alimentam uma inflação já alta. O francês Olivier Blanchard, ex-economista-chefe do FMI hoje no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), defendeu em fevereiro a adoção de subsídios e isenção de impostos para tentar frear o preço dos combustíveis. Segundo ele, o impacto do aumento na inflação ascendente poderia erodir a confiança nos bancos centrais e provocar uma recessão mais séria.
terça-feira, 8 de março de 2022
Merval Pereira: Botequim digital
O Globo
‘As
redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que antes falavam
apenas num bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.’
Essa constatação do escritor e linguista Umberto Eco nunca foi tão exata quanto
no caso do deputado estadual (ainda?) Arthur do Val, que se elegeu com o
pseudônimo de Mamãe Falei, nome de um programa seu no YouTube.
Numa pseudo “campanha humanitária”, ele viajou para a Ucrânia e, de lá, mandou
relatos para seus amigos. Relatos da guerra? Das tragédias que viu? Não, sobre
as mulheres ucranianas, nas filas de refugiados de guerra. “Só tem deusa”,
comenta com uma rede de amigos, que não se encontram “nem nas melhores baladas”
de São Paulo. Melhor ainda, parece dizer ele: “Elas são fáceis porque são
pobres”.
Um sujeito que é capaz de fazer tais comentários em meio a uma guerra pode ser
considerado humano? O machismo de Mamãe Falei já havia sido constatado numa
escola em greve no Paraná, em que ele foi acusado de ter assediado sexualmente
algumas estudantes que faziam um cordão de isolamento para impedir sua entrada.
Essa masculinidade tóxica, que tem no presidente Bolsonaro um exemplar característico,
é usual nas relações de poder no Brasil, o que, se não reagirmos com vigor, nos
tornará uma terra de trogloditas onde um comportamento regressivo, animalesco,
tem permissão de existir.
Carlos Andreazza: Contra o jogo
O Globo
Está no Senado o projeto que legaliza o
jogo no Brasil — inclusive o do bicho, hoje inconfundível com a exploração de
máquinas caça-níqueis. Um disparate, obra do tipo de ganância que desconhece a
realidade do chão, o campo minado, em que se quer dar as cartas.
Pergunto: o businessman a fim de entrar na
parada estará disposto a concorrer com os mafiosos?
Nem precisa rolar os dados. Costuma dar em sangue. Ou em sociedade. Conhecemos a história. Outro dia mesmo, o Supremo trancou processo em que um bicheiro respondia por homicídio. A ideia, então, é formalizar o jogo ora explorado por criminosos perfeitamente livres para explorá-lo criminosamente?
Míriam Leitão: O grande risco das soluções erradas
O Globo
A crise econômica internacional se agravou
muito ontem e está havendo um choque de petróleo. O economista Mohamed A.
El-Erian prevê recessão de 30% para a Rússia. A economista Monica de Bolle diz
que o rublo está perto do colapso e prevê consequências espalhadas na economia
do mundo. O risco é enfrentar uma crise deste tamanho com o governo Bolsonaro, que nunca tem visão estratégica e
improvisa as soluções. Ainda mais agora com as eleições.
A agricultura brasileira é o setor mais dinâmico da nossa economia e enfrentará, com a guerra de Putin, a falta de fertilizantes. Aqui dentro há mais soluções do que o governo imagina. A mineração em terra indígena, que Bolsonaro quer, não é absolutamente a solução para problema. É uma proposta oportunista e extremamente perigosa.
Luiz Carlos Azedo: Bolsonaro mira reeleição com “economia de guerra
Correio Braziliense
Além de
tabelar combustíveis, também quer aproveitar a tragédia da Ucrânia para passar
a boiada no Congresso. Voltou a defender a aprovação do projeto que libera a
mineração em terras indígenas
O presidente Jair Bolsonaro considera a guerra
da Ucrânia uma oportunidade, e não uma ameaça. Todas as suas declarações
sinalizam nessa direção. Embora o Brasil tenha se posicionado contra a agressão
de Vladimir Putin, que pôs o mundo diante de uma provável recessão e à beira de
uma terceira guerra mundial, Bolsonaro flerta com o perigo, mantendo as
relações com a Federação Russa no mesmo patamar em que estavam quando visitou
Moscou, no mês passado.
Não é que não esteja levando em conta o impacto das sanções econômicas à Rússia aqui no Brasil, muito pelo contrário. É que esse impacto virou o pretexto de que precisava para a adoção de medidas econômicas de caráter populista, agora com a narrativa de que é preciso mitigar os efeitos da crise internacional com uma “economia de guerra”. Além de se beneficiar da polarização com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que esvazia a chamada terceira via — cujos candidatos não decolam nem desistem, muito menos se unificam —, Bolsonaro aposta na retomada gradativa dos empregos; no efeito dos programas sociais de transferência de renda, como o Auxílio Brasil; e no fim da pandemia de covid-19, graças à vacinação que tanto combateu.
Andrea Jubé: A tática antigolpe de Lula e Bolsonaro
Valor Econômico
Temor é de que para atrair o centro, Lula
espante a periferia
Antípodas políticos, o presidente Jair
Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fazem cálculos políticos
quase convergentes para escolher o companheiro de chapa.
O primeiro quer, de novo, um general da
reserva para se blindar de um golpe do Congresso. O petista quer um
ex-adversário, possível símbolo de uma ampla aliança política, para se blindar
de um golpe militar.
Dois fatores traduziriam a escolha de Geraldo Alckmin, um ex-algoz do PT, para compor a chapa presidencial com Lula. O capital político do ex-tucano para ajudar o PT a tentar eleger pela primeira vez o governador de São Paulo, façanha nunca antes alcançada pela legenda.
Pedro Cafardo: O provável triste fim do grupo do Brics
Valor Econômico
Ação de Putin vai provocar inflação elevada
em todo o mundo e levar Rússia ao isolamento e empobrecimento ainda maior
anos uma guerra mundial sanitária,
provocada pela covid-19, depara-se agora com uma guerra convencional, detonada
pela vontade do autocrata russo Vladimir Putin.
A invasão da Ucrânia pela Rússia era uma
das ameaças que pairavam sobre o planeta, capaz de impedir a recuperação global
iniciada com a redução da pandemia. Analistas não acreditavam que Putin fosse
tão insano a ponto de autorizar uma invasão no momento em que o mundo começa a
superar a pandemia. Ele provou que é.
A despeito de suas reservas de US$ 630 bilhões, já parcialmente bloqueadas, e de seu poderio nuclear, herança da ex-União Soviética, a Rússia tem um desempenho econômico pífio nas duas últimas décadas. Jim O’Neill, em entrevista ao Valor de quarta-feira (2/3), disse que a Rússia está querendo ser “mais do que seu peso econômico lhe permite”, 2% do PIB global.
Luiz Gonzaga Belluzzo / Gabriel Galípolo*: As consequências econômicas da guerra
Valor Econômico
O comércio entre Rússia e China se afasta
mais do uso do dólar em 2018, após o início da guerra comercial EUA-China
Entre as sanções anunciadas no dia 26 de
fevereiro para isolar a Rússia do sistema financeiro internacional,
concentraram as atenções a remoção de bancos russos selecionados do SWIFT e as
medidas restritivas para impedir o BC russo de usar suas reservas
internacionais.
Não é a primeira vez que o SWIFT é
utilizado como instrumento de poder geopolítico. Em 2006, o sistema foi alvo de
divergências envolvendo EUA e União Europeia, após a descoberta do chamado
“acordo swift”. Por meio de um software, os EUA acessam a base de dados
(informações confidenciais) sobre transferências bancárias, sem o conhecimento
de bancos e seus clientes, em um esforço secreto do “Terrorist Finance Tracking
Program”, criado pela política de “Guerra ao Terror” da administração Bush.
Ainda em 2006, o governo belga (o SWIFT é sediado em Bruxelas) declarou que o acordo violava as leis do país e da UE. Em 11 de fevereiro de 2010 o “acordo swift” foi rejeitado pelo Parlamento Europeu, com a perda de seus efeitos jurídicos na Europa para preservar os direitos dos cidadãos europeus.
Rubens Barbosa*: Vulnerabilidades do Brasil
O Estado de S. Paulo
País não pode ignorar problemas que poderão
afetar seus interesses concretos, prejudicando seu desenvolvimento e sua
segurança nacional
A pandemia e, agora, o conflito entre a Rússia e a Ucrânia expuseram de forma dramática as vulnerabilidades de todos os países em áreas estratégicas. A dependência da China em muitos setores da cadeia produtiva fez com que os países desenvolvidos passassem a enfrentar essa questão com novas políticas industriais para reduzir os riscos dessa dependência. No caso do Brasil, a magnitude dos problemas – em especial na economia (baixo crescimento, inflação, taxa de juros), na sociedade (desigualdade, aumento da pobreza, desemprego), na destruição da Amazônia e no isolamento e na perda de espaço do mundo – deixa para um longínquo segundo plano a questão das vulnerabilidades que perpassa diversos setores estratégicos para a segurança alimentar e a segurança nacional.
Pedro Fernando Nery: Oligarcas
O Estado de S. Paulo.
A elite brasileira parece concentrar hoje
mais dinheiro do que a elite russa
As sanções anunciadas nos últimos dias têm
chamado atenção para os oligarcas, o grupo de russos muito ricos que ajudaria a
sustentar Putin no poder. O termo – oligarcas – é usado para a elite da Rússia,
mas não tipicamente para elites de outros países. O que permite usar a
denominação lá e não, por exemplo, aqui? Que semelhanças e diferenças existem
entre as nossas elites?
Nos dicionários, a definição de oligarca passa pela elevada influência política que o sujeito detém, mas também se permite o uso para definir alguém muito rico (um sinônimo de magnata, ricaço). A Rússia é, de fato, um país muito desigual, com alta concentração de renda naqueles que estão no topo dela – mas é difícil encontrar medida que mostre que essa concentração é maior do que no Brasil.
Joel Pinheiro da Fonseca: O MBL tem futuro?
Folha de S. Paulo
A decisão do movimento de amadurecer nunca
teve a coragem de ir até o fim
Ir do Brasil
para a Ucrânia em pleno conflito armado para ajudar na resistência
contra os invasores russos? Era obviamente um golpe de marketing, um exemplo
extremo de vale-tudo para aparecer, mas era também o tipo de coisa para
capturar a atenção dos eleitores.
Não se vence eleição com debate técnico; é
preciso fazer barulho. Aprove-se ou não seus métodos, o
MBL é craque na comunicação das redes sociais.
Não contavam, contudo, com o desastre
dos áudios de Arthur do Val sobre as mulheres ucranianas. Mistura de
machismo com o detalhe sórdido extra da exploração da pobreza pelo turismo
sexual.
Comparar uma fila de refugiadas com uma fila de mulheres na balada não é o que se espera de um defensor da família. E isso veio poucas semanas depois do episódio em que Kim Kataguiri defendeu a liberdade à defesa do nazismo.
Hélio Schwartsman: Dá para antecipar o lugar que a invasão da Ucrânia terá na história?
Folha de S. Paulo
A predição é um sonho que não está à
disposição de historiadores
A invasão
da Ucrânia é o prelúdio da 3ª Guerra Mundial, o início de uma nova e
mais tensa ordem global, ou um evento histórico dramático, mas sem repercussões
duradouras? A resposta é bem anticlimática: não dá para saber.
Como o futuro é contingente, os três cenários —e todas as variações concebíveis— ainda podem se materializar. O que sabemos é que as situações mais extremas, pelo simples fato de serem em menor número do que as intermediárias, são menos prováveis. Também sabemos que, por razões evolutivas óbvias, tendemos a superestimar a gravidade das crises presentes. Isso não significa que nossos piores pesadelos nunca se concretizem, mas apenas que eles já assombram nossas mentes mesmo que nunca se tornem reais.
Alvaro Costa e Silva: O vale-tudo da guerra cultural
Folha de S. Paulo
De um lado cancela-se Dostoiévski e do
outro bloqueia-se a internet
Os acontecimentos históricos costumam
imitar uns aos outros até nos detalhes. O comboio russo que avança em direção
a Kiev não pode confiar nas placas de orientação: elas foram trocadas
ou invertidas para confundir o inimigo. Como conta Milan Kundera em seus
romances, a mesma coisa aconteceu em 1968 durante a invasão da antiga
Tchecoslováquia pelos tanques soviéticos.
Além da opressão, a burrice política também
retorna em ciclos. Uma apresentação de "Romeu e Julieta" pelo Balé
Bolshoi, transmitida para a televisão de 112 países em 1976, foi proibida no
Brasil. A explicação revelou a lógica dos milicos no poder: o Bolshoi era
russo, a Rússia comandava a União Soviética, portanto o balé era comunista.
No "Febeapá", Stanislaw Ponte Preta registra que em 1967 um filme clássico de Serguei Eisenstein, "Ivan, o Terrível" —a história do czar que viveu no século 16—, não pôde ser exibido em Belém do Pará. A censura era para impedir que o "credo vermelho" se difundisse entre nós. É bom ficar só nesses dois exemplos, para não dar ideia ao secretário de Cultura, Mario Frias.
Cristina Serra: Todo sangue é vermelho 2
Folha de S. Paulo
Ana Cristina Rosa fez a síntese definitiva:
'nem todos os olhos são azuis, mas todo sangue é vermelho'
Desde a Antiguidade, uma guerra pode ser
contada de muitos pontos de vista. A nova ordem mundial dela resultante, os
lances do xadrez geopolítico, as vitórias militares, os lucros da indústria
armamentista, tudo isso conta uma parte da guerra.
Há outras maneiras, porém, e o jornalista
norte-americano John Hersey mostra isso muito bem no seu clássico
livro-reportagem "Hiroshima". Hersey escolheu meia dúzia de
sobreviventes do ataque nuclear dos Estados Unidos ao Japão, em 1945, para
escrever sobre a guerra na sua dimensão mais singular e humana.
As histórias condensam a dor, o horror e o desespero provocado por um dos maiores crimes de guerra, jamais julgado. Estima-se mais de 200 mil mortos em Hiroshima e Nagasaki, desintegrados, em minutos, nas chamas do cogumelo atômico.
Cármen Lúcia*: Claros, sombras e mulheres
Folha de S. Paulo
Muitas são silenciadas e invisibilizadas na
importância política, cívica e social
"(...) e quem não é capaz para as
coisas, não se meta nelas; e mais vale morrer com honra que viver com
desonra". Assim dona Hipólita
Jacinta Teixeira de Melo dirigiu-se ao vigário da Comarca de Rio das
Mortes dando notícia da prisão de Tiradentes.
Eram os idos de 1789. Maio. Dona Hipólita, informada, cuidou de avisar os participantes da "Inconfidência Mineira". Atuara no movimento, sua casa em Ponta do Morro sendo local de encontros dos depois apelidados "inconfidentes". Importante marco da história brasileira, são conhecidos os nomes dos seus participantes, sua trajetória, sua ação. As parcas referências às mulheres que participaram daquela conjuração registram, quase sempre, apenas as mencionadas como musas, cantadas em versos conhecidos. As inconfidentes mineiras ou outras figuras de ação no período, de dona Hipólita a Inácia Gertrudes de Almeida, permaneceram ausentes da história brasileira.
O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões
EDITORIAIS
Guerra na Europa trará prejuízo à
recuperação do PIB
O Globo
A economia brasileira cresceu 4,6% em 2021 e recuperou as perdas do ano anterior, o primeiro da pandemia. Sem dúvida, foi um alívio. Economias grandes, como a mexicana, ainda não voltaram ao patamar pré-pandêmico. Mas, numa comparação mais ampla, fica evidente que o resultado está longe de excepcional. O crescimento do PIB brasileiro em 2021 ficou abaixo da média global e dos resultados apurados em Estados Unidos, Índia e China (que nem recessão sofreu em 2020). A festa do governo federal com o anúncio foi desproporcional. O que houve foi recuperação, um passo à frente depois de dois ou três para trás. O PIB estava no final do ano passado num nível 0,5% acima do registrado na mesma época do ano em 2019. Mal saímos do lugar.
Poesia | Vinícius de Moraes: Poema dos olhos da amada
São
cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus…
Ó
minha amada
Que olhos os teus
Quanto
mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus…
Ó
minha amada
Que olhos os teus
Se
Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.
Ah,
minha amada
De olhos ateus
Cria
a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.
segunda-feira, 7 de março de 2022
Fernando Gabeira: Política e patologia no planeta em crise
O Globo
Ao longo da vida, participei de centenas de
manifestações, em muitas gritando palavras de ordem; em outras, apenas
documentando.
O que extraio de verdadeiro dessa gritaria
nas ruas é uma frase que sobrevive na velhice: “O povo, unido, jamais será
vencido”. Um país pode ser invadido por forças militares superiores, o governo
pode ser desfeito, mas, no médio e longo prazos, essa verdade essencial acabará
se impondo.
Escrevo num momento de transição. Sei que o
mundo mudou e seguirá mudando. Mas a simples eclosão da guerra não consegue
ofuscar, para mim, o novo relatório dos cientistas da ONU mostrando como
avançam o aquecimento global e o perigo de tragédias climáticas.
Do nível nacional ao internacional, o
instinto de morte parece estar numa ofensiva sem precedentes. Não pretendo
abordá-lo com mais uma análise da correlação de forças, nem das negativas
consequências econômicas. Essa tarefa, já a cumpri durante a semana, analisando
o papel estratégico dos fertilizantes no agronegócio e, consequentemente, na
economia e na segurança alimentar do Brasil.
Ao encerrar meu trabalho noturno, tenho visto uma série chamada “Mind hunters”. É a história de agentes do FBI que, no fim do século passado, percebem que os crimes não se explicam mais pelos velhos motivos: ciúmes, dívidas a cobrar. Eles se interessam por criminosos em série, cujas razões só podem ser entendidas com um mergulho nas suas mentes doentias.
Demétrio Magnoli: Um incomum homem comum
O Globo
O presidente afegão, Ashraf Ghani, fugiu do
país diante da aproximação das forças do Talibã. Volodymyr Zelensky, da
Ucrânia, permaneceu em Kiev, recusando a oferta dos EUA de transferir seu
governo para Lviv e inspirando a resistência nacional à invasão russa.
Analistas distraídos tiveram, então, de reconhecer a coragem do ex-comediante,
alvo fácil de suas zombarias.
Não é só coragem. Dirigindo-se ao povo
russo, em língua russa, Zelensky desmontou cada uma das mentiras difundidas
pelo Kremlin. O discurso precisaria ser ouvido no Brasil, onde não
faltam papagaios de Putin.
A invasão destina-se a libertar a nação invadida? “A Ucrânia, nas notícias de vocês, e a Ucrânia, na realidade, são dois países completamente diferentes. O mais importante é que a nossa é real.” A Ucrânia vive sob o nazismo? “Como pode uma nação ser qualificada como nazista depois de sacrificar 8 milhões de vidas para erradicar o nazismo? Como posso ser nazista se meu avô sobreviveu à guerra integrando a infantaria soviética e morreu como coronel numa Ucrânia independente?”, perguntou o ucraniano, que é judeu.
Carlos Pereira: Migração não é traição
O Estado de S. Paulo
Trocar de partido político faz parte da
estratégia de sobrevivência eleitoral
Na última quinta-feira, 3, foi aberta a
“janela partidária”, período de 30 dias que antecede o prazo-limite de
filiação, em que a fidelidade partidária do parlamentar é relaxada de modo a
permitir a migração de partido sem riscos de perda de mandato.
No sistema eleitoral brasileiro, como a maioria dos parlamentares se elege com sobras de votos de candidatos do seu partido que ultrapassam o quociente eleitoral, o mandato pertence ao partido e não ao parlamentar individual. A fidelidade partidária funciona como uma espécie de “pedágio” que o parlamentar paga ao partido para poder se eleger.
Os partidos políticos brasileiros, com raras exceções, não são fonte de agregação ideológica nem programática. Funcionam basicamente como agremiações que maximizam os interesses políticos e de sobrevivência de seus membros. Ao longo de seu mandato, um parlamentar pode perder interesse em continuar no partido que o elegeu.
Marcus André Melo*: 'Essa Rússia Americana'
Folha de S. Paulo
Gilberto Freyre enxergou traços da Rússia
entre nós
Gilberto Freyre enxergou traços da Rússia
entre nós quando se referiu ao Brasil como "essa Rússia Americana",
em "Casa Grande & Senzala" (1933), e mesmo antes. O foco de sua
análise são as relações de sadismo e gosto pelo mando resultantes da escravidão
e que perpassavam a vida brasileira, da esfera sexual à política, irradiando-se
"no gosto de mando violento ou perverso que explodia no senhor de engenho
ou no filho bacharel quando no exercício de posição elevada, política ou de
administração pública".
E acrescentava "gosto que se encontra abrutalhado em rude autoritarismo num Floriano Peixoto". E conclui que o mandonismo tem sempre encontrado vítimas em quem exercer-se com "requintes sádicos, deixando até nostalgias logo transformadas em cultos cívicos, como o do Marechal de Ferro".
Lygia Maria: Não se combate autoritarismo com censura
Folha de S. Paulo
Cancelar artistas russos é contraditório em
democracias liberais
Como forma de retaliação à invasão da Ucrânia, a cultura russa está sendo cancelada. Festivais de cinema na Europa, como o de Glasgow e o de Estocolmo, baniram filmes russos que receberam financiamento estatal. O teatro The Helix, em Dublin, cancelou um espetáculo da Companhia Real de Balé de Moscou, enquanto a Royal Opera House, em Londres, cancelou a temporada do Balé Bolshoi. Já na Itália, Dostoiévski, morto em 1881, sofreu ataques: uma universidade em Milão chegou a cancelar um curso sobre o escritor russo, mas, com a repercussão negativa, voltou atrás, e, em Florença, cidadãos pediram a derrubada de uma estátua em homenagem a ele.