quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Merval Pereira - Sem noção

O Globo

Bolsonaro feriu o decoro presidencial e deveria ser punido. Usou o 7 de setembro para fazer campanha

Passou o 7 de Setembro sem maiores danos à democracia. Quer dizer que superamos mais um obstáculo rumo à eleição do próximo presidente da República. O presidente Jair Bolsonaro teve o razoável senso de evitar um enfrentamento com as instituições republicanas, o que mostra que ele não rasga dinheiro quando a situação se aproxima do limite possível dentro da democracia.

Bolsonaro é capaz de cometer um “sincericídio” ao reger um coro de “imbrochável”, é capaz de fazer comparações grosseiras entre primeiras-damas, agora contra Janja, mulher de Lula, anteriormente contra a mulher do presidente francês Emmanuel Macron, mas tem juízo para saber que seu limite havia sido traçado. Tentou confundir as comemorações do Bicentenário da Independência com sua campanha eleitoral, mas não obteve receptividade nem mesmo dos militares, que se arriscaram a ver-se misturados com os bolsominions quando a festa era da Pátria e não foi comemorada à altura pela aleivosia do próprio Bolsonaro, que se utilizou das forças militares e de seus seguidores para dar um tom patriótico de sinal trocado. Não citou uma vez sequer Dom Pedro I.

O verde e amarelo foi mais uma vez usurpado para se transformar nas cores da campanha de Bolsonaro, quando não é possível aceitar que as cores brasileiras sejam sinônimo de qualquer campanha eleitoral. Bolsonaro deu mostras de que não está à altura de ser o presidente da República ao puxar um coro de “imbrochável” em plena Esplanada dos Ministérios. Feriu o decoro presidencial e deveria ser punido por isso, não apenas pelo palavreado chulo, mas também por ter usado a parada de 7 de setembro para benefício de sua campanha.

Míriam Leitão - O dia da infâmia de Jair Bolsonaro

O Globo

Bolsonaro abusou do poder de chefe de Estado, usou recursos públicos para campanha, dividiu o país e, sim, ameaçou com golpe de Estado

Houve o esperado, mas nem por isso é menos ilegal, ilegítimo e perigoso. O presidente Bolsonaro tomou para si o que era coletivo, fez uma apropriação indébita de uma data nacional, usou todos os recursos do Estado em campanha eleitoral. Tudo o que Bolsonaro fez ontem é inaceitável. O golpismo esteve presente nas falas, nos convidados aos quais ele deu mais destaque, nas palavras de ordem dos seus apoiadores, no aparato do qual se cercou com a ambiguidade de sempre. Mas o pior foi que ele repetiu ameaças às instituições.

Bolsonaro deu a demonstração de força que queria dar. Conseguiu levar muita gente para a rua, verdadeiras multidões. Isso era importante para ele, porque estava começando a perder apoio político e financeiro. Pode ter novo fôlego a partir de agora. Por outro lado, terá de enfrentar as consequências jurídicas do dia da infâmia, em que ele transformou o Sete de Setembro.

A fala dele de que recolocará de “volta às quatro linhas quem ousou ficar fora dela” deve ser entendida dentro da realidade paralela de Bolsonaro e seus assessores. Na visão deles, o governo joga dentro das quatro linhas, quem não joga é o Supremo e a imprensa. Por isso, Bolsonaro falou, em Brasília, essa expressão se referindo ao STF e, no Rio, depois de uma fala sobre a imprensa.

Malu Gaspar - Bolsonaro conseguiu o que queria

O Globo

Presidente conseguiu fazer os comícios mais assistidos da história das campanhas eleitorais brasileiras travestidos de atos cívicos

Em fevereiro de 2018, numa entrevista ao jornalista americano Michael Lewis, o guru da extrema-direita Steve Bannon explicitou, com surpreendente sinceridade, sua estratégia para multiplicar a mensagem do trumpismo: “Os democratas não importam”, disse Bannon. “A oposição real é a mídia. E a forma de lidar com eles é inundá-los com nossas merdas”.

A finalidade dessa tática, segundo outra frase de Bannon que ficou famosa, nunca é esclarecer ou impor a verdade: “Não se trata de persuadir, e sim de desorientar”.

O que se viu neste 7 de Setembro foi a execução perfeita do método Bannon por Jair Bolsonaro, num momento crítico da campanha eleitoral. Desde que começou a planejar a comemoração oficial dos 200 anos da Independência e os atos no Rio e em Brasília, o presidente sabia que precisaria deles para demonstrar força.

Também sabia que teria de dominar a atenção do país durante todo o dia para que seus atos não fossem vistos como um fracasso na comparação com os do ano passado, quando ele colocou o Brasil em suspenso com a ameaça golpista mais descarada que já se viu após a redemocratização.

O que seria dito ou feito neste 7 de Setembro dependeria, obviamente, do cenário político e eleitoral. E eis que a conjuntura combinou uma estável e folgada liderança de Lula nas pesquisas com altas taxas de rejeição a ele, Bolsonaro, além do surgimento de novas informações sobre a compra de imóveis em dinheiro vivo por integrantes da família presidencial.

Luiz Carlos Azedo - Para não dizer que não falei do Imbrochável

Correio Braziliense

Bolsonaro não fez ataques diretos ao Supremo e se esforçou para seduzir o eleitorado feminino, que está inviabilizando a sua reeleição. Mas quando falou das mulheres, foi um desastre

Espirituoso, zombeteiro, gracejador, como o próprio apelido diz, o português Francisco Gomes da Silva desembarcou no Rio de Janeiro em 1808, como um dos 15 mil integrantes da Corte que acompanharam a fuga de D. João VI de Portugal. Era filho bastardo de Francisco José Rufino de Sousa Lobato, Visconde de Vila Nova da Rainha, e de sua empregada doméstica Maria da Conceição Alves, uma moça pobre, que foi mandada para a África, enquanto Antonio Gomes da Silva, protegido de Lobato, registrava o menino como filho legítimo.

O pai biológico não abandonou o filho, que estudou no seminário de Santarém, onde aprendeu francês, inglês, italiano e espanhol. Em 1807, acabou expulso pelo reitor e veio com a família real para o Brasil, onde acabou faxineiro do Palácio São Cristóvão.

Chalaça e uma dama da Corte foram flagrados nus num dos quartos do Palácio pelo próprio D. João VI. Expulso de São Cristóvão, onde era visto como espião pela rainha Carlota Joaquina, abriu uma barbearia na rua do Piolho (atual rua da Carioca), mas logo voltou ao serviço da Corte, após o retorno da família real para Portugal, porque era amigo de D. Pedro I.

William Waack - Ofensiva no limite

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro usou todas as armas, mas não conseguiu ainda virar o jogo

No jargão militar a palavra “culminar” significa atingir o ponto máximo, mas sem ter alcançado o objetivo. Nesse sentido, o que aconteceu no 7 de Setembro foi um sinal de que a atual ofensiva de Jair Bolsonaro culminou.

A demonstração de força gerou as pretendidas imagens de nutrido apoio. E a sensação, entre apoiadores de Bolsonaro, de que as pesquisas “mentem”. Como não acreditar que está com a reeleição garantida, se foi capaz de colocar tanta gente na rua?

Manifestações dessa magnitude ajudariam, teoricamente, a virar um jogo eleitoral até aqui desfavorável para Bolsonaro. O problema é a distância em que ele se encontra de um ponto de inflexão em relação a Lula.

Eliane Cantanhêde - O 7 de Setembro pode virar a ‘facada’ de 2022?

O Estado de S. Paulo

As manifestações gigantescas que o presidente Jair Bolsonaro proporcionou para o candidato Jair Bolsonaro à custa do 7 de Setembro e do bicentenário da Independência podem se transformar na facada de 2022, criando um “antes e depois” na eleição presidencial. Ou, em outras palavras, agora é ou vai ou racha.

Como já escrito neste espaço, Bolsonaro se preparou para o “maior espetáculo da Terra”, enquanto a expectativa dos adversários, principalmente do PT, era de que o dia da Pátria, usado como dia de Bolsonaro, fosse o último cartucho, ou munição, ou bala em busca da reeleição.

As próximas pesquisas dirão, mas até lá precisamos nos ater aos fatos: os atos do Rio e de Brasília foram, sim, os maiores já vistos ao longo desta campanha, talvez até de muitas, e cumpriram o objetivo de dar uma baita demonstração de força para uma campanha que vinha cambaleante, ganhando um ponto daqui, outro dali, sem jamais ameaçar o principal candidato, o petista Lula.

Eugênio Bucci* - A pauta ainda pauta

O Estado de S. Paulo

Os fatos que mais mobilizam a opinião pública no debate eleitoral são aqueles descobertos, verificados e reportado pela imprensa profissional

À medida que se aproximam as eleições de outubro, vai ficando mais e mais patente que somos um país atolado em fake news (uma delas nos governa e atazana). Olhe à sua volta e verá. Corre por aí o boato criminoso dizendo que os opositores do presidente da República acalentam um plano de fechar igrejas pelo Brasil afora. Muita gente acreditou. Há, também, aquela história estapafúrdia de que Lula quer acabar com o trabalho por aplicativos, uma propaganda que só serve para aterrorizar.

Entre tantas mentiras industrializadas, a pior é a demonização das vacinas. O alvo não são apenas as da covid-19, mas todas. De onde vem tanta crueldade? Como será que alguém pode fazer isso, mesmo sabendo que vai prejudicar a saúde de gente desavisada? A resposta é tão simples quanto chocante: os patrocinadores da extrema-direita antidemocrática se convenceram de que, se insuflarem a repulsa aos imunizantes, desmoralizarão os cientistas, e, se desmoralizarem os cientistas, fortalecerão a imagem do mitômano que querem ver reeleito. Fanáticos, metidos a salvadores da Pátria, não hesitam em espalhar o pânico. Financiam a ignorância fabricada e sabotam as campanhas de vacinação, que já não alcançam os mesmos patamares do passado. Matam seus conterrâneos e nem ligam.

Mônica Sodré* - O que houve, então, com a nossa democracia?

O Estado de S. Paulo

Não parece exagero afirmar que estamos diante de um processo de autocratização, que se expressa em várias frentes

As democracias são uma conquista civilizatória relativamente recente, de trajetória não linear, e nada garante que vão durar. Hoje, 80% da população mundial vive em países só parcialmente livres ou não livres e o nível de liberdade global tem caído por 16 anos consecutivos.

No Brasil, somos apontados desde 2019 como um dos dez países com maior tendência autocrática do mundo. Há 7 anos deixamos de ser classificados como uma democracia liberal – nas quais há eleições livres, regulares, direitos de expressão e associação e respeito ao Estado de Direito – e caímos uma categoria, sendo classificados como democracia eleitoral pelo Varieties of Democracy (V-DEM), um dos think tanks globais mais prestigiados. No relatório de 2021, figuramos como uma das cinco lideranças globais no processo conhecido como “autocratização”, acompanhados por Hungria, Polônia, Sérvia e Turquia.

A literatura sobre regimes democráticos no mundo nos permite afirmar que estamos diante de uma nova onda de autocratização, cuja característica é singular: ela é lenta e a ruptura democrática se dá gradualmente e sob disfarce legal, num processo que envolve elementos políticos e de justiça. Aqui, não parece exagero afirmar que estamos diante deste processo, que se expressa em várias frentes.

Maria Hermínia Tavares* - O que o Chile tem a ensinar

Folha de S. Paulo

Boric se curvou à vontade dos cidadãos, saudando-a como expressão da democracia

A fala do presidente do Chile, Gabriel Boric, conhecidos os resultados do plebiscito sobre a nova Constituição nacional, o alça ao diminuto rol dos estadistas democráticos que a América Latina conheceu ao longo de sua conturbada e não raro trágica história.

Rejeitado por robusta maioria, o texto era mais do que uma proposta para substituir aquele herdado da ditadura pinochetista (1973-1990) e emendado pelos governos livres que a sucederam. Em mais de três centenas de artigos, expressava a utopia de uma esquerda democrática e renovadora que Boric encarna.

De fato, a sua eleição e a chamada Convenção Constitucional resultaram ambas da imensa vaga de protestos de 2019-2020, que os chilenos chamam de "el estallido" (o estrondo) e que pareceu destroçar um sistema partidário conhecido por sua solidez e previsibilidade.

Vinicius Torres Freire – A massa de Bolsonaro na rua

Folha de S. Paulo

Presidente corrompeu 7 de Setembro, mas é o único político que reúne multidões

O olhômetro é precário, mas a avenida Paulista do 7 de Setembro bolsonarista de 2022 parecia ter pelo menos tanta gente quanto o comício golpista de 2021. Era gente do povo, com cara de metrô lotado às seis da tarde, um tanto diferente daquela que pedia a cabeça de Dilma Rousseff em 2016.

Jair Bolsonaro corrompeu a coisa pública a fim de se apropriar da data nacional, levar multidões às ruas, ocupar quase sozinho o tempo de cobertura jornalística e fazer vídeos de campanha. Teve sucesso.

Bolsonaro poderia, pois, ser objeto de vários processos de crime eleitoral, se houvesse Procuradoria-Geral. Provavelmente não dariam em nada, como tem sido o caso nestes últimos quatro anos, dos pedidos de impeachment que apodrecem no Congresso aos inquéritos que mofam no Supremo. A delinquência de Bolsonaro faz parte da paisagem política. Um sucesso.

O candidato do PL, o partido nacional-mensalista, começou o dia dizendo que 1964 pode se repetir. Fez campanha por meio da TV estatal, aquela que prometera fechar em 2018.

Bruno Boghossian - Os gatilhos de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Presidente usa insinuação golpista para agitar militantes e sustentar imagem de candidato competitivo

Jair Bolsonaro acordou neste 7 de Setembro com um golpe de Estado na cabeça. Ainda no café da manhã, o presidente tentou agitar seus apoiadores com uma lista de "momentos difíceis" do passado. Citou revoltas, o impeachment de 2016, a eleição de 2018 e também o ano de 1964, que inaugurou a ditadura militar. "A história pode se repetir", emendou.

Não era um alerta, era uma promessa. Bolsonaro incorporou insinuações de ruptura à plataforma de sua campanha. Depois de cultivar ameaças de atropelar as regras e ampliar seus poderes, o presidente pediu um segundo mandato para fazer exatamente isso, à moda de outros autocratas contemporâneos.

Mensagens desse tipo se tornaram um ativo eleitoral importante para Bolsonaro. Elas servem para reforçar o figurino de adversário do sistema político e, principalmente, manter seus apoiadores mobilizados num momento em que sua chance de vencer no voto não é das maiores.

Thiago Amparo - Imbrochabilidade ou prisão

Folha de S. Paulo

A nação imaginada por Bolsonaro é composta por homens de bem com pânico de brochar, mulheres como meros adereços políticos e oponentes extirpados

A nação imaginada por Bolsonaro é composta por homens de bem com pânico de brochar, mulheres como meros adereços políticos e oponentes extirpados. O panteão bolsonarista do 7 de Setembro --burlesco e descontrolado como um paraquedista caindo desgovernado entre os prédios de Copacabana-- é mais fiel à história do país como ela de fato ocorreu do que o ufanismo do quadro mítico "Independência ou morte!", de Pedro Américo, de 1888.

A cafonice da motociata de Bolsonaro faz as vezes do burro sobre o qual d. Pedro 1º devia estar assentado (e não no cavalo imponente do quadro de Américo) naquele 7 de setembro. Sobre isso, ver o novo livro de Schwarcz, Junior e Stumpf, "O Sequestro da Independência".

Fernando Exman - Aposta na inação da Justiça Eleitoral impulsiona campanhas

Valor Econômico

Bolsonaro aproveitou-se da estrutura montada para a comemoração do Bicentenário da Independência e realizou dois atos de campanha

Mês passado, às vésperas do início da propaganda eleitoral no rádio e televisão, um aliado do presidente Jair Bolsonaro previu a interlocutores que não demoraria para que as candidaturas presidenciais lançassem mão de estratégias que sabidamente poderiam colidir com a legislação eleitoral. Seria inevitável, disse ele, que os postulantes ao Palácio do Planalto incorressem em alguma conduta questionável de forma consciente, com o simples propósito de produzir imagens para a campanha. O importante seria assegurar a produção de material audiovisual que pudesse ser veiculado pelo menos uma vez na TV e depois replicado, de forma incontrolável, na internet.

Em outras palavras, diante da perspectiva de que a Justiça Eleitoral pouco poderia fazer para impedir eventuais irregularidades ou até mesmo puni-las depois que elas fossem cometidas, os candidatos fariam um cálculo de custo-benefício e possivelmente escolheriam se arriscar. Foi o que se viu nesta quarta-feira.

Maria Cristina Fernandes - A virilidade de um acuado

Valor Econômico

Bolsonaro coloca-se em primeiro plano para deixar o Brasil em segundo

Foi um presidente acuado que subiu ao palanque para conclamar sua própria virilidade no palanque do 7 de setembro. No ano passado estava sob cerco do Judiciário. Permanece, haja vista a ausência dos chefes de Poderes no palanque da parada militar, mas quem, de fato, o acua este ano - e mais compromete seu futuro - é o eleitor. Nenhuma pesquisa séria considera sua reeleição o cenário mais provável.

O presidente Jair Bolsonaro afrontou não apenas o Estado, mas a nação aniversariante e a Justiça Eleitoral ao fazer do Bicentenário um palanque. Nem se tivesse xingado os ministros, como o fez no ano passado, teria afrontado tanto o TSE. Teve extensa cobertura ao vivo das TVs e redes sociais, numa flagrante desigualdade de exposição em relação aos demais candidatos. A 26 dias da eleição, porém, dificilmente sete ministros serão capazes de tirá-lo do jogo. No limite, o impedirão de usar as imagens no horário eleitoral.

Em 2021, o ministro Alexandre de Moraes, comandante do inquérito dos atos antidemocráticos, era o “canalha”. Este ano, Bolsonaro chamou para si o atributo. Depois dos ataques em série a mulheres jornalistas, é possível que Bolsonaro enxergue uma valoração eleitoral na definição, supostamente autorreferenciada, de “imbrochável”. Sua nora, Heloisa Bolsonaro, foi orientada no mesmo sentido, dias atrás, quando, num evento em Porto Alegre, conclamou a submissão das mulheres aos maridos.

Cristiano Romero* - 2023: a importância da lua de mel

Valor Econômico

Dilma ignorou capital político da reeleição

No Brasil, a lua de mel de presidentes eleitos com os eleitores e a classe política, inclusive, com os partidos aliados que apoiaram sua chegada ao poder, dura muito pouco tempo, em geral, apenas 12 meses. No segundo ano do mandato, há eleições municipais, e estas, embora intrinsecamente ligadas a questões locais, funcionam como um teste de popularidade e força política do primeiro mandatário. Ademais, a escolha do prefeito de São Paulo, terceiro orçamento do país, menor somente que o da União e o do governo paulista, tem sempre repercussão nacional.

Todos os presidentes eleitos desde o retorno da eleição direta, em 1989, usaram o primeiro ano de mandato para propor, ao Congresso Nacional, agenda de mudanças institucionais. A única exceção foi Dilma Rousseff, em seu segundo mandato (2015-2016) - no início do primeiro (2010-2014), a presidente, a menos ambiciosa em termos de propostas, encaminhou a regulamentação da reforma da Previdência aprovada em 2003, igualando as regras de aposentadoria entre funcionários públicos contratados a partir dali e as do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), que regem a previdência dos trabalhadores do setor privado, e iniciou a privatização dos aeroportos.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Manifestações foram mais do mesmo e não ‘Dia D’

Valor Econômico

Atos políticos de ontem não parecem ter muita força para acelerar a ascensão de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro nada fez para as comemorações do bicentenário da Independência do Brasil que não fosse em proveito próprio, eleitoral. Bolsonaro reduz a nação a sua pessoa e os interesses nacionais aos de sua família e de sua facção radical antidemocrática. Ontem, em Brasília, o presidente deixou de lado a data e saiu à caça de votos, além de puxar um inacreditável coro autocongratulatório de “imbrochável”. Em 200 anos de festejos alusivos à data nunca se viu nada igual. O bicentenário serviu de paisagem para novas pregações eleitorais do presidente, que continua atrás nas pesquisas e pode ser derrotado nas eleições de outubro.

Institucionalmente, para os festejos não moveram uma palha os ministérios da Educação e a rebaixada secretaria da Cultura, sucessivamente ocupados por ideólogos incompetentes. Nada se poderia esperar de uma pasta que teve um ministro que disse que os brasileiros eram “canibais”, quando queria dizer que eram cleptomaníacos (o que não melhora as coisas), e um secretário que imita o nazista Goebbels.

Bolsonaro convocou seus apoiadores, que o atenderam em manifestações pacíficas e concorridas, especialmente em Brasília, para, “pela última vez”, declarar um basta às ações do Supremo Tribunal Federal, em defesa da “liberdade”, na versão peculiar do presidente - ausência de limites para os que pensam como ele. Bolsonaro completou em entrevista à TV Brasil, no início do dia, seu ideário de sempre: contra a liberação das drogas, a legalização do aborto e a ideologia de gênero. Mais tarde, deu uma estocada indireta no STF, citou datas em que houve crises institucionais, disse que “a história pode se repetir”, mas com final feliz: “O bem sempre venceu o mal”. E, claro, atacou diversas vezes seu rival Lula e o PT.

Poesia | Fernando Pessoa - Nem uma coisa nem outra

 

Música | Beth Carvalho. Zeca Pagodinho - Camarão que dorme a onda leva /São José de Madureira / Dor de amor

 

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Maria Cristina Fernandes - Bolsonaro cavalga bicentenário para amedrontar eleitor

Valor Econômico

Dia da pátria marcará o início da escalada de ameaças para aumentar abstenção entre eleitores de Lula

O presidente Jair Bolsonaro cavalgará o bicentenário da independência para fazer da efeméride o grande palanque da reta final de sua campanha. A caça ao voto, porém, não está no toque marcial ou na esquadrilha da fumaça, mas na escalada das ameaças. Que nunca foram militares. A farda promove o fausto e o artifício, mas é coadjuvante no teatro de horrores armado pelo presidente da República. O golpe pretendido é o do medo.

Como, nem sob tortura, as projeções indicam a reeleição presidencial como cenário mais provável, a saída é impedir que o eleitor do candidato que lidera as pesquisas vote. Como? Pelo medo. De que? De tudo, mas especialmente da insegurança que se pretende fazer imperar nas ruas. Taí um quesito no qual o bolsonarismo é imbatível.

De imediato tem a meta de ampliar a abstenção, tradicionalmente mais alta entre os mais pobres, majoritariamente eleitores do líder das pesquisas, para evitar uma derrota no primeiro turno, cenário ainda não completamente descartado.

Vera Magalhães - 7 de Setembro com ares de 6 de Janeiro

O Globo

O Judiciário está isolado na trincheira da tentativa de contenção do presidente e de seus mais radicais apoiadores

E chegamos, assustados, ao 7 de Setembro. A maneira como o bolsonarismo constrói enredos que, mesmo canhestros, mobilizam a atenção de todo o país está no cerne da construção que fez de um “mau militar”, assim descrito por Ernesto Geisel, e deputado de atuação folclórica, fisiológica e apagada presidente da República.

Bolsonaro está há meses convocando para atos que capturam a celebração do Bicentenário da Independência para sua campanha à reeleição e para sua pregação contra as urnas eletrônicas e o Judiciário — em resumo, contra a democracia.

Nem percebemos que passamos a tratar como normal o fato de os desfiles oficiais dividirem espaço geográfico e convidados com uma micareta de apoiadores do presidente que reiteradamente têm investido contra as instituições em templos, nas redes sociais, em aplicativos de mensagens e atos em datas passadas.

Num sinal inequívoco de corrosão de limites do que é aceitável nas balizas do Estado de Direito, passamos quase a pedir a Deus para que não haja conflito, quiçá armado, e a prever graus de exacerbação de um ou vários discursos que Bolsonaro possa proferir nos palanques híbridos onde subirá.

O Judiciário está isolado na trincheira da tentativa de contenção do presidente, de seus mais radicais apoiadores e do financiamento desses atos que já minaram um grande pedaço do espaço da convivência democrática — uma vez que quem não se coaduna com essa pauta golpista é instado a ficar em casa no feriado para evitar conflitos.

Nosso arcabouço legal, a Constituição incluída, não foi erguido com instrumentos rápidos, fortes e seguros para matar no nascedouro conspirações como a que Bolsonaro mais uma vez encabeça — ele que foi expelido do Exército depois de liderar um motim para pressionar por melhores salários.

Elio Gaspari - Ruína e glória no Bicentenário

O Globo

O antigo é novo e o atual é velho

Hoje o Brasil completa 200 anos. Em tempos estranhos, dias estranhos. Ontem, em São Paulo, foi reinaugurado o museu que celebra a Independência. Hoje, na Avenida Atlântica, o presidente da República terá seu dia.

A festa do Brasil atual, no Rio, será dominada por Bolsonaro, com suas encrencas, divisões e radicalismos que levam a nada. A festa da reinauguração do Museu do Ipiranga foi amostra da vitalidade desta nação bicentenária. A celebração do passado mostrou o presente de um país que funciona.

Sabe-se lá o que dirá o capitão em Copacabana. Seu governo foi incapaz de produzir um só evento relevante para esta data. Pensando no que foi o Bicentenário da Independência dos Estados Unidos em 1976, ou o Bicentenário da Revolução Francesa, festejado em 1989, sente-se na alma o peso do imobilismo.

Felizmente, reinaugurou-se o Museu do Ipiranga. Celebrou-se o trabalho de centenas de operários, servidores públicos, museólogos, restauradores, engenheiros e arquitetos. Celebrou-se também a capacidade articuladora de governos responsáveis. Entre eles, o de João Doria, que parece ter saído de moda, mas fez coisas que ninguém fez.

Bernardo Mello Franco - O brado sequestrado

O Globo

Presidente submete Bicentenário ao calendário eleitoral e convoca militares para comício à beira-mar

Depois de sequestrar a bandeira do Brasil, a camisa da seleção e outros símbolos nacionais, o bolsonarismo se apropriou do Dia da Pátria. A captura será oficializada hoje, no bicentenário da Independência.

O capitão pôs o Sete de Setembro a serviço da campanha à reeleição. Submeteu a data cívica aos interesses do calendário eleitoral.

Por ordem de Bolsonaro, a comemoração foi deslocada do centro do Rio para a orla de Copacabana, ponto de encontro de seus apoiadores. O desfile no Rolls-Royce presidencial foi cancelado. Dará lugar a uma motociata à beira-mar.

Não será uma festa para todos. O clima de violência política recomenda que eleitores de outros candidatos evitem a Avenida Atlântica. De vermelho, só os salva-vidas da praia — e olhe lá.

Os militares vão participar alegremente do comício. Os canhões do Forte de Copacabana devem disparar de hora em hora. A Marinha promoverá uma parada naval, e a Aeronáutica fará uma exibição da Esquadrilha da Fumaça.

Luiz Carlos Azedo - Chegamos aos 200 anos desorientados e divididos

Correio Braziliense

Nem mesmo em 1972, quando o Sesquicentenário da Independência foi comemorado com pompa e circunstância pelo regime militar, a nossa memória histórica foi resgatada de forma tão tosca

O Bicentenário da Independência do Brasil está sendo “comemorado” hoje, às vésperas das eleições gerais de 2 de outubro (daqui a 25 dias), como se fosse uma pajelança eleitoral. Entretanto, deveria ser uma grande festa de afirmação da identidade nacional, da nossa coesão social e de um projeto de futuro.

O presidente Jair Bolsonaro (PL), que disputa a reeleição, se apropriou da data para alavancar sua campanha. As mobilizações “nacionalistas” programadas para Brasília, Rio de janeiro e São Paulo, principalmente, tendo como coadjuvantes as Forças Armadas, que sempre foram protagonistas, são atos de provocação contra o Estado democrático de direito e suas instituições, principalmente o Supremo Tribunal Federal (STF). Seus organizadores acreditam que o 7 de Setembro será o “fato novo” capaz de promover uma virada no cenário das eleições. Veremos.

Hélio Schwartsman – Sob pressão

Folha de Paulo

A chance de produzir confusão é grande, mas a de sucesso, baixa

Escrevo esta coluna algumas horas antes do tão antecipado 7 de Setembro. A situação do presidente Jair Bolsonaro é muito difícil. Apesar de ter recebido do Congresso licença para gastar várias dezenas de bilhões de reais em programas de má qualidade e grande apelo eleitoral, ele não dá sinais de reação nas pesquisas. Houve, é verdade, mexidas pró-Bolsonaro em algumas regiões e grupos populacionais, mas, no cômputo geral, os números indicam uma persistente estabilidade do quadro, com Lula abrindo mais de dez pontos percentuais de vantagem sobre o rival.

O risco de derrota iminente e a possibilidade de, fora do cargo, ser processado e encarcerado devem estar deixando Bolsonaro nervoso. Como a atual estratégia não está dando muito certo, ele pode ver-se tentado a fazer algo diferente. E o 7 de Setembro pode ser a ocasião, o que deveria deixar todos os democratas preocupados.

Bruno Boghossian - O voto das mulheres pobres e ricas

Folha de S. Paulo

Mulheres reduzem alinhamento de ricos e classe média com Bolsonaro

A economia deve repetir nesta eleição um papel tradicional na formação do voto. Até aqui, os brasileiros mais pobres demonstram preferência por Lula, enquanto aqueles de renda média e alta têm se reaproximado de Jair Bolsonaro. Parte desse alinhamento, no entanto, pode ser quebrada por um fator adicional: a rejeição das mulheres ao presidente.

Uma visão negativa sobre Bolsonaro une parte das eleitoras pobres e ricas. Segundo números da última pesquisa do Datafolha, homens e mulheres de baixa renda se comportam de maneira parecida na avaliação do presidente. Mas mulheres de classe média e alta apresentam uma oposição maior a ele do que os homens desses mesmos grupos.

Vinicius Torres Freire - Não é só Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Eleição vira referendo sobre o horror, e assuntos essenciais somem do debate

A possibilidade de reeleição dá ao voto um caráter de referendo do primeiro mandato de presidentes. Quando está em causa a recondução de um Jair Bolsonaro (PL), trata-se também de referendar ou não a demolição da democracia e da civilidade, uma decisão mais extrema e que relega outros assuntos à periferia do debate.

Dado que o desafiante principal é Lula da Silva, o voto tem ainda algo de júri sobre o histórico político e judicial do petista. Graças à depravação bolsonarista, também ocupam o centro da conversa assuntos como "Deus, pátria e família", outras guerras culturais e ficções como a "ameaça comunista".

Debates econômicos à vera raramente são assunto de campanha eleitoral. Neste ambiente depravado, desapareceram até da conversa de círculos mais esclarecidos. No transe piorado em que vivemos desde 2013, temos adiado "sine die" a lida com a nossa situação crítica.

Não quer dizer que tudo vá explodir já em 2023. Países definham por vezes durante décadas, basta observar a vizinhança.

Rodrigo Pacheco* - A Independência e o verdadeiro sentimento de nação

O Globo

O direito à liberdade de nos expressar encontra limite exatamente onde começam os direitos dos demais indivíduos

A palavra “comemorar” tem origem na palavra latina commemorare e, para além do sentido mais usual, que dá a ideia de celebrar, significa também “trazer à memória, relembrar, recordar”. E mais ainda, no radical “memorar” aliado ao prefixo “co”, no sentido de “junto”, nota-se a noção de uma ação coletiva. Então podemos dizer que uma comemoração enseja a celebração de uma memória coletivamente.

Hoje comemoramos juntos o Bicentenário da Independência. Gostaria de provocar uma reflexão. Após 200 anos do reconhecimento do Brasil como nação soberana e independente, gostaria que refletíssemos sobre o sentido de sermos uma nação livre.

Ernest Renan, em palestra na conceituada Universidade Sorbonne, na França, definiu uma nação dizendo que “a nação, como o indivíduo, é o resultado de um longo processo de esforços, de sacrifícios e de devotamentos. (…) Ter glórias comuns no passado, uma vontade comum no presente; ter feito grandes coisas conjuntamente, querer fazer ainda, eis as condições essenciais para ser um povo”.

Quando falo em união dos brasileiros e brasileiras em prol de um objetivo comum, estou falando desse resgate do verdadeiro sentimento nacionalista. O sentimento de pertencimento a uma nação não nos divide, e sim nos une. Nos une enquanto indivíduos e enquanto comunidade.

Michel Temer* - Setembro Branco

O Estado de S. Paulo

Que a comemoração do bicentenário da independência tenha um novo grito, o grito do diálogo. É hora de um pacto nacional

Este 7 de setembro é muito diferente dos anteriores não apenas pelo bicentenário da independência brasileira, mas porque carrega em seu ventre uma reflexão visceral, um desafio, para o nosso bem, incontornável. O grito do Ipiranga que, 200 anos atrás, ao cair da tarde, encerrou o período do Brasil colônia e deu início à formação de um país gigantesco, rico, peculiar e complexo, já não ressoa como antes. Perdeu energia mobilizadora, não desperta orgulho de pertencimento, como já o fez. A constatação não é má notícia. Na verdade, anuncia uma oportunidade: precisamos dar sequência ao processo de independência!

Libertar o País de grilhões estruturais que o impedem de ser, além de celeiro do mundo, também referência mundial em economia inclusiva, verde, tecnológica e sustentável. Uma obra urgente e inadiável que, se não realizada, nos levará à periferia do mundo novo em construção, mas, ao contrário, reservará ao País uma centralidade planetária.

A Pátria dos dias atuais, rebelde e dispersa, reclama por conquistas que rejuvenesçam a brasilidade, que fortaleçam a identidade nacional e reforcem os laços entre nós. Para o atendimento dessa demanda é preciso, em primeiro lugar, que os brasileiros deixem de ser tão desiguais entre si. Este é o pilar de sustentação de qualquer projeto de desenvolvimento que o novo governo, seja qual for a candidata ou o candidato eleito, venha a propor ao Parlamento. Não mais remendos, como bolsas e auxílios emergenciais ou permanentes, mas políticas consistentes de renda e de ascensão social, que estabeleçam novos patamares de qualidade de vida, pontos de não retorno da pobreza e da fome, partes integrantes do plano de desenvolvimento, e não possível consequência dele. Fato, e não mais promessa. Falo de desafios que, sem dúvida alguma, exigem a pacificação do País para que haja boa vontade, unidade, soma de esforços.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Brasil tem muito a celebrar no Bicentenário

O Globo

Apropriação do 7 de Setembro pelo bolsonarismo não pode eclipsar as conquistas do país em 200 anos

A celebração do Bicentenário da Independência marcada para hoje contará com uma montagem cênica do grito de Dom Pedro I no Parque da Independência, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, perto de onde ele deu o grito de “independência ou morte” há 200 anos, ao lado do museu recém-reformado. No Rio, a comemoração da efeméride deverá ocorrer perto do Forte de Copacabana. Em várias outras capitais e cidades brasileiras estão previstas homenagens. Mesmo considerando todas as festividades, o conjunto ficará aquém do que deveria.

O principal motivo é a apropriação do 7 de Setembro e das cores da bandeira por uma facção política, o bolsonarismo, que afastou a maioria da população. Num eco dos atos golpistas que promoveu na data nacional no ano passado, o presidente Jair Bolsonaro convocou para hoje uma série de manifestações de sua campanha à reeleição, com a indefectível “motociata” e todo o kit que mobiliza seu eleitorado mais fanático (a novidade será uma “jet skiata” em Copacabana). Diante do perfil belicoso e do culto às armas entre os bolsonaristas, o simples temor de confrontos e atos violentos contribui para manchar uma data em que, apesar de tudo, o país tem muito a celebrar.

Os 200 anos de uma nação como o Brasil merecem exaltação. Em 1822, éramos 4,7 milhões concentrados numa pequena faixa de terra junto ao litoral. Hoje a população gira em torno de 215 milhões, a quinta maior do mundo, espalhada por todos os pontos do território nacional. Em dois séculos, o país evitou o esfacelamento dos vizinhos da América Latina, acabou com a injustiça e a vergonha da escravidão, hospedou milhões de imigrantes de todos os continentes, integrou-se com base no idioma comum herdado dos portugueses, enriquecido com as contribuições milionárias africana, indígena e tantas outras. Construiu uma cultura própria, admirada no mundo todo, de excelência reconhecida em todos os campos artísticos, para não falar no futebol e nos esportes.

Poesia | Vinicius de Moraes -Pátria minha (por Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo, Ferreira Gullar, Maria Bethânia e Toquinho)

 

Música | João Bosco - Incompatibilidade de gênios

 

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Míriam Leitão - Carta para a Independência

O Globo

Agora, como há 50 anos, a maioria não pode comemorar a Independência. No futuro devemos evitar tiranos, tiranetes e desvios dos militares

Querida Independência. Não a posso comemorar. De novo. Como há 50 anos, no sesquicentenário. Não que eu não queira. Sou impedida pela mesma interdição. Naquele triste 1972, a data foi roubada pelos militares, que a transformaram na apologia da ditadura que nos esmagava. Agora, em plena democracia, as Forças Armadas participam novamente do roubo. Elas se prestam ao inaceitável papel de se acumpliciar com um presidente que usa a pátria e o poder armado como parte da sua propaganda eleitoral e da sua campanha antidemocrática. Assim, completa-se a sina da nossa separação. Na minha vida, terei passado por duas datas redondas, 150 e 200 anos, com o mesmo sentimento de tristeza cívica.

No entanto, sempre soube que a verdadeira independência não é aquela que se marca no calendário, mas o movimento que tem raízes mais profundas e reais. Não um grito, não um rio, não um quadro a óleo. Venho das Minas dos conjurados e sei onde nasceu a ideia de um país autônomo e republicano. Entendo mais a história que se conta modernamente e que junta as conjuras e os levantes, as revoluções perdidas e os quilombos, a resistência dos divergentes e o resgate dos personagens esquecidos, como as mulheres, os pretos, os indígenas.

Carlos Andreazza - O Brasil refém

O Globo

Véspera do 7 de Setembro. Data sequestrada pelo imaginário intimidador bolsonarista, conforme ilustra o incontornável de um país à espera do que será o amanhã. O amanhã; não o futuro. O amanhã mesmo, este presente: a quarta-feira, dia 7 de Setembro.

O que será?

Note-se que incluímos esse aguardamento na agenda brasileira. Integra mesmo a dinâmica do calendário eleitoral. As entrevistas ao JN. O início da propaganda na TV. O primeiro debate. O 7 de Setembro. O debate final. O 2 de Outubro.

O 7 de Setembro, se grande ou muito grande: balizará, já amanhã à noite, as análises políticas sobre as possibilidades competitivas do presidente candidato, embora eventos como esse, de natureza sectária, alimentem muito mais as perspectivas de Bolsonaro, se afinal vencido, manter-se como o líder reacionário de uma oposição agressiva num Brasil com a economia como legada por Guedes.

Mesmo o governo nada tendo planejado para o 7 de Setembro de 2022, nada senão a necroviagem do coração imperial, nunca saímos do 7 de Setembro de 2021. Bolsonaro nos pauta. Levou a Corte constitucional para a briga de rua.

O país refém de há um ano. Preso à memória de um discurso para o confronto, antirrepublicano: o do mito, eleito por dezenas de milhões, que não consegue governar, minado pelo establishment que o Supremo encarna.

O amanhã: será pior?

Cristina Serra - Tratoraço militar golpista

Folha de S. Paulo

'Demitam, e demitam sem dó', diz fazendeira para amigos sobre eleitores de Lula

Com a sustentação do que há de mais daninho na sociedade brasileira, Bolsonaro parte para o tudo ou nada neste 7 de Setembro e cava mais fundo o fosso da degradação das instituições.

As Forças Armadas fazem o movimento mais perigoso ao se imiscuírem em um ato de campanha eleitoral do presidente, como o que está previsto para o Rio de Janeiro, até mesmo com a exibição de equipamentos militares (pertencentes ao Estado e ao povo brasileiro). A mistura de motociata com aviões da Aeronáutica, navios da Marinha e canhões do Forte de Copacabana é promiscuidade institucional explícita.

A parte mais tosca e agressiva do mundo agrícola já avisou que também desfilará na Esplanada. É o tipo de gente que usa a "tecnologia" do correntão para desmatar, arrancando árvores pela raiz. É o método de terra arrasada. Não poderia ser mais ostensivo e simbólico o apoio do agronegócio ao vândalo ambiental.