terça-feira, 27 de outubro de 2026

Reeleição, boa hora para ajustar o programa industrial, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Estudo mostra que programas para desenvolvimento da indústria no país contribuíram positivamente, mas foram limitados pelo regime macroeconômico

Por que falharam programas para industrializar o país? Como dar continuidade ao NIB (Nova Indústria Brasil)? Depois do resultado da eleição de domingo, essas perguntas já deveriam tirar o sono de postulantes a cargos na área econômica do governo Lula 4.

Bom começo seria a leitura de um robusto trabalho acadêmico feito por quatro economistas brasileiros que estudaram o insucesso dos programas industriais lançados depois das reformas liberalizantes dos anos 1990: André Nassif, da Universidade Federal Fluminense, Carmem Feijó, do CNPq, Eliane Araújo, da Universidade Estadual de Maringá, e Paulo César Morceiro, da Universidade de Johannesburgo.

A conclusão dos economistas, testada com dados estatísticos e econométricos, indica algumas causas desse insucesso. Em resumo, a eficácia da política industrial teria sido limitada pela ausência de um regime macroeconômico de suporte em ambiente caracterizado por juros reais persistentemente elevados e por episódios recorrentes de sobrevalorização cambial. A falta de coordenação entre as políticas monetária, fiscal e cambial limitou os resultados.

Nível do dólar terá influência na definição da resposta fiscal, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

Se o câmbio ficar mais pressionado, o governo será compelido a adotar ajuste mais forte

O comportamento do câmbio nas próximas semanas será crucial para definir as perspectivas para a política monetária e para a resposta do governo às incertezas fiscais. Ontem, o dólar chegou a superar R$ 5,60, fechando em 8,21%, a R$ 5,4027, em reação à vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição, que pegou o mercado no contrapé.

Ainda é cedo para saber em que nível a moeda vai se acomodar, mas um dólar que se estabilize num preço mais alto ou entre numa espiral de alta pode interromper ou mesmo reverter o ciclo de queda dos juros, por pressionar a inflação. Numa economia já sem fôlego, o risco seria transformar a desaceleração em recessão, castigando ainda mais famílias e empresas endividadas, um cenário que seria muito ruim para a popularidade de Lula.

Ressaca da virada eleitoral de Lula derruba a bolsa de valores e frustra Trump, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O Departamento de Estado havia preparado um comunicado sobre a eleição, mas sua divulgação foi suspensa depois que Flávio Bolsonaro pediu a anulação do segundo turno

A vitória de virada de Luiz Inácio Lula da Silva deixou uma ressaca que ultrapassa o desconforto dos derrotados. A contestação do resultado por Flávio Bolsonaro, o respaldo de Donald Trump às suspeitas lançadas sobre a votação, o tombo dos ativos brasileiros e uma nova intervenção de Alexandre de Moraes, que cancelou o passaporte do candidato derrotado e proibiu-o de deixar o país, compõem um cenário de instabilidade.

Lula conquistou o quarto mandato, mas recebeu, antes mesmo de encerrar a comemoração, uma advertência sobre as dificuldades de exercê-lo. O primeiro problema é a recusa de Flávio em reconhecer a derrota. O senador anunciou que pedirá a anulação da eleição, questionando a decisão do ministro Cristiano Zanin de ampliar o horário de votação diante de problemas de transporte.

Uma frente ampla pela democracia, por Ysadora Monteiro e Adrian Albala*

Correio Braziliense

Lula necessita abrir o núcleo decisório do governo às forças que autenticamente compuseram essa frente ampla, para que os agentes que falam em seu nome reflitam na prática essa intenção

O deputado André Janones afirmou, em uma das últimas mensagens que dirigiu antes do segundo turno aos apoiadores virtuais de Lula que organizou nas redes sociais, que o próprio Lula dissera a ele que, "nas eleições anteriores, tinha sido eleito por um partido, mas agora seria eleito pelo povo". O futuro da governabilidade do país depende de que Lula esteja realmente convencido do que disse. 

A significativa vitória no segundo turno, com números muito expressivos, não terá sido motivada por adesão a uma agenda apresentada por ele. Se assim fosse, teria impactado as urnas já no primeiro turno. A grande virada decorre, fundamentalmente, da (auspiciosa) rejeição do extremismo autoritário por parte de uma majoritária parcela da população que é muito maior do que o eleitorado de qualquer partido ou coligação. Felizmente, a maioria da população tomou consciência a tempo do risco que corria a democracia e transformou o segundo turno num plebiscito a favor da democracia.

Romper com o bolsonarismo é imperativo para a direita sobreviver e ter nome forte em 2030, por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Derrota de Flávio Bolsonaro (PL) nas urnas simboliza derrota política da família; Michelle Bolsonaro, por sua vez, ensaia carreira solo

O resultado das urnas no segundo turno não simbolizou apenas um tropeço eleitoral para Flávio Bolsonaro (PL). Representou, acima de tudo, uma derrota política para a família Bolsonaro.

O revés significa que o irmão Eduardo continuará foragido nos Estados Unidos, enquanto o patriarca, Jair, seguirá recluso na prisão sem qualquer horizonte de soltura ou anistia.

No Congresso, Carlos Bolsonaro será apenas um entre 81 senadores, desprovido da musculatura política que teria caso o irmão alcançasse a Presidência da República. Assim como Jair Renan, na Câmara, no meio de outros 512 deputados federais.

Correndo por fora, Michelle Bolsonaro avança em uma carreira solo. Sem o sangue da dinastia, a ex-primeira-dama já é aconselhada nos bastidores a adotar apenas o primeiro nome. A estratégia visa consolidar sua trajetória individual e blindar seu capital político junto ao eleitorado feminino e de direita.

Desafios internos e externos para Lula 4, por Rubens Barbosa*

O Estado de S. Paulo

A política externa deve ser vista como política de Estado, sem influência ideológica e partidária

Em seu quarto mandato, o governo Lula, desde o início, terá de enfrentar desafios institucionais, de governabilidade, econômicos, na área de defesa e segurança e na de política externa para atender aos anseios e demandas do eleitorado de centro que o apoiou para não votar em Flávio Bolsonaro. O Congresso, de maioria conservadora, pode dificultar as iniciativas do novo Executivo. A contestação do resultado eleitoral acrescentará problemas internos e externos. A nova geopolítica global impõe uma nova agenda na defesa dos interesses nacionais.

Esquerda fraca, direita desgovernada, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

É com Centrão, não com PT e esquerda, que Lula vai responder sobre a crise fiscal

Passada a festa da vitória e curada a ressaca, o presidente Lula tem de retomar o fôlego para enfrentar adversários de peso: a crise fiscal, o mercado financeiro, o agronegócio e um bolsonarismo forte, mas sem liderança. Logo, uma força à deriva, desgovernada, com o único objetivo de infernizar o governo.

O Brasil caminha para 2027 com um desequilíbrio descomunal entre receitas e gastos, uma herança maldita que Lula deixa para o próprio quarto mandato e dá o empurrão final para a turma da Faria Lima deixar o pragmatismo de lado, apostar errado e perder com Flávio Bolsonaro.

2º turno foi sobre medo de Bolsonaro no poder, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A mobilização lulojanonista não foi espuma para convertidos. No mundo real, onda convertedora de nulos, arrastadora de votos para Lula, capaz de tirá-los, aos milhões, de Flávio Bolsonaro; de explorar a ressaca daquele eleitor que, rejeitando mais o presidente que o desafiante no primeiro turno, terá passado três semanas diante da própria escolha, condenado a contemplar o que seria um governo do filho de Jair.

A projeção da imagem do Flávio presidencial – subsidiada por um candidato à vontade para exibir o que é – foi-lhe feia, ao que se somaria a campanha que o apregoava como supressor de direitos, enquanto Lula corrompia a máquina para prometer até Pix de R$ 5 mil. Se a eleição no primeiro turno fora sobre Lula e teve como produto uma advertência ao incumbente, a do segundo foi sobre o medo de Bolsonaro no poder. Considere-se a hipótese de o eleitor ter afinal optado por Lula frente ao que seria o capital político na mão de um Bolsonaro: quase autossuficiente no Senado e a indicar três ministros do Supremo.

O que Lula 4 pode fazer para domar o pânico dos donos do dinheiro grosso, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Virada enorme em 'o mercado' era previsível, com volta a uma situação anterior já ruim

Questão agora é se novo governo vai reagir logo para ganhar crédito, perdido sob Lula 3

Os patinetes que congestionam as ciclovias da Faria Lima sabiam que esta segunda (26) seria de pânico. Os donos do dinheiro grosso e os povos dos mercados em geral entraram no final de semana achando que, depois de Lula 3, viria Bolsonaro 2. Houve gente que viajou para a Boa Vista ou para a Grama e nem votou (são nomes de condomínios de lazer para ricos no interior paulista). Para o choque de muitos e surpresa geral (deste jornalista inclusive), veio Lula 4. Muita gente perdeu dinheiro e quase todo mundo teve de mudar as aplicações com medo de perder ainda mais, para dizer a coisa de modo caseirinho.

Ufa! Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Virada histórica de Lula sobre Flávio Bolsonaro reduz riscos para a democracia

Na economia, presidente terá de lidar com herança maldita que ele próprio criou

Entre a sabedoria das massas e a loucura das multidões, o Brasil se pautou, talvez excepcionalmente, pela primeira. A população preferiu reentronizar um Lula enfraquecido a entregar as chaves do Planalto a um Flávio Bolsonaro com representação reforçada no Legislativo. É uma atitude inteligente, considerando o histórico antidemocrático do bolsonarismo. Prova-o a recusa de Flávio em reconhecer de imediato que sofreu uma derrota por mais de 4 milhões de votos de diferença.

Desafio de Lula é corresponder à vitória do esforço coletivo, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Conquista da reeleição foi obra construída a milhões de mãos, às quais será imprescindível retribuir a confiança

Agora o presidente tem dois meses até a posse para dizer realmente o que pretende no quarto mandato

Feita a escolha dos brasileiros, o presidente reeleito terá pela frente pouco mais de dois meses até a nova posse para dizer realmente a que pretende vir em seu quarto mandato, sem a máscara cor-de-rosa das contingências de campanha.

No discurso da vitória, Luiz Inácio da Silva (PT) sinalizou ter absorvido aprendizado dessa eleição ao dizer que mudará "o jeito de governar". Não tendo sido mero reflexo do feito memorável da virada e fruto de alívio diante do susto da sombra da derrota, a frase carrega uma boa mensagem.

Amasso de Lula muda o cenário das paixões políticas, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Ruas, redes e queda da abstenção determinam a virada de votos

Restou a Flávio Bolsonaro a imagem de golpista que ele tentou mascarar

Na vida e nas eleições —a experiência e a fábula de Esopo ensinam— não se deve contar com o ovo dentro da galinha. Ainda mais quando o adversário é Lula, um animal político de 80 anos e sete campanhas presidenciais.

Atordoado pela derrota no morno primeiro turno, Lula publicou no dia 7 de outubro um vídeo em formato selfie, talvez o primeiro que tenha feito como candidato. Muita gente riu do velhinho de voz rouca, sem jeito com a tecnologia, vestindo uma camisa social azul. Mas a mensagem, simples e que se mostraria infalível, estava lá: "Bora, gente, pra rua".

Que ilumine mais do que um incêndio, por Ricardo Marinho*

Agora o Brasil teve sua explosão democrática. No país com educação pública gratuita e um estado de bem-estar social inconcluso, também se manifesta um mal-estar. E o desconforto que inflamou essas multidões que tomaram, durante esses 20 dias o segundo turno brasileiro é diverso do desconforto que devastou nossas ruas em 2013 e que levantou como justificativa um mundo de questões em torno das injustiças, desigualdades e lucro. Ao relembrar as imagens de um Brasil desesperançoso em 2013, com uma miríade de slogans nas paredes, sinto os cheiros dispares sem unidade e as imagens do nosso próprio surto voltam a pulular na memória. Participo desse rememorar, lembrando aqueles os dias de fúria, quando tudo parecia fora de controle e, acima de tudo, a própria racionalidade daqueles que deveriam ter condenado as ações sem ambiguidade, mas permaneciam ameaçadoramente silenciosos. E também aqueles que apresentaram argumentos para justificar a resposta aquela desaprovação.

Poesia | Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira

 

Música | Samba da utopia (Jonathan Silva)

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Virada dá a Lula lugar inédito na História do Brasil

Por O Globo

Presidente terá de lidar com Congresso hostil, mas não pode manchar sua biografia com ressentimentos

Em virada surpreendente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno por uma diferença de 3,6 pontos percentuais (51,8% a 48,2%), ou 4,4 milhões de votos, mais que o dobro da diferença sobre Jair Bolsonaro em 2022 — e governará o país pelo quarto mandato. No primeiro turno, Lula fora derrotado por 2,2 milhões de votos. Em três semanas, numa reação determinada, tida como improvável depois da onda bolsonarista que varreu o país em 4 de outubro, reverteu a vantagem de Flávio, fato inédito em quase quatro décadas de eleições presidenciais. Seu lugar na História da República estará garantido como o líder brasileiro a ficar mais tempo no poder pelo voto popular.

Discurso de Lula após vitória nas Eleições 2026; acompanhe na íntegra

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Mesmo com locaute, Lula vence Flávio de virada e conquista quarto mandato, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A recuperação de Lula veio de uma reação vigorosa da sociedade civil, que devolveu o movimento à campanha, com presença nas ruas e mobilização digital

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou seu quarto mandato numa virada espetacular sobre Flávio Bolsonaro. Derrotado no primeiro turno, quando recebeu 45,16% dos votos válidos, contra 47,03% do adversário, recuperou a iniciativa e venceu de forma inequívoca. Quando o Tribunal Superior Eleitoral reconheceu sua reeleição, às 21h08, com 97,69% da apuração concluída, tinha 51,74%, contra 48,26% do senador: uma vantagem de aproximadamente 4,2 milhões de votos. O resultado reafirma a capacidade de sobrevivência e de mobilização, inclusive da juventude, do principal líder popular da nossa história contemporânea.

Uma virada surpreendente numa história improvável, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Virada inédita é mais um capítulo na carreira extraordinária do político mais bem-sucedido da história brasileira

No dia 30 de outubro de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva parecia ter completado a sua jornada do herói. Depois de amargar um calvário de 580 dias na prisão, derrotar seu arquirrival Jair Bolsonaro surgia como o capítulo final de uma história ao mesmo tempo improvável e extraordinária.

Lula foi o primeiro presidente brasileiro de origem humilde. Nascido no agreste de Pernambuco, conviveu com a fome e a falta de água potável e saneamento básico. Como milhões de seus conterrâneos, migrou para São Paulo e foi criado apenas pela mãe.

Vigilância sobre causas femininas tem de continuar, por Ana Paula Araújo

O Globo

O próximo ciclo de quatro anos será desafiador para mulheres. O Congresso que tomará posse será majoritariamente conservador

A “psicose política” chegou a seu auge. O termo viralizou nas redes sociais para descrever o segundo turno mais frenético, com grandes mobilizações e hiperfoco em tudo relacionado à eleição. Ontem, com decisões judiciais de última hora, denúncias de obstrução ao transporte de eleitores, votação prorrogada e apuração decidida voto a voto, essa psicose quase se transformou em infarto coletivo. Entre vencedores e vencidos, num país tão polarizado, o que nos une é a exaustão. Mas que tal manter pelo menos um pouco desse empenho para olhar para o que vem pela frente? Especialmente entre nós, mulheres, o próximo ciclo de quatro anos será desafiador.

Presidente receberá uma herança maldita dele mesmo, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O governo já poderia ter tomado medidas para controlar os efeitos de fatores externos na economia. Não tomou por causa da política

Não deixa de ser uma ironia: Lula receberá uma herança maldita dele mesmo. Na economia e na política. Na economia, a responsabilidade é inteiramente dele. Sim, o ambiente internacional — com guerras, preços essenciais elevados, como combustíveis e fertilizantes, e juros em alta — cria restrições ao crescimento. Mas o governo já poderia ter tomado medidas para controlar os efeitos desses fatores externos.

Não tomou por causa da política. E não foi apenas para ganhar as eleições. Antes mesmo da campanha, a projeção do próprio governo previa um déficit nas suas contas superior a R$ 80 bilhões. Na contabilidade oficial, isso apareceria como déficit zero, mas ninguém mais acredita nesses truques. Nem o governo, quando mostra que a dívida pública subiu nos quatro anos do governo e tem tendência de alta. E, se a dívida sobe, só pode ser porque o governo gasta mais do que arrecada.

Antipetismo é central, mas eleição confirmou força do antibolsonarismo, por Jorge Chaloub

Folha de S. Paulo

Ruas e redes foram determinantes para o aumento da rejeição a Flávio Bolsonaro

Vitória histórica de Lula no 2ºturno garante a sobrevivência da Constituição de 1988

O resultado do primeiro turno indicava uma provável eleição de Flávio Bolsonaro (PL), não tanto pela vantagem de pouco mais de 2 milhões de votos quanto pelo perfil dos outros candidatos, muito mais próximos do senador de ultradireita. Com o resultado do PL no Congresso e a expectativa de um bom número de vagas no STF, o cenário parecia apontar não apenas para uma mudança de governo, mas para uma transformação do regime político.

O filho de Jair teria a possibilidade de cumprir a promessa, feita nos primeiros dias do segundo turno, de romper com a Constituição de 1988. Esse propósito, aliás, é um dos grandes projetos políticos do bolsonarismo, já explicitado diversas vezes por membros da família do presidente.

Quarto mandato de Lula exige novas estratégias, por Fernando Abrucio

Folha de S. Paulo

Buscar atores que pensam diferente, inclusive bolsonaristas, é essencial para o sucesso do novo governo

Plano de sustentabilidade fiscal deve começar imediatamente, buscando o apoio da sociedade

Ao se reeleger, Lula é o primeiro candidato a perder o primeiro turno e vencer no segundo em toda a redemocratização. Numa campanha impressionante, comandada pelo "general" Janones na internet e pelos jovens nas ruas, Lula também será o primeiro a vencer quatro eleições presidenciais. Uma vitória fantástica por esses dois indicadores, mas o governo começa nesta segunda-feira (26), e haverá muitas dificuldades no quarto mandato.

O presidente Lula tem de comemorar, mas precisa tirar lições desta eleição para não cometer os mesmos erros do terceiro mandato. A primeira é que sua vitória se deveu, em boa medida, a uma estratégia voltada para o futuro, com mudanças na comunicação nas redes sociais e lideranças jovens comandando a virada. O PT precisa se renovar urgentemente se não quiser perder relevância nos próximos anos, alçando os líderes do Nordeste, os(as) jovens parlamentares e figuras de fora do partido, como André Janones, a um patamar de maior importância.

Uma eleição tumultuada pela omissão, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Ao deixar de decidir, o presidente da corte alterou o curso normal da votação

Ministro deu margem à suspeição sobre a integridade de um processo que até então sempre foi reconhecido mundialmente

Existem mil maneiras de interferir no processo eleitoral na tentativa de manipular o resultado da votação. As mais conhecidas são a compra de votos, a coação, o bloqueio de estradas e a restrição na oferta de transporte público.

Contudo, desde a redemocratização (na década de 1980), nunca antes na história deste país o processo eleitoral brasileiro esteve imerso e submerso numa situação de tamanha obscuridade provocada pela omissão da Justiça Eleitoral.

A polarização depois da certeza, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Animosidade anterior prediz expectativas partidariamente enviesadas depois

Democracia exige aceitar a possibilidade da derrota

Escrevo a coluna antes do segundo turno presidencial. O nível de incerteza é elevado. Entre os eleitores, porém, a dúvida sobre o futuro convive com a convicção de que seu candidato vencerá. O que acontece quando a certeza da vitória encontra a experiência da derrota?

Uma pesquisa de Seth Warner —Partisan Wishful Thinking in Polarized Times— oferece pistas. Analisando pesquisas eleitorais americanas entre 1952 e 2024, o autor documenta o crescimento do wishful thinking: a tendência a transformar preferência política em expectativa de vitória. Em 2024, quase 9 em cada 10 eleitores esperavam o triunfo do candidato preferido.

Horizonte de ruptura, por Eduardo Sombini

Folha de S. Paulo

Para autor, a revolução digital impõe mudança profunda na democracia que tornará o Legislativo em parte obsoleto

Cientista político aponta crise do presidencialismo de coalizão e defende refundação da República; leia trechos

Em um artigo publicado em 1988, Sérgio Abranches cunhou o termo presidencialismo de coalizão para nomear o sistema político-partidário brasileiro —um regime sem paralelo no mundo, de acordo com o pesquisador.

Abranches argumentou que, em um cenário com um grande número de partidos e em que nenhum deles obtém maioria no Congresso Nacional, o presidente precisa negociar com forças políticas muito heterogêneas e sem enraizamento ideológico para conseguir governar. Cargos e emendas parlamentares passam a ser as principais armas à disposição do chefe do Executivo.

No livro "Presidencialismo de Coalizão" (Companhia das Letras), lançado em 2018, ele analisa a evolução do regime político do país desde a Constituição de 1988, análise que agora alcança, com a publicação de uma edição revista e ampliada da obra, os governos Jair Bolsonaro e Lula 3.

Neste episódio, Abranches discute os contornos da crise atual do sistema político-partidário brasileiro, indicando uma ruptura nas eleições de 2018 e o aprofundamento da crise em 2022.

O autor discute o crescimento da instabilidade nas relações entre a Presidência e o Congresso desde o impeachment de Dilma Rousseff (PT)—ele diz que, se antes as coalizões eram móveis, elas se tornaram líquidas— e o risco de o país ficar ingovernável sem um redesenho das instituições e do próprio funcionamento da sua democracia.

Abranches também aborda o que chama de mentalidade da casa-grande entranhada na sociedade brasileira e do pêndulo entre democracia e autoritarismo que marca a história do país, temas que ele debate em outro livro recém-lançado, "A Terceira Margem do Ipiranga".

Leia abaixo os trechos principais da entrevista.

Poderes em desalinho, por Andrea Magalhães* e Fabio Giambiagi*

Folha de S. Paulo

Desequilíbrio cada vez maior de poder e responsabilidade vem tornando o sistema disfuncional

Congresso administra recursos bilionários sem sofrer pressão do eleitorado e sem responder por seus atos

[Resumo] Resultado das eleições para o Congresso deve acentuar distorções graves na política brasileira. Há mais de uma década o Legislativo ampliou consideravelmente suas atribuições, controlando o Orçamento público com emendas parlamentares bilionárias e derrubando cada vez mais os vetos presidenciais. Não responde, contudo, pelo resultado fiscal ou pela implementação de projetos para o país, responsabilidades que recaem sobre a figura enfraquecida do presidente da República, o que eleva e deturpa os custos da barganha para o Executivo contar com apoio de congressistas em votações. Texto a seguir apresenta propostas para ampliar governabilidade e distribuir de forma mais justa bônus e ônus entre os Poderes.

O quadro que emergiu das eleições mostra o seguinte panorama:

1) Partido mais votado para a Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 parlamentares, em um universo de 513 vagas, ou seja, 24% do total.

2) Para montar uma coalizão que forme uma maioria para aprovar reformas constitucionais (que necessitam do voto favorável de no mínimo 308 deputados) é preciso juntar pelo menos seis partidos.

3) No caso do Senado, a fragmentação se repete. O PL elegeu 19 senadores e terá também a maior bancada, 28 congressistas em um total de 81. Mudanças na Constituição dependerão do apoio de ao menos 49 congressistas, o que significa ter um bloco coeso de pelo menos quatro partidos.

Poesia | O Amor antigo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | TOQUINHO & MPB4 - cantam Vinicius

domingo, 25 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais \ Opiniões

Democracia e rigor fiscal para reduzir os juros e a pobreza

Por Folha de S. Paulo

A Folha reafirma o compromisso de não recomendar voto em partidos ou nomes; a opção pelo apartidarismo fortalece a posição de submeter ao crivo da crítica qualquer um que saia vencedor

Um eleitorado mais uma vez dividido ao meio decidirá neste domingo (25) quem governará o Brasil nos próximos quatro anos. O vitorioso terá o desafio de recolocar as contas públicas nos trilhos, condição indispensável para uma queda sustentável dos juros —sem novos surtos inflacionários — que permita ao país crescer e, assim, reduzir a pobreza. Respeitar o Estado democrático de Direito é mandatório.

Se vencer Flávio Bolsonaro (PL), o Brasil voltará a lidar com o grupo político cuja passagem pela Presidência da República deixou um legado nefasto para a institucionalidade. Durante sua administração, de 2019 a 2022, Jair Bolsonaro (PL) investiu reiteradamente contra a democracia.

Lula ou Flávio, a sorte, as virtudes e o papel do indivíduo na história, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Todo aventureirismo é perigoso. O governante sem limites é aquele que considera legítimo remover qualquer obstáculo à própria vontade

“Aquele que menos se apoiou na sorte reteve o poder mais seguramente.” A advertência de Nicolau Maquiavel, no capítulo VI de O príncipe (Hemus), merece reflexão neste domingo. Conquistar o governo e saber governar são capacidades distintas. As circunstâncias podem abrir as portas do poder a quem não construiu os meios para exercê-lo. A virtù permite aproveitar a fortuna e enfrentar suas consequências. Essa correlação ajuda a compreender a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro, que aspira à Presidência.

Hoje é dia de fazer história, por Dorrit Harazim

O Globo

E aqui estamos neste domingo eletrizante, que, a depender do resultado, poderá se converter num outro 25 de outubro histórico

É poder da poesia nos fazer voar na imaginação. E é dever do jornalismo manter os dois pés no chão. Quando e.e.cummings escreveu um poema/meditação sobre a morte, a memória e a persistência do amor diante do desaparecimento, o encerrou com um verso belíssimo: Uma pisada recente na areia do que foi. A coluna de hoje trata mais ou menos dos mesmos temas, apenas com pegada mais crua, ancorada em fatos.

Hoje, 25 de outubro, o Brasil vai às urnas decidir em segundo turno se quer ser governado por Luiz Inácio Lula da Silva ou Flávio Bolsonaro pelos próximos quatro anos. Num outro 25 de outubro, um sábado, 51 anos atrás, o jornalista Vladimir Herzog foi preso, torturado e assassinado por agentes da ditadura militar então instalada no país. Entre as duas datas, estão um vasto panorama da História do Brasil e uma pendência — pendência menor que muitas outras questões ainda em aberto na democracia reconquistada em 1985, mas ilustrativa para o dia de hoje.

Muito mais do que nove dedos, por Míriam Leitão

O Globo

A perda da democracia rondou a campanha de 2026. Para não ver o perigo seria preciso esquecer a história recente do país

A frase de Flávio Bolsonaro parecia ter sido treinada na preparação do candidato e não um chiste que saiu no calor do debate. Era isso mesmo que ele queria dizer. Quando falou dos nove dedos do presidente Lula, a plateia que ele levou ao debate riu. O candidato queria humilhar Lula, mas, na verdade, revelou quem é e no que acredita. É a exaltação da cultura que machuca quem tem alguma limitação física, que exalta apenas os fortes, os definidos como “normais”. A cultura que exclui e espalha cicatrizes em crianças tratadas com desprezo nas escolas, por qualquer diferença que tenha em relação ao padrão dominante. A perversidade que fere milhões e que precisou de uma palavra em inglês para ser definida. É o “bullying”.

A faixa como escudo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Imunidade do cargo blindaria candidato do PL de denúncias e processos por quatro anos

A informação surgiu em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf. Flávio Bolsonaro realizou uma série de movimentações bancárias incompatíveis com a renda que declara à Receita. Numa das operações atípicas, o candidato do PL recebeu R$ 520 mil de um escritório de advocacia e quitou o financiamento da famosa mansão de 1.100m² em Brasília. Uma morada e tanto para quem sempre viveu do dinheiro público, desde o primeiro emprego como funcionário fantasma da Câmara.

É preciso votar, por Merval Pereira

O Globo

Se ganhar a eleição é o que importa, não como governar, estaremos sempre nas mãos dos populistas de ocasião, sejam de esquerda ou de direita

A campanha eleitoral que começou anódina leva hoje às urnas milhões de eleitores que definirão o próximo presidente da República a partir de propostas antagônicas na prática, e aproximadas pela retórica eleitoral. O conservadorismo, na sua expressão mais rasteira, está em disputa. Conservar Lula e o PT no governo representa uma homenagem à carreira brilhante de um nordestino de nove dedos que não se deixou abater pelos percalços de uma vida sofrida e entrou para a história brasileira pela porta da frente, embora possa terminar com uma derrota humilhante para um rapaz, como ele chama, que não tem história nem conteúdo, e chegou onde chegou pelo sobrenome Bolsonaro, como um avatar do próprio pai, que está preso por uma tentativa de golpe.

Só à noite vai se saber o nome, por Elio Gaspari

O Globo

Continua de pé a previsão do banqueiro André Esteves: 'A eleição será 51% a 49%, só não sabemos para quem'

Debate civilizado como o da TV Globo tem algo de monótono. Tanto é assim que o momento mais eletrizante foi o último bloco, quando eles passaram a se insultar. Isso não foi consequência de uma preferência pelo baixo nível, mas resultado de um segundo debate sem ideias novas.

Esse segundo debate pode definir votos de quem não ia votar ou virar votos em branco ou nulos, mas virar de Bolsonaro para Lula (ou vice-versa), a chance é mínima.

Uma eleição esquisita, parecida com o rei Luís XVII da França, cujo reinado não houve.

Fim do ‘saco de bondades’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

A realidade é dura e, se der Lula, seu problema será o Congresso, se der Flávio, serão as ruas

Se o presidente Lula vencer, seu grande problema será o Congresso. Se Flávio Bolsonaro for o vitorioso, o mais provável, seu maior desafio serão as ruas. Em qualquer caso, o futuro presidente terá pela frente as instituições em frangalhos, uma crise fiscal de bom tamanho e um País rachado ao meio.

Na hipótese de uma virada histórica, Lula terá mais uma vitória, mais um mandato para sua biografia e a chance de, finalmente, preparar um sucessor para uma esquerda sem rumo. Mas ele vai enfrentar um PL avassalador no Congresso e corre um grande risco: fechar a longa carreira com um governo mequetrefe, de forma melancólica. O terceiro mandato já não foi lá essas coisas.

As regras do jogo, por Luiz Sérgio Henriques*

 

O Estado de S. Paulo

Não é possível escolher o terreno da luta, mas pode-se fixar o objetivo comum de restabelecer a integridade do espectro político

Não é nada incomum, na política e na vida, ter de agir sob a pressão inclemente da força das coisas. Num momento em que a recessão democrática se espalha em países-chave do Ocidente, é obrigatório valorizar os fundamentos mais elementares da nossa crença comum ou, para ser mais enfático, da nossa escolha de vida. Somos democratas – de esquerda, direita ou centro – e nos habituamos a considerar como intocável o compromisso com eleições justas e livres, embora os fins pelos quais lutamos possam divergir. Numa formulação um tanto mais teórica, por princípio interessa-nos menos o resultado do jogo do que as regras sob as quais ele é jogado.

Uma campanha miserável em grandes debates, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O Brasil vivido no dia a dia pouco se assemelha ao País mostrado, muito de longe, na maior parte do falatório eleitoral

Fundamental para todos e chata para muitos, a economia foi um tema pouco discutido nas semanas finais da eleição. Sem familiaridade com esse e com outros temas da administração, o candidato oposicionista, Flávio Bolsonaro, pouco se aventurou nessa área. Envolvido na discussão econômica desde sua fase sindical, o presidente Lula avançou com moderação nesse debate, embora pudesse beneficiar-se muito mais de sua experiência no setor público. Durante a maior parte da campanha, os dois deram atenção talvez excessiva à orientação de seus assessores, muito voltada para o comportamento nos palcos.