sábado, 3 de janeiro de 2015

Alckmin se apresenta como líder da oposição

• Após posse para 4º mandato, governador de São Paulo faz críticas indiretas à presidente Dilma em discurso

Pedro Venceslau e Mônica Reolom - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Reeleito no primeiro turno em outubro, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), aproveitou seu discurso de posse nesta quinta-feira, 1º, no Palácio dos Bandeirantes, para o quarto mandato e criticou indiretamente o governo federal e o PT. No momento em que correligionários e aliados falam abertamente que o tucano é um nome natural para disputar o Palácio do Planalto em 2018, ele fez uma fala com tom mais nacional que local e chegou a usar um mote da campanha de Aécio Neves à Presidência: mudança com segurança.

“O povo paulista - que é a expressão fiel do povo brasileiro - amadureceu; quer a mudança que sabe ser segura”, afirmou. O senador mineiro, porém, não foi citado em nenhum momento.

Em outro trecho do discurso, que durou 22 minutos, Alckmin recorreu a um mote histórico dos tucanos para atacar o PT. “Os brasileiros de São Paulo repudiam o aparelhamento da máquina pública; consideram repugnante a prática política que transforma o Estado num clube”. O governador disse, ainda, que “não é preciso fraudar a boa-fé do povo brasileiro para fazer justiça social”.

Com o discurso duro, que foge ao seu estilo habitual, Alckmin reforçou, segundo aliados, sua posição na trincheira oposicionista e sinalizou que não pretende deixar para Aécio o monopólio das críticas à presidente Dilma Rousseff (PT). “Nesse segundo mandato ele fará um governo mais nacional. Todo governador de São Paulo é sempre um possível candidato a presidente, ainda mais se tiver passado quatro vezes pelo cargo”, explica o vice-governador Márcio França (PSB).

Na disputa presidencial deste ano, o eleitorado de São Paulo foi responsável pelo bom desempenho de Aécio, que recebeu15,3 milhões de votos - ou 64,3% dos votos válidos.

Esse resultado foi citado indiretamente no discurso do governador: “O povo paulista tem rejeitado tanto a ilusão do populismo fácil como o reacionarismo que produz a desigualdade”, disse. Em seguida, ele emendou: “Esse Brasil que está no DNA de São Paulo aprovou mais uma vez o modo de enxergar os desafios com clareza, coragem e objetividade”.

Economia. Seguindo a linha nacional, o governador também usou parte de seu discurso para falar sobre economia. “Todos nós conhecemos os duros prognósticos para a economia nos próximos anos. O País poderá viver dias difíceis. Mas o discurso fácil do pessimismo só é mais fácil que o discurso do otimismo irresponsável, que também já nos custou muito caro”.

Apesar das críticas, o governador pregou a unidade entre o governo e a oposição para fazer as “reformas essenciais”. “Ou 2015 será outro ano perdido”, completou.

O governador fez ainda uma defesa enfática da ação do Estado em contraponto ao “liberalismo extremo e insensível”. “Defendemos e praticamos o Estado necessário, aquele que, sem tomar o lugar do indivíduo, tenha eficiência e musculatura necessárias para resgatar a dignidade dos que mais precisam”, afirmou.

Serra. Diante do auditório lotado, o governador fez uma homenagem ao ex-governador José Serra, que foi seu adversário interno no PSDB e é cotado para disputar o governo paulista em 2018. “É um dia feliz, este, em que presto homenagem a José Serra, grande governador de São Paulo, homem público ousado, guerreiro incansável desde a juventude”, afirmou.

Serra foi um dos poucos quadros nacionais do PSDB que participaram da cerimônia de posse do secretariado no Palácio dos Bandeirantes. Aécio preferiu não vir a São Paulo para o evento.
Antes de sua fala no Palácio dos Bandeirantes, onde seu secretariado foi empossado, o governador participou de uma solenidade na Assembleia Legislativa, onde fez um breve discurso. Na ocasião, concluiu sua fala dizendo que São Paulo “nunca vai virar suas costas para o Brasil”.

Equipe. Pouco mais de 24 horas depois de bater o martelo sobre os nomes que iriam compor seu secretariado, o governador deu posse nesta quinta aos novos titulares das 25 pastas que compõem a administração.

Como foram informados em cima da hora, dois secretários não puderam comparecer ao evento pois estavam fora do Brasil: Floriano Pesaro (PSDB), do Desenvolvimento Social, e Arnaldo Jardim (PPS), da Agricultura. A primeira reunião da equipe acontecerá na manhã de hoje no Palácio dos Bandeirantes.

O PSDB comandará nos próximos anos oito das 25 pastas e controlará 29% do orçamento. Outras nove siglas estão representadas no primeiro escalão da administração: PV, PPS, SD, DEM, PMDB, PSB, PTB e PRB.

Aécio busca protagonismo no Congresso

• Derrotado no 2º turno da eleição presidencial, senador mineiro enfrentará adversários para se firmar como nome do PSDB em 2018

Isadora Peron - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Mesmo após ter conquistado cerca de 51 milhões de votos na eleição presidencial, o senador Aécio Neves (MG) ainda não conseguiu se firmar como nome natural do PSDB para 2018. Para se candidatar novamente ao Palácio do Planalto, ele terá de superar disputas internas e enfrentar adversários fortes, como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Até agora, os dois tucanos têm adotado estratégias diferentes para alcançar o mesmo objetivo. Enquanto Aécio investe num estilo mais agressivo, Alckmin procura manter o seu perfil moderado.

Aclamado como líder inconteste da oposição no Congresso, o mineiro passou a atuar na linha de frente da “oposição selvagem” que o PSDB tem feito ao governo da presidente Dilma Rousseff. Desde que voltou ao Senado, após o 2.º turno das eleições, ele já chamou o PT de “organização criminosa”, deu apoio a protestos contra denúncias de corrupção e mostrou que o partido aprendeu a usar as manobras regimentais para complicar a vida da base aliada. “Vamos perder, mas vamos sangrar esses caras até de madrugada”, disse a correligionários durante a votação para alterar a meta fiscal.

Já Alckmin investe numa relação republicana com Dilma, para não perder o apoio da União em projetos importantes para o Estado. No final do ano, enquanto o PSDB armava toda as suas artilharias contra Dilma, chegando a pedir a cassação da candidatura da petista, o governador se encontrou com ela para negociar um pacote de ajuda bilionário a São Paulo.

Independentemente da postura que irão adotar nos próximos anos, os dois tucanos terão de fazer o dever de casa. Aécio foi um senador ausente em seu primeiro mandato, com uma passagem pouco expressiva pelo parlamento. Ele já deu mostras de que pretende mudar essa imagem, mas não poderá arrefecer nos próximos anos. Uma atuação exemplar no Congresso será a única chance de reverter a dupla derrota que sofreu em Minas, seu Estado natal. Além de o candidato ao governo do PSDB ter sido derrotado pelo PT, o próprio Aécio recebeu menos votos que Dilma em seu reduto eleitoral.

Por outro lado, o mineiro terá a seu favor o fato de ocupar a presidência do PSDB. Com isso, pretende viajar pelo País, especialmente o Nordeste, para se tornar ainda mais conhecido. O tucano também articula a criação de um comitê para tentar manter a interlocução com a sociedade, além de formar uma equipe para fiscalizar o andamento do governo.

Alckmin também terá um grande desafio pela frente. Apesar de ter sido reeleito no 1.º turno com uma votação expressiva, o tucano sabe que terá de fazer uma nova gestão muito melhor do que a primeira. Para São Paulo se tornar uma “vitrine” a ser exibida em 2018, o governador precisa resolver problemas graves, como a crise hídrica, a falta de mobilidade urbana e o aumento dos índices de violência.

Ciente das dificuldades, Alckmin também já começou a fazer suas movimentações. Ao anunciar as mudanças no primeiro escalão do governo neste mandato, especialmente no comando da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), o tucano tenta pavimentar o caminho para o que seria a sua segunda candidatura a presidente.

Disputa. Para o vice-presidente do PSDB, Alberto Goldman, é natural que dois nomes fortes como Aécio e Alckmin tenham como projeto de poder ser candidato à Presidência. Apesar de dizer que esse assunto ainda não está sendo discutido internamente pelo partido, ele afirma que a escolha de quem será o representante da sigla nas eleições de 2018 vai depender do desempenho de cada um deles. 

“São duas situações diferentes. Hoje a questão nacional vai se dar muito no Congresso, a demanda sobre o partido vai ser muito grande, e é preciso ver como Aécio vai enfrentar essa questão. No caso do Alckmin, ele vai procurar fazer um governo o mais bem avaliado possível para poder ter o seu capital no futuro”, afirma.

Goldman lembra ainda que há outros quadros da legenda que não podem ser descartados, como o ex-governador José Serra, que volta este ano ao Senado e já concorreu duas vezes à Presidência.

Cientista político: 'Dilma deverá ser politicamente mais fraca'

Entrevista – Octávio Amorim

Cristian Klein - Valor Econômico

Oposição rediviva, possibilidade de um desafeto ocupar a presidência da Câmara, bancada parlamentar do PT encolhida, situação econômica desfavorável e o risco de novos desdobramentos do escândalo da Petrobras atingirem o governo. Para o cientista político da FGV-Rio, Octavio Amorim, a presidente Dilma Rousseff começa o segundo mandato com as condições mais adversas já enfrentadas pelos petistas desde que subiram a rampa do Planalto, em 2003. "Dilma deverá ser uma presidente politicamente mais fraca do que foi no primeiro e do que havia sido Lula nos seus dois mandatos", afirma.

Apesar disso, Dilma e o PT podem superar as dificuldades pelo tempo de aprendizado ao longo de 12 anos. O manejo das rédeas do poder ensinou o pragmatismo até mesmo para a presidente, considerada ideologicamente mais rígida do que o antecessor.

No segundo mandato de Dilma, o PT deixará de comandar, pela primeira vez, três dos oito ministérios que vinha ocupando de modo ininterrupto - todos emblemáticos: Fazenda e Planejamento, preenchidos por Joaquim Levy e Nelson Barbosa, ambos sem filiação partidária, e Educação, alocada para o ex-governador do Ceará, Cid Gomes (Pros), a despeito de ser um carro-chefe da área social, tão cara à legenda.

Foi um movimento hábil, um "sinal luminoso", classifica Amorim, no qual Dilma reconhece, ainda que não explicitamente, que a correlação de forças, expressa nas apertadas eleições de outubro, se alterou.

A nomeação de Levy e Barbosa representaria, desse modo, um ponto de inflexão na era PT, uma grande concessão à oposição. Seu significado político poderia ser comparado às grandes coalizões de regimes parlamentaristas em que um partido se alia ao maior adversário para governar, como ocorre hoje na Itália e na Alemanha. "Dilma despartidarizou dois ministérios fundamentais para reduzir o conflito partidário", analisa Amorim.

O cientista político diz que a presidente "virou à direita" em relação à política econômica. Mas não comete estelionato eleitoral ao adotar o ajuste fiscal negado em campanha. Para o professor e pesquisador, essas "reversões programáticas" são práticas frequentes no Brasil e na América Latina.

Para estabilizar o segundo mandato de Dilma, acrescenta Amorim, a presença de Lula será fundamental. "Seu papel é o de evitar o estouro da boiada governista. É ele que vai ancorar as expectativas em relação à eleição de 2018, mesmo com a economia não indo tão bem como o PT gostaria".

A seguir, leia os principais trechos da entrevista ao Valor:

Valor: O segundo mandato de Dilma será realmente muito diferente do primeiro?

Octavio Amorim: Dilma deverá ser uma presidente politicamente mais fraca no segundo mandato do que foi no primeiro e do que havia sido o Lula nos seus dois mandatos. Isso porque as circunstâncias mudaram muito. Em primeiro lugar, a eleição foi apertada no segundo turno, o que deu grande moral à oposição, que ficou mais aguerrida; o fato de o PT - apesar de continuar sendo o maior partido na Câmara - ter perdido 18 cadeiras é uma derrota no contexto de um Parlamento pulverizado, e há a situação econômica que se vê mais à frente. Não se pode esquecer dos grandes riscos embutidos no escândalo da Petrobras. Ela já começa com isso. Enquanto Lula, no primeiro mandato, só teve que enfrentar uma enorme crise [o mensalão] em 2005.

Valor: E a relação com os aliados?

Amorim: Há latente conflito intracoalizão: um PT nacional mais fraco versus um PMDB mais forte no nível estadual e estável no plano nacional. E há um latente conflito intrapartidário: Dilma versus Lula. Devemos considerar também que Dilma não concorrerá à reeleição - ou seja, a partir de 2017 já será considerada um pato manco - que a economia passará por um momento difícil em 2015 e que os atores políticos já antecipam que o pleito de 2018 será muito difícil para o PT. Todos os três fatores favorecerão uma postura muito mais assertiva por parte dos aliados de Dilma, o que aumentará a probabilidade de conflitos. Não nos esqueçamos também o declínio acentuado da seção paulista do PT, que indica que a composição da liderança do partido vai mudar, o que também poderá gerar sérios conflitos interpartidários.

Valor: O PT superou o mensalão em 2005 numa época de aprendizado e quando não tinha uma ampla base aliada. Pelo tempo de experiência, as adversidades de hoje não são mais contornáveis?

Amorim: Esse é um bom ponto. Houve uma aprendizagem, que ficou clara na passagem do primeiro para o segundo mandato do Lula. Escaldado pelo mensalão, Lula aprendeu a usar o guarda-roupa do presidencialismo de coalizão, cuja melhor evidência é a integração plena do PMDB ao ministério e à base parlamentar do governo. No primeiro mandato, não havia sido assim. Agora, sem dúvida, o poder desgasta. Mas o aprendizado traz esse benefício. O PT já está pilotando a máquina do Estado há 12 anos, conhece profundamente as rédeas do poder e tem condições de reverter a atual situação política e econômica.

Valor: Qual o significado da indicação de Levy e Barbosa para a Fazenda e o Planejamento?

Amorim: O primeiro passo [para reverter a situação] foi a nomeação surpreendente de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda.

Valor: O PT tem se mostrado adaptável, camaleônico.

Amorim: Sem dúvida. Mesmo sob Dilma, que é tida como mais rígida ideologicamente do que Lula. Dilma mostrou flexibilidade ao aceitar as concessões de 2012 e agora, depois de uma campanha marcadamente de esquerda, nomeia um doutor por Chicago - a "alma mater" da ortodoxia liberal - para fazer um ajuste fiscal que ela não prometeu na campanha. É uma reversão programática considerável, o que supõe pragmatismo.

Valor: É estelionato eleitoral?

Amorim: Acho essa expressão muito forte. É usada pela oposição toda vez que vê esse tipo de episódio. Mas isso é uma prática frequente no Brasil e nas democracias latino-americanas. Já tivemos essas reversões programáticas - que é uma maneira mais isenta e superior de tratar o problema - em 1986, com o Plano Cruzado de José Sarney e do PMDB. Em 1989, a mesma coisa: Fernando Collor acusou Lula de querer sequestrar a poupança, e quando ele assumiu, em março de 1990, ele é que sequestrou a poupança. Fernando Henrique, em 1998, garantiu a manutenção da paridade do real com o dólar para ser forçado a desvalorizar o real em janeiro de 1999. E agora é a vez do PT. Essa reversões programáticas já aconteceram várias vezes na América Latina. A última imagem notória foi a de Ollanta Humala, no Peru, que fez uma campanha à esquerda e, logo depois de assumir, implementou uma política econômica à direita.

Valor: Dilma, ao escalar Levy, virou à direita?

Amorim: Virou à direita, exclusivamente, no que diz respeito à política econômica. Lula virou à direita, na política econômica, em 2003, mas virou à esquerda na política externa e social. Mais tarde, viraria à esquerda, no segundo mandato, sobretudo depois da crise mundial de 2008, em política econômica. E no primeiro mandato da Dilma implementou-se plenamente a chamada nova matriz econômica, que não teve êxito e agora o governo foi obrigado a retroceder - ou fazer essa reversão programática.

Valor: A indicação de Levy é um marco também em relação aos 12 anos de PT no poder?

Amorim: Sim, pois pela primeira vez, desde janeiro de 2003, o Ministério da Fazenda não será dirigido por um petista de carteirinha, como foram [Antonio] Palocci e Guido Mantega. Há um aspecto do perfil do Joaquim Levy que tem que ser devidamente analisado. Ele é apartidário, assim como Nelson Barbosa - ainda que ligado ao Lula, ainda que tenha servido a Dilma, ele não é filiado ao partido. Acho que essa é uma solução boa dado o equilíbrio político que emergiu no segundo turno. A eleição foi muito apertada. Teoricamente, poderíamos propor uma solução de governo de ampla coalizão entre centro-esquerda e centro-direita, entre PT e PSDB, como existe hoje na Itália do [primeiro-ministro Matteo] Renzi e na Alemanha da [chanceler Angela] Merkel.

Valor: A nomeação de Levy é uma concessão de Dilma à oposição que lembra acordos entre adversários em grandes governos de coalizão no parlamentarismo?

Amorim: Pois é, Itália e Alemanha são parlamentaristas. As últimas eleições nestes países foram apertadas, com a pequena diferença para a centro-direita de Angela Merkel e uma pequena diferença a favor da centro-esquerda de Renzi, na Itália. Qual foi a solução? Governo de ampla coalizão com o principal partido da oposição. Hoje, Merkel, da Democracia Cristã, governa em coalizão com os social-democratas. E Renzi, de um partido de centro-esquerda, o Partido Democrático, governa com a centro-direita que rompeu com [o ex-primeiro ministro Silvio] Berlusconi. No Brasil, essa solução seria interessante e, aliás, muita gente sonha com isso, que PT e PSDB se encontrem no governo. Mas o regime aqui é presidencialista, o que significa uma competição eleitoral de outra maneira. E nem o PT nem o PSDB tem hoje ânimo para esse tipo de governo de coalizão. Então, uma solução intermediária foi encontrada. Dilma, em vez de partidarizar com o PT e seus aliados, todos os ministérios, resolveu neutralizar politicamente dois ministérios absolutamente chaves: Fazenda e Planejamento. Neste sentido, me parece uma solução muito ajustada com o resultado que emergiu das urnas, em 26 de outubro.

Valor: O objetivo foi neutralizar a oposição?

Amorim: Não, foi neutralizar cargos vitais de modo a aplacar a oposição. Foi despartidarizar cargos fundamentais para reduzir o conflito partidário. Ou para reduzir o conflito entre governo e oposição no seu sentido mais amplo, em relação à sociedade, no enorme número de eleitores que votou no candidato da oposição [o senador Aécio Neves (PSDB-MG)], para as regiões e setores do país que estão irritados com o PT há 12 anos no poder.

Valor: No segundo mandato de Dilma, o PT deixará de comandar três dos oito ministérios que vinha ocupando ininterruptamente desde 2003. Todos são emblemáticos: Fazenda, Planejamento e Educação. É outro sinal de mudança?

Amorim: Isso é um sinal luminoso de que a presidente e que o próprio PT reconheceram a mudança na correlação de forças. Reconheceram implicitamente - publicamente isso jamais foi dito. Mas acho que é um bom sinal. Democracia supõe competição entre os partidos, mas também exige cooperação. É uma pena que o reconhecimento da força da oposição seja de maneira implícita, confusa, mas é a maneira possível. É melhor assim do que a confrontação permanente, aberta, como vemos na Venezuela e Argentina.

Valor: Há informações de que Dilma pretende ser menos centralizadora no segundo mandato, mas isso é factível num cenário de ajuste fiscal previsto para 2015?

Amorim: Essa é uma das grandes questões que paira sobre o país hoje em dia. O politólogo argentino Rosendo Fraga diz que é mais fácil mudar a ideologia de um presidente do que ele mudar a sua personalidade. O centralismo da Dilma tem mais a ver com traços da sua personalidade do que necessidades absolutas de sua base política. Mas as pessoas podem mudar. Principalmente, quando estão à beira do precipício. A classe política e o mercado monitorarão o relacionamento da Dilma com Joaquim Levy intensamente nos próximos meses e nos próximos anos.

Valor: A renegociação das dívidas dos Estados e municípios pode pavimentar o apoio político de governadores e prefeitos num momento de aperto fiscal, mas não é um risco para o equilíbrio das contas públicas?

Amorim: Depende, essa é uma grande questão. O Lula, por exemplo, fez uma série de concessões para os governadores, inclusive da oposição, em 2003, para conseguir aprovar a reforma da previdência, que foi fundamental para dar maior credibilidade à sua política fiscal. Sujar um pouco o ajuste fiscal em nome de lhe dar maior apoio político eu acho que é uma medida correta. E esse cenário é muito possível em 2015. Não veria com olhos negativos. Contanto que a presidente dê apoio às principais diretrizes do ministro da Fazenda. Numa democracia, nenhuma política governamental, por melhor que seja desenhada do ponto de vista técnico, funciona sem apoio político.

Valor: Qual será o papel do Lula?

Amorim: Fundamental, como porta-estandarte do futuro do PT. É a existência de um líder popular de peso como Lula que permitirá ao PT sinalizar aos seus aliados e ao mercado que em 2018 o PT continuará sendo um partido altamente competitivo para as eleições presidenciais.

Valor: Como candidato?

Amorim: Ele poderá ser ou não. Só será candidato se tiver boas chances de vencer. Ele já disse que não voltará para ser o [ex-piloto de F-1, o alemão Michael] Schumacher. Se a probabilidade de eleição for relativamente baixa, preferirá passar o bastão para outro candidato do PT, que terá que ser preparado. Lula terá o papel fundamental de evitar o estouro da boiada governista. É ele que vai ancorar as expectativas em relação a 2018, mesmo com a economia não indo tão bem, como o PT gostaria.

Valor: Se não for o candidato, como ele pode evitar o estouro da boiada? Ainda teria popularidade para fazer um segundo sucessor, depois da Dilma?

Amorim: Tudo é uma questão de "timing". O fundamental é Lula ancorar essas expectativas nos próximos dois anos, que serão os anos cruciais para o ajuste fiscal. Se o ajuste for bem sucedido, o PT e seu governo podem ir para a segunda fase do segundo mandato de Dilma com boas perspectivas e aí Lula poderá se candidatar. Se decidir que não, poderá preparar um candidato dentro do PT. Em 2009, o PT aceitou o nome da Dilma, apesar de ela não ser parte da liderança histórica do partido. Mas por que o PT aceitou? Por que Lula estava no auge de sua liderança. Não se sabe como Dilma estará em 2017. E se ela não estiver bem, o PT ainda conta com uma grande liderança, que é a do Lula. Então, Lula terá um papel fundamental, seja o de evitar o estouro da boiada governista seja o de tentar convencer Dilma a adotar políticas econômicas mais moderadas, como ele já certamente conseguiu com a nomeação de Joaquim Levy.

Valor: A construção de um plano B a Lula, ao longo do mandato, pode levar a uma luta interna pesada, entre, os mais cotados até agora, Aloizio Mercadante e Jaques Wagner?

Amorim: Se Dilma começar a patrocinar um candidato a partir de 2017, mas não estiver bem politicamente, o nome que ela preferir poderá ser alvo de forte oposição dentro do partido e aí poderá contaminar e enfraquecer o governo. Muito dependerá da estatura política de Dilma no momento de preparação desse candidato.

Valor: E a situação econômica?

Amorim: A economia é fundamental porque determina a popularidade da presidente e esta determina sua autoridade política perante seu partido e a base governista. É fundamental que a economia já esteja navegando bem em 2017, justamente para dar condições a Dilma de influenciar o candidato do PT em 2018 e sem sofrer grande oposição dentro do partido - ou que ele rache.

Valor: É possível haver um refluxo do antipetismo, que foi tão forte durante a eleição?

Amorim: Sim. A polarização foi um pouco artificial, gerada pelo contexto da campanha.

Valor: As manifestações por impeachment vão arrefecer ou podem voltar com revelações do escândalo da Petrobras?

Amorim: Estamos na mão do escândalo da Petrobras. A incerteza é muito grande. Mas há os trabalhos de uma colega canadense, Kathryn Hochstetler, que tem estudado as condições em que os mandatos presidenciais na América Latina, nos últimos 30 anos, terminam de maneira precoce. E são quatro as condições que ela alinha, que se cumpridas levam à queda prematura dos presidentes: falta de maioria parlamentar, amplas manifestações de rua, escândalos de corrupção e crises econômicas geradas por políticas neoliberais. Isso é a cara do governo Collor, por exemplo, ou do [Fernando] De la Rúa, na Argentina, nos quais os quatro fatores estavam presentes. Acho que Dilma não descuidará da maioria parlamentar. A política dela não será neoliberal. Ela fará um ajuste fiscal, mas isso fazem governos de esquerda, centro, direita - ajuste fiscal não é uma questão de preferência ideológica é uma necessidade. Então, os grandes riscos viriam de escândalos de corrupção - e temos aí o da Petrobras - e de manifestações de rua, por exemplo, com a retomada do espírito de junho de 2013, estimulado por novas revelações. Os outros dois fatores acho que não se cumprirão. De modo que a pior hipótese - a destituição de Dilma - não vejo acontecer.

Valor: Que risco Dilma corre caso seu desafeto Eduardo Cunha (PMDB-RJ) se eleja presidente da Câmara?

Amorim: O Eduardo Cunha tem sido demonizado mas é fundamental registrar que ele só é um candidato viável à presidência da Câmara porque representa bem as preferências de seu partido; tem tido uma atuação parlamentar muito aguerrida na defesa dos interesses do PMDB; e a bancada do PMDB do Rio é a maior bancada dentro do PMDB nacional. É um representante orgânico do PMDB. E o PMDB não é um aliado totalmente fiel de presidente algum.

Miguel Reale Júnior - A lei? Ora, a lei...

- O Estado de S. Paulo

Dilma Rousseff inicia o segundo governo com um leque imenso de dificuldades. A primeira, perene, é o seu próprio temperamento, irascível e imperioso, a dificultar o diálogo e a harmonia. A segunda está em seu entourage, composto por pessoas sem peso e sem autoridade perante a classe política e perante a própria presidente, que, aliás, segundo consta, prefere súcubos submissos. A terceira decorre do marco zero de nossa economia, com crescimento nulo, inflação no teto da margem, déficit fiscal e desemprego começando a ameaçar.

Como se não bastassem tais entraves, pouco animadores para começo de mandato, há no horizonte a crise moral e política, pois nunca antes neste país houve, como no petrolão, corrupção de tamanha grandeza a comprometer fortemente a maior empresa estatal e a confiança nos administradores e no próprio governo. Esta rede de corrupção engloba diversas vertentes, não só empreiteiras, diretores e gerentes da Petrobrás, mas os últimos destinatários do alcance, ou seja, senadores, deputados, ministros recebedores do dinheiro desviado.

A base governista será logo aquinhoada com uma investigação que retirará de suas lideranças condições de comando.

A única notícia boa, contudo, para Dilma é que todas as ilegalidades praticadas na Petrobrás ocorreram no Brasil, cuja sociedade não nasceu dotada do sentimento de indignação diante do desmando e do abuso de poder, reconhecendo a plena normalidade no jeitinho para driblar os limites da lei.

Com efeito, Lula em plena crise do mensalão foi reeleito, Dilma em meio ao petrolão foi reeleita. Na primeira pesquisa após as eleições, quando vieram à tona mais revelações sobre os alcances na Petrobrás, a maneira como a presidente governa o País foi aprovada por 52% e desaprovada por 41%. Já a parcela da população que afirma confiar na presidente foi de 51%, ante 44% que não confiam, segundo o Ibope de 17 último.

Como se justifica tal complacência de nossa gente com os desvios graves de conduta dos seus governantes?
A explicar tal comportamento há preocupante pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas, publicada no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2014, sobre a visão dos brasileiros acerca da lei e das instituições judiciais. A pesquisa ouviu mais de 7 mil pessoas em oito Estados e as respostas indicaram que 81% delas concordam ser fácil desobedecer à lei, preferindo-se o jeitinho em vez da obediência ao Direito, mesmo porque há poucas razões para o respeitar.

Prevalece o senso comum de ficarem as leis apenas no papel, em vias do que se reconhece como generalizada a percepção de ser fácil driblá-las, tendo-se por consequência o sentimento de que o engano à lei não é moral nem socialmente reprovável.

Outro dado relevante consiste na posição de nossas elites, pois quanto maior a renda e o nível cultural, maior a convicção da vantagem de ignorar a ordem legal, a ser facilmente burlada; 85% das pessoas com renda acima de oito salários mínimos concordam ser fácil burlar a lei, posição compartilhada por apenas 71% dos assalariados com renda não superior a um salário mínimo. As elites dão o mau exemplo. O dono de grande rede comercial de objetos para casa assegura ser melhor vender para pobre do que para rico, este sendo muitas vezes despreocupadamente inadimplente. A classe secularmente explorada rege-se mais pela correção.

Instaura-se, portanto, na sociedade, a ideia de ser desimportante o respeito à lei, sendo, assim, logicamente não reprovável o seu desrespeito. Ao desonesto, quando muito, a indiferença. Muitos candidatos sabidamente corruptos, mas ainda ficha-limpa por estarem os processos em curso, mereceram o voto popular.

Instala-se a cultura da esperteza como um valor positivo, parecendo que no fundo das consciências há grande e silenciosa conspiração em favor da conhecida frase de Stanislaw Ponte Preta: "Ou restaure-se a moralidade, ou nos locupletemos todos".

Como a grande maioria entende ser normal locupletar-se, não vendo vantagem em ser honesto, pois não rende respeito, nem há, de outro lado, punição por ser desonesto, vale a pena, então, apostar na impunidade e tirar proveito. Assim, parte-se do princípio de que, se muita gente tem lá culpa no cartório, uma mão lavará a outra, sendo mais cômodo deixar a restauração da moralidade para a outra encarnação.

A imposição de uma pena ao crime não deixa de ter um papel pedagógico, à espera de que venha a reforçar na consciência da comunidade a positividade do valor afrontado com o delito. No caso da corrupção ou da fraude à licitação, os valores da probidade administrativa e do zelo com o dinheiro público deveriam ser reafirmados com a instauração de processos e mais ainda com condenações. Esse efeito colateral do processo criminal e da imposição de sanções, todavia, não tem tido, isoladamente, no Brasil a consequência de gerar comportamentos corretos e leais na administração pública, havendo "mensalinhos" espalhados em prefeituras deste nosso país. Descoberto o mensalão, partiu-se para o petrolão.

Vive-se a contradição da aprovação de Dilma num cenário absolutamente adverso, com a responsabilização pelos "malfeitos" batendo à porta do Planalto. Mas será que agora, com o seguimento das investigações, pelos volumes desviados e com a indicação do nome dos políticos envolvidos surgindo em fevereiro, haverá mudança na mentalidade do brasileiro no tocante à importância de respeitar a lei? Ou será que continuará em 2015 a vicejar a expectativa de poder se locupletar antes que se instaure a moralidade?

O Brasil virá às ruas em favor da honestidade para demonstrar que a malandragem esperta merece, além de sanções penais, a reprovação da sociedade?

Muitos caminhos deverão ser percorridos para se disseminar a cultura do respeito à lei, em lenta evolução moral. Em todo caso, feliz 2015.

Advogado, professor titular aposentado da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Paulista de Letras, foi Ministro da Justiça

Merval Pereira - Mal na fita

- O Globo

O Brasil começa 2015 em situação descendente, em que pese a enganosa euforia da presidente Dilma em seu discurso de posse no segundo mandato. A despeito de sermos a sétima economia do mundo, tudo indica que perderemos esse posto para a Índia este ano, segundo a consultoria britânica Economist Intelligence Unit, ligada à revista "The Economist".

O baixo crescimento do PIB nos últimos 4 anos — média anual abaixo de 2% — fez com que a economia brasileira perdesse o sexto lugar para a Inglaterra em 2012, depois de tê-la ultrapassado. Este ano, com a previsão de crescimento de 6,5% da Índia contra menos de 1% do Brasil, devemos cair para o oitavo lugar, ainda na frente da Itália, que também será superada pela Índia.

A decadência econômica vem acompanhada da desimportância política internacional, reforçada pela política externa do governo Dilma, mais voltada para questões regionais e ideologicamente ligada aos parceiros do Mercosul, em detrimento das relações com Estados Unidos e Europa.

O Brasil continua entre os países que importam na política internacional, não apenas por estar entre as dez maiores economias, mas, especialmente, por fazer parte do Brics, conjunto de países com potencial para liderar o mundo multipolar nos próximos anos.

A tarefa do novo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, ex-embaixador do Brasil em Washington, será interromper a crescente desimportância brasileira, constatada em recente pesquisa do Ash Center para Governança Democrática e Inovação, da Harvard Kennedy School, que perguntou a cidadãos de 30 países suas opiniões sobre dez influentes líderes nacionais que têm impacto global.

As notas médias mais altas de conhecimento são para o presidente Barack Obama, dos EUA (93,9%); para o presidente Vladimir Putin, da Rússia (79,3%); e para o presidente Xi Jinping, da China (59,12%). Os líderes nacionais menos conhecidos são o presidente da África do Sul, Jacob Zuma (27,8%), e Dilma (25,4%).

O diretor do Ash Center, Tony Saich, diz que dois pontos se destacam na pesquisa. O primeiro é que as respostas são influenciadas por questões geopolíticas, com disputas entre nações e líderes nacionais refletidas claramente nas atitudes dos cidadãos. Por exemplo, as tensões entre China e Japão resultam em avaliações pobres da China e seu líder por japoneses, e vice-versa.

Em segundo lugar, fica clara a correlação das respostas entre a natureza do sistema político e as opiniões dos cidadãos sobre seus líderes. De modo geral, diz Saich, em sistemas multipartidários ou bipartidários genuínos, como na Europa ou nos EUA, os cidadãos são mais críticos sobre as políticas e seus líderes do que em nações onde a política é menos polêmica.

Obama, devido ao papel dos EUA na política global, é o mais conhecido entre os pesquisados, sendo que recebeu a maior percentagem em 23 dos 30 países (90,4% no Brasil). Com exceção de 3 países — Tanzânia, Índia e Paquistão —, o nível de conhecimento de Obama passou dos 90%.

Para os outros líderes, o conhecimento é regional. A chanceler Angela Merkel, por exemplo, é bem conhecida na Europa e na Rússia, mas menos na África, na Australásia e na Ásia. O presidente Xi Jinping é bem conhecido na Ásia, mas apenas 48,8% dos russos pesquisados e 59,8% dos vietnamitas o conhecem. Apesar, frisa o professor Tony Saich, das tentativas de construir uma relação próxima entre China e Rússia, e das tensões entre a China e o Vietnã.

Em países em que a mídia é controlada pelos governos, não é surpresa, diz Saich, que seus cidadãos aleguem prestar mais atenção a seus líderes. Assim, 93,9% dos chineses responderam que prestam atenção no presidente Xi Jinping, e 92,5% dos cidadãos sul-africanos e russos, em Zuma e Putin, respectivamente. Nessa medida de democracia, apenas 74,4% dos americanos pesquisados responderam que prestam atenção em Obama, enquanto as percentagens para países da Europa Ocidental são menores ainda.

No Brasil, onde a mídia não é controlada pelo governo, mas o Executivo tem grande influência no dia a dia dos cidadãos, nada menos que 82,3% das pessoas se referiram a Dilma. Porém, ao se ver o grau de democracia dos países, os que têm maiores restrições à discussão política classificam seus líderes com maiores notas.

Numa escala de 1 a 10, o presidente da China recebeu 9, Putin, 8,7, e Obama, 6,2, enquanto Dilma recebeu 6,3. (Continua amanhã)

Igor Gielow - Um mundo perigoso

- Folha de S. Paulo

Na principal novidade da fase final da reforma ministerial, Dilma Rousseff pôs na cadeira de Rio Branco o embaixador Mauro Vieira. Seria, dizem os "spin doctors", uma revalorização do Itamaraty após a gestão anêmica de Luiz Alberto Figueiredo sob a conhecida falta de paciência da presidente com o setor --vide sua burocrática fala sobre política externa na posse.

Vieira, desprezado e respeitado em medidas mais ou menos iguais na diplomacia, pode até tornar-se um dinâmico chanceler.

Mas qual seria esse dinamismo? A hiperatividade algo patética da era Celso Amorim, sob cujas asas Vieira cresceu? Mesmo que haja a vontade, a onda emergente já quebrou, e o Brasil voltou a seu diminuído tamanho político no mundo.

O discurso de posse de Vieira insinuou a ideia de um Itamaraty mascate. É vital e o órgão já brilhou na função, mas também traz a lembrança dos anos lulistas na África, com embaixadas e negócios obscuros das sempre suspeitas empreiteiras com os déspotas usuais do continente.

Restam enfim os Estados Unidos. Após a vergonha, o episódio da espionagem é página virada --não que a bisbilhotagem irá parar, é claro.

Dilma sabe disso. Logo depois da reeleição, ela falou sobre o papel americano em seu plano de tirar o Brasil da pasmaceira econômica. Em tom elogioso, disse que os EUA são "o pragmático dos pragmáticos".

A presidente conta com a recuperação americana. Nesse sentido, a normalização da agenda com os EUA e a indicação de um chanceler que, mesmo apagado, estava baseado em Washington, são sinais eloquentes.

Talvez seja pouco. Vivemos uma crise aguda, com o petróleo manipulado por sauditas a lubrificar o perigoso jogo da disputa rediviva entre Ocidente e Rússia, com a China como alvo oculto e a Petrobras como dano colateral. É um mundo perigoso, no qual o Brasil terá de escolher como e onde irá posicionar-se.

Maria Cristina Fernandes - A posse da ideóloga

• Dilma disputará o ideário de seu governo

- Valor Econômico

Discursos de posse se parecem na megalomania mas não são iguais. São a primeira formatação do que virá na voz de quem não se vende mais por voto. Buscam projetar uma imagem para dar permanência à legitimidade das urnas.

O discurso da presidente reeleita frustrou quem esperava o anúncio de medidas para enfrentar aquilo que ontem o empresário Jorge Gerdau definiu como uma quase inevitável recessão.

Ao assumir a necessidade de ajuste sem detalhá-lo, a presidente, com uma feição menos crispada que a de sua primeira posse, deixou claro que vai disputar o ideário em defesa de seu governo, missão que, até agora, era reivindicada por seu antecessor.

As más notícias ficarão para seus ministros. Para consumo público, Dilma abandona o powerpoint e assume a condição de ideóloga de seu governo.

No lema anunciado pela presidente, seu governo educará não apenas os brasileiros mas também os malfeitores. À frente da Educação, pela primeira vez em 12 anos, estará um ministro não petista.

Luiz Inácio Lula da Silva viu-se reduzido à quarta parte do que foi em 2011, quando recebeu 10 menções. Quatro anos atrás Dilma praticamente dividia a história do Brasil em antes e depois de Lula. Desta vez, o antecessor virou 'o mais destacado' dos militantes.

O vácuo de Lula foi preenchido pela menção à corrupção, que apareceu 10 vezes ontem. Em 2011, tivera uma única citação. A presidente passou a reivindicar para seu governo - e não para os 12 anos do PT no poder - a liderança no combate à corrupção.

Sim, pode ser um jogo combinado a indicar que é sua a responsabilidade de tentar salvar o quarto mandato do partido do enxovalhamento.

Dilma responde à acusação de estelionato eleitoral, pelo arrocho que está por vir, inflando-se no poder. É um movimento inverso àquele que, em 1999, foi protagonizado por um outro presidente acusado de ter enganado o eleitor.

Da primeira vez que tomara posse, Fernando Henrique Cardoso abusara da primeira pessoa. Nenhum de seus sucessores repetiria a façanha de usar o pronome 'eu' dez vezes numa inauguração de mandato. Ontem e em 2011, Dilma citou a si mesma quatro vezes.

Em 1999, mais breve e menos voluntarista - com um único 'eu' - FH cedeu lugar a uma dosada humildade: "Tenho mais experiência, pelo muito que pude aprender tanto dos acertos, quanto dos erros, de meu primeiro mandato".

Naquele ano, a corrupção, desfraldada pela aprovação, com compra de votos, da emenda da reeleição, sumiu do discurso.

Na posse daquele governo que lhe corroeu a popularidade, o 'desenvolvimento', citado dez vezes em 1995, desapareceu. Ao triplicar as menções a desigualdade, distribuição de renda e trabalhadores evidenciou a preocupação com o legado.

No discurso de 2011 Dilma ainda seguia à risca o figurino que lhe fora traçado pelo antecessor: o de mãe e mulher que pretendia dedicar ao povo o mesmo carinho reservado à família.

Ontem Dilma avançou no terreno lulista ao reivindicar uma identidade que extrapola o gênero. Disse ter estado algumas vezes perto da morte e pertencer a uma geração que a democracia fez vencedora - "duas características que me aproximam do povo brasileiro, ele também, um sobrevivente e um vitorioso, que jamais abdica de seus sonhos".

Dilma amenizou o arquétipo de heroína que marcou a maior parte de seu primeiro mandato. É missão da ideóloga humanizar-se. A presidente abandonou a leitura do papelório de 2011. Parecia mais à vontade à frente de dois teleprompters. Num trecho do discurso em que fugiu da íntegra divulgada, disse: "Não é que a gente não tem medo de nada, a gente controla o medo".

Como a posse sugere aos presidentes a chance de que façam história, nenhum deles resiste à tentação de periodizá-la à sua maneira. No discurso da primeira posse de FH a história é traçada como a sucessão de gerações que se mobilizaram pela independência, pelo abolicionismo e pelos ideais tenentistas.

Contada por Lula, oito anos depois, a história do país tornou-se a sucessão de ciclos econômicos, da cana à industrialização, passando pelo ouro e café, que geraram riqueza sem dar conta da fome, citada 14 vezes em seu primeiro discurso de posse.

Ontem Dilma enquadrou a história do Brasil em 12 anos - no "projeto de nação que é o detentor do mais profundo e duradouro apoio popular da nossa história".

Em 1995, Fernando Henrique usara sua linhagem familiar para se inscrever numa tradição que começou com seu avô republicano e lhe foi transmitida pelo pai em sua defesa da Petrobras.
Marisa Letícia foi a única menção à família nas posses lulistas. A linhagem do filho de Dona Lindu é inaugurada por ele mesmo, que cita a origem de retirante vendedor de amendoim e laranja no cais de Santos.

Ontem Dilma traçou sua identidade sem recorrer à filha, ao neto ou à mãe, citados em seu discurso de 2011. Como naquele ano, continuou a fazer apelo divino, mas de maneira mais moderada que seu antecessor.

Deus tinha passado duas posses num Estado laico devidamente afastado dos discursos e voltou com abundância na era Lula. Na primeira posse petista apareceria duas vezes e na segunda, pós-mensalão, sete.

Em 2007 o ideário lulista se mostrou fortemente impactado pelo mensalão - "Em momentos muito difíceis, quando alguns imaginavam que o jogo tinha acabado, o povo entrava em campo e dizia claramente: nós construímos a democracia deste país e nós vamos sustentar a democracia deste país, custe o que custar".

O tom de epopeia da primeira posse lulista cedeu lugar ao manual de auto-ajuda quatro anos depois - "Eu pedi forças e Deus me deu dificuldades para fazer-me forte/Eu pedi sabedoria e Deus me deu problemas para resolver...".

As crises políticas dos últimos anos e aquelas que estão por vir popularizaram a cultivada presidente. Em 2011 citara Guimarães Rosa - "A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta".

Desta vez, preferiu lançar mão de um dito apócrifo - "O impossível se faz já: só os milagres ficam para depois". Chamou de verso o que é apenas uma tentativa de falar à maioria de cujo apoio depende para atravessar a turbulência dos próximos quatro anos.

Alberto Goldman - Dilma, suas fantasias e seus fantasmas

Os autos elogios e a falta de autocrítica no discurso de posse de Dilma para o novo mandato já eram esperados. Assim foi a afirmação de que com o trabalho de Lula, continuado por ela, tivemos a primeira geração de brasileiros que não vivenciou a tragédia da fome, a ascensão dos brasileiros à classe média, a conquista de empregos com carteira assinada, a valorização do salário mínimo, o acesso à casa própria, ao ensino técnico, às universidades, o longo período sem crises institucionais, o respeito às instituições, a apuração e punição à corrupção, a conquista dos direitos básicos a qualquer cidadão, o direito de trabalhar, alimentar e educar a família.

Esse fora o diferencial dos seus governos, tudo começa com eles, e por isso o povo concluiu que eles poderiam fazer muito mais e melhor. Esse é o limite da capacidade de avaliação de Dilma Rousseff.
Sem nenhum pejo ela reafirma sua convicção sobre o valor da estabilidade econômica, o controle da inflação, o imperativo da disciplina fiscal e a necessidade de merecer a confiança dos trabalhadores e dos empresários, ainda que tenha feito, conscientemente, o contrário.

Nenhuma palavra sobre o baixo crescimento econômico, o definhamento da indústria nacional, a inflação sempre acima da meta objetivada, o baixo investimento que impede o crescimento, a baixa produtividade da economia, o temor da participação privada na economia, o descontrole das contas públicas, as relações de troca com o exterior com resultados negativos, a baixa criação de novos empregos, o desalento dos investidores nacionais e estrangeiros, a intervenção crescente nas atividades privadas, a contenção artificial das tarifas públicas, a carência de mão de obra especializada, a baixa realização dos investimentos públicos, transformando a logística de transportes em um entrave ao crescimento, a saúde com uma das piores avalições da história, os índices de criminalidade que teimam em se manter ou crescer, o desrespeito e a intervenção nas agências reguladoras tomadas de assalto, assim como as demais instituições públicas, pelo partido da presidente e por seus aliados.

Ela descobriu, agora, após 12 anos de poder, que “só a educação liberta um povo e lhe abre as portas de um futuro próspero” e assim lança o lema “Brasil, pátria educadora”. Um slogan apenas, fluido como tudo que tem feito. E vem com a conversa de que mais recursos serão destinados à Educação e a panaceia são os royalties do petróleo. Mais uma enganação, pois esses recursos não são tão expressivos e não tem prazo para se realizarem.

Outra descoberta retumbante: “a corrupção deve ser extirpada”. E isso ela o fará com a continuidade da autonomia da Polícia Federal e a independência do Ministério Público como se isso já não fosse assegurado pela Constituição. E diz que vai acentuar essa luta pela apresentação de um “pacote” de medidas que enviará ao Congresso Nacional.

Mas o ápice falta de pudor e irresponsabilidade no exercício do papel de presidente é a seguinte declaração no texto do pronunciamento: “Temos muitos motivos para preservar e defender a Petrobrás de predadores internos e de seus inimigos externos”.

Ora, os predadores internos são os dirigentes que eles mesmos, Lula e Dilma, colocaram na empresa para dela sugar recursos com a finalidade de manter o poder e garantir a sua continuidade. E os seus inimigos externos são quem? Serão os governos árabes que jogaram o preço do petróleo para baixo para inviabilizar a exploração em vários países ( pre sal em águas profundas no Brasil, xisto betuminoso nos EUA, outras alternativas energéticas )? Ou será o governo Obama que através das empresas petrolíferas quer engolir a Petrobrás ( vai ver que Pasadena faz parte do complô ). Ou as demais multinacionais assustadas com a “eficiência” da Petrobrás desejam destruí-la? Ou os franceses, os ingleses, os italianos? Ou serão os norte coreanos (eu não confio naquele ditadorzinho baixinho e gordinho)?

Afinal a senhora presidente deve dizer quem são os inimigos externos da Petrobras.
Não será um discurso que vai salvá-la. Copiando Nelson Rodrigues, bonitinho, mas ordinário. Hoje eu a assisti, na posse, encurralada por Michel Temer, Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves. Com esse time não vai a lugar algum.

Alberto Goldman. vice-presidente nacional do PSDB



Míriam Leitão - A foto é o fato

- O Globo

A presidente Dilma escolheu um ministério fraco, no geral, e quis fortalecer a economia.

O maior sinal da contradição entre o anúncio de ajuste fiscal e seu desejo de nada ajustar está na foto do Ministério. Olha-se para a foto da posse e o que se vê é um Ministério inchado, com o extravagante número de 39 titulares. Austeridade não combina com aquele grupo mastodôntico.

O ministro Nelson Barbosa, na sua posse ontem, falou de um tabu: mudar a fórmula de calcular o salário mínimo. Teve o cuidado de garantir que ele vai continuar aumentando acima da inflação, mas essa será uma dura batalha. O atual governo criou a fórmula de dupla indexação do mínimo, à inflação e ao crescimento. Isso faz subir o salário e elevar o gasto da Previdência. Mas como mexer nisso se a presidente fala em fazer ajuste e não revogar direitos? Mesmo se conseguir fazer o ajuste que está começando a anunciar, a equipe econômica não fará milagres sozinha.

A presidente fez um discurso propondo um pacto de combate à corrupção e há pessoas na sua foto oficial envolvidas em casos nebulosos. Há os que dizem que assim ela garante a "governabilidade" e o apoio no Congresso, mas um novo escândalo a fragilizará, por isso teria sido mais prudente ter maior rigor na nomeação dos seus ministros.

Outros ministros são apenas escolhas das quais não se espera muito, ainda que seja possível torcer para que eles surpreendam. O novo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, está nesse grupo. Ele chefiou a missão em Washington sem conseguir melhorar as relações comerciais e políticas bilaterais. Por um desses atalhos que a burocracia permite, ou talvez por sorte, Mauro Vieira foi poupado de postos menos importantes. Já foi logo nomeado para Buenos Aires e depois Washington, que são considerados os melhores lugares da diplomacia brasileira.

Difícil lembrar marca importante que ele tenha deixado na passagem pelas duas embaixadas. A relação comercial entre Brasil e Estados Unidos tem sido deficitária para nós, não há qualquer avanço notável em acordos, setoriais que seja, e nenhum dos ruídos entre os dois países foi removido. É torcer para que ele surpreenda.

Na categoria persistir no erro está a ministra Izabella Teixeira. Ela é avaliada pelos ambientalistas como a ocupante do cargo nos governos petistas que teve o pior desempenho. Em seu período, houve redução do tamanho das áreas de conservação, o menor índice de criação de novas áreas desde o governo militar e uma inversão da curva de desmatamento.

A escolha de Aldo Rebelo para o Ministério da Ciência e Tecnologia será um atraso em áreas em que estamos atrasadíssimos, como ciência, tecnologia e inovação. Ele pode ter se arrependido do projeto de proibir inovações que reduzissem emprego, mas é recente sua declaração pública de não acreditar que as mudanças climáticas sejam, como sustentam os cientistas da ONU, resultado da ação humana. Juntos, Rebelo e Izabella podem levar o Brasil a uma situação constrangedora em Paris, no fim do ano, quando o mundo terá a mais decisiva reunião do clima.

Na Controladoria-Geral da União, a presidente optou por Valdir Simão, que era braço direito do ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Deveria ter buscado alguém independente que pudesse confirmar a ideia de que Dilma combaterá a corrupção. Ficou o temor de que a Controladoria será controlada pelo governo.

O Ministério é enorme e fraco. A área econômica para fazer o ajuste fiscal terá que tocar em temas sensíveis. Estará cercada de colegas que não têm qualquer compromisso com esse ajuste. Missão difícil.

Zuenir Ventura - Pra vaca não ir pro brejo

- O Globo

Já que foi a própria presidente que escolheu a imagem - talvez por identificação com o universo rural de sua afilhada de casamento Kátia Abreu - vamos continuar com ela. Como se recorda, a candidata Dilma assegurou que não mexeria nos direitos trabalhistas e, para não deixar dúvida, repetiu uma expressão popular que acabou invadindo de forma viral as redes sociais - "nem que a vaca tussa" - e com a hastag #em direito meu ninguém mexe. Um sucesso, pelo menos até depois das eleições, quando um dos primeiros anúncios de controle de gastos para garantir o ajuste fiscal foi justamente restringir benefícios dos trabalhadores tais como seguro-desemprego e abono salarial. A presidente teria resistido muito a essas medidas, mas não houve jeito. São tempos de vacas magras, poderá ter-lhe dito a equipe econômica, quem sabe. Ou, então, o mar não está pra peixe, como afirmaria o jovem ministro da Pesca, Helder Barbalho, um dos sapos que ela teve que engolir - sapo ou rã?

Por meio de artifícios semânticos no discurso de posse, a presidente procurou disfarçar as dificuldades que vai enfrentar no segundo mandato. Em vez de detalhar o que pretende fazer para tentar a retomada do desenvolvimento econômico, por exemplo, repetiu a defesa da Petrobras, não para uma autocrítica de seu governo, mas para exaltar o seu combate à corrupção, atribuindo os escandalosos desvios praticados na estatal a "alguns servidores" e a "predadores internos e inimigos externos". É como se a Dilma de agora não fosse uma herança da Dilma dos últimos quatro anos, ou seja, como se Dilma não tivesse nada a ver com os problemas que Dilma criou.

"Mais do que ninguém, sei que o Brasil precisa voltar a crescer", disse ainda a presidente reeleita. "Os primeiros passos desta caminhada passam por um ajuste das contas públicas, aumento na poupança interna, ampliação de investimento e elevação da produtividade da economia." Da mesma maneira que prometera manter todos os direitos trabalhistas e previdenciários, ela garante que fará a correção e os acertos "com o menor sacrifício possível para a população, em especial os mais necessitados".

A presidente Dilma, como se viu, não conseguiu evitar que a vaca tossisse. Agora, terá que impedir que ela vá pro brejo.

Lula e a 'frente de esquerda' - O Estado de S. Paulo / Editorial

Publicado em 2/1/2015

Começa a tomar forma a articulação, estimulada explicitamente pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para aumentar a pressão dos ditos "movimentos sociais" sobre o governo de Dilma Rousseff. A mobilização de uma "frente nacional de esquerda", conforme noticiada pelo Estado, tem como objetivo denunciar o que esses movimentos veem como um avanço conservador dentro do Congresso e do próprio Palácio do Planalto. Assim, Lula recorre às alas mais predatórias dos chamados "progressistas" para tentar ditar a agenda de Dilma e da base aliada.

O que une esses grupos é um solene desprezo pela lei e pelas instituições que garantem a democracia, pois estas são vistas como obstáculos "burgueses" à realização de suas utopias autoritárias.
Estão lá, por exemplo, as alas mais radicais do PT. Uma delas, a Militância Socialista, manifestou durante as últimas eleições seu desencanto por ter chegado à conclusão de que o governo de Dilma é "refém das forças do atraso", e propondo, portanto, "radicalizar a democracia participativa em todas as esferas" - senha para a desmontagem da democracia representativa e para o aparelhamento total do Estado. A Militância Socialista defende que haja "unidade" entre os movimentos de esquerda para conter o "golpismo" contra Dilma e, principalmente, contra o PT - que, segundo essa corrente, deve disputar a "hegemonia na sociedade".

É esse, em outras palavras, o discurso que Lula vem fazendo nos últimos dias, em diversos pronunciamentos para os militantes petistas. Em um dos mais recentes, o ex-presidente disse que, se o PT quiser vencer a eleição presidencial em 2018 - em que Lula aparece como candidato natural do partido -, o atual governo terá de "reorganizar a base de alianças com setores mais à esquerda da sociedade".

Portanto, é com interesse puramente eleitoral, como é de seu feitio, que Lula demarca seu território, tentando cooptar grupos esquerdistas para, se e quando lhe for conveniente, contrapor-se a Dilma. Não é por outra razão que o ex-presidente citou até o PSOL e o PSTU, partidos radicais formados por dissidentes petistas.

É sintomático, portanto, que, à primeira reunião em que se discutiu a formação da tal "frente de esquerda", em São Paulo, tenham comparecido representantes do PSTU e do PSOL. Lula sabe que são partidos que não precisam de estímulo para infernizar a vida de Dilma - e, por tabela, a do País.
Mas é na presença de diversos grupos de baderneiros em geral que a "frente de esquerda" diz a que veio. Lá estão, entre outros, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), a Central de Movimentos Populares, o Levante Popular da Juventude, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, a Via Campesina e a Conlutas.

À frente desse sopão esquerdista está o já notório Guilherme Boulos, líder do MTST, talvez o principal nome da nova safra de arruaceiros que, graças à tibieza de alguns administradores públicos, conseguiram transformar a violência em um modo natural de fazer política.

Boulos foi o sujeito que, de uma só vez, obrigou a presidente Dilma Rousseff, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e a Câmara de Vereadores a ceder às suas chantagens. Para isso, bastaram seu poder de mobilizar algumas centenas de pessoas e uma estratégia de guerrilha que explorou a falta de pulso do poder público para fazer valer o que está escrito na lei contra quem invade terrenos. Em vez de ser punido, Boulos foi tratado como interlocutor legítimo para discutir reivindicações populares. Transformou a população em refém, desmoralizou as instituições do Estado e não pagou o preço da sua ousadia.

Não admira que a iniciativa de formar a "frente de esquerda" tenha partido formalmente de Boulos. Mas seria ingenuidade supor que seja ele o real responsável por essa mobilização. Por trás de Boulos, como já ficou claro, está Lula - que perdeu espaço dentro do governo e, preocupado com a perspectiva de ser derrotado em 2018, busca ter cacife para obrigar Dilma a fazer o que ele quer, nem que seja na marra.

Pior do que se poderia esperar – O Estado de S. Paulo / Editorial

O discurso de posse do segundo mandato de Dilma Rousseff perante o Congresso Nacional foi uma lamentável exibição de soberba, desrespeito à verdade e ao discernimento dos brasileiros e uma ducha de água fria para quem imaginava que, na hora de assumir a continuidade do comando de um país que deixou pior do que quando o recebeu quatro anos atrás, a chefe do governo tivesse um mínimo de humildade para estender a mão à metade do País que não lhe deu o voto, mas faz parte da unidade dentro da diversidade que compõe a Nação brasileira.

O que se viu assomar à tribuna do Congresso Nacional transformada em palanque no dia 1.º de janeiro foi a prepotência e o desapreço pelo contraditório democrático de uma presidente que, como o seu PT, se considera monopolista da virtude e defensora única dos fracos e oprimidos. Uma presidente e um partido que não se pejam de, contrariando a evidência dos números, das estatísticas e da própria lógica de sua estratégia de manutenção do poder, proclamar que em 12 anos eliminaram "a tragédia da fome", superaram "a extrema pobreza" e, de quebra, "apurou e puniu com tanta transparência a corrupção", como se isso dependesse apenas da vontade de Lula, Dilma & Cia. e não de instituições sólidas que a sociedade brasileira está aprendendo a construir. E, principalmente, como se o PT não tivesse tido a desfaçatez de promover a "guerreiros do povo brasileiro" seus dirigentes-delinquentes condenados no julgamento do mensalão.

O discurso de 40 minutos de Dilma parece ter saído direto do caldeirão de prodígios do marqueteiro a quem, em substituição ao Lula de 2010, coube o mérito de transformá-la em presidente reeleita. "Fui reconduzida para continuar as grandes mudanças do País e não trairei este chamado." "Este projeto de nação triunfou e permanece devido aos grandes resultados que conseguiu até agora." "É a inauguração de uma nova etapa neste processo histórico de mudanças sociais do Brasil."

Empolgada com um desempenho que imagina absolutamente prodigioso nos seus primeiros quatro anos de governo, Dilma não foi capaz de admitir sequer o menor erro entre os muitos que cometeu e dos quais a nação é testemunha, muito especialmente na área econômica e fiscal. Admitiu, no máximo, breves referências a "correção de distorções e eventuais excessos". Nem foi capaz, como seria absolutamente necessário diante da gravidade da situação, de cumprir satisfatoriamente o que prometera no discurso de diplomação: "O detalhamento das medidas que vamos tomar, para garantir mais crescimento, mais desenvolvimento econômico e mais progresso social para o Brasil".

Ao invés de esclarecer, confundiu, contrariando a equipe que nomeou para botar ordem nas contas do governo, gabando-se da redução da dívida líquida do setor público, obtida graças à "contabilidade criativa". Joaquim Levy e companheiros já deixaram claro - se Dilma permitir, é claro - que pretendem trabalhar com o conceito de dívida bruta, que traduz fielmente a realidade. Pior, Dilma não demonstrou o menor constrangimento ao garantir que sempre orientou suas ações "pelo imperativo da disciplina fiscal".

A retórica palanqueira, contudo, não obstante esmerada em arroubos de autoglorificação, não conseguiu evitar que a verdade transparecesse através das frestas da mistificação. "Mais que ninguém sei que o Brasil precisa voltar a crescer", cometeu a imprudência de admitir, assinando a confissão de que sob o seu comando o Brasil parou de crescer. Só faltou, como sempre fez, atribuir os fracassos de seu governo não à própria inépcia, mas a uma situação internacional adversa.

Mas Dilma não se poupou de, no melhor estilo petista, inventar inimigos imaginários que precisam ser combatidos: "Vamos, mais uma vez, derrotar a falsa tese que afirma existir um conflito entre estabilidade econômica e o crescimento social".

A fala presidencial é rica, enfim, em meias-verdades, inverdades inteiras, obviedades e platitudes, mistificação, preconceitos, retórica oca. Reflete, infelizmente para a Nação, o pouco que tinha a dizer. Para completar, Dilma apresentou-se como campeã da luta anticorrupção e disse pretender estimular "uma nova cultura fundada em valores éticos profundos". Como atribuiu a roubalheira na Petrobrás à ação de funcionários miúdos e a uma conspiração internacional, já se sabe o que virá.

Ajuste traz Dilma de volta à vida real – O Globo / Editorial

• Presidente terá de trabalhar para que as primeiras medidas do ajuste sejam aprovadas no Congresso e a oposição precisará refletir sobre o alcance de ações estratégica

Fazendo jus à fama de "ilha da fantasia", a Brasília da posse de Dilma Rousseff no segundo mandato patrocinou um evento sem sintonia com a realidade do país. O principal pronunciamento da presidente, perante o Congresso, passou longe do Brasil real, ao adotar um modelo de discurso palanqueiro, de campanha eleitoral. Por exemplo, quando, na série de autolouvações, proclamou a convicção da presidente "sobre o valor da estabilidade econômica, da centralidade do controle da inflação e a necessidade da disciplina fiscal (...)". Ora, se assim houvesse sido, Dilma não precisaria, no mesmo discurso, anunciar um ajuste nas contas públicas.

Também condizente com o estilo de campanha, o pronunciamento foi perpassado pelo cacoete petista típico de alimentar o confronto entre "nós" e "eles". Se a postura de estimular conflitos nunca é a melhor no exercício da política, a atmosfera se torna ainda mais pesada depois de uma eleição acirrada, da qual o PT saiu vitorioso por apenas três pontos percentuais. Nada que reduza a legitimidade da vitória, mas algo que não pode escapar da sensibilidade dos políticos.

A esperança é que Dilma tenha descido do palanque logo no dia seguinte à posse. Há um trabalho duro para recuperar o terreno perdido na estabilização econômica, no primeiro mandato, e ela é peça-chave na ação política com este objetivo. O trabalho até já começou, com a edição, nos últimos dias do ano, por medidas provisórias, de necessárias readequações nas normas de concessão de benefícios como pensões por morte, seguro-desemprego etc. Faz tempo benefícios previdenciários e seguros precisavam ser reordenados, mesmo que não houvesse a premência do ajuste fiscal.

Com regras irreais, inexistentes mesmo em países ricos, gastos do INSS, por exemplo, crescem exponencialmente em relação ao PIB. De 1991 a 2015, as despesas totais previdenciárias terão escalado cerca de cinco pontos percentuais do PIB.

A luta para aprovar essas MPs no Congresso, essenciais para o ajuste, com uma redução estimada de R$ 18 bilhões em gastos, trará a presidente para as dificuldades da vida real, com os embates que serão travados em torno das medidas.

No lado da oposição, prenuncia-se uma guerra ao governo nos moldes do radicalismo do PT quando estava fora do poder. Ora, o PSDB sabe que o ajuste é necessário e precisará distinguir o que se trata de ação política oposicionista de sabotagem contra os interesses da nação. Entende-se que o baixo nível da campanha eleitoral, muito devido ao PT, deixou marcas. Mas elas precisam ser superadas quando estiverem em debate temas estratégicos como este. E virão outros, contrários a interesses de corporações e grupos abrigados na base do governo. Será um equívoco se o PSDB e aliados se juntarem ao que há de mais retrógrado no Congresso, à esquerda e à direita.

Aliás, os tucanos sabem do que se trata, pois apoiaram Lula nas alterações feitas na previdência do funcionalismo público, em 2003.

Outras intenções – Folha de S. Paulo / Editorial

• Discurso de posse de Dilma Rousseff aponta para novas prioridades, num quadro em que é reduzida a margem de manobra na economia

Suscita alguma frustração o discurso feito por Dilma Rousseff (PT), na quinta-feira (1), ao tomar posse em seu segundo mandato como presidente da República.

Não foram atendidas as expectativas de quem aguardava, em especial depois da nomeação da nova equipe econômica, o anúncio de medidas concretas para enfrentar a inflação e ampliar a transparência das contas públicas.

Admita-se que a ocasião não permitiria grandes mergulhos no detalhamento técnico, ainda mais em se tratando de providências impopulares no curto prazo. Mesmo assim, parece ter faltado à presidente a disposição para marcar com firmeza uma mudança de rumos cuja necessidade, na prática, o novo ministério reconhece.

Bem ao contrário, a maior parte das declarações de Dilma no campo da economia caracterizou-se por um espírito de comemoração próximo do que se transmitia durante a campanha eleitoral e alheio à dura realidade do país.

Verdade que, do ponto de vista retórico, a situação da presidente não lhe trazia facilidades. Não haveria como renegar o que se fez ou deixou de fazer até aqui; não haveria como insistir no que, tacitamente, admite-se ter sido equivocado.

Diante do relativo impasse, que se resume no propósito de empreender ajustes sem sacrifícios, foi necessário que o discurso dilmista procurasse outros pontos capazes de dar uma direção simbólica aos próximos quatro anos.

Lançou-se então o slogan, algo reminiscente dos anos 1970, da "pátria educadora". Descontado o que tenha de rigidez verde-amarelista, ou mesmo seus traços de palmatória cívica, o lema possui a qualidade de dar à questão do ensino a devida prioridade --ao menos no plano das palavras, sempre mais fácil do que no das ações.

Talvez também faltem ações para levar adiante a renovada e sempre vaga promessa de empreender uma reforma política. Note-se, de todo modo, que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), foi ainda mais enfático do que Dilma na admissão de sua urgência.

Somou-se a esse conjunto de intenções o anúncio de um sucinto pacote anticorrupção. Três pontos, portanto --investimentos em educação, reforma política e defesa do patrimônio público--, que podem ocupar a Presidência num período em que a margem de manobra econômica é muito pequena.

Serão suficientes? Serão minimamente levados adiante? A dificuldade do governo para a autocrítica e para romper seus compromissos com a fisiologia, a corrupção e a arrogância do PT e seus aliados não autorizam grande otimismo; mas nada indica que, da parte de Dilma Rousseff, não seja sincero o empenho em corresponder às promessas de seu discurso.

Dilma toma posse sem dar sinais claros de mudanças – Valor Econômico / Editorial

Não houve indicações decisivas nos discursos da presidente Dilma Rousseff, ontem, de que em seu segundo mandato a política econômica será substancialmente diferente em relação à do primeiro. A presidente fez fortes pronunciamentos políticos e entre seus pontos principais se destacaram a manutenção e ampliação dos programas sociais, ações mais integradas de segurança pública, investimentos na infraestrutura e foco na educação. A escolha do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, trouxe a promessa de que o governo abandonará a "nova matriz econômica", sancionada por Dilma. Nos discursos, porém, Dilma passou correndo pelas "correções" a serem feitas.

Em pronunciamento no Congresso, Dilma defendeu a herança do primeiro mandato no campo da economia. "As mudanças que o país espera para os próximos quatro anos dependem muito da estabilidade e da credibilidade da economia. Isso, para nós todos, não é novidade", disse Dilma. "Sempre orientei minhas ações pela convicção sobre o valor da estabilidade econômica, da centralidade do controle da inflação e do imperativo da disciplina fiscal, e a necessidade de conquistar e merecer a confiança dos trabalhadores e dos empresários".

Dilma declarou que "o respeito a esses fundamentos econômicos nos permitiu colher resultados positivos", apesar do ambiente internacional de "extrema instabilidade e incerteza". Entre esses resultados positivos, citou os números do desemprego, das reservas, da dívida pública líquida e dos investimentos estrangeiros, apontando, além disso, que a inflação ficou abaixo do teto da meta durante todo o seu primeiro mandato.

O tom dos discursos, tanto no Congresso como no parlatório, deixou no limbo a situação de fragilidade da economia e do sacrifício que será necessário para que ela retome seu vigor, e que, em uma rara menção, Dilma disse crer que será "o menor possível". Seria de se esperar que a presidente pedisse aos parlamentares que a auxiliassem na tarefa de conter gastos e colocar as contas públicas em ordem, já que o Congresso, afinal, tem enorme poder de criar despesas. Nada foi dito sobre isso, mas muito sobre mais gastos: ela anunciou a terceira versão do Minha Casa, Minha Vida, a terceira edição do Programa de Aceleração do Crescimento, a segunda edição do Programa de Investimentos em Logística, além dos programas necessários para sustentar seu slogan do segundo mandato, "Pátria Educadora", e outros mais na área da saúde.

Assim como o governo, pelo menos no discurso da presidente, não parece ter constrangimentos fiscais; os ajustes que serão feitos não terão efeitos negativos sobre o povo. No Congresso, Dilma disse que o ajuste pode ser feito sem "trair compromissos sociais assumidos" - uma resposta à artilharia da oposição, que a acusa de ter rasgado as promessas de campanha. Para o público, no parlatório, ela foi explícita e panfletária: "Nenhum direito a menos, nenhum passo atrás, só mais direitos e só o caminho à frente. Esse é meu compromisso sagrado, que faço a vocês nessa praça".

Embora essas não sejam exatamente orientações que deixem tranquilos ministros da área econômica às vésperas de decisões difíceis e, tomadas em seu sentido amplo, lhes restrinjam as opções, a mudança de política econômica planejada por Joaquim Levy e Nelson Barbosa poderá seguir em frente, se a presidente, como fez Lula com Antônio Palocci na Fazenda, blindar com seu poder as ações dos ministros. A dúvida que persiste, e não foi dirimida ontem, é a de até que ponto os novos titulares da Fazenda e Planejamento terão o apoio de Dilma.

Dilma fez também uma investida onde a oposição a vê na defensiva: escândalos de corrupção. Ela foi específica ao mencionar pacote de cinco medidas que se comprometeu durante a campanha a submeter ao Congresso, que agilizam investigações e processos de corrupção, e ampliam punições. Propôs um "grande pacto nacional contra a corrupção", que deve se encerrar na retórica e diz que está sendo implantada na Petrobras "a mais eficiente e rigorosa estrutura de governança e controle que uma empresa já teve no Brasil".

Com maior ou menor ênfase, Dilma se referiu aos dois fatores que deverão definir o sucesso ou fracasso de seu governo: as mudanças na economia, sobre as quais não foi taxativa, e o "Petrolão", cujos explosivos desdobramentos políticos são imprevisíveis.

Alceu Valença e Zé Ramalho - Coração Bobo

Vinicius de Moraes - O verbo no infinito

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer de tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Opinião do dia - Antônio Imbassahy

"Assistimos hoje a posse de uma presidente desacreditada, desorientada e sem foco. Como um náufrago, apelou a pedidos de apoio, certamente antevendo as consequências de problemas criados por ela mesma – Parece patológico ela agora falar em corrigir erros na Petrobras e reconhecer tardiamente que a empresa foi assaltada, como se não tivesse ela própria participação e responsabilidades relevantes nos últimos 12 anos da vida da estatal.

Ao dizer que alguns servidores causaram o escândalo da Petrobras, finge esquecer que participou de todas as decisões, primeiro como ministra de Minas e Energia, depois chefe da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da estatal e, por fim, como presidente da República. Quem nomeou os comandantes da organização criminosa que se apoderou da Petrobras foram ela mesma e Lula.

Justamente aqueles que sofreram alterações desastrosas em sua primeira canetada após a eleição. Nem ela mesma acredita naquilo que diz, como indicou a leitura sem entusiasmo de um discurso artificial e carente de conteúdo, mais uma vez elaborado por seu marqueteiro. É um discurso dissonante do Brasil real, ambíguo e com sinais de que o banqueiro-ministro terá ações limitadas. Quem ainda tinha esperança do suposto governo novo com ideias novas certamente teve a sua definitiva frustração."

Antônio Imbassahy (BA), líder do PSDB na Câmara, criticou os apelos por apoio feito pela presidente Dilma Rousseff em seu discurso de posse.