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Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
sexta-feira, 13 de março de 2015
Impeachment fortalece o PT, diz Giannotti: Entrevista
Fernando Gabeira - Domingo é dia
• Queria ver o espanto do PT quando descobrir que o problema não o choque ricos x pobres
- O Estado de S. Paulo
Se em três meses de governo Dilma já enfrenta uma crise de credibilidade, com vaias e panelaços, o que imaginar para quatro anos de governo? Em outras palavras: é possível perguntar pela saída num túnel tão longo e agitado?
Se fosse cirurgião político e a crise fosse um corpo humano, minha proposta seria desconectar alguns nervos que entrelaçam economia e política. Isso é quase impossível. Mas não deixa de ser a tarefa correta. Se a crise política continuar interferindo na frágil situação econômica, será mais longo o caminho da retomada, todos sofreremos mais.
O cenário ideal seria aquele em que o Congresso Nacional discutisse as medidas econômicas de manhã e, ao longo do dia e da noite, quebrasse o pau em torno da política, sobretudo da corrupção. Esse idealismo esbarra em obstáculos intransponíveis, como a divergência entre quem manda no Congresso e quem manda no governo.
Na discussão econômica, não seriam escamoteadas as questões políticas. Estamos cortando os gastos de forma adequada? Quais são as correções necessárias no movimento da tesoura?
Quem apenas torce pela recuperação econômica tem medo de que as teses do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sejam contestadas e prefere não apontar correções. Mas elas podem enriquecer o estreito caminho.
Os cortes terão de ser feitos por um governo de esquerda, é o que temos no momento. Na Grécia, a esquerda chegou ao poder com um projeto de rever o plano de austeridade. Aqui, ela ainda precisa reverter a gastança. É uma etapa anterior, para a qual está pouco preparada.
Mesmo se conseguirmos isolar, parcialmente, a economia, é impossível acreditar que Dilma iria muito longe. O desgaste cotidiano, acabará reduzindo seu horizonte.
A conjugação das crises política, econômica e social é uma das mais sérias que conheci nos últimos anos. Dilma acha que não, que estamos exagerando.
Ela afirma que o aumento no preço da energia se deve à seca e omite seus equívocos. Ela diz que a Petrobrás foi assaltada, mas não consegue vislumbrar, pelo menos no seu discurso, como se produziu esse assalto.
Dilma não reconhece as mentiras da campanha. E acredita que as pessoas vão esquecer-se delas com um pouco de manipulação marqueteira.
O PT não reconhece o direito legítimo de protestar contra o governo. Prefere atacar os que protestam: são ricos, são da classe média, burgueses manipulados pela imprensa golpista.
A tática da negação e do confronto alimenta os protestos. É possível que alguém deles saiba disso. Saber alguma coisa dentro do PT é extremamente perigoso. Seguir a cartilha é mais seguro.
Nesse quadro, não vejo outro caminho a não ser uma crise prolongada. Sem capacidade de autocrítica e conciliação, Dilma marcha para uma rejeição mais ampla nas pesquisas.
A manifestação de domingo, com o tema "Fora Dilma", é uma tentativa de desatar um dos grandes nós da crise: a incapacidade da presidente mais despreparada do período democrático para liderar o processo mais difícil que o Brasil enfrentou nesses 30 anos.
Os teóricos do PT afirmam que a saída de Dilma é um golpe, pois foi eleita para governar até 2018. Nem toda saída é um golpe. Collor, com a ajuda do próprio PT, sofreu impeachment. No período anterior à democratização, Jânio simplesmente renunciou.
Os tucanos rejeitam a tese do impeachment. Não gostam de conflito. Nem os previstos na lei. Argumentam que a sustentação política do governo sofreu um colapso. E mencionam vagamente uma abertura para a sociedade.
Impeachment e renúncia são diferentes de golpe. Intelectuais ligados ao governo têm falado de um ódio contra o PT. De fato, os ânimos se exaltaram. Fala-se de um ódio contra o PT, como se o partido fosse de anjos imaculados. Ninguém analisa o comportamento dos seus quadros no governo ou tenta entender as causas da rejeição.
Segundo alguns deles, o ódio dos ricos existe porque os pobres consomem mais, vão às universidades e viajam de avião. Em outras palavras, a razão do ódio é a nossa virtude solidária.
O máximo que conseguem é isto: circunscrever o processo à oposição ricos e pobres. Se os ricos estão protestando, os pobres deveriam celebrar.
As lentes da ideologia queimam muitos neurônios. Eles supõem que os pobres são ressentidos e darão razão a qualquer governo ao qual os ricos se oponham.
São incapazes de reconhecer a importância do ajuste econômico e apresentar, dentro dele, um viés que realmente atenue o impacto negativo nos setores menos favorecidos. Um programa de cortes teria mais credibilidade se envolvesse alguns gastos do governo, passando pela publicidade, pelas viagens irracionais, pela demissão em massa dos companheiros agregados à máquina do Estado.
Dilma não tem condições de enfrentar a crise. Os intelectuais perderam-se na defesa do governo, foram atropelados, como tantos na História, pelo fascínio da chapa branca.
Não há dentro do PT a energia suficiente para pensar uma saída. Apenas reflexos defensivos, baseados nos instintos mais básicos da esquerda autoritária. Essa estrutura mental, que projeta nos outros a causa do próprio fracasso, é um dos pontos que me deixam pessimista em torno de um diálogo quando a crise for sentida como insuportável.
O PT acredita que está sofrendo uma conspiração dos ricos e da classe média. Mas poucos movimentos na História fizeram tantos líderes ricos e elevaram tantos militantes à classe média.
O problema do momento não é o choque de ricos contra pobres. Gostaria de ver seu espanto quando descobrirem isso. Ou, pelo menos, constatarem que existem milhões de ricos no Brasil.
Domingo ainda não vai revelar tudo. Mas será uma espécie de passagem de ano, um réveillon político de 2015.
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*Fernando Gabeira é jornalista
Merval Pereira - Congresso contra Executivo
- O Globo
As ameaças que os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, estão fazendo ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, são repetições da estratégia que já foi adotada pelo senador Fernando Collor, que também está na lista de investigados, contra o antecessor de Janot, Roberto Gurgel.
Desqualificar o procurador é uma defesa barata, e ameaçar boicotar sua eventual candidatura à recondução ao cargo e até mesmo usar os poderes do Senado para destituí-lo são um abuso de poder em causa própria que não pode ter o apoio da sociedade. A defesa da corporação sempre foi o que de melhor o Eduardo Cunha soube fazer desde antes de sua campanha para a presidência da Câmara. Ele é visto como o protetor dos parlamentares, aquele que vai dar autonomia à Câmara. Dizer que a culpa é do Executivo e que o Palácio do Planalto quer jogar a crise no colo do Congresso fazem parte de posição de defesa, assim como desqualificar o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. O grande problema para a aliança governista é que, nessa linha, o Congresso continua contra o Palácio do Planalto. O fato de Eduardo Cunha ontem na CPI ter dito que Janot fez política não tem a menor importância, porque quem vai decidir isso é o Supremo Tribunal Federal, e as investigações mostrarão quem tem culpa no cartório.
Mas enquanto ele tiver que atacar o Executivo para se defender, o Palácio do Planalto está com um problema. A briga entre o PMDB e o governo permanecerá, a crise vai se estender enquanto as investigações prosseguirem, e vão demorar bastante, numa visão otimista até o fim deste ano no mínimo. O PT, que fez elogios a Cunha através de seu líder Sibá Machado, vai ficar entre a cruz e a caldeirinha. O elogio ontem foi até certo ponto , pois teve que discordar de Cunha quanto à responsabilidade ser "do outro lado da rua" , isto é, do Palácio do Planalto . Fiel defensor do PT, mas um político nada brilhante, Sibá Machado ter á dificuldades de se equilibrar nessa linha tênue que separa sua fidelidade ao partido da solidariedade com os aliados acusados na Operação Lava-Jato. Já Eduardo Cunha trafega com tranquilidade por essas águas turvas, pois já percebeu que para se defender tem que defender sua corporação e atacar o Executivo.
Está longe a fórmula que pacifique o PMDB e o Palácio do Planalto. O próprio presidente do Congresso, Renan Calheiros, segue a mesma linha. Fez o acordo para a aprovação da nova ta bela do Imposto de Renda diretamente com o ministro da Fazenda Joaquim Levy e logo em seguida criticou o governo, dizendo que ele "envelheceu" e que o acordo foi feito graças ao Congresso. A aliança partidária está sob crítica permanente do PMDB, que quer mais espaço nas decisões e não sossegará enquanto não obtiver. Mas se se convencer de que o governo realmente envelheceu com menos de três meses, o PMDB se afastará cada vez mais. Tanto Renan Calheiros quanto Eduardo Cunha precisam fechar acordos dentro do Congresso, e não com o governo. Porque se não tiverem o apoio da corporação, acabarão sendo pressionados para renunciar às presidências que exercem.
Na verdade, essa deveria ser a atitude correta dos investigados, e alguns deputados já deixaram as comissões em que atuavam justamente por não encontrar em ambiente para continuar atuando enquanto estão sob o crivo da Justiça. A linha de defesa que escolheram, afirmando que a lista do procurador Janot tem conotações políticas, faz com que se protejam com o apoio do Congresso, e o PT é que vai ficar com dificuldades para tratar do assunto. O senador Renan Calheiros deu uma demonstração de força ao conseguir que o veto da presidente Dilma ao aumento de 6,5% da tabela do Imposto de Renda não fosse derrubado. A oposição, mais os dissidentes da base aliada, tiveram mais votos no plenário do que os governistas, mas não o suficiente para derrubar o veto. Isso significa que o governo continua em minoria no Congresso, e dependendo cada vez mais da boa vontade de Calheiros e Cunha, o que é uma situação no mínimo desconfortável para o Palácio do Planalto
Eliane Cantanhêde - Caçada ao mordomo
• Tanto quanto Mantega, Mercadante é só o mordomo da história
- O Estado de S. Paulo
O poder é assim: quando as coisas vão bem, todo mundo é amigo, mas, quando vão mal, vira um empurra-empurra, começa uma caçada ao culpado. E o culpado, agora, não pode ser nem a presidente Dilma Rousseff nem o ex-presidente Lula.
O "culpado" pela crise econômica foi o ministro da Fazenda do primeiro mandato, Guido Mantega, demitido em plena campanha de 2014 e amarrado artificialmente à cadeira tal qual um El Cid tupiniquim.
Começa-se agora a desenhar o "culpado" pela crise política: ele tem um bigodão, é petista desde criancinha, foi o senador mais votado do País na sua época, não teve nenhuma importância nos dois mandatos de Lula e tornou-se o todo poderoso do novo governo Dilma.
Sim, é ele, o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que está no centro da boataria e no alvo da artilharia petista e pemedebista nesses tempos de recuos nas medidas do ajuste fiscal e de depoimentos na CPI da Petrobrás, às vésperas da manifestação de domingo.
Em meio a tantas coincidências que andam acontecendo em Brasília (a última foi a reunião de quarta-feira entre Dilma e o ministro Dias Toffoli...), essa é mais uma: bastou Lula jantar com Dilma no Palácio da Alvorada para Mercadante cair na boca do povo. Os dois jantaram na terça. O zunzum da queda de Mercadante da articulação política ficou ensurdecedor na quarta.
E não venham dizer que não foi tão alto assim. Tanto foi que o Planalto, num gesto bem pouco usual, gastou energia e tinta numa nota desmentindo boatos e ratificando a posição de Mercadante. Em São Paulo, a muitos quilômetros de distância, o Instituto Lula também tratou de desmentir o que dez entre dez petistas dizem: que o ex-presidente vive falando mal de Mercadante.
O fato é que Dilma acabou anunciando, no Acre, que está finalmente ampliando o chamado "núcleo duro" do Planalto. Ou ela cedeu às evidências gritantes de que a articulação política não está funcionando ou cedeu às crescentes pressões, principalmente de Lula, para fazê-lo.
Como estava escrito nas estrelas (e aqui neste espaço), a entrada de Gilberto Kassab em campo era só uma questão de tempo. Ministro das Cidades, criador do PSD e com enorme jogo de cintura político, ele entra junto com dois outros ministros: Aldo Rebelo (PC do B), da Ciência e Tecnologia, e Eliseu Padilha (PMDB), da Aviação Civil.
Mercadante deve ficar confinado à coordenação administrativa dos ministros e fora das negociações com a Câmara e o Senado e, muito particularmente, com o PT e o PMDB. Sua passagem pela articulação política foi meteórica, além de desastrada.
O movimento de Dilma confirma também que o ministro oficial da área, Pepe Vargas, não é lá de muita valia e que o trio Mercadante, Rossetto e Berzoini é mais do mesmo e não leva Dilma a lugar nenhum. Especialmente com o Congresso em pé de guerra, comandado por um PMDB armado até os dentes e boa parte da tropa ferida pela Lava Jato.
Só falta alguém de bom senso dar um toque em Dilma de que o ministro da Defesa se transformar em porta-voz do PT, ou de qualquer partido, é um tanto esdrúxulo e pode atrapalhar seu desempenho na relação institucional com as Forças Armadas. Jaques Wagner é um bom político, mas deve se limitar a conselheiro de bastidores da presidente ou optar entre a função na Defesa e a ação no PT.
Por uma questão de justiça, porém, não é correto atribuir os erros estratégicos, os erros táticos, as derrotas na Câmara, os recuos no Senado e todas essas dificuldades a Mercadante. No mínimo, Dilma deveria saber, como Lula sabe, que Mercadante pode ter outras qualidades, mas é o homem errado na hora errada para negociar com petistas e pemedebistas - imagine-se com o resto da base aliada.
Tanto quanto Mantega, portanto, Mercadante é apenas o mordomo nesse enredo frenético de crises.
Hélio Schwartsman - Protestos e felicidade
- Folha de S. Paulo
Não vou participar nem das manifestações de hoje, de apoio crítico ao governo de Dilma Rousseff, nem das de domingo, que flertam com a ideia de despachar a presidente mais cedo para casa, mas fico feliz que elas ocorram.
A democracia, embora não esteja nos manuais, é necessariamente barulhenta e um pouco mal-educada. Acusar, xingar, propor "impeachment" (o PT cansou de pedi-lo quando era oposição), tudo isso é legítimo e faz parte do jogo. A falta só ocorre quando alguma parte recorre a saídas extraconstitucionais, o que ninguém está ameaçando fazer.
A razão para a barafunda é que a democracia não elimina o conflito entre diferentes facções políticas. Ela apenas procura discipliná-lo, de modo que a disputa pelo poder se resolva pela vias institucionais e não as de fato. De um modo geral dá certo, pois todas as correntes majoritárias vislumbram a possibilidade de um dia conquistar o Planalto. Paradoxalmente, crises econômicas se tornam bem-vindas nesse contexto, já que são um dos mecanismos mais efetivos para promover a alternância no poder, que é no fundo o que faz com que as democracias funcionem.
Com efeito, desde que restabelecemos a nossa, em 1985, não assistimos a revoluções, golpes e outras modalidades de ruptura violenta. Trinta anos não é muito, admito. Mas, em alguns países, o período de estabilidade proporcionado pela institucionalização das controvérsias chega a vários séculos, como é o caso dos EUA, do Reino Unido e da Sereníssima República de San Marino, cuja Constituição vigora desde 1600.
É claro que normalidade política não é tudo, mas é uma condição no mais das vezes necessária para que um país consiga aliar desenvolvimento econômico com um regime de liberdades, o que, por seu turno, permite aos cidadãos que se dediquem a buscar a própria felicidade. Na maioria das vezes não vão encontrá-la, mas o que vale é a jornada.
Luiz Carlos Azedo - Centrais sindicais vão às ruas por Dilma
- Blog do Azedo
Centrais sindicais vão hoje às ruas de 27 capitais em todo País contra a “ruptura democrática” e pela garantia dos direitos trabalhistas, movimento articulado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), organizadora dos atos, para se contrapor às manifestações convocadas pelas redes sociais para o próximo domingo.
Oficialmente, a CUT nega que os protestos sejam em defesa do governo, mas levanta a bandeira contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff e contra o suposto golpismo da oposição.
A pauta de reivindicações do ato é meio esquizofrênica: ataca o ajuste fiscal e exige maior interlocução com o Palácio do Planalto. Os atos contam com o apoio, em algumas capitais do país, do PT, do PCdoB e do PSOL. Com recursos da central, sindicalistas profissionais, empregados de estatais e funcionários públicos ligados ao PT, o protesto será uma típica manifestação chapa branca.
Mas isso não importa. O que mais interessa é saber se terá o apoio da maioria da sociedade ou não.
O mesmo vale para a manifestação de domingo, que é convocada por grupos oposicionistas que atuam nas redes sociais e está sendo apoiada pelos partidos de oposição.
Alguns desses grupos de ativistas das redes pregam o "Fora Dilma!" e o pedem o impeachment da presidente da República por causa do escândalo da Petrobras.
Confronto
O Palácio do Planalto teme que haja confronto nos atos desta sexta-feira entre ativistas de grupos como o Revoltados On Line, contrário ao governo, e manifestantes de sindicatos e movimentos sociais alinhados ao PT, o que poderia gerar combustível para as manifestações contra a presidente Dilma no domingo. Líderes do Revoltados alegam que haviam convocado seu protesto antes.
O governo tentou convencer os líderes sindicais a desmarcar a manifestação de hoje, mas era tarde demais. Os preparativos para as manifestações já estavam adiantados e o cancelamento dos atos pareceria não um recuo, mas uma debandada petista.
Marta Suplicy - É a política, estúpido!
- Folha de S. Paulo
A inquietação em São Paulo e os relatos que ouvi aqui em Brasília de fúria em pequenas cidades do Nordeste evidenciam que o ódio, a indignação e a impotência chegaram aos que não bateram panelas. Somem-se a isto a assustadora corrupção na maior empresa brasileira, uma presidente que insiste em afirmar que a crise é conjuntural e internacional, quando os indicadores mostram quanto a economia vem se deteriorando, além de teimar que as manifestações são da burguesia ou de quem quer terceiro turno. Resultado: apreensão quanto às manifestações de hoje e domingo.
O governo perdeu a iniciativa política e se enfraquece na sucessão de erros e trapalhadas. Este é o centro da questão, a chave do problema.
Enquanto o governo não mudar, de forma radical, sua linha política, nada se resolverá. É urgente e necessária uma total reestruturação do time responsável pela desastrada estratégia adotada neste início de governo.
Não gruda o Palácio chamar o panelaço de manifestação "Le Creuset" (marca de panelas gourmet). Nas periferias, a comida na mesa está diminuindo, o desemprego ronda, os alagamentos continuam constantes e começa a chegar a conta da luz 23% mais cara. A sensação de abandono é gigantesca. Todas as classes já perceberam a falta de sinceridade e explicações longe do real e demonstram, como podem, o desacordo com isso.
O governo Dilma e seu núcleo político não têm mais condições de continuar errando. Passou da hora de mudar a postura, construir um novo consenso, se é que é possível. É preciso reordenar as ações e o discurso. As pessoas que aí estão não têm mais autoridade, capacidade e nem condições de continuar. Comprometem o país, fazendo ruir por completo a legitimidade deste governo recém-eleito. Sabemos que não estão lá por acaso, pois em muito se assemelham à protagonista.
O que está em jogo é a governabilidade, a sobrevivência de um país que só encontrará a saída através do redirecionamento de sua orientação política e econômica. Do contrário, teremos o aprofundamento das dificuldades e continuaremos caminhando, a passos largos, para uma crise institucional sem precedentes.
Não há como continuar com uma equipe de governo que se distanciou, que quase rompeu com o Congresso Nacional e que, por seus vícios sectários e métodos excludentes, estabeleceu uma verdadeira ruptura com a vida nacional.
Uma coisa é certa, se não podemos trocar de comandante, em pleno voo de turbulências, o mínimo que podemos exigir é a troca imediata da equipe de comando. A começar pelo copiloto, responsável maior por ter traçado a desastrada rota de voo.
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Marta Suplicy, senadora (PT-SP)
Rogério Furquim Werneck - Um discurso que possa ser levado a sério
• Os erros colossais que Dilma vem tentando encobrir já são amplamente conhecidos. Só não os vê quem não quer
- O Globo
O aspecto mais preocupante do pronunciamento oficial da presidente Dilma, domingo passado, foi a teimosa insistência num discurso que já não tem como ser levado a sério. É desalentador que, a esta altura dos acontecimentos, o Planalto ainda não tenha notado que o discurso que agora se faz necessário é o que seja capaz de sensibilizar os segmentos mais informados da sociedade, que percebem com maior nitidez o que, de fato, está ocorrendo no país.
Já não faz nenhum sentido continuar brandindo os surrados argumentos fantasiosos a que Dilma se agarrava, na campanha eleitoral, para racionalizar as dificuldades que o país já vivia e dissimular a gravidade da crise que teria de ser enfrentada. A vertiginosa deterioração de popularidade e de imagem que vem sofrendo a presidente, desde a eleição, é evidência inequívoca de quão mais restrita se tornou a parcela da opinião pública que ainda pode ser manipulada pelo ilusionismo marqueteiro que continua a pautar o discurso do Planalto.
Dilma tem todo o direito de insistir na história de que as graves dificuldades com que agora se debate o país decorrem de um suposto agravamento da crise econômica mundial e da adversidade climática que se abateu sobre o Brasil. Mas não pode reclamar do efeito devastador sobre sua imagem que esse discurso enganoso vem tendo entre segmentos minimamente informados da população.
Prospera na cúpula do governo o argumento de que, na esteira da polarização que marcou a campanha presidencial, boa parte desses segmentos se tornou irremediavelmente hostis ao governo. Não tendo como angariar seu apoio, a presidente estaria obrigada a manter um discurso cada vez mais voltado para as camadas menos informadas da opinião pública.
Será um grave equívoco se o Planalto se deixar levar por tal desalento. Não se trata de reconquistar votos dos segmentos mais informados da população mas, sim, de conter a avassaladora perda de respeito pela presidente que vem sendo induzida pela sua insistência em alegações flagrantemente enganosas sobre as graves dificuldades que o país enfrenta.
A presidente precisa adotar um discurso que o país como um todo possa levar a sério. Para chegar a isso, o Planalto tem de controlar seu ímpeto mistificador, reconhecer erros passados e estar disposto a incorrer nos custos de dar o dito por não dito e pregar o contrário do que vinha propalando como certo. Não parece fácil, mas não lhe resta alternativa mais promissora.
Há poucos dias foi noticiado que o "excesso de sinceridade" de Joaquim Levy vem preocupando o Planalto. Faltaria ao ministro da Fazenda a capacidade de manter "um discurso de continuidade", compatível com o fato de que "estamos vivendo o quinto ano de mandato da presidente Dilma e não o primeiro ano da gestão Levy". ("O Estado de S.Paulo", 8/3)
A crítica bem ilustra o que vem sendo especialmente prejudicial ao governo: a preocupação permanente em encobrir os desastrosos equívocos cometidos no primeiro mandato. Uma preocupação que não é só de Dilma. Há que se ter em conta que boa parte dos responsáveis por tais equívocos continua no governo.
Se atribuir importância excessiva à vã tentativa de dissimular os estragos provocados por sua lamentável atuação no primeiro mandato, a presidente poderá acabar botando a perder seu segundo governo. Já é tempo de Dilma perceber que é tentar tapar o sol com a peneira. Os erros colossais que vem tentando encobrir já são amplamente conhecidos. Só não os vê quem não quer. É hora de reconhecê-los, aguentar o tranco dos custos políticos remanescentes que esse reconhecimento possa acarretar e limpar o terreno para o segundo mandato.
Visto dessa perspectiva, o "excesso de sinceridade" de Joaquim Levy talvez seja exatamente o que falta ao governo para deixar de lado a mistificação e, afinal, adotar um discurso econômico que possa ser levado a sério. Mas terá Dilma convicção e respaldo político para dobrar a aposta em Levy? Ou continuará tentando descer a corredeira com um pé em cada canoa?
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Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio
PPS lamenta morte de Armênio Guedes
Assessoria do PPS
O presidente nacional do PPS, Roberto Freire, divulgou nota nesta quinta-feira lamentando a morte do jornalista e militante histórico do PCB Armênio Guedes, ocorrida na noite de ontem. Leia abaixo a íntegra da nota:
Perda de uma das melhores cabeças políticas do Brasil
Em meu nome pessoal, e em nome do Diretório Nacional do Partido Popular Socialista, comunico o falecimento do querido companheiro Armênio Guedes, ontem, na cidade de São Paulo. O velório acontece até às 15 horas desta quinta-feira no cemitério do Araçá. Em seguida o corpo segue para o crematório da Vila Alpina. Nossos mais sentidos e fraternos pêsames à sua dedicada companheira Cecília Comegno e a todos os seus familiares.
Exemplo de político dedicado às grandes causas da humanidade, sempre antenado diante do novo, sem nunca se deixar dominar por dogmatismos, este baiano de Mucugê, na Chapada Diamantina, iria completar, no dia 30 de maio próximo, 97 anos de existência, 75 dos quais dedicados à ininterrupta atividade política.
Reconhecido por todos que militaram com ele, desde os anos 1940, como uma cabeça política privilegiada, é também considerado como uma das figuras que mais influenciou na orientação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) durante várias décadas, sobretudo dos anos 1960 aos anos 1980, particularmente na elaboração de dois documentos históricos do PCB - a Declaração de Março de 1958 e a Resolução Política do VI Congresso Nacional, em 1967.
Com uma visão aberta, ampla, apaixonado por sua luta indormida cujo centro era a conquista de uma sociedade democrática, republicana e de desenvolvimento econômico, social e cultural, Armênio deixou o legado de uma correta visão de uma esquerda democrática e reformista para todos os que o conheceram, pessoalmente ou por intermédio de suas ricas contribuições teóricas, como muitos dos que fazem o PPS.
Armênio Guedes, presente!!!
Brasília, 12 de março de 2015
Deputado federal Roberto Freire
Presidente nacional do PPS
Luiz Sérgio Henriques - Armênio Guedes (1918-2015)
- Gramsci e o Brasil
Faleceu ontem em São Paulo (11/03/2015), aos 97 anos, Armênio Guedes, dirigente histórico do antigo Partido Comunista Brasileiro e presidente de honra da Fundação Astrojildo Pereira. Baiano de Mucugê, criado em Salvador e tendo passado por sua Faculdade de Direito, que abandonou pouco antes de se formar, Armênio participou de uma geração brilhante de políticos e intelectuais democráticos e de esquerda, entre os quais João Falcão, Aydano Couto Ferraz, Jorge Amado, Edson Carneiro, Carlos Marighella e muitos outros.
Tendo aderido ao PCB nos anos 1930, sob a inspiração do antifascismo, Armênio guardou desta experiência original a marca das posições de frente com os adeptos do pensamento liberal, que carregou mesmo nos momentos de maior sectarismo do comunismo brasileiro e internacional. Assim, logo depois do célebre XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, que denunciou os crimes que haviam acompanhado a construção do socialismo de Estado sob a direção de Stalin, Armênio esteve entre os que mais se empenharam, no PCB, por uma profunda revisão de métodos, que atualizasse a teoria e a prática dos comunistas brasileiros.
Não por acaso, Armênio participa da redação do “Manifesto de Março de 1958”, ao lado de outras personalidades com pensamento mais ou menos próximo do seu, como Luiz Carlos Prestes, Giocondo Dias e Jacob Gorender. Este “Manifesto”, ao destacar de modo inovador a importância da “questão democrática”, ao lado da “questão nacional”, assinalou uma mudança de rumos na cultura dos comunistas, em direção à plena incorporação, que se daria nos anos seguintes, dos métodos da democracia política e sua valorização acima de qualquer ambiguidade.
Se não foi suficiente para impedir açodamentos e equívocos na grande e terrível crise de 1964, o “Manifesto de 1958” forneceu instrumentos para a política de resistência pacífica e legalista do PCB ao regime ditatorial, uma política que teve Armênio como um de seus defensores mais destacados e coerentes. Armênio, então no estado da Guanabara, era a referência para o trabalho partidário tanto com os jovens intelectuais, quanto com a velha “classe política”, que a seu modo se opunha tenazmente ao regime, e as novas lideranças que surgiam no interior do MDB e do movimento democrático em geral. Aqui, seu nome deve ser permanentemente lembrado ao lado de singulares personalidades do comunismo brasileiro, como Luiz Inácio Maranhão Filho, Giocondo Dias, Marco Antônio Tavares Coelho, Salomão Malina, João Massena e outros dirigentes com clara visão política dos problemas e perspectivas postos pela “frente democrática” contra o regime militar.
No início da década de 1970, Armênio foi forçado a se exilar no Chile de Allende, depois de ser identificado e abordado por agentes da CIA no Brasil. Neste Chile que buscava um caminho democrático para o socialismo, teve continuidade a trajetória de Armênio, ponto de união entre exilados de diferente formação política e cultural. A sangrenta derrubada de Allende, em 1973, marcou nova parte do percurso de Armênio no exílio, já em linha com os mais arrojados políticos e teóricos que se afastavam da ortodoxia soviética, como é o caso do Partido Comunista Italiano e de dirigentes da estatura de Antonio Gramsci, Palmiro Togliatti e Enrico Berlinguer.
Deste último, aliás, Armênio assimilou plenamente, e até o final de sua vida, a ideia de que a democracia política, antes de ser “burguesa”, como afirmava a ortodoxia, era na verdade um “valor universal”, de que as classes subalternas não podiam mais abrir mão, sob o risco de reproduzirem novas experiências autoritárias ou totalitárias, como as do chamado “socialismo real”.
A derrocada da União Soviética e deste tipo de socialismo encontrou Armênio firme e sereno em suas convicções reformistas. Uma palavra — reformismo — que fez questão de reabilitar em diversas intervenções públicas, afirmando explicitamente, por exemplo, que “[...] a Revolução de Outubro, que por tanto tempo nos serviu de modelo, deve ser considerada a última revolução do século XIX. E a ‘revolução democrática’ dos nossos dias, quer dizer, os modos de se desenvolver a luta revolucionária depois do ‘grande ato metafísico de Outubro’, está rigorosamente por ser inventada”.
A vida luminosa de Armênio Guedes, que acompanhou a parábola da experiência soviética e dos comunistas brasileiros, acaba por se confundir com as esperanças de renovação do pensamento e da prática da esquerda, na perspectiva de uma mudança social que reforce simultaneamente os espaços de liberdade de cada indivíduo e a trama plural de uma comunidade baseada nos valores da solidariedade e da fraternidade. Armênio Guedes continuará a ser um dos pilares desse tipo de concepção e de luta por um socialismo reconciliado com a democracia — algo, como sabemos, rigorosamente a ser inventado, para usar suas próprias palavras.
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Luiz Sérgio Henriques, ensaísta, tradutor, um dos organizadores das Obras de Antonio Gramsci no Brasil. É vice presidente da Fundação Astrojildo Pereira (FAP.
Armênio Guedes - Resolução Política do CE da Guanabara do PCB (março de 1970)
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| Armênio no Programa do Jô |
Apresentação
Em 1970, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) vivia um momento de grandes dificuldades políticas. E não era diferente a situação dos comunistas da antiga Guanabara, cujo Comitê Estadual havia sido eleito em 1967, na conferência preparatória do VI Congresso do Partido.
A derrota do movimento de massas em 1968/69 e a promulgação do AI-5, que liquidou os últimos restos de liberdades existentes no país após o golpe de 1964, colocaram as correntes políticas e o movimento operário e popular perante uma situação nova e complexa. As formas de luta e de organização que as forças democráticas deviam adotar a partir de posições necessariamente defensivas, de resistência, impostas por derrotas sucessivas após 64 e principalmente no período que se seguiu ao insucesso político de 68, nem sempre foram assimiladas com a rapidez que a situação do país exigia. Faltaram para isso a todas essas organizações – e entre elas o PCB – lucidez e agilidade políticas.
Muitos – pessoas e organizações –, levados pelo desespero e pela falta de perspectiva, se deixaram arrastar, com base numa análise falsa, para as posições da luta armada e do uso indiscriminado da violência, como formas únicas e exclusivas de ação política no combate para liquidar a ditadura. A um tal comportamento não estiveram alheios militantes e setores do PCB, que posteriormente dele se desligaram.Em 1970, apesar da condenação do VI Congresso ao "foco guerrilheiro" e a outras formas de luta que não apresentavam caráter de massa, ainda tinham influência nas fileiras do PCB muitas das idéias defendidas pelos "foquistas". Parcialmente influenciados por tais idéias, muitos membros do PCB vacilavam em realizar esforços para reconstruir o movimento de massas e, assim, colocar em prática a linha de resistência ao processo de fascistização do país, executado pelo regime mais abertamente após a adoção do AI-5. Essa não era certamente uma tarefa simples nas condições de repressão e terror então existentes; mas era o único caminho possível e viável para a resistência e o gradativo avanço das forças democráticas.
Foi para reagir a esse momento de dificuldades e confusões que a Comissão Política do CE da Guanabara decidiu lançar o documento de março de 1970. Tratava-se, de um lado, de um esforço para colocar em prática a linha aprovada pelo VI Congresso; e, de outro, para dar continuidade à tradição do Partido no Estado de ligação com as massas e de alianças com um amplo arco de forças democráticas e liberais.
Para a elaboração do presente documento, de minha autoria, foi decisiva a participação que pude ter nas discussões realizadas no interior da Comissão Política do CE, integrada também, entre outros, por Élcio Costa e João Massena de Mello, ambos eliminados pela ditadura durante os anos da repressão sangrenta de 1974/76. Depois de elaborado, o documento foi aprovado por unanimidade na Comissão Política e no Comitê Estadual, praticamente sem qualquer emenda.
Ao republicá-lo hoje, é relevante observar que algumas das teses nele defendidas só seriam levadas em consideração pela direção nacional do PCB alguns anos mais tarde, em 1973. Pode-se constatar, também, o acerto da análise e das previsões, o que é mais significativo quando se pensa que aquela era praticamente a primeira intervenção dos comunistas no novo quadro inaugurado com a edição do AI-5 e com o início do "milagre brasileiro", com todas as suas conseqüências e características. O texto resistiu ao tempo, dez anos após sua publicação.
Exatamente por isso, o documento não pode deixar de ser lido se se deseja conhecer um pouco da história da ação e das concepções do PCB durante os anos mais negros do regime criado pelo golpe de 64. Vem daí a idéia de republicá-lo.
Ao fazer isso, cumpre registrar, alto e bom som, que o documento não existiria sem a atividade do conjunto do Partido na Guanabara, em particular de seus organismos dirigentes e de base. Foi em nome dessa atividade, integralmente voltada para a organização da classe operária e das amplas massas do Brasil e para a conquista de uma democracia que se abrisse para o socialismo, que diversos companheiros foram presos, torturados e mortos, amargaram o exílio e tiveram suas vidas destroçadas. A eles, pois, e em particular a Élcio Costa e João Massena de Mello, deve ser sempre dedicado o documento que se segue.
São Paulo, março de 1981.
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Este texto foi publicado na Revista Temas de Ciências Humanas (1981).
Sandro Vaia- Armênio e o choque de valores
• Armênio morreu acreditando que não existe no horizonte da ação política nenhum espaço para a intolerância ou para a ditadura. Nenhuma ditadura. Nem a do proletariado
- Blog do Noblat
Morreu Armênio Guedes com quase um século de vida, exatamente na semana em que um choque de valores ameaça marcar com uma cicatriz a democracia brasileira, que alguns ainda insistem em tratar como uma “plantinha tenra”.
Dos 96 anos vividos, Armênio passou metade dentro do Partido Comunista Brasileiro, onde nunca foi um burocrata saliente, daqueles cheios de medalhas honorificas, mas sempre foi um estrategista sábio e silencioso, um polo de ideias que tonificaram uma organização esterilizada pelo “centralismo democrático”.
Armênio poucas vezes teve liderança formal dentro do partido, mas nunca precisou disso para ser um catalisador de ideias e valores.
No prefácio do livro “Armênio Guedes, o Sereno Guerreiro da Liberdade”, que escrevi, o poeta Ferreira Gullar, que conviveu com ele durante anos dentro do PCB e foi seu companheiro de exílio no Chile, durante a ditadura militar, escreveu:
“(….) a luta de Armênio pela democratização do PCB e de sua visão revolucionária confundia-se com a necessidade de derrotar a ditadura militar que se instalara no Brasil em 1964. Também nesse plano, as divergências dificultavam o trabalho político, uma vez que a opção dos radicais de esquerda pela luta armada, veio fortalecer os setores mais repressivos do regime militar. Armênio estava entre os que mais atuaram para impedir que o regime fosse arrastado à desastrosa aventura guerrilheira. “
Disciplinado e discreto, mas firme em suas ideias e convicto de seus valores, Armênio rompeu com a ortodoxia de Luiz Carlos Prestes sem nunca precisar romper. Gestos teatrais e grandiloquentes nunca fizeram parte do seu modo de ser. Simplesmente ele e Prestes tinham ideias e concepções diferentes sobre estratégia e sobre democracia, e o tempo se encarregou de mostrar quem estava com a razão.
Depois de fazer o PCB, ainda que na ilegalidade, participar da luta pela redemocratização através da atuação política legal e parlamentar, com as brechas abertas pelo MDB, único partido de oposição tolerado pela ditadura, Armênio se convenceu ainda mais de que não existe sentido em qualquer luta para melhorar o mundo que não tenha como valor fundamental o respeito à liberdade.
Além das lições deixadas pela própria história de vida, pela generosidade e espírito de tolerância que transmitiu às pessoas que o acompanharam, que o cercaram e que conviveram com ele, Armênio Guedes deixou plantadas sementes que levam à compreensão da práxis política não como uma batalha de vida e morte, mas como uma forma de construir utopias possíveis e racionais sem nunca sacrificar os valores essenciais da democracia, que são o pluralismo e a liberdade.
Armênio morreu acreditando que não existe no horizonte do futuro a ser construído através da ação política nenhum espaço para a intolerância ou para a ditadura. Nenhuma ditadura. Nem a do proletariado.
Como Giuseppe Vacca, teórico do Partido Democrático da Itália, resultado da fusão entre o antigo Partido Comunista Italiano e o antigo Partido Democrata Cristão, Armênio, convencido da importância da democracia como valor universal, não acreditava mais que socialismo e capitalismo fossem excludentes. A ousadia teórica que ele defendeu ao final da vida, foi a de que o capitalismo é “um modo de produção" e o socialismo “um modo de regulação”, e que eles podem conviver e se complementar.
Uma utopia irrealizável, como todas as utopias? Pois foi para isso que ele viveu.
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Sandro Vaia, Jornalista, foi editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, da Agência Estado e do jornal “O Estado de S.Paulo”. Escreveu “A Ilha Roubada”, (Barcarolla) sobre a cubana Yoani Sanchez e "Armênio Guedes, Sereno Guerreiro da Liberdade"
Obituário - Armênio Guedes, aos 96. militante histórico do PCB
• Filiado ao partido por quase 50 anos, o jornalista, que foi secretário de Luís Carlos Prestes, era um incansável defensor da democracia- O Globo
Defensor irredutível da democracia, o jornalista e militante comunista Armênio Guedes era tido como rebelde dentro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) por suas divergências com dirigentes da legenda alinhados ao Partido Comunista da União Soviética (PCUS), entre eles Luís Carlos Prestes, de quem fora secretário e chegou a fazer a segurança pessoal, mesmo franzino. Enquanto o Cavaleiro da Esperança agia com rigidez militar, Armênio Guedes era, na opinião do poeta Ferreira Gullar, o "retrato de um cidadão brasileiro do século XX que concebe a ação política como um meio de chegar à sociedade justa, fraterna, igualitária", além de homem "mais flexível, de fala mansa e trato delicado".
Biógrafo de Armênio Guedes, o jornalista Sandro Vaia ressalta que ele, ao longo de quase 50 anos de militância no PCB, "nunca teve um cargo de grande destaque dentro da máquina burocrática do partido". "Sempre foi um catalisador através de suas ideias, não através dos cargos. Quis reformar o partido por dentro e alargar a visão do partido. Nem sempre conseguiu", acrescenta.
Armênio Guedes não admitia posições autoritárias e sempre lutou por uma revisão de métodos dentro da legenda. No Partidão, militou de 1935, ainda na Faculdade de Direito da Bahia, a 1983, tornando-se próximo do grupo de militantes baianos comunistas do qual faziam parte Jorge Amado e Carlos Marighella, entre outros. Só saiu após uma briga com o então secretário-geral Giocondo Dias, depois da expulsão de David Capistrano Filho da legenda.
"Armênio deixou a sala, subiu um andar, pegou seu salário, o último que receberia do partido, e saiu andando até encontrar um cinema. Comprou um bilhete, viu um filme inconfessável e, na saída, era um comunista livre e sem partido, depois de 48 anos de dedicação insubmissa e inquieta militância", diz um trecho de sua biografia.
Um dos principais articuladores da imprensa comunista no Brasil, Armênio Guedes estudou na União Soviética, onde acompanhou a comoção pela morte do ditador Josef Stalin. Camarada André - codinome dele em Moscou - foi rebelde até no curso de marxismo-leninismo, segundo o livro de Vaia, "Armênio Guedes - Sereno guerreiro da liberdade". Na União Soviética, questionava o autoritarismo ao qual os estudantes eram submetidos.
Incomodado com o culto à personalidade em torno de Stalin ("Achava meio chata aquela história de pai dos pobres. Tinha certa antipatia por isso", dizia) e conhecedor das barbáries cometidas pelo ditador, Guedes viveu um período de ostracismo dentro do Partidão após sua volta ao Brasil. ""Cheguei muito malvisto. Aí, fiquei no come-e-dorme do partido vários anos, fazendo revista, alguma coisa de jornal, sempre ligado à imprensa"", lembrou ele em um documentário em sua homenagem produzido pela Câmara Municipal de São Paulo. Da Casa, recebeu, em 2012, o título de cidadão paulistano. Foi na cidade que viveu seus últimos anos.
Junto à esquerda europeia
Após romper com o stalinismo e com a União Soviética, alinhou-se às legendas da esquerda democrática europeia, principalmente ao Partido Comunista Italiano (PCI), de Antonio Gramsci, Palmiro Togliatti e Enrico Berlinguer, sendo chamado no PCB de ""eurocomunista"".
Durante o regime militar brasileiro, opôs-se à luta armada e defendeu uma aliança com o MDB. Exilado, morou no Chile de Salvador Allende e na França (era conhecido em Paris pelo codinome Júlio). Durante o exílio no Chile, perdeu o irmão Célio Guedes, o Celito, assassinado pela ditadura em 1972. Pensou em desistir da política, à época. Sobre a morte do irmão, Armênio Guedes disse a Vaia: "Me mostraram um telegrama de Prestes. Ele me avisava que o motorista de uma missão - não falava o nome de Célio - tinha sido liquidado. Foi um choque tão violento que eu cheguei a ter um começo de pneumonia. Fiquei de cama quase um mês. Nesse período eu balancei... Tive vontade de me afastar de tudo"".
O livro diz que a direção do Partidão já sabia que Célio corria sério risco de ser pego pelos agentes da ditadura, mas não cancelou a missão.
Na França, destino escolhido por ele em 1974, segundo sua biografia, passou a colher informações sobre os crimes cometidos pela ditadura brasileira e se empenhou em divulgá-las.
Na biografia do jornalista Sandro Vaia sobre o militante comunista é destacada uma frase redigida por durante os anos de chumbo no chamado Documento da Guanabara, de 1970: ""O emprego indiscriminado da violência, embora contrapondo objetivamente o quadro da oposição, não deixa, apesar de seu suposto caráter revolucionário, de desservir à resistência e de dificultar a organização de uma frente única de massas contra a ditadura"". Anos depois, Armênio Guedes disse: "O documento foi a melhor coisa que escrevi na minha vida"".
- Desde a infância na Chapada Diamantina, onde cresceu amparado por uma família trabalhadora e idealista, a militância no Partido Comunista dos tempos heroicos, até a descoberta definitiva dos valores universais da liberdade e da democracia, Armênio escreveu uma história de honestidade e honradez - disse o jornalista Sandro Vaia. - Ele se convenceu definitivamente que a grande razão política da vida dele era a de tentar melhorar o mundo sem sacrificar a liberdade.
O senador José Serra (PSDB-SP) conviveu com Armênio Guedes no exílio no Chile, entre 1972 e 1974. Em 2007, qunado era governador, levou o amigo para trabalhar na redação do Diário Oficial do Estado de São Paulo.
- Armênio Guedes sempre acreditou que a democracia era um fim, não só um instrumento de luta. A geração dele (de comunistas), dos anos 1930, lutava por igualdade, solidariedade.
O presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freira, ressalta a importância reformista de Armênio Guedes:
- Reconhecido por todos que militaram com ele, desde os anos 40, como uma cabeça política privilegiada, é também considerado uma das figuras que mais influenciou na orientação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) durante várias décadas, sobretudo dos anos 60 aos 80, particularmente na elaboração de dois documentos históricos do PCB, a Declaração de Março de 1958 e a Resolução Política do VI Congresso Nacional, em 1967. No primeiro documento, o objetivo do partido passou a ser a conquista de um governo nacionalista e democrático, via processo eleitoral.
Apaixonado por futebol - mais especificamente pelo Botafogo -, Armênio passou a maior parte da vida na clandestinidade. No retorno ao Brasil após o exílio e já fora do PCB, voltou à imprensa. Trabalhou na revista ""IstoÉ"", na ""Gazeta Mercantil"" na Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Teve seu primeiro emprego com carteira assinada somente após o fim da ditadura.
Armênio Guedes morreu na madrugada de ontem, em São Paulo, aos 96 anos. Esteve internado por dez dias no Hospital Samaritano, com uma infecção pulmonar. Nascido em Mucugê (BA), na Chapada Diamantina, em uma família de 11 irmãos, "todos comunistas", segundo ele, deixou a viúva Cecília Comegno.
Derrota positiva – Editorial / Folha de S. Paulo
• Negociação entre governo e Congresso sobre correção da tabela do Imposto de Renda mostra que há espaço para debater ajuste da economia
Percebendo que sofreria uma derrota no Legislativo, o governo federal desistiu de tentar corrigir as faixas de incidência do Imposto de Renda segundo os critérios que lhe eram mais convenientes e aceitou negociar uma proposta que contemplasse os interesses endossados pelo Congresso.
Mais uma evidência, sem dúvida, da fragilidade política da presidente Dilma Rousseff (PT). Evidência também, por outro lado, de que há espaço para debater o necessário ajuste nas contas públicas.
Tendo em vista a infinidade de medidas que ainda precisam ser votadas, o acordo entre Executivo e Legislativo contribui para reduzir, ao menos por ora, desconfianças quanto à possibilidade de o ajuste ser aprovado --e, vale acrescentar, de que venha a ser bem dosado.
Não se pode desconsiderar que o acerto, afinal, foi positivo inclusive do ponto de vista econômico. A correção da tabela do IR precisa ser feita para que as faixas se mantenham constantes em termos ajustados pela inflação --tal qual acontece, grosso modo, com as despesas e a renda do contribuinte. Sem isso, a cada ano a mordida do leão ficaria proporcionalmente maior.
Definiu-se um reajuste escalonado, privilegiando as parcelas com renda mais baixa. A faixa de isenção (agora até R$ 1.903,98) e a primeira com incidência de imposto de 7,5% (de R$ 1.903,99 a R$ 2.826,65) foi corrigida em 6,5%, em linha com a inflação. Nas faixas com alíquota de 15%, 22,5% e 27,5%, a correção foi de 5,5%, 5% e 4,5%, respectivamente.
A solução se traduz numa perda de arrecadação de R$ 6,4 bilhões, um ponto razoável entre a diminuição de R$ 5,3 bilhões pela proposta do governo (correção de 4,5%, baseada na meta de inflação) e a de R$ 7 bilhões pelos termos iniciais do Congresso (reajuste de 6,5% para todas as faixas).
Esse entendimento, negociado sobretudo pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), mostra o quanto é possível avançar nas outras iniciativas propostas pelo governo --apesar de a própria base aliada manifestar oposição a algumas delas.
Nas próximas semanas começam a tramitar medidas provisórias que alteram critérios de acesso e cortam gastos com seguro-desemprego e pensão por morte. Estima-se uma economia de R$ 18 bilhões para os cofres públicos. O Planalto também deve enviar um projeto de lei para reverter a desoneração da folha de pagamento, com impacto próximo a R$ 20 bilhões.
Não deixa de ser uma boa notícia que, no contexto político atual, não caibam mais arroubos imperiais do Executivo. Negociar e calibrar melhor as mudanças, em especial a tributação da folha de pagamento num contexto de alta do desemprego, são essenciais para assegurar a aprovação do ajuste.
É prioritária a defesa das instituições – Editorial / O Globo
• Quando parece começar novo ciclo de manifestações de rua, com a atuação de radicais, lembre-se que a garantia da estabilidade está no respeito à Constituição
O país parece entrar em novo ciclo de manifestações de rua, depois daquele iniciado em junho de 2013, de origem espontânea nas redes sociais, e depois desvirtuado pela violência de grupelhos. Com a elevação da temperatura da crise política, da qual uma das centelhas foi a constatação de que a presidente Dilma teve de se curvar à agenda do ajuste econômico que ela rejeitara no palanque da reeleição, partidos e facções políticas fazem convocações de passeatas e concentrações.
Hoje, sindicatos, organizações em geral aliadas ao governo pretendem, das ruas, transmitir apoio a Dilma, forçada a lutar no front da crise econômica e no da política. Neste, sofre intensa erosão de popularidade enquanto avançam as investigações do escândalo na Petrobras, estatal a que esteve ligada de diversas formas desde 2003, com a chegada de Lula e PT ao Planalto. No domingo, será a oposição a protestar em várias cidades.
As manifestações precisam mesmo ser livres, conforme estabelece a Constituição, respeitados os devidos limites legais, os códigos de urbanidade e a sensatez. De lado a lado, há radicalização. Se existem saudosos da ditadura militar — muitos sequer viveram aquela época para saber o que é um regime de opressão —, existe o fascismo vestido de vermelho de organizações como o MST e outras. Na democracia cabem todos, e o que mantém os extremos sob o devido controle é a Constituição, a ser respeitada sem "poréns", bem como, é claro, as instituições assentadas sobre ela.
O momento é delicado porque nunca o lulopetismo esteve tão acuado. Nem no mensalão, quando havia crescimento econômico. Agora, o petrolão —um assalto aos cofres públicos via Petrobras de tamanho muito superior ao que foi praticado no BB/Visanet pela “organização criminosa" anterior — tem as vísceras expostas em meio a uma difícil conjuntura econômica.
Sobrepõem-se a tramitação do petrolão no Supremo e na Justiça comum, os desdobramentos da crise econômica — que deve consumir todo este ano — e a evolução da crise política, alimentada por um governo até aqui inepto nas imprescindíveis negociações com o Congresso.
As ruas, portanto, tenderão a estar agitadas, o que é natural numa democracia. Também por isso, mais do que nunca as instituições precisam ser protegidas para funcionar como devem: o Supremo tem de repetir a experiência do mensalão, com um julgamento técnico, livre de interferências políticas, e o Executivo deve melhorar a competência administrativa numa conjuntura ingrata e, junto com o Congresso, preparar o terreno para a volta ao crescimento.
E quanto aos lulopetistas, precisam se convencer da inviabilidade do projeto de se eternizar no poder por vias que não sejam as da democracia representativa. Não há espaço mais no Brasil para surtos de autoritarismo, não importa de que lado venham.
Vinicius Torres Freire - Neblina pesada também nos juros
• Ata do Copom não ajuda a desfazer a névoa a respeito do destino das taxas de juros --ao contrário
- Folha de S. Paulo
Uma das tantas incertezas perturbadoras desta economia brasileira escangalhada de agora é o destino da taxa de juros e, por tabela, claro, do tamanho do arrocho adicional que poderia vir pelo lado da política monetária, para nem falar do tamanho adicional da conta de juros, deficit e dívida. A exposição de motivos do Banco Central para o mais recente aumento de juros, divulgada ontem, não diminuiu a barafunda de hipóteses.
Nesse documento, a Ata do Copom, o pessoal do Banco Central induz a gente a pensar que, ainda mais do que de costume nos últimos quatro anos, as decisões dependem de informações adicionais a respeito do que será do dólar e das expectativas de inflação para 2016 (2015, claro, já foi para o vinagre, com inflação de pelo menos 8%).
Para piorar, o BC baseou suas projeções e análises em um dólar a R$ 2,85 até o fim do ano que vem (quer dizer, essas eram as informações com as quais trabalhava até quarta-feira da semana passada).
Na média do ano, o dólar está abaixo disso, mas, como se sabe, o preço da moeda americana tem flutuado acima de R$ 3,10, nos últimos dias de modo desnorteado, para não dizer histérico. Quanto ao resto do ano, o cálculo das probabilidades de que o dólar fique na faixa do BC é uma pilhéria sem parâmetros.
O que vai ser do câmbio depende do que vai ser da política em geral, do destino que a política vai dar para o pacote de arrocho e da leitura que os donos do dinheiro grosso farão disso tudo.
A taxa de câmbio ainda vai depender pesadamente de uma outra barafunda, provocada pela divergência das políticas monetárias de Estados Unidos e Europa e pela incerteza acerca das taxas de juros americanas. Qual vai ser a resultante da diferença enorme e ainda crescente de juros americanos e europeus? A valorização mundial do dólar vai manter baixíssima a inflação americana e assim mandar para as calendas a alta de juros (o que pode adiar tumultos no Brasil e contribuir para segurar a disparada do dólar por aqui)?
Enfim, o que o Banco Central tende a fazer de seu programa de intervenções no câmbio, que dá uma segurada no preço do dólar? Vai ficar na mesma, dadas tantas incertezas e riscos de acidentes?
Como se não bastasse tanta dúvida quanto ao dólar, há mais névoa no futuro de informações elementares para pensar a política monetária. Qual será o efeito de um real desvalorizado, em tese inflacionário, em uma economia em recessão, recessão não se sabe de qual tamanho?
Além do mais, o Banco Central vinha dizendo, ao ritmo de dois passos adiante, um para trás, que faria o necessário para levar a inflação para a meta de 4,5% em 2016. A leitura desse texto sempre cheio de mumunhas da Ata agora pode sugerir a ideia de que tal objetivo pode ficar para 2017, mesmo que não se levem em conta deteriorações adicionais do cenário para a inflação.
Um arrocho adicional na taxa de juros, combinado ao provável arrocho nos gastos do governo, tende a retardar a recuperação econômica e piorar o estado das contas públicas (deficit e dívida), para mencionar apenas os problemas maiores e óbvios. Logo, nota-se quão mais nebuloso está o futuro, mesmo ali adiante, em abril.
Míriam Leitão - A confusão do dólar
- O Globo
Maxidesvalorização. O especialista em câmbio e sócio da Tendências Consultoria Nathan Blanche já usa essa palavra para definir o que aconteceu com o real. A moeda brasileira perdeu 31% do seu valor desde o primeiro turno das eleições, saindo de R$ 2,40 para R$ 3,16. A alta tem dois efeitos colaterais imediatos: mais pressão sobre a inflação e crescimento da dívida da Petrobras. E deixa um risco fiscal no colo do Banco Central.
Alta forte da moeda americana tem sempre um ganho possível a médio prazo, que é o aumento da competitividade das exportações , mas é desorganizador da economia no curto prazo. Qualquer empresa, não apenas a Petrobras , que tiver dívida em moeda estrangeira está vendo seu passivo subir. O dólar está em alta no mundo inteiro, mas tem subido mais no Brasil. E isso apesar de o país ter US$ 370 bilhões de reservas e manter um programa de intervenções no mercado futuro que som a mais de US$ 100 bilhões. A explicação para essa alta mais forte está nos pontos frágeis da economia brasileira. A Petrobras — que ainda não divulgou o balanço de 2014 — quando publicar o resultado do primeiro trimestre de 2015 terá de contabilizar um enorme aumento do seu endividamento. Pelas contas da analista Karina Freitas, da Concórdia Corretora, a pedido do blog, a dívida da estatal pode crescer R$ 70 bilhões com um câmbio no nível em que está.
A empresa tem 70% de sua dívida em moeda americana. Outras empresas têm o mesmo problema porque se endividaram externamente quando o dólar estava barato. O que acontece com o dólar é um fenômeno mundial, mas em alguns países houve uma ação deliberada para que acontecesse. Esta semana, o euro atingiu o valor mais baixo dos últimos 12 anos sobre a moeda americana. Parte disso é reflexo do programa de estímulos do Banco Central Europeu, que combate o risco da deflação. O iene japonês caiu muito pelo mesmo motivo. A antiga equipe econômica tomou várias medidas, quando o dólar estava barato, para formar a alta, mas elas acabaram provocando instabilidade. Desde 2009, foram pelo menos 22 ações , desde aumento de IOF para a entrada de capital, até a revogação do imposto , tempos depois, a mudanças de prazos para a sua incidência, aumento de compulsório, e operações de swap reversos .
O dólar acompanhou o movimento do Credit Defa ult Swap (CDS) brasileiro. OCDS é o custo cobrado para se fazer um seguro contra o risco de um determinado país. Quanto maiores forem as taxas, maior é o que os economista s chamam de "prêmio de risco". Enquanto o CDS do Brasil subiu para 250 pontos, a média dos países que firmaram a Aliança do Pacífico (Chile, Colômbia, México e Peru) está em 113 pontos. É um termômetro de que o mercado considera que o Brasil está mais vulnerável. A inflação por aqui passa de 7%, enquanto a média nesses países é de 3,5%. O déficit em conta-corrente aqui é de 4,2% do PIB. Neles, de 3,2%. Nosso PIB não está crescendo, mas as projeções apontam para uma alta de 3,4% nesses quatro países.
Com o argumento de que era preciso evitar a volatilidade cambial, o BC passou há dois anos a atuar fortemente no mercado futuro. O problema é que agora tem mais de US$ 100 bilhões em contratos firmados. O novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, avisou que é preciso diminuir o tamanho desse programa, que traz um risco fiscal embutido. Quando o dólar sobe acima do preço firmado pelo BC, ele precisa pagar a diferença. A consultoria Tendência estimou que em fevereiro o BC pode ter perdido R$ 17 bilhões com a desvalorização do real. — O Banco Central trocou o instrumento clássico de combate à inflação, que é a política monetária, por esse programa de swaps, que ganhou proporções muito grandes. Isso se transformou em um enorme risco fiscal para o país, porque se o BC fechasse hoje todos os contratos abertos, teria uma enorme perda — disse Nathan.
O momento de valorização do dólar estava marcado para acontecer. O Fed suspendeu aos poucos os programas de estímulo monetário, e agora a expectativa é de alta de juros se houver risco de formação de bolha. O país teve tempo de se preparar para esse momento, mas fez o oposto: aumentou seus déficits e não reduziu a inflação. É torcer para que apareça o lado bom do dólar alto: o aumento das exportações brasileiras .
Celso Ming - Recados da Ata do Copom
• O Banco Central não compra o diagnóstico da presidente Dilma de que a atividade econômica e a inflação estão piorando no Brasil em razão da crise externa
- O Estado de S. Paulo
A inflação está muito mais forte do que o esperado, mas está sob controle. É o recado do Banco Central transmitido pela Ata do Copom divulgada nesta quinta-feira.
O Banco Central não compra o diagnóstico da presidente Dilma de que a atividade econômica e a inflação estão piorando no Brasil em razão da crise externa. Ao contrário, avisa que “as perspectivas indicam recuperação da atividade em algumas economias maduras e intensificação do ritmo de crescimento em outras”. Também não atribui nossas mazelas aos estragos produzidos pela escassez de chuvas. Os efeitos da estiagem não são sequer mencionados na ata.
A inflação está acelerando, mas este é o resultado do processo saudável de dois realinhamentos: o dos preços internos aos preços externos por meio do avanço do câmbio (alta do dólar); e o dos preços administrados aos preços livres. Ficou implícita a conclusão de que tanto o atraso do câmbio quanto o dos preços administrados (25% da cesta de consumo) foi o resultado da política econômica anterior.
De todo modo, esse realinhamento concorrerá para que, mais à frente – indica o Banco Central – a inflação seja contida. Em dezembro, o presidente Alexandre Tombini assegurava que, em 2016, a inflação voltaria a convergir para a meta de 4,5%. Essa aposta se mantém, mas como aposta e não como certeza. Ficou a impressão de que a convergência para a meta, se vier, vai ficando para 2017.
O relativo otimismo do Banco Central em relação ao comportamento da inflação baseia-se em três pressupostos, que têm lá alguma fragilidade. O primeiro é o de que o governo conseguirá fazer o ajuste fiscal necessário para obter a sobra de arrecadação de 1,2% do PIB em 2015 e de 2,0% em 2016. Esse não é ainda dado de realidade que se pode assegurar.
O segundo pressuposto em que se apoia o otimismo do Banco Central é a relativa desaceleração do consumo e da expansão do setor de serviços, fato que tenderá a tirar gás da inflação.
E o terceiro é o de que a economia global vai melhorar, fator que pode empurrar as exportações – que, por sua vez, podem ser ajudadas pela forte desvalorização cambial.
Logo depois da reunião do dia 4, quando o Copom aumentou os juros em 0,5 ponto porcentual para 12,75% ao ano, alguns analistas imaginaram que nova dose de 0,25 ponto porcentual em abril que conduzisse ao número redondo de 13,0% ao ano encerraria o ciclo de alta.
Não há suporte para suposições desse tipo. Ao contrário, a ata deixa aberta a porta para que o ajuste monetário continue, especialmente quando o patamar dos 8,0% em 12 meses for atingido.
Está para começar o processo de alta dos juros nos Estados Unidos, processo que pode desviar recursos externos da rota para o Brasil. Se a relativa escassez de moeda estrangeira se configurar, o Banco Central pode ter outro motivo para puxar ainda mais pelos juros, de maneira a atrair mais capitais externos.
A cotação cambial tomada como referência na ata foi R$ 2,85 por dólar. É patamar que ficou para trás. O preço do dólar está agora nas alturas dos R$ 3,14. Não deixa de mostrar certo atraso da leitura da realidade feita pela ata.
Nelson Motta - Raios e trovoadas
• Quem semeia raios econômicos, colhe tempestades políticas e trovoadas sociais
- O Globo
Nem tudo piorou de 2010 a 2014. Caíram de 131 para 98 por ano os brasileiros fulminados por raios em diversas regiões do país, de todas faixas etárias e sociais. As vítimas do que os antigos acreditavam ser a ira dos deuses são em número bem maior do que as temidas mortes em acidentes aéreos e não há nada que as explique, além de estar no lugar errado, na hora errada. Ou aquela palavra que não se diz.
Mas justo na hora em que o governo Dilma enfrenta um tiroteio cerrado de todos os lados e grandes turbulências, na semana passada, um raio atingiu em cheio o quartel da Guarda Presidencial, em Brasília, levando ao hospital 31 militares feridos, felizmente sem vítimas fatais. E sem que a oposição ou as elites golpistas pudessem ser responsabilizadas.
A advertência metafórico-meteorológica parece sob medida para a infalível, incontestável e incorrigível Dilma, mas também para cada um de nós. Os raios fulminam a onipotência humana e revelam a nossa fragilidade e precariedade, nos fazem aceitar que, se não há justiça na natureza, nem no cosmos, nem nos deuses e religiões, nos resta acreditar que a ideia de fazer justiça é só uma invenção humana, com todas as suas imprecisões e contradições, como parte do processo civilizatório.
Diz a lenda que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas há registros de descargas que atingem o mesmo ponto até mais de duas vezes. Mas, ao contrário da História, os raios não se repetem como farsa, mas como tragédia, inexorável e inexplicável. Raios políticos, como metáfora da força do acaso, já caíram várias vezes no Congresso, na Presidência e no Ministério da Fazenda.
Vítima constante de raios, como os que mataram Tancredo Neves, Luís Eduardo Magalhães e Eduardo Campos, o Brasil agora sofre com os raios econômicos semeados pelo governo Dilma, colhendo tempestades politicas e trovoadas sociais. Não há nenhuma crise internacional, os Estados Unidos cresceram 4,6% no trimestre, até a União Europeia e a América Latina cresceram mais do que o Brasil, com menos inflação. A crise é de quem a criou, a conta é nossa.
Mas, cuidado, panelas atraem raios.
Carlos Drummond de Andrade - Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
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