terça-feira, 25 de maio de 2021

Joel Pinheiro da Fonseca – Onde está Guedes?

- Folha de S. Paulo

Surpreende ver quanto o ministro está disposto a abrir mão para seguir no poder

Estava eu lavando a louça depois do almoço de sábado quando me ocorreu a dúvida: “Por onde andará Paulo Guedes? Onde foi parar?” Eis que o encontrei na Folha de segunda, numa longa entrevista.

Nela, vemos o mesmo Guedes de sempre: ótimo com as palavras, otimista, ambicioso. O Brasil de seu discurso navega de vento em popa, faz reformas, cresce e é a inveja do mundo. Até a Amazônia vai bem.

 “Aí vem o terceiro ano [de governo], e vamos surpreender de novo.” Espera; por acaso alguém ficou surpreso com o desempenho do Brasil nos dois últimos anos? Corrijo-me: alguém ficou positivamente surpreso?

Eu entendo a situação difícil de Guedes. Dificilmente o liberalismo será uma ideologia de massas. É a sina de quem, em vez de prometer utopias, impõe limites —ao gasto, ao poder dos governantes, à vontade da maioria.

Por isso, a melhor aposta de liberais é trabalhar junto de diferentes governos, deixando um legado positivo. Collor, Itamar, FHC e Lula: todos tiveram contribuições decisivas de ministros ou secretários liberais. Abertura comercial, Plano Real, Lei da Responsabilidade Fiscal, Bolsa Família. Dilma, quando a crise apertou, chamou Joaquim Levy para tentar colocar ordem na casa, sem sucesso.

Juca Kfouri - O comunista com FHC e Lula

- Folha de S. Paulo

Vladimir Marques não sabe bem se é vermelho ou cristão, sabe que apoia a Frente Ampla

Vladimir Marques votou em Roberto Freire, então do PCB, em 1989, e em Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, em 1994. E em Lula, do PT, em 2002.

Devoto da ideia de “a cada um de acordo com suas necessidades, de cada um de acordo com suas possibilidades”, embora ateu fica confuso quando lhe dizem que a máxima é cristã, porque regime algum na história da humanidade a exerceu na prática com democracia.

Neste Brasil em que formadores de opiniões se dizem “liberais” ou “democratas radicais” —e são capazes de fazer listas para boicotar “comunistas” como Luiza Trajano ou Delfim Netto ou, ainda, apoiar presidente que idolatra torturadores—, Marques tem dúvida sobre que aspas cabem melhor nele.

2022: Cenário nacional trava sucessão nos estados

Ao menos 12 governadores que não tentarão se reeleger no ano que vem enfrentam dificuldades para manter unida sua base atual em torno de um candidato; polarização entre Bolsonaro e Lula é pano de fundo da maioria das fissuras locais

Bernardo Mello / O Globo

RIO — Sob influência do cenário nacional, governadores de 12 estados que não podem ou não pretendem ser candidatos à reeleição têm dificuldades para aglutinar sua base em um nome de consenso à sucessão. A polarização entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é o pano de fundo da maioria dessas fissuras locais, com pré-candidatos buscando assegurar o apoio de padrinhos nacionais para tomar a dianteira no cenário estadual.

Entre os governadores que defendem uma “terceira via” na eleição presidencial, a preocupação é que uma eventual insatisfação com a montagem de chapas estaduais leve partidos da base a esvaziarem seu palanque para negociar apoios a Bolsonaro ou Lula. Em alguns casos, a migração do vice para o partido do chefe do Executivo surgiu como alternativa para pacificar a base. Em outros estados, desavenças entre o titular e o vice-governador tendem a fragmentar o grupo da situação. Há casos ainda em que governantes cogitam cumprir o mandato até o fim, abrindo mão de disputar outro cargo em 2022, para abrir espaços a aliados.

Críticas a Doria

Embora estejam aptos à recondução, os governadores de São Paulo, João Doria, e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, ambos do PSDB, têm manifestado interesse em disputar a Presidência e descartam concorrer novamente ao Executivo estadual. A convite de Doria, seu vice, Rodrigo Garcia, trocou o DEM pelo PSDB. Aliados de Leite costuram uma saída semelhante para o vice gaúcho, Ranolfo Vieira Jr., que deixou o PTB após romper publicamente com o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente da legenda, e também tem convites de MDB e Podemos.

— Fizemos um convite ao Ranolfo para que ele concorra à sucessão pelo PSDB. É um candidato natural ao governo, em qualquer partido, por representar a continuidade da atual gestão — afirma o deputado federal Lucas Redecker, presidente do PSDB gaúcho e entusiasta da candidatura presidencial de Leite.

Eliane Cantanhêde – ‘Meu gordinho’

-  O Estado de S. Paulo

Bolsonaro usa Pazuello para impor à Defesa e ao Exército o ‘quem manda, quem obedece’

Quem está no foco é Eduardo Pazuello, mas o principal responsável pela presença de um general da ativa numa manifestação política é o presidente Jair Bolsonaro, que usa Pazuello para esfregar na cara das Forças Armadas quem manda e quem obedece, testar limites do novo ministro da Defesa e jogar o novo comandante do Exército contra a parede. Estrago feito, o presidente proibiu pessoalmente notas da Defesa e do Exército.

Pazuello é o novo ídolo das redes bolsonaristas e Bolsonaro, o “mito”, se referiu a ele como “meu gordinho” nos atos de motociclistas no domingo. A turma anda mal de mitos e ídolos, já que o “meu gordinho” entra para a história por cair de paraquedas no Ministério da Saúde com a “missão” de engolir sapo, deixando o caminho livre para o negacionismo do presidente e do “gabinete das trevas”.

Entrevista | Raul Jungmann: ‘Responsabilidade maior do que se passou com Pazuello é do presidente’, afirma ex-ministro da Defesa

Raul Jungmann diz ser ‘inaceitável’ que ex-ministro, que é general da ativa, tenha ido a um ato político e afirma que Bolsonaro ‘vem constrangendo as Forças há bastante tempo’

Marcelo Godoy / O Estado de S. Paulo

Ex-ministro da Defesa no governo Michel Temer, Raul Jungmann enfrentou uma crise no Exército quando o general Hamilton Mourão, então secretário de Economia e Finanças do Exército, resolveu discorrer sobre “aproximações sucessivas” e criticar o governo. Acabou afastado. Na reserva, filiou-se ao PRTB e compôs a chapa vitoriosa com Jair Bolsonaro. Jungmann não vê paralelo entre esse episódio e o que envolveu o general Eduardo Pazuello ao comparecer a comício do presidente Jair Bolsonaro no fim de semana. “A responsabilidade maior do que se passou é do presidente da República, que é o comandante supremo das Forças Armadas.” Leia, a seguir, trechos de sua entrevista.

A ida do general Pazuello a um evento político-partidário pode ser comparada aos problemas que o senhor enfrentou na Defesa?

O caso do Mourão (general Hamilton Mourão, atual vice-presidente) aconteceu em uma palestra, em um evento que de forma nenhuma tinha caráter político-partidário. Eu tive a colaboração e participação do general Eduardo Villas Bôas e do general Etchegoyen (Sérgio, então ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional) para encontrar uma solução, que foi dada pelo comandante Villas Bôas e teve o meu apoio. Ele (Mourão) era da Secretaria de Economia e Finanças, e Villas Bôas o colocou à disposição da secretaria-geral. Foi um caso diferente.

O senhor acredita, a exemplo de oficiais-generais que se manifestaram, que o Comando tem de tomar uma providência a respeito de Pazuello?

Não existe outro caminho, embora a responsabilidade maior do que se passou seja do presidente da República, que é o comandante supremo das Forças Armadas. Eu acho que se está fazendo uma cobrança que, aliás, é legítima e deve ser feita, porque o general Pazuello feriu o Regulamento Disciplinar do Exército e um dos fundamentos de qualquer força armada, que é a disciplina. Não se pode admitir que as Forças Armadas, por meio de seus membros, em sendo instituição de Estado, como se encontra no artigo 142 da Constituição, tenham atitudes políticas ou de governo. Diante disso é cabível uma sanção ao general. Mas eu acho que é preciso lembrar que esse ato e a convocação dele para que tomasse a palavra foram feitos pelo presidente da República, a quem cabe zelar pela hierarquia e disciplina das Forças Armadas.

Andrea Jubé - Agronegócio não teme o PT, diz Wagner

- Valor Econômico

Por votação, Fávaro elimina pontos polêmicos

Enquanto a CPI da Covid concentra os holofotes e tensiona o ambiente político, avançam nos bastidores as articulações em torno de outro ecossistema: o meio ambiente e a agenda fundiária.

O Senado pode retomar nos próximos dias a votação do projeto de regularização de terras públicas, retirado da pauta há um mês após pressão dos ambientalistas.

O mesmo grupo tenta impedir que o controvertido projeto que flexibiliza as regras de licenciamento ambiental aprovado há dez dias pelos deputados comece a tramitar no Senado.

Na semana passada, o presidente da Comissão de Meio Ambiente, senador Jaques Wagner (PT-BA), recomendou ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que não coloque a proposta em pauta.

Questionado se pretende promover audiências públicas sobre a matéria na comissão, Wagner respondeu à coluna que gostaria que o projeto nem tramitasse na Casa. “Aquilo é um absurdo, espero que não avance. É um direito do presidente não pautar, ele reúne o colégio de líderes, comunica que não vai pautar”, propõe o senador.

Pedro Cafardo - Uma visão não neoliberal para a fase pós-pandemia

- Valor Econômico

Para economista, país tem que pensar no longo prazo, inclusive do ponto de vista sanitário

O neoliberalismo está morto? Qual seria a política econômica mais adequada para o Brasil na pós-pandemia?

Claro que os neoliberais respondem “não” à primeira pergunta. À segunda sugerem continuar com as reformas para reduzir a interferência do Estado na economia e a manutenção da austeridade fiscal, condição essencial para que os agentes econômicos tomem decisões de investir no país e, com isso, promover desenvolvimento.

Sabemos de cor essa receita, dominante no país. Por isso, o articulista fez as duas perguntas e outras cinco a uma respeitada economista da academia, não ligada ao mercado financeiro, Rosa Maria Marques, professora titular da PUC de São Paulo.

 “Não, o neoliberalismo não está morto de forma alguma”, respondeu a economista. “O fato de diferentes governos, independentemente de seu viés político e ideológico, terem aumentado o gasto público durante a pandemia e terem se preocupado em manter a liquidez não implica o sepultamento. O momento da pandemia e seu impacto na atividade exigiram que governos assim procedessem. Na crise de 2007/2008, não foi diferente. Não há como enterrar o neoliberalismo e, ao mesmo tempo, manter a total dominância do chamado capital financeiro na determinação das relações econômicas e sociais.”

Sobre a política econômica pós-covid, Rosa Marques observa: “A pandemia, além de ter aumentado o número de brasileiros em situação de pobreza extrema, destruiu emprego formal e informal, fechou pequenas e médias empresas e afetou de maneira desigual as cadeias produtivas. Não há como desconsiderar a necessidade de apoiar os segmentos que foram mais afetados enquanto as marcas da pandemia estiverem presentes. É claro que a política econômica não deveria se restringir a isso. É preciso pensar no longo prazo, inclusive do ponto de vista sanitário, dado que nada nos assegura que essa será a última pandemia que vai provocar tal nível de letalidade, exigindo a paralisação das atividades socioeconômicas. A extrema dependência do país à especialização da China e da Índia revela quão importante seria investir na recuperação da capacidade do país em pesquisa, desenvolvimento e na fabricação na área da saúde”.

Felipe Salto - A volta da carestia

- O Estado de S. Paulo

O Estado não pode assistir a isso calado. A população pobre é a que sofre mais

A inflação de alimentos, o aumento do número de pessoas sem emprego ou fora da força de trabalho e a evolução da renda preocupam. A população pobre sofre mais. O Estado tem o dever de dirimir essas mazelas por meio de políticas adequadas. Não pode assistir calado à volta da carestia.

A inflação foi impulsionada pela alta do dólar, que afetou os preços dos insumos e dos bens finais importados. O repasse para a inflação geral acabou ocorrendo à medida que essa pressão da taxa de câmbio resistia. Em paralelo, a alta das commodities tem afetado os preços internos. A Instituição Fiscal Independente (IFI) aponta que o IPCA totalizará alta de 7,4% no acumulado em 12 meses até junho.

O IPCA indicou inflação de 6,8% no acumulado em 12 meses até abril. Cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) mostram que o fardo é maior sobre as classes mais baixas. Na classificação do instituto, as pessoas com renda muito baixa enfrentaram alta de preços de 7,7% até abril, enquanto as de renda alta perceberam 5,2% de inflação.

A abertura do IPCA, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que os preços do grupo alimentação no domicílio cresceram 16%. Os preços de dois itens básicos, arroz e feijão, subiram 57% e 51%, respectivamente. O grupo das carnes no IPCA aumentou 35%. O patinho ficou 37% mais caro, o preço do músculo bovino aumentou 41% e os do acém e do peito cresceram 38% e 46%. Mesmo o frango em pedaços teve alta de 14%.

Entrevista| Paes de Barros vê falha de gestão e avanço da desigualdade

Debate sobre programas sociais deve migrar para reinclusão de desempregados, afirma economista

Por Lucianne Carneiro / Valor Econômico

Rio- Um dos idealizadores do Bolsa Família e hoje professor titular do Insper, Ricardo Paes de Barros afirma que a gestão da pandemia no Brasil transformou a crise numa situação crônica, que prejudica de forma mais intensa os mais pobres e contribui para o aumento da desigualdade. “Os pobres e as empresas iriam perder muito menos com um choque do que com a maneira agonizante com que a gente está fazendo, em que a coisa é arrastada, lenta”, diz.

Ele defende que o debate sobre programas sociais deve ser deixar de se concentrar no auxílio emergencial e incluir estratégias de reinclusão dos milhões de desempregados ao mercado de trabalho.

Seu alerta é de que a volta desses trabalhadores vai demorar tempo demais se ficar a cargo da “mão invisível [do mercado]”: “Precisamos de um programa poderoso de reinserção produtiva e não parece que isso está sendo pensado”.

Integrante da Comissão Consultiva do Censo, Paes de Barros critica a falta de diálogo do Congresso com o IBGE ao cortar o orçamento para o Censo Demográfico em 2021 e reconhece que ainda há risco de falta de recursos para sua realização em 2022, apesar da determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).

Ele diz que a execução do Censo na pandemia era controversa - como se viu até pelas diferentes posições entre países europeus -, mas que é fundamental a decisão de uma data, para nortear o trabalho do IBGE. “Não se pode definir ano a ano”, argumenta. 

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: O STF determinou a realização do Censo em 2022? Ainda há riscos para a pesquisa? E a capacidade?

Ricardo Paes de Barros: O IBGE tem capacidade de sobra, está superpreparado para realizar o Censo. A questão é o jeito que o Orçamento foi definido. A decisão de adiar ou não adiar o Censo não é consensual. Só para ter uma ideia, a Inglaterra está fazendo o censo neste ano e a Escócia está deixando para o ano que vem. A Alemanha está deixando para 2022 e a República Tcheca faz neste ano. Não é surpreendente que haja opiniões nas duas direções no Brasil. Surpreendente é que a presidente do IBGE [Susana Cordeiro Guerra] na época foi a uma audiência no Congresso e ninguém questionou, o que dava a impressão de que era consenso de que íamos fazer, para dias depois ser cancelado. Se tinha um debate para ser feito, e parece ligado ao conflito do Censo na atual situação sanitária, era a hora de os parlamentares perguntarem. E não teve nada disso. Quando a gente toma decisões sem uma clara consulta ao IBGE e à Comissão Consultiva do Censo, tem um problema de governança que [sugere que] qualquer coisa pode acontecer. A possibilidade de chegar ano que vem e não ter orçamento [para o Censo] existe. Como a forma de decisão ser tomada foi meio obscura, acho que tem esse risco.

Valor: Há outras questões em risco?

Paes de Barros: Outra questão fundamental, que parece bem clara agora, é que o custo do censo será maior. A pandemia faz o Censo ficar mais caro. E, a cada ano que adia, esse custo aumenta. Se está construindo uma ponte e adia, ela começa a ficar mais cara. Isso porque há uma série de custos para atualizar as coisas que não seriam necessários antes. Um erro é acreditar que você pode ficar cortando o orçamento do Censo. Não pode. Você tem que aumentar. Ao contrário do que o Congresso brasileiro fez, o Departamento de Estatísticas das Nações Unidas tem um comitê de especialistas que acompanha o que ocorre no mundo, já que os censos de 2020 acontecem em vários países [nesta época]. E uma das questões que deixam muito claro é que o Censo ficará mais caro devido aos cuidados na realização e que porque terá que eventualmente ser feito em um período de tempo maior. A preocupação de adequar o censo à pandemia é uma questão mundial, que a presidente do IBGE levou ao Congresso. Mas não se escutou direito e se tomou uma decisão. Então, se a gente voltar a fazer isso no ano que vem, muita coisa no Brasil vai ter dificuldade de acontecer e não só o Censo.

Mirtes Cordeiro* - Com ensino de má qualidade… é malhar em ferro frio!

A luta por uma educação pública, universal, gratuita e de qualidade no Brasil vem de muitas décadas, com destaque para os pioneiros para o trabalho de Anísio Teixeira, que já na década de 40 do século passado propunha uma escola nova, sem vínculo com religião e que a rede de escola de ensino básico deveria ser municipalizada e de tempo integral.

O senador pelo PDT e ex-ministro da Educação Cristovam Buarque tem pautado em sua vida pública o debate sobre a educação, o combate ao analfabetismo e a má qualidade da educação nas escolas brasileiras. Em entrevista ao jornal Zero Hora, em 2015, assim se expressou: “Se a gente compara a educação brasileira de hoje com a de 30 anos atrás, melhorou. Se compara com o que se exige hoje da educação, nós pioramos. É como se nós avançássemos ficando para trás, porque as exigências educacionais crescem mais rapidamente do que a educação brasileira melhora. Há 30 anos, nem tinha escola para 30% das crianças. Agora, elas estão na escola, mas em escolas muito deficientes”.

Essa discussão vem atravessando décadas, quase um século, mas não tem conseguido tocar os sentimentos de quem governa, nem da sociedade, que têm a responsabilidade constitucional de prover a educação pública obrigatória, gratuita e de boa qualidade para todos.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Cercados de malas sem alça por todos os lados

“O fulando (...) não deve ser candidato à Presidência da República. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. Revolução?! Olha, quem fala!

Setenta anos depois, a política no País não saiu do lugar. Os espaços estão ocupados por dezenas desses “malas sem alça”. Incompetentes, até como ser humano. Não vale a pena acreditar neles. Compõem a máquina trituradora da oligarquia brasileira. Carlos Lacerda era um representante dela. Com lorotas, palavras afiadas e sem sentido conduziu Getúlio ao suicídio. Um precedente moral que ninguém tem coragem de assumir. Lacerda sobreviveu:  morreu de morte natural. Justiça Divina?!...

Hoje, “O que o Presidente fala, não se escreve”. Uma injustiça porque, no campo da política o que todos, sem distinção, falam não se escreve (scripta manente). A tal de CPI do Covid é uma enganação daqueles que sangram o Estado e trabalham sistematicamente para a derrubada de governos. Manter o caos. Querem o impeachment, e la se vai 2021.  É a única coisa que sabem fazer na política. Nossos representantes, líderes, governantes, nossos heróis, todos mentem. Até no Judiciário, à luz da lei.

A verdade dissolve-se em interpretações, chamadas, ironicamente, de jurisprudências, por meio das quais fluem vaidades e interesses escusos. É como tomar um copo de água com bicarbonato. Tudo se dissolve, tudo se resolve, com a chancela do “absoluto”, declarado, por quem não teve um voto sequer. Olha aí o fantasma que ronda a tomada do Poder pelas conveniências pessoais ou oligárquicas.  Sua coesão não são se resume mais só em laços familiares. Não. Elas se esticam fácil da direita para a esquerda.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

Caso Pazuello reforça dilema das Forças Armadas

O Globo

As Forças Armadas enfrentam um dilema intratável, resultado de atitudes e políticas do presidente Jair Bolsonaro. De um lado, estão entre os mais privilegiados pelo atual governo. De outro, Bolsonaro insiste em desafiá-las para obter lealdade a seu projeto de poder. É nesse contexto que deve ser entendida a presença do general Eduardo Pazuello, sem máscara em plena pandemia, na manifestação de motocicletas que acompanhou Bolsonaro domingo no Rio.

Pazuello virou herói do bolsonarismo depois dos depoimentos repletos de contradições e mentiras semana passada na CPI da Covid. Sua presença no ato em que Bolsonaro desafiou abertamente as normas em vigor para prevenir o contágio abriu nova crise na cúpula das Forças Armadas. Militares da ativa — como Pazuello — são proibidos de participar de manifestações políticas. O Alto-Comando do Exército não poderá deixar o caso sem punição. O vice Hamilton Mourão afirmou que, antes, Pazuello deverá ir para a reserva.

Bolsonaro já entrara recentemente em choque com o Alto-Comando no episódio que resultou na demissão do então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e dos comandantes das três forças. Naquela ocasião, a nomeação do general Paulo Sérgio Nogueira para o comando do Exército foi um recado, pois mostrou que Bolsonaro não tinha poder para violar as regras que regem a sucessão.

Nogueira fora o pivô da crise, ao destacar em entrevista que o êxito do Exército no combate à Covid-19 derivava de diretrizes antagônicas às que Bolsonaro pregava — e que Pazuello tentava implantar no Ministério da Saúde. O objetivo da entrevista era tentar limpar a imagem dos militares, contaminada pela presença de Pazuello no governo e pela gestão desastrosa da pandemia.

Depois da crise, Bolsonaro continuou falando em “meu Exército”. Suas declarações de teor golpista saíram há muito do terreno das insinuações. Aparecer ao lado de um general da ativa, que violou uma lei básica da caserna para lhe prestar lealdade, é outra forma de exercer pressão sobre a cúpula das Forças Armadas, mais um desafio a uma instituição basilar da democracia.

Ao mesmo tempo, as benesses concedidas aos militares desde que Bolsonaro tomou posse são inequívocas. Tratamento semelhante é dado apenas à polícia e às demais forças de segurança. Para tais carreiras, o Ministério da Economia não parece impor restrição fiscal de nenhuma natureza. Enquanto o gasto com servidores civis cresceu no ano passado 1,3% em relação a 2019, a despesa com militares subiu 7,3%.

Conto |Graziela Melo - Paisagem apagada

A paisagem morna, antipática e apática, não era uma paisagem de fato. Era apenas a sombra da janela que se projetava nos meus olhos, como algo gigantesco, assombroso!

A insônia se misturava a tudo. À perspectiva cinzenta do amanhã. Sonhos mórbidos, de olhos abertos para uma clara escuridão. Que sonho sonharia eu? Qual sonho seria melhor de sonhar naquela escura noite onde não moravam nem conviviam o sol ou a lua, só uma ou outra estrela insípida, preguiçosa?

Não! Nada de sonhos! Melhor os fantasmas. Qual? Qualquer um: D. Pedro, São Pedro ou até mesmo Zé Pedro, aquele nordestino morto a facadas pelo próprio irmão e que depois de um tempo, fugiu do cemitério e até hoje perambula por aí, assombrando as pessoas, nas noites de lua cheia!

Cruz! Credo!

Poesia | Fernando Pessoa -A Aranha

A aranha do meu destino

faz teias de eu não pensar.

Não soube do que era em menino.

Sou adulto sem o achar.

É que ateia, de espalhada

Apanhou-me o querer ir...

Sou uma vida baloiçada

Na consciência de existir.

A aranha da minha sorte

Faz teia de muro a muro...

Sou presa do meu suporte



Música | Joyce Cândido - Reconvexo (Caetano Veloso)

 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Fernando Gabeira - Festa na floresta

- O Globo

"Regozijem-se os campos e tudo o que neles há. Cantem de alegria, todas as árvores da floresta." (Salmos, 96: 12)

Dessa forma, o delegado Alexandre Saraiva comemorou o afastamento de dez funcionários do Ministério do Meio Ambiente e a batida policial nos escritórios do ministro Ricardo Salles.

Saraiva estava feliz com a Operação Akuanduba, realizada por outro delegado, Franco Perazzoni, que, como ele, também é especializado no tema, com doutorado em meio ambiente.

O delegado Saraiva havia denunciado Ricardo Salles por ter atuado na tentativa de liberar um grande carregamento de madeira ilegal, apreendida por ele. A denúncia lhe valeu o afastamento do cargo. E ainda é muito audacioso, no governo Bolsonaro, denunciar um ministro que se associe a bandidos ambientais travestidos de empresários.

A denúncia de Saraiva foi parar nas mãos da ministra Cármen Lúcia, que a enviou para a PGR e, lá, adormeceu na gaveta de Augusto Aras. Acontece que, correndo por fora, numa outra investigação, o delegado Franco Perazzoni investigava algo parecido, as alterações de normas do Ibama para favorecer madeireiros.

Ricardo Salles, na célebre reunião em que falou em passar a boiada, aproveitando-se da pandemia, revelou seus métodos. É preciso uma caneta, dizia ele, e um parecer. Caneta sem parecer dá cana.

Ricardo Noblat - Pazuello corre o risco de ser punido pelo Exército

- Blog do Noblat / Metrópoles

No Rio, Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde e general da ativa, participou de ato de motociclistas comandado por Bolsonaro

General da ativa, sem máscara, embora a lei mande que use, pode participar de manifestação política? O que o “nosso Exército” diz a respeito? Ficará por isso mesmo? Não será punido pelo Exército que Bolsonaro insiste em chamar de seu?

Especialista em logística militar, ex-ministro da Saúde demitido por incompetência, o general Eduardo Pazuello participou, esta manhã, no Rio, de uma manifestação político-partidária de motociclistas comandada pelo presidente Jair Bolsonaro.

Chegou de máscara ao local no bairro da Tijuca. A primeira coisa que fez foi baixar a máscara, contrariando decreto do governo estadual e lei aprovada pelo Congresso em junho do ano passado. Subiu no carro de som, e discursou.

Desrespeitou o Estatuto dos Militares e o Regulamento Disciplinar do Exército. Entre as transgressões previstas e sujeitas a punição no regulamento, está:

 “Manifestar-se, publicamente, o militar da ativa, sem que esteja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária”.

Pazuello e Bolsonaro serviram juntos nos anos 1980 na Brigada de Paraquedista no Rio. Por ter planejado detonar bombas em quartéis em protesto contra o salário que recebia e que considerava baixo, Bolsonaro foi afastado do Exército. Pazuello seguiu carreira.

Os dois se reencontraram no governo que está repleto de paraquedistas – entre eles, os generais Braga Neto (ministro da Defesa), Augusto Heleno (ministro do Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (chefe da Casa Civil).

Na última quarta-feira, Augusto Heleno disse à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara que militares da reserva podem participar de manifestações, mas os da ativa, não. E completou:

“Os da ativa não podem e serão devidamente punidos se aparecerem em manifestações políticas”.

Marcus Andrá Melo* - Bolsonaro e o Orçamento rabilongo

- Folha de S. Paulo

O 'Orçamento secreto' é mecanismo opaco para premiar o apoio legislativo para além dos controles institucionais

Rui Barbosa foi a um só tempo espirituoso e preciso quando chamou o Orçamento federal de rabilongo: as leis orçamentárias continham adendos sem relação com o Orçamento. O rabo era longo —as chamadas “caudas” e a Constituição de 1891 só previam o veto total que funcionava como uma camisa de força, pois o presidente era forçado a acolher os adendos à sua própria proposta orçamentária. Era pegar ou largar.

Era comum a inclusão na “cauda” de dispositivos prevendo novas despesas (sem previsão de receita) pela criação de órgãos ou cargos, e matérias alheias ao assunto, incorporadas na 25ª hora diretamente no plenário do Congresso.

Paradoxalmente o Orçamento rabilongo não expressava o poder do Executivo, mas sua impotência. O veto parcial introduzido na reforma constitucional de 1926 foi acompanhado de dispositivos para fortalecer o poder presidencial (na área da intervenção federal nos estados etc).

Celso Rocha de Barros – Pazuello e as ‘coisas de internet’

- Folha de S. Paulo

Bolsonaristas aplaudiram ex-ministro na CPI porque querem general preso

Em seu depoimento à CPI da Covid, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello provou que é mais leal a Bolsonaro do que ao Brasil. Já seria triste ver um general se prestando a isso se Bolsonaro fosse só mais um político porcaria. Na verdade, Jair é uma das maiores ameaças que o Brasil já enfrentou. Não é fácil encontrar, na história recente, uma força beligerante que tenha matado mais soldados inimigos do que Bolsonaro matou brasileiros durante a pandemia.

Na CPI, Pazuello mentiu sobre tudo: mentiu que não atrasou a compra de vacinas, mentiu que um hacker invadiu o site do Ministério da Saúde para instalar o programa TrateCov, mentiu que não promoveu o uso da cloroquina depois que estudos científicos provaram sua ineficácia contra a Covid-19, mentiu sobre os crimes do governo durante a crise do oxigênio em Manaus. Omitiu o fato de que, enquanto o governo fazia isso tudo, generais responsáveis seguiam as orientações da OMS no Exército, garantindo com isso uma baixíssima mortalidade entre os militares brasileiros.

Catarina Rochamonte - O diabo na CPI da pandemia

- Folha de S. Paulo

O tinhoso está sempre atento às oportunidades e, no momento, não perde uma sessão da CPI da pandemia

Há um interessante trecho de C.S. Lewis no qual ele explica a estratégia do diabo para nos pegar: “Ele sempre envia ao mundo erros aos pares —pares de opostos. E sempre nos estimula a desperdiçar um tempo precioso na tentativa de adivinhar qual deles é o pior”. Deus é brasileiro, mas o diabo gosta da nossa terra e está esfregando as mãos com a expectativa de um segundo turno entre Lula e Bolsonaro: “Ele usa o fato de você abominar um deles para levá-lo aos poucos a cair no extremo oposto”.

No cinema, por vezes, o diabo é boa pinta, sedutor e perfeito anfitrião. No Brasil, dependendo da ocasião, toma uísque, cachaça, vinho ou tubaína; e também articula “almoços democráticos” entre ex-presidentes.

O tinhoso está sempre atento às oportunidades e, no momento, não perde uma sessão da CPI da pandemia, cuja gravidade exigiria apurado senso moral, imparcialidade e sentimento de dever: coisas que o diabo não pode permitir. Quase posso vê-lo soprando no ouvido de alguns senadores, insuflando os ânimos, manipulando os incautos, jogando com a vaidade de todos e, sobretudo, gozando com a naturalização da mentira e a banalização do mal (notada pelo senador Alessandro Vieira que comparou o depoimento de Pazuello ao julgamento de Eichmann).

Denis Lerrer Rosenfield* - Hamas e o terror

- O Estado de S. Paulo

Não se busca a paz, nem a coexistência pacífica, nem a criação de dois Estados...

Confundir o Hamas e a Jihad Islâmica com a causa palestina é um imenso desserviço aos próprios palestinos e a uma paz durável e justa no Oriente Médio, com dois Estados, judeu e palestino, vivendo lado a lado e cooperando entre si. Vitimizar os habitantes de Gaza como se estivessem submetidos ao arbítrio dos israelenses é não somente um erro de cálculo, como um desrespeito à verdade. Infelizmente, esse tipo de narrativa tem vigorado em boa parte da cobertura jornalística, fazendo a propaganda do terror ter valor de verdade.

Convém, preliminarmente, caracterizar o Estado do Hamas como um Estado de terror, que utiliza arbitrariamente a violência para atacar os israelenses e oprimir a sua própria população. Se os palestinos vivem lá na miséria e em péssimas condições sociais, isto se deve principalmente a que os recursos são utilizados para a compra e fabricação de armas, foguetes e mísseis, além da construção de túneis subterrâneos empregados em operações militares, para proteger os seus militantes, e não os palestinos, cujo bem-estar é literalmente menosprezado.

Há uma diferença essencial entre o Estado de Israel e o do Hamas. O primeiro está voltado para a proteção de seus cidadãos, pessoas livres num regime democrático, e o segundo, baseado na violência e na submissão dos seus, expõe esses seus súditos à violência por ele mesmo produzida. Se Israel tem um nível muito baixo de vítimas civis e Gaza um tão alto, isso se deve a uma diferença de natureza entre esses dois Estados: um defende os seus membros, o outro os submete à violência.

Alex Ribeiro - BC ainda tem muitas dúvidas sobre a inflação

- Valor Econômico

Dados de emprego são falhos para prever os preços dos serviços

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central parece estar ainda com muitas dúvidas sobre como vai se comportar a inflação daqui por diante, a julgar pelo que andaram dizendo alguns de seus membros nas última semanas.

Numa live do banco Credit Suisse, o diretor de política monetária do BC, Bruno Serra Fernandes, abriu o jogo sobre as duas frentes que podem fazer a inflação subir ou descer: as pressões de oferta e de demanda. Em ambos os casos, pode haver surpresas, para o bem ou para o mal.

Do lado da oferta, ele citou a alta dos preços das commodities em geral e, em particular, do petróleo, que ocorreu em paralelo com uma depreciação cambial. O diagnóstico do Copom é que essa alta é temporária, ou seja, a inflação sobe, mas depois desce. O nível de preços da economia ficaria mais alto e a população teria uma perda de renda real ao fim desse processo, mas lá adiante a inflação voltaria para a meta, que é a forma comum de julgar o trabalho dos BCs.

Bruno Carazza* - Bolsonaro, porcos e sardinhas

- Valor Econômico

Orçamento secreto inova para continuar tudo igual

Rogério Marinho, atual ministro do Desenvolvimento Regional, faz parte de uma linhagem da qual pertenceram Fernando Bezerra, Ramez Tebet, Ney Suassuna, Ciro Gomes, Geddel Vieira Lima, Mário Negromonte, Gilberto Kassab, Fernando Coelho e Helder Barbalho, entre outros. Em comum, são políticos com forte base local e que tiveram sob suas mãos a distribuição de verbas para a realização de obras Brasil afora. Trata-se da árvore genealógica do novo escândalo que ronda o governo Bolsonaro: o orçamento secreto - ou “tratoraço”, como preferem alguns.

Em qualquer lugar do mundo, político adora uma obra pública. Seja no lançamento da pedra fundamental ou no descerramento da placa de inauguração, não podem faltar o discurso das autoridades, a banda de música, a entrevista para a rádio local, as fotos para as redes sociais e aquele “banho de povo” que pode render muitos votos nas próximas eleições.

Enquanto educação, saúde e segurança são políticas públicas difíceis de serem atribuídas a um político em particular - pois resultam da cooperação entre União, Estados e municípios e apresentam resultados apenas no médio e longo prazos -, obras são entregas concretas que levam a marca de quem conseguiu os recursos em Brasília e viabilizou a construção da ponte ou do açude, o asfaltamento da estrada ou o embelezamento da praça da Matriz.

Miguel de Almeida - Os bozos morrem na véspera

- O Globo

Um bom soldado não morre na véspera, reza a lenda. Menos os bolsonaristas —esses morrem antes, durante e depois.

Sendo que o durante (ao vivo e em cores) chega a ser vergonhoso por desnudar o exército olavista com tremores faciais, esgares de medo, tiques inesperados, suores amazônicos e o grito de “mamãe!” entalado na garganta. Canastrões fundamentalistas, suas mentiras são legendadas.

Nunca neste país houve uma corja governante desmentida pelas redes sociais em forma de VAR. A cada mentira dita na Escolinha do Professor Renan, à semelhança de mortos-vivos, de imediato retornam a circular antigos tuítes ou vídeos de quando o prócer bolsonarista bancava o macho-alfa no mundo digital. Na vida real, tremem miseravelmente de medo.

Vou repetir: aqui se posta, aqui se paga.

Parece ser uma invenção de Olavo de Carvalho, plasmada pelo Bozo, o grotesco padrão do valente de salão. Escondido na Virgínia, o raivoso lançador de perdigotos dita o discurso bozonarista em nível de aposto escatológico. Forjou, como um sub-Goebbels, a estampa do ultradireitista brazuca ao surgir com chapéu e espingarda à mão. Ao ser trazido do bunker digital à vida terrestre, condenado a pagar milhões por suas obsessivas calúnias, chorou palavrões. Aí se fez de pobre coitado. É o modus bozus de fuga.

Irapuã Santana - Racismo algorítmico

- O Globo

A discriminação racial é um problema que acompanha a população negra desde o século XVI, com o início do tráfico de pessoas escravizadas e o fundamento moral e religioso de que o negro não tinha alma. Com o passar do tempo, nossa condição de ser humano passou a ser reconhecida pela sociedade, mas, infelizmente, não atingimos o mesmo patamar de acesso a direitos e bens da vida que compreendem a dignidade da pessoa humana, previstos em nossa Constituição Federal.

Nesse percurso até os dias atuais, a forma de demonstração do racismo também foi evoluindo. Novas técnicas surgem e novas formas de exclusão nascem com elas. Em outras palavras, quando uma realidade é restrita na sua criação, quando há um foco para agradar um público específico, outro sem-número de pessoas fica de fora de todo o processo, restando prejudicado.

Cidadania: Pazuello merece punição

- Nota oficial

Sob liderança do general Edson Pujol, o Exército se notabilizou por seguir na caserna as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) enquanto Bolsonaro as desprezava. É já icônica a cena de Pujol cumprimentando o presidente com o cotovelo, o que tanto desagradou o chefe em sua delinquência sanitária.

Neste domingo (23), finalmente, Bolsonaro se vingou, afrontando a hierarquia e a disciplina das Forças Armadas ao exibir o general de divisão Eduardo Pazuello – por razões inexplicáveis ainda na ativa – como uma marionete de sua perversidade, em cima de um trio elétrico, em meio a quase meio milhão de mortos de uma pandemia sem fim.

Sua participação no cortejo homicida do presidente da República pede que as medidas cabíveis sejam adotadas a fim de fazer observar os regimentos internos das Forças e as leis da República. O Alto Comando do Exército não pode deixar passar tal gesto de quebra de hierarquia e indisciplina.

Tratou-se, a um só tempo: 1) de um atentado à Saúde Pública, no contexto de uma terceira onda de Covid, emergência de uma nova variante, a indiana, e escassez de vacinas e kits intubação; 2) e de um ato político de extrema-direita, com Bolsonaro emulando o abjeto ditador Benito Mussolini.

Hora de as Forças Armadas colocarem um ponto final no vexame a que vêm sendo submetidas, com a responsabilização do general Pazuello, o pior ministro da Saúde da história, e deixarem claro que não serão transformadas em instrumento político ou milícias de um ex-capitão do Exército psicologicamente comprometido.

Roberto Freire
Presidente Nacional do Cidadania

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

EDITORIAIS

Os partidos e o candidato da terceira via

O Estado de S. Paulo

O País tem um urgente desafio: encontrar um candidato competente e responsável, capaz de representar uma alternativa viável a Luiz Inácio Lula da Silva e a Jair Bolsonaro. A população não pode ser refém do lulopetismo e do bolsonarismo, opções que – por mais empenho que se coloque para identificar diferenças entre elas – convergem de forma tão cristalina no negacionismo (seja na saúde pública ou na economia), na falta de disposição para promover as reformas, na utilização da máquina pública para interesses particulares (familiares ou partidários), na irresponsabilidade da gestão pública e no exercício do poder para fins exclusivamente eleitorais.

Esse desafio à liberdade e à cidadania – encontrar um candidato a presidente da República responsável e com viabilidade política – é, em alguma medida, tarefa de toda a sociedade. Mas, ainda que todos os cidadãos sejam em alguma medida responsáveis – e é muito oportuno que ninguém se sinta alijado do processo político –, há numa democracia representativa atores institucionais sobre os quais recai especial responsabilidade pelo futuro do País. Faz-se referência aqui aos partidos políticos.

De maneira muito especial, cabe às legendas encontrar um candidato viável da terceira via, comprometido com o interesse público.

Essa específica responsabilidade dos partidos não é mero dever de ocasião, em razão das atuais circunstâncias. Nada mais distante disso. A tarefa é decorrência direta da missão institucional dos partidos políticos em uma democracia representativa: assegurar pluralidade de opções políticas. E ao falar da terceira via, é disto que se trata: garantir que o eleitor, ao votar para presidente da República, tenha uma opção de voto viável e responsável.

Por isso, a Constituição de 1988 coloca os partidos políticos entre as instituições fundamentais para a organização do Estado. Essa menção não é uma espécie de homenagem formal ou de regalia institucional. As legendas têm papel decisivo na qualidade dos candidatos que o eleitor tem à disposição. Tanto é assim que, por expressa determinação constitucional, a filiação partidária é uma das condições de elegibilidade.

Música | Ataulfo Alves & Carmen Costa

 

Poesia | Pablo Neruda - Acontece

 

domingo, 23 de maio de 2021

Paulo Fábio Dantas Neto* - Grande política: uma fotografia e duas hipóteses

É forte o simbolismo da fotografia do encontro entre os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Ignácio Lula da Silva, na casa do ex-ministro Nelson Jobim. Discutir o Brasil é frase genérica e adequada para não deixar qualquer conteúdo concreto de pauta disputar espaço com o efeito simbólico. Há nele uma pedagogia política importante (mostrar que diálogos entre diferentes é possível), um reconhecimento de que a situação do país é grave a ponto de instigar a cooperação entre adversários consumados e um recado político direto sobre a amplitude da rejeição à ideia de reeleição de Bolsonaro. A saúde da democracia agradece e só isso já permite avaliar o encontro como gesto de grande política. 

Grande política, no entanto, numa democracia altamente competitiva como a nossa, não produz outros resultados, além do simbólico, se não estiver conectada com a pequena política, do dia a dia, ofício que ocupa agentes cujos perfis e condutas carregam, em geral, aos olhos do público, simbolismos negativos. Numa democracia, a pequena política, alvo de censura difusa e protestos indignados de quem acredita – ou finge acreditar – que boa política é aquela que se pratica desinteressadamente, precisa ser o destino de toda “boa ação” que pretenda ser, de fato, política. Na relação entre governantes e governados não se pode dispensar o idioma plebeu da pequena política, sem o qual nobreza e democracia não conversam. Valores e interesses são mundos conectados. A política democrática vive da interação de ambos.

Se pensarmos na necessária tradução que um gesto político largo - como foi o do encontro entre os dois líderes - precisa encontrar no terreno que, na política, corresponde ao que Rômulo Almeida chamou de “chão das realidades vulgares”, é legitimo especular sobre seus desdobramentos práticos possíveis. Farei isso a seguir, correndo os riscos de imprecisão e erro que são inerentes a toda interpretação.

A leitura mais direta e corriqueira do fato saliente na superfície é a de que ele corresponde ao realismo político de FHC e ao faro eleitoral de Lula. Convencido da ausência de um nome competitivo do seu partido para concorrer às eleições do ano que vem, FHC teria achado um modo de reforçar, simbolicamente, as reconhecidas restrições de tucanos históricos de diversas tendências ao obstinado governador de São Paulo. Também pessimista quanto às chances de agregação do centro em torno de algum outro pré-candidato externo ao PSDB, o tucano teria se disposto a um entendimento que poderá resultar em aliança com a esquerda, ao menos no segundo turno das eleições. Por essa que chamo de hipótese A, Fernando Henrique estaria dando seguimento a uma declaração pública de que contra Bolsonaro apoiaria “até Lula”. Vendo esse caminho como o mais provável, teria apressado o passo, antecipando o entendimento na expectativa também de que isso poderia moderar o discurso de pré-campanha do petista de modo a ser mais amplo, agregador e acolher também valores e interesses políticos do centro liberal-democrático com os quais ele, FHC, se afina.