domingo, 16 de janeiro de 2022

Poesia | Thiago de Mello: Os Estatutos do Homem

 

(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony

Artigo I.

Fica decretado que agora vale a verdade.

que agora vale a vida,

e que de mãos dadas,

trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.

Fica decretado que todos os dias da semana,

inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.

Fica decretado que, a partir deste instante,

haverá girassóis em todas as janelas,

que os girassóis terão direito

a abrir-se dentro da sombra;

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,

abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.

Fica decretado que o homem

não precisará nunca mais

duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem

como a palmeira confia no vento,

como o vento confia no ar,

como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:

O homem confiará no homem

como um menino confia em outro menino.

Artigo V.

Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar

a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras.

O homem se sentará à mesa

com seu olhar limpo

porque a verdade passará a ser servida

antes da sobremesa.

Artigo VI.

Fica estabelecida, durante dez séculos,

a prática sonhada pelo profeta Isaías,

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.

Por decreto irrevogável fica estabelecido

o reinado permanente da justiça e da claridade,

e a alegria será uma bandeira generosa

para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.

Fica decretado que a maior dor

sempre foi e será sempre

não poder dar-se amor a quem se ama

e saber que é a água

que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.

Fica permitido que o pão de cada dia

tenha no homem o sinal de seu suor.

Mas que sobretudo tenha sempre

o quente sabor da ternura.

Artigo X.

Fica permitido a qualquer pessoa,

a qualquer hora da vida,

o uso do traje branco.

Artigo XI.

Fica decretado, por definição,

que o homem é um animal que ama

e que por isso é belo.

muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.

tudo será permitido,

inclusive brincar com os rinocerontes

e caminhar pelas tardes

com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:

amar sem amor.

Artigo XIII.

Fica decretado que o dinheiro

não poderá nunca mais comprar

o sol das manhãs vindouras.

Expulso do grande baú do medo,

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal

para defender o direito de cantar

e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade.

a qual será suprimida dos dicionários

e do pântano enganoso das bocas.

A partir deste instante

a liberdade será algo vivo e transparente

como um fogo ou um rio,

e a sua morada será sempre

o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964

Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Música | Martinho da Vila, Teresa Cristina: Unidos e Misturados

 

sábado, 15 de janeiro de 2022

Dora Kramer: Chamado às falas

Revista Veja

O diretor presidente da Anvisa deu a senha sobre a melhor maneira de combater as malfeitorias do presidente da República

Antonio Barra Torres fez mais que chamar às falas e enquadrar Jair Bolsonaro aos bons costumes ao pedir que provasse ou se retratasse das insinuações sobre os propósitos da Anvisa ao autorizar a vacinação de crianças contra a Covid. O diretor presidente da agência deu a senha sobre a melhor maneira de combater as malfeitorias do presidente da República.

Perde-se tempo, energia e a chance de celebrar uma aliança entre civilidade, boa governança e eficácia político-elei­toral ao se optar por ataques de adjetivos. Isso havendo uma enorme quantidade de razões substantivas as quais o dito adversário não consegue enfrentar.

Chamar Bolsonaro de genocida, homofóbico, racista e ir cuidar dos afazeres como se cumprida a tarefa de fazer oposição na base do insulto é jogar na arena da grosseria em que ele foi criado e treinado. Um campo onde é imbatível.

Esse filme esteve em cartaz em 2018 e já sabemos quem sobreviveu (e quem morreu) no final. Usaram-se muitas palavras em relação ao passado do então deputado, mas não se fez a contestação de conteúdo à capacidade de governar do candidato a presidente nem ao modo como iria lidar com as questões urgentes do país.

Oscar Vilhena Vieira*: Autoritarismo ou reacionarismo?

Folha de S. Paulo

Presidente buscou impor seus objetivos abusando de suas prerrogativas

Como distinguir uma ação autoritária implementada pelo governo de uma ação meramente conservadora ou reacionária? Essa difícil questão me foi colocada pela professora Maria Herminia Tavares de Almeida, em reação à série de reportagens publicadas pela excelente jornalista da Folha Renata Galf, sobre um projeto de pesquisa voltado a compreender o modo como os novos líderes populistas empregam o direito e suas instituições para concretizar seus objetivos.

A questão é relevante porque um dos pressupostos fundamentais dos regimes democráticos é que o eleitor possa, pelo voto, determinar mudanças na orientação das políticas governamentais. Nesse sentido, é tão legítimo a um presidente conservador buscar implementar políticas conservadoras, como a uma presidente progressista ou liberal cumprir suas promessas de campanha. A democracia serve para isso mesmo; para poder mudar.

Ações autoritárias constituem uma coisa distinta. Numa primeira categoria encontram-se aquelas ações que ameaçam os próprios pressupostos do Estado democrático de direito, como a integridade do processo eleitoral ou a independência dos poderes que têm a responsabilidade de elaborar ou garantir as regras do jogo; ou seja, o Legislativo e o Judiciário. Nesta mesma categoria também estão ações que violem direitos fundamentais, prejudicando o livre e igualitário exercício da cidadania, ou a dignidade das pessoas.

Demétrio Magnoli: Putin, o cálculo do fraco

Folha de S. Paulo

Com a Ucrânia, chefão do Kremlin quer evitar um exemplo para a Belarus e para os próprios russos

Cerca de 100 mil militares russos cercam a Ucrânia, ao leste, norte e sul. Gestos valem mais que palavras. A ameaça de invasão, óbvia, mas negada pela diplomacia de Moscou, vai acompanhada por um ultimato: os EUA devem oferecer, no mínimo, garantia legal de que a Ucrânia jamais será admitida na Otan. Diante da exigência impossível, assoma a pergunta: qual é o plano oculto de Putin?

Na aurora da Guerra Fria, a Finlândia firmou o tratado de 1948 com a URSS que impediu seu alinhamento geopolítico com os EUA. "Finlandização": o termo passou a descrever a neutralidade forçada de um Estado soberano. Putin exige a "finlandização" da Ucrânia, não por meio de um acordo bilateral, mas por um tratado com os EUA. A resposta negativa não surpreendeu ninguém. De outro modo, Washington estaria limitando a soberania ucraniana.

Hélio Schwartsman: Dizimando a justiça

Folha de S. Paulo

É preciso manter algum senso de proporcionalidade nas punições

Tinha razão o Montesquieu. A separação dos Poderes é fundamental. Colocando de outra forma, é um perigo deixar os juízes legislarem.

Não sou muito impressionável, mas confesso que fiquei chocado ao ler, na reportagem de Ranier Bragon sobre as cotas de fundo eleitoral para mulheres e negros, que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) baixou resoluções que preveem que uso de "candidaturas femininas fictícias" acarretará a cassação de diplomas ou mandatos de todos os candidatos da chapa partidária, "independentemente de prova de sua participação, ciência ou anuência". Pior, o dispositivo vem sendo aplicado por alguns tribunais eleitorais, ainda que não haja uniformidade nas decisões.

Bolívar Lamounier*: Uma eleição a bordo do Titanic

O Estado de S. Paulo.

Os chefes da tripulação são incapazes de perceber os riscos a que nosso País está sujeito no médio prazo

A analogia com o Titanic é correta, porque nossa embarcação, beirando os 150 milhões de eleitores, é de fato enorme e porque nada faz crer que os nossos sensores políticos sejam eficientes na função de detectar possíveis icebergs à nossa frente.

A verdade é que nosso Titanic já partiu meio avariado quando largou em Portsmouth para a viagem aos Estados Unidos. Os reparos a que foi submetido no estaleiro da sra. Dilma Rousseff não lhe foram nada saudáveis. Seus sensores são um emaranhado institucional estapafúrdio, que funciona mais pela graça de Deus que por uma intrínseca racionalidade política. As três décadas decorridas desde a promulgação da Constituição de 1988 não deixam dúvida quanto a nos termos metido numa lamentável entressafra de lideranças, causa e consequência da atual inexistência de partidos políticos. Escrevo “inexistência de partidos” porque as agremiações que vêm se registrando no Tribunal Superior Eleitoral distam muito de merecer tal denominação. Os chefes da tripulação, quero dizer, os candidatos que se irão engalfinhar em outubro, carecem da mais simples visão de conjunto, sendo, portanto, incapazes de perceber os riscos a que nosso País está sujeito no médio prazo. Por último, mas não menos importante, fomos atingidos pela pandemia, fenômeno um bilhão de vezes pior que um reles ataque de gafanhotos.

João Gabriel de Lima: A luta pelo voto evangélico

O Estado de S. Paulo.

É preciso entender as carências sociais e apresentar propostas concretas para os os evangélicos

Tabata Amaral já leu, Marcelo Freixo já leu e Lula está lendo. O livro da moda entre os políticos da centro-esquerda é Povo de Deus, do antropólogo Juliano Spyer, da Universidade de São Paulo. Trata-se de uma análise acurada, cheia de pesquisas e referências, sobre os evangélicos brasileiros.

É fácil compreender o interesse. Os evangélicos constituem 30% da população brasileira, e 2/3 deles votaram em Jair Bolsonaro em 2018. Nas contas do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, a diferença em favor de Bolsonaro no eleitorado evangélico foi de 11,6 milhões de votos. Um contingente que teve peso decisivo – a distância para Fernando Haddad, no segundo turno, foi de apenas 10,7 milhões de votos.

Juliano Spyer não era, originalmente, um estudioso de religião. Esbarrou no tema ao fazer pesquisas antropológicas sobre brasileiros vulneráveis – sua verdadeira especialidade. Ele parte da constatação de que o Brasil viveu nos últimos 50 anos um dos maiores movimentos migratórios da história. Os brasileiros que vieram do interior acabaram se instalando nas periferias das grandes cidades, muitas vezes em condições precárias – sem saneamento, sem segurança, sem saúde e sem educação.

Adriana Fernandes: É a política!

O Estado de S. Paulo.

Tudo se repete com gastos subestimados e lideranças do Congresso fazendo acordos “por fora”

Ninguém perde o que já não tinha. Esse é o ponto de partida para uma análise mais detalhada do que está por trás dos desdobramentos do decreto do presidente Jair Bolsonaro de transferir para o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, a execução da distribuição de recursos do Orçamento acertada pelo mundo político.

Paulo Guedes e sua equipe no Ministério da Economia já não tinham nas mãos o poder de decisão, que é política, e não financeira. Continuarão tratando de apontar os riscos fiscais e necessidade de remanejamento para recompor dotações de gastos que não podem deixar de serem feitos. Isso continua. Em 2022, tudo se repete com gastos subestimados e lideranças do Congresso fazendo acordos “por fora” via relatoria do Orçamento.

Ascânio Seleme: O Brasil de verdade

O Globo

Discussão eleitoral, que hoje gira em torno da política, vai começar quando os problemas dos candidatos derem espaço para os problemas do Brasil

Mais alguns meses e o Brasil vai começar a discutir o seu futuro. Por ora, o barulho eleitoral ocorre apenas em torno da política. O que se debate agora é se Lula vai melhor com Alckmin de vice ou se uma chapa puro sangue faz sentido (não faz). Bolsonaro testa seus generais também de olho em um vice. Ele quer alguém que meta medo. Sim, porque se Lula quer um confiável, o capitão precisa de um assustador, por isso Braga Netto entra na lista. Moro fica tateando aqui e ali enquanto Ciro e Doria permanecem esperando não se sabe bem o que. O fato é que a campanha só vai começar quando os problemas dos candidatos derem espaço para a discussão dos problemas do Brasil.

Os candidatos, que hoje apenas apontam defeitos em seus adversários, terão de mostrar como vão agir diante da série de desafios que o país terá de enfrentar depois de superada a pandemia. Todos os muitos pontos da pauta serão trazidos à luz e de nada servirá ao candidato tentar deles se afastar. Hoje, Lula foge de temas como aborto e combate à drogas de maneira a não perder votos evangélicos. Na campanha para valer ele terá de se posicionar claramente. Da mesma forma, seu principal adversário terá de falar sobre assuntos que não gosta de tratar, como sua relação íntima com a milícia, por exemplo. É assim que funciona uma campanha presidencial.

Carlos Góes: A importância do autoteste de Covid

O Globo

Para atingirmos a realidade de Europa ou EUA, esses testes teriam de estar disponíveis em abundância, de forma gratuita ou muito barata

Era 31 de dezembro. Minha família, como muitas outras, estava reunida para o fim do ano. A cada dois dias, vínhamos testando todos na casa com autotestes de Covid-19 importados. Eis que, logo no dia de réveillon, um de meus familiares testou positivo.

Posteriormente, um teste laboratorial confirmaria seu diagnóstico positivo; mas a pessoa se isolou imediatamente. Testamos o resto da família nos dias seguintes — e ninguém mais se contaminou.

Quando soube do resultado, liguei para uma pessoa que tinha sido exposta no dia anterior. Ela estava na estrada, viajando para ver sua própria família. Parou numa farmácia e fez um teste. Deu positivo. Tomou o caminho de volta e não colocou sua família em perigo.

Embora seja somente um caso particular, minha experiência ilustra o poder do acesso a testes rápidos para Covid-19. Possivelmente evitamos muitas contaminações somente por causa disso.

Carlos Alberto Sardenberg: A vacina é legal

O Globo

Os canadenses da província de Québec deram a maior bandeira: o número de vacinados com a primeira dose disparou depois que o governo local baixou a regra segundo a qual o cidadão só poderia comprar álcool e maconha apresentando o passaporte da vacina. Note-se: lá a maconha é legal até para “fins recreativos”, ou seja, para um baseado.

Não vai aqui nenhuma crítica aos moradores de Québec, mesmo porque, certamente, é a minoria que consome bebidas e a erva. Ok, pode ser uma minoria expressiva, não importa. O objetivo é mostrar como os governos pelo mundo têm sido criativos na tarefa de estimular ou mesmo forçar a vacinação.

Ainda em Québec, o primeiro-ministro François Legault avalia cobrar um imposto dos não vacinados. Argumenta que eles adoecem mais e transmitem a Covid-19 a um número maior de pessoas, tudo isso sobrecarregando a rede pública de saúde. Logo, como geram mais gasto público, devem pagar por isso.

Pablo Ortellado: Cuba condena duramente manifestantes

O Globo

A Justiça cubana está julgando e condenando com penas severas os participantes dos protestos de julho de 2021. Em 11 de julho e nos dias que se seguiram, milhares de cubanos, muitos deles bem jovens, saíram às ruas para exigir liberdade e protestar contra as condições econômicas, a escassez de medicamentos e a resposta do governo à pandemia. Organizações de direitos humanos estimam que mais de 1.300, a grande maioria manifestantes pacíficos, foram detidos. Mais de 700 continuam presos provisoriamente, entre eles 39 adolescentes. Muitos julgados dizem que nem sequer tiveram acesso a um advogado.

As acusações mais graves, de rebelião, podem resultar em sentenças de até 30 anos de prisão. O número exato dos que são julgados é desconhecido, já que o governo cubano se nega a dar qualquer informação sobre os processos, a imprensa oficial não os cobre, e a imprensa estrangeira não tem acesso aos julgamentos.

Marcus Pestana*: Terceira via: necessidade ou desejo?

As eleições majoritárias em dois turnos foram introduzidas, no Brasil, pela Constituição Federal de 1988. O primeiro objetivo era conferir ao vencedor mais legitimidade e força. O segundo, libertar o eleitor da pressão do chamado “voto útil”, permitindo que ele manifeste sua preferência por identidade com o candidato que julgue o melhor, independente das suas chances de vitória, e participe de uma correção de rumo na segunda rodada. Os profissionais de marketing político e de pesquisas de opinião dizem sempre que no primeiro turno se vota a favor, pela identificação, e no segundo, contra, pela rejeição.

A população tem as atenções na nova onda da pandemia, na inflação e no desemprego, não está preocupada com as eleições. Os números das pesquisas refletem, como virou lugar comum dizer, “uma fotografia do momento”.  Até aqui são monólogos paralelos que não interagem. Campanha é pra mudar os números. Há registros de vitórias espetaculares e inesperadas. Tudo pode acontecer, inclusive nada.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

É absurdo o corte de verbas de prevenção a flagelo das chuvas

O Globo

Saiu 2021, entrou 2022, e o cenário meteorológico do país não mudou. Cidades submersas, casas destruídas pela força das águas, estradas e pontes interditadas, deslizamentos de encostas, moradores e comerciantes tentando recomeçar a vida depois de perder tudo. No fim do ano passado, as chuvas torrenciais no Sul da Bahia mataram pelo menos 26 moradores, deixaram milhares de desabrigados e causaram prejuízos incalculáveis. Segundo o governo do estado, a região registrou os maiores volumes pluviométricos em três décadas. Neste início de ano, as tempestades também não deram trégua. Maranhão, Piauí, Tocantins, Goiás e Noroeste do Rio de Janeiro também viveram ou estão vivendo situação dramática em decorrência das chuvas. Nos últimos dias, os estragos têm se concentrado em Minas Gerais, onde pelo menos 25 pessoas já morreram e mais de 370 municípios estão em situação de emergência.

Enquanto as tempestades se tornam mais frequentes e devastadoras, governos cortam verbas para prevenção. Como mostrou reportagem do GLOBO, em 2021 a União reduziu em 76% o orçamento do Ministério do Desenvolvimento Regional para ações de prevenção a desastres naturais (de R$ 714 milhões em 2020 para R$ 171 milhões em 2021). Essas ações incluem planejamento e execução de contenção, drenagem e estudos sobre estabilização de encostas. O estratégico Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), subordinado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, também perdeu recursos. O orçamento de R$ 18 milhões no ano passado foi o menor desde a sua criação, em 2011, após a tragédia na Região Serrana do Rio, que matou quase mil moradores.

Morre o poeta que usou versos para lutar pela democracia: Thiago de Mello, aos 95 anos

Célebre poema foi traduzido e se tornou mundialmente conhecido como arma contra a ditadura

O Globo

Morreu na manhã desta sexta-feira (14) aos 95 anos, o poeta, tradutor e ensaísta amazonense Thiago de Mello, de causas naturais. Ele faleceu em casa, em Manaus. O velório ocorrerá no Palácio Rio Negro, Centro Histórico de Manaus, às 14h. Segundo a família do autor, o enterro está previsto para o sábado de manhã, em horário ainda a ser definido.

Nascido em Barreirinha, no Amazonas, em 30 de março de 1926, Mello foi um dos grandes poetas de sua geração. Traduzido em mais de 30 idiomas e com 70 anos de produção literária, ele trabalhou como editor, jornalista e diplomata.

Um de seus poemas mais famosos é "Os estatutos do homem (Ato Institucional Permanente)". Escrito após o golpe de 1964, é uma resposta ao mesmo tempo singela e poderosa ao Ato Constitucional I. O decreto tinha como objetivo afastar qualquer forma de oposição e legitimar o regime, possibilitando a cassação de mandatos legislativos, a suspensão de direitos políticos e o afastamento de servidores públicos.

Mello respondeu com um ato insitucional poético e "permanente" de 14 artigos. Já no primeiro anunciava: "Fica decretado que agora vale a verdade/ agora vale a vida,  e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira". E, no Artigo Final: "A partir deste instante/ a liberdade será algo vivo e transparente/ como um fogo ou um rio,/ e a sua morada será sempre/ o coração do/ homem." Traduzido por Pablo Neruda, que foi um dos grandes amigos de Mello, o poema se tornou mundialmente conhecido como arma contra a ditadura.

Após o decreto, Mello renunciou ao posto de adido cultural no Chile, cargo que ocupava na época. Ele voltaria ao Brasil para combater a ditadura em 1965, mas acabaria preso logo após descer do avião. Em novembro daquele ano, participou de uma manifestação de intelectuais em frente ao hotel Glória, no Rio, durante a abertura da II Conferência Extraordinária da Organização dos Estados Americanos (OEA), na qual falaria o presidente Castello Branco.

O ato, que ficou conhecido como "os oito da Glória", resultou na prisão de Glauber Rocha, Carlos Heitor Cony e Joaquim Pedro de Andrade, entre outros. Mello escapou, mas acabou se apresentando às autoridades em seguida. Ele foi libertado após um mês.

Poesia | Thiago de Mello: Para os que Virão

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Música | Beth Carvalho: O que é o que é (Gonzaguinha)

 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Vinicius Torres Freire: O novo fim de Paulo Guedes

Folha de S. Paulo

Decreto coloca ministro sob ainda mais tutela, mas Guedes já não podia quase nada

Um decreto de Jair Bolsonaro submeteu Paulo Guedes à tutela oficial de Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil, em alguns assuntos orçamentários menores. Nogueira é senador e presidente licenciado do PP, um dos dois regentes do que sobra do governo bolsonariano: a distribuição de dinheiros que auxiliem a eleição da turma do centrão. O outro regente é Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara.

Dizem que Guedes perdeu poder. Perdeu poder de quê?

Para começar, qualquer ministro da Economia pode pouco se não há um governo com rumo e base parlamentar, para nem mencionar articulação social. O governo de Jair Bolsonaro não existe, para todos os fins humanos e positivamente práticos.

Quando se meteu em assuntos econômicos, Bolsonaro sabotou ou desmoralizou Guedes, como se o ministro ainda precisasse passar mais vergonha depois de tanta promessa de trilhão, déficit zero, da privatização da semana que vem, afora disparates e preconceitos.

Guedes não tem articulação política. Perdeu seus principais assessores. Alguns porque não conseguiam fazer nada ou não sabiam fazê-lo. Uns foram fritados por Bolsonaro. Outros saíram para não dar mais vexame ou com medo de processos, como a baciada que debandou quando chutaram o pau de teto de gastos.

Luiz Carlos Azedo: E Bolsonaro entrega a execução do Orçamento ao Centrão

Correio Braziliense

O ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, passou a dividir o poder de distribuição de recursos federais com o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, cada vez mais enfraquecido

Os anões do Orçamento eram um grupo de parlamentares baixinhos que controlavam as emendas parlamentares e engordavam suas contas bancárias. O esquema exigia influência para aprovar as emendas e conseguir que determinada empreiteira vencesse a concorrência da obra. Depois, a empresa repassava uma parte dos recursos para o parlamentar. Uma fração era destinada à campanha eleitoral; a outra, ao enriquecimento ilícito, como é da tradição patrimonialista. Àquela época, o caixa dois eleitoral era generalizado. O que distinguia o político honesto do desonesto não era a origem do dinheiro da campanha, era a formação de patrimônio com esses recursos.

Entretanto, em 1993, o Brasil vivia sob as regras de uma nova Constituição, o presidente Fernando Collor havia renunciado para evitar o seu impeachment e, em seu lugar, o vice Itamar Franco havia assumido a Presidência. O então senador Fernando Henrique Cardoso, seu chanceler, assumira a Fazenda e preparava o Plano Real. Com a Constituição de 1988 e a autonomia do Ministério Público, a realidade institucional já era outra, incompatível com o velho modelo de financiamento das campanhas eleitorais.

Bernardo Mello Franco: Bolsonaro de 2022 será o extremista de sempre

O Globo

Nem as férias prolongadas amansaram Jair Bolsonaro. O capitão voltou a Brasília com o radicalismo de sempre. Em uma semana na capital, já atacou o Supremo, o Congresso, os governadores e o diretor da Anvisa, que ele mesmo nomeou.

Na quarta-feira, o presidente usou um site governista para despejar sua fúria. Acusou o Supremo de persegui-lo e vociferou contra os ministros Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes. “Quem esses dois pensam que são?”, desafiou.

Investigado em cinco inquéritos na Corte, Bolsonaro tentou carimbar os juízes como “defensores do Lula”. Conversa fiada. Barroso e Moraes ficaram vencidos no julgamento que derrubou a prisão em segunda instância. A depender deles, o ex-presidente ainda estaria em Curitiba.

Bruno Boghossian: E se o vice de Lula for outro?

Folha de S. Paulo

Alckmin leva ganho simbólico a candidatura do petista, mas patina em questão partidária

A equação original do PT para a escolha do vice de Lula tinha dois elementos principais. O primeiro era simbólico, uma sinalização do petista para ampliar sua base eleitoral e conquistar votos além da esquerda. O segundo era objetivo: a vaga seria usada para atrair um grande partido para a aliança do ex-presidente.

Geraldo Alckmin preencheu o primeiro critério, mas a questão partidária ficou para trás. Nos cenários traçados até aqui, o ex-tucano não agrega ganhos significativos à aliança formal de Lula. Isso porque Alckmin está em busca de um partido que sirva de barriga de aluguel para indicá-lo ao posto de vice.

Ruy Castro: O país que não lhe diz respeito

Folha de S. Paulo

Bolsonaro não se preocupa com os votos que está perdendo. Se lhe faltar urna, conta com as armas

Bahia, Minas Gerais e Goiás estão debaixo d’água. Para milhões de pessoas, a vida agora se resume ao que sobrou da lama, dos escombros de suas casas e dos cacos de seus sonhos. Nenhuma delas recebeu de Jair Bolsonaro uma palavra de solidariedade e conforto, muito menos promessa de ajuda. Suas tragédias não dizem respeito ao homem em quem muitas devem ter votado. Importante é o jet ski, as provocações e o voo em primeira classe para seus ministros.

A tragédia desses estados não se limitará às enormes perdas individuais, mas envolverá a saúde, a agricultura, a produção industrial, os serviços e a economia em geral, deles e de seus vizinhos. Bahia, Minas Gerais e Goiás são rotas de passagem e, por suas estradas, destruídas ou interditadas, milhares de caminhões deixarão de rodar pelos próximos meses. Esperam-se desemprego, revoltas de caminhoneiros e desabastecimento. Mas nada disso compete a Bolsonaro. Para ele, o problema é dos governadores e prefeitos —muitos dos quais igualmente trabalharam por sua eleição em 2018.

Eliane Cantanhêde: O Brasil é uma festa!

O Estado de S. Paulo.

Boris Johnson pode cair por uma festa na pandemia, Bolsonaro é ‘mito’ por viver de festa em festa

Esses ingleses são mesmo esquisitos. Bastou uma “festinha” de 40 pessoas nos jardins de Downing Street (sede do governo), no pico da pandemia e do lockdown, cada um levando seu próprio vinho, para os britânicos, a oposição e até parlamentares do partido se mobilizarem para pedir o afastamento do primeiro-ministro Boris Johnson.

Ok, é grave, mas isolado. E um certo presidente, além-mar, que na pandemia não toma vacina, faz churrasco na residência oficial, é filmado em uma aglomeração atrás da outra, diverte-se em atos golpistas, abraça idosos sem máscara antes das vacinas, arranca máscara de criança na rua e proíbe em palácio, descumpre as leis do DF e é processado por governos estaduais por suas motociatas?

Simon Schwartzman*: Nuestra América

O Estado de S. Paulo.

Hoje, se houver um caminho, temos de construí-lo com governos realistas que trabalhem para o bem comum

A eleição do jovem Gabriel Boric para a presidência traz a esperança de que o Chile talvez consiga escapar dos ciclos de populismo, autoritarismo, estagnação econômica e decadência institucional que estão assolando a maioria dos países da América Latina.

Desde o fim da ditadura de Pinochet, entre 1990 e 2010, o Chile foi governado pela Concertación, coalizão de partidos de centro-esquerda que conseguiram combinar a abertura da economia com políticas sociais inteligentes, reduzindo a pobreza e a desigualdade, melhorando a qualidade da educação e desenvolvendo a economia como nenhum outro país da região. Isto não foi suficiente, no entanto, para evitar que o sentimento de frustração crescesse, fazendo com que o país alternasse entre governos de esquerda e direita – Michelle Bachelet e Sebastián Piñera – que culminou com as grandes manifestações de rua de 2019, a convocação de uma assembleia constituinte e a última eleição presidencial, em que candidatos independentes tomaram o lugar dos antigos partidos políticos.

Antonio Corrêa de Lacerda*: Faltam vetores para crescer em 2022

O Estado de S. Paulo.

Não há investimento se há ociosidade na capacidade produtiva e falta perspectiva de elevação da demanda

A probabilidade de uma estagnação, ou até mesmo uma recessão, no Brasil em 2022 é maior do que a de crescimento. Há ausência de vetores que possam impulsionar a economia, a começar pela herança estatística. 2021 herdou um carregamento (carry trade) de 3,6% de 2020. Ou seja, 80% do desempenho positivo do ano, previsto em 4,5%, advém deste fator. Para este ano, o efeito estatístico do ano em curso será nulo.

Além disso, outros fatores macroeconômicos são adversos: a inflação, a política monetária, o mercado de trabalho e o investimento. A inflação derivada do choque de oferta das matérias-primas produz estragos na cadeia produtiva. A política monetária restritiva, com a elevação dos juros desestimula o consumo, que há tempos anda em falta, por estimular a poupança dos mais ricos e encarecer as dívidas das famílias e empresas.

O mercado consumidor também tem sido negativamente afetado pelo elevado desemprego em uma acepção mais ampla, considerando os desalentados e os subocupados. O fato é que mais de 30 milhões de pessoas estão fora do mercado de trabalho. A capacidade de compra das pessoas segue limitada, com a elevação do custo de vida e a insuficiência de reajuste de salários e honorários.

Fernando Abrucio*: O sentido da frente ampla brasileira

Valor Econômico

Não se sairá da enorme crise atual, a maior desde o final do regime militar, sem um pacto de reconstrução nacional

Para ganhar as eleições de 2022 e governar o país no dia seguinte, reconstruindo o que foi destruído nos últimos três anos, será necessário montar uma coalizão política e social bem maior do que a erigida pelo bolsonarismo. Essa constatação deveria ser um mantra para os que desejam vencer o presidente Bolsonaro. Por essa razão, é provável que o termo frente ampla apareça frequentemente ao longo deste ano. Tal ideia vale tanto para alianças comandadas pela esquerda em direção ao centro, quanto o agrupamento da centro-direita democrática com forças diferentes dela. Em outras palavras, não se sairá da enorme crise atual, a maior desde o final do regime militar, sem um pacto de reconstrução nacional.

Frente ampla é apenas uma das denominações mais usuais para momentos políticos que exigem grandes alianças entre grupos diferentes com o intuito não só de ganhar eleições, mas de reconstruir a ordem política e social. Isso já aconteceu em situações como o fim de uma guerra, de um regime autoritário ou quando se quer enfrentar um sistema político tradicional muito duradouro e avesso a mudanças.

O caso brasileiro tem suas peculiaridades, sendo a principal a existência de um grupo que governa o país - a aliança entre o bolsonarismo autoritário e o Centrão patrimonialista - por meio de um projeto de destruição das principais instituições e valores criados a partir da redemocratização. O resultado da distopia bolsonarista é a ausência de qualquer perspectiva positiva de futuro, seja na economia, na política, nas questões sociais e na inserção do Brasil no mundo.

José de Souza Martins*: Brasileiros e portugueses

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Chamar de lusofobia as anedotas sobre portugueses é uma simplificação

Recente artigo de Giuliana Miranda e Mayara Paixão, na “Folha de S. Paulo”, trata das repercussões, no meio acadêmico, em Portugal e no Brasil, de um livro do jornalista português Carlos Fino sobre as raízes do estranhamento entre os dois países. Diferentes pesquisadores pontuam aspectos do tema, o que mostra a dificuldade no lidar com simplificações estereotipadas a respeito da extensa diversidade de concepções, lá e cá, dos nacionais de um país em relação aos do outro.

Apelidos decorrentes da origem diferente da brasileira ou decorrente da cor são comuns aqui para designar o diferente. Não é raro que o loiro seja chamado de “Alemão”, mesmo que não tenha essa origem. Português, “Portuga”. “Japonês”, mesmo o oriental descendente de coreano ou de chinês. “Negão” para o negro.

É coisa antiga, uma forma tosca de acolhimento numa sociedade à margem do que é próprio do mundo criado pela Revolução Francesa: juridicamente iguais, mas imaginariamente desiguais. Esses tratamentos só podem ser compreendidos pelo tom da voz e pelos gestos que os acompanham. Um código linguístico subentendido.

Humberto Saccomandi: Hostilidade cresce entre os vacinados e os não

Valor Econômico

A polêmica envolvendo o tenista Novak Djokovic expôs a hostilidade crescente entre vacinados e não vacinados

A polêmica atual envolvendo o tenista Novak Djokovic expôs a tensão existente em muitos países entre a maioria de pessoas vacinadas e a minoria de não vacinados. A hostilidade mútua gerou uma torcida pró e contra o sérvio. Afinal, como deve ser a política para os não vacinados? Essa questão ameaça criar mais um cisma social numa época já de fortes polarizações.

Movimentos antivacinas existem há décadas, assim como os que rejeitam os medicamentos tradicionais. Por trás disso há posições filosóficas, religiosas e desconfiança em relação aos grandes grupos farmacêuticos ou ao capitalismo em geral. Porém, a rejeição à vacina contra a covid-19 ganhou outros dois argumentos.

O primeiro é quanto à segurança, devido ao tempo recorde em que as vacinas foram desenvolvidas, o que poderia gerar falhas e reações adversas perigosas. Cidadãos de países com regimes autoritários, como a Rússia, também desconfiam da qualidade das vacinas locais.

Conheço o caso de um jovem saudável que teve uma reação muito grave, que médicos de um dos melhores hospitais de São Paulo atribuíram com grande probabilidade a uma vacina específica. Ele felizmente se recuperou e tomou a segunda dose, de um outro fabricante.

Assis Moreira: Reforma trabalhista e a eleição na OIT

Valor Econômico

Governo de Jair Bolsonaro tende a apoiar um candidato mais identificado com os empregadores

Ao mesmo tempo em que o PT quer discutir a reforma trabalhista na campanha presidencial, o governo de Jair Bolsonaro tende a apoiar um candidato mais identificado com os empregadores para a direção-geral da Organização Internacional do Trabalho (OI) em eleição no dia 25 de março, em Genebra.

A OIT tem quatro objetivos estratégicos: promover e aplicar princípios e direitos fundamentais do trabalho; aumentar as possibilidades para homens e mulheres de obter um emprego decente; ampliar o benefício e eficácia de proteção social para todos; e reforçar o diálogo social. É a única instituição “tripartite” das Nações Unidas, ou seja, suas normas do trabalho, suas políticas e programas são elaboradas conjuntamente por representantes de governos, de empregadores e de trabalhadores.

Essa eleição ocorre em meio a grandes incertezas causadas pelo coronavírus e pelas mudanças nos sistemas econômicos resultantes das alterações climáticas, transformação tecnológica de alta velocidade e questionamentos quanto o impacto sobre o futuro do trabalho.

Há cinco candidatos para suceder o britânico Guy Ryder, de origem sindical e na direção da OIT desde 2012. Eles vêm da África do Sul, Togo, França, Austrália e Coreia do Sul. Para ser eleito, o candidato precisa receber mais da metade dos votos do conselho de administração, composto por 56 membros (28 governos, 14 empregadores e 14 trabalhadores).

Flávia Oliveira: Brasil que esperança

O Globo

Vez em quando, o ambiente de trevas que engolfa o país é riscado por raios de luz que nos devolvem ao Brasil de afeto, generosidade e talento pelo qual permanecemos, lutamos, insistimos. E esperamos. No par de anos de pandemia, brilharam Teresa Cristina em lives; Emicida em “Amarelo”; Fabiana Cozza no álbum “Dos Santos”, Nei Lopes em “Pagode black tie”, Caetano Veloso em “Meu coco”, Maria Bethânia em “Noturno”, Ney Matogrosso em “Ney 80 anos”. Teve Gilberto Gil celebrando o São-João com a sanfona de Mestrinho; Milton Nascimento cantando “Clube da esquina” com Orquestra Ouro Preto; Leci Brandão se apresentando no Trem do Samba, de Marquinhos de Oswaldo Cruz; no cinema, “Marighella” e “Medida provisória”, estreias de, respectivamente, Wagner Moura e Lázaro Ramos na direção. Iluminaram-nos os livros de Eliana Alves Cruz (“Nada digo de ti que em ti não veja”), Djamila Ribeiro (“Cartas para minha avó”), Renato Nogueira (“Por que amamos?”), Leonardo Bruno (“Canto de rainhas”), Luiz Antonio Simas (“Umbandas — Uma história do Brasil”). Participamos das campanhas humanitárias que levaram comida a quem tem fome na temporada de desassistência aos vulneráveis pelo Estado.

Apresento o rol de afagos n’alma para chegar ao recém-chegado e intensamente reconfortante “O canto livre de Nara Leão”. Nelson Motta definiu o repertório da cantora, que completaria 80 anos neste janeiro, como uma lasanha: em cada camada, um gênero musical; numa fatia, o conjunto da obra. A série documental em cinco episódios, dirigida por Renato Terra, costurada por José Bial, neto de Nara, é lasanha também. Acomoda o que a cantora fez e foi, com quem andou. Oferece sublime prato. Sacia.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Guedes de novo rebaixado

O Estado de S. Paulo.

Chefe da Casa Civil passa a mandar no Orçamento e o ministro da Economia é mais uma vez humilhado por Jair Bolsonaro

O dinheiro do contribuinte será a partir de agora manejado – oficialmente – sob a direção do chefe da Casa Civil da Presidência da República, ministro Ciro Nogueira (PP-PI), principal nome do Centrão no Executivo federal. O ministro da Economia, Paulo Guedes, ficará subordinado, de forma explícita, ao novo comandante das finanças da União. Qualquer decisão sobre custeio, investimento, transferência, orientação ou reorientação de recursos ficará “condicionada à manifestação prévia favorável” do ministro da Casa Civil, segundo decreto publicado no Diário Oficial de quinta-feira. Com essa decisão, o presidente Jair Bolsonaro rebaixou mais uma vez o ministro da Economia, ex-Posto Ipiranga, e subordinou a execução orçamentária, de forma integral e sem disfarce, à figura mais importante e mais influente do gabinete presidencial.

A nova humilhação parece ter sido bem aceita no Ministério da Economia, a julgar pela primeira reação registrada pela Agência Estado. Com a nova distribuição de poderes, ficará mais fácil “dividir o desgaste” ocasionado pelo corte de recursos, de acordo com resposta obtida pela reportagem. Segundo as mesmas fontes, o assunto foi discutido com a pasta. Confirmada essa informação, ficará evidenciada, de novo, a atitude mansa do ministro Guedes diante das investidas do presidente e de seu aliado favorito, o chefe da Casa Civil.

É piada falar de uma divisão de responsabilidade pelos cortes de gastos. Qualquer sugestão de austeridade, ou de respeito aos padrões de responsabilidade fiscal, só prevalecerá, como tem ocorrido até agora, se for compatível com os interesses do presidente Jair Bolsonaro e aceitável por seus apoiadores, sempre famintos por verbas públicas.

Poesia | João Cabral de Melo Neto: Graciliano Ramos

Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:

de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.

***

Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:

que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.

***

Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:

e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.

***

Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:

que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.

Música | Marisa Monte: Calma