O Estado de S. Paulo.
A deterioração das expectativas de mercado resulta de uma política fiscal que implodiu o teto de gastos
Mansueto Almeida é um dos especialistas em
contas públicas mais respeitados do País. Temos um livro juntos, publicado pela
Editora Record, em 2016, que documenta parte dos problemas da política fiscal
no período da contabilidade criativa (2008 a 2014). Neste artigo, faço um
contraponto ou complementação a algumas das posições que ele defendeu em
recente entrevista ao Estado.
Não houve uma melhora estrutural nas contas
públicas, exceto pela aprovação da reforma da previdência. É importante
destacar, sim, que as projeções mais pessimistas para a dívida pública foram
frustradas, mas também é essencial compreender que o fator preponderante a
explicar o nível mais baixo da dívida bruta no fim de 2021 foi a inflação.
Quando algo “positivo” deriva de algo ruim, como a alta descontrolada dos
preços, não há o que aplaudir.
A dívida é sempre calculada como proporção
do Produto Interno Bruto (PIB), normalmente referenciada como “dívidapib”. A
intenção é avaliar o passivo do governo ou do setor público como um todo, mas sempre
em relação a alguma variável que mensure a geração de renda e riqueza do País,
o desempenho econômico.
Dizer que a dívida estava em R$ 6,8 trilhões, em novembro passado, não revela muito sobre a solvência do Estado. Mas, avaliar esse estoque de dívida em relação ao PIB, comparando-o com o mesmo cálculo para um momento passado, ajuda a analisar se o endividamento está subindo em ritmo maior ou menor que o do PIB, isto é, da economia, que afeta diretamente a arrecadação do governo e sua capacidade de pagamento, portanto.