Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
quarta-feira, 8 de abril de 2026
terça-feira, 7 de abril de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Cidades sem receita própria distorcem federalismo
Por Folha de S. Paulo
Em 4 de cada 10 municípios, repasses federais
e estaduais respondem por 90% ou mais dos orçamentos
Pior ainda, cidades passaram a receber
montantes anômalos oriundos de emendas parlamentares destinados, no geral, a
obras paroquiais
Em sistemas federalistas, é esperado que a maior parte da receita pública venha do governo nacional, que tem maior capacidade de tributar em todo o território do país. Também é normal que municípios recebam recursos federais e estaduais, pois arrecadam menos e têm de atender mais de perto aos cidadãos. No Brasil, entretanto, tais relações assumiram proporções disfuncionais.
Quando o crescimento não chega ao eleitor, por Luiz Schymura*
Valor Econômico
Em ano eleitoral, a economia importa, mas
principalmente da forma como ela é sentida, e, até agora, ela cresce, mas ainda
não convence plenamente
Em ano eleitoral, a economia se torna o
principal termômetro político. Quando o PIB avança, o emprego sobe, a inflação
recua e a renda real cresce, o governante costuma colher votos. Quando o quadro
piora, paga o preço. A lógica parece simples. O problema surge quando os
números são bons, mas o eleitor não sente sua vida melhorar.
É o caso do presidente Lula em 2026. Seu terceiro mandato exibe indicadores que, em outros tempos, garantiriam vantagem confortável. O PIB cresceu, em média, mais de 2% ao ano. A taxa de desemprego atingiu 5,6% no terceiro trimestre de 2025, mínima histórica na série do IBGE iniciada em 2012. A massa salarial real segue em alta. A inflação pelo IPCA fechou 2025 em torno de 4% e deve encerrar 2026 no mesmo patamar. São números que qualquer governo exibiria com orgulho. Em condições usuais, esse conjunto sustentaria não apenas avaliação positiva do governo, mas também menor dispersão nas expectativas e maior previsibilidade política.
Do convencional ao conveniente, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back*
Valor Econômico
A questão que deveria ter um debate amplo e
livre é se o regime de metas de inflação trouxe resultados expressivos para o
crescimento econômico do Brasil
Nos anos 1980, no início da reforma do modelo econômico chinês liderada por Deng Xiaoping. Promoveu-se um amplo debate na Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS - Chinese Academy of Social Sciences) antes de implementar a grande reforma. De um lado, economistas chineses com formação em universidades americanas e do outro lado, economistas com formação na tradição milenar. Desse debate amplo, venceu a ala não convencional, ou seja, contra a terapia de choque, adotada na Rússia e no leste europeu.
Como renegociar de dívidas pessoais, por Míriam Leitão
O Globo
A proposta mais adiantada é que os débitos
sejam consolidados, quitados com desconto e garantia do governo, e substituídos
por uma nova dívida, menor e mais barata
O governo e as instituições financeiras estão detalhando o novo programa de renegociação de dívidas. A opção com mais apoio é a de haver uma linha de crédito para que, na renegociação, o devedor quite a dívida antiga mais cara com desconto. E fique com uma nova dívida, menor e mais barata, parte dela assegurada pelo Fundo Garantidor de Operações. Por causa dessa garantia, a taxa de juros poderá ser substancialmente menor. Neste momento, estão identificando qual será o público-alvo. Já se sabe que o foco principal é inadimplentes com renda até três salários mínimos, e se estuda um mecanismo para devedores com renda acima desse valor.
Dança das cadeiras, por Merval Pereira
O Globo
Cerca de 120 parlamentares aproveitaram a
janela para trocar de partido, confirmando a tendência direitista do Congresso
e dos governos estaduais e consolidando a candidatura à Presidência do senador
Flávio Bolsonaro.
O encerramento da janela partidária provocou uma reorganização do sistema político brasileiro, mantendo, porém, a predominância de partidos da direita. Houve crescimento do PL — que está com a maior bancada, próxima dos cem deputados federais —, diminuição significativa do União Brasil e crescimento, em número de parlamentares e em influência nacional, do PSD. Este cresceu no Rio Grande do Sul, no Nordeste e em estados-chave como Minas e São Paulo. Cerca de 120 parlamentares aproveitaram a janela para trocar de partido, confirmando a tendência direitista do Congresso e dos governos estaduais e consolidando a candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro.
Mundo mudará com guerra no Irã, por Fernando Gabeira
O Globo
Conflito pode redefinir o panorama
internacional como poucos grandes acontecimentos históricos fizeram
O Estreito de Ormuz está fechado. Muitos
afirmam que Trump poderia proclamar vitória com sua abertura. Acontece que ele
sempre esteve aberto antes da guerra. Nesse caso, o objetivo do conflito seria
alcançar algo que já existia antes dele.
Franz Kafka escreveu um conto em que um homem espera muito tempo na porta de uma fortaleza até descobrir que ela sempre esteve aberta. O castelo de Kafka simboliza o poder emaranhado em inúmeras medidas burocráticas. O Estreito de Ormuz, que o Irã partilha com Omã, sempre esteve lá como passagem de um quinto do petróleo mundial.
IAs têm emoções, por Pedro Doria
O Globo
Só não sabemos se também as sentem. Se as
sentirem, teremos de repensar toda a relação
Nos últimos dias, a equipe de pesquisa da Anthropic publicou um artigo científico provando que inteligências artificiais (IAs) têm emoções. O verbo é escolhido com cuidado, aqui. Não é que sintam emoções — elas têm emoções. Ou as simulam. Os cientistas testaram 171 emoções diferentes, de felicidade a desespero, passando por um momento taciturno ou mesmo triste. O problema do estudo é que ele abre uma bifurcação na estrada ética das IAs. Precisamos compreender melhor o que são essas emoções. Se, além de as terem, elas também sentem.
Em ‘Política como destino’, uma linha do tempo de Geisel a Temer, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Moreira Franco transita com
naturalidade por episódios envolvendo lideranças como José Sarney, Ulysses
Guimarães e Tancredo Neves
O ex-governador fluminense e ex-ministro Moreira Franco lançará nesta quarta-feira (8/4), em Brasília, na Fundação Ulysses Guimarães (SHIS QI 15, conjunto 14, casa 18), a partir das 17h30, a autobiografia “Política como destino” (Topbooks), uma longa entrevista concedida à socióloga Aspásia Camargo, com participação especial do filósofo Denis Lerrer Rosenfield. Mergulho nos bastidores do poder, o livro combina memória pessoal, análise política e uma coleção de “causos”, da distensão do governo Geisel ao de Michel Temer (MDB), que assumiu o poder com o impeachment de Dilma Rousseff.
Entrevista | Cristovam Buarque: "divisão enfraquece narrativa progressista"
Por Raphaela Peixoto / Correio Braziliense
Pré-candidato a deputado federal pelo PSB,
Cristovam Buarque defende unificação do campo progressista e cobra
responsabilização pela crise no BRB. Ele também explica seu retorno à política
aos 82 anos: "Uma omissão ficar em casa"
Recém-filiado ao Partido Socialista
Brasileiro (PSB), o ex-governador do Distrito Federal Cristovam Buarque
afirma que o cenário atual o incentivou a voltar para a
política. "Não estava na minha cabeça ser candidato. Mas, diante do
que a gente vê hoje, eu, 82 anos, mas com saúde, é uma omissão ficar em casa
escrevendo", afirmou aos jornalistas Ana Maria Campos e Luiz
Felipe, no Podcast do Correio.
Cristovam relatou que a mudança de partido ocorreu devido a divergências internas no Cidadania, o que classificou como alvo de um "golpe cartorial". "Eu não saio do partido, eu saio da sigla. O meu partido eu levo comigo", declarou o político. O ex-governador integrou um bloco de políticos que buscou abrigo na legenda liderada nacionalmente por Carlos Siqueira e João Campos.
‘A Prática da Estratégia’, por Paulo Hartung
O Estado de S. Paulo
Relevante é um olhar à estratégia em que se conjuguem o desejar e o agir, posto que um sem outro pode redundar em mera perda de tempo
Um mestre do planejamento no Brasil acaba de lançar um livro de referência sobre o tema. Em A Prática da Estratégia, Claudio Porto reúne conceitos fundamentais, dicas e um passo a passo para implementação de iniciativas e estudos de caso – nacionais e internacionais –, a partir de sua experiência de mais de meio século como estudioso e consultor nessa área. Na apresentação, o autor assinala que “o livro foi escrito para pessoas que protagonizam a construção do futuro de algo de interesse comum”. Esses “agentes podem se organizar como entes privados, públicos ou híbridos, formais ou informais”, tendo um “futuro desejado em comum e não efêmero”. Nesse contexto, a estratégia “é o produto ou o instrumento dos agentes para orientar e fazer a construção do futuro que eles desejam”.
Os pobres pagam pela crise mundial, Por Jorge J. Okubaro
O Estado de S. Paulo
São frequentes projeções de crise das
finanças públicas em futuro próximo, com risco para a sustentação de
importantes programas, especialmente na área social
Para desconsolo de operadores do mercado financeiro, a ganhadora do Prêmio Nobel de Economia de 2019, a francesa Esther Duflo, tem vindo ao Brasil e falado sobre o País com mais frequência do que gostariam. Duflo tem discorrido sobre temas que a tornaram reconhecida mundialmente, como pobres, combate à pobreza, taxação dos muitos ricos, políticas sociais inclusivas. São temas perturbadores aos que se dedicam a acumular riquezas, para si ou para terceiros.
Papai Noel fora de época, por Eliane Cantanhêde
O Estado de S. Paulo
Pacote de bondades do governo Lula tem dois motivos, a guerra do Irã e a (re)eleição
O presidente Lula assistia ao desmoronamento
de sua reeleição de camarote, ou saltitando, para mostrar energia e juventude,
mas a realidade e as pesquisas puseram o Planalto e o próprio Lula em estado de
alerta. E lá vem o tradicional pacote de bondades de ano eleitoral.
Quem paga não é o coelhinho da Páscoa, que já passou, nem Papai Noel, que só chega em dezembro. Logo, é você!
Onipresente invisível, por Carlos Andreazza
O Estado de S. Paulo
Alexandre de Moraes voou em avião de Daniel
Vorcaro – sempre será de uma empresa de Vorcaro – e se encontrou com o
banqueiro no dia seguinte, de acordo com o Estadão. Embarcou, sem a esposa, em
táxi aéreo contratado pelo escritório Barci de Moraes (da esposa) para
deslocamento de seus advogados.
Xandão, que não era advogado na banca, viajou em 7 de agosto de 2025, em jato da onipresente Prime Aviation, e esteve com Vorcaro no dia 8, em São Paulo, conforme interpretação da mensagem do banqueiro à namorada: “Tô com Alexandre e tenho reunião depois com Ciro”. (Ciro seria o Nogueira, senador.) Foram algumas as viagens xandônicas nas asas da Prime, conforme levantara Monica Bergamo na Folha.
Preços de combustíveis antecipam eleição inflamável, por André Borges
Folha de S. Paulo
Programas e áreas mais sensíveis do governo são
ameaçados por impactos da guerra
Medidas têm efeitos limitados sobre gás de
cozinha e combustíveis de aviação e caminhões
As bombas de combustível e os botijões de gás
anteciparam as eleições no país. Entre vacinas de efeito econômico, o
governo Lula recorre
a medidas para se proteger dos estilhaços políticos causados pela guerra
no Oriente Médio.
O que está em jogo é o controle da inflação em ano eleitoral e o impacto direto em programas populares. O que se passa no distante Estreito de Ormuz mexe com os botijões do gás de cozinha que sacodem nas carrocerias de caminhões país afora, levando o Gás do Povo.
Direita evangélica racha com apoio de bispo a Caiado, por Juliano Spyer*
Folha de S. Paulo
A cerimônia que lançou Ronaldo Caiado como
pré-candidato do PSD à Presidência contou com um gesto politicamente relevante:
o apoio público do bispo Samuel
Ferreira. O episódio expõe a fragilidade do vínculo entre Flávio
Bolsonaro e parte expressiva das lideranças evangélicas.
Ferreira comanda uma das principais estruturas do pentecostalismo brasileiro: a Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil Ministério de Madureira (Conamad). Uma rede, como o bispo anunciou, com 42 mil templos distribuídos pelo país e cerca de 102 mil pastores.
Não tem como dar certo, por Hélio Schwartsman
Folha de S. Paulo
Coluna lista sugestões que podem ajudar na
crise de credibilidade do STF
Reduzir proximidade de ministros com
políticos e empresários seria primeiro passo
Não sei como resolver a crise
de credibilidade no STF. Mas,
inspirando-me na experiência de outros países e instituições, listo algumas sugestões
que, se adotadas, poderiam minorar o problema no futuro.
Uma primeira providência seria limitar as oportunidades de interação, sobretudo aquelas em clima festivo, entre ministros do STF e políticos e empresários que possam vir a julgar. É preciso evitar que esbarrões sociais se transformem em belas amizades. O magistrado ideal nem deveria conhecer seus jurisdicionados. Poderíamos nos inspirar no que já fizeram sul-africanos e bolivianos e transferir a sede do Judiciário para uma cidade diferente daquela que abriga os outros Poderes. Proponho Palmas (TO).
Banalizada, corrupção não predomina no debate eleitoral, por Alvaro Costa e Silva
Folha de S. Paulo
Farra das emendas e supersalários estão
ausentes da discussão
Candidaturas de direita têm como prioridade
indulto a Bolsonaro
Em 1989, os brasileiros puderam escolher pelo
voto direto, após 29 anos, um novo presidente. Ganhou Fernando
Collor, ligado à ditadura militar, favorito da mídia e da elite
econômica, autodenominado "caçador de marajás", com discurso de
combate à corrupção e aos privilégios do funcionalismo.
A eleição foi uma festa, com tudo o que as festas podem ter de exagero e ridículo. Na cédula eleitoral havia 22 nomes, entre os quais o de Marronzinho, que se identificava como "analfabeto inteligente". Terminou em 13º lugar, com 0,3% dos votos. Em 10º, ficou Ronaldo Caiado, com 0,7%.
As palavras e as armas, por Ivan Alves Filho
segunda-feira, 6 de abril de 2026
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
EUA completarão 250 anos com democracia em crise
Por O Globo
Estudos comparativos demonstram que, sob
Trump, liberdades e direitos civis estão em recuo flagrante
No fim do século XVIII, as nações bem-sucedidas no mundo eram basicamente monarquias. O experimento democrático inaugurado nos Estados Unidos com a independência em 1776 e a Constituição em 1789 foi, sob qualquer aspecto, revolucionário. De lá para cá, a ideia de uma república democrática se espalhou pelo mundo. É irônico, diante disso, que os americanos estejam prestes a comemorar os 250 anos de sua independência justamente numa época em que a democracia sofre forte erosão. Os efeitos negativos do primeiro ano do segundo governo de Donald Trump têm sido constatados nas principais avaliações objetivas de democracia e liberdade publicadas nos últimos dias.
Sem propostas por ora, Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado se apoiam em anistia aos golpistas, por Vinícius Nunes
CartaCapital
Promessa de perdão a Jair Bolsonaro domina
discurso de pré-candidatos que disputam os mesmos votos e ainda carecem de
agenda concreta para o País
A primeira
declaração de Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás,
como pré-candidato à Presidência da República foi prometer uma anistia “ampla,
geral e irrestrita” aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro, incluindo o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Condenado a 27
anos e três meses por participação na trama golpista, Bolsonaro cumpre
prisão domiciliar temporária.
O movimento de Caiado atinge diretamente a
estratégia de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em pré-campanha pelo País, o
senador tem reiterado que seu principal compromisso é com o pai e que pretende
“repetir” o governo findado em 2022. A anistia, até então uma das principais
bandeiras do senador, passa a ser compartilhada e disputada por outro nome do
mesmo campo político.
Além da convergência no discurso, Caiado tem adotado uma linha de oposição frontal ao governo Lula (PT), reforçando o posicionamento à direita e afastando qualquer tentativa de “terceira via”. Ao lançar sua pré-candidatura, o ex-governador também intensificou críticas ao Planalto e buscou se apresentar como alternativa mais experiente, em contraste com Flávio, que nunca ocupou cargos no Executivo.
Conspiração Condor, por Miguel de Almeida
O Globo
'Conspiração Condor' reconta, quase em
sequência, o fim dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e Jango Goulart e do
ex-governador Carlos Lacerda
Em 1961, Jango Goulart estava em visita oficial à China quando Jânio Quadros renunciou à Presidência. Os protobolsonaristas usam esse episódio para tentar pespegar em Jango a pecha de comunista. Mais de dez anos depois, em 1972, Richard Nixon, um direitista corrupto, foi à China atrás de relações e negócios. Nixon pulou do cargo para não ser cassado (era desonesto). Jango, um latifundiário gaúcho, típico reformista social, se viu obrigado a fugir do país por um golpe militar. Por trás de sua (e nossa) desgraça, estava o governo dos Estados Unidos, que manietou e financiou políticos brasileiros.
E se Vorcaro não for o cabeça da organização criminosa? Por Bruno Carazza
Valor Econômico
Delação premiada muda de figura se ficar comprovado que dono do Master era na verdade um intermediário de favores entre empresários e políticos
Em duas colunas recentes expus meu ponto de
vista de que a celebração de um acordo de colaboração premiada com Daniel
Vorcaro seria desnecessária e contrária ao interesse público. Recentemente,
porém, um observador muito mais arguto das conexões espúrias entre o mundo
empresarial e a classe política abalou as minhas convicções.
Minha posição contra a delação do dono do Master se baseava em três argumentos. De um lado, a apreensão dos celulares e computadores das figuras centrais da gestão do banco, assim como a decretação da liquidação extrajudicial das instituições financeiras ligadas ao grupo, dariam à Polícia Federal e ao Ministério Público elementos suficientes para “seguir o dinheiro” e expor a teia de corrupção montada pelo banqueiro mineiro. Nesse caso, um acordo de delação teria pouco a acrescentar ao trabalho de investigação e, assim, não atenderia ao critério de “colaboração eficaz” exigido pela legislação brasileira.
Guerra piora cenário para BC, e governo não ajuda, por Alex Ribeiro
Valor Econômico
A despeito dos juros altíssimos, a economia segue superaquecida, e o Copom não tem auxílio nenhum da atividade econômica para baixar a inflação
O mercado financeiro está revendo as suas
apostas para a queda de juros no fim deste mês, em reunião do Comitê de
Política Monetária (Copom) do Banco Central. Primeiro, o prognóstico dominante
era um corte de 0,5 ponto percentual na taxa Selic e, agora, o cenário mais
provável é uma redução de 0,25 ponto percentual, segundo as probabilidades
embutidas nas opções de Copom da B3.
O Banco Central deixou todas as opções em aberto. Seu presidente, Gabriel Galípolo, pediu “tempo para entender” como a guerra no Oriente Médio vai afetar a inflação. Outro ponto de interrogação é a quantas anda a atividade econômica dentro do Brasil, em meio a medidas de impulso fiscal e creditício que atrapalham a transmissão da política monetária.
IA ajuda e atrapalha, por Irapuã Santana
O Globo
Ao usarmos a inteligência artificial para
evitar o esforço da concentração, enfraquecemos nosso cérebro
A inteligência artificial (IA) generativa é,
sem dúvida, uma das ferramentas mais transformadoras da História recente,
permitindo traduzir pensamentos complexos e automatizar tarefas rotineiras, com
o potencial de aumentar a eficiência global. No entanto, à medida que essas
ferramentas se tornam onipresentes, surgem perigos invisíveis que ameaçam a
própria essência do intelecto humano, podendo afetar a nossa capacidade de
pensar de forma independente e crítica.
O estudo recente intitulado “Sycophantic chatbots cause delusional spiraling, even in ideal bayesians” (Chatbots sicofantas causam espirais delirantes, mesmo em bayesianos ideais) revela um desses riscos estruturais. Os autores demonstram que as IAs tendem a concordar com o usuário e validar suas opiniões, mesmo quando estão erradas, para parecer mais prestativas.
Incapacidade de surpreender, por Diogo Schelp
O Estado de S. Paulo
Lula 3 falha em popularidade porque perdeu a chance de surpreender
Em outros tempos, o plano de reeleição de Lula não deveria parecer tão incerto. Seu terceiro mandato desfruta de estabilidade política, sem as tensões produzidas pelo Poder Executivo contra o Judiciário, o Legislativo e os governadores estaduais durante o governo de Jair Bolsonaro, e cumpriu a promessa de manter a ordem democrática no País, apesar das fragilidades que persistem. Os indicadores econômicos não são dos piores – riscos fiscais à parte. O PIB faz o seu tradicional voo de galinha, o índice de inflação em 2025 foi o mais baixo desde 2019 e a taxa de desemprego está na mínima da série histórica (a informalidade, porém, continua alta). Deveria ser o suficiente para obter a continuidade no poder.
A guerra e a História, por Denis Lerrer Rosenfield
O Estado de S. Paulo
Pensar a História descartando a guerra como categoria de pensamento e como forma da natureza humana é um luxo que não mais podemos nos dar
Pensar a guerra, eis uma tarefa primordial de nosso tempo. Tempo de profundas transformações, em que o arcabouço vigente desde a 2.ª Guerra Mundial está desmoronando a olhos vistos. O que valia começa a cessar de valer, com os referenciais geopolíticos explodindo. Os interesses dos Estados, sobretudo os mais poderosos, simplesmente se afirmam enquanto tais, com os demais devendo se acomodar a essa nova situação. Trilhar a diplomacia num contexto desse tipo exige grande habilidade, quando não o silêncio, diante de circunstâncias que são incontornáveis. De nada adianta, como faz a diplomacia lulista, confrontar retoricamente Trump se não tiver força para fazer valer a sua posição. O Brasil será apenas o grande prejudicado.
A opção Caiado: recursos e confiança, por Lara Mesquita*
Folha de S. Paulo
Histórico do ex-governador de Goiás ajuda a
entender a escolha do PSD para eleição presidencial
Eduardo Leite tem dificuldade de articulação
política e questionava as decisões do partido
Este sábado encerrou uma etapa crucial do
calendário eleitoral. Foi o fim do prazo para desincompatibilização de
cargos públicos, filiação partidária e mudança de domicílio eleitoral por
aqueles que pretendem disputar mandato eletivo neste ano.
São 17 ministros do governo Lula e 11 governadores que deixaram seus postos com foco na disputa eleitoral. Entre eles está o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, personagem clássico da política brasileira. Participou de todas as eleições desde 1989, já tendo concorrido à Presidência, ao Governo de Goiás, à Câmara dos Deputados e ao Senado. Também figura entre os governadores com maior riqueza pessoal do país.
O controle da corrupção e o corte de orelhas, por Marcus André Melo*
Folha de S. Paulo
Que as maiorias legislativas são inimigas do
controle não é novidade; o mal maior é quando os inimigos do controle são os
próprios controladores
É o problema canônico do quem guarda os
guardiões
A análise das origens do controle parlamentar de contas públicas —o qual teve como palco a Guerra Civil Inglesa (1642-1651)— é particularmente instigante pelo seu simbolismo. As demandas por controle e transparência foram protagonizadas por William Prynne, membro da oposição no Parlamento. Prynne teve as orelhas cortadas como punição à audácia de querer que o governo prestasse contas, como relatado por Jacob Soll, em "The Reckoning: Financial Accountability and the Rise and Fall of Nation". Mas sobreviveu. Quem não sobreviveu foi o rei que teve a cabeça cortada.
Por uma universidade com a cara do povo brasileiro, por Ana Cristina Rosa
Folha de S. Paulo
A ampliação do acesso do povo às
universidades se reflete nas esferas econômica, social e cultural
Multiplicam-se os ataques contra as ações
afirmativas, especialmente contra cotas étnico-raciais
Ouso dizer, sem medo de errar, que a
democratização do ensino superior com a implementação
das cotas é a política pública mais eficiente e eficaz já
adotada pelo Estado para enfrentar as inequívocas e múltiplas desigualdades que
separam as elites das camadas populares da sociedade brasileira.
A ampliação do acesso do povo às universidades produziu um efeito que supera o campo da política educacional e se reflete nas esferas econômica, social e cultural ao abrir portas que historicamente estiveram cerradas aos mais pobres —em especial aos negros.
O espião festivo, por Ruy Castro
Folha de S. Paulo
John Mowinckel, adido cultural americano na
ditadura, era uma figura em Ipanema
Os guerrilheiros cogitaram sequestrá-lo, mas
mudaram de ideia; não seriam levados a sério
Não perco os obituários do The New York Times. Seus mortos, famosos ou não, são sempre fascinantes —ou talvez os obituaristas os tornem assim. Esta semana, morreu aos 105 anos, em Roma, Letizia Mowinckel, viúva de um diplomata americano, amiga dos costureiros europeus e consultora informal de moda da chique Jacqueline Kennedy, primeira-dama dos EUA com John Kennedy (1961-63) presidente.
domingo, 5 de abril de 2026
Opinião do dia – Antonio Gramsci*
I. Alguns pontos preliminares de referencia
§ 12. E preciso destruir o preconceito, muito
difundido, de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser a atividade
intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados
ou de filósofos profissionais e sistemáticos.
É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente
que todos os homens são “filósofos”, definindo os limites e as características
desta “filosofia espontânea”, peculiar a “todo o mundo”, isto é, da filosofia
que está contida: 1) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de
conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias
de conteúdo; 2) no senso comum e no bom senso; 3) na religião popular e,
consequentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos
de ver e de agir que se manifestam naquilo que geralmente se conhece por
“folclore”.
Após demonstrar que todos são filósofos,
ainda que a seu modo, inconscientemente — já que, até mesmo na mais simples manifestação
de uma atividade intelectual qualquer, na “linguagem”, está contida uma
determinada concepção do mundo —, passa-se ao segundo momento, ao momento da crítica
e da consciência, ou seja, ao seguinte problema: é preferível “pensar” sem
disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é,
“participar” de uma concepção do mundo “imposta” mecanicamente pelo ambiente
exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente
envolvidos desde sua entrada no mundo consciente (e que pode ser a própria
aldeia ou a província, pode se originar na paroquia e na “atividade
intelectual” do vigário ou do velho patriarca, cuja “sabedoria” dita leis, na
mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado
pela própria estupidez e pela impotência para a ação), ou é preferível elaborar
a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica e, portanto,
em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de
atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia
de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da
própria personalidade?
*Antonio Gramsci (1891-1937), Caderno 11 (1932-1933)
– Introdução ao estudo da filosofia. Cadernos do Cárcere, v.1 p.93-4. Editora
Civilização Brasileira, 2008.
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
Duvidar de eleições é golpismo de Flávio Bolsonaro
Por Folha de S. Paulo
Filho do ex-presidente mostrou mais uma vez
que bolsonarismo moderado é um oxímoro
Nos Estados Unidos, declarou que a disputa
presidencial deste ano só será justa se os votos levarem a sua vitória; direita
populista degrada debate
Em maio de 2022, durante as tentativas do
então presidente Jair
Bolsonaro (PL) de desacreditar as
eleições brasileiras por meio de ataques às urnas eletrônicas e outras teorias
conspiratórias vazias, a Folha registrou
neste espaço:
"[Jair Bolsonaro] atiça os ânimos de alguns poucos dispostos a participar de seus ensaios golpistas, que alternam intimidações e recuos enquanto se mantém elevado o risco de derrota em outubro. Trata-se de uma ofensiva estúpida contra uma valiosa conquista nacional e, ao fim e ao cabo, contra todos os eleitores e eleitos do país".
Divagações, por Dorrit Harazim
O Globo
De aparência passiva, o cinismo esconde uma
capacidade perversa de alimentar as vilezas do viver em sociedade
A ideia era fazer uma pausa neste domingo de Páscoa — arquivar por um mísero dia qualquer noticiário de guerra e deixar falar a poesia. A intenção brotou do acaso, em meio à inescapável leitura sobre a insanidade do confronto no Irã. Um dos analistas da atualidade citava um poeta persa do século XII, Attar de Nishapur, e sua obra mais célebre, “A conferência dos pássaros”. Nela, o poeta narra a história de todos os pássaros do mundo que, por não terem rei, partem em revoada à procura de um soberano. Cada alado representa uma das falhas humanas que impedem o mundo de encontrar sua luz. Em conjunto, escolhem por guia uma poupa de grande sabedoria, que lhes informa qual será o teste de determinação: atravessar sete vales místicos. São eles os vales da Busca, do Amor, do Conhecimento, do Desapego, da União, do Maravilhamento, da Pobreza e Aniquilação.
A vassalagem do 'Bolsonaro 2.0, por Bernardo Mello Franco
O Globo
Senador sugeriu que eleição presidencial só
será ‘livre e justa’ se ele vencer
Flávio Bolsonaro quer convencer o governo americano a interferir na eleição brasileira a seu favor. O filho do capitão fez o pedido no Texas, terra dos caubóis. “Apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente”, conclamou, no fim de semana passado. Para o senador, as instituições funcionam quando se dobram ao autoritarismo do pai.
Palavras ao vento, por Merval Pereira
O Globo
A expressão "estar de chico", como Neymar se referiu ao árbitro do jogo com o Remo, segundo gramáticos portugueses, significa estar emporcalhado. Não se usa apenas para mulheres menstruadas e sim para pessoas com aspecto de sujidade.
Quando a fala de Neymar, dizendo em tom de piada crítica que o juiz da partida Santos e Remo “estava de chico”, no sentido de irritadiço, nervoso, provocou enorme polêmica, seria bom atentar para certas nuances da língua portuguesa e, sobretudo, à cultura popular, muito impregnada de um machismo estrutural que se resolverá através da educação, não da repressão. De fato, a expressão “chico” vem do norte de Portugal, onde tem vários significados, entre eles como sinônimo de "porco". Daí a palavra “chiqueiro”.














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