sábado, 27 de setembro de 2008

Paes lidera com 29%; Gabeira sobe e embola disputa pelo 2º turno


DA SUCURSAL DO RIO
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Candidato do PV foi de 11% para 15%; Crivella (PRB) se mantém com 18% e Jandira (PC do B) permanece com 13%


Cesar Maia, que encerra dois mandatos na Prefeitura do Rio, é reprovado por 36% dos entrevistados; governo tem a aprovação de 22%

A nove dias da eleição, pesquisa Datafolha mostra que Eduardo Paes (PMDB) ampliou a liderança pela Prefeitura do Rio, com 11 pontos à frente, e retrata um acirramento na disputa pelo segundo lugar, com Fernando Gabeira (PV) tendo crescido quatro pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.

Paes foi de 26% para 29%, Marcelo Crivella (PRB) manteve 18%, Gabeira subiu de 11% para 15%, e Jandira Feghali (PC do B) permaneceu com 13%. A margem de erro é de três pontos, para mais ou para menos.

"A distância entre Crivella e Jandira está no limite do empate técnico. Podemos dizer que ele está na frente dela. Mas entre Crivella e Gabeira há, de fato, empate. A clara ascensão de Gabeira é o destaque desta pesquisa", disse Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha.

O peemedebista oscilou três pontos positivamente, tendo os maiores índices de apoio entre os que têm mais de 60 anos (36%), entre os que têm até ensino fundamental (33%) e entre os que ganham até dois salários mínimos (33%).O candidato do PRB tem penetração nas mesmas fatias de eleitorado de Paes, atingindo 27% dos votos entre os eleitores com ensino fundamental e 25% dos eleitores que ganham até dois salários mínimos.

Gabeira é mais forte entre os jovens, faixa em que obtém 20%, entre os que têm ensino superior (26%) e entre os que recebem mais de dez salários mínimos (32%).

Jandira mantém percentuais entre 11% e 14% nas diversas faixas de renda e escolaridade.

O crescimento de Gabeira se deve principalmente à sua performance entre os mais ricos e escolarizados. Gabeira saltou 12 pontos (de 20% para 32%) entre os que ganham mais de R$ 4.150, faixa em que Paes perdeu nove pontos (foi de 30% para 21%). Crivella oscilou positivamente de 7% para 9%.

Entre os eleitores com nível universitário, o candidato do PV tinha 18% e pulou para 26%. O peemedebista tinha 25% e foi para 22%. O postulante do PRB permaneceu com 7%.

Os demais candidatos continuam distantes. Alessandro Molon (PT) foi de 4% para 5%. Solange Amaral (DEM), apoiada pelo prefeito Cesar Maia, está numa linha descendente: no início do mês tinha 7%, passou para 5% em meados de setembro e hoje tem 4%. Chico Alencar (PSOL) permanece com 3%. Os outros não superam 1%.

Cesar Maia, que encerra dois mandatos à frente da prefeitura, é aprovado por 22% dos eleitores e reprovado por 36% deles. Mesmo entre os que avaliam sua administração como ótima ou boa, Paes lidera com 36%, Crivella tem 16%, Gabeira, 12%, e Solange, 11%.

O Datafolha não fez simulações de segundo turno envolvendo Gabeira. Paes bateria Crivella por 57% a 30%, e Jandira, por 48% a 41%. A candidata comunista venceria o rival do PRB por 52% a 34%, no caso de confronto direto entre eles.Cresceu de 30% para 35% o número de entrevistados que dizem que Paes está se saindo melhor no horário gratuito.

A avaliação de Gabeira também subiu, passando de 7% para 13% os que dizem que ele tem o melhor programa. Já a de Crivella caiu quatro pontos, passando de 16% para 12%.

O Datafolha ouviu 1.184 pessoas ontem e anteontem. Recebeu o registro RPE 35/2008.

Gabeira fica feliz com pesquisa

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Segundo o Ibope, candidato do PV já teria ultrapassado Jandira Feghali

A passagem de Fernando Gabeira (PV) para o terceiro lugar na pesquisa de intenção de voto realizada pelo Ibope, e ainda não divulgada, embolou ainda mais a disputa de quem vai para o segundo turno. Conforme adiantou o repórter Leandro Mazini, da coluna Informe JB, Gabeira está com 11%, um ponto percentual à frente da candidata do PCdoB, Jandira Feghali, o que caracterizaria empate técnico. O prefeitável do Partido Verde recebeu a notícia com entusiasmo, e considera que sua campanha está em uma reta ascendente com os eleitores.

– Acho que essa subida na pesquisa indica uma tendência, que deve seguir até o dia da eleição – acredita Gabeira.

O efeito decisivo e o efeito marginal


Jairo Nicolau
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


O apoio de Lula será um fator decisivo nas eleições municipais deste ano?


A CAMPANHA eleitoral deste ano tem reforçado duas tendências já vistas em eleições anteriores. Na falta de nome melhor, vou chamar a primeira de rotinização das campanhas.Desde a redemocratização, esta é a sétima eleição para prefeitos e vereadores. As eleições já não são mais a novidade que eram na década de 80.

Aos poucos elas foram assumindo um caráter menos excepcional e mais rotineiro. As campanhas ficaram mais curtas, mais concentradas na TV, viram a maioria dos militantes voluntários desaparecerem, poluem menos as cidades e despertam menos interesse dos eleitores e da imprensa.

Vejo a cobertura rarefeita que a campanha tem recebido dos jornais neste ano e lembro dos cadernos especiais de outras disputas. Observo os carros sem adesivos e lembro de eleições passadas, quando avaliava a força do candidato contando os adesivos.

A segunda tendência é a concentração da discussão da campanha nos temas locais. Aos poucos, eleitores vão aprendendo quais são as reais atribuições do prefeito. Aprendem que ele tem responsabilidade pelo trânsito da cidade, mas pouco pode fazer para gerar emprego em larga escala. Aprendem que as prefeituras podem cuidar bem da educação infantil, mas não da superior. Aprendem que, por mais que se diga o contrário, a responsabilidade maior pela segurança pública é do governador, e não do prefeito.

Cada cidade tem sua agenda particular. Em algumas, a disputa assume um caráter plebiscitário, sobretudo quando o prefeito atual concorre à reeleição. Em outras, a disputa se dá em torno de umas poucas famílias/ grupos dominantes. Em alguns lugares, os partidos influenciam mais a disputa. Em outros, vale o peso de lideranças carismáticas. Mas, em quase todas elas, candidatos e eleitores estão pensando nos problemas e soluções de sua cidade, de costas para o que acontece em outros lugares.

Não conheço candidato a prefeito que tenha sido vitorioso falando de temas nacionais ou concentrando seu programa em grandes questões doutrinárias. A última vez que a política nacional influenciou para valer uma disputa para prefeito foi em 1988, quando o Exército invadiu a CSN, matou e feriu trabalhadores. O evento, ocorrido poucos dias antes do pleito, comoveu o país e produziu uma maré de votos para os partidos de esquerda nas maiores cidades. Alguns analistas e parte da imprensa parecem não gostar da tendência ao municipalismo das eleições e buscam desesperadamente sinais de nacionalização. A premissa é que uma eleição municipal determinará a disputa de dois anos depois. 2008 teria que explicar 2010. Por isso, tanto espaço para os bastidores da escolha em Belo Horizonte. Por isso, a importância da disputa na cidade de São Paulo.

Por isso, o presidente deve influenciar decisivamente o pleito deste ano.Porém, as evidências dessa associação são tênues. Para ficar em um exemplo: em um estudo, comparei os votos obtidos por Lula em 2008 com os dos PT em 2006 e descobri que a associação estatística entre eles é praticamente inexistente.

Pelo que vi em outras campanhas e pelo que tenho acompanhado nesta, continuo convencido de que as eleições municipais são movidas basicamente pelos temas locais. Os atores externos à vida municipal têm quase sempre efeito marginal sobre o resultado final da disputa.

Quando sugiro que as coisas se passam assim ouço a pergunta inevitável: não será diferente com Lula? Não adianta lembrar que já houve uma eleição em 2004, no meio do primeiro mandato de Lula, e que os efeitos de seu apoio não foram tão expressivos.

A confusão talvez ocorra por conta do que cada um de nós chama de influência. Ou, como está na pergunta de hoje, o que cada um entende como "fator decisivo". Não duvido de que o apoio do presidente possa ajudar alguns candidatos a subir um pouco.

Em uma disputa muito acirrada,esses pontinhos podem até fazer a diferença. Mas isso não é o mesmo que dizer que o apoio do presidente é decisivo.

Dito de outra maneira: sem boas propostas para a cidade, sem ser reconhecido pelos moradores como uma liderança importante, sem conseguir criar uma conexão com eleitores, não há quem se eleja prefeito. Isso determina seu sucesso ou seu fracasso. O resto é, no máximo, efeito marginal.


JAIRO NICOLAU, 44, doutor em ciência política, é diretor de Ensino do Iuperj. Durante as eleições deste ano assina uma coluna na veja.com .

Em busca de um eixo


Marco Aurélio Nogueira
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Foi preciso que Soninha Francine, candidata do PPS à Prefeitura de São Paulo, associasse a Câmara Municipal paulistana a um “balcão de negócios” para que os eleitores se lembrassem de que existem vereadores na capital do Estado. Segundo a candidata, ali é bastante usual a prática de aprovar projetos em troca de cargos, favores e propina. Não foi propriamente uma declaração inédita ou contrária à voz do povo. Mas caiu como uma bomba no plenário do órgão.

A poucos dias do primeiro turno das eleições, os vereadores paulistanos assistem a um prolongamento constrangedor da situação de intransparência em que se encontram, como se entre o Palácio Anchieta e a cidade existisse uma névoa espessa a bloquear a visão dos cidadãos. A opinião pública é indiferente aos vereadores, que são por ela vistos como representantes de si próprios, incapazes de exercer papel positivo na vida urbana, no controle dos atos do prefeito ou no processamento das demandas da população. Poucos eleitores sabem em quem votaram nas últimas eleições, quem foi eleito e em quem votarão no próximo dia 5.

Entre os 55 vereadores paulistanos há, evidentemente, pessoas de mérito, combativas e verdadeiramente preocupadas com a cidade, a começar da própria Soninha, mas não somente dela. Mas estes políticos não parecem ter força e articulação suficientes para dar à Câmara maior peso e relevância, nem para desfazer a imagem negativa e a indiferença popular que a cerca. Se levarmos em conta a complexidade dos problemas urbanos de São Paulo, a dimensão da cidade e as tensões que atravessam o cotidiano de seus moradores, é fácil perceber o prejuízo que se tem com esta situação, que despoja a população de uma instância confiável de representação política.

Devemos, com certeza, relativizar o argumento, pois o problema não se esgota na referência a uma suposta má qualidade dos representantes. Tem que ver com o conjunto do sistema político e não pode ser compreendido fora dele. Expressa a resistência notável de uma cultura política de tipo clientelista e fisiológico que remonta ao Brasil colonial e se reproduz como praga pelas frestas da condição ultramoderna em que passamos a viver, ajudando a dramatizá-la e sendo ao mesmo tempo turbinada por ela. Reflete a perda de eixo das instituições políticas em geral, que ficaram vazias de poder, pobres de imaginação e impotentes diante da força do mercado e da fragmentação social, que não se deixa articular nem dirigir.

Olhando as coisas mais em detalhe, a situação é produto de um sistema eleitoral que personaliza as disputas e incentiva os candidatos a constituírem - para si, e não para seus partidos - nichos de legitimação e conquista de votos que, com o passar do tempo, acabam por corporativizar os parlamentares e atrelá-los a uma lógica particularista cega para o coletivo. Vítimas não inocentes deste sistema, os partidos são por ele arrastados e condicionados. Não participam das eleições como forças ideológicas ou programáticas coesas, não se comportam como expressão de um movimento orgânico dotado de opinião, mas somente como instrumentos de luta pelo poder. Enredados pelos fios perversos do sistema e perdendo inserção na sociedade, deixam de selecionar seus candidatos ou de submetê-los a alguma coerência. Basta dar uma espiada nos personagens que passam pela propaganda gratuita para que se visualize a gravidade da situação. O cenário é marcado pelo mais puro bestialógico.

Os programas eleitorais também dão sua contribuição. São mais midiáticos do que políticos ou educativos. Têm maior qualidade na parte dedicada aos candidatos a prefeito, mas são simplesmente patéticos quando se trata dos candidatos à Câmara. Tratam-nos como secundários, aprisionando-os em camisas-de-força que facilitam as coisas para os mais inexpressivos e tolhem os talentosos. Não abrem espaços para debates que valorizem o trabalho legislativo e expliquem à população a sua importância. Não fomentam a discussão substantiva nem dizem ao eleitor qual a relevância e a posição que tal ou qual candidato tem no partido a que está vinculado.

O círculo se fecha depois das urnas. O sistema não cuida da qualificação dos eleitos. Não agrega nada à bagagem técnica e política com que chegam à Câmara. As sessões plenárias são o que são, não há o que esperar delas. Mas algo poderia acontecer fora delas. No entanto, são raras as tentativas de reproduzir no Palácio Anchieta as iniciativas tomadas, por exemplo, pela Assembléia Legislativa de São Paulo e pelo Congresso Nacional para melhorar a formação e a atualização dos quadros parlamentares, tanto dos políticos quanto dos assessores. Cursos, seminários, debates, conferências, muita coisa poderia ser feita para dar maior consistência às bancadas e aos vereadores.

Haverá, certamente, quem questione este diagnóstico, considere-o exagerado e injusto para com as coisas boas que existem na Câmara. É inegável que lá dentro há vida inteligente e que ao longo do tempo os vereadores têm ajudado a escrever a história política e administrativa da cidade. A Câmara Municipal é um espaço estratégico mal aproveitado, um recurso carregado de potência represada e subutilizada. Tão logo encontre um eixo político que a organize e a politize de forma substantiva, produzirá resultados. Para que isso aconteça precisa entrar na agenda democrática, ser discutida, analisada, criticada.

No mínimo por ter destacado a questão, o alerta de Soninha veio em boa hora. Pode ter sido genérico e impreciso, mas criou um fato e deu aos eleitores uma oportunidade a mais para que reflitam sobre o voto que depositarão nas urnas em 5 de outubro. No curto prazo, não é de prever que a qualidade se altere a ponto de modificar o rumo das coisas. Mas oportunidades existem para serem aproveitadas, e é da concatenação delas no tempo que nascem as grandes transformações.

Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria Política da Unesp, é autor dos livros Em Defesa da Política (Senac, 2001) e Um Estado para a Sociedade Civil (Cortez, 2004)

Aécio prega novas alianças para o 'pós-lulismo'

Letícia Lins
DEU EM O GLOBO

Em Pernambuco, governador de Minas fala como candidato e diz que PSDB, PDT e PSB poderiam se unir em 2010

RECIFE. Em Pernambuco para dar apoio aos tucanos que disputam as eleições municipais, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), comportou-se sem disfarce ontem como candidato à Presidência, já de olho em 2010. Deu até o tom da campanha: o pós-lulismo. Ele argumentou que, fechadas as urnas de 2008, o PSDB vai buscar novos aliados - inclusive PSB e PDT - para que, juntos, construam um projeto para o país. Aécio disse não acreditar que nas eleições presidenciais ocorra a reedição da aliança que hoje sustenta o governo Lula:

- Até porque não cabe todo mundo lá dentro - ironizou. - Após as eleições municipais, o PSDB tem que construir um projeto para o Brasil. E aí poderemos ter novos aliados, que hoje estão no guarda-chuva de Lula, na sua base, mas que eventualmente não estarão apoiando uma candidatura do PT. O PSB e o PDT são alternativas. Acredito que, se apresentarmos um projeto ousado e otimista para o país, teremos, sim, condições de construir uma aliança para o pós-lulismo.

Aécio falou, inclusive, da possibilidade de se aproximar do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), um aliado fiel de Lula:

- Tenho grande identidade com Eduardo. Se isso vai nos possibilitar, no futuro, construir um projeto comum, o tempo é que vai dizer. Pessoalmente, gostaria muito - disse, quatro dias após reunir-se com o socialista em Belo Horizonte.

Para tucano, governo Lula deve gastar menos

Aécio condenou os políticos que fazem oposição gratuita:

- O que temos que fazer é qualificar a oposição. Não tem sentido para o PSDB, simplesmente porque perdeu as eleições, desdizer-se, ser contra questões que apoiava, como as reformas política e tributária.

Para o tucano, a oposição não deve se fincar no antilulismo.

- O presidente Lula cumpriu o seu papel. Uns acham que fez muito. Eu acho que fez um governo razoável. Mas a alternância do poder é salutar. O PSDB tem que apresentar e construir uma proposta pós Lula, que passe por reformas e introduza a questão da gestão pública qualificada na agenda do Brasil. Isso, infelizmente, ainda está a léguas de distância do governo que hoje está no Planalto Central. É preciso que o governo compreenda que a gestão de qualidade é necessária, que se gaste menos e melhor, e que se ouse nas reformas.

Auto-elogio e críticas ao governo federal

Para exemplificar o modelo de gestão que propõe, Aécio recorreu ao próprio governo e voltou a criticar o presidente:

- O PSDB tema visão da gestão moderna, gastando menos com a estrutura do Estado e mais com as pessoas. Lula se equivoca e traz um prejuízo ao Brasil no momento em que fragiliza as agências reguladoras, porque está inibindo investimentos importantes.

E recorreu ao auto-elogio:

- Modéstia à parte, digo que em Minas temos avançado muito mais do que avança o Brasil. No segundo trimestre deste ano, de acordo com o IBGE, enquanto o Brasil cresceu 6%, Minas cresceu 9,5%. Igual à China. Minas tinha déficit de R$2,5 bilhões. E hoje investe R$9 bilhões. O emprego formal no Brasil cresceu até julho desse ano 2,2%, comparado com o mesmo período do ano passado. Em Minas, esse crescimento foi de 6,1%. Tenho 15 secretarias. Eram 22. Não há desperdício.

Ele atacou

- Lá (em Minas) não há essa política que o governo federal ainda pratica, de criar cargos e ministérios, órgãos para acomodar companheiros. Em Minas, temos profissionalismo na gestão pública.

À beira do precipício


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. O momento político em Washington é tão confuso que a administração Bush, em fim de mandato, conta com o apoio da maioria democrata no Congresso, mas é bombardeada pela minoria republicana, especialmente na Câmara. Os relatos sobre a reunião da Casa Branca da quinta-feira revelam um presidente atordoado diante da agressividade de seus próprios congressistas, e da óbvia relutância do candidato de seu partido, senador John McCain, em aderir à proposta oficial. Ao contrário, o candidato oposicionista Barack Obama estava muito mais propenso a aceitar o pacote oficial como o início para uma ampla negociação bipartidária.

Uma negociação que jamais teve na Casa Branca um obstáculo, pois nunca houve um "pato manco" mais característico do que o seu atual ocupante. "Pato manco" (lame duck) é como os americanos chamam um político em fim de mandato que não tem condições de fazer seu sucessor. No Brasil diz-se que a esse político não se serve nem café frio no Palácio do Planalto.

Essa "síndrome do pato manco" é exatamente o que faz com que o candidato do partido que está no poder, John McCain, tenha como única chance de vencer a eleição se livrar dos laços partidários que o unem a George Bush, e o pacote de resgate do sistema financeiro é uma questão decisiva nessa percepção.

Como a crise é tão grave que não permite aos republicanos adotar o que defendem em teoria, isto é, a não-intervenção governamental e o estado mínimo, temas que rechearam os discursos na convenção que indicou McCain oficialmente em St. Paul, o que ele procura é uma saída que o separe do pacote oficial e o ligue a um novo pacote, que seria voltado para o cidadão comum, e não para os banqueiros.

Tanto o secretário do Tesouro, Henry Paulson, quanto o presidente do Banco Central, Bem Bernanke, viram logo no primeiro confronto com os parlamentares que não tinham força política para enfrentar a resistência inicial ao pacote que pretendiam fazê-los engolir em questão de horas.

Muitos viram na estratégia do medo que o governo Bush utilizou desde o primeiro momento uma repetição da postura que teve com relação à invasão do Iraque.

Desenhar um futuro cheio de perigos e ameaças para tirar do Congresso a aprovação ao pacote original, que dava superpoderes ao governo na definição da estratégia de compra dos créditos podres, e nenhum compromisso com o contribuinte que, em última instância, é quem pagará a dívida através do aumento do déficit público, era um objetivo politicamente inviável para um governo impopular em fim de mandato.

Mas, enquanto os democratas se dispunham partir da proposta governamental para melhorá-la, os republicanos, ao contrário, pretenderam transformar o pacote original enviado pelo Secretário de Tesouro, Henry Paulson, ao Congresso numa proposta do governo Bush e dos democratas.

A estratégia adotada pelos correligionários de McCain foi rejeitar a proposta da Casa Branca, e eles viram nessa "esperteza" uma possibilidade de virar o jogo a seu favor, mesmo que para isso tivessem que jogar ao mar o presidente Bush e toda sua assessoria econômica.

Eles não trabalham com a possibilidade de não fazer acordo nenhum, porque sabem que alguma coisa terá que ser feita para que a próxima semana não seja a semana do fim do mundo nos mercados financeiros internacionais, não apenas em Wall Street. Mas tentam fazer com que o pacote que afinal irá à votação provavelmente na próxima semana seja visto pela população como uma defesa dos interesses do cidadão comum, e não a proteção dos banqueiros.

Por isso insistem em que, em vez de usar os US$700 bilhões a fundo perdido para pagar pelos créditos podres, o governo apenas faça um seguro desses créditos. Mas, assim como não há certeza entre os economistas de que o plano original de Paulson daria certo, não há também a garantia de que o simples seguro dê ao mercado liquidez suficiente.

Para evitar uma intervenção governamental que pode levar a um prejuízo do contribuinte, o mais provável é que o governo se torne sócio das instituições financeiras que socorrer, o que permitiria uma perspectiva de recuperar o investimento a longo prazo, quando essas instituições tiverem se recuperado da crise.

Os democratas estão claramente à frente das negociações no Congresso, até mesmo porque têm a maioria nas duas Casas, e presidem as principais comissões. Mas, com a saída de Washington de John McCain, houve uma retomada do clima de negociações.

A presença dele impedia nitidamente que as conversas prosseguissem, pois todos os movimentos dos republicanos tinham a intenção de fortalecer sua candidatura, e, como não há uma liderança evidente neste momento entre os republicanos, cada um assume sua posição em público sem consultar os demais companheiros, todos querendo se mostrar mais defensor do que outros dos interesses da "main street" (no sentido de o homem comum da rua), e contra os gananciosos de Wall Street.

Esse será o mote da campanha republicana pós-crise, se for verdade mesmo que a crise aguda será superada com esse pacote. Uma estratégia que pode dar a McCain um fôlego a mais, mas mais provavelmente o colocará na beira do precipício.

O peso do contrapeso


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Sem a mais remota intenção de pregar o arremedo, os acontecimentos em curso nos Estados Unidos nesse período de campanha presidencial servem como aprendizado quando expostos ao cotejo com os usos e costumes políticos brasileiros.

Já tratamos aqui do processo de escolha de candidatos dentro dos partidos - uma eleição direta prévia, se comparada às nossas decisões restritas às conveniências das cúpulas partidárias - e ontem mesmo falamos sobre a consistência dos temas abordados lá, em contraposição às futilidades ditas cá por todos os candidatos sob o beneplácito de um eleitorado culturalmente refratário a cobranças insistentes.

O leitor José Augusto Neves percebe e sugere a abordagem de outro ponto de comparação: os termos da negociação do pacote de US$ 700 bilhões com o qual o governo George Bush pretende socorrer a quebradeira das instituições financeiras.

A despeito da urgência da situação, da proximidade das eleições e da condição sem nenhum conforto do candidato oficial, John McCain, as dificuldades para um acordo que permita a liberação do dinheiro vêm justamente do Partido Republicano.

Não porque os parlamentares pretendam criar dificuldades para individualmente “vender” facilidades à Casa Branca. Simplesmente está no DNA republicano a rejeição à interferência do Estado ao custo de dinheiro público.

Negar a autorização ao presidente está fora do cenário, mas o aval requer o estabelecimento de regras e garantias prévias, cuja negociação se dá à luz do dia. Existem, claro, detalhes atinentes à política interna e ao próprio momento eleitoral que nos escapam à compreensão.

Mas, grosso modo, o que se vê é um Poder Legislativo exercendo seu papel de contrapeso ao peso de eventuais arbítrios do Executivo. Os parlamentares, feios ou bonitos, “cuidam” do uso do dinheiro público antes de cuidar de seus próprios interesses.

Por critérios brasileiros, o primeiro deles seria a submissão inquestionável ao presidente, talvez não para preservar com ele as melhores relações, visto que Bush termina seus dois mandatos com altíssima rejeição popular. Mas, por isso mesmo, para “arrancar” benefícios individuais no momento difícil.

O segundo critério a ser levado em conta por aqui seria o fruto eleitoral: ninguém ia querer se arriscar a pagar a fatura da derrocada por causa de uma discussão árida sobre destinação de recursos públicos sem pagar um charmoso tributo a velharias ideológicas.

Terceiro ponto que não se vê lá é a criminalização do pensamento. Por aqui, nessas alturas, resistências e ponderações já estariam sendo qualificadas como crimes de lesa-pátria. No caso dos EUA, lesa-humanidade.

Isso sem contar que, se debate houvesse, seria sobre a medida provisória já devidamente editada ao arrepio da ilegalidade da concessão de créditos suplementares via MP. A Constituição proíbe, o Supremo recentemente convalidou a regra. Mas, o “vamos que vamos” local não leva em conta esses detalhes.

Balão

Gestos e palavras em defesa da liberdade de expressão têm sempre uma serventia. Mais não seja, a de reafirmar a eventuais incautos a consolidação desse valor na democracia brasileira.

Ainda assim, não se justifica o receio dos promotores de atos públicos e autores de artigos contrários à proposta do governo de quebrar o direito constitucional ao sigilo das fontes de informações, como forma de conter a onda de escutas telefônicas ilegais.
O governo não pretende de verdade investir na “mordaça”. Quando o ministro da Defesa, Nelson Jobim, falou disso na CPI dos Grampos, estava pressionado a provar que a Abin poderia ter grampeado o telefone do presidente do Supremo Tribunal Federal, e queria apenas mudar de assunto.

Tal proposta não passa no Congresso nem ao governo interessa esse inútil desgaste nas esferas mais informadas da sociedade, agora que a popularidade do presidente Lula entra de sola no patamar acima da classe média.

Causa própria

Não há nada de estranho no fato de o governador José Serra atuar nas campanhas de aliados do PSDB País afora, enquanto se mantém na encolha no primeiro turno em São Paulo.

As escaramuças paulistanas só lhe rendem confusão, mas quando aparece no programa de Fernando Gabeira, por exemplo, marca presença no Rio desde já pensando na eleição de 2010.

É claro que Serra não pretende orientar o voto do carioca, assim como Aécio Neves não acredita exercer influência sobre o eleitor quando anda pelas ruas de São Paulo na companhia de Geraldo Alckmin.

Não são os únicos a aproveitar a eleição municipal para aumentar seus respectivos índices de conhecimento no Brasil inteiro. Dilma Rousseff faz o mesmo em seu périplo de “ajuda” aos candidatos do PT.

De forma mais contida, copiam o modelo de Lula que há seis anos alimenta a própria fama.

O imperceptível rombo de bilhões


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

OS SUCESSIVOS SALTOS recordistas da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva furaram o teto baixo da sua modéstia e soterrou a vaidade da origem da criança nordestina que acompanhou a Dona Lindu, mãe de extraordinária fibra de lutadora e os irmãos na mudança de Garanhuns (PB) para São Paulo, onde iniciaria a escalada como líder sindical, fundador do Partido dos Trabalhadores, três vezes derrotado como candidato a presidente da República para emplacar na quarta tentativa, com o bis da reeleição.

De então para cá são reincidentes os escorregões na soberba. A gabolice não é virtude que enfeite biografia. E com freqüência arma arapucas e laços que surpreendem os incautos. Nesta crise financeira que dá volta no mundo, empurra ladeira abaixo os restos de popularidade do presidente Bush e ameaça uma "longa e dolorosa recessão" se o pacote de US$ 700 bilhões não chegar a tempo, o desempenho açodado e espalhafatoso de Lula é responsável por várias situações de constrangimento.

A mais penosa, à beira do ridículo, começou a ser montada com a precipitação com que tentou tamponar o estouro do pânico no país com a sua repercussão no equilíbrio financeiro, penosamente conquistado com aumentos da taxa de juros e o recorde de US$ 200 bilhões em caixa. O otimismo profissional dos autores da proeza, do ministro da Fazenda, Guido Mantega ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles contaminou o presidente Lula, que espalhou a boa nova com a ênfase de campanha eleitoral.

O recado foi repetido para vários auditórios, chegou ao respeitável público na sentença decorada e categórica: "a crise será quase imperceptível no Brasil". No embalo, o desfiar das múltiplas e sábias medidas adotadas pelo governo para consolidar a barreira de proteção contra a implosão das grandes empresas americanas com a quebradeira das firmas de investimento. Uma semana depois de o Banco Central voltar a vender dólares, liberou R$ 13,2 bilhões de compulsórios para melhorar a liquidez do sistema financeiro nacional. Medidas de prudência são as clássicas e só surpreenderam os que caíram no conto da farolice lulista.

Mas é na arena política que o presidente deslumbrado com a popularidade ultrapassa os limites da sua liderança para se intrometer na raquítica faixa da oposição. O episódio no jogo político estadual é preocupante ao sinalizar o estilo de campanha nacional que se vislumbra. Lula manda no PT e escolheu a ministra-candidata Dilma Rousseff sem dar confiança às bases petistas. Até aí, nada a estranhar. Mas na ida à Natal com a sua candidata para apoiar a candidatura de Fátima Bezerra à prefeita da capital do Rio Grande do Norte, repetiu a ameaça de voltar quantas vezes for necessário para garantir a derrota do senador oposicionista José Agripino Maia, líder da bancada do DEM, candidato à reeleição e seu desafeto pessoal, sem poupá-lo e aos seus ministros.

Ora, vamos tentar colocar a coisas nos seus lugares. É exato que o senador José Agripino destaca-se na mediocridade das duas Casas do Congresso pela insistência da sua oposição e a rispidez da oratória que, às vezes, escorrega além dos limites. E daí? Lula conta com ampla maioria na Câmara e apertada maioria no Senado. Não é um presidente largado às traças. E as acusações ao presidente da tribuna parlamentar devem ser respondidas na hora, pelo líder ou por qualquer membro da bancada situacionista. José Agripino Maia não é um parlamentar sem biografia, que caiu no plenário como suplente sem voto, na garupa do dono do mandato. A família Maia, de origem paraibana, há décadas vem firmando a tradição de militância da política potiguar. Tarcísio Maia, pai de José Agripino, foi governador do Estado, tal como seu tio, Lavoisier Maia. E o senador José Agripino escalou todos os degraus da longa militância, iniciada na sua juventude. Foi prefeito de Natal e duas vezes governador do Rio Grande do Norte. Seu tio, João Agripino Maia foi o governador da Paraíba que liderou a aprovação da emenda constitucional que estabelece gabaritos para as construções em toda a orla marítima do Estado ­ o que salvou João Pessoa da praga dos espigões.

O presidente Lula deve ter coisas mais importantes com que se ocupar do que os exageros oratórios do líder dos democráticos. Pois, se a moda pega, daqui a pouco estará batendo boca com vereadores. Em calão.

Otimismo preocupado


Cristovam Buarque
DEU EM O GLOBO

Esta é, certamente, a primeira vez que o Brasil atravessa uma crise mundial com certo grau de tranqüilidade na economia. Mas essa tranqüilidade nos faz esquecer as bases sobre as quais está assentada, e os riscos que ela ainda vai enfrentar.

Para muitos, parece que a tranqüilidade veio de repente. Na verdade, ela foi construída ao longo de diferentes governos. Não fosse o presidente Itamar ter feito o Plano Real, seu ministro da Fazenda Fernando Henrique ter-lhe dado a óbvia continuidade quando presidente e o presidente Lula ter mantido, responsável e competentemente, as mesmas bases, não haveria tranqüilidade. Três governos se sucederam como se houvesse um pacto implícito pela estabilidade financeira e monetária. Embora, no Brasil, o costume seja cada governo desfazer o que fez o anterior, há uma década e meia vêem-se os presidentes e ministros cumprirem as regras para uma economia sólida, assumindo inclusive gestos impopulares, como o superávit fiscal e o Proer. Mas também indo adiante, aumentando as reservas cambiais, sem o que estaríamos totalmente vulneráveis às flutuações lá fora.

Mas essa estabilidade não pode nos tranqüilizar totalmente. Precisamos manter um otimismo preocupado, diante da possibilidade de riscos à frente.

O maior deles são os gastos públicos. Graças a uma elevada arrecadação, tem sido possível manter o superávit primário. Não fosse o excesso de arrecadação, já teríamos déficit primário e a conseqüência imediata seria a desconfiança, que elevaria a taxa de risco, mandaria a taxa de juros aos patamares de antes, reduziria o fluxo de capitais vindos do exterior, derrubaria o nível de investimentos. Os gastos públicos são um problema porque crescem automaticamente, sem a possibilidade de que aumente ainda mais a carga fiscal. O sistema legal e a força das corporações impedem o controle fácil dos gastos públicos que crescem sem limites, ao passo que a arrecadação já está no seu limite máximo.

Outro risco está no sistemático déficit externo na conta das transações correntes. É impossível segurar reservas sólidas se esse déficit continuar. Ele deve ser coberto, seja pelo uso das reservas ou pelo aumento na taxa de juros, atraindo capitais voláteis que podem, a qualquer momento, migrar para outros mercados. A combinação de déficit nas contas externas com a volatilidade das divisas é um risco de altíssima periculosidade e gravidade. Mantém um equilíbrio frágil e dá proporções catastróficas ao desequilíbrio, se ele não for corrigido. Isso pode ser agravado pela falta de uma pauta de exportações de alta tecnologia - o que não temos base para fazer - ou pela necessidade de redução de salários, no estilo chinês - o que não devemos fazer. A opção pela desvalorização cambial teria efeitos negativos imediatos sobre a taxa de inflação.

Mas riscos os mais prováveis estão no médio e longo prazo; são estruturais. A baixa capacidade de poupança interna é um deles. A ganância fiscal reduz a capacidade da poupança privada. A preferência doentia do brasileiro pelo consumo, como uma quase aversão à poupança, impede a formação da poupança necessária. Some-se a isso o fato de que o governo é obrigado a consumir praticamente toda a sua renda, deixando quase nada para investimento público.

Outro risco é o grau de endividamento. Não somente o endividamento público, elevado na proporção do PIB; mais também o endividamento das pessoas, sob a forma de empréstimos diretos ou uso de cartão de crédito para financiar consumo. Apesar de já termos feito competentemente nosso Proer, e da perspectiva de que os bancos brasileiros tenham escapado da orgia suicida cometida pelos norte-americanos, é preciso acender a luz amarela para o risco que corremos, se esses endividados perderem a capacidade de pagamento, ameaçando a solidez de seus financiadores.

O Brasil vive uma tranqüilidade arriscada e não só por causa da crise externa, mas porque ainda precisa de bases mais sólidas.

CRISTOVAM BUARQUE é senador (PDT-DF).

Aécio fala em proposta 'pós-Lula' para 2010

Angela Lacerda
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), falou como candidato a presidente, em entrevista ontem no Recife. Ele disse que a campanha não deverá se centrar no antilulismo e sua grande tarefa será a de construir uma proposta pós-Lula, um projeto de Brasil que possa atrair aliados que hoje estão sob o “guarda-chuva” do presidente, como PSB e PDT, além do DEM, tradicionalmente parceiro tucano.

Em sua avaliação, o PSDB pode oferecer a esses partidos uma postura ética e eficiência na gestão pública - o que não seria oferecido pelo governo Lula. “Não temos a visão de que se governa apenas criando cargo para acomodar os companheiros”, criticou. “O PSDB tem a visão da gestão moderna, gastando menos com a estrutura do Estado e mais com as pessoas. Nossa visão de mundo é mais moderna.”

“Se o PSDB conseguir apresentar um projeto novo, otimista, moderno, ousado para o Brasil, temos condições de construir uma nova aliança para o pós-lulismo que seja boa para o Brasil, sem o radicalismo de hoje”, pregou, ao frisar que Lula se equivoca e traz prejuízo ao Brasil ao “fragilizar agências reguladoras”. “Isso está inibindo investimentos importantes em diversos setores.”

Aécio aposta em ética e gestão eficiente

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, fez questão de buscar se diferenciar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Aécio, o que o PSDB tem para oferecer à população em uma hipotética comparação com o PT é um legado de ética e eficiência administrativa.

“Não devemos centrar nossa campanha no anti-lulismo. Até acho que o presidente fez um governo razoável, mas não um governo ousado. Nós temos que ousar mais e introduzir no debate a questão da gestão pública qualificada, coisa que está muito longe do Planaldo Central”, alfinetou.

Segundo o governador, dizer que Lula vai discriminar municípios administrados por prefeitos tucanos é “terrorismo”. O conselho dado a Ricardo Teobaldo por Aécio, ainda no Clube Colombo – a de qualificar seus projetos de modo a “amarrar” o apoio do governo federal –, serviu para que Aécio fizesse uma provocação: “Conseguimos reduzir o número de crimes violentos em Belo Horizonte em 25%. Isso porque fizemos parceria com a prefeitura do PT. Não discriminei nenhum município do PT. Não aceito discriminação de qualquer tipo”.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Na reta final, investida geral na Zona Oeste


Fábio Vasconcellos e Ludmilla de Lima
DEU EM O GLOBO


Região que, com a Zona Norte, concentra 80% dos eleitores é alvo de Paes, Jandira e Gabeira para ir ao 2º turno

Integrantes do PMDB, do PV e do PCdoB já traçaram parte das estratégias de campanha para o último fim de semana antes das eleições. Amanhã e domingo, Eduardo Paes (PMDB) vai intensificar as visitas a bairros das zonas Norte e Oeste. A Zona Oeste também é o alvo de Jandira Feghali (PCdoB) e Fernando Gabeira (PV). As duas regiões da cidade concentram cerca de 80% do eleitorado carioca e costumam definir eleições. Além de bater o martelo sobre o roteiro, os coordenadores de campanha do PMDB orientaram Paes a evitar responder a qualquer provocação dos adversários, seja nas ruas ou na televisão.


Paes terá novamente a ajuda do governador Sérgio Cabral, que vai participar de eventos com o candidato no domingo. A intenção é ampliar a vantagem do peemedebista nas zonas Norte e Oeste. Cabral estará também na campanha de outros candidatos do partido na Baixada Fluminense, no interior e na televisão, pedindo voto para os vereadores do PMDB.


Gabeira vai almoçar em shoppings da cidade


A briga por uma vaga no segundo turno inclui estratégias inusitadas nesta reta final. Gabeira, por exemplo, promete ir a todos os shoppings da cidade, de olho no eleitor de classe média, que, segundo ele, poderá levá-lo à segunda fase.


- Nesta semana, vamos intensificar na classe média e vamos passar o sábado na Zona Oeste. Vamos intensificar onde somos mais fortes e vamos também reforçar onde somos ainda mais fracos - revelou. - Temos falado muito para a população no rádio e na televisão.


Gabeira planeja ainda investir mais o tempo em áreas de grande aglomeração. Segundo ele, a idéia é "não necessariamente falar com todo mundo, mas ser visto e ver todo mundo":


- Vou começar indo a calçadões e áreas de aglomeração, como praias no fim de semana. Mas, na última semana, o melhor caminho, e pela minha experiência histórica esta semana vamos ter chuva, é visitar todos os shoppings. Vou almoçar em cada um deles.


No sábado, a agenda será concentrada na Zona Oeste - Campo Grande e Santa Cruz. Estão previstas visitas a áreas de milícia, como a Favela do Barbante, onde o candidato já esteve. A grande novidade para esta reta final é o jipe apelidado de Gabeirão, que será utilizado nos deslocamentos.


Jandira vai reforçar campanha na Zona Oeste


Jandira Feghali vai investir até domingo na Zona Oeste. Ela, no entanto, promete intercalar as agendas na região com campanha em outras áreas da cidade. No domingo, por exemplo, vai às zonas Oeste e Sul. Mas o foco agora é o eleitor que ela classifica como "de menor grau de informação e renda".


- A Zona Oeste foi a área em que eu mais estive. Mas vamos intensificar em cima do carro (uma caminhonete), porque assim conseguimos atingir uma área maior - conta a candidata, argumentando que essa é a melhor forma de dar visibilidade à campanha e atrair os indecisos. - O eleitor decide quando ouve, fala com você. Quando você fala para ele, ele faz um recall das suas propostas. Não temos a visibilidade na rua como campanhas milionárias têm.


Jandira já vem reforçando o discurso popular nas favelas que têm visitado. A todo tempo, ela é citada como a candidata que pode derrotar "a elite que mora na Barra". Jandira também intensificou os ataques a adversários, principalmente a Paes, a quem chama de "almofadinha" e de candidato do governador Cabral, muito criticado por ela.


- Vamos governar para quem precisa, do lado de cá da Central - dizia Jandira, ao microfone, esta semana na Zona Oeste. - Quantas mulheres aqui dirigem kombis e são agredidas pela polícia do Cabral?


A candidata ainda repete a todo momento sua aliança de anos com o presidente Lula. O tema serve de pretexto para mais ataques a Paes:


- Chamavam o Lula de ladrão. Agora que ele está bem, chamam de amigo.


Sérgio Cabral começa o sábado numa caminhada em Duque de Caxias para ajudar o prefeito Washington Reis (PMDB). Vai ainda a Nova Iguaçu, São João de Meriti e Belford Roxo.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Teatro político


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. O que seria um "dia histórico", com a reunião dos candidatos à Presidência e a cúpula do Congresso dos dois maiores partidos para chancelar, na presença do presidente George W. Bush, um acordo também histórico para aprovar um pacote de medidas econômicas destinadas a estancar a crise financeira nos Estados Unidos, acabou sendo tachado de "um teatro político". Tanto o democrata Barack Obama, que havia se comprometido a falar depois da reunião na Casa Branca, quanto o republicano John McCain, saíram por portas laterais para não encontrar os jornalistas. Relatos de participantes da reunião davam conta de um clima "de disputa", uma tensão que não estava prevista pela manhã.

A mudança repentina de humor coincidiu com a chegada do senador John McCain a Washington. Três horas antes do encontro "histórico", que colocou na mesma sala da Casa Branca, pela primeira vez, o presidente em exercício e os dois candidatos a sucedê-lo, líderes dos democratas e republicanos deram uma declaração conjunta comemorando a chegada a um acordo sobre o pacote econômico.

Antes mesmo de a reunião na Casa Branca terminar, porém, o senador Richard Selby, republicano do Alabama, dirigiu-se aos jornalistas nos jardins da Casa Branca para anunciar que não havia nenhum acordo assegurado.

Lá dentro, soube-se depois, a reunião se desenrolava em um ambiente inesperadamente disputado, em que os líderes republicanos colocavam-se contra a posição do presidente Bush, que presidia a reunião com uma aparência abatida.

A alegação dos democratas é que o eleitorado estava se manifestando muito fortemente, através de mensagens telefônicas e pela internet, contra o plano apresentado pelo secretário de Tesouro Henry Paulson.

O deputado Barney Frank, democrata de Massachusetts, presidente do Comitê de Finanças, que pela manhã anunciara o acordo, saiu da reunião na Casa Branca claramente irritado com a posição de McCain que, segundo ele, falou pouco e de maneira nada clara: "Não entendi qual é a sua posição", disse o deputado, insinuando que McCain não se posicionara justamente para não ter que assumir compromissos.

Os republicanos alegam que estão tentando fazer um pacote econômico que proteja "os interesses das famílias, dos idosos, do pequeno comerciante e de todos os contribuintes". Os democratas, que têm a maioria no Congresso, não querem aprovar o pacote sem a participação dos republicanos, mesmo que tenham votos para tal.

Mas, estão muito mais dispostos a ajudar a Casa Branca a encontrar uma saída para a crise do que os republicanos, especialmente mais empenhados na viabilização da candidatura de McCain. Com a crise econômica explodindo, a candidatura republicana ficou mais vulnerável, e voltou a cair nas pesquisas de opinião.

Ao mesmo tempo, os democratas no Congresso foram muito mais agressivos que os republicanos no início da discussão do pacote econômico apresentado pelo secretário do Tesouro e pelo presidente do Banco Central, Ben Bernanke.

Deve-se a eles a inclusão no pacote da proteção aos devedores de hipotecas e a redução de salário dos executivos das empresas que forem ajudadas.

Somente quando se convenceram de que o acordo que estava sendo encaminhado favoreceria aos democratas é que os republicanos passaram a boicotá-lo, mesmo com a pressão pessoal a favor do presidente Bush. A expressão abatida com que Bush apareceu na televisão, na abertura da reunião, é a melhor definição de sua fraqueza atual.

Um presidente impopular em final de mandato não recebe o apoio nem mesmo de seu próprio partido. Seu abraço é o de um afogado que pode levar ao afogamento o seu salvador. Seu beijo é o beijo da morte, nem os antigos aliados o querem.

Por isso, a reunião em plena Casa Branca foi tão tensa, e a tentativa de se chegar a um consenso antes da reunião, para que nela houvesse apenas a formalização dos acordos, foi atropelada, ao que tudo indica, por orientação do próprio John McCain, que resolveu tentar tirar partido da situação econômica que, até o momento, só o tem atrapalhado.

E a maneira como os republicanos, que se preparam para disputar também eleições na Câmara e no Senado, com previsão de serem atropelados pelos democratas, estão tratando a atual administração em fim de mandato mostra bem quem eles consideram culpado pela quase inevitável derrota de McCain.

Mas nem todo movimento que parece inteligente surte esse efeito junto ao eleitorado. A decisão de suspender a campanha presidencial e adiar o primeiro debate foi muito mal recebida, inclusive entre parte de seus próprios eleitores.

As televisões passaram o dia de ontem mostrando a reação de eleitores de diversos estados, a grande maioria acusando McCain de fugir da discussão e de estar menosprezando a opinião pública.

McCain também cancelou uma aparição no programa de David Letterman na CBS e foi duramente criticado pelo apresentador: "O que ele pretende fazer se houver uma crise quando for presidente? Adiar a Presidência?".

A ofensiva dos republicanos para retomar a dianteira nos debates sobre o pacote econômico tem a ver com essa tentativa de reverter a situação, levando à opinião pública a idéia de que a candidatura McCain não tem a ver com a administração Bush. Uma ginástica política com poucas probabilidades de dar certo.

A galinha do vizinho


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Chame-se de inferioridade, complexo de vira-lata ou fatalismo decorrente de anos de experiência no ramo.

Dê-se ao fenômeno qualquer nome, a realidade é que por aqui o cidadão medianamente informado acompanha com interesse cada lance da eleição norte-americana, examina com rigor os movimentos de John McCain e Barack Obama, mas não se mostra tão exigente quando se trata de julgar o desempenho dos candidatos a governos do Brasil.

Basta perceber o espaço que os especialistas dedicam aos dois cenários. E não vale o argumento de que nos Estados Unidos neste ano disputa-se o comando do mundo enquanto nossos embates não envolvem mais que lideranças de paróquia.

Na eleição presidencial ocorre o mesmo e essa comparação é a que realmente interessa para estabelecer claramente as diferenças.

A reação de McCain e Barack frente à crise econômica eletriza as atenções. Iniciada a segunda fase de queda nas bolsas, o democrata anunciou ajustes em seu programa de governo, o republicado parou tudo para ajudar o seu governo a aprovar o pacote de U$ 700 bilhões no Congresso e o presidente George W. Bush chamou os dois para discutir o plano em Washington.

Seria demagogia, hipocrisia, simulação, golpe publicitário, falsa preocupação? Não interessa a motivação. O foco, de qualquer modo é a solução. A nenhum dos dois candidatos ocorre usar a crise para prometer uma solução mágica caso sejam eleitos.

Tampouco lhes passaria pela cabeça escrever, como sugeriu em sua despedida de Nova York o presidente Luiz Inácio da Silva, uma “carta ao povo americano”, no modelo da “carta aos brasileiros” de 2002, mediante a qual o PT renegava sua história e acariciava os mercados.

No caso, Obama e McCain estão imunes a suspeitas porque nenhum deles chegou a candidato prometendo virar os Estados Unidos do avesso.

Aliás, se o tivessem feito muito provavelmente não chegariam às convenções dos respectivos partidos. Comportam-se, lá como cá, de acordo com as demandas do eleitorado.

Na campanha americana tudo é importante: a economia, a política internacional, os conflitos mundiais, a destinação do dinheiro dos impostos, o meio ambiente, as questões sociais, raciais, a atitude da família dos candidatos e, sobretudo, o conteúdo das palavras dos propriamente ditos.

Na brasileira, interessa o programa eleitoral mais bem produzido, o marqueteiro mais esperto, a tirada mais bem elaborada, a promessa bem sacada. Enunciados quanto mais ocos, mais bem aceitos. Já problemas intrincados, idéias com começo, meio e fim, cobranças pesadas não sensibilizam, antes atemorizam o eleitor brasileiro.

Adaptação


O deputado José Genoino divulga nota atribuindo o sucesso do presidente Lula a um bem planejado e executado plano de governo. Segundo ele, a oposição, “desnorteada”, busca explicações na “superstição” e no “sobrenatural”, dizendo que o presidente simplesmente “tem sorte”.

O deputado anda confuso e esquecido.

Quem celebra a própria sorte é o presidente. A oposição, e aí Genoino tem razão, desnorteada, embarca nessa versão, cujo propósito subjacente é alimentar a crendice da contraposição entre Lula e o infortúnio.

Há cinco anos o mesmo Genoino desenhava assim o projeto do PT ao chegar à Presidência: eleger muitas prefeituras, ocupar cada vez mais governos de Estados e transformar o Brasil uma sociedade de hegemonia petista. Política, social e culturalmente falando.

Marta outra vez

Nada nesse mundo parece capaz de tirar Marta Suplicy do segundo turno da eleição paulistana, ao mesmo tempo em que a briga na seara tucana praticamente põe nas mãos dela a prefeitura.

Porém, em nome da prudência conviria à candidata não tripudiar. Dançar, cantar vitória, caprichar nas ironias é bom, mas depois de tudo garantido. A precipitação não raro faz dos dias de abundância vésperas de carência absoluta.

Na dúvida, pergunte-se a Fernando Henrique Cardoso o efeito da fotografia sentando na cadeira de prefeito um dia antes de perder a eleição de prefeito para Jânio Quadros em 1985.

Hoje o inimigo de Marta não é Alckmin nem Kassab. É o temperamento.

Morreu de velho

Embora Gilberto Kassab não tenha dado um “golpe” em José Serra para ser o vice em 2004, como alega Geraldo Alckmin, a escolha não foi amena. Decidido que o vice seria do então PFL, Serra e o PSDB escolheram José Aristodemo Pinotti.

Presidente do partido, Jorge Bornhausen vetou Pinotti por causa de seu coração tucano de quatro costados e convocou Kassab. Quer dizer, noves fora lealdades adquiridas a posteriori, o hoje prefeito foi posto na aliança Serra sob a ótica da conveniência de confiar desconfiando.

Notas de campanha

Sergio Costa
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

RIO DE JANEIRO - Os quatro primeiros colocados na eleição do Rio, vistos do lado de cá da campanha, de quem é obrigado a observá-los: Eduardo Paes (PMDB): segue o modelo Sérgio Cabral ao falar com jornalistas. Toda pergunta que lhe fazem é sempre "muito importante", mas só responde o que quer e aproveita para anunciar que vai fazer mais postos de saúde 24 horas.

Marcelo Crivella (PRB): no discurso, é bispo licenciado da sua igreja, mas não perde o jeito pastoral ao segurar as mãos do interlocutor. Já pediu a Deus que abençoasse até traficante em favela. Mora no coração de Lula, seu pastor para garantir que nada nos faltará aqui.

Jandira Feghali (PC do B): domou os cabelos, mas não o temperamento. Com um mau humor contagiante, dificilmente deixa de responder a alguma pergunta sem bater boca com o repórter. Contrariada, arranca os cabelos.

Fernando Gabeira (PV): responde com a serenidade de quem não esconde as rugas. Afinal, levou tiro na ditadura e pilotou -amarradão- trem urbano no exílio sueco, divertindo-se ao não parar em certas estações. Tem proposta para tudo e decidiu, agora, ir para o corpo-a-corpo além da zona sul. Vai de jipe -o "Gabeirão"- para o safári eleitoral na periferia. Demorou.

Qual deles vai ganhar é outra conversa. Quando ouço alguém condicionar o voto a quem tem chance, lembro logo de um antigo contínuo de redação. Ao fim de uma apuração, com jornal numa mão e a "cola" que levara para a cabine na outra, ele conferia em voz alta o resultado das urnas."Presidente: acertei; governador: errei; senador: errei; deputado federal: acertei; deputado estadual: acertei". E sério, no fim:

"Só errei dois!", exultava, enquanto sábios ao redor explodiam de rir.

Eleição, para ele, era feito loteria.

Pensando bem, faz sentido.

O debate pauta o segundo turno


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Depois de ler linha por linha, o caderno da edição de ontem do JB sobre o primeiro e único debate para valer entre os 10 candidatos a prefeito desta ex-capital do país e atual capital do Estado do Rio de Janeiro, confirmei a convicção pessoal que a reforma política será o tema dominante no mano a mano do provável segundo turno.

De quase tudo trataram os candidatos em quatro horas de confrontos em defesa das suas propostas para arrumar a cidade na sua dramática decadência. Mas se trocarmos as siglas que identificam os partidos de cada um dos candidatos, poucos perceberiam a dança das letras.

Claro, há exceções: ninguém engoliria sem protesto se os candidatos de notória linha de esquerda, como Jandira Feghali do PCdoB, Fernando Gabeira do PV ou Chico Alencar do PSOL forem sumariamente transferidos para os partidos de centro ou que se inclinam para a direita. E na contramão seria inviável matricular a revelia o candidato Marcelo Crivella do PRB em um dos partidos do balaio da esquerda.

Ressalve-se que os candidatos a prefeito não têm a menor culpa pela mixórdia partidária, filha dileta da decência ética e moral que afeta os três poderes, com a inquestionável primazia do Legislativo.

Daqui até a eleição, no domingo, dia 5 de outubro, a campanha, com o empurrão do debate do JB, ganhará fôlego que as próxima pesquisas devem registrar.

Como é improvável a decisão no primeiro turno, a reforma política terá amplo espaço no segundo turno, com a carga dupla de emoção que racha a opinião pública: a derrubada do muro em que se equilibram os indecisos amplia a discussão que dissipa as dúvidas.

Não há tempo a perder. A atropelada na reta final está com munição de sobra para impor aos candidatos o aprofundamento dos temas que mexem com a vida da população da capital e de cada município.

Certamente o sucesso da iniciativa do JB lança a moda de debates em todos os meios de comunicação por todo o país. E se o modelo não precisa ser copiado, será difícil inventar novidade com risco de não dar certo.

Para o segundo turno, com uma hora bem programada na divisão de blocos óbvios, os finalistas poderão aprofundar as suas propostas, responder às perguntas de jornalistas, convidados e do público; trocar farpas no confronto direto e os 10 minutos clássicos para as conclusões no recado direto ao eleitor.

Se o prazo é curto, mais uma razão para aproveitá-lo. Seja nos últimos e escassos minutos do inqualificável horário de propaganda eleitoral, pelos finalistas do segundo turno e por quem pretende continuar na militância política.

Baixaria não dá votos, desmoraliza a já tão desacreditada política, com o Congresso exposto na sucessão de escândalos e na orgia das mordomias, das vantagens, dos benefícios e demais desatinos da semana de três dias úteis.

O Rio clama por socorro. E começa a descrer das soluções miraculosas, improvisadas nos apertos críticos de competições ou de congressos internacionais. A pretensão de sediar a Olimpíada de 2014 soa como uma insensatez que, talvez ainda possa ser superada pelos futuros governos da capital e do estado.

Este é o desafio que o debate do JB colocou como a prioridade absoluta dos compromissos dos candidatos a administrar o Rio e a todos os municípios e estados do país.

O candidato Fernando Gabeira botou o dedo na ferida na sentença perfeita: "A solução não vem de um governo ou pessoa. Precisamos de uma frente".

Pois a hora é esta. A legalização da união entre homossexuais pode ser submetida à votação no Congresso a qualquer hora. Mas, francamente, não é uma prioridade de aflitiva urgência.

A prefeitura de SP e a Presidência do Brasil


Alberto Carlos Almeida
DEU NO VALOR ECONÔMICO

O que tem a ver a sucessão em São Paulo e a eleição presidencial daqui a dois anos? Muitos vão dizer que se Marta Suplicy vencer em São Paulo será um enfraquecimento da candidatura José Serra. Outros mencionarão que, se Marta for eleita, ela tentará ser candidata a presidente, competindo com Dilma Roussef pela indicação do PT. Nada disso importa. O que há de importante na eleição de São Paulo e tem a ver com a eleição presidencial, seja qual for o vencedor, Marta ou Kassab, serão os mapas de votação. Tudo indica que eles mostrarão que o PT é muito forte na periferia, nas áreas mais pobres, e o PSDB e os Democratas nas áreas menos pobres da cidade.

Em 2002 a votação de Lula foi muito homogênea em todos os grupos sociais. Em 2006 a mudança foi grande: Lula foi muito mais votado entre os mais pobres e o candidato do PSDB mais votado, em termos relativos, entre os de renda mais elevada.

A principal marca do PT é a de partido que defende as pessoas mais pobres e necessitadas. Lula foi retirante, operário e sindicalista. Faz parte de uma nova elite de poder, uma elite que veio de baixo. Isso não é monopólio de Lula, grande parte do PT tem trajetória semelhante, ainda que poucos sejam ex-operários. O nome do partido traz a palavra "trabalhadores" e antes de chegar à Presidência as posições de Lula e do PT eram extremamente intransigentes na defesa dos interesses dos mais pobres. Desde sua fundação, nos anos 1980, até a vitória de 2002 foram aproximadamente 20 anos construindo uma marca, a marca de defesa do social.

Assim, é possível analisar a trajetória do PT antes de conquistar a Presidência da República exclusivamente como uma trajetória de comunicação: o PT construiu uma marca. Bateu-se insistentemente - e de forma intransigente - na mesma tecla: defesa de aumentos salariais reais, erradicação da miséria, caravanas da cidadania, enfim, toda sorte de discursos e de ações que colocassem o partido claramente ao lado dos mais pobres.

Em 2002, Lula foi eleito presidente. O que ocorreu desde então? A marca não se perdeu. O presidente e seu governo mantiveram a marca do partido: programas Fome Zero, Bolsa Família, ProUni, crédito consignado. Enfim, foram tomadas várias medidas para incluir os pobres no sistema bancário, universitário, no mercado de trabalho formal e coisas desse tipo. Os pobres agradeceram elegendo Lula novamente em 2006.

Não basta botar o ovo, é preciso cacarejar. Tudo o que o governo faz na área social, por menor que seja, é alardeado com vigor. Não estou afirmando que sejam programas abrangentes ou extremamente úteis. Interessa-me aqui, apenas, o efeito que isso tem na comunicação e na formação de imagem. Lula e o PT, mesmo com Aerolula, Mensalão, Lulinha, aumento dos gastos públicos e outras medidas e acontecimentos condenáveis e pouco consensuais, ainda com tudo isso, ambos conseguiram preservar e até mesmo exacerbar a imagem de partido comprometido com a população mais pobre.

Voltemos à eleição de São Paulo. A campanha de Paulo Maluf para a prefeitura, em que pese o fato de não ter chance de vitória e servir apenas para pôr o nome dele em evidência visando à eleição para deputado federal, é uma campanha das antigas, da época em que o social não era a prioridade. Maluf fala em obras, obras e mais obras. Fala das obras que fez e das que vai fazer. Foi-se o tempo em que um candidato era eleito em razão das obras viárias que fazia e prometia. Hoje, em São Paulo, será eleito aquele que for mais persuasivo no que tange ao tema social e mais especificamente no que diz respeito à saúde. Aquele que persuadir o eleitor que vai resolver o problema da saúde tende a vencer as eleições. Portanto, não será Maluf.

No passado, muitos pobres analfabetos não votavam. O voto do analfabeto foi permitido somente em 1988. No passado, os pobres que votavam eram mais conformados com o próprio destino do que são hoje. Eles não conectavam o voto à possibilidade de melhoria de vida. Era uma sociedade menos móvel, baseada mais na família e na comunidade local do que em qualquer outra instituição.

À medida que as pessoas aumentam a escolaridade, passam a ver o mundo de maneira diferente. Em todos os lugares do mundo os menos escolarizados acham que não adianta nada se associar para pressionar o governo. É só aumentar um pouco a escolaridade ou passar, por alguma razão, a participar de um sindicato, como fez Lula, que os pobres mudam de crença: passam a achar que o voto deles pode mudar o próprio destino, a acreditar que, se pressionarem o governo, vão obter algum tipo de ganho ou benefício. Maluf era eleito pelos pobres do passado. Lula foi eleito e reeleito pelos pobres de hoje.

Qualquer que seja o candidato a presidente do PSDB, Serra ou Aécio Neves, é previsível hoje, neste mês, qual será o principal discurso do candidato petista, a sua principal marca: cuidar dos pobres. Não será mais Lula a cuidar dos pobres, mas será um candidato com a bênção do Bolsa Família, do ProUni, da conta bancária, etc. É previsível o discurso do candidato governista: quem fez isso e isso pelos pobres vai continuar fazendo, desta vez aquilo e aquilo.

Já há sinais acerca desse "aquilo". Lula anunciou que vai construir centenas de Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) em todo o Brasil. A UPA é o principal símbolo do programa de saúde levado a cabo por Sérgio Cabral no governo estadual do Rio. As UPAs atingem em cheio o principal problema social de praticamente qualquer município e Estado: a saúde pública.

Nosso país tem esta grande dificuldade: massificar o acesso, dar acesso aos pobres a coisas que eles não tinham ou têm. O governo Fernando Henrique fez isso ao baixar a inflação, colocou comida na mesa do pobre. Os símbolos da época, todos se recordam, foram o frango, o queijo e o iogurte. Fernando Henrique fez mais: deu acesso ao telefone. Não importa qual meio é utilizado para isso, se a privatização ou não, o que importa é que, por um longo período, o PSDB disputou com o PT a agenda de realizações para os pobres, o esforço de dar acesso aos pobres a bens e serviços que eles nunca tiveram.

Nem tudo são flores nesse caminho. Caíram os preços das passagens aéreas e o caos aéreo se instalou. Quando estava chegando a hora de os pobres começarem a voar, os preços subiram novamente e o sistema voltou a "funcionar corretamente". É irônico, mas foi exatamente o que aconteceu. Isso revela a dificuldade que o Brasil tem, toda vez que as soluções envolvem o setor público, de massificar o acesso dos pobres a bens e serviços.

Caíram os preços das passagens aéreas e o sistema entrou em colapso; ampliou-se o crédito, mais carros foram comprados e nossas cidades entraram em colapso; foi criado o SUS e universalizado o acesso à saúde e o sistema entrou em colapso. Esse é o país aristocrático chamado Brasil, que tem dificuldade em massificar as coisas. O PT se propõe a fazer isso, mas nem sempre as intenções levam ao fato.

Ocorre que será esse o discurso - o discurso do social - da sucessão presidencial, sucessão que na sua primeira simulação, exatos dois anos antes da eleição presidencial, põe a desconhecida Dilma Roussef com 8% das intenções de voto, 30 pontos porcentuais abaixo do candidato mais forte do PSDB, o governador José Serra. Aécio tem menos votos do que Serra por um único e exclusivo motivo: o recall dele é menor, ele é menos conhecido nacionalmente do que o governador de São Paulo. Ambos, porém, vão precisar de argumentos - na área social - para enfrentar o discurso petista.

Tome-se o exemplo de São Paulo. É útil, sem duvida, ter visibilidade nacional aprovando uma lei restritiva ao fumo; lei que, aliás, conta com ampla aprovação nacional. Porém, seria mais útil, em termos de comunicação e de marketing, transformar São Paulo no primeiro Estado livre da pobreza e da miséria.

Isso não é possível, é verdade. Trata-se de uma peça de comunicação. Mas é possível, sim, fazer um amplo programa de grande impacto, com início em 2009 e término em, por exemplo, 2029, visando a acabar com as favelas, resolver o tempo de espera na saúde, melhorar a educação, enfim, atingir objetivos ambiciosos em todas as áreas sociais importantes. São Paulo tem recursos para isso e os gestores do PSDB têm a competência.

Note-se, esse exemplo de programa de ação combinado com comunicação moveria o PSDB para mais perto do novo centro político do Brasil. Mais do que isso, poria a nossa direita, assim como fez a direita em todos os países europeus depois de perder o poder para os partidos de esquerda, em melhores condições de enfrentar a marca social do PT. É possível que o principal tema dos próximos 20 anos da política brasileira seja o tema do social. Ocorreu assim no pós-guerra europeu. Esse longo ciclo foi rompido apenas nos anos 1970, depois do governo de Margaret Thatcher na Grã-Bretanha.

Em todo esse período a direita européia, para enfrentar a esquerda em igualdade de condições, caminhou para a esquerda, caminhou para o social. Isso havia acontecido antes mesmo da Segunda Guerra Mundial, durante o período do assim chamado "todos os governos burgueses" na Alemanha. Foram os partidos de direita, na república de Weimar, que mais adotaram políticas de redistribuição de renda. Os conservadores da época avaliaram que isso era necessário para que fosse possível enfrentar o partido social-democrata alemão.

Afirma-se que aprender com os nossos acertos é obrigação, mas aprender com os acertos dos outros é sabedoria. Acertar, neste caso, ocupar o terreno do adversário. Hoje, do ponto de vista do PSDB, ocupar o terreno do adversário é ter muitos e muitos votos na extrema zona leste e zona sul paulistanas e no que ela representa Brasil afora.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" (Record).

Os santinhos com Lula


Maria Cristina Fernandes
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Vinte dos 26 prefeitos de capital são candidatos à reeleição. Em apenas três cidades (São Paulo, Manaus e Salvador) esses prefeitos que disputam a chance de um novo mandato não lideram. Somando-se aos candidatos favoritos dos atuais prefeitos de Belo Horizonte e Recife, tem-se 19 capitais em que as pesquisas, nesta última semana que antecede as eleições, revelam tendência de manutenção do mesmo grupo político no poder.

Tomando por referência 2004, quando em apenas oito capitais os prefeitos foram reeleitos e em outras quatro foram conduzidos ao cargo sucessores aliados, a tendência conservadora das urnas de 5 de outubro parece a grande novidade das eleições. O que o retrospecto das disputas no conjunto dos 5.564 municípios do país mostra, no entanto, é que as capitais aderem a um comportamento eleitoral já observado no resto do país. A taxa de reeleição dos prefeitos que se recandidataram em todo o país foi de 58%, tanto em 2000 quanto em 2004. As pesquisas nas capitais sugerem que essa tendência pode vir a ser acentuada nacionalmente.

Se há mais chances de reeleição é porque também há um maior número de recandidaturas. Nos números da Confederação Nacional dos Municípios, dos 4.368 prefeitos que têm o direito de disputar reeleição, 77% são candidatos. A base dos elegíveis a um novo mandato este ano é maior do que em 2004 - quando dois mil prefeitos já reeleitos estavam fora do jogo - e menor do que a de 2000, quando todos tiveram o direito de se recandidatar, mas apenas 62% o fizeram.

Se mais prefeitos decidiram se recandidatar é porque avaliam ter maiores chances do que seus antecessores. Não há como dissociar esta maior disposição dos prefeitos em testar suas chances nas urnas à maior satisfação dos eleitores.

Na página do PT na internet há uma ampla avaliação das mudanças na relação entre União e municípios nos últimos anos que pode ajudar a entender essa percepção mais benfazeja do eleitorado. Em resumo: o Fundo de Participação dos Municípios ganhou R$ 14 bilhões em quatro anos, o ISS ampliou sua base e já representa quase metade das receitas próprias dos municípios e a partilha da Cide acrescentou R$ 143 milhões anuais aos cofres municipais.

Nos grotões, o ano de 2004 iniciou-se com apenas 4% dos municípios atendendo a 75% de toda a população alvo do Bolsa Família. Em 2008 esta fatia de beneficiários está espalhada em 92% dos municípios. Nas cidades com população superior a 150 mil habitantes, onde se incluem todas as capitais que hoje capitaneiam a conservação do poder, tem o PAC, inexistente em 2004. Aí se incluem obras de metrô em quatro capitais (BH, Fortaleza, Recife e Salvador), 165 projetos de urbanização de favelas (41% em obras) e 314 projetos de abastecimento de água e saneamento (31% em obras).

Todas essas obras têm contrapartida estadual e municipal e o eleitor de 2008 parece mais satisfeito do que o de 2004 com todas as esferas de poder. Mas a lufada de boa vontade passa com muito mais força pelo Palácio do Planalto. A comparação das pesquisas CNT/Sensus de setembro de 2008 com a do mesmo mês de 2004 indica que a avaliação positiva de todos os governantes cresceu, mas a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aumentou quase quatro vezes mais do que a dos prefeitos e sete vezes mais que a dos governadores (ver gráfico acima).

É isso que tem alimentado o folclore da campanha, como a comerciante Ledinalva da Silva no horário eleitoral do PSDB em Cuiabá dizendo que o prefeito, candidato à reeleição, ajuda tanto os pobres quanto seu irmão presidente da República, ou mesmo a propaganda por telefone de uma vereadora do PT em Angra dos Reis (RJ), suspensa pela justiça eleitoral, em que o locutor imita a voz do presidente da República.

Mas as conseqüências vão além do folclore. PSDB e DEM são, respectivamente, os partidos com o menor percentual de recandidatos. E os partidos da base lulista, recordistas em número de prefeitos que tentam a reeleição, capitaneiam a lufada de vento conservador que ameaça varrer as urnas de 5 de outubro.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

A crise financeira: e agora, quem pagará a conta?


Yoshiaki Nakano
DEU NO VALOR ECONÔMICO


A crise financeira nos EUA parece ter atingido o chamado "momento Minsky". O presidente Bush anunciou, pela TV, que se as medidas de socorro não forem tomadas imediatamente, as consequências para a economia americana serão severas. Com o colapso dos preços dos ativos financeiros, seus efeitos negativos sobre os consumidores poderão ser amplificados pelo "acelerador financeiro" com contração generalizada de crédito, desacelerando a demanda agregada já em queda. A proposta do secretário de Tesouro, que pediu ao Congresso plenos poderes para gastar US$ 700 bilhões para comprar "ativos podres", deverá ser aprovada, mas encontra resistências, pois não define quem pagará o prejuízo.

A atual crise foi inaugurada com o pedido de falência do Ownit Mortgage Solutions no dia 28 de dezembro de 2006, quando a bolha imobiliária estoura e os preços dos imóveis começam a cair. Chega também o momento em que milhares e milhares de famílias, no segmento subprime, não conseguem pagar as suas prestações e começam a perder as suas casas com a execução de hipotecas (as chamadas foreclosures). O governo republicano tanto permitiu a criação da bolha, como assistiu, com indiferença, o colapso do subprime, e ainda permitiu a sua propagação para os bancos, pelo canal da securitização de hipotecas e transferência de riscos. Estes passam a anunciar prejuízos, desencadeando uma crise de confiança e contração de liquidez.

Grandes instituições financeiras que carregavam títulos com garantias hipotecárias problemáticas, como Bear Stearns, Fannie Mae, Freddie Mac, entram em colapso, e o governo intervém massivamente injetando liquidez, quando o problema não era só de liquidez. Havia originalmente problemas de solvência e de supervisão do sistema. Assim, entra-se num processo em que a perda de valor das garantias (valor do imóvel) desencadeia um círculo vicioso de desconfiança por problemas de regulação/supervisão e informação, provocando queda no preços dos ativos e levando as pessoas a venderem seus ativos - e, em consequência, os preços caem mais ainda. As instituições financeiras não conseguem mais se financiar no mercado e, com crescente aversão ao risco e incerteza, entra-se na armadilha da liquidez. Por mais que o Fed injete liquidez, o mercado para estes ativos não volta, nem se estabelece um piso de preços; ninguém quer assumir riscos, todos preferem acumular liquidez. As instituições financeiras, sofrendo prejuízos, assistem seus balanços e capital próprio encolherem, não conseguem mais se recapitalizar e precisam se desalavancar.

Assim, a crise entra numa nova fase, atingindo, por contágio, instituições sadias, e uma contração generalizada de crédito atinge o setor real da economia. Agora, é preciso um enfrentamento do verdadeiro problema e um tratamento de todo o sistema, e não de suas partes. Na proposta Paulson/Bernanke, o Tesouro compraria os ativos ilíquidos/podres, retirando-os dos balanços das instituições financeiras, o que poderia devolver-lhes a confiança, recompondo a liquidez no mercado ao restituir a eles a capacidade de criação de crédito. O grande problema aqui é como estabelecer os preços destes ativos podres. Se for por leilão bem conduzido, supervisionado e transparente, como querem os democratas, é provável que o deságio seja enorme. Uma referência de mercado são os preços atingidos no leilão de ativos da Merrill Lynch, que foi de 22% do preço de face. Neste caso, é provável que os bancos não participem - se participarem, vão para falência e o custo, em impostos para o cidadão, será pequeno. Os acionistas e investidores pagarão a conta. Se o preço de compra dos ativos podres for próximo ao valor de face, como quer o secretário do Tesouro, quem pagará a conta é o cidadão. O Tesouro subsidiará os acionistas e investidores. Qualquer destas escolhas terá também efeitos diferenciados na futura trajetória da economia.

Walter Bagehot, editor da revista The Economist no Século XIX, propôs uma regra de política respeitada até hoje. O Banco Central deve emprestar livremente para bancos em dificuldade, mas com garantia de alta qualidade - como títulos do Tesouro - e sempre cobrando taxas de juros punitivas. Algo próximo aconteceu com o Bear Stearns. O Fed emprestou US$ 30 bilhões para salvá-lo e transferi-lo para o JP Morgan Chase. Se as garantias forem boas, o cidadão não pagará nada. Os acionistas perderam praticamente tudo e os administradores foram certamente substituídos.

O Fed vem aplicando uma variante desta regra, que certamente Bagehot não concordaria. Criou novos programas, emprestando livremente aos bancos em dificuldades com baixas taxas de juros e grande flexibilidade nas garantias, visando preservar o mercado, isto é, o investidor. Se este se sentir mais seguro, os bancos poderão voltar a operar, recompor seu capital, sua solidez e voltar a emprestar normalmente. Evidentemente, quem paga a conta inicialmente é o contribuinte, mas o argumento é de que, no final, ele também sairá ganhando, se forem evitadas a crise e a recessão. Os recentes casos de Fannie Mae, Freddie Mac, Morgan Stanley e Goldman Sachs representam socorros flexíveis e generosos casos desta categoria. Na verdade, é preciso lembrar que o Fed, ao abaixar dramaticamente a taxa de juros, está dando um subsídio para os acionistas, além do custo que terá o cidadão, com uma taxa de inflação muito mais elevada, já captada pelos investidores que a embutiram nas taxas mais longas.

No caso do Lehman Brothers, o tratamento foi bem diferente. A crise foi resultado da ganância por bônus milionários de administradores irresponsáveis, e os acionistas fecharam os olhos para obter dividendos polpudos. Assim, abusaram da alavancagem e de operações que não constam em seus balanços, comprando títulos lastreados em hipotecas subprime com elevados retornos e financiando-os com emissão "comercial papers". E ainda desconfia-se que tenham praticado fraudes. Falência e FBI para os responsáveis!

Mas agora a crise avançou e não são alguns bancos que estão em dificuldade, mas todo o sistema está ameaçado. As políticas acima não se aplicam mais. É preciso muito mais. O socorro proposto por Paulson/Bernanke não resolverá o problema da recapitalização dos bancos, muito menos a questão da supervisão e gestão de risco. Certamente, será o primeiro socorro sistêmico, mas tentativo e improvisado. Outros virão, mas, aparentemente, o atual modelo de negócio bancário é que foi colocado em cheque.


Yoshiaki Nakano é ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP, escreve hoje excepcionalmente.

PT denuncia Múcio por “abuso” do cargo


Joana Rozowykwiat
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Do alto do seu estratégico posto de ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro (PTB) tem percorrido o Estado levando todo o seu prestígio às campanhas dos candidatos que defende nessa eleição, mas também causando muito desconforto e indignação em alguns petistas. Eles reclamam que o ministro estaria “abusando” da sua posição no governo, alardeando que seria representante do presidente Lula no apoio a postulações que não contam com a adesão do PT e, pior, muitas vezes, são patrocinadas por siglas como DEM e PSDB. Para frear esse tipo de situação, o presidente estadual do partido, Jorge Perez, enviou um ofício ao diretório nacional, pedindo que o próprio Lula seja informado do assunto.

Pelo menos quatro cidades se queixaram formalmente de José Múcio: Jaqueira, Palmares, Condado e São João. Para provar o que estaria ocorrendo, o diretório municipal de São João enviou a gravação do guia eleitoral de rádio do município. No áudio, o ministro teria afirmado que o candidato Pedro Antonio Barbosa (PTB), cujo vice é Luiz Gonzaga (DEM), é o verdadeiro candidato de Lula, contrapondo-se a Antonio de Pádua (PSB), que tem como companheiro de chapa, Hugo Cabral (PT).

“O ministro chega anunciando que o presidente Lula mandou dizer que o candidato dele é Pedro Barbosa. Afirma que ele próprio é a pessoa que abre as portas do gabinete de Lula. Acho que ele virou porteiro agora. Ministro não é para dizer esse tipo de coisa, que confunde a população. O PT é o partido de Lula e tem outro candidato em São João”, reagiu Hugo Cabral.

Em Condado, a reclamação é a mesma. O petista José Cláudio é candidato a vice na chapa encabeçada pelo PSB e afirma que, nos dois eventos que participou na cidade, José Múcio teria se colocado como representante não apenas de Lula, mas do PT. “Temos gravado o pronunciamento dele, em setembro, dizendo que ele é o único que pode representar o PT de Lula. Isso é absurdo. Ele nunca teve nada a ver com o PT”, indigna-se. José Cláudio avalia que o ministro está sendo “infiel”, ao falar pelo presidente. “Lula devia era tirar ele da pasta”, sugere.

Mais diplomático, o presidente estadual do PT lembra que o fato de o partido estar coligado com o PTB de Múcio não significa que ele pode falar pelo partido e pelo presidente. “A aliança não autoriza essa postura, nem faz com que tenhamos que calar. Em função de uma coligação, não podemos desrespeitar limites políticos”, apontou.

Ressaltando que respeita o ministro, o dirigente alertou: “Ele não pode abusar da condição de ministro para passar informações erradas, criando situações constrangedoras para o próprio presidente. O Lula é presidente da Nação, mas é filiado ao PT, considera esse o seu partido e apóia as candidaturas do PT”. Segundo ele, as manifestações do ministro não têm anuência do presidente, tampouco do PT, claro.

Jorge Perez encaminhou a cópia do áudio do guia eleitoral de São João ao presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, para que o presidente Lula seja informado do que se passaria no Estado. Quem também se queixou do ministro foi deputado federal Fernando Ferro (PT), que já foi procurado por petistas de Itambé, Camutanga e Ibirajuba para as mesmas reclamações. “O PT tem um candidato na cidade e o ministro defende os nomes do DEM e do PSDB. E estaria dizendo que o verdadeiro PT não seria aquele da cidade. É muito desagradável”, lamenta. O JC não conseguiu entrar em contato, ontem, com o ministro José Múcio Monteiro.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Efeitos da crise


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. O movimento do candidato republicano John McCain, de colocar a solução da crise financeira como prioritária em relação à campanha presidencial, foi sem dúvida inteligente, embora o que interesse mesmo ao senador seja ganhar fôlego para tentar recuperar os pontos perdidos nos últimos dias nas pesquisas de opinião. Como nada mudou de uma semana para cá, a não ser os números das pesquisas, que agora dão a vitória de Barack Obama por até nove pontos percentuais de diferença, o que McCain quer com a proposta de adiar o debate, e os dois candidatos se integrarem aos congressistas que estão tentando um acordo em Washington com o governo, é dar a seu gesto um tom quase heróico, colocando-o como o líder que assume a responsabilidade quando o momento exige.


Adiantando-se a Obama em público, McCain tenta dar a sensação de que está mais preparado para enfrentar as emergências. Abrindo mão da campanha para participar das negociações, ele quer parecer o candidato mais aberto para os problemas do país, o que não usa as dificuldades para fazer politicagem.


É uma maneira inteligente de fazer politicagem, pois foi a partir de um telefonema de Obama, sugerindo que os dois fizessem uma declaração conjunta sobre a situação atual da economia, que McCain contrapropôs o adiamento do debate e a ida de ambos para Washington.


A campanha de Obama ainda marca a posição de que é possível fazer as duas coisas, participar das negociações e debater na Universidade do Mississippi, mas, como acontece desde o início da crise, o fato é que o democrata não tem conseguido ser pró-ativo, limitando-se a um discurso que pode ser resumido como "eu não disse?".


Sua dianteira nas pesquisas deve-se muito mais ao impacto da crise econômica na decisão dos eleitores do que a seus méritos próprios. Obama hoje, quando 83% dos eleitores consideram que o país está no rumo errado, é a opção automática. A tentativa de adiar o debate, se vista como uma demonstração de fraqueza, pode dar a Obama a chance de colocar-se na dianteira.


As bancadas dos democratas na Câmara e no Senado têm tido uma participação agressiva nos debates do Congresso em Washington, e partiu delas a definição de que o pacote apresentado pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, e pelo presidente do Banco Central americano (Federal Reserve), Ben Bernanke, não poderia ser aprovado do jeito que chegou ao Congresso.


Há uma convicção generalizada nos meios políticos e financeiros de que os dois jogaram errado ao tentarem fazer com que o Congresso engolisse o pacote sem uma negociação, esquecendo-se de que, em meio a uma campanha eleitoral, é praticamente impossível obrigar candidatos à eleição dentro de quarenta dias a aprovarem medidas impopulares, num pacote que não tem o consenso no meio econômico.


O único consenso é que alguma coisa precisa ser feita, e o pacote do governo americano pode ser o mais próximo do que é preciso fazer, mas tem muitos defeitos que precisam ser pelo menos amenizados. Há, é certo, o perigo de que o período eleitoral exacerbe o populismo econômico, que tem sido a marca dos democratas nas últimas eleições e que foi responsável por colocá-los com a maioria no Congresso.


Mas, até mesmo o republicano McCain está aderindo a esse estilo, tentando livrar-se da sombra da administração George W. Bush. O temor é que o ambiente político, que reflete o ânimo da opinião pública, de repúdio aos "especuladores" de Wall Street, leve a decisões de curto prazo equivocadas e que prejudiquem o funcionamento do sistema financeiro americano a longo prazo.


Aplacar a raiva do contribuinte com uma contenção excessiva dos salários dos executivos financeiros pode fazer com que o pacote de salvação se torne inviável. O problema é definir o que é excessivo, o que merece ser punido, como deve ser regulado o futuro sistema financeiro para que tenha eficiência e gere prosperidade, sem os níveis de irresponsabilidade que estavam sendo tolerados em Wall Street.


O ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, que está em Nova York para uma série de contatos, continua espantado com o que está surgindo: "A cada vez que se vê de mais perto, pior parece a situação", comentava ele ontem.


A imagem que usa é a de um paciente na sala de cirurgia, de peito aberto, à espera da operação salvadora que não começa. O pacote proposto pelo governo seria essa intervenção para salvar o paciente na UTI, e, quanto mais demora a ser aprovado, mais se reduz a possibilidade de salvar o paciente.


Armínio acha que não aprovar o pacote seria "uma irresponsabilidade", e considera que a entrada nas negociações dos dois candidatos a presidente é uma medida acertada, pois quem vencer a eleição de 4 de novembro terá pela frente um mandato tumultuado pelas conseqüências do aumento do déficit público.


Armínio Fraga fez um paralelo com a situação brasileira em 2002, na campanha presidencial em que Lula foi eleito, ressalvando que naquele momento havia, além dos problemas de crédito do país, mais uma percepção negativa diante da provável vitória de Lula do que os graves problemas que hoje enfrenta a economia americana.


Com relação ao Brasil, o ex-presidente do Banco Central é otimista, considerando que a gestão de Henrique Meirelles está fazendo um trabalho de controle da inflação fundamental, compensando a tendência gastadora do governo central.


Se o pacote do governo americano conseguir colocar um pouco de ordem no sistema financeiro, e se nós no Brasil não forçarmos a barra para manter um crescimento forte no ano que vem, é possível que já em 2010 as coisas voltem ao eixo normal, avalia Armínio Fraga.