quarta-feira, 14 de agosto de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Freio na omissão

Correio Braziliense

A jovem democracia brasileira pede uma participação maior da população no processo eleitoral, afastando o velho e ignorante pensamento de que, "como ninguém presta, não vou votar"

Na próxima sexta-feira, se inicia mais uma campanha eleitoral no Brasil. Desta vez, cidadãos e cidadãs se preparam para escolher seus representantes nas câmaras municipais e nas prefeituras. Como tem sido tendência nos últimos pleitos, o cenário indica mais uma concorrência voltada à polarização entre os candidatos, novamente com a pauta de costumes ganhando contornos de peso, ainda que apurações municipais tendam, historicamente, a serem mais recortadas para políticas públicas, como transporte público, saúde e educação. O que, no entanto, precisa ser prioridade para a classe política e para as autoridades é frear a crescente onda da abstenção. 

A jovem democracia brasileira pede uma participação maior da população no processo eleitoral, afastando o velho e ignorante pensamento de que, "como ninguém presta, não vou votar". Essas posições de negação da política levam o Brasil a um cenário no qual eleitos pouco têm a ver com o perfil da população do ponto de vista demográfico.

Vera Magalhães - O fator que não deveria ser surpresa

O Globo

Perplexidade e inação de adversários diante das técnicas do ex-coach mostram que não aprenderam nada com os candidatos antipolítica

Entra eleição, sai eleição, e o sistema político e a imprensa ainda se surpreendem com a aparição de outsiders e suas estratégias cada vez mais ousadas de captar a atenção e, se possível, o voto da audiência.

Depois que nomes como Donald Trump, Jair Bolsonaro e Javier Milei foram eleitos presidentes com discursos agressivos, ideias que excluem abertamente boa parte da população e defesa da afronta a instituições e regras republicanas, não deveria causar espécie que subprodutos fossem surgir nas eleições subsequentes, como já proliferam nos legislativos, por sinal.

Pablo Marçal estreou na disputa pela Prefeitura de São Paulo metendo o pé na porta no debate da Band. Trajando um boné que já vai se tornando sua marca nas redes — assim como o gesto da letra M com os dedos, que já virou emoji —, o coach foi para cima de adversários sem nenhuma evidência ou prova, não ficou corado ao ser exposto em total desconhecimento de questões concretas da cidade e mentiu sobre seu histórico vasto de processos judiciais. Nada de novo: Bolsonaro já havia gabaritado todos esses itens em 2018.

Bernardo Mello Franco - Dez anos sem Campos

O Globo

Há dez anos, um acidente aéreo chocou o país e mudou o rumo da corrida presidencial. Na noite de 12 de agosto de 2014, Eduardo Campos se apresentou aos eleitores em entrevista ao Jornal Nacional. Na manhã seguinte, estava morto. O jatinho que o transportava caiu em Santos, onde ele cumpriria agenda de campanha.

O funeral reuniu a República e arrastou uma multidão pelas ruas do Recife. Marina Silva, que era sua vice, assumiu a cabeça de chapa e disparou nas pesquisas. Desidratou na reta final e acabou fora do segundo turno.

O candidato do PSB era apontado como o político mais habilidoso de sua geração. Aos 49 anos, já havia sido ministro e governador duas vezes. Lula tentou convencê-lo a adiar o sonho presidencial e apoiar Dilma Rousseff em troca de uma aliança no futuro. Campos conhecia o PT e não era bobo. Preferiu apostar em si mesmo.

Luiz Carlos Azedo - Semana difícil para o governo no Senado

Correio Braziliense

A desoneração da folha de pagamento é uma batalha perdida para o governo, que enviou projeto de lei para compensar a perda de arrecadação, depois da derrubada dos vetos

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), pretende votar ainda nesta semana os projetos da desoneração da folha de pagamento de empresas de diversos setores da economia, da dívida dos estados e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 66/2023, que prevê o parcelamento especial de débitos dos municípios.

A desoneração da folha de pagamento é uma batalha perdida para o governo, que enviou o Projeto de Lei 1.847/2024 depois da derrubada dos vetos à desoneração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Congresso. Segundo Pacheco, ainda há divergências com o governo. A Lei 14.784, de 2023, prorrogou a desoneração por quatro anos, mas deve ser substituída pelo projeto a ser votado ainda nesta quarta-feira.

Existe concordância do governo de que não deve alterar impostos, principalmente a contribuição social sobre o lucro líquido. Busca-se um acordo para compensação da desoneração da folha de pagamento com medidas que não representem aumento de imposto. Entre essas propostas, estão a repatriação de recursos no exterior, a regularização e a atualização de valor de ativos. “Eu acho que nós conseguimos virar a página da questão da desoneração esta semana”, disse Pacheco.

Fernando Exman - Entra no radar revisão da estimativa para o PIB

Valor Econômico

Governo estima que a economia vai crescer em 2024 mais do que os 2,5% previstos

O governo está convencido de que a economia vai crescer em 2024 mais do que os 2,5% previstos até agora.

É mais do que a mediana do mercado captada pelo Boletim Focus do Banco Central (BC), de 2,20%, embora muitas casas também já estejam revendo para cima suas projeções. Mas enquanto esse movimento vai se cristalizando, internamente a discussão já ocorre em pelo menos três camadas no Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios.

A primeira delas, técnica, vinha sendo conduzida de forma discreta. Ganhou corpo após a reunião ministerial conduzida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na semana passada. E o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad, falou sobre o assunto em público na segunda-feira (12).

Lu Aiko Otta - Conformidade reforça receitas em R$ 22 bilhões

Valor Econômico

Apesar das críticas nas redes sociais, a visão no Ministério da Fazenda é que ainda há espaço para mais receitas

Neste ano, a Receita Federal arrecadou R$ 22 bilhões apenas cobrando de quem, a seu ver, não estava pagando o que deveria. De tudo o que a equipe do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem feito para elevar as receitas, essa tem sido a frente mais bem-sucedida, disse um de seus integrantes: a busca da conformidade.

As redes sociais estão repletas de memes que retratam o governo como um taxador voraz. A ponto de os atletas olímpicos terem sido agraciados com isenção tributária sobre seus prêmios, um dia depois de a Receita emitir nota explicando que essas premiações devem pagar impostos, como “qualquer outra remuneração de qualquer outro (a) profissional.”

A despeito disso, a visão no Ministério da Fazenda é que ainda há espaço para mais receitas. Daqui para o fim do mês, deverão ser anunciadas mais medidas para um reforço de cerca de R$ 20 bilhões em 2025.

Zeina Latif - Menos marola, por favor

O Globo

A estabilidade macroeconômica é ingrediente essencial para a ampliação da capacidade produtiva

A indústria de transformação mostra alguma reação. Registrou crescimento de 2,7% no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2023. Não é pouco quando se leva em conta o desempenho nos últimos anos. Mais do que isso, para além do seu peso no PIB, é o setor com mais impactos indiretos nos demais setores, conforme dados do IBGE, o que aumenta a importância desse resultado.

Será esse um sinal promissor ou mais um voo de galinha?

A compreensão do quadro desafiador do setor demanda a análise do histórico recente, com destaque para dois períodos principais.

Nilson Teixeira - Falta clareza nos comunicados do Copom

Valor Econômico

A incerteza gerada nos últimos documentos do Copom reforça a necessidade de aumentar sua clareza e assertividade

Um dos exemplos das alterações promovidas pelas duas gestões mais recentes do Banco Central (BC) para tornar sua comunicação mais tempestiva e transparente vem do comunicado do Copom, que passou a discutir sua avaliação e a explicar as decisões tomadas logo após o término da sua reunião. Apesar do excelente avanço, o documento ainda é dúbio, em parte devido à possível percepção de que um eventual erro de avaliação do Copom pode comprometer a credibilidade do BC.

Elio Gaspari - 50 anos com a China

O Globo

Amanhã completam-se 50 anos do restabelecimento de relações diplomáticas com a China. Em meio século, ela foi de anátema à condição de maior parceiro comercial do Brasil. Se as negociações avançarem, o presidente Xi Jinping descerá em Brasília ainda neste ano. (Ele já esteve em Pindorama, em 1996, aos 43 anos, no Ceará.)

Lula restabeleceu as relações cordiais com a China, açoitadas durante o governo de Jair Bolsonaro. Ele acusava a China de ter criado o vírus da Covid-19 e dizia que seu embaixador estava no Brasil para derrubá-lo. Chegou a pedir sua remoção, sem sucesso.

Pelo mundo afora, entender o Império do Meio exige algum esforço. A primeira lei racista e xenófoba dos Estados Unidos mirou nos imigrantes chineses que haviam construído a ferrovia transcontinental, no século XIX. Por cá, a imigração chinesa foi condenada por escravocratas como o Visconde de Sinimbu e por abolicionistas como André Rebouças.

Roberto DaMatta - Olimpíada

O Globo

Convocar todos os países abre a oportunidade de perceber o mundo como feito de unidades diferenciadas em poder e riqueza

Acompanhei como pesquisador interessado em rituais e dramatizações coletivas, e como correspondente da Rede Manchete de Televisão, a Olimpíada de 1984 em Los Angeles.

A experiência grandiosa de reunir quase todas as modalidades esportivas praticadas em todo o mundo num só espaço permite observar os estilos diferentes de prática e reação à vitória e à derrota de atletas de culturas e sociedades distintas. O antropólogo social francês Marcel Mauss chamou, em 1936, a atenção para o estudo dos usos do corpo em diferentes culturas. Reuniões olímpicas são ocasiões primorosas para o estudos das “técnicas de corpo” de épocas e origens diferentes.

As Olimpíadas lembram o carnaval na orgiástica universalidade e na ênfase na “carne”. Com a diferença óbvia de que, no carnaval, somos olímpicos no quimérico e na sensualidade, ao passo que os jogos esportivos são ordenados por padrões objetivos e normas claras de disputa. Mas ambas as festividades se equiparam no ideal de recriar o mundo como centro festivo — como campo fora das rotinas que atam os meios e os fins da vida prática, racional e progressista. Progressismo que registra recordes e, em certas modalidades, põe à prova os limites do corpo humano.

Nicolau da Rocha Cavalcanti - A grande ausência na política brasileira

O Estado de S. Paulo

Ao tratar cidadania e economia como realidades antagônicas, a política brasileira torna-se escandalosamente disfuncional

Temos no Brasil liberdade política e pluripartidarismo. No entanto, parece haver uma grave lacuna em nosso espectro político-partidário: não se encontra facilmente quem defenda a cidadania e, ao mesmo tempo, um ambiente saudável de negócios. Em toda eleição, o eleitor tem de fazer uma escolha um tanto absurda entre as duas coisas, como se elas fossem incompatíveis.

É constrangedor. Se considero, por exemplo, como um aspecto central do desenvolvimento civilizatório uma polícia que atue dentro da lei e esteja sob estrito controle do Estado – que não seja racista, que não se sinta autorizada a realizar chacinas, que não seja politizada, que atue profissionalmente –, terei de escolher candidatos que desprezam afrontosamente princípios básicos de política econômica e do ambiente de negócios.

Paulo Delgado - A energia dos vícios

O Estado de S. Paulo

Uma época copiadora, que se distancia cada vez mais das fontes das épocas criadoras e das gerações e ideias que não são mais levadas em conta

O cinismo dos costumes tira dos vícios a energia e está criando outro mundo. Muito do que anda por aí mostra uma debilidade do nosso tempo. Comodismos vocabulares procuram ajustar o confuso cenário de guerra, juros, desigualdades, tirania a uma compreensão automática das situações de conflito, medo e injustiça ao topo compreensível do lugar comum. Situação de língua em retrocesso que não toma mais consciência de si mesma e que usa a palavra como gíria. A linguagem alfabética nada mais sabe dos poderes que um dia teve. Alfabeto, esse velho beato, torturado pelo flagelo que é a inteligência artificial, perdeu a luta diante da prontidão de um mundo vazio, massificado, manipulado. Palavra e efeito sumiram da linguagem sem espaço para a compreensão dos signos do vocabulário, invertebrada, no exílio do espírito. Palavra sem paladar é floresta desfolhada, faísca de fósforo molhado. Vida encadernada não é modificada.

Marcelo Godoy - O crime organizado e as Guardas Civis

O Estado de S. Paulo

Não foi o rambo espantador de mendigo que prendeu Leo do Moinho, mas os promotores

Em 6 de agosto, o prefeito Ricardo Nunes se reuniu no Centro de Operações da PM, na Luz, com os promotores responsáveis pela operação que atacou o ecossistema criminoso do PCC na Cracolândia. Não longe dali, no centro, um guarda civil usava o bico de seu fuzil para acordar um morador de rua que dormia em uma calçada. O guarda disse que ali o mendigo não podia ficar. Este se levantou, pegou o cobertor e foi deitar a cem metros dali, em outra calçada. A cena foi testemunhada por um jornalista.

Hélio Schwartsman - Carta discrimina municípios pequenos

Folha de S. Paulo

Não existe razão teórica para privar de segundo turno habitantes de cidades com menos de 200 mil eleitores

Entre os muitos déficits democráticos consagrados pela Constituição brasileira está a regra de que apenas municípios com mais de 200 mil eleitores fazem um segundo turno na eleição para prefeito, caso nenhum dos candidatos obtenha mais de 50% dos sufrágios válidos na primeira votação.

O segundo turno pode ser descrito como um mecanismo que dá materialidade à rejeição. Na prática, ele permite aos eleitores vetar o postulante mais detestado —uma providência razoável num sistema que visa a conter radicalismos e promover o entendimento.

Bruno Boghossian - Os superpoderes de Moraes

Folha de S. Paulo

Tolerância com omissão da PGR e ocupação de espaço pelo ministro são duas partes da mesma história

A PGR tinha dado todos os sinais de sua letargia quando Alexandre de Moraes mandou engavetar um pedido de investigação contra Augusto Aras. Era agosto de 2021, e o ministro afirmou que faltavam indícios sobre o interesse do procurador-geral em dar guarida a Jair Bolsonaro para, entre outros crimes, tentar demolir o sistema eleitoral.

A tolerância com a omissão da PGR e a concentração de poderes no Supremo contam duas partes da mesma história. Moraes se acostumou com a presença de Aras como um objeto inanimado na paisagem institucional. Em vez de corrigir o vício, o ministro deu um jeitinho para ocupar aquele espaço.

Mariliz Pereira Jorge - Pablo Marçal é ameaça real

Folha de S. Paulo

Investigado pela PF, já foi condenado por desvios em contas bancárias

Depois de anos de Jair Bolsonaro e da estética chucro-cafona-agressiva que ele levou ao poder, parecia haver um cansaço desse modelo antissistema, mas o buraco pode ser mais fundo. Pablo Marçal confirma o que o pesquisador britânico Jamie Bartlett já falava antes da eleição de 2018 sobre como a internet favorece candidaturas de outsiders e de políticos de perfil autoritário.

Wilson Gomes - Maduro ou a democracia

Folha de S. Paulo

Quem apoia os absurdos arranjos da Venezuela não tem moral para gritar 'golpe' em seu país

Nos dias que correm, a democracia não é uma brincadeira. A ascensão da extrema direita pode até ser o fenômeno mais vistoso, mas faz tempo que a democracia não sofre um conjunto de ameaças tão consistentes e em tão grande escala. Novos movimentos sociais e partidos políticos intolerantes e radicais desafiam, tanto nas eleições quanto na percepção pública, praticamente todos os fundamentos da democracia moderna. E mostram que vieram para ficar, quer aceitemos essa realidade ou nos refugiemos na ilusão de que é tudo feio demais para ser verdade.

Em vários aspectos, as décadas de 2020 e 1920 têm mais em comum do que se imagina. São tempos confusos e inquietantes para a política e a democracia, marcados pelo avanço constante de posições radicais e populistas, que viam a democracia liberal como um estorvo. Na década de 1920, ainda não se sabia, mas o radicalismo antidemocrático não estava a passeio. Já na década de 2020, estamos usando justamente o que sabemos do século passado para tentar esconjurar a sua repetição, embora as reiteradas vitórias de extremistas e radicais possam indicar que esta é a nova normalidade da política.

Paul Krugman - Trump chama Harris de 'comunista' e isso mostra o quanto ele está preocupado

The New York Times / Folha de S. Paula

Já que nada mais parece estar funcionando, por que não chamá-la de comunista?

Donald Trump tem usado uma palavra feia para descrever a vice-presidente Kamala Harris. Não, não estou falando de chamá-la de "vadia" em particular, embora ele supostamente faça isso. Estou falando de "comunista", um insulto ecoado por alguns de seus aliados. Por exemplo, Elon Musk, em uma postagem no X, declarou "Kamala é literalmente uma comunista", demonstrando, entre outras coisas, que ele literalmente não sabe o significado de "literalmente".

Agora, Harris obviamente não é comunista. Então, por que Trump diz que ela é? Bem, a tática de acusar alguém de ser comunista, assim como a de usar questões raciais —que Trump também faz em relação a Harris— faz parte da tradição política americana. Por exemplo, no início de sua carreira política, Ronald Reagan participou da Operação Coffee Cup, um esforço para convencer os eleitores de que o seguro de saúde governamental, na forma do Medicare, destruiria a liberdade americana.

Poesia | Graziela Melo - Ato de pensar

Pensar,
pensar
pensar...

nas trevas
na luz,
no ar...

pensar
em andar
na terra
ou em voar!!!

Pensar
na amargura
ou na doçura
que a gente
não cansa
de procurar!

Música | Adriana Calcanhoto - Cariocas

 

terça-feira, 13 de agosto de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Olimpíada de Paris traz sensação ambígua ao Brasil

O Globo

Mesmo com conquistas a celebrar, as frustrações expõem deficiências no incentivo ao esporte no país

Apesar das 20 medalhas, a participação brasileira na Olimpíada de Paris frustrou a expectativa. O próprio Comitê Olímpico do Brasil (COB) esperava bater o recorde obtido em Tóquio, melhor desempenho até hoje com 21 medalhas (sete de ouro, seis de prata, oito de bronze e a inédita 12ª colocação). Mas o Brasil teve de se conformar com três ouros, sete pratas, dez bronzes e o 20º lugar no quadro geral. Embora o número de pódios seja parecido, as medalhas de ouro recuaram, restringindo-se ao brilho de Rebeca Andrade no solo, Bia Souza no judô, Duda e Ana Patrícia no vôlei de praia.

Maria Cristina Fernandes - Os três vespeiros da reunião ministerial

Valor Econômico

Bloqueio do “orçamento secreto”, controle das agências reguladoras e mediação de conflitos contratuais foram discutidos em encontro

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mexeu em três vespeiros na última reunião ministerial: bloqueio do “orçamento secreto”, controle das agências reguladoras e mediação de conflitos contratuais. Lula não fala desses temas em público. Além de ministros, havia presidentes de bancos públicos e do IBGE e líderes governistas no Congresso. Ao bulir nos vespeiros, mostrou que não está inerte à usurpação de prerrogativas que marca sua volta ao poder.

No dia da reunião, o noticiário estava dominado pela decisão do TCU que equipara os presentes de Lula às muambas do ex-presidente Jair Bolsonaro. Não foi o único incômodo daquela sessão. Naquela véspera da reunião ministerial, o TCU também tomou uma decisão que exclui dos cinco anos de mandatos dos atuais diretores-presidentes das agências reguladoras o tempo em que permaneceram em outros cargos de direção.

Pedro Cafardo - Inflação de idosos é mais alta; mínimo repõe perdas com sobra

Valor Econômico

Delfim Netto morreu anistiado pela esquerda, certamente em razão de seu desenvolvimentismo, que proporcionou ao país um período de extraordinário crescimento econômico

Em julho, esta coluna tratou da questão da desvinculação dos benefícios da Previdência. O tom da conversa foi sobre o risco de superendividamento dos idosos caso venha a prevalecer a proposta de desvincular reajustes de aposentadorias e outros benefícios da variação do salário mínimo.

A desvinculação, na prática, tiraria dos idosos que recebem um salário mínimo (dois terços do total) a possibilidade de participar dos ganhos reais da economia. Hoje, ao acompanhar os reajustes do mínimo, os benefícios aumentam acima da inflação oficial, porque são acrescidos do índice de variação do PIB.

Essa vinculação ajuda a aumentar o déficit fiscal do governo em bilhões de reais. A ideia dominante entre os fiscalistas é de que o reajuste deveria seguir apenas a inflação. Ocorre que esse ajuste nem sempre repõe o poder de compra de aposentados e pensionistas, porque os principais gastos dos idosos, como remédios e planos de saúde, tendem a subir mais que a inflação oficial.

Carlos Andreazza - Prioridades

O Estado de S. Paulo

Nada se votará, sobretudo na Câmara, sem que os lugares nas mesas diretoras estejam para jogo

Volta o Congresso ao trabalho, vencido – e esticado – o recesso. E volta, forjadas as urgências artificiais, para esforço concentrado. Muitos assuntos a tratar. Curto, por gestão da turma, o tempo. E então o esforço concentrado. É como chamam a migalha que dedicarão às matérias (nem todas) de interesse público, antes de, já em setembro, mergulharem de todo nas eleições municipais.

Quase de todo, a não faltar atenções à sucessão nos comandos das Casas parlamentares. Nada se votará, sobretudo na Câmara, sem que os lugares nas mesas diretoras estejam para jogo. A maneira como Lira conduziu a primeira regulamentação da reforma tributária o demonstra, exemplar a distribuição-trator de relatorias aos maiores partidos. O homem não tem o controle – não como gostaria um autoritário – sobre o futuro da cadeira em que senta. Precisa manter aquecido o café.

Dora Kramer - Pior que o soneto

Folha de S. Paulo

As emendas tornaram-se uma forma paralela de financiamento de campanhas

Tradicionalmente, as emendas parlamentares ao Orçamento da União sempre foram um jeito de o Executivo manter o Legislativo sob sua dependência. A cada votação negociava-se uma liberação.

Quando passaram a ser impositivas houve uma primeira, e hoje vemos, ingênua impressão de que era uma boa maneira de frear a troca daqueles recursos por votos.

Ingenuidade, porque à época não se considerou a força do velho, e cínico, dito de quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é bobo ou não tem arte.

Joel Pinheiro da Fonseca - Emendas parlamentares precisam mudar

Folha de S. Paulo

Há justificativa para a existência de emendas, mas a questão é o quanto e o como

Deputados e senadores pretendem retaliar o governo pelo questionamento que o Supremo vem fazendo à falta de transparência de emendas do relator e "emendas Pix". Confronto entre Poderes não é um problema; é parte do desenho da divisão de poder e exige que governo e Congresso entrem em algum acordo que funcione para ambas as partes. Essa é a lógica da política. Cada lado defende pautas que estão de acordo com seus interesses na busca do poder.

Na relação Executivo-Congresso, às vezes um e às vezes o outro defenderá aquilo que seria melhor à sociedade. E às vezes ocorre de um dos lados da disputa política defender algo que afronta diretamente os princípios básicos da nossa Constituição.

É um erro demonizar as emendas parlamentares. Há uma justificativa para sua existência: um deputado provavelmente sabe mais de necessidades locais de seu estado do que um gestor federal. Assim, é razoável que ele possa destinar algum recurso para projetos que ele sabe ser importante.

Hélio Schwartsman - Regulação que funciona

Folha de S. Paulo

Cultura de segurança em torno da aviação comercial reduziu significativamente as taxas de desastres com mortes

Parte dos liberais tem vontade de sacar o revólver só de ouvir a palavra "regulação", mas há situações em que ela funciona exemplarmente. Um dos setores mais regulados do mundo, especialmente no quesito segurança, é a aviação comercial. E, apesar de ainda ocorrerem acidentes trágicos como o do avião que caiu em Vinhedo (SP), eles são cada vez mais raros.

Em 1959, registravam-se 40 acidentes com mortes para cada milhão de voos nos EUA. Dez anos depois, a cifra havia caído para menos de 2 e hoje baixou para 0,1. Os números para outras regiões do planeta não são os mesmos, mas a curva de redução é semelhante.

Luiz Carlos Azedo - Delfim Netto foi um camaleão na política

Correio Braziliense

Delfim foi um protagonista da modernização brasileira, na qual o positivismo foi o caldo de cultura da direita e, depois, da esquerda

A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher esteve no Brasil em 1994, no governo Itamar Franco, quando o Plano Real ainda era um “experimento econômico”. Estava em pleno curso a transição à nova moeda, e o xis do problema era o comportamento da inflação. Thatcher fora convidada por Jorge Paulo Lemann, ainda dono do banco Garantia, que viria a ser vendido para o Credit Suisse, em 1998.

A Dama de Ferro lotou o auditório do Maksoud Plaza, um edifício de 23 andares na região central de São Paulo, que ainda era uma referência de tradição e glamour para artistas, celebridades e autoridades, cenário de novelas e palco de shows históricos. Thatcher tinha deixado de ser ministra havia quatro anos, mas era a principal referência para os que desejavam fazer a reforma do Estado brasileiro, com a privatização das empresas estatais, como ocorreria nos anos seguintes. O Brasil era a 10ª economia do mundo.

Merval Pereira - Fora dos padrões

O Globo

Depois entendeu que o poder político havia voltado aos civis, foi para o Congresso e passou a ser um interlocutor importante no governo Lula, apoiando o lado da política de desenvolvimento social do governo

Era início de 1974, o general de Exército da reserva Ernesto Geisel, eleito presidente da República meses antes, passeava com o assessor Oswaldo Quinsan nos jardins de sua casa em Teresópolis quando perguntou de chofre:

— O que fazemos com o Delfim?

Homem sem papas na língua, Quinsan, que trabalhara com Geisel na Petrobras e era seu chefe de gabinete no Palácio do Planalto, respondeu:

— Manda prender.

Delfim era muito forte ainda, impossível prender, mesmo que Geisel quisesse. Pretendia ser governador de São Paulo para chegar ao Palácio do Planalto no final do governo Geisel. Acabou tendo de se contentar com o cargo de embaixador do Brasil na França, onde seus inimigos diziam que era conhecido como “Monsieur Dix pour Cent”.

Míriam Leitão - O economista da ditadura

O Globo

Delfim Netto sempre buscou o poder. Na ditadura defendeu um ato mais duro que o AI-5. Na democracia foi interlocutor de presidentes

O ex-ministro Delfim Netto sempre quis o poder, e se adaptou para exercê-lo em qualquer circunstância. Na ditadura, demonstrou intimidade com o poder totalitário, assinou o AI-5 e disse naquela reunião que o ato deveria ser ainda mais forte. Nos governos Costa e Silva, Emílio Médici e João Figueiredo, foi o poder incontrastável na área econômica. Na democracia, buscou os caminhos para continuar influente, mantendo-se muito bem informado, dialogando com diversas correntes políticas e se transformando em interlocutor de vários presidentes. Na economia, foi um intervencionista, nunca foi liberal e manteve altas barreiras tarifárias ao comércio exterior. Para entender Delfim Netto é preciso aceitar as complexidades. O homem que comandou um período de forte crescimento, produziu depois uma recessão, foi o czar econômico da ditadura e depois deputado constituinte eleito.

Eliane Cantanhêde - Poder e pragmatismo

O Estado de S. Paulo

Delfim Netto: ‘czar da economia’ e ‘inimigo dos pobres’; poderoso na ditadura e amigo de Lula

Apelidado de “czar da economia” e considerado mentor e executor do “milagre econômico” no regime militar, Delfim Netto tinha uma inteligência primorosa, uma conversa cativante e um humor demolidor, que ele calibrava com seu decantado pragmatismo. Adorava uma boa fofoca, recheada de detalhes e maldades. Não deixava nada nem ninguém passar em branco e um dos seus alvos prediletos eram os tucanos, particularmente Fernando Henrique Cardoso, com quem seu santo nunca cruzou. Só era monossilábico ao falar do general Ernesto Geisel.

Delfim era muito polêmico, atraía amigos e inimigos aos montes e cometeu um erro comum, como a gente sabe: voltar ao poder. Saiu da glória e virou vilão preferido, seguindo a trajetória da economia. Em seus tempos de ministro da Fazenda dos generais Costa e Silva e Emílio Médici, a economia cresceu em média 11%, registrou queda da inflação e aumento do consumo de carros e eletrodomésticos. Tornou-se ídolo de empresários e da classe média.

Rolf Kuntz - Um homem de ação e de livros

O Estado de S. Paulo

O legado de Delfim é mais amplo do que indicam admiradores e menos feio do que dizem os críticos

Criado por Jô Soares como caricatura do ministro Antônio Delfim Netto, o Dr. Sardinha combinava duas impropriedades. Sardinha é peixe, enquanto delfim, ou golfinho, é mamífero. Além disso, o bordão recitado pela figura caricata – “meu negócio é número” – era um tanto enganador. Ex-professor de econometria, o ministro entendia de economia agrícola, e sua tese de livre-docência tratava do café. Mas a personagem era divertida, assim como era bem-humorado o titular, em diferentes governos, dos ministérios da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento.

Delfim ganhou notoriedade como secretário da Fazenda, em São Paulo, durante o governo de Laudo Natel. Ficou pouco tempo na secretaria. Foi chamado para cuidar das finanças federais no governo do presidente Costa e Silva. Havia condições para a retomada do crescimento, depois de eliminado o risco de hiperinflação pela dupla Roberto Campos-Octávio Gouvêa de Bulhões, na presidência do marechal Castelo Branco.

Elio Gaspari - Delfim Netto foi ministro da Fazenda mais poderoso da história republicana

Folha de S. Paulo

Economista ocupou a pasta durante o 'Milagre Brasileiro', na ditadura militar

Antonio Delfim Netto, que morreu nesta segunda-feira (12), em São Paulo, foi o ministro da Fazenda mais poderoso da história republicana. Neto de um imigrante italiano que fugiu do eito das fazendas de café e trabalhou no calçamento das ruas de São Paulo no século 19, chegou ao poder em 1967, aos 38 anos. Pouco conhecido, com o sotaque do Cambuci, solteiro, gordo e vesgo, vestia-se de preto com camisas brancas. "Fantasia de viúvo", explicava.

Delfim chegava cedo ao ministério e saía tarde, quase sempre para uma mesa do fundo do restaurante Le Bistrô, em Copacabana, sentando-se com os amigos que colocara em postos-chave da administração. De um lado o presidente do Instituto Brasileiro do Café (principal produto da exportação nacional). Adiante, o presidente da Caixa Econômica ou o responsável pelo conselho que controlava milhares de preços de produtos. Ao contrário de Paulo Guedes, que acumulou ministérios, Delfim apenas espalhava seus quadros no tabuleiro do poder.

Durante os seis anos em que esteve na Fazenda, a economia nacional cresceu na média 11% ao ano. Era o que se chamou de "Milagre Brasileiro". Cavalgando-o, poderia ter chegado à presidência da República. A conta era simples: em 1974 ele sairia do ministério, seria eleito (indiretamente) governador de São Paulo e quatro anos depois substituiria o general Ernesto Geisel no Planalto.

Morre Delfim Netto, ministro do milagre econômico, aos 96 anos

Estevão Bertoni / Folha de S. Paulo

Ex-titular da Fazenda foi de homem forte em governos da ditadura a interlocutor de Lula

O economista, ex-ministro e ex-deputado Antonio Delfim Netto morreu nesta segunda-feira (12), em São Paulo. Ele estava internado havia uma semana no Hospital Israelita Albert Einstein, segundo sua assessoria de imprensa, por complicações no estado de saúde.

Delfim deixa filha e neto. Não haverá velório aberto ao público e o enterro será restrito à família.

Ele foi uma figura complexa. O ministro que assinou em 1968 o AI-5, e era único ainda vivo entre os signatários do ato que inaugurou os Anos de Chumbo no país, foi também o deputado federal que, 20 anos depois, chancelou a Constituição de 1988, considerada uma das mais democráticas do planeta.

Foi o homem forte dos generais durante o regime militar (1964-1985) e, quase duas décadas depois, um dos principais interlocutores de Lula nos dois primeiros mandatos do ex-metalúrgico.

O economista e professor da USP soube se reinventar ao longo da carreira. Dizia em vida ter sido três: o primeiro, um socialista fabiano, adepto do movimento inglês surgido no século 19 e que defendia a implantação do socialismo por meio de reformas graduais. O segundo, o homem do governo militar. E o terceiro, o que contribuiu no fim da vida com as políticas sociais do primeiro governo Lula (2003-2010).

Sua projeção nacional começou em 1967, quando se tornou, aos 38 anos, o mais jovem ministro do país. Assumiu a pasta da Fazenda de Costa e Silva para só deixá-la em 1974, no fim do governo Médici. No período, ganhou a fama de "czar da economia brasileira". Nos 21 anos de ditadura, comandaria por 13 deles a economia do país.

Poesia | A velhice pede desculpas, de Cecília Meireles

 

Música | Paulinho da Viola - Onde a dor não tem razão

 

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Prefeitos que não deram fim a lixões precisam se explicar

O Globo

Brasil ainda tem 3.000 depósitos irregulares que causam doenças e aumentam o aquecimento global

Se todo o lixo produzido no mundo a cada ano fosse colocado em contêineres enfileirados, cobriria distância maior que uma viagem de ida e volta à Lua. Jogados em lixões, os resíduos causam problemas de saúde pública, contaminam o meio ambiente e produzem gases que provocam o aquecimento global. Entre 400 mil e 1 milhão de pessoas morrem por ano de doenças ligadas à má gestão do lixo, diz relatório recente da ONU.

Em tema tão premente, prefeitos brasileiros de diferentes regiões devem explicações. No Brasil, 33,3 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, ou 40% do lixo gerado, têm destinação inadequada, segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). A prática é um desrespeito à legislação e exige escrutínio de órgãos de controle.

Jorge Darze* - Diálogo contra a crise dos hospitais federais no Rio

O Globo

Não basta o governo se unir ao setor privado na tentativa de resolver o problema. Essa não é a solução

Apesar do nosso respeito pelo autor do artigo “Parcerias contra a crise dos hospitais federais no Rio”, publicado pelo GLOBO na semana passada, não podemos concordar com suas teses sobre a crise dessas unidades. Fazer parte da democracia é ter o direito de discordar e apresentar uma visão distinta sobre um problema tão complexo. Desde a promulgação da Constituição de 1988, até hoje nada foi feito para livrar esses hospitais das muitas dificuldades que enfrentam.

Só quando o programa Fantástico revelou a situação precária dessas unidades, o governo federal parece ter despertado para a gravidade do problema e apresentado soluções atabalhoadas, sem ouvir o controle social previsto na Lei 8.142 de 1990 e sem abrir um diálogo efetivo com as instituições representativas da sociedade civil. Para quem defende o SUS, essa postura é um erro grave.

Fernando Gabeira - Perdendo o jogo na Venezuela

O Globo

A tática já foi anunciada por Lula: construir uma narrativa democrática, apesar de tantas evidências

Li uma entrevista de um homem de 100 anos dizendo que seu segredo era deixar os problemas cotidianos fora do quarto de dormir. Não tenho a pretensão de chegar aos 100, mas preciso banir dois personagens de minhas divagações noturnas: o Flamengo e o governo brasileiro.

Não vou aborrecer ninguém com minha paixão pelo futebol, preciso de dois parágrafos para o Flamengo. É clube com orçamento milionário e uma direção incompetente. O técnico de futebol é homem de pobres sinapses. É possível antever a derrota apenas lendo a escalação do time.

Suas explicações nunca vão às causas do problema. Outro dia, após uma derrota, ele reclamou do calor, como se seu time jogasse no sol, e o vencedor numa redoma de ar-condicionado.