terça-feira, 4 de março de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Oscar inédito de Walter Salles traz estímulo à arte

O Globo

Reconhecimento à excelência técnica, prêmio para ‘Ainda estou aqui’ é um marco no atual momento histórico

Oscar inédito do diretor Walter Salles, na categoria Melhor Filme Internacional, representa mais que reconhecimento à competência técnica de “Ainda estou aqui”, relato da busca da viúva Eunice Paiva por seu marido, Rubens Paiva, assassinado nos porões da ditadura militar em 1971. Trata-se de estímulo a um dos maiores mercados de audiovisual do mundo e de marco no atual momento histórico. Não foi por acaso que Salles agradeceu em nome do cinema brasileiro e dedicou a estatueta às atrizes que vivem Eunice — Fernanda Torres e Fernanda Montenegro —, além de à própria Eunice.

O número de indicações ao Oscar é prova da excelência do trabalho, produção de VideoFilmes, RT Features e Mact Productions, em coprodução com Globoplay, ARTE France e Conspiração. Além de concorrer com outros filmes estrangeiros, “Ainda estou aqui” foi finalista na categoria principal — Melhor Filme —, e Fernanda Torres disputou o Oscar de Melhor Atriz. Antes de ser aclamada em Hollywood, a história da família Paiva já era sucesso nas telas dentro e fora do Brasil. Aqui, o filme foi visto por mais de 5 milhões. No Reino Unido e na Irlanda, fez a melhor estreia de um filme latino-americano, arrecadando R$ 3,5 milhões no primeiro fim de semana. Na França, foi lançado no mês passado em 475 salas. Em Portugal, conquistou a maior audiência entre 16 de janeiro e 9 de fevereiro. Nos Estados Unidos, está em cartaz em 762 cinemas. Com a premiação, é certo que aumentará o impacto do cinema brasileiro no mercado doméstico e também no exterior.

A vitória da vida - Merval Pereira

O Globo

O primeiro Oscar, que nunca se esquece, é a demonstração internacional da maturidade de nossa indústria cinematográfica

A primeira vitória do Brasil no Oscar, com “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, como Melhor Filme Internacional, tem significado político importante para um país que ainda lida com uma recente tentativa de golpe antidemocrático, por um grupo de militares e civis que sonhavam abertamente com a volta da ditadura militar.

Retratada no filme com sobriedade e emoção, a figura de uma mulher lutadora, Eunice Paiva, que teve de sobreviver à morte do marido, o ex-deputado Rubens Paiva, e lutou durante anos para ter, pelo menos, a admissão oficial do governo de que ele fora assassinado num quartel do Exército, é o centro de uma aventura que toca a todos, torna-se universal.

Por isso, aliás, a piada do apresentador Conan O’Brien sobre sua mulher desejar que ele sumisse como o personagem do filme só demonstra a alienação de um comediante que, no mínimo, não se preparou para executar bem seu trabalho. A sensibilidade que lhe faltou sobrou aos milhões de espectadores pelas salas de cinema do mundo, de um filme falado em português que impactou cidadãos sensíveis a situações de risco impostas por governos autoritários, sejam de que natureza forem.

O iliberal – Pedro Doria

O Globo

A gente vem tratando as ideologias políticas como caricaturas faz tanto tempo que muita compreensão se perdeu. Este segundo governo de Donald Trump é bastante diferente do primeiro. Se o Trump de 2017 era essencialmente confuso e caótico, para este de 2025 podemos lançar mão de muitas palavras, mas uma é mais importante do que todas as outras. É um governo iliberal. Esse “i”, que denota o oposto do liberalismo, representa uma ruptura brusca a respeito do que os Estados Unidos foram, pelo menos nos últimos cem anos. Em essência, estamos entrando em terreno desconhecido e potencialmente perigoso.

Esqueçam, pois, a caricatura que a esquerda latino-americana faz dos Estados Unidos e do liberalismo. Uma crença fundamental move a ideia americana: que um mundo com mais democracias liberais operando com economias de mercado é ideal para os Estados Unidos. As razões são algumas. Democracias são mais estáveis que ditaduras, e democracias, quando têm problemas entre si, resolvem à mesa, talvez com mecanismos multilaterais. Além disso, democracias com economias de mercado são particularmente abertas ao comércio. Essa dinâmica enriquece a todos.

Meio século numa noite - Míriam Leitão

O Globo

Não esquecer foi a grande virtude do Brasil. Tornar a história conhecida do mundo foi o maior prêmio que o filme deu a nós e à democracia brasileira

Entre a noite em que Walter Salles recebeu o Oscar, em Los Angeles, e o dia, no Rio de Janeiro, em que Rubens Paiva foi sequestrado pela ditadura militar do seio da sua família, passaram-se 54 anos, um mês e dez dias. Nesse tempo, Eunice e seus cinco filhos enfrentaram tudo à espera do corpo que não veio. Hoje o país está imerso nessa história como se ela tivesse acontecido ontem. Não esquecer foi a grande virtude do Brasil. Tornar a história conhecida do mundo foi o maior prêmio que o filme deu a nós e à democracia brasileira. A estatueta de “Ainda estou aqui” chega no momento exato em que precisamos dela.

Assisti à cerimônia do Oscar com minhas netas mais novas, Manuela, 13, e Isabel, 11. Quando Rubens Paiva morreu, o pai delas, Vladimir, não havia nascido. Elas viram o filme, falam com intimidade sobre Eunice, Rubens e seus filhos, como se os conhecessem. O fio que trouxe a história até nós foi tecido, primeiramente, pelas mãos de Eunice. Depois, pela literatura de Marcelo Rubens Paiva. Por fim, pelo cinema brasileiro. Mais de cinco milhões de pessoas viram o filme, incontáveis famílias conversaram sobre esse tema nos seus encontros. Isso não é pouco num país em que o desmonte da memória é uma estratégia para escapar dos temas incômodos.

Produtores tranquilizam Lula sobre inflação

Eliane Oliveira / O Globo

Em reuniões realizadas na semana passada com representantes do setor privado, para discutir formas de reduzir os valores cobrados pelos alimentos e, com isso, evitar novas altas na inflação, o governo ouviu um cenário mais otimista: com a colheita da safra de grãos, a tendência é de queda nos preços.

No caso da carne bovina, a cotação do produto, que havia ficado 15% mais barato em fevereiro, ante dezembro, pode ter uma nova queda de 10%. Foi o que informaram representantes dos produtores que estiveram reunidos com os ministros da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário, Carlos Fávaro e Paulo Teixeira, na quinta-feira passada.

Ainda estamos aqui - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Se o golpe de Bolsonaro tivesse dado certo, o Brasil teria ganhado o seu primeiro Oscar?

Ainda Estou Aqui foi o filme certo, na hora certa. O primeiro Oscar não poderia ter vindo num momento melhor para o Brasil, os brasileiros, a nossa história e até para o governo Lula, que tem um refresco e pode comemorar, enfim, um prêmio e a felicidade popular. E tudo isso no meio do carnaval, uma das festas mais eletrizantes e inclusivas do mundo.

Só faltaram a legítima estatueta para Fernanda Torres, que brilhou ao viver não uma, mas as várias Eunices Paivas durante Ainda Estou Aqui, e uma homenagem a Cacá Diegues. No mais, pareceu tudo perfeito, a começar de Walter Salles, um diretor perfeito, que fez um filme sobre ditadura sem chocar com choques elétricos, cadeiras do dragão, afogamentos e técnicas de tortura tornadas rotineiras nos anos de chumbo.

Mas que calor, ô ô ô ô ô ô - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Quanto maiores as dificuldades, mais a brincadeira se reinventa

Carnaval é uma festa móvel e onívora que se renova a cada fevereiro ou março, apesar daqueles que não gostam dele (e têm o direito de não gostar), das pessoas que o atacam preconceituosamente e de quem o proíbe, como o prefeito de Porto Alegre.

No processo de modernização permanente é inevitável um olhar ao passado para rever as tradições. O que não significa abraçar os saudosistas, gente para as quais o melhor não volta: as marchinhas do Nássara, os sambas do Império Serrano, os blocos de sujos, o Baile do Havaí no Iate Clube de Botafogo (onde, diz a lenda, a certa hora ouvia-se a ordem: "Todo mundo nu pulando na piscina!").

Emendas seguem regras do novo anormal - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Supremo freia o avanço, mas Congresso ainda mantém poder excessivo sobre o Orçamento

Uma operação casada entre os três Poderes foi o que possibilitou uma trégua no embate das emendas parlamentares, suspensas desde agosto do ano passado. Estão, por ora, liberadas por força de um acordo entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

Havia uma audiência marcada para o último dia 27, desmarcada na véspera, quando se soube da aceitação do plano de trabalho apresentado ao ministro Flávio Dino pela Controladoria Geral da União junto com o Congresso.

Lula à espera do inverno russo - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Presidente não sai do arroz com feijão para enfrentar crise de popularidade; parece apostar em fenômeno natural que o salvará mais uma vez

Começo com uma piada. É 1973. Depois da virada israelense na guerra do Yom Kippur, uma coluna de tanques do Estado judeu toma a direção do Cairo. Preocupados, os egípcios pedem conselho aos russos, conhecidos por sua habilidade em repelir invasões estrangeiras.

A primeira instrução chega de Moscou através de um telegrama: recuar. Os egípcios retrocedem suas forças, mas os tanques não se detêm. Pelo contrário, aceleram. Nova consulta a Moscou, nova resposta: recuar. Quando os israelenses chegam às portas da capital, os egípcios, visivelmente mais nervosos, perguntam de novo aos soviéticos o que devem fazer. Algumas horas depois, vem a resposta: aguardar início do inverno.

Direita, celebre 'Ainda Estou Aqui'! - Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

O primeiro Oscar para um filme brasileiro produziu a catarse nacional, mas infelizmente nem todo mundo entrou na festa

primeiro Oscar para um filme brasileiro produziu a catarse nacional. Infelizmente, nem todo mundo entrou na festa. Muita gente da direita brasileira não celebrou. Se falam do filme, é para fazer alguma ironia ou crítica da política atual. Por quê?

O teor de muitas dessas manifestações é o de comparar a ditadura militar à suposta ditadura atual: a do Supremo. É um paralelo fraco, por mais que os inquéritos do Supremo possam e devam ser criticados. Não há semelhança entre as pessoas presas por tentarem um golpe de Estado que derrubaria a democracia —com penas, sim, excessivamente longas— com a prisão, tortura e assassinato de pessoas que lutavam pela democracia.

Os golpistas de hoje têm julgamentos públicos e são defendidos por advogados —além de podermos falar livremente deles na imprensa e nas redes. Os democratas dos anos 1970 eram censurados, torturados e mortos.

Poesia | A Colombina baunilha - Marcelo Mário de Melo

Com olhos de adereço

chuva fina de confete

caracóis de serpentina

respingos de frevo e festa

a Colombina aflorou

arrastando pelos olhos

a gestos de enleio e dança

um Pierrot solitário.


Mas as flechas e o sinete

nas trilhas do encantamento

vieram pelo aroma

que brotou da Colombina:

sumos de suor sorvete

mulher cheirando a baunilha.

 

Ao fim do reino de Momo

no silêncio dos clarins

restou um Pierrot rendido

cheirando fios de lembrança.

Música | Ultimo Regresso com Getulio Cavalcanti e Bloco da saudade

 

segunda-feira, 3 de março de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Visão iconoclasta de Trump imola Ucrânia no altar de Putin

Folha de S. Paulo

Humilhação inédita imposta a Zelenski pelo republicano mina ordem mundial, com perigo para interesses dos próprios EUA

A definição do que é interesse nacional é um complexo jogo em que se equilibram, de forma conflituosa, imperativos geopolíticos e a sustentação de princípios morais. Quase invariavelmente os primeiros falam mais alto. A questão é a resultante. Na Guerra da Ucrânia, a visão do principal ator externo ao conflito estava clara.

Para o governo dos Estados Unidos sob Joe Biden, impedir que Vladimir Putin prevalecesse em sua agressão suplantava as vantagens do apaziguamento. Havia, claro, cinismo: nunca se cogitou dar a Kiev recursos para elevar o preço da invasão a tal ponto que o russo desistisse dela.

O veterano Biden temia a Terceira Guerra Mundial, não sem razão. O Kremlin aproveitou-se disso e modulou, com ameaças reiteradas de uma escalada nuclear, a ajuda que a Ucrânia recebia.

Conversa de carnaval – Fernando Gabeira

O Globo

Apesar de tantas mudanças, das análises sociais da folia, da comercialização e tudo o mais, a chama ainda está acesa

Apesar de ter quase meio século, a teoria do querido Roberto DaMatta ainda é uma insuperável explicação do carnaval brasileiro. É uma análise mostrando a quebra da hierarquia social que funciona magicamente até Quarta-Feira de Cinzas.

As teses de Darwin sobre a evolução das espécies, sobre a sobrevivência dos mais aptos por meio das dificuldades diante dos obstáculos também é inquestionável. No entanto há espaço para avaliar não apenas o carnaval, como também a teoria de Darwin sob outro ângulo: o impulso para namorar, acasalar, a escolha sexual. Uma das figuras que desafiam a visão clássica de Darwin é o pavão. Com suas longas caudas radiais de azul iridescente, aqueles olhos em círculos de bronze, ele não pode ser considerado apenas sob a ótica da sobrevivência.

Sua estrutura é incômoda para buscar alimentos e absolutamente ineficaz para escapar de predadores. No entanto o pavão maravilhoso sobrevive assim pois essa é sua maneira de agradar à pavoa, de acasalar. Tanto o pavão quanto a música — ou mesmo a arte, vistos sob o prisma da pura sobrevivência material — são perda de energia. Mas os pássaros cantam nos bosques e na floresta também para seduzir suas fêmeas.

Deus, amor e tarifas – Demétrio Magnoli

O Globo

A globalização não depende exclusivamente do mercado dos Estados Unidos

Tarifas. Na campanha eleitoral, Trump definiu-a como sua predileta, “a mais linda palavra”. Depois, na hora do triunfo, rebaixou-a para o terceiro posto, atrás de Deus e amor. A paixão tarifária do presidente tem o poder de mudar o mundo — mas não do modo como ele almeja.

Sob a lógica de Trump, tarifas cumprem três finalidades diferentes: geopolíticas, comerciais e industriais. Seriam ferramentas de intimidação, de substituição de importações e de reequilíbrio da balança comercial americana.

Theodore Roosevelt inventou o Big Stick: “Falar suavemente e carregar um Grande Porrete”. A ideia era negociar os interesses imperiais dos Estados Unidos usando a ameaça da ação militar. Deu certo, nos casos do Canal do Panamá e de Cuba. Trump inspira-se no precedente, mas substitui a Grande Frota Branca de 16 navios de guerra pela espada das taxas alfandegárias.

Lula como um boneco gigante de Olinda - Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Nomear Gleisi para a Secretaria de Relações Institucionais é sinal de que Lula está sem prumo e sem rumo

Uma das manifestações mais marcantes do carnaval pernambucano são os bonecos gigantes de Olinda. Embora existam registros de que o primeiro boneco, chamado “Zé Pereira”, tenha aparecido em 1919 na cidade sertaneja de Belém do São Francisco, foi nas ladeiras estreitas da cidade alta de Olinda que eles se popularizaram, especialmente a partir do “Homem da Meia-Noite”. Esse boneco icônico abre o carnaval de Olinda à meia-noite de sexta-feira desde 1931.

Com até quatro metros de altura e cerca de 50 quilos, esses bonecos têm cabeça e corpo fixos. O que encanta o público é a forma como rodopiam seus braços compridos de tecido e balançam mãos mais pesadas nas pontas, parecendo meio perdidos e inebriados pelo som rasgado e entoado pelas orquestras de frevo.

O segundo tempo do jogo de Lula - Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

Ou bem o governo assume a rota da responsabilidade fiscal e faz o que precisa ser feito ou vai amargar um último ano daqueles

A economia e os ciclos políticos andam de mãos dadas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está amargando um período de queda de popularidade justamente quando os mercados cobram a execução de um programa de controle do déficit público. O governo precisa aceitar: o crescimento econômico não voltará, em 2026, na ausência de juros mais baixos, dependentes de uma política fiscal sólida. Para isso, o coreto político tem de estar organizado.

O PIB, neste momento, está nas mãos do Banco Central. Aproveitando a trégua do PT, o Comitê de Política Monetária (Copom) vem elevando os juros, num jogo já combinado com seu antecessor. O tal do guidance – e sempre há uma palavra em inglês para dizer o óbvio – é isto: segurem-se, pois os juros vão subir mais um tanto.

O fim da Pax Americana – José Horta Manzano*

Correio Braziliense

Na guerra que se instalou na sequência da invasão russa do território ucraniano em 2022, Trump deixou claro seu apoio ao agressor, posição esdrúxula, que contraria o bom senso e o direito que os países livres e soberanos têm de defender o próprio território de ataques externos

A Pax Americana, que vigorava desde que o silêncio dos canhões anunciou o fim da Segunda Guerra, dá sinais de estar se esgotando. Num momento histórico em que qualquer um pode afirmar, sem risco de ser ridicularizado, que Hitler era comunista, que o Tiradentes era gay ou que o papa é pedófilo, fica claro que nada é como antes. Nosso mundo de confiança, acolhedor e reconfortante, vai se tornando um mundo de desconfiança, em que acordos de cavalheiros se tornaram vaga reminiscência histórica. Na atualidade, golpes baixos são assestados todos os dias pelas mais altas autoridades, restando às vítimas os olhos para chorar.

Faz apenas um mês que Donald Trump assumiu a Casa Branca. Nesse curto espaço de tempo, seu comportamento, reforçado pelo de J.D.Vance, seu vice-presidente e pelo de Elon Musk, seu assessor especial, tem demonstrado que a solidariedade atlântica — base estável do que, até outro dia, se chamava Ocidente e que incluía a América do Norte e a Europa — está demolida, varrida, morta e enterrada. Em duas semanas, deixou de existir.

Os aspectos político-sociais da tarifa zero - Francisco Christovam*

Correio Braziliense

Pelo alcance e consequências de um projeto dessa natureza, a sua adoção passa, obrigatoriamente, por avaliações políticas, técnicas, operacionais, urbanísticas, econômicas e, principalmente, sociais

A implementação da tarifa zero em algumas cidades brasileiras vem possibilitando um amplo debate sobre essa importante política pública, nos seus mais variados aspectos. Pelo alcance e consequências de um projeto dessa natureza, a sua adoção passa, obrigatoriamente, por avaliações políticas, técnicas, operacionais, urbanísticas, econômicas e, principalmente, sociais.

Embora a tarifa zero tenha sido adotada em Conchas, interior do estado de São Paulo, em 1992, foi no período pós-pandemia que essa prática cresceu de forma acelerada. Hoje, 140 cidades brasileiras estão subsidiando seus sistemas de transportes com a utilização da tarifa zero de maneira plena ou parcial, ou seja, em alguns dias da semana, em algumas áreas da cidade ou para segmentos específicos da população.

As emendas orçamentárias voltam ao normal? - Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

As emendas são parte das relações Executivo-Legislativo desde 1946 mas sua dinâmica se alterou radicalmente ao longo do tempo

A resposta à pergunta que dá o título a esta coluna exige que recuemos na história. As emendas orçamentárias têm sido parte do funcionamento do nosso presidencialismo multipartidário desde 1946, quando tivemos as primeiras eleições com representação proporcional com lista aberta (RPLA). A RPLA em grandes distritos eleitorais produz fragmentação partidária e o imperativo de formação de governos de coalizão. Barbosa Lima Sobrinho, ex-governador de Pernambuco, intuiu suas implicações: "não conheço melhor sistema para a representação das minorias, nem pior para a constituição de maiorias" (1952).

Golpismo não é liberdade de expressão - Camila Rocha

Folha de S. Paulo

Ninguém foi preso ou responsabilizado por meras palavras, mas por ações no 8 de janeiro

Golpistas de extrema direita estão em uma cruzada internacional para disseminar a ideia de que estariam sendo perseguidos e censurados. Para convencer seus alvos prioritários e seus eleitores, vale tudo.

O relator da Comissão Interamericana de Direitos Humanos para Liberdade de Expressão, Pedro Vaca, precisou desmentir o que correu nas redes e afirmou que nenhuma ditadura recebe um relator. A equipe de Vaca teve uma demonstração empírica de como funciona a máquina de desinformação da extrema direita brasileira.

O crime na legalidade - Ruy Castro

Folha de S. Paulo

É besteira continuar trocando tiros nos morros; o criminoso pode estar no escritório ao nosso lado

No que se tornou uma das passagens mais importantes de "O Poderoso Chefão", a família Corleone decide que um de seus garotos precisa levar uma vida correta, longe do crime, formar-se em direito e se tornar um advogado para, se for o caso, defendê-los na Justiça. É o que os americanos chamam de "go legit", entrar na linha, legitimar-se. Os criminosos descobriam que, quanto mais se infiltrassem formalmente na sociedade, menos precisariam de usar a metralhadora. Enxergaram longe.

"Ainda Estou Aqui" faz história e ganha o primeiro Oscar do Brasil

Ubiratan Brasil / Valor Econômico

Oscar 2025 termina em festa para "Ainda Estou Aqui" e "Anora"

O clima de final de Copa do Mundo em torno do longa "Ainda Estou Aqui" se transformou em festa verdadeira com a vitória no Oscar de Melhor Filme Internacional, na noite desde domingo. Primeira produção brasileira a ganhar esse prêmio, "Ainda Estou Aqui" conquistou aos poucos a admiração de americanos e europeus. Isso porque é uma história universal liderada por Fernanda Torres no papel de Eunice Paiva, a mulher que teve de assumir o controle da família após o assassinato de seu marido, o deputado Rubens Paiva, pelo governo militar, nos anos 1970. No Brasil, já foi visto por mais de 5 milhões de pessoas e é apontado como um forte incentivador da volta do público ao cinema para ver produções nacionais. O longa é um drama simples, universal e, mesmo contando uma história do Brasil, reverbera em uma audiência de qualquer nacionalidade.

"Isso vai para uma mulher que - após uma perda sofrida durante um regime autoritário - decidiu não se curvar e resistir”, disse o diretor Walter Salles no palco, ao receber a estatueta de Penélope Cruz. Ele também dedicou a estatueta às atrizes Fernanda Torres (que perdeu o Oscar de melhor atriz para Mikey Madison, de "Anora") e Fernanda Montenegro, que vivem Eunice em tempos distintos.

Poesia | Soneto do amor total - Vinicius de Moraes

 

Música | Voltei, Recife (com Silvério Pessoa e Alceu Valença - Marco Zero

 

domingo, 2 de março de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Sociedade banca ações pouco transparentes de Itaipu

Folha de S. Paulo

Estatal gastou cerca de R$ 2 bilhões em convênios opacos e geridos por pessoas ligadas ao Partido dos Trabalhadores

A conta de luz tem sido um dos principais fatores de pressão sobre a inflação neste início de ano. Segundo a prévia de fevereiro medida pelo IPCA-15, a alta do item alcançou impressionantes 16,3% —elevando o índice geral a 1,23%, o maior para o mês desde 2016.

O preço da energia sofre as mesmas consequências da alta carga tributária, como ocorre com combustíveis e alimentos. Mais de 40% do valor da conta são impostos indiretos e encargos. O restante corresponde a despesas com a geração e distribuição. Há, porém, custos nada transparentes, mas que acabam bancados por toda a sociedade em benefício de poucos.

Com desembolso de quase R$ 2 bilhões, a usina de Itaipu, por exemplo, firmou até julho passado mais de 120 convênios socioambientais desde a posse, há dois anos, do atual diretor-geral no Brasil da binacional, Enio Verri.

Reaprender a navegar é preciso - Carlos Melo

O Globo

Esperava-se um Lula capaz de compreender o espírito do tempo, vislumbrar o futuro, acelerar a História e dar o salto

O GLOBO publicou recente artigo — “Um governo navegado pelo mar” — em que apontei problemas no governo Lula. Dias depois, texto do advogado Antônio Carlos de Almeida Castro — Kakay, amigo e apoiador do presidente — veio a público com diagnóstico constrangedor das dificuldades do presidente. Paralelamente, pesquisas apuraram maiores quedas na popularidade presidencial e explicitaram a tormenta no petismo.

Indiferente às críticas e apesar de alterações esperadas no ministério, Lula segue a delongar decisões que terá de tomar: definir as linhas de um projeto de futuro, realinhar o governo à maioria do Congresso e estabelecer vínculos efetivos com a sociedade do século XXI. A depender disso, encaminhar a estratégia da reeleição.

O rumo escolhido - Merval Pereira

O Globo

A escolha de Gleisi Hofmann mostra que a reforma ministerial anunciada por Lula não tem o objetivo de ampliar sua base

A escolha de Gleisi Hoffmann para o ministério das Relações Institucionais, que trata da relação política do governo com o Congresso, mostra claramente que a reforma ministerial anunciada por Lula não tem o objetivo de ampliar a base de apoio governista, nem de tornar realidade o governo de frente ampla prometido na campanha presidencial. Ao contrário, marca a confirmação de que o governo Lula 3 será mais do que nunca um governo de petistas, mesmo assim de uma parte dos petistas, não de todos.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não está contemplado nessa turma, pois tem sido frequente alvo de críticas de Gleisi. A explicação do ministro da Casa Civil, Rui Costa, para justificar a escolha parece bizarra. Diz ele que colocar a ex-presidente do PT no ministério é uma maneira de “proteger” Haddad, pois Gleisi não terá mais liberdade para criticar o ministro da Fazenda.

A marca que o tempo dará - Míriam Leitão

O Globo

Governo Lula será reconhecido por ter evitado o risco à democracia, mas isso não abona os erros da administração diária do país

O que mais se diz sobre o governo Lula é que ele não tem marca. Se fosse outro o resultado da eleição, a democracia brasileira estaria em extremo perigo. E mais, se o presidente Lula, no dia 8 de janeiro de 2023, tivesse caído na armadilha de decretar uma GLO, o que teria acontecido? No dia 20 de janeiro, ele foi visitar os Yanomami com oito ministros. Eles viviam um ataque sistemático, incentivado pelo governo anterior. O desmatamento caiu nos dois últimos anos. A pauta da educação era o homescholling. A saúde era anticiência. No futuro, quando se olhar para esse período, essa será a marca, a de ter confrontado essa tragédia. Mas o que as pessoas querem, naturalmente, é um governo que tenha melhor desempenho, e isso não se consegue com truques de marketing.

Há uma diferença muito forte entre o que teria sido a continuidade do governo Bolsonaro, com o projeto de destruição da democracia, e o governo Lula. Isso não dá a Lula indulgência plenária, mas é preciso ter isso em mente. Até porque muito teve que ser reconstruído. Houve um deliberado desmonte da máquina.

Uma girafa no Supremo - Elio Gaspari

O Globo

Boa parte deste ano será consumida pelo julgamento, no Supremo Tribunal Federal (STF), do plano de golpe de 2022/2023. O inquérito está na mesa do ministro Alexandre de Moraes a partir de um critério que colocou o golpe no mesmo processo do 8 de Janeiro.

Entende-se que as invasões do Planalto, do STF e do Congresso foram parte de um plano golpista gestado meses antes. Os delinquentes de janeiro queriam a mesma coisa que os planejadores de um golpe logo depois da eleição de Lula, em novembro. É a velha questão: quem vem antes, o ovo ou a galinha? O planejamento do golpe seria a nascente e o 8 de Janeiro, a foz.

Apesar disso, no dia 8 de Janeiro Jair Bolsonaro estava nos Estados Unidos, e o grosso da documentação que instrui a denúncia dos golpistas refere-se a fatos ocorridos entre novembro e dezembro de 2022.

O bloco dos prefeitos-xerifes - Bernardo Mello Franco

O Globo

Orientados por marqueteiros, prefeitos criam fatos e factoides para se mostrar engajados na luta contra a criminalidade

Ricardo Nunes convocou a imprensa para inaugurar um “prisômetro”. O prefeito mandou instalar um painel digital no centro de São Paulo. Nele promete contabilizar, “minuto a minuto”, as prisões feitas pela Guarda Civil Metropolitana com o auxílio de câmeras de segurança.

O painel de lâmpadas de LED tem três metros de altura e um metro de largura. A pretexto de divulgar informações de interesse público, faz propaganda de uma vitrine do prefeito: o programa Smart Sampa, que espalhou 23 mil olhos eletrônicos pela cidade.

O projeto enfrenta críticas e questionamentos desde o lançamento. Seu primeiro edital foi suspenso pela Justiça por usar termos racistas e citar a cor da pele entre os critérios para identificar “suspeitos”. O documento também citava a “vadiagem” como motivo para prisões.

A cultura na era Trump - Dorrit Harazim

O Globo

Em seu primeiro mandato, nas noites de gala do Kennedy Center, Trump sempre deixara vazio o camarote reservado ao chefe da nação. Talvez por receio de ser vaiado, de não saber quando e se aplaudir ou por falta de apetite mesmo

Uma imagem gerada por inteligência artificial mostra Donald Trump em roupa de maestro e expressão enlevada, regendo uma orquestra de magnitude sinfônica. Foi postada recentemente por ele mesmo em sua plataforma Truth Social. Continha um anúncio: “Por unanimidade, o presidente Donald J. Trump foi eleito presidente do Conselho do prestigioso John F. Kennedy Center for the Performing Arts em Washington, D.C. Faremos [da instituição] um lugar muito especial e animado!”.

Somos todos venezuelanos - Sergio Fausto

O Estado de S. Paulo

Manter a mobilização da sociedade civil, quando o mais inofensivo ato de protesto pode levar à prisão, não é tarefa fácil

Antes do início de sua apresentação em evento online da Fundação Fernando Henrique Cardoso, em 13 de fevereiro, perguntei a María Corina Machado se ela se recordava da visita que nos havia feito em abril de 2014. A resposta surpreendeu a mim e a Celso Lafer, atual presidente da fundação, que fazíamos as honras da casa: sim, perfeitamente, foi a última vez que deixei a Venezuela, disse ela falando de lugar desconhecido em seu país, onde vive na clandestinidade desde agosto do ano passado, depois da colossal fraude eleitoral e da onda repressiva que se seguiu, quando a ditadura venezuelana se escancarou de vez.

Trump contra o Brasil - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Confronto entre empresas dos EUA e Moraes é parte da ingerência política de Trump no Brasil

Oque começou como embate entre duas empresas americanas e o ministro Alexandre de Moraes evoluiu para um ataque do Departamento de Estado à justiça e à democracia do Brasil e uniu os ministros do Supremo e também o Judiciário com o Executivo, em nome da soberania e da autodefesa nacional. Escalou, portanto, para um confronto político entre os dois países.

Quando a nota americana saiu, acusando o Brasil de decisões “incompatíveis com valores democráticos, incluindo a liberdade de expressão”, houve dois movimentos rápidos. O chanceler Mauro Vieira articulou uma nota do Itamaraty em resposta, enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro divulgava nas redes um texto a favor da nota de Washington e contra a posição brasileira.

O piloto vacila – Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Se é verdade que no Brasil o ano político e econômico só começa depois do carnaval, é preciso ver se é para apertar os cintos, especialmente depois que Zelenski foi humilhado na Casa Branca; Gleisi Hoffmann foi para a articulação política do governo Lula, mesmo após avaliações negativas de aliados do presidente Lula; e que a cotação do dólar saltou aqui para os R$ 5,91.

Após a Quarta-Feira de Cinzas três coisas vão acontecer no Brasil na área econômica. Na sexta-feira, dia 7, sai o PIB de 2024; quarta-feira, dia 12, o IPCA de fevereiro; e, por esses dias, o governo promete decisões para tentar reduzir a inflação que contribui para o derretimento da aprovação da administração Lula.

Mulheres e sociedade democrática - Jaime Pinsky*

Correio Braziliense

Nenhuma mulher gostaria de fazer um aborto, da mesma forma que nenhum cidadão gostaria de fazer uma cirurgia, mas ele não pode ser proibido. O que cabe a um Estado moderno é permitir o aborto e fazer com que os hospitais públicos sejam autorizados a realizá-lo

Uma das características do Estado Democrático é a separação entre o poder político e a religião. Embora esse não seja um assunto completamente resolvido, pois ainda há ranços de diferentes religiões em vários Estados nacionais, é possível afirmar que a liberdade religiosa é uma característica da democracia e a interferência do universo das crenças na organização política tende a criar problemas que não deveriam aparecer nos dias de hoje. A separação beneficia um e outro, Estado e religião.

Não tem mais nenhum sentido, no atual estágio de desenvolvimento histórico, uma pessoa tentar obrigar outra a acreditar. Se for algo comprovado cientificamente, não é questão de fé, pois é racionalmente demonstrável; se for uma questão de fé, exige a adesão de cada indivíduo. São verdades com origens diferentes, uma da razão, outra da revelação. Confundir, embaralhar fé e razão, não é razoável, como não é razoável questionar, racionalmente, as intenções de uma divindade, uma vez que isso tem a ver com fé, não com razão. 

Ainda estou aqui e o carnaval do ninguém segura este país – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

No ano em que o filme se passa, coube à Unidos de Padre Miguel abrir os desfiles de escolas de samba. Não havia Sambódromo, e a passarela era a Presidente Vargas

A arte existe porque a vida não basta, como dizia o poeta Ferreira Gullar. Em pleno domingo de carnaval, a arte brasileira pede passagem nos desfiles de escolas de samba e na sessão de premiação da 97ª edição do Oscar. Fernanda Torres e o filme do qual é protagonista, Ainda estou aqui, de Walter Salles Júnior, disputam três categorias do maior prêmio do cinema mundial: melhor atriz, melhor filme e melhor filme estrangeiro.

O Brasil vai sambar com um olho na Marques de Sapucaí e outro no tradicional Teatro Dolby, em Los Angeles, Califórnia, onde ocorrerá a cerimônia do Oscar. O tapete vermelho será exibido ao vivo, a partir das 20h30, na telinha, enquanto a Unidos de Padre Miguel abrirá a passarela às 22h, com o enredo Egbé Iya Nassô. O Brasil vai parar para assistir a tudo isso, assim como aconteceu na "corrente pra frente" da Copa do Mundo de Futebol de 1970, no México, transmitida pela tevê.

O que fica, com ou sem Oscar – Patricia Machado*

Correio Braziliense

Quando um filme brasileiro sobre a ditadura circula no exterior, ele escancara o fato de que a construção da democracia no Brasil ainda é frágil, que há feridas abertas e que a impunidade dos crimes cometidos pelo Estado segue sendo uma questão latente

Escrevo este texto antes da cerimônia do Oscar. Mais do que celebrar vencedores ou avaliar a dinâmica da premiação, interessa-me pensar no que já foi movimentado por Ainda Estou Aqui desde o momento em que sua indicação foi anunciada. Há momentos em que o cinema é visto como uma forma de transformar realidades, de agir diretamente sobre o presente e sobre a maneira como os espectadores enxergam o mundo. Podemos lembrar do chamado cinema militante dos anos 1960, assim como de Jean Luc Godard, em maio de 1968, segurando uma câmera sem película e mostrando que o ato de filmar era, em si, um ato político. Uma imagem bonita que, talvez, atribua ao cinema mais do que ele pode oferecer. Contudo, se um filme não muda o mundo por si só, ele certamente pode mudar percepções. Pode nos fazer ver o que antes passava despercebido. Pode deslocar narrativas consolidadas e reativar debates que pareciam adormecidos.

Hipermalvadeza acima da razão social - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

A personalização do poder é própria a sistemas em que a autoridade é alguém carismático que simboliza o Estado

Talvez sem relevância sociológica, é de interesse analítico uma curta frase em entrevista recente do ator Robert De Niro: Donald Trump não é um homem mau, e sim um malvado. A distinção fica mais clara em inglês, onde "bad character", mau, tem conotação diversa de "perverse person", "mean", "wicked", malvado, cruel. Faz sentido prático estabelecer diferenças dessa ordem, como quando se diz que a droga mata, mas o narcotráfico assassina. Por igual que seja o efeito danoso, na avaliação dos riscos sociais muda a estratégia preventiva.

De Niro já interpretou vários homens maus no cinema e bem sabe que a morfologia desse personagem comporta alguma coragem, capaz de ser aferida como virtude. Para enfrentar adversários, o mau precisa de um caráter, que pode oscilar entre o negativo e o positivo na percepção do público. Já o malvado está mergulhado em si mesmo, sem alteridade possível, como o Drácula lendário desprovido de reflexo no espelho, atuando como máquina humana tipo "idiot savant", o autista que incorpora um mecanismo computacional. Mas diferente deste, o malvado, agente ativo do caos, apenas destrói.