terça-feira, 8 de julho de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Reforma do IR aproxima Brasil de ‘justiça tributária’

O Globo

Mesmo que não seja ideal, mudança enviada ao Congresso traria avanço bem maior que aumento do IOF

O governo federal se diz empenhado por “justiça tributária”. Petistas têm promovido campanha pelo aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), resgatando o discurso “ricos contra pobres”. Essa propaganda polarizadora nada traz de bom. Mas, se aumentar o IOF e rachar a sociedade é o modo errado de promover “justiça tributária”, isso não significa que os impostos brasileiros sejam justos. Não são. E o próprio governo, como O GLOBO afirmou em editorial de março, já encaminhou ao Congresso projeto que, apesar das limitações, avança ao corrigir injustiças — a reforma do Imposto de Renda (IR).

Melhora na popularidade vai manter aliados com Lula, diz o novo presidente do PT, Edinho Silva

Andrea Jubé e Isadora Peron / Valor Econômico

Alinhado ao ministro Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação, Edinho reconhece a crise de popularidade do governo, mas diz estar “confiante” de que a aprovação do presidente vai crescer no 2º semestre

Eleito com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o novo presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Edinho Silva, disse ao Valor, na primeira entrevista exclusiva após a divulgação do resultado da eleição petista, que, antes de tomar posse, vai procurar dirigentes e líderes partidários da base para deflagrar as conversas sobre os palanques para 2026 e tentar reeditar a frente ampla de 2022. “Temos que consolidar rapidamente um diagnóstico, Estado por Estado.”

Ele vai ser o responsável por coordenar a campanha de Lula à reeleição. Alinhado ao ministro Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação da Presidência, Edinho reconhece a crise de popularidade do governo, mas diz estar “confiante” de que a aprovação do presidente vai crescer já no segundo semestre. A se confirmar esse quadro, diz que a “perspectiva de vitória” vai conter a eventual debandada de aliados.

Conhecido pelo estilo conciliador, ele chega ao posto num clima de tensão política, em pleno confronto do governo com o Congresso, após a derrota imposta a Lula no episódio do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Ele rebateu críticas de que o PT estaria estimulando a divisão da sociedade.

“Achar que impõem uma derrota ao Lula e que isso não teria reação é muita ingenuidade, mas não significa que ele tenha aberto mão do diálogo.”

Próximo do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ele disse que o PT não terá uma postura passiva sobre a economia, mas “não vai trabalhar contra o governo”. Igualmente ligado ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, Edinho criticou os juros altos, mas defendeu o “voto de confiança” no chefe da política monetária.

Quatro vezes prefeito de Araraquara (SP) e ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom) de Dilma Rousseff, Edinho assume o PT após o mandato de oito anos de Gleisi Hoffmann, hoje ministra da articulação política, e de cinco meses do senador Humberto Costa (PE), que comandará a transição no cargo. A posse dele ocorrerá no início de agosto.

Representante da tendência hegemônica Construindo um Novo Brasil (CNB), Edinho também terá de pacificar o PT, que saiu rachado da eleição nacional. O principal embate interno ainda mira o controle da Secretaria de Finanças, hoje com Gleide Andrade, aliada de Gleisi.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Ajuste fiscal não precisa ser cruel nem abrupto - Pedro Cafardo

Valor Econômico

O congelamento do mínimo e o corte de gastos com o Bolsa Família e outros programas sociais dariam alívio imediato aos cofres da Previdência e às contas públicas, mas é cruel querer resolver o problema fiscal empurrando a conta do ajuste para idosos, deficientes e pobres

A batalha do IOF fez brotar nas redes sociais o que o presidente da Câmara, Hugo Motta, chamou de polarização social. Na definição governista, “ricos x pobres”.

Ao impor seguidas derrotas ao governo, entre elas a do IOF, a oposição, inclusive a interna, adotou a óbvia estratégia pré-eleitoral da extrema direita: ir sangrando Lula para que continue perdendo popularidade até o pleito de 2026.

Ao revidar com o “ricos x pobres”, duas palavras que políticos e analistas evitam usar, o governo escancarou sua contraestratégia: colocar a extrema direita na situação desconfortável de quem pretende tirar renda dos pobres e impedir a taxação das classes mais favorecidas da sociedade.

Na reunião do Brics, Lula reage à interferência indevida de Trump - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Somos um país do Ocidente, porém, com a globalização, nossa vocação natural de produtor de commodities de minérios e alimentos fez da China nosso principal parceiro comercial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu, ontem, a declaração feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em prol do ex-presidente Jair Bolsonaro. O petista disse que “a defesa da democracia no Brasil é um tema que compete aos brasileiros. Somos um país soberano. Não aceitamos interferência ou tutela de quem quer que seja. Possuímos instituições sólidas e independentes. Ninguém está acima da lei. Sobretudo, os que atentam contra a liberdade e o Estado de Direito”.

Trump havia publicado um texto em defesa de Bolsonaro no final da manhã. Segundo ele, o ex-presidente brasileiro e seus parentes sofrem uma “caça às bruxas”. Para o norte-americano, ele “não é culpado de nada”. Disse: “O único julgamento que deveria estar acontecendo é o julgamento pelos eleitores do Brasil – chama-se eleição. Deixem o Bolsonaro em paz!”. De pronto, o ex-chefe do Executivo agradeceu o apoio.

Brics escancara ambiguidades globais - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Declaração final não esconde divergências no bloco, que é mais autoritário do que antiocidental

O mundo é um lugar ambíguo e uma boa prova disso vem de organizações multilaterais como o Brics, que não escondem os interesses conflitantes daqueles que pretendem formar um grupo coeso.

O Brics surgiu em 2001 como acrônimo dos países emergentes em que investidores deveriam ficar de olho; Brasil, Rússia, Índia e China (a África do Sul, o S, entrou depois). Mas os países mencionados gostaram da ideia de formar um bloco que se orientaria por interesses econômicos comuns e o formalizaram.

As divergências logo surgiram e se agravaram. A China se tornou superpotência em atrito com os EUA. É a Guerra Fria 2.0. Por seu peso gravitacional, Pequim é quem mais influencia o clube.

Tarcísio vai se Lula estiver mal – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Decisão do governador de disputar o Planalto depende de como o presidente chegará a 2026

Tarcísio de Freitas (Republicanos) não desmente nem confirma candidatura à Presidência da República quando a conversa entre aliados envereda por aí. Deixa a hipótese no ar. Não estimula nem desestimula, enquanto em público nacionaliza o discurso.

Deu um tempo nas cortesias administrativas, passou a criticar o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) e incorporou o desafio ao Sul Global em suas falas.

O governador ultrapassa as fronteiras de São Paulo quando fala de segurança pública referindo-se à necessidade de reestruturação das Forças Armadas, na economia diz que conhece a solução para o equilíbrio fiscal do país e na política anuncia frente de direita para 2026.

PSDB perdeu a direita e cavou a própria cova com rachas e traições - Marcio Aith*

Folha de S. Paulo

[RESUMO] Partido do Real e da modernização do Estado brasileiro, o PSDB por duas décadas protagonizou com o PT os rumos da política nacional, vangloriando-se de possuir os mais bem preparados quadros políticos e técnicos do país. Com o mesmo esmero, suas lideranças dedicavam-se nos bastidores a sucessivas traições e sabotagens. Denúncias de corrupção e o surgimento de Bolsonaro acentuaram a crise e rasgaram a superfície de polida competência do partido, que hoje depende de fusão ou federação com outras siglas para sobreviver.

Era uma manhã de março de 2016 quando o destino tocou a campainha do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Aécio Neves, então senador, recém-desembarcado em Congonhas, atravessava a cidade com uma comitiva de repórteres. Não vinha para conversar. Queria arrastar o governador Geraldo Alckmin até a avenida Paulista, onde fervilhava a maior manifestação pró-impeachment de Dilma Rousseff.

"Isso é uma armadilha", murmurou o governador, seco, a dois assessores. Sabia que, se não fosse, os jornais do dia seguinte o carimbariam como o responsável pelo racha tucano. Suspirou, entrou na van e partiu. No trajeto, os dois homens, que um dia representaram o futuro do país, viajaram lado a lado, calados, como estranhos no mesmo velório.

Na Paulista, antes do cheiro de fritura dos ambulantes, vieram as vaias. Cartazes pediam cadeia. Um manifestante gritou "corrupto" diretamente a Aécio. Para quem conhecia o ninho tucano por dentro, era o início do fim de um projeto que prometera civilizar a política nacional —e acabava linchado no meio da rua.

Alckmin via nas pedaladas fiscais atribuídas ao governo Dilma não um crime, mas uma farsa. Dizia aos próximos que, sob aquele microscópio ideológico, nenhum prefeito passaria sem arranhões. Para ele, o impeachment era juridicamente frágil e politicamente perigoso, um precedente que poderia ser usado contra qualquer governante.

A irritação do governador não era só jurídica. O PSDB começava a flertar com um terreno que jamais fora o seu: polarização sem freios, rua ensandecida, populismo do ódio. "Já não era um movimento que nos cabia bem", admite hoje Aécio Neves, em entrevista à Folha. "Era uma coisa esquisita, radicalizada."

Qual o problema do 'nós contra eles'? - Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Gestão federal toma medidas que, se viessem da oposição, tacharia de elitistas

O "nós contra eles" é indissociável da política, que é feita, afinal, de grupos em luta pelo poder. E, quando um grupo consegue associar a si mesmo com "o povo" e pintar o adversário como "as elites", o discurso vira uma arma poderosa. Não foi invenção de Marx, não. Desde a mais remota antiguidade o conflito entre grupos —especialmente pobres e ricos— sempre deu a tônica da política. Das campanhas pela reforma agrária dos irmãos Graco na Roma republicana à Revolução Francesa, essa polarização sempre esteve presente. Às vezes, ela aflora. A vantagem da democracia é dar vazão a essas polaridades sem necessidade de guerra civil.

Brasileiro (não) paga muito imposto? - Michael França

Folha de S. Paulo

Afirmação não é totalmente incorreta, mas é manipuladora

Dizer que o brasileiro paga muito imposto não é necessariamente uma mentira, mas trata-se de uma meia-verdade usada de forma seletiva. O Brasil apresenta uma carga tributária, ou seja, a proporção entre o total de impostos arrecadados e o Produto Interno Bruto (PIB), considerada de nível médio a alto.

No entanto, ao observarmos comparações internacionais, especialmente com países desenvolvidos, percebemos que ela está longe de ser uma das mais elevadas do mundo.

Aqui, ela gira em torno de 32% do PIB. Isso é mais ou menos o mesmo nível de países da OCDE com Estado de bem-estar social moderado, como Portugal ou Espanha, e bem inferior ao de países como França, Dinamarca ou Suécia, onde a carga supera 40%.

De bruxas e bruxarias - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

E se, em nome da soberania, Milei cobrasse Lula pelo ‘Cristina libre’ em plena Argentina?

Quem atira a primeira pedra? Se Donald Trump, presidente dos EUA, está errado – e está – ao chamar os processos contra Jair Bolsonaro no Supremo de “perseguição” e “caça às bruxas”, o que dizer de Lula, presidente do Brasil, que visitou Cristina Kirchner e tirou foto com o cartaz “Cristina libre” em plena Buenos Aires?

Trump, que se sente imperador dos EUA e age como dono do mundo, ficou mal-humorado com o Brics no Rio e ameaça impor tarifas adicionais a países que se alinharem com o bloco, que tem China, Rússia e agora Irã. De quebra, se meteu também com a Justiça brasileira, ao defender e dizer que Bolsonaro só queria o bem do povo brasileiro (?). Julgou, absolveu e anunciou sua sentença ao mundo.

O Brasil no Brics - Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

O Brics é visto, em Brasília, como instrumento-chave para reequilibrar a ordem mundial, contrapondo o domínio do G-7

No contexto atual de incertezas e insegurança global, o governo brasileiro organizou ontem, no Rio de Janeiro, o encontro de cúpula do Brics, sem a presença dos líderes da Rússia, China, Egito, Turquia, Irã e México.

O Brics, hoje, ampliado, é integrado pelos cinco países originais (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) e agora pelos novos membros, Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia e Emirados Árabes. Foi igualmente criada uma categoria de Países Associados, tendo sido convidados Cuba, Bolívia, Turquia, Nigéria, Indonésia, Argélia, Bielorrússia, Malásia, Uzbequistão, Cazaquistão, Tailândia, Vietnã e Uganda. A expansão do Brics permitirá um maior conhecimento e novas oportunidades de ampliação do intercâmbio comercial entre os países-membros. Existem cerca de 200 mecanismos de interação entre os países-membros, com reuniões entre ministérios e instituições oficiais e privadas que vão nessa direção. No tocante ao funcionamento do bloco, o Brasil apoiou a expansão do grupo (2023-2024) e defende termos de referência para a entrada de novos membros para preservar a coerência e eficácia do bloco. Há cerca de 35 países que manifestaram interesse em se juntar ao Brics.

Os hackers do Pix - Pedro Doria

O Globo

Ninguém precisou forçar o acesso a nenhum sistema, senha alguma teve de ser adivinhada. As falhas de segurança, que certamente existiram, até aqui não parecem ter sido do Banco Central

Quando alguém fala de qualquer crime envolvendo hackers, é inevitável que nos venha a imagem: um rapaz branquelo, espinhas no rosto, moletom de capuz e longas horas diante do computador. Pizzas, refrigerantes, energéticos. O desvio de dinheiro pelo sistema Pix ocorrido na semana passada, com perdas de R$ 400 milhões ou mais, não envolveu o estereótipo. A ação foi profissional, feita por quem sabia exatamente o que fazia e, principalmente, limpa. Ninguém precisou forçar o acesso a nenhum sistema, senha alguma teve de ser adivinhada. As falhas de segurança, que certamente existiram, até aqui não parecem ter sido do Banco Central.

Para que o Pix funcione e possamos fazer transferências imediatas, saindo da minha conta e entrando na sua, é preciso que três componentes distintos funcionem. Primeiro, as Contas de Pagamentos Instantâneos, ou Contas PI. Depois, o SPI, Sistema de Pagamentos Instantâneos. Por fim, o DICT, Diretório de Identificadores de Contas Transacionais.

Brics encara incoerências - Merval Pereira

O Globo

Eventuais acertos do grupo, como a ideia de negociar com suas moedas, perdem-se diante do acúmulo de incoerências e da defesa de ditaduras e invasões.

Inicialmente Bric, grupo que reunia Brasil, Rússia, Índia, China e ganhou o plural para receber a África do Sul (South Africa em inglês) nasceu da inventividade de Jim O'Neill, economista do Goldman Sachs que criou o acrônimo para identificar os países que mais cresceriam economicamente no futuro e entrariam no grupo dos mais desenvolvidos. Seriam “os tijolos” dessa nova configuração. Isso foi há 25 anos. Não aconteceu exatamente assim, mas não há dúvida de que três dos países originários (China, Brasil e Índia) estão entre as maiores economias do mundo e de que a Rússia continua como um dos mais influentes.

As contradições internas do Brics - Míriam Leitão

O Globo

A ampliação do Brics elevou a contradição interna. O resultado foi um comunicado fraco, apesar de algumas boas falas de Lula

O presidente Lula falou em fim do uso de combustíveis fósseis, mesmo num grupo, o Brics, que tem produtores de petróleo e grandes emissores. Falou em igualdade de gênero e direitos reprodutivos da mulher, num bloco com integrantes que oficialmente discriminam mulheres, como os países árabes e o Irã. Apesar disto, essa cúpula ampliada mostrou que as contradições internas tornaram o comunicado mais fraco em diversos pontos fundamentais, como na reivindicação brasileira de ter um assento no Conselho de Segurança da ONU.

Poesia | Procura da poesia, de Carlos Drummond de Andrade

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Música | Maria Bethânia -"A Casa é sua"

 

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Opinião do dia - Karl Marx* (herança democrática)

“Finalmente, os comunistas trabalham pela união e pelo entendimento dos partidos democráticos de todos os países.”

*Karl Marx (1818-1883), “Manifesto Comunista”, Fevereiro, 1848. Boitempo Editorial, p.69. São Paulo, 2005.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

COP30 corre risco de frustrar expectativas

O Globo

Reuniões preparatórias obtiveram consenso em alguns temas, mas resultados foram tidos como ‘mornos’

São pouco promissoras as perspectivas para a Conferência do Clima da ONU, a COP30, agendada para novembro em Belém. Ainda é possível reagir, mas vai se estreitando o tempo para que a conferência se torne um marco com consequências. É grande o risco de ela frustrar as expectativas.

A comunidade internacional tem seguido um roteiro atribulado desde o Acordo de Paris, que assumiu em 2015 o compromisso de evitar alta de mais de 2°C na temperatura global em relação aos níveis anteriores à Revolução Industrial — e, de preferência, inferior a 1,5°C. Desde então, tem havido mais desencontro do que acordo sobre aspectos cruciais relacionados ao objetivo de conter o aquecimento do planeta, causa de desastres climáticos com consequências negativas nos planos social e econômico.

Há uma luta de classes, e os ricos estão ganhando - Camila Rocha

Folha de S. Paulo

Os tais 10% da faixa proposta aos super-ricos brasileiros corresponde à faixa mais baixa dos contribuintes norte-americanos

Warren Buffett é o quinto homem mais rico do mundo. Sua fortuna é estimada em US$ 166 bilhões, quase R$ 1 trilhão. No dia 26 de novembro de 2006, o escritor e comentarista político Ben Stein escreveu uma coluna para o The New York Times sobre uma conversa que teve com Buffett sobre algo que preocupava o bilionário: o sistema tributário.

Nos Estados Unidos, há um sistema progressivo de taxação. As faixas variam de 10% a 37%. Em 2025, por exemplo, quem ganhar até pouco menos de US$ 12 mil anuais irá pagar 10%. Quem ganhar mais de US$ 626 mil anuais está na faixa mais alta de contribuição, 37%.

A crise atual: instituições constantes, incentivos variáveis - Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A questão principal é por que a crise se agudizou agora se não houve mudança nas regras institucionais

Há duas posições rivais na interpretação da atual crise nas relações Executivo-Legislativo. A primeira sustenta que o presidencialismo de coalizão se esgotou e perdeu sua funcionalidade devido ao enfraquecimento do Executivo. O resultado é a fragmentação da coalizão de apoio ao Executivo, incapacitando-o de implementar sua agenda. Esta dinâmica é vista como produto de uma usurpação de poderes do Executivo progressista pelo Legislativo conservador.

Congresso mimado por penduricalhos - Lygia Maria

Folha de S. Paulo

Dada a carência da população brasileira, além do serviço débil prestado pelo Legislativo, nada justifica a montanha de gastos

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) foi criticada nas redes sociais por contratar maquiadores como assessores parlamentares. Na Justiça, uma juíza federal deu 20 dias para que ela explique a contratação de uma empresa de segurança que possuiria atuação e registro nebulosos.

Hilton se diz perseguida por ser trans, o que não passa de ad hominem. Escrutinar o uso de dinheiro público é função básica da imprensa, e o mau uso desse dinheiro por políticos no Brasil é histórico, independentemente de identidade de gênero ou partido.

Decisão marca inflexão na relação entre STF e Executivo - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Conciliação buscada pelo ministro, na verdade, ainda não apaziguou o embate, e o presidente Lula, no relato de um ministro, teria ficado desagradado com a decisão

A decisão do ministro Alexandre de Moraes de suspender ambos os decretos, o do Congresso e o do Executivo, na disputa do IOF revelou um ponto de inflexão na relação entre o Executivo e o Supremo Tribunal Federal. A invalidação dos decretos tira a bola de campo de um jogo em que os dois times estão em guerra, mas, na prática, suspende os efeitos da majoração do imposto. A conciliação buscada pelo ministro, na verdade, ainda não apaziguou o embate, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no relato de um ministro, teria ficado desagradado com a decisão.

A mensagem no X do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, registra o acolhimento, pelo ministro, da tese da separação dos Poderes contida na ação governista que pediu a suspensão do decreto legislativo do Congresso, mas a declaração do presidente da Câmara de que a decisão de Moraes está em sintonia com a Casa não deixa dúvida de que Hugo Motta (Republicanos-PB) faturou esta decisão como uma vitória, que, de fato, ocorreu.

Este é o pior Congresso da história brasileira? - Bruno Carazza

Valor Econômico

Dados legislativos ajudam a investigar se a profecia de Ulysses Guimarães se cumpriu

“Está achando ruim este Congresso? Então espera o próximo: será pior. E pior, e pior” A frase, atribuída a Ulysses Guimarães (1916-1992), teria sido dita ao final da Assembleia Nacional Constituinte, presidida por ele.

O “Senhor Diretas” tinha visão. Deputado federal por onze mandatos consecutivos e presidente da Câmara em três ocasiões (1956-1958, 1985-1987 e 1987-1989), doutor Ulysses já antevia ao que levaria o sistema eleitoral previsto na nova Constituição.

Nos últimos anos, com a intensificação das crises entre os Poderes, o vaticínio de Ulysses vem sendo repetido.

Em parte, essa sensação pode estar associada a uma mudança geracional e, como decorrência, também a um novo estilo de se fazer política no Brasil.

Os vários riscos da retórica do ‘nós contra eles’ - Sergio Lamucci

Valor Econômico

Estratégia pode dificultar o avanço da agenda da equipe econômica no parlamento, além de piorar a qualidade do debate sobre política fiscal e sobre a agenda para reduzir a injustiça tributária

Nos últimos dias, o governo e o PT entraram pesado na campanha do “nós contra eles”, martelando a ideia de que promovem medidas em defesa dos mais pobres, enquanto sofreriam a oposição do Congresso e dos mais ricos. Esse maniqueísmo acirrou os ânimos com deputados e senadores, o que pode dificultar o avanço da agenda da equipe econômica no parlamento, além de piorar a qualidade do debate sobre política fiscal e sobre a agenda para reduzir a injustiça tributária no país, num momento em que as incertezas sobre as contas públicas continuam elevadas.

A estratégia usa argumentos falaciosos, a começar por incluir o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), derrubado por deputados e senadores, como uma medida que atingiria principalmente os mais ricos. Como a elevação do IOF encarece o crédito, ela pesa mais sobre os mais pobres, mais endividados do que a parcela da população de renda elevada.

Estado brasileiro não é grande nem pequeno, é desigual - Preto Zezé

O Globo

No Brasil, a cada R$ 1 de renúncia fiscal dado aos grandes, não há exigência proporcional de geração de empregos

Há quem defenda um “Estado mínimo” para justificar cortes de serviços e direitos sociais. Curiosamente, essa visão raramente se aplica aos grandes grupos econômicos, que continuam sendo generosamente amparados por isenções, subsídios e desonerações bilionárias. Para os pequenos e médios empresários — especialmente aqueles que empreendem nas favelas e periferias —, sobram burocracia e crédito caro, e falta apoio. É uma contradição que mostra o verdadeiro problema do Estado brasileiro: ele não é grande nem pequeno — é desigual.

No consultório da doutora IA – Fernando Gabeira

O Globo

Se substituímos a força de trabalho humana pela máquina, quem responde pelos eventuais erros que ela possa cometer?

Desde o tempo do Google, costumo consultar a plataforma a qualquer pequena doença, incômodo físico ou ziquizira. Com o advento da inteligência artificial, as consultas se tornaram mais frequentes. As respostas, copiosas, oferecem mais dados, indicam novos exames, novos caminhos de pesquisa. Na aparência, um superconsultório médico.

Em contato com a médica Adrienne Moreno, que me atende já há alguns anos, comentei o desempenho da inteligência artificial e ouvi o que, de certa forma, desconfiava: as coisas não são tão positivas quanto parecem. Na opinião dela, o uso dessas consultas sem treinamento especial traz vários perigos, mesmo para os médicos.

O fardo dos juízes de preto - Demétrio Magnoli

O Globo

Ao declarar a inconstitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet, o STF conferiu poderes censórios ilimitados às plataformas de redes sociais. De agora em diante, elas terão a obrigação de excluir postagens que poderiam, hipoteticamente, ser definidas como ilegais por um juiz. Os juízes de capa preta imaginam-se regulando a liberdade de expressão de milhões de brasileiros. De fato, terceirizam a robôs decisões delicadas sobre crimes de palavra.

Um trecho do voto de Cármen Lúcia esclarece o argumento dos oito juízes que formaram a maioria:

— A censura é proibida constitucionalmente, mas não se pode permitir que nós estejamos numa ágora em que haja 213 milhões de pequenos tiranos soberanos. Soberano é o Brasil, soberano é o direito brasileiro.

Os cidadãos são, então, “pequenos tiranos” — bárbaros ou crianças irresponsáveis. Cabe ao “direito brasileiro” — ao soberano STF — conter a massa ignara, restaurando o primado da civilização.

Justiça tributária ou populismo? - Carlos Pereira*

O Estado de S. Paulo

Guinada populista de Lula mira menos 2026 e mais a manutenção da hegemonia do PT sobre a esquerda

É uma máxima do jogo eleitoral: diante da perspectiva de derrota, radicaliza-se o discurso para fidelizar a base – mirando a próxima rodada.

A guinada à esquerda de Lula, reeditando a narrativa “ricos contra pobres”, sinaliza que o PT já considera difícil vencer em 2026. Mais que estratégia para vencer, parece tentativa de manter o PT como protagonista da esquerda. Para vencer, Lula teria que repetir a tática de 2022: moderar o discurso e buscar votos no centro. Mas isso colocaria em risco o domínio do PT sobre o campo progressista no caso de derrota.

O lema é claro: entrega-se o Planalto para salvar a hegemonia do PT.

Meio ambiente sem ideologia - Michel Temer*

O Estado de S. Paulo

O objetivo deste escrito é revelar que o diálogo, sem radicalismos, pode unir o País em defesa do meio ambiente. Aliás, como tudo

Meio ambiente físico é vida. Sua preservação é para as atuais e as novas gerações. É obrigação de todos os brasileiros, sem exceção.

Anoto, contudo, algumas realidades. A primeira delas é que o tema foi ideologizado. Alardeia-se que a chamada “esquerda” é a favor da preservação e a chamada “direita”, em particular, agricultura e agronegócio, são pela sua destruição. É falso.

Agricultores e ambientalistas devem trabalhar em conjunto. Sem divergências. Foi, aliás, o que fiz nos meus 963 dias de governo. Os ministros da Agricultura e do Meio Ambiente conversavam permanentemente para que não houvesse nenhum mal-estar entre essas áreas. E não houve. Muitas dessas reuniões eram feitas na minha sala para que não houvesse nenhuma faísca entre esses setores. Não se permitiu a ideologização da matéria. Tanto isso é verdade que o agronegócio prosperou ao mesmo tempo em que avançaram as reservas ambientais. Basta relembrar que ampliamos a Chapada dos Veadeiros no Centro-Oeste, de 60.000 para 240.000 hectares. Um aumento de quatro vezes da área ambiental.

Rosa de Hiroshima, de Vinicius de Moraes

 

Música | Martinho da Vila - Feitiço da Vila (Noel Rosa)

 

domingo, 6 de julho de 2025

Opinião do dia – Karl Marx*

“Toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que levam a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e na compreensão dessa práxis.”

*Karl Marx (1818-1883), Teses sobre Feuerbach (1845)

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Cúpula consolida Brics como veículo do poder da China

O Globo

Expansão do bloco tem se dado em direção à Ásia, ampliando esfera de influência chinesa

A cúpula do Brics, que ocorre hoje e amanhã no Rio, tende a consagrar o viés antiocidental que acompanha o bloco desde a criação por Brasil, Rússia, Índia e China, em 2009. A ausência de Xi Jinping em nada muda o uso que os chineses têm feito dele como veículo e plataforma para exercer liderança sobre outros países, em contraponto a americanos e europeus. Sinal disso tem sido a contínua expansão do Brics na Ásia, ampliando a esfera de influência chinesa. Xi — representado pelo primeiro-ministro Li Qiang — não precisa estar no Rio para que o Brics continue a ser útil a Pequim.

Depois do acréscimo do “s”, com a entrada da África do Sul em 2011, o Brics foi ampliado em 2024, com a chegada de Irã, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, afastando-se das pretensões de defender as liberdades e valores democráticos. Em janeiro, a Indonésia também aderiu ao bloco. Malásia, Tailândia e Vietnã acabam de decidir tornar-se associados, primeiro passo para ser membros titulares. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) é fator de atração no Sudeste Asiático, assim como o mecanismo que oferece a bancos centrais do bloco acesso a fundos de emergência.

País a reiventar - Merval Pereira

O Globo

Estamos chegando a um ponto de saturação em que provavelmente o próximo presidente encontrará condições propícias para enfrentar uma reforma administrativa de verdade, que coloque as finanças públicas nos trilhos

Ir para a cadeia é o maior temor de Bolsonaro. Fará tudo para negociar uma prisão domiciliar, e mesmo sabedor de que um indulto presidencial não o tornará elegível, quer ser livre para poder continuar fazendo política. Do ponto de vista jurídico, o futuro presidente da República, a ser eleito ano que vem, não perderá nada indultando-o, pois não poderá se candidatar tão cedo. Como, para ser indultado, o candidato que apoiar precisa vencer a eleição, é provável que Bolsonaro já tenha se convencido de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é o melhor candidato da direita que se pode encontrar.

Quem é radical e onde mora o perigo - Míriam Leitão

O Globo

Na visão da oposição, o governo ir ao STF sobre o IOF é um ato radical. Já a ameaça golpista contra o Supremo não provoca reação alguma

Há quase dois meses, o senador Flávio Bolsonaro avisou ao país que o bolsonarismo ainda pensa em golpe de Estado. Ele foi enfático ao dizer que o grupo só dará apoio ao candidato que se comprometer a impor ao STF a aceitação do indulto ao seu pai. Quando as repórteres que fizeram a entrevista perguntaram como seria essa imposição ao Supremo, o senador não deixou dúvidas: “a gente está falando do uso da força”. Passaram-se as semanas, desde o domingo 15 de junho, e não houve repúdio de qualquer político da direita a essa fala. O mais cotado dos pré-candidatos conservadores, o governador Tarcísio de Freitas, não apenas silenciou como apareceu em palanques com o ex-presidente depois disso. Dos outros também, o mesmo silêncio.