domingo, 31 de agosto de 2014

Vagner Gomes de Souza : O que é a “Nova Política”?

A sociedade desperta aos poucos para a sucessão presidencial. A mudança é uma ansiedade diante de um sistema político arcaico. Muitos analistas estimam que a polarização interior do campo socialdemocrata, entre o PT e PSDB, será suplantada entre “velha política” e a “nova política”. Ainda mais após a divulgação da recente pesquisa DATAFOLHA (29/08) em que Marina Silva empata em primeiro lugar com a candidata do PT. A ascensão da candidatura da Rede de Sustentabilidade (REDE) abrigada no Partido Socialista Brasileiro (PSB) já indicaria um contraditório entre vertentes da esquerda (moderna X pós-moderna). Entretanto, a realidade política exige mais que as ideologias diante da complexidade da crise econômica o qual estamos inseridos.

O que é a “Nova Política”? Essa é a pergunta que “marineiros” estão a responder diante do silêncio dos democratas da esquerda em relação as reformas políticas. A pergunta levaria a outra questão: qual mudança que se insere na “Nova Política”? Se os ventos de junho de 2013 estão nas bases da densidade eleitoral de Marina Silva, verificamos que as “bandeiras” não se enraízam na sociedade real, pois ainda não constatamos os articuladores dos programas. A mudança para conservar o “tripé” da estabilidade econômica precisa deixar claras as bases desse roteiro. Os indicadores eleitorais sinalizam para uma excessiva pulverização de partidos políticos no Congresso Nacional, o que já é um sinal de alerta para os defensores de uma Reforma da Política.

Setores da sociedade civil organizada estão recolhendo assinaturas para um projeto de lei de iniciativa popular defendendo uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva para reformas políticas. A “nova política” vai desempenhar que papel diante dessa proposta? O silêncio é um problema na articulação que impede até o fortalecimento das forças políticas à esquerda em suas diversas vertentes. Como governarão sem os políticos tradicionais? Criaremos Conselhos Populares? Assembleias de Base? Comitês? Frentes Populares de Redes Sociais? Um mosaico de ideias diante de problemas mais concretos a se enfrentar.

O eixo “moderno” da esquerda (PSB e PPS) está a reboque de um menchevismo do século XXI, ou seja, o economicismo impede que esses atores políticos partam para a ação política em plena campanha eleitoral de suas principais lideranças políticas.

Ainda falta virtu nessa campanha eleitoral para a sucessão presidencial que indique um caminho para além da indignação. Os populistas russos fizeram escola e hoje testemunhamos os “narodiniks pós-modernos” sensibilizarem a sociedade brasileira. Gilberto Freyre foi quem melhor interpretou essa possibilidade ao sugerir que seríamos uma Rússia americana. Contudo, precisamos de uma revolução contra O Capital que indica perceber que o que faz a mudança é a política de alianças programáticas.

Mestre em Sociologia pelo CPDA-UFRRJ.

Wagner Iglecias: Do sonho à práxis

• Marina terá de fazer escolhas concretas, especialmente em economia e política externa

- O Estado de S. Paulo / Aliás

Desde que as eleições diretas para presidente foram reinstituídas, em 1989, os brasileiros já escolheram o chefe de governo em seis oportunidades. À exceção da eleição de Fernando Collor, um outsider que atropelou os grandes partidos e os candidatos tradicionais, desde então os escolhidos foram nomes associados a partidos de sólidos vínculos com os interesses organizados da sociedade brasileira. PSDB e PT polarizam a disputa presidencial há 20 anos.

O melhor resultado já obtido por um candidato alternativo aos dois partidos se deu com Marina Silva. Concorrendo pelo PV, e próxima a interlocutores com os quais não tinha relação no início de sua trajetória política, ela cravou quase 20% dos votos no pleito de 2010. O acidente que vitimou Eduardo Campos alçou a ex-senadora à condição de candidata à Presidência novamente.

A entrada de Marina na campanha tem provocado um forte e rápido rearranjo não somente nas intenções de voto aferidas pelas pesquisas como também nas estratégias dos principais candidatos.

Um alvoroço tomou conta do mundo político brasileiro. Ainda que não seja exatamente a candidata dos sonhos de círculos da elite brasileira e de setores de classe média tradicional, a possibilidade de impor uma derrota ao petismo e interromper o ciclo que já dura 12 anos do partido no poder parece estar seduzindo cada vez mais oposicionistas para o apoio a sua candidatura.

Para além disso, Marina vem construindo pontes de confiabilidade com esses setores. Declarou-se favorável aos pilares mais ortodoxos da gestão econômica (câmbio flutuante, metas rígidas de superávit primário e de inflação) e tem procurado livrar-se da pecha do radicalismo ecológico, fazendo acenos amistosos ao agronegócio.

Para a massa, dos descontentes com a velha polarização tucano-petista aos indignados que foram às ruas em 2013, passando ainda por aqueles que veem a atividade política com repúdio ou indiferença, Marina tem dirigido o discurso de que pretende inaugurar a “nova política”. Reitera o uso de um termo que já apareceu inúmeras vezes em nossa história, sobretudo em períodos em que era generalizada a sensação de que o sistema político estava carcomido, como no Estado Novo de Vargas, na Nova República de Sarney e no Brasil Novo de Collor. Marina afirma que o termo se baseia numa gestão que não seja dependente do toma-lá-dá-cá da política tradicional e para concretizar essa gestão pretende governar com os melhores quadros dos principais partidos políticos do País. Acrescenta ainda a isso uma relação mais direta do governo com a sociedade civil.

Marina não é Collor. Nem Jânio, que ao lado de Collor foi outro nome com quem a militância adversária se apressou a compará-la nos últimos dias. Mas, de fato, a última vez que se ouviu alguém fazendo menção a que governaria numa relação mais direta com a sociedade e formaria um ministério com os melhores quadros desse e daquele partido foi entre 1989 e 1992. Não deu certo, como se sabe. FHC, Lula e Dilma podem, sim, ser acusados de não terem rompido com o presidencialismo de coalizão, e até mesmo de terem estimulado o fisiologismo, mas jamais os discursos e a prática deles prescindiu da institucionalidade partidária e/ou esvaiu-se para o voluntarismo.

Marina, se eleita, terá de negociar com inúmeros partidos. Como bem a alertou o candidato Eduardo Jorge (PV). ela precisa preocupar-se com que sua coligação forme uma grande bancada no Congresso Nacional. Não será fácil, dadas as proporções atuais dos partidos que a apoiam. Num eventual governo Marina poderíamos rever uma curiosa união entre PMDB e PSDB, dada a vocação peemedebista para compor com governantes eleitos ao Planalto e a proximidade ideológica, especialmente na área econômica, entre quadros do PSDB e as premissas defendidas por Marina e seus gurus econômicos. Seria interessante verificar quem ocuparia as posições mais estratégicas do Estado brasileiro, como o Banco Central, o Ministério da Fazenda e o Itamaraty: se os sonháticos ou se interesses organizados mais orgânicos que advogam maior rigidez no gasto público e outro tipo de inserção do Brasil no contexto internacional.

Afinal, desde 1989 esta é a eleição mais estratégica que o Brasil vivenciará. O conflito distributivo interno chegou a um ponto decisivo, pautado pela disputa entre mais recursos para programas sociais e investimentos ou para a rolagem da dívida pública. Assim como chegou a um momento definidor a inserção do País no cenário externo, se caracterizada por maior autonomia e busca da construção de um mundo multipolar ou pela maior proximidade com potências tradicionais como EUA e União Europeia. Daqui até as urnas há chão ainda. Mas, se eleita, Marina terá escolhas históricas a fazer. Escolhas que definirão o futuro do País pelas próximas décadas e afetarão as próximas gerações. De que lado Marina estará?

*Wagner Iglecias é doutor em sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

Elio Gaspari:As Bolsas Plebiscito de Dilma e Marina

• As duas candidatas querem uma nova ordem, uma pior e mais perigosa para a democracia que a outra

- O Globo

Marina Silva merece todos os aplausos. Anunciou em seu programa o que pretende fazer se for eleita. Ela quer criar uma "democracia de alta intensidade". O que é isso, não se sabe. Lendo-a vê-se que, sob o guarda chuva de uma expressão bonita -"democracia direta"-, deseja uma nova ordem constitucional. Apontando mazelas do sistema eleitoral vigente, propõe outro, plebiscitário, com coisas assim: "Os instrumentos de participação -mecanismos de participação da democracia representativa, como plebiscitos e consultas populares, conselhos sociais ou de gestão de políticas públicas, orçamento democrático, conferências temáticas e de segmentos específicos -se destinam a melhorar a qualidade da democracia."

Marina parte da premissa de que "o atual modelo de democracia (está) em evidente crise". Falta provar que esteja em crise evidente uma democracia na qual elegeu-se senadora, foi ministra e, em poucas semanas, tornou-se virtual favorita numa eleição presidencial. Ela diz que nesse país em crise "a representação não se dá de forma equilibrada, excluindo grupos inteiros de cidadãos, como índigenas, negros, quilombolas e mulheres". Isso numa eleição que, hoje, as duas favoritas são mulheres, uma delas autodefinida como negra.

Marina quer "democratizar a democracia". O jogo de palavras é belo, mas é sempre bom lembrar que na noite de 13 de dezembro de 1968, quando os ministros do marechal Costa e Silva aprovaram a edição do Ato Institucional nº 5, a democracia foi a exaltada dezenove vezes. Deu numa ditadura de dez anos e dezoito dias. A candidata, com sua biografia, é produto da ordem democrática. Ela nunca a ofendeu, mas seu programa vê no Congresso um estorvo. Se o PT apresentasse um programa desses, a doutora Dilma seria crucificada de cabeça para baixo.

Marina não está sozinha com seu projeto de reestruturação plebiscitária. Durante o debate da Band, Aécio Neves criticou a proposta de Dilma de realizar uma reforma política por meio de um plebiscito, rotulando-a de "bolivariana", numa alusão às mudanças de Hugo Chávez na Venezuela. Ela respondeu o seguinte:

"Se plebiscitos forem instrumentos bolivarianos, então a Califórnia pratica o bolivarianismo".

Que todos os santos de Roma e D'África protejam a doutora. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Desde janeiro de 2010, a Califórnia fez 338 plebiscitos e aprovou 112 iniciativas. O mais famoso deles ocorreu em 1978 e tratava do congelamento do imposto sobre propriedades, associado à exigência de dois terços das assembléias estaduais para aprovar aumento de impostos. Tratava-se de responder "sim" ou "não". Deu 65% a 35% e atribui-se a esse episódio um dos maiores sinais do renascimento do conservadorismo americano (em 1980, Ronald Reagan foi eleito presidente dos Estados Unidos).

No Brasil já se realizaram três grandes plebiscitos. Em 1963 e 1993 o povo escolheu entre parlamentarismo e presidencialismo. Ganhou o presidencialismo. Em 2005, a urna perguntava: "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?" O "não" teve 64% dos votos.

A sério, um plebiscito é simples: "Sim" ou Não"? "Parlamentarismo" ou "Presidencialismo"? Essa é uma prática da democracia direta porque é simples.

A proposta de encaminhamento plebiscitário de uma reforma política só não é bolivariana porque vem a ser um truque muito mais velho que a bagunça venezuelana. Em 1934, Benito Mussolini fez a reforma política dos sonhos dos comissariados. Os eleitores recebiam uma lista de nomes com a composição do Parlamento e podiam votar "sim" ou "não". Il Duce levou por 99,84% a 0,15%.

A República brasileira não está em crise, pelo contrário. Seus poderes Executivo e Legislativo serão renovados numa eleição em que Marina vê vícios profundos, ainda que não os veja na possibilidade de ser eleita. Sua proposta de reordenamento do Estado pode encarnar a vontade do eleitorado mas, na melhor das hipóteses, dá em nada. Na pior, em cesarismo plebiscitário.

Recordar é viver
Marina Silva não sabia que o avião em que viajava com Eduardo Campos saía de um caixa dois. (Naquele jatinho só a máquina parecia estar nos conformes. Era de um usineiro falido, fora vendido a um consórcio de laranjas e o piloto estava "cansadaço".)

Lula também não sabia da existência do mensalão. Em 1993, numa de sua campanhas, foi apanhado voando em dois jatinhos. Um pertencia ao filho do deputado João Alves, que amealhara uma fortuna ganhando na loteria e participando das malfeitorias da Comissão de Orçamento. Ficou conhecido como um dos Sete Anões. Outro era de uma empresa que fornecia alimentos à prefeitura petista de São Paulo.

Confrontado com a impropriedade, Nosso Guia informou que não sabia de nada e foi para o ataque: "Estão querendo jogar o PT na mesma lama dos outros partidos".

Obama e Marina
Em 2008, Vernon Jordan, um dos ícones da elite negra americana, apoiava a campanha de sua amiga Hillary Clinton. Ela tinha tudo para ser indicada candidata a presidente pelo Partido Democrata. Anos antes, ele percebera que o casal tinha futuro e ajudou a construir a figura de Bill, um desconhecido governador do Arkansas.

Quando Jordan passou a apoiar a candidatura do companheiro Obama, explicou-se em poucas palavras: "É duro você ir contra um movimento".

O promercedes
Um carioca bem-humorado conspiromaníaco acredita ter descoberto um programa secreto do PT para azarar Aécio Neves.

Estariam distribuindo automóveis Mercedes-Benz com adesivos do candidato no vidro traseiro.

Boa notícia
As coisas boas também acontecem. Apesar de persistir a guilhotina tributária que expõe as pequenas empresas à morte súbita quando elas faturam mais de R$ 3,6 milhões anuais e são expulsas do sistema de cobrança do Simples, andou-se um bom pedaço nessa questão.

Há poucas semanas, a doutora Dilma expandiu o alcance do Simples, beneficiando cerca de 450 mil empresas de profissionais liberais. Além disso, acabou com o martírio da exigência de certidões negativas para a abertura e fechamento de empresas. Mais: pequenas e médias empresas só poderão ser multadas se forem visitadas duas vezes pelo fiscal. Na primeira, caso não haja dolo, ele adverte; na segunda, autua.

Pleito
Os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal aprovaram o encaminhamento ao Congresso de um pedido de aumento. Ganham R$ 29.462 e querem R$ 35.919, equivalentes a US$ 209 mil anuais. Mais carro com motorista e passagens. Seus nove colegas da Corte Suprema americana ganham US$ 214 mil, sem mais nada. O juiz Harry Blackmun, pai da sentença que legalizou o aborto, ia para o serviço de Fusca. David Souter rodava num Passat. Antonin Scalia dirige o BMW que comprou.

Arte de rua
Para quem acompanha a produção dos grafiteiros que fazem a melhor arte destes tempos nas ruas do mundo, apareceu uma novidade. É Pejac, um jovem espanhol que passou por Paris. Tem a ironia e o traço de Banksy (herdada do francês Blek le Rat), sem a marquetagem que hoje envolve a misteriosa figura do inglês. (Acaba de sair o livro "Banksy in New York", com os grafites que ele fez por lá no final do ano passado.)

Marina e as mudanças: O Estado de S. Paulo - Editorial

É razoável supor que a significativa reviravolta na campanha eleitoral provocada pela trágica e imprevisível morte de Eduardo Campos e sua substituição por Marina Silva seja o resultado da maior identificação da nova candidata do PSB à Presidência com o desejo de mudança claramente captado por todas as pesquisas de opinião realizadas a partir das manifestações populares de junho de 2013.
Não se trata aqui, contudo, de investigar as razões pelas quais Marina Silva foi capaz de, desde logo, multiplicar por três as intenções de voto que indicavam a candidatura de Campos fora do segundo turno, colocando-se agora, ela própria, na condição de favorita numa votação final, seja qual for seu oponente. O que importa é procurar entender até que ponto esse fenômeno eleitoral, se vier a se confirmar, será realmente capaz de mudar o futuro do País.

Marina Silva se apresenta como alternativa à polarização PT-PSDB que há duas décadas domina o cenário político nacional e tenta se credenciar para esse desafio com uma proposta de mudança que se consubstanciaria numa "nova política" capaz de elevar o padrão ético e de eficácia na gestão da coisa pública. Não é pouca coisa e é impossível de imaginar que algum cidadão bem-intencionado possa se opor a tão elevado propósito, mesmo que ainda não se conheça sua tradução num programa de governo claramente definido. Resta saber de que condições objetivas a candidata do PSB disporá para enfrentar o nada fácil desafio de transpor para o plano da realidade aquilo que fica tão bem no das intenções.

A implantação bem-sucedida de qualquer programa de governo e sua instrumentalização no aparato governamental - especialmente de um plano que se propõe a desenraizar práticas nefastas consagradas através dos tempos - exigem dois pré-requisitos essenciais: apoio político em seu sentido mais amplo e a existência de quadros técnicos competentes e comprometidos com a excelência da gestão pública.

Um chefe de governo recém-eleito conta, por definição, com o apoio político da maioria da sociedade. Mas, na democracia representativa, para a efetivação de mudanças é indispensável também o apoio político dos representantes do povo e dos Estados que compõem o Poder Legislativo. Não é por outra razão que, quando não tem disposição, competência e coragem para contrariar interesses estabelecidos, o "presidencialismo de coalizão", que é o que temos, torna o Poder Executivo refém do fisiologismo.

O apoio proativo de uma sociedade dotada de informação e discernimento é geralmente suficiente para induzir à correção dos desvios de rota do poder público. As manifestações de junho do ano passado demonstram o potencial dessa prática. Mas a "voz das ruas" nem sempre está disponível, até porque o cidadão, por mais politizado que seja, tem de atender a outras prioridades em seu cotidiano. Somente uma conjugação especial e imponderável de circunstâncias ou de situações-limite de instabilidade social são capazes de "colocar o povo nas ruas" para fazer mudanças. E isso raramente ocorre sem danos irreparáveis à democracia.

Por outro lado, um programa ambicioso de mudanças como o que Marina Silva anuncia depende fortemente da existência de quadros técnicos suficientes e competentes para implementá-lo. Não é, certamente, no âmbito apenas dos partidos que a apoiam que ela encontrará todo o elenco de profissionais à altura do desafio de fazer o governo funcionar. Menos mal que, sabedora dessa carência e aparentemente disposta a substituir o atual compadrio desmedido pela meritocracia, Marina tem acenado com a intenção de recrutar profissionais competentes onde quer que estejam, independentemente de filiação partidária.

Cravar com sucesso no Planalto a bandeira de uma genuína "nova política" é desafio que, além dos pré-requisitos do apoio político e técnico, exige também extraordinária capacidade de articulação e conciliação, de estabelecer o exato ponto de equilíbrio na delicada tarefa de adequar meios a fins - de governar, enfim. A dificuldade para o exercício da conciliação talvez seja a maior vulnerabilidade de Marina Silva. A primeira mudança essencial de que necessita o País, afinal, é o fim da divisão do Brasil entre "nós e eles".

A mística marinista: Folha de S. Paulo - Editorial

• Simbolismo pessoal da candidata faz com que suas oscilações se dissolvam no debate, mas ambiguidades precisam ser esclarecidas

Empatada com a presidente Dilma Rousseff no primeiro turno, com 34% das preferências, e tendo dez pontos de vantagem sobre a petista num eventual segundo turno (50% a 40%), a candidata do PSB, Marina Silva, viu confirmar-se na pesquisa Datafolha o fenômeno de sua ascensão eleitoral.

Assumindo de forma inédita a condição de protagonista, Marina terá sobre si todos os holofotes. Não só a curiosidade dos eleitores em relação a seus planos aumentará, mas também os ataques de seus adversários se intensificarão.

Seu programa de governo veio em boa hora para atender o interesse que seu crescimento estimulou --e merecerá análise e debate detalhados nos próximos dias. A imprensa, quanto a isso, terá papel importante a desempenhar.

Mas se Marina Silva alcança destaque tão notável, isso se deve menos a pontos específicos do programa de seu partido --um legado de Eduardo Campos, na verdade-- e mais à densidade simbólica que cerca sua imagem pessoal.

O caso Marina constitui um paradoxo em que as críticas parecem reforçar a própria figura que se quer desconstruir. Não é difícil identificar exemplos disso.

Proveniente do PT e alinhada durante toda sua trajetória a propostas de esquerda, Marina agora defende a independência do Banco Central e se cerca de personalidades ligadas ao mercado financeiro.

Aponta-se a contradição, ou o que há de indefinido nisso, e o discurso marinista traz a resposta engenhosa: trata-se de superar dicotomias, de governar "com os melhores", de reconhecer, sem preconceitos de classe, a importância das elites na construção de uma sociedade mais justa e equilibrada.

A indefinição se transforma, magicamente, em virtude; a ampliação das alianças à direita não descaracteriza a postulação porque, no fundo, o prestígio de Marina chancela tudo. Com a ideia da "nova política" ocorre a mesma coisa.

Aliando-se no ano passado ao PSB, Marina quis dar continuidade a seu projeto pessoal. Da ausência de base partidária genuína, cria-se a mística de uma candidatura que supera partidarismos.

Deixarão de existir? Estarão as "pessoas de bem" de acordo em tudo? Não haveria uma aposta messiânica no poder de arbitrar, acima das instituições, divisões de interesses que seu discurso minimiza?

São fragilidades evidentes na postulação --e fatores de risco para um eventual governo seu.

Parecem, ao mesmo tempo, eficazes instrumentos de campanha, criando a imagem de uma oposição que não é oposição, de uma amplitude de enraizamento social que se resume a um ápice iluminado, de uma maioria espelhada numa só pessoa, na qual tudo mais se projeta do que se representa, mais se imagina do que se verifica.

O que isso possa ter de messiânico e de religioso, ou de inovador e consistente, é uma pergunta a ser respondida --espera-se-- no decorrer da campanha eleitoral.

Recessão e outros problemas no palanque de Dilma: O Globo - Editorial

• A retração da economia no primeiro semestre se torna mais grave quando se constata que, no segundo trimestre, houve grande queda nos investimentos

Se fosse possível, os responsáveis pelas campanhas de Dilma e Aécio eliminariam do calendário a semana que passou. Não teriam a má notícia da lépida subida de Marina Silva na última pesquisa do Ibope, confirmada na noite de sexta pelo Datafolha. E a presidente e candidata à reeleição, em particular, escaparia do dissabor de manchar a biografia com a primeira recessão da economia brasileira desde o último trimestre de 2008. A queda de 0,6% do PIB no segundo trimestre em relação ao primeiro — quando já houve uma retração de 0,2%, numa sequência que configura a recessão — consolida, por enquanto, a expectativa do mercado de que a economia não deve conseguir crescer sequer 1% este ano.

“Recessão” é termo forte, de fácil exploração política. Mas estão no palanque de Dilma vários outros problemas, nem todos de fácil entendimento, mas nem por isso menos espinhosos. A baixa confiabilidade do governo Dilma se expressa na queda de 5,3% dos investimentos, no trimestre, também calculada pelo IBGE. É nítida a postura de “esperar para ver” do empresariado neste ano eleitoral.

Há problemas semeados pelo próprio governo. Um deriva da decisão de Dilma/Mantega de manter valorizado o real, para segurar uma inflação renitente. Para isso, o Banco Central executa as tais operações de “swaps”, pelas quais oferece dólares com compromisso de recompra futura. Não gasta o dólar físico das reservas — bastante altas, em mais de US$ 300 bilhões —, mas assume bilionários compromissos futuros. O saldo líquido dessas operações, no momento, seria de US$ 90 bilhões. Tudo isso faz a alegria de especuladores, que realizam a seguinte arbitragem, em explicação simplificada: financiam-se lá fora a juros muito baixos, pegam o dólar e o vendem no “spot”; com os reais, adquirem títulos no Brasil que rendem 11% ao ano. Fazem ainda “hedge” para garantir dólares a uma determinada cotação, num determinado prazo. E toda essa ciranda quase não tem risco porque o BC evita a desvalorização do real, com os “swaps”. Consta que muitos dos bilhões que entram hoje como “investimento externo direto” de multinacionais vêm, na verdade, participar desta ciranda. Eis porque, numa economia em recessão, bilhões de dólares chegam como se fossem investimento. E cuja taxa continua baixa, em relação ao PIB (14%).

Trata-se de uma manobra que não pode durar muito, até porque o Fed está prestes a anunciar que voltará a subir os juros nos EUA. Isso deflagrará mais uma onda de desvalorização de moedas, e o nosso BC não poderá enfrentar essa queda de braço cambial. Na verdade, os “swaps” são mais um puxadinho de política econômica. E com efeitos contraditórios: seguram artificialmente a inflação, junto com o congelamento de tarifas, mas desestimulam as exportações de manufaturados, já com dificuldade de competição por problemas de infraestrutura, burocracia, etc. Dilma e assessores devem torcer para chegar logo outubro.

Gaudêncio Torquato: O voto, do cansado ao fisiológico

- O Estado de S. Paulo

Chico Heráclio (1885-1974), o poderoso dono do poder nas plagas de Limoeiro (PE), sabia como ninguém interpretar o ânimo dos eleitores. Dominava o voto de cabresto no Agreste Pernambucano e vizinhanças. Mas não conseguia encher as urnas na capital. Indagado sobre o motivo, a raposa política saiu-se com esta: “O eleitor do Recife é muito a favor do contra”. Pois bem, a máxima do último dos coronéis, como era designado, serve para explicar a disposição do eleitorado brasileiro das grandes cidades, no ciclo eleitoral em curso, que deixa antever um cidadão “muito a favor do voto contrário”.

O rol de qualificações desse eleitor é extenso: indignado, revoltado, saturado, descrente, desesperançoso, cansado. O último adjetivo traduz bem a motivação das ruas: o voto do cansaço, que atinge o clímax no processo eleitoral contemporâneo, desenvolvido sob a paisagem devastada da política e da gestão pública (escândalos, corrupção, desvios). Essa é a modalidade que explica o avanço da ex-senadora Marina Silva no ranking eleitoral e sugere um redesenho completo no tabuleiro do jogo político, eis que começa a ser considerada um quadro competitivo na esfera de um eventual - e provável - segundo turno em 26 de outubro.

O sentimento de mesmice na vida institucional empurra imensa parcela do eleitorado a correr em direção ao perfil que mais se identifica com inovação, ética, seriedade, sendo a ex-seringueira do Acre a beneficiária principal da corrente mudancista, ainda mais quando a onda emotiva criada com a morte trágica de Eduardo Campos a eleva aos píncaros da fama e da visibilidade. Mas a hipótese de que possa vir a ser vitoriosa há de ser conferida, se não contrabalançada, por um conjunto de fatores que servem de argamassa para a construção do edifício político, como bases partidárias, máquina pública, cabos eleitorais, recursos financeiros e, sobretudo, a multifacetada tipologia eleitoral. Daí a propriedade da pergunta: os votos rebeldes (“a favor do contra”) suplantarão os sufrágios que costumam entrar no panelão tradicional, onde se misturam grupos que ainda primam por cultivar velhos costumes e práticas?

Um ligeiro exercício para identificar núcleos, setores e áreas serve de biruta para indicar a direção do vento na hora da escolha. Vejamos.

O voto do cansaço, claro, abre a planilha e dá as caras nos mais diferentes conglomerados, desde as galeras jovens, desencantadas com a política, até os emergentes da classe C, que descobriram o caminho das ruas, desde o ano passado, para fazer ecoar suas demandas. Trata-se de poderosa tuba de ressonância, com particular desempenho nas redes sociais.

Deixando esse exército de vanguarda, sigamos os batalhões de retaguarda, começando com os bolsões tradicionais das margens, propensos a dar um “voto de coração”, em agradecimento e reconhecimento a quem lhes proporcionou “um rico (?) dinheirinho”. A massa fisiológica dos fundões e até de alguns espaços centrais tenderá a recompensar candidatos que se identificam, por exemplo, com o Bolsa Família (cerca de 50 milhões de beneficiados) e o Mais Médicos (cerca de 30 milhões de assistidos), a par de outros pacotes de benefícios.

Olhemos também para os votos agarrados aos partidos, não em função de sua índole ideológica (que só tem peso no bojo de duas ou três pequenas siglas radicais), mas pela malha gigantesca de empregos na máquina pública das três instâncias federativas. As massas funcionais votam pensando em garantir o emprego. Não são poucos os milhões de eleitores deste bloco, sem esquecer os conglomerados sob a égide do sindicalismo atrelado ao Estado.

O convite, agora, é para entrar no barulhento andar da classe média B, essa com poder de gerar influência, criando marolas ao jogar pedrinhas no meio do lago e fazendo com que as ondas corram até as margens. Essa divisão tende a votar de maneira consciente, racional, compulsando atores, analisando propostas e se identificando com perfis mais próximos ao seu dia a dia. Gira no entorno do centro para a esquerda, identificando-se com a modernidade, porém evitando qualquer pista que leve ao fundamentalismo messiânico.

Apesar de menor, a cada pleito o voto conservador, outro bloco, não segue a onda emotiva que se espraia no território. Rejeita quadros localizados na esquerda do arco partidário.

No outro lado do espectro político, distingue-se o contraponto, um posicionamento duro que transita pelas siglas nanicas de corte ideológico. Ao longo dos anos, esse eleitorado tem diminuído.

São esses alguns tipos de votos de nosso painel eleitoral. Será possível que um tsunami emotivo embaralhe as regras do jogo, liquidifique todas as tendências e faça o “voto da indignação” assumir o pódio, elegendo uma pessoa que garante, caso seja vitoriosa, dar adeus à velha ordem política? Sim, isso é até possível. Significaria a vitória de um ícone identificado com as forças sociais em curso. A carga de mudanças que tal situação deflagraria seria inimaginável, a partir de um arrastão que levaria de roldão os carros das reformas fundamentais, a começar da reforma política.

No curto prazo, uma “revolução” nesses moldes parece pouco provável, mas na política o imponderável - como bem sabemos - teima em deixar marcas. Há, em todo esse rearranjo, algo positivo. Trata-se da taxa de conscientização política, que se expande sob o empuxo de uma sociedade que se mostra desejosa de participar do processo de mudanças.

À guisa de conclusão, uma historinha com Getúlio Vargas. Um repórter, na saída do Catete, indagou: “Presidente, o que é preciso para vencer uma eleição?”. Respondeu: “Muita coisa. Boa memória, por exemplo. Ou usar a política como água no feijão. Basta ver, o que não presta flutua, o que é bom repousa no fundo”.

O eleitor começa a ver o que é bom e o que é ruim no feijão do nosso cotidiano.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP,

José Casado: Trapaças da história

- O Globo

A tendência ao aumento dos índices de rejeição a Dilma Rousseff, confirmada nesta semana, deixou atônitos os líderes do Partido dos Trabalhadores.

Isso porque o número de eleitores afirmando "não votar de jeito nenhum" em Dilma supera em até dois pontos percentuais a soma das intenções de voto (34%) da presidente-candidata. É bem acima da rejeição a Aécio Neves (PSDB), com 23%, e Marina Silva (PSB), com 15%.

Reafirma-se a harmonia entre a rejeição, frustração com o governo e declínio das expectativas de progresso - realçados pela economia recessiva e com alta inflação. O resultado é o desejo crescente de mudanças, que avançou de 76% para 79%, informa o Datafolha. É a característica desta eleição.

Dilma animou-se à luta pela reeleição, em meados de 2012, quando tinha 75% de aprovação. As manifestações de junho de 2013 sinalizaram inflexão. A desaprovação dobrou (para 47%).

Sobravam evidências de ineficiência governamental (a burocracia bloqueara o uso de 60% dos recursos destinados à saúde e 40% ao transporte durante a década.) Dilma e o PT optaram por reagir com a receita clássica da perfumaria política para crises - Constituinte exclusiva, plebiscito, etc. A sociedade ficara mais moderna que o seu Estado, mas Lula escolheu bater nos manifestantes: "Isso é coisa da direita".

Um ano depois, a desaprovação e a rejeição à presidente-candidata continuam altas. Trapaças da História: o desejo de mudança alcançou nível só comparável ao de 2002, prévio à eleição de Lula, numa disputa com três ex-fundadores do PT - entre eles a líder nas pesquisas, Marina Silva.

Roberto Romano: Sobre estadistas e poderosos

- O Estado de S. Paulo

A falência da fé pública e do Estado, no mundo e no Brasil, gera a falta de políticos dignos do respeito cívico. Raras pessoas podem ser vistas como lideranças fidedignas, capazes de orientar as massas que pagam impostos e quase nada recebem em troca. John J. Mearsheimer afirma algo que deveria ser óbvio: “As democracias operam melhor quando incluem um mercado razoavelmente eficaz de ideias, que só funciona quando os cidadãos têm informações seguras e existem altos níveis de transparência e honestidade” (Why Leaders Lie: the Truth about Lying in International Politics). A prova de que a legitimidade sofre um abalo em nossos dias a temos no fato de que a maior parte dos políticos e partidos, quando apanhados com a mão no pote, prefere atacar... a moral pública, aplicando-lhe um sufixo comum na boca dos sofistas. Falar contra o roubo do erário seria apenas... Moralismo!

E segue a degradação da República com os maquiavéis nanicos que procuram não apenas sujar os próprios dedos, mas impor a bandalheira como algo positivo, tendo em vista miragens sublimes como a melhoria econômica, a governabilidade, etc. A hegemonia do Poder Executivo, em todos os Estados democráticos modernos, tem corroído a língua e os costumes políticos. No Brasil o problema é ainda mais grave.

Em nossa terra, com os resquícios das prerrogativas imperiais, o Executivo federal prejudica a Justiça e adquire votos no Parlamento com 30 dinheiros. Ele gera e gere a traição do mandato popular em troca de recursos orçamentários. Na balança dos Poderes, o peso maior pertence à Presidência da República. O Supremo Tribunal Federal (STF), cuja missão seria a de preservar a Carta Magna, não raro agiu como ator numa Realpolitik que tolerou abusos ditatoriais, de Vargas a 1968.

Nossos presidentes, caso pudessem, repetiriam a fala de Tiago 1: o governante “tem poder de vida e morte; julga acima dos súditos em todos os casos e só deve prestar contas a Deus”. Francis Bacon diz que os juízes devem ser leões sob o trono. Infâmias foram cometidas pela Justiça no Estado moderno.

Uma coleta de julgamentos tirânicos é trazida por H. Fernandez-Lacôte (Les Procès du Cardinal de Richelieu, 2010). John Campbell traz uma outra amostra de capachos togados (Atrocious Judges. Lives of Judges Infamous as Tools of Tyrants and Instruments of Oppression, 1856). Magistrados em demasia agiram como escabelo do trono. Mas nem todos.

Evandro Lins e Silva foi juiz e nunca se calou diante dos poderosos. Ao contrário dos supostos democratas que odeiam a imprensa, ele defendeu jornalistas de 1934 até o seu último alento. Ao lado de Sobral Pinto, penetrou a alma brasileira ao acolher oposicionistas, desde 1932. No Supremo, Evandro julgou presos políticos relevantes: Mauro Borges, Plínio Coelho, Seixas Dória, Miguel Arraes, Vieira Neto, Sérgio Rezende, Caio Prado Júnior, Niomar Muniz Sodré, Ênio Silveira. Os ditadores deram-lhe alto prêmio ao arrancá-lo do STF. O poder brasileiro sempre procurou domesticar juízes, no Império e na República.

Fui à missa de sétimo dia, quando um grupo pequeno rezou pela alma de Evandro. A solenidade seguiu o decoro ritual. Mas o sacerdote, no sermão que deveria honrar o morto, incensou o governo. O padre falou muito tempo das qualidades excelsas do ministro da Justiça, de corpo presente, e pouco se referiu a Evandro. Meus sentimentos passaram de indignação à vergonha alheia, à tristeza de constatar uma atitude comum na Igreja anterior ao Concílio Vaticano II, o elo indissolúvel entre trono e altar. Consolei-me com a lembrança do espetáculo celeste: Evandro sendo recebido por Pedro, o primeiro papa, com a simplicidade dos justos que ignoram cortes e cortesanias. A lisonja é ignorada no céu. Ela domina o inferno.

A missa seguiu adiante e chegou a hora em que todos se ajoelham. No banco em frente ao meu estava Plínio de Arruda Sampaio. Espanto fulminante: ainda existia gente ética na vida política nacional! A prova? As solas dos sapatos de Plínio eram não apenas gastas, mas com evidente furo. Um homem que esteve nos mais elevados postos do governo, cuja presença foi estratégica na construção da ordem civil, vivia na humildade franciscana! Comparados aos arrivistas de nossas instituições, os hábitos modestos de Plínio ressaltavam uma personalidade alegre, combativa, altaneira. Ele gastou as solas dos sapatos porque seguia ereto, sem rastejar como os realistas que infestaram os partidos por ele fundados e que depois abandonou, à cata de sonhos e realidades mais dignas.

Plínio não era um sectário das agremiações. Integrou partidos que prometiam a melhoria dos padrões políticos vigentes, mas os deixou quando eles se tornaram caricaturas de si mesmos. Sem intolerâncias ou alergia ao diálogo, ele soube manter a coerência, essencial no político prudente. Sua honestidade era um desafio perene aos companheiros que sucumbiram ao poder imediato. Assim, jamais caiu nas malhas do mercado político nem vendeu ideais como produtos de pacotilha.

Ele praticou, ao longo da vida, o que ensina Norberto Bobbio: “Num Estado democrático, a moralidade pública não é apenas obrigação moral ou jurídica, mas também uma obrigação política por excelência imposta pelo princípio que regula a vida do governo democrático, e que o distingue de toda outra forma de governo até hoje existente, o princípio do ‘poder público’” (L’Utopia Capovolta).

A crise dos Estados atuais manifesta-se sobretudo na falta de lideranças democráticas com sentido moral. Podem ser contados nos dedos os políticos, magistrados, parlamentares que merecem o título de estadista. Escasseiam pessoas como Evandro Lins e Silva e Plínio de Arruda Sampaio. A leniência diante da “privatização do público” (a expressão é de Bobbio) ainda causará muitos estragos nas instituições brasileiras. Quem viver verá.

Roberto Romano é professor da Universidade Estadual de Campinas, é autor de ‘O Caldeirão de medeia’ (Perspectiva)

Diário do Poder – Cláudio Humberto

- Jornal do Commercio (PE)

• Apresentar preso ao juiz em 24h prejudica o réu
O projeto de lei do Senado que obriga a apresentação de presos em flagrante a um juiz, no prazo máximo de 24h, é no mínimo impraticável, por atentar contra o direito de defesa do réu, além do “incomensurável custo de deslocamento”, segundo entendimento de pelos menos duas entidades que representam os profissionais envolvidos no assunto: as associações de Magistrados do Brasil (AMB) e de Delegados (Adepol).

• Chovendo no molhado
Relator, o senador Humberto Costa (PT-PE) nem percebe que o projeto é inócuo: prisões já são notificadas imediatamente ao juiz e à família.

• Impraticável
Em julho, se essa lei existisse, só em São Paulo seriam necessárias mais de 350 audiências por dia com juízes, para apresentar presos.

• Pernas curtas
Entidades de juízes e delegados negam que a Convenção de Direitos Humanos determine apresentação ao juiz em 24h, como diz o projeto.

• Só um factoide
No Senado, o projeto é recebido com reservas pela estranha pressa da ministra Ideli Salvatti (Direitos Humanos), ansiosa por uma “bandeira”.

• Marina ‘bomba’ em pesquisas e nas redes sociais
Nas pesquisas e nas redes sociais, os eleitores mal conseguem esconder o encantamento pela candidata do PSB a presidente, Marina Silva. Além da pesquisa Datafolha de sexta-feira, que aponta seu crescimento estonteante, ela lidera os números nas redes sociais. Sua página oficial no Facebook, de longe a mais acessada nos últimos dias, acumulou quase 700 mil “curtidas” desde a morte de Eduardo Campos.

• Até no Twitter
Marina (PSB) e Dilma (PT) são mencionadas no Twitter entre 30 e 60 vezes por hora. Já Aécio (PSDB) não passa de dez menções.

• Fenômeno
No Facebook, Marina rivaliza com grandes páginas da rede: acumulou 280 mil “likes” na última semana. A página oficial do Barcelona, 400 mil.

• Decepção
O ex-presidente do Supremo Joaquim Barbosa prometeu barbarizar no Twitter, mas até agora tem só 30 mil seguidores.

• Traições a galope
Perplexos com o crescimento da candidatura de Marina Silva, agora empatada em primeiro lugar nas pesquisas com Dilma Rousseff, petistas ilustres já começam a buscar “convergências” com ela.

• Diferenças
Marina foi chamada de “Lula de saias” por José Dirceu, até porque sua trajetória é semelhante à do ex-presidente, mas só na origem humilde. Ela aprendeu a ler só aos 16 anos de idade, mas, além disso, e ao contrário de Lula, tomou gosto pelos estudos e pela leitura.

• É Brasil, Marina
Quando lhe contaram, sexta-feira, que tinha 34% no Datafolha, empatando com Dilma, Marina Silva achou que os números se referiam somente a São Paulo. “É Brasil?”, exultou. Mal acreditava.

• Projetos de presidente
O votenaweb.com.br, que avalia o trabalho de políticos, classifica Aécio (PSDB) como o de melhores projetos entre os presidenciáveis, 88% de aprovação. Dilma, 82%. Marina teve só dois projetos no Senado.

• Esforço desconcentrado
Apesar do número de sequestros-relâmpago disparar em todo o País, está parado na Câmara o projeto 6.726, que autoriza as operadoras a informar a localização de celulares às polícias, mediante requisição.

• Faz sentido
O site da Secretaria Geral da Presidência foi infectado por um vírus. Ao ser acessado, o domínio www.secretariageral.gov.br é congelado, com o aviso: “invasores podem estar roubando suas informações”.

• Obstrução à vista
Na pauta do “esforço concentrado” da primeira semana de setembro está prevista a votação, na Câmara dos Deputados, do projeto que anula a criação dos “conselhos populares”. O PT promete obstruir.

• Promessa é dívida
De 2007 a 2013, o governo federal diz ter investido R$ 9 bilhões em creches, mas das 6.427 prometidas pela então candidata Dilma (PT), na campanha de 2010, ela só entregou cerca de 500.

• Pensando bem…
…em vez da frustração porque não lhe faziam perguntas, no debate da Band, Luciana Genro (PSOL) deveria se sentir frustrada por sua carência de votos.

Panorama Politico :: Ilimar Franco

- O Globo

A aposta
A campanha de Aécio Neves acredita que fatos novos podem recolocar o tucano no jogo. A delação premiada do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e a história dos aviões que serviam a Eduardo Campos podem levar a nova reviravolta. A crença é que teriam potencial para desestabilizar a presidente Dilma e Marina Silva. A palavra de ordem é resistir, porque a eleição não será amanhã, nem a campanha, um mar de rosas.

De olho na crise
A deterioração da economia será mantida como tema central do discurso de Aécio Neves. O tucano vai continuar batendo nos erros de gestão do governo Dilma. Um dos dirigentes políticos de sua candidatura afirma que o combate à ascensão de Marina Silva não pode levar o tucano a mudar sua narrativa eleitoral. Os aliados dizem que é preciso manter a coerência, acreditando que os eleitores vão acordar. Eles consideram que a evolução da crise econômica os obrigará a refletir sobre quem levou o país a essa situação, quem é capaz de vencer as dificuldades e qual o melhor caminho a seguir. Mesmo que haja pessimismo entre os seus, os assessores do candidato garantem que Aécio está sereno. Mas já há quem defenda que se parta para o tudo ou nada.
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"O PT e o PSDB não vão ficar passivos, vendo a nova política desfilar"
Marcas Pestana
Deputado federal (PSDB-MG), sobre a vertiginosa ascensão de Marina Silva

O Nordeste segundo o DEM
O DEM apostava no crescimento de Aécio Neves no Nordeste. Mas, depois de Marina Silva entrar na disputa, seus líderes concluíram que ela entraria na região onde Eduardo Campos não conseguia entrar, fulminando o tucano.

Apoio no Congresso
A falta de apoio partidário é apontada como fragilidade de Marina Silva. O drama não é novo. O presidente Fernando Collor (foto) elegeu 50 deputados em 1990. FH, elegeu 214, mas foi atrás de novos aliados para reformar a economia. Nos seus mandatos, Lula fez bancadas de 160 deputados. Mas no mensalão teve que buscar novos aliados. A Câmara tem 513 deputados.

Governo sem maioria
Coordenador da campanha de Marina, o deputado Walter Feldman minimiza a falta de maioria parlamentar. "Já vivi isso. Fui líder do governo Covas. A Assembleia apoiou as reformas", conta. Covas (PSDB) elegeu 22 de 94 deputados.

Fonte da juventude
Aos 84 anos, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) tinha decidido não concorrer à reeleição. Com Marina Silva, ele tirou o pijama e decidiu ir à luta. A candidata já tinha recebido seu apoio no pleito de 2010 contra a presidente Dilma. Simon vai turbinar seu programa de TV com Marina. Seu time diz que a eleição caiu no colo dele.

Toque local
A equipe de Ana Amélia, candidata ao governo do Rio Grande do Sul, está usando o Whatsapp para receber sugestões para o programa de governo. Batizou o canal de "Watchêsapp", incorporando o "tchê" dos gaúchos ao nome do aplicativo.

Mambembe
A Secretaria de Aviação Civil comprou caminhões de combate a incêndio para aeroportos isolados. Alguns quase fecham por falta do item. Em Tabatinga (AM), fronteira com o Peru, o frete do caminhão levou 28 dias, entre estradas e rios.

O setor portuário (ABTP) tem 10 propostas para os presidenciáveis. Uma operação de carga depende hoje de até 26 órgãos fiscais e de 930 documentos.

Painel :: Bernardo Mello Franco

- Folha de S. Paulo

O PSDB vai ao ataque
Vice na chapa de Aécio Neves, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) abre a artilharia contra Marina Silva. Ele acusa a rival de usar uma "identidade postiça" para ganhar votos. "Ela improvisou uma personalidade palatável para esconder a imagem de sectarismo que sempre a caracterizou." O tucano ironiza o discurso da "nova política". "Marina demoniza Sarney, Renan e Collor. Os três apoiaram o governo Lula, do qual ela foi ministra. Eles prestavam e agora não prestam?", questiona.

Trator O vice de Aécio ironiza os esforços da adversária para se aproximar do agronegócio. "É mais uma conversão de última hora. Marina comandou uma luta sem quartel contra o Código Florestal. A proposta dela inviabilizaria metade das terras agricultáveis do país."

Arado Aloysio acusa a rival de dizer "bobagens" sobre os transgênicos. "O que ela defende é uma asneira. Ela quer que em algumas áreas se possa plantar, e em outras, não. Então alguns brasileiros podem comer sementes que fazem mal à saúde, segundo a visão dela, e outros não?"

Ideias O tucano levanta dúvidas sobre a pregação de Marina contra a polarização entre PT e PSDB. "Ela integrou por 20 anos um partido sectário e rancoroso, que manteve uma guerra sem trégua com o PSDB", acusa.

Hare Rama O senador ainda ironiza as novas companhias da presidenciável no PSB. "O Heráclito Fortes não é nenhum fanático pela propriedade coletiva dos meios de produção. Ele está tão próximo do socialismo quanto eu do hare krishna".

Vem comigo Aloysio falou à coluna na sexta à noite, antes de o Datafolha mostrar que Marina abriu 19 pontos de vantagem para Aécio. Sobre bandeiras tucanas que apareceram no programa da ex-senadora, disse: "Acho ótimo. É sinal de que ela pode nos apoiar no segundo turno".

Até em casa É grande a preocupação no comitê de Aécio com o risco de uma dupla derrota em Minas Gerais. O candidato dava como certo que venceria as eleições para presidente e governador no Estado. Agora a ordem é fazer tudo para salvar Pimenta da Veiga (PSDB), que está atrás de Fernando Pimentel (PT).

Despolarizou Aécio viu Marina disparar como a candidata da oposição. Há 10 dias, o tucano tinha 34% dos votos de quem classifica o governo Dilma Rousseff (PT) como ruim ou péssimo, contra 33% da ex-senadora. Agora Marina abriu 21 pontos de vantagem: 48% a 27%.

Já foi Antes da divulgação da pesquisa, o maior medo dos aliados de Aécio era exatamente que Marina roubasse os votos antipetistas já no primeiro turno. "Não podemos deixá-la ocupar esse espaço", dizia um tucano.

É ela Os eleitores que querem mudanças no próximo governo também migraram para Marina. Nesse grupo, a ex-senadora tem 39% das intenções de voto contra 24% de Dilma e 18% de Aécio.

Grotões A presidente não perdeu um ponto sequer nos municípios com até 50 mil habitantes, que concentram um terço do eleitorado brasileiro. Permaneceu com os mesmos 44%, enquanto Marina subiu de 17% para 29%.

Vou lá Dilma teria vantagem se o voto no Brasil fosse facultativo. Entre os entrevistados que iriam às urnas mesmo se não fossem obrigados, a petista aparece com 40%. Marina tem 34% e Aécio, 17%.

Nosso Guia Militantes petistas beijaram os sapatos de Lula na última quinta, em São José dos Campos (SP). Ele pedia votos para o afilhado Alexandre Padilha em um carro de som com piso baixo.
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Tiroteio
Alckmin culpa o governo federal pelos seus problemas. Só falta dizer que o ladrão que rouba em SP entrou pela fronteira do país.
DE JOSÉ AMÉRICO (PT), presidente da Câmara Municipal de São Paulo, sobre o discurso do PSDB de que Brasília tem culpa pela criminalidade no Estado.
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Contraponto
A bomba do Amaral
O presidente do PSB, Roberto Amaral, atribui a um mal-entendido a fama de defensor da bomba atômica brasileira. Ele conta que, na primeira entrevista como ministro de Ciência e Tecnologia de Lula, em 2003, disse que o país precisava de "todo o conhecimento" nuclear.
-No dia seguinte, estavam repetindo que eu defendia a bomba- lembra o novo aliado de Marina Silva.
Preocupado, ele ouviu o conselho de um marqueteiro:
-É melhor não desmentir.
A fala abriu crise no governo petista e levou a ONU a pedir esclarecimentos ao Palácio do Planalto.

Gal Costa - Um dia de domingo

Mário de Sá-Carneiro: Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que me abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que protejo:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que sonhei!... )

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...

Paris - maio de 1913.


Mário de Sá-Carneiro -  Poemas Completos. Edição Fernando Cabral Martins, Assírio &;Alvim, 2001

sábado, 30 de agosto de 2014

Opinião do dia: Roberto Freire

“A incompetência do governo da Dilma na gestão da economia, que se refletia no ‘pibinho’, no repique inflacionário, no descontrole fiscal, se confirma no momento em que o Brasil entra em recessão econômica.”

Roberto Freire, deputado federal (SP) e presidente nacional do PPS, sobre a queda do PIB, Brasília, 29 de agosto de 2014.

Marina empata com Dilma e vence 2º turno por 50% a 40%

• No primeiro turno, cada uma tem 34% das intenções de votos, diz Datafolha

• De cada dez eleitores, oito querem mudança nas ações do próximo presidente, taxa recorde na série do instituto

Ricardo Mendonça – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Pesquisa Datafolha finalizada nesta sexta (29) mostra a presidente Dilma Rousseff (PT) e a ex-ministra Marina Silva (PSB) numericamente empatadas na simulação de primeiro turno da eleição presidencial. Cada uma tem 34% das intenções de voto.

No teste de segundo turno, Marina seria eleita presidente da República com dez pontos de vantagem: 50% a 40%.

Os dados mostram fortalecimento da candidatura Marina, inscrita como cabeça de chapa do PSB após a morte de Eduardo Campos num acidente aéreo, em 13 de agosto.

Em relação ao levantamento anterior do instituto, feito imediatamente após a tragédia, Marina apresenta melhor desempenho tanto na simulação de primeiro quanto na de segundo turno.

No intervalo de duas semanas, ela cresceu 13 pontos no teste de primeiro turno, enquanto Dilma oscilou dois pontos para baixo.

No embate final contra a petista, onde antes havia empate técnico no limite máximo da margem de erro, Marina foi de 47% para 50%. Dilma recuou de 43% para 40%.

A pesquisa mostra ainda recuo das intenções de voto em Aécio Neves (PSDB), afastando sua chance de disputar um segundo turno.

No levantamento, feito em parceria com a TV Globo, o tucano caiu de 20% para 15%. Num eventual confronto contra Dilma, ele perde por 48% a 40% (o Datafolha não investigou a hipótese de segundo turno entre Aécio e Marina).

Juntos, todos os outros candidatos à Presidência somam 3%. Votos nulo ou em branco totalizam 7%. Outros 7% estão indecisos.

A consolidação da candidatura Marina fica evidente na pesquisa espontânea, quando o entrevistador pergunta pelo voto do eleitor sem mostrar a lista de candidatos.

Nesse tipo de apuração, as intenções de voto em Marina subiram de 5% para 22%. Com Dilma, o avanço foi de 24% para 27%.

Mudança
O avanço de Marina ocorre no momento em que o Datafolha também detecta uma taxa recorde de eleitores sedentos por mudanças.

De cada dez entrevistados, oito afirmam preferir que as ações do próximo presidente sejam diferentes das atuais.

A taxa de desejo de mudança (79%) está três pontos acima da identificada na pesquisa anterior, que já era comparável apenas ao número apurado em setembro de 2002, véspera da eleição vencida pelo então oposicionista Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Na análise das intenções de voto por região, o equilíbrio entre Dilma e Marina no primeiro turno desaparece.

Marina vence Dilma com folga nas regiões Sudeste, a mais populosa (35% a 26%), e Centro-oeste (39% a 29%).

Dilma, por sua vez, bate Marina com larga margem no Nordeste, a segunda região mais populosa (47% a 31%), e no Norte (46% a 30%).

As duas ex-ministras do governo Lula estão numericamente empatadas nos três Estados do Sul (32% a 32%).

Dilma continua líder em rejeição, com 35% dispostos a não votar nela de jeito nenhum. Nesse aspecto, a vantagem de Marina é robusta: só 15% do eleitorado a rejeita.

Também há grandes diferenças entre as intenções de voto em Dilma e em Marina nos vários segmentos sociais investigados pelo Datafolha.

Marina vai bem melhor que Dilma entre os eleitores mais jovens, de 16 a 24 anos (42% a 31%); junto aos que têm ensino superior (43% a 22%); no grupo dos que têm renda familiar mensal entre 5 e 10 salários mínimos (44% a 21%); e nas cidades com mais de 200 mil e menos de 500 mil habitantes (38% a 26%).

Já Dilma ostenta vantagem robusta sobre Marina no grupo das pessoas com mais de 60 anos (38% a 25%); entre os que têm ensino fundamental (44% a 25%); no universo dos mais pobres, com renda familiar mensal de até dois salários mínimos (41% a 31%); e nos municípios pequenos, com até 50 mil habitantes (44% a 29%).

Religião também apresenta diferenças significantes. Os católicos, o maior grupo, preferem Dilma (38% a 30%). Mas Marina tem vantagem mais significativa entre evangélicos de igrejas não pentecostais (44% a 29%) e entre pentecostais (41% a 30%).

O Datafolha ouviu 2.874 eleitores nesta sexta e na quinta (28). A margem de erro do levantamento é de dois pontos para mais ou para menos.

Queda não deve afetar o eleitorado atual de Dilma

Fernando Rodrigues - Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A fraqueza da economia do Brasil no primeiro semestre já teve o seu impacto na cabeça dos eleitores-consumidores nos últimos meses. Impediu que Dilma Rousseff melhorasse sua posição nas pesquisas de intenção de voto, apesar de o governo ter feito uma grande ofensiva de marketing em abril, maio e junho.

O resultado do PIB divulgado ontem é ruim para o governo. O dado ajudará a compor a fotografia negativa e pessimista sobre a capacidade de gestão da petista Dilma Rousseff.

Mas o fato é que dificilmente um eleitor, pobre ou rico, que esteja pensando em votar no PT decidirá agora trocar seu voto só por conhecer o número exato do estrago na economia nos últimos meses.

As pesquisas eleitorais mostram Dilma Rousseff há algum tempo mantendo estável o apoio de um terço do eleitorado. Esse grupo vota de forma regular no PT. Não se alterou por causa do desempenho ruim do PIB no primeiro semestre de 2014.

O problema para a presidente não é o seu rebanho mais cativo de eleitores. A dificuldade da petista está em ampliar o grupo que pode ajudá-la a conseguir mais quatro anos no Planalto.

Nos programas eleitorais a partir de agora, o mau desempenho do PIB será explorado pelos adversários de Dilma. Vão falar sobre algo que aconteceu. A presidente tentará vender esperança para o que virá no futuro.

Nesses casos, o efeito nas urnas dependerá do sentimento real que os eleitores terão até o dia da votação, em 5 de outubro. Dilma tentará conseguir convencê-los de que tudo vai melhorar a partir de 2015.

Se a inflação ficar controlada --embora ainda num patamar alto-- e não houver grandes ruídos no desemprego, a presidente tem chances de manter seus cerca de 30% ou um pouco mais dos votos.

A dúvida é como ela conseguirá ampliar esses apoios em ambiente tão adverso, como o que será propagado pelos adversários na corrida eleitoral. O voto é sempre resultado de uma equação que mistura razão e emoção.

Os brasileiros terão de se sentir tranquilos sobre a economia e também achar que Dilma é a pessoa mais adequada para conduzir o país por mais quatro anos. Por enquanto, a presidente não tem conseguido convencer a parcela de 50% do eleitorado que é necessária para ganhar a disputa em outubro.

Marina abre 10 pontos porcentuais de vantagem no 2º turno

• Candidata do PSB à Presidência subiu 13 pontos porcentuais e já empata com a presidente Dilma Rousseff (PT) no primeiro turno

Carla Araújo - O Estado de S. Paulo

Lançada candidata há apenas dez dias, Marina Silva (PSB) empatou com Dilma Rousseff (PT) na corrida presidencial. Segundo pesquisa do instituto Datafolha divulgada nesta sexta-feira, 29, pela TV Globo, ambas têm 34% da intenções de voto. O tucano Aécio Neves, terceiro colocado, tem 15%. Em um 2.º turno contra a atual presidente, Marina venceria por 50% a 40% se as eleições fossem hoje.

A taxa de intenção de votos na candidata do PSB saltou 13 pontos porcentuais desde o dia 18 de agosto, data do levantamento anterior do Datafolha. Dilma, por sua vez, oscilou dois pontos para baixo, de 36% para 34%. O candidato do PSDB teve queda de cinco pontos.

Marina virou candidata após a morte do presidenciável Eduardo Campos, do PSB, em um acidente de avião, em Santos, há pouco mais de duas semanas. A sequência de pesquisas feita desde então mostra que ela vem subindo a cada dia.

No primeiro levantamento do Datafolha após o acidente, Marina apareceu empatada tecnicamente com Aécio (21% a 20%) - posição que Campos nunca havia alcançado. Depois, pesquisa Ibope/Estado/Rede Globo publicada na última terça mostrou-a pela primeira vez isolada na segunda colocação, com 29%, 10 pontos a mais que o adversário tucano e 5 a menos que Dilma. Agora, Marina chega à liderança, empatada com a presidente.

Confronto direto. Na simulação de 2.º turno contra Dilma, a candidata do PSB subiu de 47% para 50% desde a pesquisa anterior do Datafolha. A presidente caiu de 43% para 40%. Em uma eventual disputa contra Aécio, a petista ainda venceria, por 48% a 40%.

O Datafolha também ouviu os entrevistados sobre a avaliação que fazem do governo Dilma. A taxa de ótimo ou bom caiu de 38% para 35%. Os que consideram a gestão ruim ou péssima passaram de 23% para 26%.

O Instituto Datafolha entrevistou 2.874 pessoas entre quinta e sexta-feira, em 178 municípios de todas as regiões do País. O nível de confiança é de 95% - isso significa que, se forem realizados 100 levantamentos similares, em 95 deles os resultados estariam dentro da margem de erro prevista. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-00438/2014.

Datafolha: Marina empata com Dilma e venceria petista por 10 pontos no 2º turno

• Presidente e candidata do PSB têm 34% cada; tucano tem 15% das intenções de voto

- O Globo

RIO — Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira pelo "Jornal Nacional", da TV Globo, reforça o avanço da candidata Marina Silva (PSB) na disputa eleitoral, já identificado no levantamento do Ibope no início da semana. Segundo os novos dados, Dilma (PT) e Marina (PSB) estão empatadas com 34% das intenções de voto cada. Já o tucano Aécio Neves (PSDB) aparece com 15%. A candidata do PSB à Presidência da República, 19 pontos à frente de Aécio no primeiro turno, teria ainda 10 pontos de vantagem contra Dilma em um eventual segundo turno.

Marina cresceu 13 pontos em relação ao último levantamento do Datafolha, divulgado no dia 13 de agosto. Antes, a candidata do PSB tinha 21%, Dilma 36% e Aécio 20%. Na última pesquisa, brancos e nulos somavam 8% (agora são 7%). Indecisos eram 9% dos entrevistados (agora são 7%).

O Datafolha também simulou dois cenários para um possível segundo turno. Na disputa Dilma X Marina, a candidata do PSB aparece com 50% das intenções de voto, contra 40% de Dilma. Brancos e nulos somam 7%, e indecisos 3%. No levantamento anterior, Marina tinha 47%, contra 43% da petista.

Na simulação Dilma X Aécio, a candidata à reeleição possui 48%, contra 40% do tucano. Brancos e nulos somam 9% e indecisos 4%. Na pesquisa anterior, a petista tinha 47% e Aécio 39%.

Nanicos
Na simulação do primeiro turno, Pastor Everaldo (PSC) obteve 2% das intenções de voto. Os demais candidatos não chegaram a mais de 1%.

A pesquisa entrevistou 2.874 eleitores nos dias 28 e 29 de agosto. O registro no TSE é BR00438/2014. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi encomendada pela TV Globo e pelo jornal “Folha de S. Paulo”.

Avaliação do governo
O instituto também aferiu a avaliação do governo Dilma Rousseff. Segundo o levantamento, 39% dos entrevistados consideram a gestão regular, 35% ótima ou boa, e 26% ruim ou péssima. Em pesquisa divulgada há dez dias, as avaliações que consideravam o governo ótimo ou bom e regular estavam no mesmo patamar (38%). Já 23% achavam o governo ruim ou péssimo.

Marina é favorita para se eleger presidente

Ricardo Noblat – O Globo

O que a pesquisa Ibope mostrou na última terça-feira, e a pesquisa Datafolha confirmou ontem à noite, é que Marina Silva, no curto período de três semanas, conquistou a condição de favorita para se eleger presidente da República.

É improvável que Marina se eleja no primeiro turno. Por mais que encolha, Aécio tem um partido e aliados capazes de lhe garantir dois dígitos de intenção de votos nas pesquisas. Aécio é a garantia de que haverá segundo turno.

PT e PSDB amadurecem o melhor modo de desconstruir a imagem positiva de Marina. O problema não é encontrar o modo. É correr contra o tempo que resta para o dia da eleição. Haverá tempo suficiente até lá?

Ganha eleição quem erra menos. Porque todos erram. Esse é o desafio que Marina começa a enfrentar a partir de agora. Não a subestimem. Ela está vendo a chance de vencer. E não está disposta a desperdiçá-la.

O grande trunfo de Marina: rejeição baixa. A dela de apenas 15%. A de Dilma, 35%.

Dilma carece de trunfo para evitar o desastre que se desenha para o PT. Lula deixou de ser um trunfo poderoso desde que ela fracassou como governante.

Vice-presidente do PT pede 'enfrentamento' com Marina

Ricardo Brito - O Estado de S. Paulo

Vice-presidente do PT, o deputado federal José Guimarães (CE) defendeu na noite desta sexta-feira, 29, após a divulgação do resultado da pesquisa Datafolha, o fim da fase de "boa moça" e o enfrentamento político com a candidata do PSB à Presidência. Pela primeira vez, Marina apareceu em empate técnico no primeiro turno com a presidente Dilma Rousseff (PT). Dilma e Marina obtiveram 34% cada uma e o candidato do PSDB, Aécio Neves, caiu para 15%. No segundo turno, aumentou a vantagem de Marina sobre Dilma, saindo de um empate técnico de 47% a 43% para 50% a 40%.

Ressalvando que se trata de uma "opinião pessoal", Guimarães afirmou que a campanha precisa fazer o confronto de projetos de País com Marina Silva. Para o petista, o PSDB, com a queda de Aécio Neves, está se "deixando levar" pela ascensão de Marina, "fazendo corpo mole". "Os tucanos estão pegando carona na bolha dela. As propostas são muito parecidas e os principais assessores de Marina são do PSDB. Ela fala em nova política, mas é cercada da velha política", criticou.

O vice-presidente do PT disse que Dilma continua estabilizada e que Marina está "tomando o lugar de Aécio". "Vamos comparar os legados e mostrar o que pensamos para o País", afirmou. "Temos todas as condições de vencer o pleito no segundo turno", completou ele, ao avaliar que os dados do Datafolha divergem das sondagens internas do PT, que mostram Dilma ainda vencendo Marina no primeiro turno.

Guimarães criticou também o fato de se apresentar, no momento, simulações de segundo turno. "É uma outra eleição", frisou. "Vai chegar o momento da onça beber água", destacou.

Sucesso de ex-senadora depende da cristalização do eleitorado

Mauro Paulino
Diretor-Geral do Datafolha

Alessandro Janoni
Diretor de Pesquisas do Datafolha

- Folha de S. Paulo

O crescimento de Marina reflete muito mais a percepção positiva que a ambientalista conseguiu imprimir junto ao eleitorado em sua reapresentação como candidata do que uma eventual comoção pela morte de Eduardo Campos.

Diferentemente de seus adversários, ela aproveitou bem o espaço que lhe cabia nos eventos de mídia que ocorreram no período. Criou expectativa para a oficialização de sua candidatura e transmitiu protagonismo em debates e entrevistas de repercussão.

Mesmo com pouco tempo no horário eleitoral, figura como uma das candidatas de melhor desempenho no programa. Se o discurso da chamada "terceira via", da crise de representação e da descrença na política vinha encontrando maior aderência no perfil mais próximo dos manifestantes de 2013 e dos que votariam em branco ou anulariam o voto --mais jovens, de alta escolaridade e moradores das regiões metropolitanas--, Marina invade agora outros territórios.

Supera seu recall de 2010 (teve 18% do total de votos naquele ano) e sua melhor marca no Datafolha em 2014 (27% em abril deste ano) ao elevar seu apoio em estratos de grande peso quantitativo.

Ultrapassa e abre vantagem sobre Aécio Neves nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde o tucano tinha taxas expressivas de intenção de voto, além de crescer de maneira significativa entre os de menor renda e baixa escolaridade, grupos onde Dilma e o governo sempre demonstraram grande força.

Nesse novo ambiente, a candidata agrega à sua taxa de intenção de voto cerca de cinco pontos percentuais de eleitores com perfil mais volúvel, isto é, que escolhem Marina ao serem estimulados, mas ainda se mostram incertos sobre a opção.

Desse conjunto, a maioria rejeita Dilma e mostra alguma simpatia por Aécio. Quanto ao potencial, o alto grau de possibilidade de conversão à candidatura da ex-ministra, que já foi de oito pontos, agora fica em cinco.

Sobre os resultados de segundo turno, é cedo para conclusões. A dinâmica e a lógica da disputa devem mudar.

Se a crítica à polarização entre PT e PSDB encontrou respaldo popular, o histórico do confronto em anos anteriores tampouco serve de referência. E mesmo com a vantagem atual de dez pontos de Marina sobre Dilma, a vitória dependerá do grau de cristalização de seu novo eleitorado.

Propostas concretas e um claro programa de governo, em resposta às demandas da população e à incerteza no cenário econômico serão decisivos. A ênfase exclusiva no discurso da "nova política" pode, com o tempo, afastar parte dos recém-conquistados eleitores da ambientalista, que deixou de ser coadjuvante na sucessão.