sábado, 18 de julho de 2015

Marcelo Odebrecht organizou jantar a pedido de Lula

• Entre os convidados estavam responsáveis pela Gráfica Atitude, investigada pela PF no âmbito da Lava Jato

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo – O Estado de S. Paulo

CURITIBA - Relatório de análise de mídia elaborado pela Polícia Federal revela os bastidores de um jantar em São Paulo, na residência do empresário Marcelo Odebrecht, presidente da maior empreiteira do País, em 28 de maio de 2012, do qual participou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também foram convidados o ex-ministro Antonio Palocci, empresários, banqueiros, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, e dois sindicalistas mencionados na Operação Lava Jato. "Através da leitura das mensagens acerca deste evento foi possível inferir, grosso modo, que: a) O jantar foi realizado a pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva", aponta o relatório da PF. "d) Foram enviadas mensagens individuais para cada um dos convidados por I.B.G." A relação entre Lula e a construtora Odebrecht é alvo de um procedimento investigatório criminal (PIC) aberto pela Procuradoria da República no Distrito Federal.

A suspeita é de que a empreiteira teria obtido vantagens com agentes públicos de outros países por meio de suposto tráfico de influência do petista, que deixou o Planalto no fim de 2010. A Odebrecht nega ter sido favorecida. Lula não é investigado na Lava Jato. Nas buscas que realizou na casa do empreiteiro, na manhã de 19 de junho, durante a 14.ª etapa da Lava Jato, a PF apreendeu documentos, correspondências e mídias. Um HD que estava em um cofre no quarto de Marcelo Odebrecht armazenava troca de mensagens sobre o jantar. "Emílio e Marcelo Odebrecht têm o prazer de convidá-la para um jantar com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no qual será discutida a situação da economia brasileira face a conjuntura internacional", diz o e-mail enviado pela presidência da Odebrecht para Juvandia Moreira Leite, presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, em 17 de maio de2012.

"Confirmo a minha presença no jantar com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Saudações sindicais", respondeu Juvandia. Ontem, o relatório de análise de mídia foi anexado aos autos da Lava Jato. No documento, a PF aponta para a presença de Juvandia Leite e Sergio Aparecido Nobre, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. "Os dois sindicalistas convidados para o evento são também sócios da Editora Gráfica Atitude, empresa apontada pelo empresário Augusto Ribeiro de Mendonça Neto como intermediária de pagamentos de propina destinados ao Partido dos Trabalhadores", registra a PF. Juvandia Leite e Sergio Nobre são administradores da Editora Gráfica Atitude.

Segundo denúncia do Ministério Público Federal, uma parte da propina paga para o ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque na Diretoria de Serviços foi direcionada por empresas do grupo Setal Óleo e Gás, controlado por Augusto Mendonça – delator da Lava Jato – para a Editora Gráfica Atitude Ltda. O pagamento teria sido feito a pedido do então tesoureiro do PT João Vaccari Neto. Os procuradores da força-tarefa sustentam que existem, ainda, "vários indicativos de ligação da Gráfica Atitude com o PT". O Instituto Lula afirmou, por meio de nota, que "é de conhecimento público que o ex-presidente tem por hábito reunir pessoas de diversos segmentos para debater a conjuntura nacional". A Odebrecht informou que repudia "o vazamento seletivo e malicioso de informações que buscam cobrir de suspeitas até mesmo um evento absolutamente comum no meio empresarial e político".

Conduta. A defesa de Lula entrou ontem com uma reclamação disciplinar no Conselho Nacional do Ministério Público para requerer apuração da conduta do procurador Valtan Timbó Mendes Furtado – autor do pedido de Procedimento de Investigação Criminal (PIC) contra Lula por suposto tráfico de influência em favor da empreiteira Odebrecht no exterior. O Instituto Lula pediu "nulidade de inquérito

PT defende ex-presidente e tucanos criticam
Em nota divulgada ontem, a bancada de senadores do PT afirmou que o ex-presidente Lula é vítima de uma "armação" no caso da investigação aberta pelo Ministério Público Federal do DF. "Trata-se de um procedimento claramente irregular e intempestivo, pois o Instituto Lula já havia apresentado à procuradora titular do caso todas as informações solicitadas, muito antes do esgotamento do prazo previsto para a entrega, dia 18 de setembro do corrente", diz o texto.

Ainda de acordo com os senadores petistas, a apuração "é mais um factoide que engendram contra o presidente mais bem avaliado da história do País". A oposição, por sua vez, apoiou a investigação.

"Chegou a hora de o ex-presidente responder pelo balcão de negócios que, com sua ascensão à Presidência da República, o PT armou no poder e transformou o governo federal num antro de corrupção", diz texto do Instituto Teotônio Vilela, braço do PSDB. "O estado atual de degradação em que o País foi posto tem as nove digitais de Lula.

“Lula, a sua hora chegou”

- ITV

Luiz Inácio Lula da Silva é, desde o último dia 8, alvo de investigação criminal aberta pela Procuradoria da República no Distrito Federal. Chegou a hora de o ex-presidente responder pelo balcão de negócios que, com sua ascensão à presidência da República, o PT armou no poder e transformou o governo federal num antro de corrupção.

Lula é investigado por crime de tráfico de influência, sob a suspeita de ter ajudado a Odebrecht, uma das principais envolvidas no escândalo da Operação Lava-Jato, a obter contratos no exterior financiados com dinheiro do BNDES. O Código Penal estipula pena de dois a cinco anos de reclusão para quem for condenado.

A abertura de investigação já é um passo adiante na apuração sobre a atuação do petista. Em maio, diante de suspeitas publicadas na imprensa, a Procuradoria havia solicitado informações a diversos órgãos e agora, com o que recebeu como resposta, resolveu transformar o procedimento preliminar numa investigação criminal formal. Lula, sua batata está assando…

O ex-presidente voou nas asas da Odebrecht para diversos destinos ao redor do mundo. Entre os já sabidos estão Cuba, Venezuela, República Dominicana, Angola e Panamá – justamente aqueles melhor aquinhoados com os empréstimos camaradas do BNDES nos últimos anos. Entre início de 2011 e fim de 2014, há 38 registros de saída de Lula do país.

O total de dinheiro emprestado pelo BNDES para obras da Odebrecht fora do Brasil soma R$ 31,3 bilhões, segundo a Folha de S.Paulo. As operações do banco ligadas à empresa no exterior atingem US$ 9,5 bilhões. Pelo visto, o investimento da empreiteira na contratação da mãozinha do ex-presidente compensou…

Em companhia de Lula nas viagens estava Alexandrino Alencar, ex-diretor da Odebrecht hoje preso sob a acusação de movimentar pagamentos de propinas no exterior. Na investigação aberta pela Procuradoria, o petista pode ter seu sigilo quebrado e ser alvo de busca e apreensão. Há muito mais a elucidar.

No início de junho, já haviam vindo a público pagamentos feitos pela Camargo Correa ao Instituto Lula e à empresa do ex-presidente, a LILS. Documentos apreendidos pela Lava-Jato registram repasses de R$ 4,5 milhões a título de “bônus eleitorais”, “contribuições e doações”. O petista também é alvo de mais duas investigações da mesma Procuradoria no DF relacionadas ao mensalão. Lula tem muito a esclarecer perante a Justiça.

O estado atual de degradação em que o país foi posto tem as nove digitais – e muito mais – de Luiz Inácio Lula da Silva. Que as investigações da Procuradoria da República avancem e ganhem em breve, também, o auxílio da tão aguardada CPI que a oposição tenta criar no Congresso para descobrir como e onde, afinal de contas, foram parar os bilhões de reais dos brasileiros que o BNDES movimentou de forma suspeita nos últimos anos a mando de Lula e do PT.

Se Cunha deve ser afastado, Dilma também tem que ser, pois ambos são investigados, disse Freire

Por: Valéria de Oliveira -Portal do PPS

O presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freire (SP) declarou, nesta sexta-feira (17), que é preciso ter cuidado e evitar precipitações “neste momento em que se agrava ainda mais a crise política no país, com acusações contra Eduardo Cunha, abertura de investigação criminal contra Lula pelo Ministério Público e investigação das contas da presidente da República no TSE”.

Segundo Freire, “o PPS acompanha com toda atenção o desenrolar dos fatos e apoia os que investigam a podridão da corrupção no Brasil: Polícia Federal, Ministério Público e Justiça Federal”.

Para Freire, a se considerar a proposta do vice-líder do governo na Câmara, deputado Sílvio Costa (PSC-PE), de que o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) deve se afastar do cargo, é necessário que a presidente Dilma também deixe a Presidência da República, pois as contas de campanha dela também estão sendo investigadas no Tribunal Superior Eleitoral e ela foi citada mais de uma dezena de vezes nas delações da Operação Lava Jato.

“É melhor evitar precipitações, pois investigados estão sendo a presidente e vários parlamentares. Essa sugestão sobre aqueles acusados que são presidentes de poderes pode ter um efeito bumerangue e atingir a própria presidente”, disse Freire. “A crise se aprofunda com as acusações contra Eduardo Cunha e a abertura de investigação criminal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por favorecimento à Odebrecht no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)”.

No entender de Freire, a Câmara deve estar preparada para, se houver denúncia dos acusados, avaliar que medidas podem ser tomadas. “Se alguns se transformarem em réus em processos judiciais, talvez sejam necessárias licenças”.

Luxo com nosso dinheiro

Rodrigo Rangel e Robson Bonin – Revista Veja

• As fraudes na Petrobras financiaram campanhas eleitorais, subornos e a mordomia de políticos desonestos em um processo que fez da estatal o bolso profundo da corrupção

Nas projeções mais otimistas, calcula-se que corruptos e corruptores envolvidos no escândalo da Petrobras tenham desviado algo perto de 19 bilhões de reais dos cofres da empresa. A estatal era o paraíso, o nirvana para gente desonesta, incluindo os empreiteiros, os servidores públicos e os políticos já identificados como parceiros da partilha do dinheiro roubado. Na semana passada, o lobista Julio Camargo, um dos delatores do caso, tentou explicar ao juiz Sergio Moro a essência do petrolão. Na visão dele, a corrupção na Petrobras poderia ser ilustrada pela figura do fruto proibido. Os contratos eram como maçãs que os empreiteiros ansiavam saborear em sua plenitude. O que os impedia eram os partidos e os políticos da base do governo. "É aquela história, olhar a maçã e dizer: "Como vou pegar essa maçã? Tem uma regra do jogo que eu preciso atender. Do contrário, não vou comer a maçã"", disse Camargo. A "regra do jogo", o caminho mais curto para alcançar a árvore e apoderar-se dos frutos, como as investigações da Operação Lava-Jato já revelaram, era pagar propina. Durante os dois primeiros mandatos de Lula e ao longo de todo o primeiro mandato de Dilma Rousseff, o PT usou o pomar para governar. Distribuir as maçãs virou um método, um atalho que o partido encontrou para garantir a fidelidade dos amigos e seduzir eventuais adversários, transformando-os em cúmplices de um crime contra toda a sociedade. Na semana passada, a polícia bateu na porta de alguns convivas do banquete.

Os investigadores cumpriram 53 mandados de busca e apreensão nas residências e nos escritórios de políticos suspeitos de corrupção no escândalo da Petrobras. Entre os alvos estavam parlamentares e ex-parlamentares, incluindo dois ex-ministros do governo da presidente Dilma. No episódio mais emblemático da ação, os agentes devolveram ao noticiário político-policial a antológica Casa da Dinda, a residência do ex-presidente Fernando Collor, cenário do escândalo que, nos anos 90, levou ao primeiro impeachment de um presidente da República. Os policiais apreenderam documentos, computadores e três carros de luxo da frota particular do atual senador: um Lamborghini Aventador top de linha (3,5 milhões de reais), uma Ferrari vermelha (1,5 milhão de reais) e um Porsche (700 000 reais). Nem o bilionário empresário Eike Batista em seus tempos de bonança exibia modelos tão exclusivos — e caros.

Collor, até onde se sabe, é um empresário de sucesso. Sua família é proprietária de emissoras de televisão e rádio em Alagoas, terrenos, apartamentos, títulos, ações, carros... A relação de bens declarados pelo senador soma 20 milhões de reais, o suficiente para garantir vida confortável a qualquer um.

Collor, apesar disso, não resistiu à tentação e adentrou o pomar petista. Em 2009, ele assumiu a presidência da Comissão de Infraestrutura do Senado. Com significativo poder para fiscalizar os destinos das obras do PAC, a vitrine de campanha da então candidata Dilma Rousseff, o senador se apresentava como um obstáculo para o governo. A maçã lhe foi oferecida. O ex-presidente Lula entregou ao senador duas diretorias da BR Distribuidora, uma subsidiária da Petrobras — a diretoria da Rede de Postos de Serviço e a de Operações e Logística. No comando desse feudo, segundo os investigadores, Fernando Collor criou o seu balcão particular de negócios dentro da maior estatal brasileira, o que lhe renderia milhões em dividendos.

Segundo depoimentos colhidos na Lava-Jato, o esquema obedecia a uma lógica simples. As empresas que tinham interesse em assinar contratos com a BR acertavam antes "a parte do senador". Foram dezenas de contratos. A polícia já identificou dois que passaram por esse crivo. Num deles, de 300 milhões, um empresário do ramo de combustíveis pagou a Collor 3 milhões de reais em propinas para viabilizar a compra de uma rede de postos em São Paulo. A operação foi revelada pelo doleiro Alberto Youssef em acordo de delação premiada. Encarregado de providenciar o suborno ao senador, Youssef fez a entrega de "comissões" em dinheiro, depósitos diretos na conta do parlamentar e transferências para uma empresa de fachada que pertence a Collor. O Lamborghini, até recentemente o único do modelo no Brasil, está em nome da tal empresa, o que fez os investigadores suspeitar que o carro foi bancado com dinheiro desviado da Petrobras. Desde o ano passado, quando explodiu a Operação Lava-Jato e as torneiras da corrupção se fecharam, o IPVA do carro não é pago pelo ex-presidente. A dívida acumulada é de 250000 reais. Mas não é desapego do senador. Zeloso, ele só usava o carro para passeios esporádicos a um shopping de Brasília. Quando isso acontecia, o Lamborghini permanecia sob a vigilância de dois seguranças do senador, que fixavam um perímetro de isolamento em torno do veículo para evitar a aproximação dos curiosos. A frota de luxo de Collor — revela Lauro Jardim, na seção Radar — conta com um Rolls-Royce Phantom 2006, mais exclusivo ainda do que o Lamborghini.

O segundo caso envolve um contrato de 650 milhões de reais. Para conquistá-lo, Ricardo Pessoa, o dono da UTC, uma das empreiteiras envolvidas no escândalo, disse ao Ministério Público que repassou ao grupo do senador 20 milhões de reais em propina. Pessoa afirmou que o ardil nesse caso foi tão escancarado que ele foi levado a conversar sobre o tal "acerto" diretamente com o diretor da BR Distribuidora indicado pelo senador. O intermediário do encontro foi Pedro Paulo Leoni Ramos, amigo do ex-presidente e seu ex-assessor, que também teve a casa e o escritório vasculhados pela polícia. Como prova do que revelou, o empresário entregou à Justiça uma planilha na qual estão registrados todos os repasses de dinheiro feitos para quitar o "acerto" com o senador. Resumindo, em apenas dois negócios na Petrobras, Collor ganhou mais dinheiro do que tudo o que declara ter conseguido juntar como patrimônio em seus 65 anos de vida.

"Fui submetido a um atroz constrangimento, fui humilhado. Depois de tudo o que passei em minha vida política, tive de viver uma situação jamais por mim experimentada", afirmou, ao acusar o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de persegui-lo injustamente. Os investigadores informaram que os carros foram apreendidos como forma de garantir o futuro ressarcimento do dinheiro desviado dos cofres públicos. A ação sobre o ex-presidente é o início de uma nova etapa da investigação, que mira um lado do esquema de corrupção que até a semana passada continuava impune. Empreiteiros estão presos, os partidos envolvidos foram identificados, os operadores contaram boa parte do que sabiam, mas quase meia centena de políticos que participaram da partilha continuava impune. As investigações já revelaram que o dinheiro desviado da Petrobras foi usado para financiar planos de poder megalomaníacos, campanhas eleitorais e, como mostram as primeiras investidas sobre deputados e senadores, mordomias, variadas mordomias.

Assim como Collor, que converteu sua lucratividade no petrolão em uma frota de carros de luxo, outros políticos com mais ou com menos influência e poder, mas igualmente inseridos na quadrilha, usaram a Petrobras para financiar uma vida de sonhos. O ex-presidente Lula, por exemplo, tornou-se dono de um tríplex à beira-mar, no Guarujá (SP), e hóspede freqüente de um confortável sítio no interior de São Paulo, graças à relação promíscua com o empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, preso e acusado de pagamento de propinas. A pedido do ex-presidente, o empreiteiro baiano patrocinou uma reforma no sítio e deu uma mão para terminar a construção do prédio em São Paulo. A Bancoop, a cooperativa ligada ao PT e responsável pela obra, havia falido, deixando milhares de mutuários sem receber seus imóveis. Lula pediu uma ajuda ao empreiteiro, que prontamente o atendeu. O apartamento ganhou um elevador privativo para que o ex-presidente acessasse a cobertura e o sítio recebeu móveis modernos, piscina aquecida, tanque de peixes, pedalinhos...

O dinheiro desviado financiou a revolução — na vida — de alguns revolucionários de outrora. José Dirceu, o mensaleiro que se tornou "consultor de sucesso", embolsou 39 milhões de reais. Parte generosa dessa quantia, estranhamente paga por seus serviços enquanto ele estava preso, sabe-se agora, foi desviada dos cofres da Petrobras com a ajuda do ex-tesoureiro nacional do PT João Vaccari Neto, que também fez a família enriquecer e conseguiu seu apartamento na praia graças à OAS. Apreciador de bons vinhos, o ex-ministro experimentou os prazeres que o dinheiro farto pode proporcionar. Desde que deixou o governo Lula, ele fez inúmeras viagens pelo Brasil e ao exterior, sempre a bordo de jatos particulares financiados por seus "clientes" preferenciais, os empreiteiros do petrolão. Dirceu só se hospedava em resorts de luxo, preferia as roupas de grife e fazia questão de dividir as mordomias com outro companheiro de luta. Na foto da página anterior, ele está numa praia da Bahia com Rosemary Noronha (de chapéu), a ex-chefe do escritório da Presidência, amiga íntima de Lula e demitida também por corrupção. A tentação dos carros importados, dos jatos e das bebidas caras seduziu a nova elite da corrupção brasileira. O ex-deputado petista André Vargas, hoje preso, não dispensava um jatinho nem nas férias com a família. A polícia descobriu que seu patrimônio reunia mansões, sítios e, claro, carros importados. A exemplo dos petistas, outros políticos da "base aliada", como o ex-deputado Luiz Argôlo, levavam uma vida de fausto com o dinheiro oriundo da Petrobras. Ele chegou a ganhar um helicóptero de presente de seus patrocinadores. Os corruptos são todos iguais.

23 milhões de reais
Inimigo visceral de Lula e do PT nos anos 90f o ex-presidente Fernando Collor converteu-se gostosamente em um dos mais fiéis aliados de Lula e do PT quando retomou à política corno senador. A reviravolta teve um preço: um feudo bilionário na Petrobras. No controle de duas diretorias da BR Distribuidora, uma subsidiária da estatal, Collor estabeleceu o próprio balcão de negócios no petrolão Em apenas dois contratos, faturou uma verdadeira fortuna. No primeiro, levou 3 milhões de reais para favorecer uma rede de postos de gasolina de São Paulo. No segundo, embolsou 20 milhões de reais para manipular uma licitação em favor da construtora UTC do empreiteiro Ricardo Pessoa. O ex-presidente apeado do poder aplacou seus fantasmas nos milhões do petrolão. De caçador de marajás, revelou-se ao país, na semana passada, como o mais bem-acabado deles. Em sua garagem na Casa da Dinda, a polícia apreendeu uma Ferrari 458 Italia, um Porsche Panamera e um Lamborghini Aventador Roadsíer avaliados em quase 6 milhões de reais. Dos tempos de presidente aos tempos de aliado petista, só o valor do Fiat Elba é que mudou.

1 milhão de reais
O ex-deputado Luiz Argôlo, preso no Paraná, era considerado um dos mais vorazes políticos do petrolão. Quase que diariamente, Argôlo recebia pacotes de dinheiro no apartamento funcional da Câmara, em eventos políticos e até no estacionamento do Congresso. A fartura era tanta que ele viajava pelo menos três vezes por semana a São Paulo para buscar as malas de dinheiro no escritório de Alberto Youssef. Em algumas viagens, fretava um avião particular para conseguir carregar as malas, que, de tão pesadas, rebaixavam o porta-malas do carro durante o transporte. O dinheiro sujo jorrava tão facilmente que Argôlo ganhou do doleiro um helicóptero avaliado em quase 1 milhão de reais. Com tantos luxos bancados por Youssef, Bebê Johnson, como ele era chamado no grupo, não escondia sua admiração pelo doleiro. "Queria ter falado isso ontem. Acabei não falando. Te amo", disse certa vez a Youssef, por mensagem de celular, logo depois de receber um pacote de dinheiro. O doleiro retribuiu: "Eu amo você também. Muitoooooooooo".

500 milhões de reais
O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto sempre foi uma figura respeitada por sua competência em arrumar dinheiro. Diferentemente dos colegas, diziam os cardeais do PT, ele não usava sua função para encher os próprios bolsos, como faziam os mensaleiros. Disciplinado, dedicado e, acima de tudo, discreto, Vaccari foi o motor das eleições petistas na última década. Desviando recursos da Cooperativa dos Bancários (Bancoop) ou cobrando propinas das empreiteiras do petrolão, ele era o principal responsável pela estrutura financeira que elegeu e reelegeu Dilma Rousseff. Em apenas uma das diretorias da Petrobras, amealhou 500 milhões de reais em propinas. Mas o tesoureiro não era de ferro. Os investigadores descobriram que sua filha, uma universitária, acumulava 1,6 milhão de reais em patrimônio. A bolada tinha origem em remessas de Vaccari, que, assim como o amigo Lula, virou um feliz proprietário de um apartamento no Guarujá (SP), imóvel construído pela OAS, uma das empreiteiras envolvidas no esquema.

4 milhões de reais
Um dos políticos mais influentes do PT, André Vargas está entre os muitos petistas que mudaram de vida depois do petrolão. Vargas foi o primeiro político a cair na teia da Lava-Jato. Pilhado em conversas "estranhas" com integrantes da quadrilha, ele renunciou à vice-presidência da Câmara, foi obrigado a deixar o PT e ainda teve o mandato cassado pelos colegas. Mas a ruína política não prejudicou sua saúde financeira. Proprietário de um Monza velho e batido nos primeiros anos como parlamentar, Vargas saiu da política milionário, dono de mansões, fazendas e carros importados. À custa do dinheiro sujo do petrolão, o ex-deputado cruzou várias vezes o país em jatos particulares financiados por Alberto Youssef, seu amigo. Apenas duas de suas empresas de fachada, abertas para mascarar o recebimento de propina, faturaram pelo menos 4 milhões de reais. 0 ex-deputado, preso em Curitiba, sonhava em presidir a Câmara.

2,4 milhões de reais
O empreiteiro Léo Pinheiro, ex-presidente da construtora OAS, foi durante muitos anos um dos mais fiéis amigos de Lula no poder. Ao longo dos dois governos do petista, transformou a construtora em um império com milhões de dólares do BNDES em investimentos no Brasil e no exterior. A proximidade entre os dois era tal que Lula ficava à vontade para pedir toda sorte de favor. Preso em novembro do ano passado, Pinheiro sentiu-se abandonado e começou a rascunhar o esboço do que seria uma possível delação premiada. Essas anotações revelaram como era lucrativa a amizade de Lula com o empreiteiro. Logo depois de deixar o governo, Lula ocupou um sítio em Atibaia, no interior de São Paulo. O empreiteiro também construiu o tríplex de Lula no Guarujá (SP). A pedido do petista, Léo Pinheiro realizou uma reforma de luxo na propriedade de Atibaia sem cobrar do ex-presidente um único tostão. Outro empreiteiro generoso com Lula foi Ricardo Pessoa. O dono da UTC admitiu ter entregue 2,4 milhões de reais em dinheiro vivo para a campanha do petista à reeleição, em 2006. Desviada da Petrobras, a bolada saiu de uma conta na Suíça.

43 milhões de reais
Depois de cair em desgraça no escândalo do mensalão, em 2005, o ex-ministro José Dirceu decidiu refazer a vida como "consultor". Sua carteira de clientes era um dos segredos mais bem guardados da República - e não por acaso. Descobriu-se que as consultorias nada mais eram que uma forma de as grandes empresas pagarem propina ao ex-ministro por obras no governo. Em sete anos, ele juntou uma fortuna de 39 milhões de reais. Antes de ser preso, viajava apenas em jatos particulares e curtia a vida nos melhores resorts do pais. Nas últimas semanas, as investigações da Lava-Jato desmontaram de vez a farsa. O empreiteiro Ricardo Pessoa apresentou documentos que mostram que Dirceu recebeu dinheiro desviado da Petrobras no período em que estava preso na Papuda. Para acobertar o pagamento de propina, simulava contratos de consultoria. Na semana passada, o lobista Julio Camargo admitiu ao juiz Sergio Moro que repassou 4 milhões de reais em dinheiro vivo a Dirceu. Novamente, era propina do petrolão.

O fio da meada assusta

• Lula é investigado por ajuda a empreiteira no exterior. Isso é legítimo para um candidato a melhor ex-presidente do Brasil. Mas há detalhes mal contados nessa história

Daniel Pereira – Revista Veja

O ex-presidente Lula nomeou os quatro diretores da Petrobras que foram presos e acusados de participar do maior esquema de corrupção da história do país. Ele também recebeu favores pessoais de empreiteiras investigadas no petrolão e foi contratado por elas para fazer palestras no Brasil e no exterior. Em sua campanha à reeleição, em 2006, contou com uma doação de 2,4 milhões de reais da UTC, dinheiro que, segundo o próprio dono da construtora, Ricardo Pessoa, teve origem no petrolão e não foi declarado à Justiça Eleitoral. Apesar de tantas evidências, Lula não é oficialmente investigado na Operação Lava-Jato. Sua paz de espírito, porém, não está garantida. O petista confidenciou a aliados ter medo de ser preso.

A Procuradoria da República no Distrito Federal abriu, na semana passada, um procedimento criminal para apurar a suspeita de tráfico de influência de Lula em favor da Odebrecht, a maior empreiteira do país e cliente preferencial de recursos do BNDES. Nesse caminho, os investigadores muito provavelmente vão por uma rua sem saída. Não há nada de errado, a princípio, em um ex-presidente se tornar, para ficar na expressão usada por Lula, "um caixeiro-viajante" do Brasil no exterior — e cobrar por isso. Esse é um papel esperado de ex-presidentes dispostos a continuar construindo seu legado mesmo depois de apear do poder. Mas, como suspeitam os promotores, o diabo pode estar nos detalhes.

Ao deixar o Planalto, Lula fez viagens a países da América Latina e da África, pagas pela Odebrecht, com o objetivo declarado de abrir caminho para negócios da construtora e fazer palestras. Em 2011, Lula visitou o Panamá na companhia do ex-ministro José Dirceu — até então com a roupagem pública de consultor de sucesso — e de Alexandrino Alencar, diretor da Odebrecht. Com Alencar, Lula também viajou a Angola, Gana e Portugal. Houve ainda uma empreitada em que os papéis foram invertidos. Ao representar o governo brasileiro em missão oficial à Guiné Equatorial, o ex-presidente convidou Alencar a integrar a comitiva, o que causou desconforto entre funcionários do Itamaraty. A dupla dinâmica Lula e Alexandrino Alencar mostrava grande eficiência — e abria o caminho da riqueza para outras pessoas ligadas ao ex-presidente. VEJA revelou que a Odebrecht contratou Taiguara Rodrigues dos Santos, sobrinho de Lula, para trabalhar na construção de uma hidrelétrica em Angola, obra financiada com dinheiro do BNDES. Essa cortesia ajudou a transformar o sobrinho empresário especializado na reforma de varandas de apartamentos em empreiteiro internacional de sucesso. Não deixa de ser mais um feito do lulopetismo em sua missão sagrada de promover a ascensão social das massas.

A convite de Alencar, Taiguara fez parte de uma comitiva de empresários e representantes do governo brasileiro que visitou as obras do Porto Mariel, em Cuba, também tocadas com dinheiro do BNDES. A Procuradoria da República no Distrito Federal agora quer saber que vantagens o ex-presidente obteve da Odebrecht pelos serviços de lobby. Para isso, recorrerá aos colegas que participam da Operação Lava-Jato. Se a Justiça autorizar, a Procuradoria terá acesso a documentos, mensagens, planilhas e depósitos que façam referência a obras da Odebrecht financiadas pelo BNDES ou que tenham sido negociadas com a intermediação de Lula. Haverá também o compartilhamento de depósitos feitos pelas empreiteiras investigadas no petrolão em contas de Lula, de seu instituto e de sua empresa de palestras. Os investigadores já sabem que a Camargo Corrêa repassou, entre 2011 e 2013, 4,5 milhões de reais ao instituto e à empresa de palestras de Lula, inclusive sob a sugestiva rubrica de "bônus eleitoral". Delegados e procuradores também têm dados intrigantes sobre Alexandrino Alencar.

Os delatores Alberto Youssef e Rafael Ângulo Lopez disseram que Alencar organizava o esquema de pagamento de propinas no exterior. Lopez, encarregado de entregar dinheiro vivo a beneficiários do petrolão, contou que fazia o controle dos pagamentos diretamente com Alencar na sede da Odebrecht. Ao ser abordado pelos policiais no momento de sua prisão, Alencar fez três telefonemas. Um deles para o Instituto Lula.

Um terremoto que seja para o bem

• Personagens Fernando Collor, Eduardo Cunha e Luiz Inácio Lula da Silva. Os três políticos criticaram, por razões diferentes, o Ministério Público e a Polícia Federal

• Feita dentro da legalidade, a ação coordenada da Policia Federal e do Ministério Público gerou uma crise no curto prazo - mas pode ser o marco de um processo de depuração no país

Um terremoto varreu Brasília na semana passada. Em ação coordenada, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal cumpriram uma série de mandados de busca e apreensão contra um grupo de políticos. Entre eles estavam os senadores Fernando Collor (PTB-AL) e Ciro Nogueira (PP-PI). O Congresso reagiu como se a instituição houvesse sido atacada. Na grita contra a Polícia Federal e a PGR, os parlamentares investigados ganharam a companhia do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Ele foi acusado, numa delação premiada, de pedir US$ 5 milhões em propinas. Para completar, o Ministério Público abriu um Procedimento Investigatório Criminal contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O MP suspeita, como ÉPOCA noticiou em abril, que o ex-presidente pode ter praticado tráfico internacional de influência em favor da empreiteira Odebrecht. A exemplo de Cunha e Collor, Lula criticou os investigadores.

A soma de tudo isso gerou uma crise em Brasília. Essa crise pode ser entendida de duas maneiras - como fica claro ao longo de várias reportagens que estão nesta edição de ÉPOCA. No curto prazo, criou-se uma turbulência política, com o rompimento de Eduardo Cunha com o governo. Essa turbulência, como rastreou a agência de classificação Moody"s, pode afetar a economia . No longo prazo, o terremoto pode representar uma depuração no país. A investigação sobre os políticos vem sendo realizada com respeito a todos os procedimentos legais . Por causa da Lava Jato, alguns homens de Collor na Petrobras já foram afastados . É um começo. Que continue.

A ação da polícia contra os políticos foi arbitrária?

• Não Havia abundância de provas - como ÉPOCA revelou com exclusividade - e respaldo do Supremo Tribunal Federal

Filipe Coutinho – Época

Eram 4 horas da madrugada da terça-feira, dia 14. Depois de 13 dias de preparação, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal iniciavam uma ação coordenada. Cerca de 50 policiais estavam no auditório da Superintendência Regional da PF no Distrito Federal, para repassar as missões. A reunião de orientação dos policiais apresentava os últimos detalhes da Operação Politeia, desdobramento da Operação Lava Jato e primeiro grande passo na investigação contra políticos. Alguns dos investigadores ficaram 40 horas acordados, entre preparar e executar a operação. Chegaram ao limite da exaustão, mesmo sabendo que a investigação ainda tem muito a avançar. Um grupo de procuradores participou da reunião na PF, incluindo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Às 5 horas, Janot encerrou sua fala, e os policiais e procuradores foram às ruas cumprir mandados de busca e apreensão contra um grupo de políticos. Entre eles estavam os senadores Fernando Collor (PTB-AL), Ciro Nogueira (PP-PI), Fernando Bezerra (PSB-PE) e o deputado Eduardo da Fonte (PP-PE). Em Curitiba, a força-tarefa responsável pela Lava Jato, àquela hora, já sabia que em um par de dias outro alvo dos investigadores seria alcançado pelo escândalo. O empresário e delator do esquema Júlio Camargo, da Toyo Setal, afirmou na quinta-feira que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB--RJ), pediu a ele US$ 5 milhões em propinas. Tudo somado, a Lava Jato atingiu o Congresso - e a crise policial pode gerar uma crise política.

A gritaria no Legislativo foi imediata. Eduardo Cunha atribuiu a delação a uma ação coordenada de Janot com o Planalto, para enfraquecê-lo - e anunciou seu rompimento e retaliações (leia mais na página 44). Ignorou o fato de que a delação fora prestada ao juiz Sérgio Moro e coordenada pela frente da força-tarefa de Curitiba, que já mandou para a prisão o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. Janot, é certo, fez dessa investigação uma causa pessoal, e a presidente Dilma Rousseff, com seu círculo mais próximo, regozija-se com o novo desdobramento do caso. Nada disso muda a realidade de que há indícios contundentes contra congressistas.

Collor também retornou a seu velho ato de misturar grandiloqüência verbal e ataque destemperado aos que considera oponentes (desta vez, os investigadores), em vez de explicar os fatos. "Fui humilhado", disse o ex-presidente, logo após a operação. "Isso é degradante, isso é atitude de covardes, de facínoras que se dizem democratas, que se aproveitam da democracia, mas que, na prática, aplicam a autocracia e dela se aproveitam", disse. O ex-presidente afirmou que a ação dos procuradores tem intuito "mesquinho e mentiroso". Ele apelou ao corporativismo dos congressistas. "Não se iludam, pois ninguém está livre disso. Daqui mesmo desta Casa, novas vítimas podem sair, novas histórias poderão ser maldosamente construídas." Cunha foi na mesma toada de Collor. Acusou Janot de usar ameaças contra delatores, a fim de obter confissões falsas, e disse haver no Palácio do Planalto um "bando de aloprados". O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também reagiu. "Causam perplexidade alguns métodos que beiram a intimidação", afirmou, em nota. E classificou as ações de policiais e procuradores como "violência contra as garantias constitucionais em detrimento do estado democrático de direito". As reclamações dos parlamentares, porém, chocam-se com a robustez das provas contra eles.

A investigação mostra, em detalhe, fluxos de dinheiro que passam por envolvidos no desvio de verbas da Petrobras, como o doleiro Alberto Youssef e o empreiteiro Ricardo Pessôa, e terminam engordando contas bancárias e patrimônio de parlamentares, como ÉPOCA on-line revelou na quinta-feira passada com exclusividade. Por causa dessa fundamentação sólida, a PF conseguiu autorizações de três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, Celso de Mello e Ricardo Lewandowski. As autorizações permitiram o cumprimento de 53 mandados, componentes de seis inquéritos diferentes na Operação Lava Jato. Teori, famoso pelo estilo comedido, mostrou-se satisfeito com as provas da operação até agora, que considera numerosas e consistentes, e afirmou que, cada vez que os investigadores "puxam uma pena, vem uma galinha".

Collor não ousou criticar Teori, relator da Lava Jato no STF, que julgará os detentores de foro privilegiado eventualmente denunciados por Janot. Assim como Cunha silenciou sobre Moro. Se Collor ler a decisão de Teori, saberá que todas as "arbitrariedades" de que acusa a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a PF foram autorizadas pelo ministro. Na operação desencadeada naquela madrugada, havia um alvo especial: a Casa da Dinda, residência de Collor. O ex-presidente removido do cargo em 1992 conseguiu a proeza de entrar novamente para a história política, em um novo verbete. Da Casa da Dinda saíram uma Ferrari, um Lamborghini e um Porsche, levados pela PF. Nisso não houve nenhum abuso ou espetacularização Era uma ordem expressa de Zavascki, e não um arroubo de policiais e procuradores. Há suspeita de que sejam fruto de lavagem de dinheiro.

Collor é suspeito de receber propina por meio de contratos da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras. O algoz de Lula na campanha de 1989 tinha dois indicados na diretoria da empresa, Luiz Cláudio Caseira Sanches, ex-diretor da rede de postos de serviço, e José Zonis, ex-diretor de Operações e Logística, ambos ainda atuantes na companhia. Além dos dois, atuava em nome de Collor um operador, figura conhecida de seu período na Presidência da República, o ex-ministro Pedro Paulo de Leoni Ramos.

Segundo a investigação, Collor se valia de uma empresa de fachada para lavar dinheiro. Trata-se da empresa Água Branca Participações, usada pelo senador para comprar um Lamborghini (R$ 3 milhões), uma Ferrari (R$ 2 milhões), um Bentley (R$ 1 milhão) e um Range Rover (R$ 570 mil). "Trata-se, provavelmente (...) de "pessoa jurídica de fachada", usada especificamente para lavagem de dinheiro", afirma o relatório da investigação . Há mais. O Bentley foi pago por uma firma chamada Phisical Comércio, sediada em São Paulo. Era mais uma empresa de fachada. Tinha dois sócios, que morreram em 2013, não tem funcionários, nem registro na Receita. Apesar de não existir, a Phisical recebeu R$ 930 mil das empresas de Youssef há dois anos.

Segundo a investigação, um contrato de ao menos R$ 140 milhões, firmado com uma rede de postos da DVBR Derivados, ligada ao banco BTG Pactuai, era uma das origens da propina - como ÉPOCA revelou em fevereiro. O BTG negou qualquer conhecimento das acusações feitas por Youssef.

De acordo com Youssef, delator na Lava Jato, a propina foi de R$ 6 milhões. Ele não é o único delator a complicar Collor. Rafael Angulo, responsável pelas entregas de dinheiro a mando de Youssef, descreveu uma entrega de R$ 60 mil. O relatório da delação surpreende pela forma prosaica com que parece ser tratado um malote de dinheiro vivo. "O declarante disse: "eu trouxe sessenta, o senhor sabe?"; Que ele respondeu: "Sei" (...) o declarante entregou o valor diretamente para Collor (...) Collor pegou os valores e apenas disse "tudo bem" (...) Collor não contou os valores e apenas colocou ao lado."

Uma terceira trilha de dinheiro aponta o rumo do senador. Ricardo Pessôa, presidente da empreiteira UTC e também delator, diz que pagou pelo menos R$ 20 milhões de propina a um diretor da BR Distribuidora - também indicado por Collor. "O declarante sabia que por trás da indicação de (José) Zonis (funcionário de carreira da Petrobras e ex-diretor de Operações e Logística da BR Distribuidora) estava Collor, do contrário não aceitaria pagar 20 milhões de propina", diz trecho do pedido de Janot de autorização do STF para a ação policial. A investigação descobriu ainda que Collor fez sucessivos depósitos em dinheiro vivo nas contas de suas empresas. Para isso, usava dois assessores do Senado, a fim de fracionar os depósitos. Entre 2011 e 2014, os valores somam R$ 770 mil. "Os fatos se relacionam a complexo esquema de recebimento e repasse de valores ilícitos para várias pessoas, mediante a utilização de diversas empresas, com a finalidade de ocultar a origem e o destino final dos recursos envolvidos", afirma o relatório dos procuradores. Diante de tantas evidências, a PF obteve autorização também para fazer buscas nas residências de Zonis e Sanches. A Petrobras informou que ambos foram, agora, afastados dos cargos que ocupavam na empresa - eles deixaram a diretoria da BR Distribuidora em 2013.

Com a mesma leva de mandados, a PF visitou um colega de Collor, o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Ele estava escovando os dentes quando foi informado por uma funcionária de que havia um delegado no portão. Quando saíram, os policiais levavam dezenas de milhares de dólares, dinheiro que Nogueira havia separado para viajar com a família para o exterior nesta semana. Ele é suspeito de receber R$ 2 milhões em propina, segundo transcrição inédita da delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessôa, da UTC. Segundo o empresário, Nogueira havia pedido o dinheiro alegando precisar ajudar um parente com problemas de saúde. "Ciro Nogueira se mostrou agradecido, afirmando que "haveria contrapartida", afirma o relatório da Procuradoria. De acordo com Ricardo Pessôa, a casa do senador em Brasília - a mesma que recebeu a visita de policiais - era o local das entregas. Foram três, totalizando R$ 1,4 milhão. O empreiteiro disse ainda que uma pessoa chamada "Fernando" era o responsável pelo recebimento. Os investigadores não se contentaram com as palavras de Pessôa, como tanto reclamam os críticos da delação premiada. Em diligência na casa do senador, descobriu-se um Golf estacionado na garagem, registrado em nome de um Fernando Mesquita, ex-assessor de Nogueira quando ele era deputado.

Outro delator, Rafael Angulo, disse que fez entregas no mesmo endereço. A ordem era do doleiro Alberto Youssef, e o dinheiro também vinha de Pessôa, da UTC. Os depoimentos dos delatores convergem. Uma anotação de Angulo obtida pelos investigadores trata da entrega de valores na casa de Nogueira, com a observação de "Fernando". Além das entregas em dinheiro vivo, Pessôa disse ter feito um contrato fictício de R$ 780 mil com um escritório de advocacia apontado por Nogueira. O contrato foi entregue aos investigadores. O senador nega. "Com relação às afirmações feitas pelo delator Ricardo Pessôa divulgadas na imprensa, esclareço que as acusações são totalmente infundadas, sem base em qualquer prova, e que confio plenamente que, ao final desse processo, a verdade irá vir à tona e corrigir a injustiça de que estou sendo vítima", afirmou.

Na Câmara, o principal alvo da Operação Politeia foi o deputado Eduardo da Fonte (PP-PE). Ele é duplamente suspeito, acusado de receber dinheiro para melar uma CPI da Petrobras em 2009 e de ganhar propina com o esquema que a CPI deveria descobrir. De acordo com a investigação, o doleiro Carlos Habib Chater usou seu posto de gasolina para fazer dois depósitos em 2011, totalizando R$ 46 mil. O destino do dinheiro foi uma empresa de Eduardo da Fonte, a ADPL Motors. Essa mesma empresa foi usada, depois, para bancar a campanha do deputado em 2014, com doação de R$ 250 mil. "A necessidade de busca e apreensão nos endereços da empresa ADPL surge da necessidade de que sejam colhidos outros elementos de convicção referentes aos depósitos já identificados e, eventualmente, de outros fatos de natureza semelhante", diz o pedido do procurador-geral da República. Em nota, o deputado disse estar "à disposição da justiça para colaborar no que for possível para esclarecer logo todos os fatos". "Esclarecer os fatos" é o objetivo central da Lava jato em sua nova fase.

Alberto Aggio - A 'questão grega' e o que pode seguir

Há quem imagine que já se possa falar na existência de uma "questão grega", que passaria a figurar como paradigma no combate ao capitalismo financista. A vitória alcançada no referendo pelo primeiro-ministro Alexis Tsipras, líder do Syriza, que recusou as condições impostas pela União Europeia (UE) para a renovação dos empréstimos ao país helênico, parece ser o grande marco desse paradigma. A estratégia de Tsipras tinha como objetivo mínimo a manutenção do governo de ultraesquerda e, como programa máximo, abrir uma contestação incisiva à dinâmica vigente na UE, objetivando a sua "reforma democrática". O primeiro objetivo foi alcançado e o governo sobreviveu. O segundo não é uma proposta apenas de Tsipras, mas sem dúvida toca no desafio mais profundo da UE.

A vitória do Syriza no referendo pôs em xeque o projeto europeu, uma vez que se poderiam estabelecer elementos disruptivos preocupantes, dentro e fora da Europa. Todos os atores envolvidos, mais a observação ativa dos EUA, levaram isso em conta quando se sentaram à mesa para negociar os termos do acordo proposto por Tsipras, depois de aprovado no Parlamento grego. O resultado das negociações foi um programa de austeridade que muitos consideram draconiano, mas que o líder do governo grego foi forçado a aceitar, mantendo a disposição de defendê-lo perante seus concidadãos. Afora as promessas de redução e alongamento da dívida, Tsipras ressaltou a importância da manutenção da soberania grega ante o controle dos processos de privatização e enfatizou o prazo de três anos bem como o montante de recursos que a Grécia irá receber para voltar a ter alguma estabilidade e retomar do crescimento. Aprovadas as primeiras medidas, o Parlamento grego deu um claro sinal aos credores da UE de que deverá seguir aprovando os demais itens do resgate, e o risco de uma ruptura da Grécia com a zona do euro estaria afastado, pelo menos dentro das condições acordadas até o momento.

O cenário ainda é intrincado e o governo grego segue navegando em águas tempestuosas. Está claro que o referendo serviu muito mais aos propósitos políticos do Syriza de se legitimar externamente do que às opções que constavam na confusa cédula eleitoral. Contudo, o referendo gerou ilusões e, como se viu, produziu pouca sustentação política e credibilidade ao governo grego diante de uma Alemanha que passou a radicalizar mais ainda suas posições em relação ao país helênico, defendendo inclusive sua exclusão temporária da UE. No contexto das tratativas, Merkel buscava transformar a derrota tática numa vitória estratégica, endurecendo os termos e as condições do acordo. Em nenhum momento reconheceu que evitar o referendo, antecipando um acordo mais razoável, como propôs o primeiro-ministro Matteo Renzi, seria a coisa mais acertada a fazer.

No pós-referendo, as divisões do Syriza já eram esperadas, visto sua composição ideológica. A recusa de apoio a Tsipras por alguns parlamentares do Syriza resultou na perda da maioria no Parlamento. Registre-se que houve renúncia de ministros adstritos ao partido e que a maioria do CC do Syriza se colocou contra a aprovação dos termos do ajuste. Explicável, portanto, que nesse contexto tivesse ressurgido o fantasma da traição, uma noção que esteve presente no repertório dos piores momentos da história da esquerda mundial. Uma fórmula reconhecidamente débil e instrumental.

Apesar de condutas muitas vezes paradoxais, Tsipras caminhou, em meio à turbulência, em direção a uma postura de "esquerda de governo", superando a fase de construção retórica e simbólica de seu partido-movimento. Uma atitude saudada, inclusive, pelo Podemos, desde a Espanha. Guardadas as diferenciações de época e de circunstância, se Tsipras conseguir se manter no governo por mais algum tempo (já se fala em eleições antecipadas em setembro), terá realizado uma operação à François Mitterrand, que, depois de ter vencido em aliança com os comunistas, rompeu essa aliança para superar a crise inicial do seu governo. Uma opção que nunca esteve disponível a Salvador Allende, no Chile, uma década antes.

É relevante pensar por que se estabeleceu uma idolatria da vitória do "não" no referendo grego. Mesmo diante de uma situação dramática e quase sem saídas para a Grécia, essa idolatria acabou produzindo uma sensação ilusória de assalto aos céus, alçando o país a um lugar paradigmático e simbólico. Alguns, como Alain Badiou, anteciparam a necessidade de criar "brigadas internacionais", como aquelas que se formaram na guerra civil espanhola, para apoiar o governo grego! Numa versão não tão pedestre, no interior da vertente intelectual que vê de maneira catastrófica a situação da esquerda europeia, cultivou-se a ideia de que um "país atrasado" (para os padrões europeus), com economia combalida e ferido de morte por décadas de parasitismo em relação ao Estado e aos recursos da UE, seria capaz de redirecionar, mesmo em estado quase terminal, a estratégia da esquerda mundial ao sinalizar o rumo para o enfrentamento ao capitalismo financeiro. Nessa fabulação extemporânea da teoria das "vantagens do atraso", o desastre grego foi tomado como uma vantagem para se estabelecer uma via plebiscitária de superação do capitalismo. São argumentos fundados num mimetismo ideológico flagrantemente anacrônico. A "questão grega" acabou reduzida, assim, à falácia da democracia direta, que pensa a democracia contemporânea a partir de puros atos plebiscitários.

A "questão grega" nada mais é do que uma releitura da "revolução", conduzida por uma esquerda ancilosada ou por aquela que vê tal emblema como um "drama da multidão em atos". Isso, somado à cultura nacionalista e corporativa da direita, apenas fará com que a desejada "reforma democrática" da União Europeia seja deslocada para as calendas gregas.

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*Alberto Aggio é professor titular de História da Unesp

Merval Pereira - A voz rouca das ruas

- O Globo

Em linguagem parlamentar chula, o tempo é de vaca não reconhecer bezerra, tal a confusão em Brasília. Como não há liderança política que se imponha para tentar controlar a crise, nem partidos de peso que possam se posicionar acima das dissidências, pois estão envolvidos em tenebrosas transações ou interesses próprios, ou não têm expressão para a mediação política necessária, o que definirá o rumo dos acontecimentos serão as manifestações populares.

Se a programada para 16 de agosto tiver a grandiosidade das primeiras, em 2013 e em março deste ano, o frágil equilíbrio do governo desmoronará rapidamente. O Congresso e os órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União e o Tribunal Superior Eleitoral, vão se mover segundo a voz rouca das ruas (na definição perfeita de Ulysses Guimarães), e nesse caso o espalhafatoso anúncio do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de que está na oposição terá consequências drásticas enquanto ele tiver poder para tanto.

Claro que ter um atirador de elite como Cunha à solta por aí, com o único propósito de levar junto consigo o maior número de pessoas possível para o destino que parece inevitável, não é situação confortável nem mesmo para seus maiores inimigos.

Mas, dentro da confusão que está instalada, soou como música a ouvidos palacianos a denúncia do empresário Júlio Camargo contra Cunha. O presidente da Câmara, porém, vai fazer o estrago possível; ontem mesmo, já convocou a temida (pelo governo) CPI do BNDES e anunciou que convocará em agosto outra bomba, a CPI dos Fundos de Pensão.

Seu companheiro de infortúnios, o senador Renan Calheiros, já havia anunciado a formação das mesmas CPIs no Senado. Mesmo sem ser tão histriônico quanto Cunha, Renan Calheiros guarda na geladeira a vingança que usará contra seus adversários, enquanto tiver forças para lutar.

O mais provável, porém, é que ambos sejam obrigados a deixar as presidências das Casas que comandam, se não por questões morais que há muito superaram por um pragmatismo político desprezível, por força de decisão judicial. Mas, enquanto estiverem de posse de suas funções, farão tudo para atazanar a vida do Palácio do Planalto, que, estão convencidos, está por trás da "perseguição" do Ministério Público a eles.

Uma teoria conspiratória de péssima qualidade, pois, se o governo tivesse condições de controlar os controladores e os investigadores, não estaria na situação de penúria política em que se encontra. Mas também para Cunha e Calheiros é bom se convencerem dessa estapafúrdia versão, pois somente ela justifica o que está acontecendo com os dois.

A alternativa seria admitir que estiveram mesmo metidos em negociatas da Petrobras, o que não farão nem depois de presos, se for o caso.

Quem diz que sabe o que ocorrerá está mentindo. Tamanha confusão sem instância de mediação nunca se viu no país, a começar por governo tão fraco que não consegue nem manter maioria aparente no Congresso, quanto mais comandar um grupo político.

Cunha disse, com endereço certo, que existem vários "aloprados" no Planalto minando as negociações que Temer vem tentando. Há de fato informações de que tanto o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante - a quem Cunha certamente quis atingir com o epíteto "aloprado" -, quanto a presidente da Caixa, Miriam Belchior, não liberam as nomeações acertadas com a base.

Mas, e se fazem assim com a anuência da própria Dilma, que nos bastidores já se queixou de não se sentir confortável com este presidencialismo de coalizão que troca cargos por votos?

O que resta a Dilma a esta altura é querer se diferenciar dos que à sua volta estão envolvidos nos escândalos de corrupção. Já disse que não vai pagar a conta pelo que outros fizeram -referência indireta ao PT e, sobretudo, a Lula - e que não encontrarão nenhum proveito pessoal dela nesses desvios.

Uma tentativa de bloquear suas próprias culpas, como ter sido presidente do Conselho de Administração da Petrobras e não saber o que estava se passando sob seu nariz na companhia. Ou "fazer o diabo" para se eleger, fechar os olhos e aceitar dinheiro sujo para financiar sua campanha.

Uma atitude psicológica natural essa de procurar se proteger quando o mar de lama se aproxima. Quanto mais não seja para justificar depois uma atitude mais dramática, como a renúncia à Presidência.

Igor Gielow - Infernos

- Folha de S. Paulo

Brasília vive a progressiva inserção no quadro que representa o inferno no esplêndido tríptico "O Jardim das Delícias Terrenas", de Bosch. Tudo está escuro e pesado, matizado apenas por lampejos oriundos do lume de regiões inferiores.

É nessas nesgas de luz trevosa que se encontram as pistas do que espera o mundo político. O rompimento de Eduardo Cunha com o governo, de fato, já que de direito o é desde sempre, abre para o Planalto um portal infernal imprevisível.

Até aqui, Cunha manobrava entre estocadas e concessões ao governo, em oposição ao comportamento agressivo do seu companheiro na chefia do Senado, Renan Calheiros. Agora, Dilma tem dois dos três próceres do PMDB contra si; o terceiro, seu vice Michel Temer, está constitucionalmente ao seu lado, por ora.

Note-se que não trato aqui de culpas. Politicamente, Cunha sofreu um baque com a acusação de propina na Lava Jato, que o colocou na defensiva. Até agora, está falando virtualmente sozinho, mas não contem com isso de forma indeterminada.

Fosse outro governo, cairia com relativa facilidade –lembrem de Severino Cavalcanti e seu "mensalinho", Renan e seus rolos anteriores.

Mas falamos de Cunha, cuja sagacidade garantirá tom épico a qualquer embate. E, principalmente, da gestão natimorta de Dilma 2, que se arrasta tal e qual zumbi de cinema.

Soa prematura a comemoração palaciana das agruras do deputado, como se um ano e meio de infortúnios sobre PT e governo, fora TCU, TSE e Lula sob inédita investigação, fossem apagados do nada. Cunha ainda tem muito capital político para queimar, ao contrário de Dilma.

O enredo é complexo, e tem na Procuradoria-Geral da República ator central para determinar a velocidade da crise daqui em diante.

Institucionalmente, claro, é tudo uma tragédia sem fim e de uma opacidade desalentadora. O cenário não inspira esperança para o país.

Míriam Leitão - Crise institucional

- O Globo

A crise piorou nos últimos dias. Ela se desdobra em ramificações que se cruzam, elevando o grau de tensão. A presidente da República vai se transformando em uma figura simbólica, sem qualquer capacidade de comandar a agenda. Os poderes se acusam. A economia se afunda em recessão, inflação alta e dívida crescente. Economistas estão revendo para 2% a 2,5% o encolhimento do PIB de 2015.

Quando a presidente Dilma fala, a gente nota que o silêncio lhe cai bem. Quando nada diz, pode-se ter esperança de que ela esteja entendendo o grau de confusão no qual o país está. Ao falar, Dilma confunde confissões extraídas sob tortura na ditadura com delações previstas em lei, feitas por criminosos à Justiça, em pleno Estado de Direito. Nas reuniões que faz para avaliar a crise, a presidente mistura governo com partido ou tem encontros que, do ponto de vista institucional, não deveria ter para tratar deste tema, como o que manteve com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF).

Há uma crise política derivada da perda de apoio popular à presidente. Pela lógica do modelo do presidencialismo de coalizão, a desaprovação dos eleitores acaba desidratando a força política do chefe do executivo. Nos ciclos do modelo brasileiro, o poder atrai, a perda do poder afugenta. Os políticos da base governista se afastam do chefe do executivo quando ele perde aprovação popular. Momentos assim exigem da Presidência grande habilidade para comandar a agenda política e voltar a ser um polo de atração. Esse atributo parece não ser o forte da atual presidente.

Há uma crise política por uma situação peculiar do momento, em que os comandantes das duas Casas do Congresso estão sob investigação e sendo citados como beneficiários de propina. A reação deles é acusar o Executivo de estar por trás das ações da Polícia Federal, Ministério Público e Justiça. Por elementar, se pode afastar essa visão persecutória. Se tivesse capacidade de manipular o órgão policial e as instituições do Ministério Público e Justiça, o governo o faria em seu próprio benefício. Não tem conseguido no MP nem na Justiça de primeira instância.

A reação do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, é uma tentativa de se desvincular de um escândalo que o pega de frente. Na sua declaração se vê a tentativa inútil de camuflar algo que está visível. "Essa lama, eu não vou aceitar estar junto dela." Cunha rompeu com o governo, mas não pode se separar da Operação Lava-Jato, a menos que se prove que a acusação feita pelo delator Júlio Camargo, de que deu a ele US$ 5 milhões, não é verdadeira.

Esse ambiente indica que o segundo semestre será pior do que o primeiro na política. Cunha tem grande poder sobre a pauta do Congresso, como se viu, e sabe exercê-lo. O governo é inoperante e inábil. Isso faz com que qualquer proposta que vá para o legislativo, mesmo que seja excelente do ponto de vista fiscal, pode se transformar em um projeto bomba. Eles fizeram isso no primeiro semestre, ao pendurar sobre uma MP que reduzia o custo com as viúvas jovens o projeto mais desestabilizador das contas previdenciárias.

Na economia, as perspectivas pioraram nos últimos dias. Esta semana, foram vários os especialistas de bancos e de consultorias que revisaram para pior as projeções da recessão. Economistas como Marcelo Carvalho, do BNP Paribas; Silvia Matos, do Ibre/FGV; ou Luiz Carlos Prado, da UFRJ, não tiveram dúvidas em dizer que houve uma piora no quadro econômico recente. Silvia disse que a Fundação tem colhido uma deterioração cada vez maior nas sondagens de confiança dos setores empresariais e dos consumidores. Marcelo Carvalho disse que o país vai viver a pior recessão em uma geração. A última queda do PIB significativa foi a de 1990, do governo Collor.

Essa mistura é explosiva: uma crise econômica com desemprego, inflação, recessão e piora fiscal; uma crise política que desfaz a coalizão de governo; um processo de investigação criminal que avança sobre algumas das principais lideranças do país. Não pelo que Cunha falou ontem, mas por tudo o que aconteceu este ano, já se pode dizer que o país não está apenas com dificuldades na governabilidade. O país está entrando numa crise institucional.

Arreganhos autoritários – Editorial / O Estado de S. Paulo

Fisiologismo é a prática política voltada para interesses e proveito pessoal, mediante atos de lassidão moral, prevaricação, corrupção ou afins. É a prática que o lulopetismo impôs, como nunca antes na história deste país, à gestão da coisa pública. A delação que inclui o deputado Eduardo Cunha na lista dos políticos investigados pela Operação Lava Jato – e provocou seu rompimento pessoal com o governo – é um passo importante, pela notoriedade do investigado, no combate aos efeitos do fisiologismo. É igualmente auspiciosa a notícia de que a Procuradoria da República no Distrito Federal abriu uma investigação formal para apurar a suspeita de tráfico de influência nas relações do ex-presidente Lula com a empreiteira Odebrecht. Assim, as atenções da Justiça voltam-se também para o principal responsável pela praga hoje disseminada na vida pública brasileira. Lula e seu PT não inventaram a corrupção. Mas aprimoram a prática e a institucionalizaram, em benefício próprio e de um projeto de poder hoje falido, a ponto de mal sustentar ereto o "poste" que colocou no Palácio do Planalto.

A exposição de uma faceta que Lula sempre dissimulou poderá completar a desmistificação de um líder populista cuja reputação foi construída sobre pés de barro, como hoje se revela aos olhos de uma nação perplexa. E a denúncia de que o presidente da Câmara cobrou propina milionária relativa a contratos com a Petrobrás explodiu como uma bomba no noticiário, não pela informação em si, que não deve ter surpreendido muita gente, mas pela destemperada reação de Eduardo Cunha. Não é de hoje que o parlamentar fluminense, eleito para o comando da Câmara dos Deputados contra a vontade e o empenho do Planalto, acusa Dilma Rousseff e seus ministros de tentarem envolvê-lo na Lava Jato. E essa é uma das razões pelas quais Cunha se tem esmerado em manipular a pauta de votações e o comportamento de seus pares de modo a retaliar o Planalto, chantageá-lo e impor-lhe sucessivas e humilhantes derrotas em plenário. Disso tudo sobrou de positivo o reerguimento da importância política e institucional do Congresso.

Mas pode ser que esse benefício não dure muito. Pois o presidente da Câmara perdeu totalmente a compostura e ultrapassou os limites éticos e protocolares que um chefe de Poder deve manter com a Presidência da República. Não se limitou a refutar as declarações do delator Júlio Camargo. Falando aos jornalistas logo após a divulgação dos termos da delação colhida em Curitiba pelo juiz Sergio Moro, Cunha acusou o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de ter obrigado o depoente a mentir: "É muito estranho, às vésperas da eleição do procurador-geral da República e de pronunciamento meu em rede nacional, que as ameaças ao delator tenham conseguido o efeito desejado pelo procurador, ou seja, obrigar o delator a mentir". E acrescentou, tentando transformar todo o Parlamento em vítima de uma armação do Planalto: "É tudo vingança do governo. Parece que o Executivo quer jogar sua crise no Congresso".

A estratégia de defesa de Eduardo Cunha é clara. Tenta politizar a questão de seu envolvimento com a Lava Jato e desacreditar as investigações, atribuindo-as ao interesse do Planalto de afastá-lo do comando da Câmara dos Deputados. Essa estratégia, contudo, parece destinada ao malogro por estar na contramão do esforço nacional para o fortalecimento das instituições. Afinal, é justamente no contexto do saneamento moral e político da República que se encaixa a Operação Lava Jato, agora também no âmbito da Suprema Corte, responsável pela apuração dos fatos em que estão envolvidos políticos que têm direito a foro privilegiado.

A Operação Politeia, primeiro passo das investigações sob o controle do STF, é uma demonstração clara de que o Executivo, como tem argumentado o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, não tem como intervir diretamente no desenvolvimento das apurações: os 53 mandados cumpridos pela Polícia Federal que resultaram, por exemplo, na apreensão da coleção de carros de luxo do senador Fernando Collor foram assinados por três ministros da Suprema Corte.

Tudo indica, portanto, que Eduardo Cunha terá de se conformar com o curso da Lava Jato e com seu desfecho. É assim que a coisa funciona quando as instituições democráticas são mais fortes do que os arreganhos autoritários de maus políticos.

Instituições estão acima de Lula e Cunha ou quem for – Editorial / O Globo

Ainda faltam duas semanas para agosto, mês temido pelos políticos supersticiosos, e a crise entre Congresso e Executivo ganha volume e densidade. Começou na madrugada de terça, quando policiais federais, com mandados de busca e apreensão assinados por ministros do Supremo, vasculharam residências e escritórios de, entre outros, três senadores e um deputado - senador e ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTB-AL); Ciro Nogueira (PP-PI); senador e ex-ministro Fernando Bezerra (PSB-PE) e o deputado Eduardo Fonte (PP-PE).

A operação decorria de informações que vêm sendo colhidas a partir da Lava-Jato. A ação foi bastante criticada também pelo presidente do Senado e do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), já mencionado em delações como beneficiário do petrolão.

Outro citado, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ganharia destaque a partir da tarde de quinta, ao entrar no ar no site do GLOBO vídeo do depoimento à força-tarefa da Lava-Jato do consultor Júlio Camargo, intermediário de propinas, uma delas, segundo disse, para Cunha. Seriam US$ 5 milhões, cobrados pelo deputado para deixar em paz as empresas Samsung e Mitsui, fornecedoras da Petrobras. Elas estavam sendo acossadas por requerimentos de informações aprovados na Comissão de Fiscalização Financeira da Câmara por deputados do grupo do presidente da Casa.

Mais agressivo que Renan, Cunha declarou guerra: rompeu formalmente com o governo e acusou o Planalto e o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de tramarem contra ele, bem como o juiz Sérgio Moro. Ora, é difícil imaginar essa aliança. Se existisse, por que o Planalto não livrou da prisão o tesoureiro do PT, João Vaccari, e outros próximos ao partido?

O PMDB teve o cuidado de, em nota oficial, qualificar de "posição pessoal" a atitude de Cunha. Que começou a retaliação: aprovou a formação de duas CPIs indigestas para o Planalto, sobre o BNDES e fundos de pensão de estatais. O mesmo fizera Renan no Senado, no dia anterior.

Por coincidência, soube-se, também na quinta-feira, que o ex-presidente Lula passou a ser investigado pelo MP do Distrito Federal, sob suspeita de que teria praticado tráfico de influência para ajudar a Odebrecht em obras no exterior, inclusive facilitando a obtenção de empréstimos no BNDES. Lula tem, agora, oportunidade de provar que não atuou como lobista. Pelo menos influência na máquina pública, mesmo depois de sair do Planalto, ele manteve. Afinal, o PT executou com competência a subordinação do aparato do Estado aos interesses do partido, e, vê-se agora, com a Lava-Jato, a desejos pessoais de líderes estrelados.

Embora esta não esteja sendo uma semana qualquer na política, tudo transcorre dentro dos marcos institucionais. Lula e Eduardo Cunha, quem for, não estão livres de ser investigados, denunciados e punidos, como estabelece a legislação, sempre com amplas garantias de defesa.

Rosiska Darcy de Oliveira - A nudez crua da verdade

- O Globo

• A sociedade brasileira sairá mais sólida desse purgatório em que desconstrói os seus mitos e enfrenta o cara a cara consigo mesma

Desalento e desesperança estão no ar. Ambos são tóxicos e maus conselheiros. Conduzem à paralisia ou ao cinismo do salve-se quem puder.

Sem minimizar o peso que a corrupção da política e os desastres da economia têm no cotidiano de cada um é bom lembrar que, por maiores que sejam os desgostos que provocam, o Brasil não se esgota na Praça do Três Poderes. A vida é feita de luzes e sombras e se só enxergarmos as sombras estaremos pecando por omissão. Há uma leitura possível dos fatos que é produtora de sentido e renovadora de esperança.

Saint Exupéry conhecia o poder constituinte da esperança. "Quem quiser construir um barco, não comece por juntar as madeiras, cortar as tábuas e distribuir o trabalho, e sim por despertar nos homens o desejo do mar aberto e infinito".

É esse desejo de um novo horizonte, a dimensão da esperança, que já não conseguimos experimentar. Colados à temporalidade vertiginosa da notícia, a vista vai ficando míope. Sabemos tudo e imediatamente sobre a cotação das bolsas e os escândalos do dia. Telas divididas em quatro informam sobre quatro continentes, mil amigos na internet filmam o que acontece em cada esquina. A enxurrada de informações transborda da capacidade de processamento e nos deixa órfãos de sentido.

Essa subversão contínua do imediato por outro imediato, essa aceleração patológica não dá chance ao pensamento de amadurecer. Vão ficando à margem questões essenciais. Em que tipo de sociedade queremos viver? É possível escapar à violência de todos contra todos? Que novos atores estão influindo no destino do país? Questões que pedem maturação quando os velhos arcabouços ideológicos estão caindo de podres.

O cenário político é degradante, com dois ex-presidentes da República e os presidentes da Câmara e do Senado sob investigação da Justiça. Em compensação temos um Poder Judiciário que funciona. A coragem de juízes e procuradores que conduzem a operação Lava-Jato redime o país das bandalheiras que a operação vai revelando. O país que eles desvelaram não teria existido se o Judiciário tivesse sempre atuado como está atuando agora. Daqui para frente será bem mais difícil debochar da lei e transformar o Congresso em esconderijo.

Os brasileiros em sua esmagadora maioria ganham suas vidas com trabalho honesto e mal visualizam as cifras delirantes envolvidas na roubalheira de que ouvem falar. A indignação dessa população cresce a cada dia, alheia às querelas intramuros de partidos decadentes. É dela e, sobretudo, da juventude, que não se reconhece no Brasil que estertora, corrupto e carcomido, que virá a invenção de contextos originais de participação e a renovação de lideranças para governar o pais.

A execração pública de políticos que sempre foram de moralidade duvidosa, até aqui blindados em suas imunidades, o desmascaramento dos falsos heróis populares que, enfim, começa a romper a blindagem até mesmo dos que se julgavam invulneráveis, é uma purga necessária. Razão de otimismo.

Se dos porões do obscurantismo ressurgem atitudes e ideias que imaginávamos superadas e que se traduzem em tentativas de, via Congresso Nacional, balizar a sociedade brasileira com dogmas religiosos, esse açodamento tem a natureza aterrorizada de um exorcismo. O pavor de ver triunfar a ética libertária na maneira de viver e fazer escolhas morais.

Esse reacionarismo - e aqui essa palavra tão ultrapassada se justifica - é o reconhecimento por falsos moralistas de que a sociedade mudou. Improvisam-se, então, às pressas, projetos de lei estapafúrdios para tentar deter o curso do mundo contemporâneo. O destino desses projetos de lei que, na contramão da experiência vivida pela maioria da população, visam a cortejar o eleitorado mais conservador é virar letra morta. Mais uma razão de otimismo.

Se tanta violência eclode entre nós, sobretudo na internet onde as facadas virtuais são impunes, é porque este continente selvagem tem muito do mundo inconsciente. Sem lei, sem tabu, sem superego, o comportamento dessa população incorpórea assusta. Não somos as doces criaturas que pensávamos ser. A evidência de nossa violência envergonha e está sendo reconhecida e condenada. Instrumentos de vigilância e de regulação já tentam civilizar o continente selvagem.

A sociedade brasileira sairá mais sólida desse purgatório em que desconstrói os seus mitos e enfrenta o cara a cara consigo mesma.

Não há razão para desalento. O Brasil está vivendo um dos momentos mais fascinantes de sua história. O fim da impostura, a hora da nudez crua da verdade.
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Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

Maria Cristina Fernandes - O cronômetro de um presidente

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

• Em “O impeachment de Fernando Collor”, o sociólogo Brasilio Sallum Jr. Faz a anatomia do momento que levou a derrubada do primeiro presidente eleito pelo voto direto em 30 anos

São Paulo - O que derruba um presidente - corrupção, voluntarismo, crise econômica, perda de sustentação política ou erosão do apoio social? "O Impeachment de Fernando Collor - Sociologia de Uma Crise" (Editora 34, 2015, 421 pags.) tem uma tese, a de que as relações entre o Executivo e o Legislativo se trincaram num momento de superação do que Brasilio Sallum Jr. chamou de Estado varguista. Mas o autor vai além do subtítulo. Numa minuciosa reconstituição dos fatos, o chefe do Departamento de Sociologia da USP conduz o leitor à conclusão resumida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na orelha do livro: os dias de Collor só entraram em contagem regressiva no momento em que os partidos perceberam o que ganhariam com sua derrubada.

Sallum oferece evidências tanto a quem busca semelhanças com a crise que hoje cerca a presidente Dilma Rousseff quanto a quem se ocupa em distingui-la da de Collor. O livro, no entanto, não se presta a compará-las. É a anatomia, sem a dramaticidade de relatos jornalísticos, dos acontecimentos que levaram à queda do primeiro presidente eleito pelo voto direto em 30 anos. "Sallum ressalta algo que pode parecer banal, mas é essencial na vida política: o momento", diz FHC, protagonista daquele de 23 anos atrás e do atual.

A eleição de Collor se propunha a ser o marco divisório daquela que o autor chama de "crise de hegemonia" da transição: o impulso da democratização política trazido pela Constituinte de 1988 que cede à liberalização econômica.

A economia brasileira vivia um momento muito mais dramático que o de hoje. Collor tomou posse em março de 1990 sob inflação mensal de 82%. Para estabilizar a moeda, nomeou a economista da equipe de Dilson Funaro, Zélia Cardoso de Mello, mas declarava a quem quisesse ouvir que a Fazenda era ele.

O Plano Collor foi o primeiro carimbo do seu voluntarismo. Desde a posse, anunciara que não estava disposto a conter a inflação, mas a "liquidá-la". O núcleo do plano, o confisco de 80% dos ativos financeiros, foi acrescido de um ajuste fiscal que elevou tarifas, cortou subsídios, demitiu funcionários, extinguiu órgãos públicos e deu início a privatizações. O calhamaço das medidas provisórias foi entregue ao Congresso depois de cinematográfica caminhada do presidente e seus 12 ministros pela praça dos Três Poderes.

O cesarismo foi aceito pela maioria. Seis em cada dez brasileiros aprovaram as medidas. O plano teve a chancela do Supremo, contra o voto do relator da ação de inconstitucionalidade, Paulo Brossard: "A apropriação indébita de bens é furto".

O apoio não duraria. Ainda que desidratado ao longo de sua tramitação no Congresso, o plano levaria o país a perder 4% de sua riqueza no primeiro ano do governo Collor.

A primeira derrota veio do bloco sindical. Começava ali o precoce desmonte da única barricada de Collor no movimento social, o sindicalismo de resultados. A erosão desse apoio deixaria lições ao líder petista Luiz Inácio Lula da Silva, que, 15 anos depois, recorreria aos seus exércitos sindicais contra o mensalão. O temor do contágio sindical também inspiraria sua queda de braço, nos bastidores do governo Dilma, pela adoção das medidas de proteção ao emprego.

A resistência se espraiaria por um conjunto de entidades reunidas pelo Movimento pela Ética na Política. A adesão das igrejas foi capitaneada pelos bispos católicos, num ativismo muito distante da cruzada moral que hoje une o pentecostalismo sob o beneplácito de Eduardo Cunha. À época, o atual presidente da Câmara, havia sido recompensado com a Telerj pelo trabalho de montagem do PRN.

O fracasso das primeiras medidas levaria à decretação do Plano Collor II em 1991, mas, a essa altura, o presidencialismo plebiscitário já tinha perdido parte de seu apelo. Um Congresso renovado, além de 27 governadores, havia tomado posse reivindicando uma fatia da legitimidade que parecia exclusiva do presidente. O descasamento dos mandatos teria fim a partir das eleições seguintes, mas ameaça voltar na reforma ora em curso no Congresso.

Para reconquistar a confiança do empresariado o presidente substituiu Zélia pelo embaixador nos EUA e ex-diretor do Unibanco Marcílio Marques Moreira. O novo ministro exigiria novos esforços fiscais para recompor relações com credores internacionais, aumentando as tensões federativas. Mas, a despeito de Collor depender de sua âncora mais do que Dilma depende do ministro Joaquim Levy, Marques Moreira não seria capaz de blindar Collor junto ao PIB até o fim.

Três meses antes do impeachment, Jorge Gerdau seria porta-voz de uma comitiva de empresários que hipotecaria apoio a Collor: "O senhor pode contar conosco [...] Seu programa de modernização tem todo nosso apoio". No apagar das luzes, a agenda liberalizante do governo ainda seria capaz de aprovar a regulamentação da concessão de serviços públicos.

O avanço do cerco sobre o presidente, no entanto, lhe tiraria o colchão empresarial. Ao transmitir seu cargo na Fiesp, Mario Amato divulgaria nota que pedia "absoluta necessidade de exemplar punição dos responsáveis e o restabelecimento da moralidade da administração pública". Àquela altura, sob o impulso da corrupção, a rua já estava contaminada pelo impeachment.

Sucessivas denúncias iniciadas pela entrevista do seu irmão, Pedro Collor, chegariam ao ápice com o testemunho do motorista Eriberto França e exporiam a condição do tesoureiro da campanha presidencial, Paulo César Farias, como operador dos negócios do presidente da República.

A exposição pessoal de Collor chegou ao limite com a descoberta de que retirara recursos de suas contas bancárias às vésperas do confisco, uma corrosão moral da qual a presidente hoje parece blindada. "O que elas [as denúncias] punham em questão já não era o desempenho de Fernando Collor de Mello na Presidência; era se ele dispunha, ou não, dos requisitos morais implícitos naquela investidura", escreveu Sallum.

Acuado, Collor redobrou as demonstrações de vigor físico. Também passeava de bicicleta, mas preferia as corridas matinais. O derradeiro canal foi a agressividade. O ódio que hoje se volta contra o PT e Dilma, era, em 1992, a estampa do presidente.

A mesma imprensa que ajudara a projetar o salvador da pátria passou a fazer campanha por sua saída, em editoriais com ponto de exclamação e na divulgação dos horários e locais de atos pró-impeachment. Humoristas como Jô Soares, que hoje são acusados de defender Dilma, transformaram seus programas de televisão em palco para a devastadora crônica de um governo que se desmanchava.

Com o circo armado na rua, os partidos de esquerda, capitaneados pelo PT, viram crescer as adesões à coalizão que viabilizou, institucionalmente, o desfecho daquela crise. A Comissão Parlamentar de Inquérito, montada para acuar o presidente, transformou-se no purgatório do impeachment. As lideranças dos principais partidos, em entendimentos com o vice, Itamar Franco, o Judiciário e os militares, começaram a dirimir as incertezas geradas por aquele momento, montando as bases do que seria a coalizão do novo governo.

Com o impeachment, o PT, liderado no Congresso pelo então deputado José Dirceu, por um lado, deixaria clara a opção do partido pelas saídas institucionais, isolando as alas mais radicais, e, por outro, vetaria a participação de seus integrantes no futuro governo para se manter como galvanizador da oposição.

O PMDB mantinha suas divisões. O partido tinha mais prefeitos e parlamentares que hoje, mas não ocupava os três cargos na linha sucessória da República. O senador Orestes Quércia foi entusiasta de primeira hora do impeachment, levando até mesmo o governador Luiz Antônio Fleury Filho a oferecer almoço a manifestantes no Palácio dos Bandeirantes. Com sua candidatura à Presidência já na praça, conseguiu evitar que o partido aderisse oficialmente ao governo Itamar.

Quem ocupou esse espaço foi o PSDB, partido ainda incipiente, com um único governador (Ciro Gomes), que viu na coalizão formada em torno de Itamar a chance de reforçar seu capital político. Graças a essa adesão, costurada nos bastidores do impeachment, os tucanos capitaneariam o plano de estabilização que, dois anos depois, lhe daria as chaves do Palácio do Planalto.

Adriana Calcanhotto - E o mundo nao se acabou

Joaquim Cardozo - Menina

Os teus olhos de água,
Olhos frios e longos,
Esta noite penetraram.
Esta noite me envolveram.

Bem querida madrugada...

Olhos de sombra, olhos de tarde
Trazem miragens de meninas...
Bundas que parecem rosas.

Sob o caminho de muitas luas
O teu corpo floresceu.