- O Globo
No final de meu artigo de domingo passado, falando da segurança pública no Rio de Janeiro, citei o pensamento de um secretário estadual recente que dizia o seguinte: “As UPPs foram uma tentativa ousada demais (...) e talvez estejamos pagando um preço caro por essa tentativa de levar a paz a todas as áreas, inclusive as mais carentes”. Quer dizer que não merecemos nada que seja superior à nossa carência, à nossa insignificância como povo e nação. A paz com que sonhamos não é para o nosso bico. Era isso o que o secretário queria nos dizer?
Pois Marielle Franco morreu porque acreditava naquele sonho e lutava por ele. Morreu nas muito prováveis mãos de carrascos bem pagos, que nos queriam oferecer seu assassinato como lição, uma luz saindo de dentro de um cano de pistola para o escuro de sua irresistível rebeldia. Uma luz em direção à paz para todos, a paz que Marielle deve ter sempre desejado conquistar.
Não conheci Marielle pessoalmente, votei nela para vereadora por sugestão de minha filha Flora, que me explicou quem era. Mulher, negra, favelada, homossexual, culta, politicamente ligada às minorias que sabem pelo que batalhar em benefício da maioria. Não é necessário tê-la conhecido pessoalmente para perceber que Marielle era uma nova líder de novas ideias, produzidas por uma seção do povo brasileiro, que quase nunca se manifesta organizadamente em relação a seu próprio futuro. Que mal construíra a utopia desse futuro a que sempre teve direito e pelo qual precisava lutar.
Vou ajudar a Polícia Civil, encarregada de descobrir o assassino de nossa heroína, a encontrar o bandido que matou Marielle. Podemos começar por Dom João VI, que criou nossa primeira polícia, assim que chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, para proteger sua Corte dos brasileiros folgados e boçais, os negrinhos que sujavam suas calçadas de merda e sangue. Na lista de suspeitos, lembremos também do neto e da bisneta do príncipe português. Quando a Princesa Isabel, sob as ordens de Dom Pedro II, seu pai, promulgou, em 1888, a Lei Áurea, os latifundiários donos do país já sabiam, pelo andar da carruagem, que isso estava mesmo por acontecer e já haviam tomado as devidas providências.
























