sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Eliane Cantanhêde: ‘Histeria conservadora’

- O Estado de S.Paulo

Além de militares, quem chega ao poder com Bolsonaro são os evangélicos

Além dos militares, há um outro setor da vida nacional esfuziante e em alta nas eleições de 2018: os evangélicos das diferentes designações, que apoiam maciçamente Jair Bolsonaro, agora a um passo de assumir a Presidência da República.

Militares e evangélicos, aliás, andam muito juntos: “quase 100% dos evangélicos apoiaram a ditadura militar”, segundo o pastor e ministro Ronaldo Fonseca, secretário-geral da Presidência de Temer. No primeiro turno, Fonseca diz que votou em Henrique Meirelles, do MDB. No segundo, vai de Bolsonaro.

Os principais líderes da Assembleia de Deus, da qual o ministro Fonseca é pastor, eram generais, coronéis, tenentes, desde os anos 1960, as igrejas evangélicas têm uma hierarquia que praticamente copia a militar e ambos, militares e evangélicos, têm posições muito próximas em questões de comportamento, no apoio a Israel e, em geral, no horror à esquerda. Neste momento, muito particularmente ao PT.

Como contraponto: o ex-presidente Lula fez até reunião entre países árabes e do Mercosul no Itamaraty, em Brasília, e foi mais de uma vez à região, mas só fez uma visita oficial a Israel no seu último ano de governo. E Dilma Rousseff foi mais longe, ao rejeitar um embaixador indicado por Israel.

Merval Pereira: A hora das consequências

- O Globo

O PT que quer anular a eleição devido a abuso de poder econômico é o mesmo que foi acusado de crime semelhante na eleição de 2014

A manutenção da distância entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, confirmada pelo Datafolha, leva à conclusão de que, com mais uma semana passada sem que o candidato do PT conseguisse se aproximar do adversário, a vitória deste parece inexorável. A diferença continua sendo de cerca de 18 milhões de votos, e o tempo está se reduzindo, apenas dez dias separam a pesquisa mais recente das urnas.

Bolsonaro, temerário, já anunciou que está com uma mão na faixa presidencial, e no seu entorno já se discutem nomes para um futuro ministério. Mas o clima de já ganhou ontem passou a assustar os próprios assessores, que decidiram adotar um tom mais cauteloso, inclusive o próprio Bolsonaro.

Já começa a se solidificar a sensação de que somente uma “bala de prata”, um fato chocante contra Bolsonaro, seria capaz de alterar o resultado. A proximidade da derrota fez com que o PT ontem tentasse armar um escândalo com a suposta guerra de WhatsApp que seu adversário estaria comandando na clandestinidade.

Há muito pouco, porém, na reportagem de denúncia da “Folha de S. Paulo” para basear o pedido, feito ontem ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de anulação da eleição e convocação do terceiro colocado, no caso Ciro Gomes, para a disputa do segundo turno. O PDT também resolveu entrar na disputa, já que seria beneficiado.

Bernardo Mello Franco: A indústria da mentira deu um baile no TSE

- O Globo

A campanha de Fernando Haddad entrou com ação no TSE pedindo a inelegibilidade de Bolsonaro caso investigação do órgão comprove abuso de poder econômico pelo adversário.

Reportagem da “Folha de S. Paulo” informou que empresas custearam divulgação de mensagens pelo WhatsApp contra o PT, o que é proibido. Em abril, o ministro Luiz Fux disse que as candidaturas que espalhassem notícias falsas seriam anuladas pela Justiça Eleitoral. Apesar da ameaça, a boataria correu solta, desequilibrou o jogo e ajudou a decidir votos. A promessa do ministro se tornou um exemplo involuntário de fake news.

O TSE fracassou na tentativa de coibir a indústria da mentira nas redes. A constatação é de dois outros ministros que falaram em caráter reservado com a coluna. Eles admitem que a comissão que fiscalizaria a campanha virtual se revelou inútil. Fux saiu de cena em agosto, quando seu mandato na Corte terminou.

Bruno Boghossian: Autoridades analógicas

- Folha de S. Paulo


Financiamento ilegal no WhatsApp mostra despreparo de juízes e procuradores

Candidatos que apostaram todas as fichas na propaganda de TV ficaram pelo caminho este ano. Celulares e redes sociais atropelaram quem confiou só nas estratégias tradicionais para conquistar votos. As autoridades eleitorais também precisarão reconhecer seu fracasso.

Enquanto promotores e juízes se ocupavam em julgar direitos de resposta no rádio e verificar se santinhos tinham o CNPJ certo, a disputa digital corria no estilo faroeste.

Nesta quinta (18), a repórter Patrícia Campos Mello revelou que empresas alinhadas a Jair Bolsonaro pagaram para enviar milhões de mensagens pelo WhatsApp contra o PT. A prática é proibida e pode configurar financiamento ilegal de campanha.

O candidato do PSL só disse que não tem controle sobre aqueles que o apoiam. Uma advogada do partido afirmou que são “atos isolados”, sem autorização da sigla. O caso foi levado à Justiça Eleitoral por PT e PDT.

Fernando Bizzarro: Quem vai, então, parar Bolsonaro?

- Folha de S. Paulo

Apoiadores de Bolsonaro não são democratas liberais e não vão proteger coisa alguma

Cientistas políticos discordam quanto ao risco que a eleição de Bolsonaro traz para a democracia no Brasil. Para alguns, como eu, o risco é positivo. Para outros, o risco é zero. Quando cientistas discordam, as evidências são soberanas. Então vejamos.

Comecemos por: "risco de quê". Se for de quebra brusca da democracia —com um golpe que cancele as eleições, feche o Congresso e suspenda direitos—, o risco é, provavelmente, zero. Tanto a experiência internacional quanto a história brasileira mostram isso.

Primeiro, em democracias que sobreviveram por 21 anos ou mais, a probabilidade de golpe é efetivamente zero. Além disso, golpes caíram em desuso, sendo cada vez mais raros. Por último, a história mostra que mesmo em condições domésticas e internacionais mais favoráveis ao autoritarismo —como em 1964— o fechamento completo do sistema político brasileiro foi difícil.

Fernando Canzian: Discurso retrógrado pode ganhar sustentação com economia

- Folha de S. Paulo

Setor privado brasileiro há tempos vem se preparando para retomada mais forte

Apesar do gigantesco rombo nas contas públicas, o novo governo assumirá em 2019 com condições macroeconômicas mais favoráveis do que Michel Temer há dois anos.

Em 2016, a inflação alcançou dois dígitos, o PIB despencava -3,5% e a contabilidade pública estava em ruínas.

Neste ano, o Brasil pode crescer pouco, cerca de 1,5%. Mas não há tarifas públicas represadas e as empresas têm enorme capacidade ociosa para produzir mais sem pressionar a inflação caso a economia reaja. E ela parece pronta para isso.

A chave em 2019 será encarar a reforma da Previdência como questão de vida ou morte. Se ela passar, não será difícil o Brasil decolar razoavelmente e ganhar tempo para outras mudanças estruturais.

José de Souza Martins: E os pobres?!

- Eu & Fim de Semana | Valor Econômico

À vista do que dizem candidatos e sábios das duas candidaturas residuais à Presidência da República, que se enfrentarão no próximo dia 28 de outubro, os pobres do Brasil estão fritos. De um lado, os que acham que a quirera do Bolsa Família resolveu o grave problema da pobreza. Além de ter resolvido o problema eleitoral dos que carecem de muitos votos em troca de poucas e ilusórias soluções para os problemas sociais. Dez merréis de acréscimo a ganhos indigentes são suficientes para a ascensão social puramente estatística de parte da população. Mas não aquela que a integre decentemente e democraticamente na sociedade de mercado e menos ainda na sociedade de consumo.

De outro lado, estão os sábios desenraizados do economismo superficial, pseudocientífico, que tem fórmulas mágicas para tudo, na educação, na ciência, na economia propriamente dita, desde que lucrativas. É evidente, pois, que os que "dão" prejuízo ou não dão lucro estão fora das cogitações políticas da nova ordem baseada no racional da iniquidade e na exclusão social e cultural.

É curioso isso. Historicamente, a sociedade brasileira reafirma o seu caráter estamental, volta sempre às desigualdades do passado, douradas por discursos ufanistas e enganadores. Procura restaurar sempre a inferioridade social do nascimento dos pobres que herdamos da dominação colonial.

Maria Cristina Fernandes: O silêncio empresarial e o futuro da democracia

- Eu & Fim de Semana | Valor Econômico

Na semana anterior ao primeiro turno, um marqueteiro entrou numa sala no Itaim, zona sul de São Paulo, para ouvir uma proposta de trabalho. Lá estavam os donos de uma grande distribuidora, de um hotel e de uma empresa de aluguel de equipamentos. Nenhum deles a mando do presidenciável do PSL. Mas se uniram para patrocinar uma campanha na internet com o objetivo de eleger seu candidato. Dinheiro não seria o problema. Problema é o PT voltar ao poder.

Quarenta anos atrás, um grupo de empresários também decidiu ter voz mais ativa na política. Caminharam, no entanto, na direção oposta. Foram signatários do Documento dos Oito, que ajudou a derrubar a ditadura. Nesse desencontro cabe uma parte da história de um país que deu a cara a bater contra o autoritarismo e hoje não teme seu retorno.

Aos 36 anos, Roberto Muller era um dos responsáveis pela fama adquirida pela "Gazeta Mercantil" de jornal para empresários feito por comunistas. Neto de anarquista húngaro emigrado para Ribeirão Preto no fim do século XIX, Muller estudou química e integrou a cédula do PCB na Cosipa. Chegou a ser preso no navio Raul Soares, porão da ditadura atracado no porto de Santos. Ingressou no jornalismo junto com o golpe de 1964, pelas mãos de Claudio Abramo, na "Folha", ainda fichado num Inquérito Policial Militar.

Michael Reid: O risco de uma democracia iliberal no Brasil

Eu & Fim de Semana | Valor Econômico

"As coisas vão abaixo; o centro cede", escreveu William Butler Yeats, o grande poeta irlandês, em "A Segunda Vinda". Yeats capturou a sensação de desarticulação sociopolítica na Europa após a Primeira Guerra, que levaria, depois da crise financeira de 1929 e a depressão que se seguiu, à ascensão de Hitler. Mas suas linhas se aplicam às políticas de muitas democracias ocidentais no momento e especialmente ao Brasil, onde o colapso do amplo centro político foi assustadoramente repentino.

Há dois anos, as eleições municipais realizadas pouco depois do impeachment de Dilma Rousseff pareciam passar uma mensagem clara. De um lado, os eleitores bateram no PT: o partido elegeu apenas 254 prefeitos de um total de mais de 5,5 mil. De outro, o PSDB conquistou 803 prefeituras, em comparação às anteriores 701, enquanto seu provável aliado, o MDB, conseguiu 1.038. No modelo que a política brasileira vem seguindo desde 1994, esse resultado apontava para uma vitória fácil do PSDB nas eleições presidenciais deste ano e o declínio do PT.

Mas o modelo foi destruído. Os brasileiros enfrentam uma escolha não invejável entre dois extremos. A moderação que caracterizou a política brasileira na maior parte do atual período democrático se foi. De um lado, Jair Bolsonaro, com sua nostalgia da ditadura de 1964-1985 e seu entusiasmo por Augusto Pinochet, personifica o surgimento de uma direita radical e retoricamente não democrática, com um grau sem precedentes de apoio público.

Celso Rocha de Barros: O que é isso, companheiro?!

- Época

A autocrítica que o PT não fez

A República brasileira hoje enfrenta o maior inimigo que já teve: Jair Bolsonaro. O candidato do PSL não representa só a herança da ditadura militar: representa o porão, a facção que se opunha à abertura de Geisel — que, a propósito, chamou Bolsonaro de “mau militar”. Os cinco generais que Bolsonaro pretende colocar no ministério não estarão lá para administrar suas pastas, mas para manter a ameaça de golpe permanente. Chegamos a um ponto em que Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita francesa, declarou que as coisas que Bolsonaro diz seriam inaceitáveis na França. E a questão é esta: somos uma sociedade como a França, em que mesmo a extrema-direita recusaria Bolsonaro? Ou somos um daqueles negócios exóticos e atrasados para quem o mundo olha e pensa “Eles são assim mesmo, não tem jeito”?

Só Fernando Haddad e o Partido dos Trabalhadores podem defender a República brasileira da ameaça Bolsonaro.

Não, não é a situação ideal.

Monica de Bolle: O que é um populista?

- Época

Com a arma da mensagem direta e pessoal, simples e confeccionada para provocar uma reação emocional — de raiva, de indignação, de revolta —, o populista não precisa de plano de governo detalhado.

O que é um populista? Se há uma região no mundo em que ondas populistas deixaram marcas profundas na política e na economia, essa região é a América Latina. Por conseguinte, deveríamos ser capazes de enxergar políticos com essas tendências à distância e deles ficarmos, no mínimo, desconfiados. Afinal, sabemos como acabam os arroubos populistas: com economias desarranjadas pelas necessidades do líder “do povo” de atender aos anseios da população, ao mesmo tempo que alimenta sua própria necessidade de ser visto como um messias, um grande salvador, o pai dos pobres, o defensor dos bons costumes, o caçador de marajás, o perseguidor de bandidos ou qualquer outro rótulo de ocasião. Como bem documentaram os economistas Rudiger Dornbusch e Sebastian Edwards em seu magistral The macroeconomics of populism in Latin America, publicado em 1991, não há qualquer caso de populismo que tenha tido final feliz na região.

Por que, então, temos tido tanta dificuldade em enxergar na candidatura de Bolsonaro traços inequivocamente populistas, que deveriam nos deixar cabreiros, mas em vez disso causam euforia, sobretudo entre aqueles que tão bem conhecem o legado? Deixo aqui uma tese: o populismo na América Latina e no Brasil sempre foi caracterizado pelo discurso redistributivo. De Getulio Vargas a João Goulart, o foco nas desigualdades e nos excluídos da vida econômica e política do país norteou os discursos e as políticas adotadas. Em termos de comparação histórica com o momento atual, Jânio Quadros, o presidente-cometa, é parâmetro interessante.

Dora Kramer: Muro de contenção

- Revista Veja

Seja qual for o inquilino do Planalto, à sociedade cabe o poder moderador

A fim de lidar com a vida como ela é, tratemos logo de início de deixar de lado o artifício do falso equilíbrio factual e vamos ao fato: a eleição está decidida. Não apenas porque as pesquisas indicam uma dianteira consolidada e crescente de Jair Bolsonaro ante o aumento da rejeição a Fernando Haddad, mas principalmente porque os petistas já fizeram tudo o que podiam (não necessariamente o que deveriam) sem obter efeito algum, e o candidato do PSL não precisa fazer mais nada para alcançar o resultado pretendido.

À extensa lista de infrações legais e morais cometidas ao longo de três governos e meio, nesta campanha já em via de chegada o PT acrescentou erros crassos equivocadamente tratados no noticiário como “estratégias”. Da insistência na candidatura impossível de Luiz Inácio da Silva ao dístico “Lula livre”, indo pela retomada programática do passado e culminando com a conversão súbita ao dito pelo não dito no segundo turno, o partido só fez reforçar as razões do modelo rejeitado pelo eleitorado que Bolsonaro soube cooptar, jogando com a manipulação de emoções negativas.

Mas tudo isso caminha para um terreno de águas passadas que ao PT caberá revolver ou insistir em nelas navegar. Daqui a praticamente uma semana, o país estará diante de nova realidade à qual vai precisar se adaptar. E nesse barco estamos todos nós: os de oposição e os de situação. Aos vencedores, aí incluídos os governantes e seus eleitores adeptos do lema “É melhor já ir se acostumando”, conviria que também fossem se acostumando com um cenário que provavelmente não seja aquele contido nas respectivas imaginações e projeções exacerbadas.

Luiz Carlos Azedo: A deslegitimação do voto

- Correio Braziliense

“Pesquisa Datafolha sobre as eleições presidenciais mostrou que Bolsonaro tem 59% de intenções de votos válidos, um ponto percentual a mais do que na anterior, e Haddad, 41%, um ponto a menos”

A 10 dias das eleições, o PT pediu a cassação do registro da candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) e sua inelegibilidade por oito anos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo sob o suposto impulsionamento de mensagens pelo WhatSapp contra o petista Fernando Haddad, financiado por empresas privadas, às vésperas do primeiro turno, motivou o pedido. O objetivo é afastar Bolsonaro da eleição e substituí-lo pelo terceiro colocado, Ciro Gomes (PDT), para disputar o segundo turno contra o petista.

Segundo a denúncia, as empresas teriam comprado um serviço chamado “disparo em massa”, usando a base de usuários do candidato do PSL ou bases vendidas por agências de estratégia digital. Como a legislação eleitoral proíbe o financiamento de empresas privadas, o candidato poderia ter o registro eleitoral cassado por abuso de poder econômico e/ou uso de caixa dois. A campanha de Haddad também pediu a quebra dos sigilos bancário, telefônico e telemático de Bolsonaro, que teria recorrido a meios ilegais para disseminar fake news contra Haddad.

A presidente do PT, Gleisi Hoffman, comemorou: “Ontem, da Tribuna do Senado, antecipei denúncia sobre o submundo do WhatsApp. A campanha de #Haddad13 pediu investigação sobre o assunto junto à PF. Hoje, pediremos providências urgentes junto ao TSE; é operação clara de caixa dois, ilegal!”, publicou no Twitter. Militantes petistas consideram a denúncia um “fato novo” capaz de mudar os rumos da campanha de Haddad.

Rogério Furquim Werneck: Choques de realidade

- O Globo

O candidato Jair Bolsonaro desfaz rumores de que passara a ser adepto do liberalismo econômico

A dez dias do segundo turno, o desfecho da eleição presidencial parece cada vez mais nítido. Grosso modo, as pesquisas eleitorais mostram que Fernando Haddad tem quase o dobro dos votos válidos de seu adversário no Nordeste, e cerca de metade dos votos de Jair Bolsonaro nas demais regiões. O que o deixa com cerca de 70% dos votos válidos de Bolsonaro no país como um todo. É improvável que, a menos de erros muito graves do candidato do PSL, diferença tão grande possa vir a ser eliminada até o dia 28.

Na campanha do primeiro turno, o PT fez o que pôde para poupar o capitão. Concentrou seus ataques nos candidatos de centro. E deixou mais do que claro que preferia ter Bolsonaro como adversário no segundo turno. Acalentava a ideia de que as forças políticas de centro não teriam alternativa a não ser lhe dar apoio no embate que seria travado contra a extrema direita.

Míriam Leitão: Óleo: otimismo e baixo carbono

- O Globo

Empresas de petróleo farão a mudança para baixa emissão de gases de efeito estufa, mesmo se o governo provocar retrocesso ambiental no país

O petróleo será um aliado das receitas públicas no ano que vem se forem mantidos os leilões e o país conseguir realizar a concessão das áreas excedentes do pré-sal que foram descobertas pela Petrobras. Vai depender do caminho que o novo governo escolher. O setor quer ser também um aliado do combate às mudanças climáticas. As empresas já trabalham com o horizonte de que terão que emitir menos gases de efeito estufa porque essa foi a escolha do mundo no Acordo de Paris.

A empresa noruguesa Equinor, antiga Statoil, tem planos de investir no Brasil US$ 15 bilhões até 2030, e a vice-presidente Verônica Coelho me explicou, numa entrevista na Globonews, a razão dessa aposta.

— A Equinor está com 22 licenças no Brasil e participação em campos importantes, como Roncador, e já temos uma produção de 100 mil barris/dia. O Brasil está numa posição superfavorável, dado o potencial que temos na costa. Isso sem falar na parte rasa, ou onshore, que a gente nem conhece ainda. Então o potencial que se tem, principalmente na área de águas profundas é tão grande que viabiliza a produção a preços competitivos. O momento é ótimo para o Brasil. É importante capturar essa oportunidade e esse valor potencial — disse a executiva.

A consultora Clarissa Lins, da Catavento e do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), diz que a indústria como um todo vê esse momento também com otimismo.

Celso Ming: Como quebrar o oligopólio dos bancos?

- O Estado de S.Paulo

A questão é difícil e necessária, mas o programa do PT faz proposta problemática de reforma bancária e o de Bolsonaro nem cita o assunto

A oferta de crédito bancário está fortemente oligopolizada. Apenas cinco bancos (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Itaú-Unibanco, Bradesco e Santander) detêm mais de 80% das operações de crédito bancário, como demonstram os dados do Banco Central. (Veja tabela.)

Com base nesse fato, o candidato do PT, Fernando Haddad, já se comprometeu a liderar uma “reforma bancária”. Como já foi comentado nesta Coluna há alguns dias, uma das ideias é usar os bancos estatais para baixar compulsoriamente os juros e arrastar os outros grandes na mesma direção. O programa do PT diz que “será estimulado o aumento da concorrência” e que “o Brasil precisa superar a estrutura oligopolista que controla o sistema financeiro e bancário privado”. Quando acrescentam esse adjetivo “privado”, deixam Banco do Brasil e Caixa de fora desse esforço, embora ambos façam parte do mesmo oligopólio. E acrescenta: “Tudo isso, para a retomada da bancarização, ampliação dos serviços bancários e difusão do crédito aos pequenos negócios e à população de baixa renda”.

No programa do candidato Jair Bolsonaro nada consta sobre o assunto. Mas as manifestações a respeito da necessidade de baixar os juros no crédito foram relativamente fartas.

Claudia Safatle: BNDES tem R$ 50 bi para infraestrutura

- Valor Econômico

Próximo governo receberá o banco com caixa de 140 bi

Depois de chegar ao fundo do poço, o BNDES está preparado para dobrar e liderar os investimentos em infraestrutura no próximo ano, assegurou o diretor de Infraestrutura e Saneamento do banco, Marcos Ferrari. O pico da atuação na infraestrutura foi em 2014, quando os desembolsos chegaram a R$ 69 bilhões. O "cavalo de pau" foi dado em 2016, com a queda para R$ 26 bilhões. Em 2017 e 2018 a cifra se estabilizou em R$ 27 bilhões.

A instituição, agora, está pronta para retomar, nos próximos três anos, a média histórica de 2% do PIB - cerca de R$ 130 bilhões - de desembolsos anuais, sendo que desses, R$ 50 bilhões podem ser destinados à expansão da infraestrutura no país a partir de 2019, disse o diretor.

Ferrari explicou que, quando fala em liderança, está se referindo não aos desembolsos de operações tradicionais, mas à estruturação de projetos e ao fomento do mercado de capitais com garantias e fianças, dentre outros recursos, que o banco está ofertando.

Tomando como ótimo o estoque de infraestrutura de 60% do PIB que o país registrava nos anos de 1980, a situação hoje beira a calamidade. O estoque é de pouco mais de 30% do PIB. Entre os anos de 1970 e 1980, o país investia o equivalente a 5,4% do PIB. Hoje o investimento na expansão de rodovias, energia, telecomunicações, saneamento, dentre outras áreas, não passa de 2% do PIB.

Para o país voltar a ter um estoque de 60% do PIB até 2035, a taxa de investimento necessária varia de 4,5% do PIB a 5,3% do PIB, dependendo do crescimento econômico médio do período, de 1% a 3%, respectivamente.

Vinicius Torres Freire: Incertezas até o Natal

- Folha de S. Paulo

Além de tumulto na eleição, economia incógnita e política difícil devem balançar resto de 2018

Para quem esperava calmaria nestes dias finais de campanha, a quinta-feira foi agitada. Mais que isso, houve outras notícias de que a transição para o próximo governo, qualquer que seja, tende a ser acidentada.

A reportagem desta Folha que trata de suspeitas de financiamento ilegal da campanha de Jair Bolsonaro (PSL) indica que não haverá modorra, com restos de confusão a pagar e apagar mesmo depois de encerrada a eleição.

Haverá mais, porém, mesmo em caso de vitória do preferido das elites econômicas, o candidato do PSL.

Haverá uma nomeação crucial, o novo comando do Banco Central. Haverá a negociação com o Congresso e a eleição do novo comando da Câmara, que já estão quentes. Terá de haver, enfim, a divulgação do que seria o programa para a economia, ainda uma incógnita para especialistas, que dirá para a massa do eleitorado. Muita gente votou na esperança vã de que promessas de fim da corrupção e de "quebrar o sistema" resolvam a crise econômica que já dura meia década.

Caso as instituições do sistema de Justiça se encarreguem de averiguar o que se passa na escuridão do WhatsApp, pode haver sequelas, no mínimo uma indisposição de um presidente com procuradores e juízes. Convém lembrar que o próximo governante nomeará ministros do Supremo e o procurador-geral da República.

Mentira que prolifera: Editorial | Folha de S. Paulo

Empresas gastam para disseminar mensagens contra o PT, revela a Folha

Dois terços dos votantes brasileiros possuem conta no WhatsApp, a rede social mais popular do país. Segundo pesquisa realizada pelo Datafolha em 2 de outubro, 44% dos entrevistados declararam ler notícias sobre política e eleições por esse meio, e 24%, compartilhá-las.

Os números bastam para constatar o peso adquirido pela rede na formação da opinião nacional —e, sem dúvida, nos rumos do pleito em curso. Ainda está por ser dimensionado, porém, o impacto do fluxo de informações enganosas, quando não inteiramente falsas, e mensagens difamatórias que chegam a todo momento aos usuários.

Antecipava-se, ademais, que a campanha deste ano constituiria um marco de importância global quanto às possibilidades de combate à disseminação de fake news. Até aqui, falhamos no teste, como qualquer frequentador de ambientes virtuais poderá observar.

Reportagem de Patrícia Campos Mello, desta Folha, mostra evidências aterradoras de como o que originalmente seria um aplicativo de conversas privadas se tornou uma arma do jogo eleitoral mais sujo.

Fracasso da frente é incentivo à autocrítica do PT: Editorial | O Globo

Partido deveria procurar saber por que não conseguiu formar um bloco em defesa da democracia

A proposta de uma “frente democrática”, lançada pelo PT para atrair apoios no enfrentamento de Bolsonaro no segundo turno, tem lógica formal. Se o adversário é considerado de extrema direita, todos que não o sejam devem se unir para enfrentá-lo. Mas não deu certo.

Antes de tudo porque o PT disseminou desde sempre fundadas desconfianças de que seja de fato um partido democrático. A começar pelo próprio funcionamento interno. Pois há nele uma transparente e sólida estrutura vertical, cujo único vértice é Lula, a quem todos devem obediência, se tiverem juízo.

A mais recente demonstração do “centralismo democrático” com que funciona o PT é a absoluta dependência do projeto Fernando Haddad a um Lula preso em Curitiba. Cordão umbilical bem explorado pela campanha do adversário de Haddad.

O comportamento do partido no poder também nunca foi democrático. A abertura ao diálogo sempre foi feita com objetivos eleitorais, na busca da hegemonia sobre a Nação. Este é o fim que também justificou os meios da grossa corrupção nos governos Lula e Dilma, de dimensões que chamaram a atenção do mundo.

Alguns esboços sobre o programa de Bolsonaro: Editorial | Valor Econômico

No mutirão de agregados e ideias que se forma em torno do candidato favorito à Presidência, Jair Bolsonaro, líder folgado nas pesquisas, começa a se delinear um programa liberal na economia, com mais iniciativa privada e bem menos regulação e controle, e um projeto social ultra-conservador. Não é certo o que resultará disso tudo porque a incógnita principal é o que pensa Jair Bolsonaro (PSL). O que passar pela moderação entre seus pendores nacionalistas e estatistas e o menu privatista de seu já nomeado ministro da Economia, Paulo Guedes, ainda terá de transpor um Congresso balcanizado, travessia que não será emocionante para o governo - qualquer governo.

Dos economistas agrupados em torno de Guedes emergem os esboços de um programa mais radical que a "ponte para o futuro" do governo Temer. Algumas definições básicas parecem assentadas, como a da manutenção do tripé macroeconômico, com teto de gastos, câmbio flutuante e metas de inflação. E, também pelas indicações disponíveis, se Bolsonaro vencer, seu governo vai demorar para desamarrar o nó fiscal, a principal bomba a desarmar a curto prazo, sem a qual a economia desandará em um par de anos.

Desespero: Editorial | O Estado de S. Paulo

Consciente de que será muito difícil reverter a vantagem de Jair Bolsonaro (PSL) na disputa pela Presidência da República, o PT decidiu partir para seu "plano B": fazer campanha para deslegitimar a eventual vitória do oponente, qualificando-a como fraudulenta. É uma especialidade lulopetista.

A ofensiva da tigrada está assentada na acusação segundo a qual a candidatura de Bolsonaro está sendo impulsionada nas redes sociais por organizações que atuam no "subterrâneo da internet", segundo denúncia feita anteontem na tribuna do Senado pela presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, que lançou o seu J'accuse de fancaria.

"Eu acuso o senhor (Bolsonaro) de patrocinar fraude nas eleições brasileiras. O senhor é responsável por fraudar esse processo eleitoral manipulando e produzindo mentiras veiculadas no submundo da internet através de esquemas de WhatsApp pagos de fora deste país", afirmou Gleisi, que acrescentou: "O senhor está recebendo recursos ilegais, patrocínio estrangeiro ilegal, e terá que responder por isso. (...) Quer ser presidente do Brasil através desse tipo de prática, senhor deputado Jair Bolsonaro?"

Aumentam suspeitas sobre campanhas na rede social

Murillo Camarotto e Luísa Martins | Valor Econômico

BRASÍLIA, SÃO PAULO E DO RIO - Denúncia de que empresas estariam comprando pacotes de disparos em massa de mensagens no WhatsApp contra o PT, partido do presidenciável Fernando Haddad, aumentou a suspeita de que o uso das redes sociais para disseminar "fake news" está causando forte impacto na campanha eleitoral. As empresas, segundo reportagem da "Folha de S. Paulo", apoiam o candidato Jair Bolsonaro (PSL), líder das pesquisas. A prática é ilegal. Doações de pessoas jurídicas a candidatos estão proibidas pela lei eleitoral.

O PT entrou com ação para que a Justiça Eleitoral investigue o caso. O partido solicita que o TSE torne Bolsonaro inelegível. A coligação em torno de Fernando Haddad pede, ainda, a decretação da prisão do empresário Luciano Hang, caso ele não colabore com as investigações. Hang é dono da rede de lojas Havan, supostamente um dos envolvidos na compra desses serviços.

PT pede ao TSE inelegibilidade do candidato do PSL

A campanha de Fernando Haddad entrou com ação no TSE pedindo a inelegibilidade de Bolsonaro caso investigação do órgão comprove abuso de poder econômico pelo adversário. Reportagem da “Folha de S. Paulo” informou que empresas custearam divulgação de mensagens pelo WhatsApp contra o PT, o que é proibido.

WhatsApp: PT vai à Justiça contra Bolsonaro

Após jornal publicar que empresários financiaram irregularmente a divulgação em série de mensagens no aplicativo, campanha de Haddad pede investigação; presidente do PSL diz ser ‘impossível controlar rede’

Bruno Góes, Sérgio Roxo e Dimitrius Dantas | O Globo

BRASÍLIA E SÃO PAULO – A campanha do candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, protocolou ontem uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que a Corte abra uma investigação com o objetivo de apurar possíveis crimes eleitorais cometidos pela candidatura de seu adversário, Jair Bolsonaro (PSL). O PT afirma que a campanha cometeu “abuso de poder econômico” e “uso indevido de comunicação digital”.

O pedido é baseado em reportagem publicada ontem pela “Folha de S. Paulo”, segundo a qual empresas estariam favorecendo a campanha de Bolsonaro ao comprar pacotes de divulgação em massa de mensagens contra o PT no WhatsApp. Segundo a reportagem, a prática é ilegal porque representa doação eleitoral de empresas a políticos, ação já proibida pela Justiça Eleitoral e que configuraria o uso de caixa dois.

FACHIN PEDE “FAIR PLAY”
Os contratos, diz a reportagem, chegariam a até R$ 12 milhões pelos disparos de centenas de milhões de mensagens, com o uso de bases irregulares de números de telefone. A distribuição de conteúdo seria feita a partir de administradores de grupo no aplicativo que usam celulares com códigos de outros países para escapar de limitações do WhatsApp, como o número máximo de encaminhamentos de mensagens.

Ao PSDB, agência ofertou 80 milhões de disparos ilegais

Consultor digital da campanha de Alckmin, que não contratou serviço, conta ter participado de reunião sobre cadastros

Silvia Amorim | O Globo

SÃO PAULO - O consultor de marketing digital da campanha presidencial de Geraldo Alckmin (PSDB), Marcelo Vitorino, relatou ontem ao GLOBO que participou de reunião em que uma empresa ofereceu ao partido a entrega de disparo de mensagens por WhatsApp, para até 80 milhões de pessoas, usando cadastro de terceiros, o que é proibido por lei.

A oferta do serviço, segundo ele, foi feita pelo presidente da empresa DOT Group, Luiz Alberto Ferla, num encontro na sede do PSDB em Brasília em 11 de julho, antes do início da campanha eleitoral. Segundo o PSDB, o serviço não foi contratado.

A reunião era com o PSDB Mulher, presidido pela ex-governadora do Rio Grande do Sul Yeda Crusius. Participaram também advogados, sócios do marqueteiro de Alckmin, Lula Guimarães, Vitorino, Yeda e assessores.

ACM Neto chama derrota de Alckmin de 'desastre eleitoral'

Prefeito de Salvador diz que tucanos não trabalharam por campanha e que 'cada um cuidou do próprio umbigo'

Julia Chaib | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Num balanço do que chama de "desastre eleitoral", o presidente do DEM e prefeito de Salvador, ACM Neto, elenca um conjunto de fatores que levaram à derrocada de Geraldo Alckmin (PSDB), e inicia a lista apontando o dedo para a infidelidade tucana.

“Poucos efetivamente trabalharam por Geraldo. Cada um cuidou de seu próprio umbigo”, disse, em entrevista à Folha.

Coordenador da coligação de Alckmin, ele diz que a equipe do tucano subestimou a força das redes sociais, mas pondera que a facada —e a exposição que Jair Bolsonaro (PSL) teve após o atentado— foram determinantes para o resultado.

Neto, que declarou apoio ao candidato do PSL, diz que não o vê como uma ameaça à democracia. “Não apenas pelas palavras dele, mas porque eu penso que hoje as nossas instituições são muito mais fortes do que as pessoas.”

O presidente do DEM avalia que o "Bolsonaro candidato" é melhor "do que o deputado”. E faz uma reflexão sobre o recado das urnas. "Essa renovação é importante? É. Em alguns casos, será uma renovação para melhor. Em outros, pode não ser. Por isso, a gente tem que ter cautela."

Leia trechos da entrevista abaixo

Haddad é mais moderado que Bolsonaro, diz 'The Economist'

Apesar do 'nojo' pelo PT ser justificado, na opinião da revista, candidato do PT é o único que pode impedir candidato do PSL de chegar à Presidência

Célia Froufe, correspondente | O Estado de S.Paulo

LONDRES - Após uma série de reportagens críticas ao candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, a revista britânica The Economist , destacou em sua edição desta semana que Fernando Haddad (PT) é mais moderado e menos popular do que seu rival incendiário. Ainda de acordo com a revista, o "nojo" pelo Partido dos Trabalhadores é justificado, mas o petista, que está em uma "luta difícil", é apontado como o único homem que pode impedir Bolsonaro de chegar ao cargo.

O semanário salientou que personalidades geralmente importam mais na política brasileira do que os partidos. Mas se Bolsonaro, um populista de direita, vencer a eleição presidencial em 28 de outubro, será em grande parte porque os eleitores desprezam o PT.

Ex-ministro de FHC declara apoio a Haddad e vê Bolsonaro como risco à democracia

José Carlos Dias diz que só o candidato do PSL é capaz de fazê-lo votar no PT; ele e repórter do 'Estado' foram confundidos e hostilizados por eleitoras do capitão reformado

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

Ex-ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso, o advogado José Carlos Dias disse nesta quinta-feira,18, pouco depois de evento em apoio ao candidato do PT, Fernando Haddad, que "só o Bolsonaro é capaz" de fazer com que ele vote no PT. Ele participou de atos de juristas ao lado do presidenciável em um hotel no Paraíso, na zona sul de São Paulo. Dias defendeu presos políticos na ditadura militar e participou da Comissão Nacional da Verdade.

Crítico ao partido de Haddad, o ex-ministro classificou o candidato do PSL como um risco à democracia. "Bolsonaro é um perigo imenso para o Brasil. Este homem é um crápula". afirmou.

Dias defendeu a posição de FHC de se manter distante da candidatuta petista e atribuiu a posição do ex-presidente a um erro do PT. Segundo ele, a primeira coisa que Haddad deveria ter feito depois do primeiro turno era procurar o tucano em vez de ir a Curitiba "pedir a benção ao Lula".

'Só Bolsonaro para me fazer votar no PT', diz José Carlos Dias

Cátia Seabra | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Ministro do governo FHC, o jurista José Carlos Dias participou nesta quinta-feira de ato em apoio à candidatura de Fernando Haddad à Presidência.

Sentado à mesa principal, Dias não quis discursar durante o ato porque "não quis ofender ninguém" já que se limitaria a uma frase: "Só Bolsonaro foi capaz de me fazer votar no PT".

Segundo o ex-ministro da Justiça, "Bolsonaro é um perigo imenso ao Brasil".

"Esse homem é um crápula", disse.

Ele diz, no entanto, que faltou humildade ao PT na busca de aliados neste segundo turno.

Na sua opinião, em vez de se encontrar com Lula em Curitiba, Haddad deveria procurar lideranças de outros partidos, sendo FHC o primeiro deles.

Roberta Sá - Samba de um minuto

Affonso de Sant’Anna: Como amo meu país

Fragmento 1

Com aquela melancolia que ao entardecer
em Teresina
eu olhava do outro lado do sujo rio
a vilazinha de Timon,
com a fúria da multidão endomingada martelando
caranguejos entre farofa e cerveja
numa praia em Aracaju,

com a penintência de quem amssa o barro
que depois vira anjo nas mãos das mulheres de
Tracunhaém,com a solidez marinha do jangadeiro
em Cabedelo
empurrando a esperança mar adentro
e a repartir a espinha do dia morto sobre a areia,
com a cadência magoada do vaqueiro tangido nos
seus cornos a recolher o sal e a solidão
nos currais de Minas, em Curvelo,assim
eu amo este país que me desama.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Opinião do dia: José Arthur Giannotti

“Nós estávamos numa negação política. O Congresso fechado nele mesmo, armado para se reproduzir. O governo isolado, incapaz de enfrentar as crises econômicas e sociais. Estávamos num fechamento total. E a Lava Jato denunciando, num processo jurídico-político, na medida em que atua juridicamente mas com intenções políticas. Sua intenção é jogar uma bomba atômica no processo político."

• Por que a polaridade PT-PSDB foi varrida?

"Foi varrida porque ao PSDB faltaram lideranças, faltou se renovar. Quando você chega ao [João] Doria, que é pura aparência, é o fim. Nós vivemos numa sociedade do espetáculo, mas com o Doria você só tem espetáculo, não tem conteúdo político. O PSDB ficou dividido entre o Alckmin e o Doria. Do outro lado, o PT levou o país a uma recessão brutal por causa de uma série de equívocos econômicos. Esta eleição recupera e amplia 2013 [movimento contra alta de tarifas de transporte que depois começou a questionar a agenda dos partidos e a eficiência do Estado].”


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José Arthur Giannotti é professor de filosofia, em entrevista: ‘Forças ocultas vão ter de se moderar’, Folha de S. Paulo, 16/10/2018

William Waack: O abismo é outro

- O Estado de S.Paulo

Diante do que vem aí, vencer as eleições foi só o mais fácil

Pergunta que começa com “se” não tem resposta. Por isso pode parecer inútil perguntar como teria sido a corrida eleitoral de 2018 se não tivesse ocorrido o atentado contra Jair Bolsonaro, se Lula não tivesse destruído a possibilidade de uma união inicial das esquerdas, se as forças ao “centro” do espectro político tivessem identificado lá atrás qual o eixo em torno do qual se alinhou a grande maioria do eleitorado (o repúdio ao sistema e o antipetismo).

Ocorre que o exercício do contrafactual (“o que teria sido se”) é útil, sim. Antes de mais nada, serve para demonstrar que não existe o “inevitável”. Que a política é, por definição, o terreno do imponderável e do acaso. E que escolhas feitas por agentes políticos – por Lula, Bolsonaro, Fernando Henrique, Ciro, ou quem você quiser – têm a condição de alterar o rumo das coisas dentro dos grandes limites impostos, por exemplo, pela herança do passado.

Sendo enorme a probabilidade de que o tsunami político que empurrou Bolsonaro o elegerá presidente, essa onda, “inevitavelmente”, nos conduzirá até onde? Parece evidente que esse fenômeno social e cultural (o embate político tem as características da “guerra cultural” de valores, não importa se a gente aplaude ou repudia o que Bolsonaro e o PT dizem) alterou fundamentalmente nossa paisagem política, dando cara e voz a um nutrido eleitorado antes disperso e desorganizado (estou evitando colocar rótulos).

É um eleitorado que desconfia da imprensa, da Justiça, da política e que tem medo, sente-se órfão das instituições, acha que seu esforço individual é torpedeado pelo Estado, pelos impostos, pela burocracia e por “eles” em Brasília, e encontrou uma resposta (se você gosta ou não, é outra conversa) na figura de Bolsonaro. O que eu algumas semanas atrás chamava de “choque de placas tectônicas” entre o desejo de mudança e a velha política parece ter produzido o rompimento de um dique político e abriu uma enorme avenida de oportunidade ao mesmo tempo em que levanta um ponto de interrogação igualmente enorme.

Merval Pereira: Aperitivo polêmico

- O Globo

Bolsonaro mostrou que pretende interferir em questões penais que já estão pacificadas pela legislação

Antes de colocar a outra mão na faixa presidencial, Bolsonaro anda metendo as duas mãos em cumbuca. No mesmo dia, levantou duas polêmicas com a Procuradoria-Geral da República em temas delicados: a escolha do substituto de Raquel Dodge e a proposta sobre o conceito de legítima defesa, para policiais e civis.

Ao afirmar que providenciaria imediata mudança no Código de Processo Penal para aplicar automaticamente a legítima defesa em favor dos policiais nos embates em que morram supostos bandidos, ou até mesmo “terceiros”, mostrou que pretende interferir em questões penais que já estão pacificadas pela legislação.

A figura do “excludente de ilicitude”, que compreende a “legítima defesa”, já existe, mas tem que haver um processo, a avaliação de um juiz. Um delegado até pode decidir, mas tem que ter um registro de ocorrência, a polícia tem que investigar.

O Ministério Público é que acusa, ou não. Os autos de resistência, mortes em decorrência de atividade policial, são encaminhados ao Ministério Público. É improvável que o Supremo Tribunal Federal (STF) aceite uma mudança através de projeto de lei, até mesmo por emenda constitucional. Pela Constituição, o Ministério Público é o titular da opinião sobre o cometimento de crime, tem a competência privativa para promover a ação penal. Mudar isso seria, na interpretação corrente, alterar uma cláusula pétrea constitucional, com um poder interferindo em outro.

O projeto do deputado Jair Bolsonaro quer também retirar do artigo 25 do Código Penal, que define a legítima defesa, a parte que diz “(...) usando moderadamente dos meios necessários”. Questão similar foi discutida devido às missões de paz do Brasil no Haiti. Um dos principais assessores de Bolsonaro, já anunciado como futuro ministro da Defesa em um seu provável governo, o general Augusto Heleno chefiou uma dessas missões.

Míriam Leitão: Do pouco que até agora se sabe

- O Globo

Economistas de Bolsonaro preparam programa em segredo para, se ele ganhar, ser divulgado ao eleitor apenas depois das urnas

O pouco que se sabe do candidato que está na frente das pesquisas já está causando preocupação em alguns empresários. Jair Bolsonaro tem mostrado reservas em relação à China, sem explicar o que isso significa. O país é o investidor estrangeiro mais ativo na economia brasileira com projetos em energia e agora na conclusão do Comperj. O presidente da Vale alertou para a importância do país asiático como parceiro para a empresa e o Brasil. A Unica está preocupada com o abandono do Acordo de Paris. A reforma da Previdência é uma incógnita.

O que se sabe sobre a economia num eventual governo Jair Bolsonaro é excessivamente vago e estamos a 10 dias das eleições. O programa está sendo preparado por grupos temáticos sob o comando do economista Paulo Guedes, mas pouca coisa sai, até porque a estratégia é falar o mínimo possível para não atrapalhar a campanha. O Brasil fica assim na estranha situação de estar prestes a escolher um presidente — ontem ele disse na Polícia Federal que está com a mão na faixa — e sua equipe prepara um programa que será surpresa pós-urnas. Isso se houver concordância entre o candidato e os economistas, coisa que até agora não parece haver. “Não queremos flertar com o desconhecido”, disse ele ontem, mas na economia é exatamente isso que o pacto de silêncio dele e de sua equipe está oferecendo ao país.

Do pouco que se sabe, há esse temor sempre repetido pelo candidato em relação ao investimento chinês no Brasil. A China estaria “comprando o Brasil”, segundo ele. O país é o maior comprador de produtos brasileiros, o maior mercado da soja brasileira, portanto o agronegócio precisa manter essa relação estável e sem ruídos. O presidente da Vale, Fabio Schvartsman, empresa que opera em 16 portos chineses, disse que há uma dependência mútua entre Brasil e China, e que em qualquer governo a Vale continuará tendo uma boa relação com eles. É ao capital chinês que a Petrobras está recorrendo para concluir o investimento no Comperj. A expectativa da estatal é concluir em dois anos as obras da refinaria de Itaboraí, a partir do momento em que fechar o acordo com a CNPC chinesa.

Carlos Alberto Sardenberg: Ele ganha. Governa?

- O Globo

Há também na onda Bolsonaro eleitores liberais no sentido amplo da palavra: na política, na economia e nos costumes

Ok, tem uma onda conservadora que carrega Bolsonaro, mas as pessoas que ali se juntam são bem diferentes e chegaram lá por motivos diferentes.

Há eleitores que estão assustados com a falta de segurança. E não gostam das lideranças e movimentos que criticam a ação da polícia quando esta se mete em confrontos e mata bandidos. Acham que é preciso mais, e não menos polícia. Mas não são justiceiros. São pessoas que têm medo de sair de casa, ficam preocupadas com os parentes que demoram a voltar. Assim, compram o discurso de que a polícia precisa endurecer, mesmo que Bolsonaro não diga como será a política de segurança. Também aprovam a redução da maioridade penal e uma maior liberação da posse de armas.

Mas, atenção, não são pessoas que estão prontas para comprar armas e sair matando bandido. Lembram-se do referendo do desarmamento? Uma imensa maioria manifestou-se contra a proibição da venda de armas. E não houve aumento na venda de armas.

Há uma classe média que está farta do peso do Estado e do governo em suas vidas. Gente que não consegue abrir um negócio legalmente sem pagar propinas ou mesmo sem pagar taxas abusivas antes de começar a trabalhar. Gente que paga imposto demais e ainda percebe que precisa colocar seus filhos em escola particular e comprar plano de saúde.

Há também na onda Bolsonaro os eleitores liberais no sentido amplo da palavra: liberais na política, na economia e nos costumes. Na economia, pedem um Estado menor e mais espaço para a iniciativa privada. Na política, apoiam as posições e grupos independentes de partidos. Nos costumes, não é que sejam contra a “agenda progressista” (raça, gênero etc.), mas acham que o Estado não tem que se meter nisso e deixar que cada um resolva como quiser o seu modo de vida. Ou seja, são contra a imposição daquela agenda, ou por lei (cotas, por exemplo, que consideram injustas) ou por pressão das elites e formadores de opinião. Mas, frequentemente, são favoráveis a agendas como a liberação da maconha.

Daniela Lima: Com o Supremo, com tudo

- Folha de S. Paulo

Impressiona a incapacidade da Justiça de se entender como parte do sistema em crise

Ok que a Justiça precisa ser cega para ser imparcial, mas deveria parar por aí. Chega a impressionar a incapacidade do Judiciário brasileiro de entender que faz parte do sistema que vive uma crise de legitimidade no país.

Há dificuldade entre ministros de cortes superiores, juízes e também entre membros do Ministério Público de compreender que estão, todos eles, inseridos até a alma na estrutura contestada por parte significativa do eleitorado.

O sintoma mais visível dessa cegueira deliberada é a letargia de ministros que compõem o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) de responder à altura os ataques que o tribunal, como instituição, vem sofrendo diuturnamente.

Diante das centenas de questionamentos sobre a lisura da eleição, das urnas, e também diante das fake news, tudo o que os guardiões da Constituição produziram foi bravata, ironia e inação.

O líder das pesquisas repetiu pela enésima vez em setembro que o sufrágio no Brasil não é seguro. "Tem gente que acredita em SaciPererê", respondeu Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal. Sim, ministro. Ao que parece, muita gente.

Luiz Fux, que presidiu o TSE até agosto, chegou a dizer que as eleições poderiam ser anuladas se influenciadas por notícias falsas. E agora?

Rosa Weber, que assumiu a corte depois dele, se limitou a proferir meia dúzia de declarações protocolares.

No dia do primeiro turno, diante da proliferação de vídeos (montagens, depois se comprovou) e suspeitas lançadas por candidatos, um ministro do TSE se limitou a dizer que é com "isso aí que a gente vai ser obrigado a lidar".

Foi preciso que Weber, que ainda tem a imagem pessoal preservada, recebesse uma ameaça para deflagrar um arremedo de reação. A mensagem ofensiva foi revelada pela repórter Thais Arbex, no Painel desta Folha, na segunda-feira (15).

Roberto Dias: Uma nova conversa

- Folha de S. Paulo

Mentiras óbvias sobre Bolsonaro e Haddad enganam muita gente

Não, Jair Bolsonaro não foi eleito o político mais honesto do mundo. Tampouco propôs nova imagem de Nossa Senhora. Nem Fernando Haddad quis legalizar a pedofilia. Mentiras óbvias como essas enganam muita gente; imagine então as menos evidentes, como a lista fictícia de ministros pop do petista.

O submundo do WhatsApp é o grande fenômeno desta campanha. Seu efeito parece ainda mais perverso do que o do Facebook nos EUA.

Marqueteiros e líderes partidários repetem que a TV é decisiva porque isso lhes dá poder. Quem caiu nesse conto perdeu o bonde. Os brasileiros passam mais horas em redes sociais do que a média mundial. As mensagens no celular multiplicam-se por pirâmide que não surgiu do nada.

Está claro que o bolsonarismo grama nesse pântano há mais tempo. O petismo aprende tardiamente.

Quem até outro dia falava que a imprensa distorce tudo agora suplica aos eleitores que se informem pelo jornalismo profissional. Quem aponta o dedo para a mídia tradicional e diz que ela “normalizou” Bolsonaro não está entendendo nada.

Bruno Boghossian: Bote salva-vidas

- Folha de S. Paulo

Valdemar, Kassab e companhia preparam entrada na base aliada do presidenciável

No grande naufrágio partidário de 2018, os primeiros da fila para o bote salva-vidas são Roberto Jefferson, Pastor Everaldo, Valdemar Costa Neto e Gilberto Kassab. Os caciques do centrão, que sustentaram governos de todas as cores, decidiram se alinhar a Jair Bolsonaro (PSL) em busca de sobrevivência.

O PSD não é de esquerda, nem de direita, nem de centro (como definiu Kassab ao criar a legenda), mas já está afinado com o radicalismo de Bolsonaro. O fundador da sigla disse nesta quarta (17) que, se o candidato do PSL for eleito, “evidentemente” apoiará seu governo no Congresso.

A condição é que as pautas tenham convergência com as crenças do PSD, mas a adaptação não será muito difícil. Kassab foi ministro de Dilma Rousseff, pediu demissão para apoiar o impeachment e, em menos de um mês, pegou as chaves de outro ministério com Michel Temer.

O PR não quis apoiar Bolsonaro no primeiro turno, mas agora planeja um consórcio com o presidenciável. Caso sua eleição se confirme, o partido de Valdemar estará na base governista e lançará ao comando da Câmara o deputado Capitão Augusto, um policial que diz que o regime militar não foi uma ditadura.

“Houve alternância no poder, o Congresso manteve-se aberto, o Judiciário manteve-se aberto e até a imprensa tinha liberdade”, disse, em 2015. Quatro mentiras, se considerarmos que a ditadura aposentou ministros do STF e tutelou o tribunal.

O time pró-Bolsonaro tem ainda a companhia do PTB de Roberto Jefferson, do PSC do Pastor Everaldo e de outros partidos que acreditam farejar vitória no campo do PSL.

Vinicius Torres Freire: Bolsonaro tem de entregar o ouro

- Folha de S. Paulo

Enquete mostra motivos de o mercado acreditar em planos ainda vagos de reforma liberal

Quanto trata de Previdência, Jair Bolsonaro reafirma a tese dos "direitos adquiridos", em geral um argumento de sindicatos, corporações e de certa esquerda. Seus planos de reforma previdenciária vivem em uma zona crepuscular que vai desde mudança quase nenhuma até mirabolâncias ou ambições no momento inviáveis.

No entanto, o mercado se move. Os negociantes de dinheiro declaram voto em Bolsonaro e votam também nos preços da moeda brasileira e dos títulos da dívida pública, que sobem. Na praça financeira, é o que interessa.

Ainda que existam planos infalíveis em elaboração, não há diretrizes firmes, prioridades e sequenciamento de mudanças econômicas, porém.

Além do mais, algumas conversas do universo bolsonarista não são liberais, mas libertinas.

O atropelo de boas normas ambientais ou sanitárias e de mínimos trabalhistas tende a ser um tiro pela culatra. Feitos a ferro e fogo, produtos agropecuários ou extrativistas podem ser objeto de barreiras comerciais ou civilizatórias, no exterior.

Restrições a investimentos estrangeiros, mesmo que venham da China, podem pegar mal e deixar gente lá fora com o pé atrás —e fora daqui. Mesmo pelos piores motivos, não são boas ideias.

Como então o pessoal elabora os motivos de seu otimismo com uma reforma liberal? Este jornalista fez uma enquete.

Primeiro, o que mais se ouve é que Bolsonaro tem uma equipe grande trabalhando no programa de reformas, um governo já em obras.