Vandeck Santiago / Diário de Pernambuco, 21/11/2017
Minutos antes de receber uma das maiores premiações mundiais da época, Josué de Castro perdeu a voz. Teve um terrível acesso de tosse e não conseguia falar. Estava na cerimônia de entrega do Prêmio Internacional da Paz, que lhe fora concedido pelo Conselho Mundial da Paz, entidade sediada em Helsinque (Finlândia), onde se realizava o evento, em 1954. Após muito custo, ele insistiu em dizer algumas palavras. Foi o discurso mais curto que todas as autoridades presentes já tinham escutado. Josué de Castro conseguiu falar apenas uma frase:
- 'O primeiro direito do homem é o de não passar fome' -, ele disse, e
sentou-se, exausto, sob palmas.
Pernambucano do Recife, onde nasceu em
1908, Josué foi a personalidade mais importante do século 20 no estudo da fome
e na ação contra suas consequências. “Ele foi um gênio. Deveria ter um
monumento em cada cidade do Brasil, porque é um dos maiores pensadores do
século 20”, afirma o sociólogo suíço Jean Ziegler, relator da ONU para o
direito à alimentação entre 2000 e 2008, professor da Universidade de Genebra e
da Sorbonne e autor de vasta obra sobre a fome no mundo.
No momento em que o Brasil está sob ameaça de volta ao Mapa da Fome da ONU (da qual havia saído em 2014) e que o caso de uma criança que desmaiou de fome numa escola em Brasília ganha repercussão nacional, é momento de lembrar Josué de Castro. Na hora em que acaba de ser divulgado relatório da ONU mostrando que o flagelo voltou a aumentar no mundo após 10 anos, é hora de tornar a Josué de Castro.
Foi a partir de dois livros que o seu nome ganhou repercussão nacional e internacional. O primeiro, Geografia da Fome, de 1946, sobre o Brasil; o segundo, Geopolítica da Fome, de 1951, sobre a mesma questão, só que agora em escala mundial. “Este livro foi uma revelação para os europeus”, disse Jean Ziegler. O raciocínio que consolidara no Brasil, a partir da obra de 1946, ele expandia para o mundo: a causa da fome não se devia a caprichos da natureza, mas a -- vamos chamar assim -- caprichos da política.



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