sexta-feira, 22 de março de 2024

Fabio Giambiagi - Um sistema disfuncional

O Globo

Sem isso, será difícil escapar da trajetória de mediocridade que tem sido nossa sina há vários anos. No longo prazo, é uma tragédia

Um dos temas sobre os quais os aspirantes a economistas se debruçam na faculdade é a análise do papel dos incentivos. Observe-se algo que funciona mal na economia e, muito provavelmente, haverá um erro de concepção no que os economistas chamamos de “desenho de incentivos”.

Isto não é algo difícil de entender para o leigo. Pensemos na educação de um filho. Se uma criança mal comportada não tiver limites claramente colocados pelos seus pais e, na juventude, continuar fazendo estripulias cada vez piores, vendo sempre como seus pais “passam o pano” diante do seu comportamento inaceitável, esse futuro adulto será provavelmente um péssimo cidadão, mal-educado e, eventualmente, violento.

André Roncaglia* - Voracidade

Folha de S. Paulo

Mercado usa 'racionalidade técnica' superada para disfarçar compulsão extrativista

No artigo da semana passada, mostrei como a lógica de mercado disfarça suas compulsões extrativistas com uma "racionalidade técnica" já superada.

Ao igualar qualidade institucional à autonomia em relação ao governo, a cartilha financista ignora os efeitos duradouros e profundos de o mercado distorcer os objetivos das empresas.

A financeirização das três principais gestoras de recursos naturais do país (Petrobras, Eletrobras e Vale) restringe sua utilidade social à capacidade de distribuir lucros aos acionistas, ao sabor dos ciclos globais de commodities. A Petrobras (2022) e a Vale (2021) estavam entre as maiores pagadoras de dividendos do planeta.

Entre 2019 e 2022, a gestão "técnica" da Petrobras alterou a fórmula de remuneração dos acionistas e despejou mais de R$ 330 bilhões na forma de dividendos, com vultosa venda de ativos, como refinarias, fábricas de fertilizantes e sua rede de distribuição.

Vinicius Torres Freire - Pesquisa nova, ideias velhas

Folha de S. Paulo

Avaliação reduzida de Lula sugere que prática política vive em país e cultura do passado

O eleitorado continua grosso modo dividido em terços quanto à nota que dá a Luiz Inácio Lula da Silva. A parcela daqueles que avaliam Lula 3 como "ótimo/bom" é praticamente a mesma daqueles para quem o governo é "ruim/péssimo". É o que diz o Datafolha.

O empate aparece também em outras pesquisas realizadas desde fins de fevereiro. A baixa do prestígio começou depois da metade do ano passado. Mas é muito mais pronunciada e ocorreu na maior parte em 2023 nas pesquisas Quaest e Ipec do que no Datafolha e na Atlas. E daí? Tem-se dado importância excessiva ao assunto?

Não, parece razoável dizer. Baixas de avaliação costumam diminuir a margem de manobra política do governo. A situação fica um tanto mais difícil em um tempo de contraposição extremada das preferências de voto para o Executivo ("polarização"), de volatilidade da opinião pública (também por causa de redes sociais e de guerras culturais e de propaganda), de revolta "contra o sistema" e por causa do fato óbvio de que o governo Lula é muito minoritário no Congresso, tanto em termos de número de parlamentares quanto de preferências ideológicas —as forças sociopolíticas do país mudaram muito.

Bruno Boghossian - Soluços de popularidade

Folha de S. Paulo

Pesquisa do Datafolha mostra presidente longe de momento crítico, mas variações de humor merecem atenção do governo

Lula anda impaciente com sua popularidade. Cobrou mudanças na comunicação do governo e mandou ministros divulgarem suas ações em viagens pelo país. É um remédio contra soluços. Pode funcionar, mas novos espasmos tendem a aparecer.

A mais recente pesquisa do Datafolha mostra que o presidente está longe de um momento crítico. O país continua dividido em três terços, e o quadro de polarização permite poucas mudanças drásticas. Alguns detalhes, no entanto, apontam para uma variação de humores que exige atenção do governo.

Hélio Schwartsman - Putin quântico

Folha de S. Paulo

Autocrata russo tem admiradores tanto na esquerda como na direita, incluindo Lula e Bolsonaro

Demorou um pouco, mas Lula cumprimentou Vladimir Putin por sua vitória no pleito presidencial do último domingo (17), no qual obteve mais de 87% dos votos. O PT foi além e classificou a eleição como "feito histórico". Outros países que parabenizaram o autocrata russo são Irã, Venezuela e Coreia do Norte. EUA, Reino Unido e Alemanha preferiram questionar a lisura do processo eleitoral, que não foi nem livre nem justo.

Não acho que o Brasil deva se comportar como um vingador justiceiro nas relações internacionais. Esse é um campo em que os interesses do país devem dar a tônica. O Brasil não precisa romper com todas as ditaduras do planeta porque são ditaduras, mas tampouco precisa bajular líderes com amplo histórico de violações de direitos humanos. O pleito russo teria sido uma ótima ocasião para o Brasil permanecer calado.

Thomas L. Friedman* - Netanyahu tornou Israel radioativo pelo modo como conduz guerra em Gaza

Folha de S. Paulo

Israelenses e palestinos precisam de líderes motivado pela consciência de sua interpendência, mas ambos não os têm

Atualmente, Israel está correndo um grande perigo. Com inimigos como o Hamas, o Hezbollah, os houthis e o Irã, Israel deveria contar com a simpatia de grande parte do mundo. Mas não conta.

Devido à maneira como o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e sua coalizão extremista têm conduzido a guerra na Faixa de Gaza e a ocupação da Cisjordânia, o país está se tornando radioativo, e as comunidades judaicas da diáspora em todos os lugares estão cada vez mais inseguras. Temo que a situação esteja prestes a piorar.

Nenhuma pessoa justa poderia negar a Israel o direito de autodefesa depois que o ataque do Hamas em 7 de outubro matou cerca de 1.200 israelenses em um dia.

Mulheres foram abusadas sexualmente; crianças foram mortas na frente de seus pais, e pais, na frente de seus filhos. Dezenas de homens, mulheres, crianças e idosos israelenses sequestrados ainda são mantidos como reféns em condições terríveis.

Mas nenhuma pessoa justa pode olhar para a campanha israelense para destruir o Hamas, que já matou mais de 31 mil palestinos em Gaza, cerca de um terço deles combatentes, e não concluir que algo deu terrivelmente errado lá.

Cláudio Carraly* - A Bela Arte do Procrastinar

A procrastinação, essa dança intrincada entre a intenção e a inação, é uma habilidade refinada pelos seres humanos ao longo das eras, muitas eras, logico, porém, que se não tivessem procrastinado tanto com certeza teriam realizado bem antes, mas vamos ao tema. Essa proeza que desafia a lógica e testa os limites do bom senso, imagine um mundo onde as grandes obras-primas foram procrastinadas até a irrelevância, onde os planos grandiosos foram adiados até se perderem na obscuridade, em meio a um mar de boas intenções, os procrastinadores habilidosos dançam com a arte de procrastinar com uma graça digna de uma coreografia elaborada, são mestres em adiar o inevitável, transformando prazos iminentes em meras sugestões, a procrastinação não é apenas um comportamento, é uma forma de expressão, uma verdadeira expressão artística, uma declaração audaciosa contra a tirania dos cronogramas e a ditadura dos prazos.

Poesia | Soneto do Desmantelo Azul, de Carlos Pena Filho

 

Música | Dorina e Luiz Carlos da Vila - O Sonho não se Acabou (Luiz Carlos da Vila e Adilson Victor)

 

quinta-feira, 21 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Conclusão da reforma tributária preocupa

Folha de S. Paulo

Passados 90 dias desde a promulgação da emenda, não há sinal de projeto do governo ou das principais forças políticas

A aprovação da emenda constitucional da reforma tributária foi justamente celebrada como um feito histórico no ano passado. Entretanto é necessário lembrar que, sem uma regulamentação politicamente difícil, o novo sistema de impostos não sairá do papel —e o andamento desse processo suscita preocupações agora.

O Congresso promulgou a mudança na Carta em 20 de dezembro de 2023. O texto abre caminho para que a tributação do consumo de bens e serviços, excessiva e socialmente injusta no Brasil, torne-se ao menos mais simples e eficiente economicamente.

Passados 90 dias, porém, nada andou. Inexiste projeto do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ou proposta acordada entre as principais forças políticas do país, para colocar em prática a reforma. Sem isso, tudo fica como está.

Luiz Carlos Azedo - Recordações da distensão — o estudante desaparecido

Correio Braziliense

Faculdade de Direito de Niterói concedeu o título de bacharel a Fernando Santa Cruz. E propôs ao Conselho Universitário que lhe agracie com o título de Doutor Honoris Causa

Eleito deputado federal pelo antigo estado da Guanabara, em 1970 e 1974, o jurista e político carioca Célio Borja passou a representar o novo estado do Rio de Janeiro a partir de 15 de março de 1975, após a fusão dos dois, por força de lei sancionada no governo Ernesto Geisel, cujo objetivo era reequilibrar a balança geopolítica do país com São Paulo. No projeto nacional-desenvolvimentista do então presidente Geisel, o Rio de Janeiro seria a capital do setor produtivo estatal, pois abrigava a sede das mais importantes empresas públicas do país — entre as quais a Petrobras, a então Vale do Rio Doce, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Embratel, o BNDE (não tinha o S) e o BNH (antigo Banco Nacional de Habitação).

Enquanto o ministro do Planejamento da época, João Paulo dos Reis Veloso, articulava o tripé do ambicioso II Plano Nacional Desenvolvimento de Geisel — setor estatal, empresários brasileiros e multinacionais —, caberia a Borja liderar a bancada da Arena na Câmara Federal e dar continuidade ao projeto de “distensão lenta, gradual e segura” — que havia sido abalado pela espetacular vitória do MDB, o partido de oposição, nas eleições de 1974.

Merval Pereira - Contraponto importante

O Globo

A Justiça espanhola passou a percepção de que os ricos que podem pagar uma fiança tão alta têm vantagens sobre os cidadãos comuns

O Superior Tribunal de Justiça (STJ), ao definir por maioria que o ex-jogador de futebol Robinho terá de cumprir no Brasil a pena de nove anos a que foi condenado na Itália por ter participado de um estupro coletivo, marcou um contraste positivo para a Justiça brasileira diante de outra decisão, da Justiça espanhola, que deu direito a outro ex-jogador brasileiro, Daniel Alves, de recorrer em liberdade da condenação, também por estupro, porque aceitou pagar uma fiança de € 1 milhão.

A Justiça espanhola passou a percepção de que os ricos que podem pagar uma fiança tão alta têm vantagens sobre os cidadãos comuns, ainda mais depois que outros € 150 mil já pagos ajudaram a reduzir sua pena. Robinho tentou usar a carta do racismo a seu favor, mas, ao contrário, quem teria sido beneficiado por um privilégio odioso seria ele próprio se a Justiça brasileira, na tentação de proteger um ídolo caído, tivesse aceitado a tese de que a vítima era ele.

Míriam Leitão - BC: a falta que faz um plural

O Globo

Copom avisa que outro corte de meio ponto só ocorrerá mais uma vez, mas a inflação baixa e a atividade não justificam isso

Em vez de dizer que fará cortes da mesma magnitude “nas próximas reuniões”, o Banco Central escreveu que é apenas “na próxima reunião”. O plural fez falta. Ninguém tinha dúvidas de que o Banco Central reduziria a taxa de juros em meio ponto, para 10,75%. A dúvida estava no comunicado e ele veio com essa novidade. Avisou que o ritmo de queda pode ser reduzido. Em 8 de maio, a taxa deve cair para 10,25%. Mas, em junho, a queda será menor que meio ponto. Se cumprir isso estará na seguinte situação, exatamente em junho quando se espera que o FED reduza os juros, o BC brasileiro pode estar fazendo o movimento no sentido contrário. “É um erro fazer essa mudança agora”, avalia o economista José Roberto Mendonça de Barros. “Tem muito chão para baixar a Selic mesmo que não chegue a 9%”.

Malu Gaspar – Marielle e Lucinha

O Globo

Nesta semana, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, convocou a imprensa para anunciar que a delação premiada do ex-PM Ronnie Lessa, assassino de Marielle Franco e Anderson Gomes, foi homologada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Com uma expressão vitoriosa, Lewandowski afirmou que a delação “traz elementos importantíssimos que nos levam a crer que em breve teremos a solução do assassinato”. E mais não disse, nos parcos minutos em que ocupou o microfone.

A notícia gerou uma onda de otimismo com a perspectiva de, finalmente, sabermos quem mandou matar Marielle e por quê. É um alento para os familiares, para os amigos e também para a sociedade brasileira, especialmente considerando o que ocorreu no país depois do crime mais emblemático de nossa História política recente.

Maria Cristina Fernandes - Combustão bolsonarista deixa um vácuo

Valor Econômico

Rio se transformou no laboratório das dificuldades deste governo em ocupar os espaços abertos pela crise do bolsonarismo

O Rio se transformou no laboratório das dificuldades deste governo em ocupar os espaços abertos pela combustão do bolsonarismo. Da crise na saúde ao cerco sobre a milícia, a semana foi pródiga em exemplos. O indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pela suspeita de fraude no programa nacional de imunizações deveria evidenciar o contraste com uma gestão de devotos do SUS. Só que não.

Na sexta passada, a ministra Nísia Trindade publicou uma portaria criando um comitê gestor dos hospitais federais do Rio. Estava, na prática, criando uma instância acima do departamento que passou a centralizar as compras das unidades hospitalares, fatura que chega a R$ 1 bilhão por ano. Determinada por uma portaria assinada em 23 de fevereiro e publicada cinco dias depois, a centralização retomava uma prática de governos anteriores do PT, descontinuada nas gestões Temer e Bolsonaro, quando os hospitais federais passaram para a algibeira do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Mas não apenas.

Jan-Werner Mueller* - A ‘zumbificação’ dos partidos políticos

Valor Econômico

Transformar seu partido em uma autocracia é um primeiro passo lógico para também transformar seu país em uma

Entre seus atos finais como presidente do Comitê Nacional Republicano (RNC), Ronna McDaniel, pediu aos seus colegas que apoiassem as duas pessoas escolhidas por Donald Trump para substituí-la. Após aplausos efusivos, ela anunciou que nem se daria ao trabalho de perguntar se havia algum “não”. Foi um momento revelador: os procedimentos destinados a garantir um processo democrático dentro do partido foram totalmente substituídos pela aclamação.

Trump não é o único líder populista de extrema direita a ter subjugado um partido político à sua vontade. O sequestro da máquina de um partido é um padrão comum entre os populistas e aspirantes a autocratas, e a história mostra que isso pode ter consequências realmente terríveis para um sistema político democrático. Afinal, transformar seu partido em uma autocracia é um primeiro passo lógico para transformar seu país em uma autocracia.

William Waack - Bolsonaro beira o autoengano

O Estado de S. Paulo

As defesas ‘técnica’ e ‘política’ do ex-presidente enfrentam enormes obstáculos

É altíssima a probabilidade de Jair Bolsonaro ter a prisão decretada em futuro não distante. As duas linhas de defesa enfrentam barreiras formidáveis, e o principal problema é ele mesmo.

A defesa “técnica” acha que os inquéritos da Polícia Federal contêm erros de origem, como afirmar que a falsificação de cartões de vacina seria passo rumo ao golpe de Estado. Mas os investigadores apresentaram no caso específico dos cartões de vacinação um conjunto bem detalhado que vai dar trabalho para sua equipe de criminalistas.

No âmbito “técnico” da acusação de tentativa de golpe de Estado, a defesa enfrenta depoimentos contundentes de ex-comandantes das Forças Armadas que falaram como testemunhas – pesam mais do que delações. Supõe-se que a PGR montará uma peça única de denúncia, compondo com os tais cinco eixos de atuação dos investigadores um “conjunto da obra”, que vai de joias e vacinas a golpe de Estado.

Eugênio Bucci* - Consumindo Cuba

O Estado de S. Paulo

Se o país hoje desliza para o malogro, desliza menos porque perdeu um embate político e mais por ter deixado de ser objeto do desejo das massas consumidoras internacionais

Frequentadores habituais de Havana reconhecem que a ilha de Fidel Castro enfrenta a sua pior crise. Quase tudo se esvai. Da revolução que tomou o poder em 1959, quando os guerrilheiros de Sierra Maestra marcharam sobre as ruas da capital sob os aplausos de um povo sorridente e esperançoso, resta pouco além de repartições burocráticas, escassez generalizada e gabinetes de vigilância política.

Os maiores entusiastas dessa longa história de arrebatamentos sabem disso. “É desesperador. Ninguém em Havana aponta saídas”, declarou Frei Betto ao jornalista Mario Sergio Conti (Folha de S.Paulo, 1.º de março). O frade dominicano, autor do best seller Fidel e a Religião (Editora Brasiliense, 1985), traduzido em mais de 30 países, inclusive em Cuba, é uma celebridade local. Basta ele sair por las calles para que venha alguém puxar assunto. O afeto ainda é o mesmo, o calor do olhar e dos abraços ainda aquece, mas os sorrisos perderam o brilho, a esperança minguou e os aplausos escassearam. Nas palavras de Conti, Cuba está “sem futuro à vista”.

Maria Hermínia Tavares - As pesquisas e seus usos

Folha de S. Paulo

Interpretação dos números requer mais do que palpites

Três institutos de pesquisa de opinião registraram queda na aprovação do governo do presidente Lula. Os resultados são inquestionáveis; já sua interpretação requer mais do que palpites, ainda quando bem-informados. Sendo as sondagens —vá lá o chavão— retrato dos humores do momento, convém apreciá-las na sequência de outros levantamentos ao longo do tempo e cotejá-los com avaliações similares de governantes de outras democracias.

É o que sustentou o sociólogo Antonio Lavareda, tarimbado analista da matéria, no podcast "O Assunto É", no ar desde a semana passada sob o comando da jornalista Natuza Neri.

Baseado em estudo do Ipespe Analítica, ele apontou que, em conjunto, os 37 levantamentos de diferentes institutos desde fins de janeiro de 2023 revelam oscilações em torno dos 50% de aprovação, indicando ser bastante estável a atitude dos brasileiros em relação ao governo. E, por retratar a opinião da população adulta, é de fato superior à margem de votos com os quais Lula venceu Bolsonaro em 2022.

Vinicius Torres Freire - Aas ideias políticas de ‘o mercado'

Folha de S. Paulo

Gente da finança tem avaliações muito equivocadas sobre o problema fiscal do país

A "opinião" mais importante de "o mercado" é aquela que aparece nos preços dos ativos financeiros, nos movimentos de compra e venda: no dinheiro.

Para simplificar, é aquele pensamento, por assim dizer, que se manifesta objetivamente nas taxas de juros dos empréstimos para o governo, na taxa de câmbio ("preço do dólar"), no preço das ações e outros menos cotados ou de impacto mais discreto.

Não tem lá muita relevância prática a opinião política dessas pessoas que administram ou assessoram a administração do dinheiro mais ou menos grosso, afora em casos específicos de lobby pesado de gente pesada.

Fernanda Torres - Vontade

Folha de S. Paulo

Flerta-se com a possibilidade do extermínio sumário das nossas Faixas de Gaza

Li "Guerra e Paz" tardiamente, intimidada tanto pelas mais de 1.500 páginas da obra-prima de Tolstói quanto pelo glossário de nomes, sobrenomes e apelidos do romance.

O príncipe Nicolai Andreiévitch Bolkónski pode aparecer como o Príncipe, ou Nicolai, ou Andreiévitch ou Bolkónski; pai de outro príncipe, Andrei, também Bolkónski, que além de atender pelas mesmas alcunhas do genitor, volta e meia é chamado de Nicolaiévich, filho de Nicolai.

Para não se perder no enredo, é aconselhável ter uma tabela periódica dos personagens à mão. Uma vez vencida a dificuldade, no entanto, "Guerra e Paz" se revela um daqueles amigos inesquecíveis, dos quais o leitor sente saudade mesmo antes de virar a última página.

O que a minha ignorância não contava era que, ao fim da saga, Tolstói arrematasse o livro com uma tese sobre a vontade inarredável dos povos. Segundo a teoria, Napoleão seria mero agente de uma ânsia coletiva da população de se mover para o leste, assim como a resistência de Kutuzov e a subsequente vitória de Wellington, em Waterloo, seria o contrafluxo desse impulso, em direção ao oeste.

Poesia | O Amor, quando se revela, não se sabe... de Fernando Pessoa

 

Música | Dorina - Fidelidade Partidária, de Wilson Moreira e Nei Lopes

 

quarta-feira, 20 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Milei precisa saber lidar com limites políticos

Folha de S. Paulo

Reformas liberais são necessárias na Argentina, mas derrotas no Legislativo mostram que confronto é estratégia perigosa

Javier Milei completa cem dias à frente do governo argentino pouco depois de sofrer mais uma derrota legislativa que mostra seus limites políticos. Foi rejeitado pelo Senado o Decreto de Necessidade e Urgência (DNU), que declara emergência pública até o fim de 2025 e promove alterações profundas na regulação da economia do país.

A votação por 42 a 25 (quatro abstenções) contra o texto piora a já conflituosa relação entre o mandatário e o Legislativo. O placar revela dificuldades mesmo com parlamentares de centro-direita à princípio simpáticos ao novo governo, que tampouco são poupados pela retórica agressiva de Milei.

Mesmo com a rejeição, o decreto continua em vigor até que os deputados se pronunciem, o que ainda não tem data para ocorrer. Mantidas por ora, as novas regras —que eliminam subsídios à energia, removem congelamentos, cortam despesas públicas, abrem mercados e contêm o poder dos sindicatos— funcionam como pilar ainda frágil da nova política econômica.

Luiz Carlos Azedo - O cartão de Bolsonaro provocou o "efeito borboleta"

Correio Braziliense

O ex-presidente pode, sim, ser condenado por falsificar um documento do SUS, mas não é um Al Capone. É um líder político, que se diz perseguido e mobiliza seus apoiadores

Um dos mais famosos casos de investigação criminal é a prisão de Al Capone, o mafioso que comandou o crime organizado em Chicago no fim da década de 1920 e começo da década de 1930. O gangster ítalo-americano nasceu em Nova York e sucedeu Johnny Torrio no comando da máfia norte-americana, que controlava a venda ilegal de bebidas alcoólicas, proibidas nos Estados Unidos na época da Lei Seca.

Além da fabricação e do contrabando de bebidas, Al Capone comandava uma rede criminosa cujas atividades envolviam agiotagem, cafetinagem, extorsões e venda de drogas. Preso em 1931, faleceu em 1947. O filme Os Intocáveis (1987), de Brian de Palma, durante duas horas descreve a atuação dos policiais que investigaram e prenderam Al Capone, não em razão dos muitos crimes que cometeu, porém, por causa de uma fraude na declaração de Imposto de Renda.

Vera Magalhães - Nísia fica, mas até quando?

O Globo

Lula resiste a pressões e mantém ministra, mas desgaste evidencia dificuldades na gestão e inabilidade na política

O presidente Lula resolveu bancar a permanência no posto da ministra da Saúde, Nísia Trindade. Resiste, assim, à maior pressão já feita pela cabeça de um titular do primeiro escalão do atual mandato — e não localizada apenas no Centrão, mas disseminada por todas as siglas da base aliada, com apoiadores também na classe médica.

A avaliação do Planalto é que ceder ao clamor pela substituição da ministra em meio à crise sanitária do recorde de casos e óbitos de dengue seria não uma concessão, mas uma “rendição” ao Congresso, que pretende comandar a área que abarca a maior quantidade de recursos do Orçamento.

Descrita pelo ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, como “um luxo para o Brasil”, Nísia tem um currículo que justifica o aposto. Cientista social e professora universitária, foi à frente da Fundação Oswaldo Cruz de 2017 a 2022 que ela se tornou um símbolo em defesa da ciência durante a pandemia de Covid-19. Foi essa condição que a credenciou para assumir o ministério, numa clara determinação de Lula de marcar com nitidez a diferença na condução que daria à pasta, sobretudo ao Programa Nacional de Imunizações, em relação ao negacionismo de Jair Bolsonaro.

Bernardo Mello Franco – Crime sem castigo

O Globo

Juiz citou "legítima defesa" ao livrar policiais que balearam e arrastaram faxineira no asfalto

Numa manhã de domingo, Cláudia Silva Ferreira saiu de casa com R$ 6 para comprar pão. Era seu dia de folga com as crianças. Durante a semana, ela acordava às 4h30 e dava duro num hospital. Com o salário de faxineira, desdobrava-se para criar quatro filhos e quatro sobrinhos.

A caminho da padaria, foi atingida por tiros disparados pela PM. A pretexto de socorrê-la, os agentes a jogaram no porta-malas e partiram em disparada. O bagageiro se abriu, e o corpo da mulher negra, de 38 anos, foi arrastado pelo asfalto em alta velocidade. Apesar dos alertas desesperados de motoristas e pedestres, a viatura levou 350 metros para parar.

Elio Gaspari - Lula olhou para a quitanda

O Globo

O governo vai bem, tropeçando nos delírios

Assustado com as últimas pesquisas, Lula reuniu o ministério e felizmente não lançou planos, pediu aos ministros que não o fizessem e fixou-se na exposição do que vem sendo feito. Lula aproximou-se da sábia receita do professor Delfim Netto:

— Você tem que abrir a quitanda todo dia às 6 da manhã, colocar as berinjelas no balcão e conferir o caixa para ver se há troco para as freguesas.

Gerindo a quitanda, o ministro da Educação, Camilo Santana, pôs de pé o programa de ajuda aos jovens do ensino médio. Foram destinados R$ 2,5 bilhões para a criação de cem novas unidades de institutos federais de ensino. A renda dos trabalhadores melhorou, a inflação está contida, e a economia vai em frente, devagar. Isso resultou da simples administração da quitanda. Ela sempre precisa de um gerente. Se ele for também um profeta, melhor; mas, só com visões, ela quebra.

As grandiloquências de Lula na política internacional ou com o delírio da iniciativa Nova Indústria Brasil, coisa de profeta.

Zeina Latif - Sinais mais promissores na economia precisam ser cultivados

O Globo

É preciso recalibrar a política econômica, com menos artificialismo fiscal e promovendo um ambiente de negócios mais saudável ao investimento

Uma das dificuldades enfrentadas por analistas de conjuntura econômica é diferenciar os fatores transitórios dos mais duradouros que impactam a atividade econômica. Além da sazonalidade (como a decorrente de feriados) e de ruídos de curto prazo (como condições climáticas impactando a safra), há a componente cíclica (como flutuações de demanda que respondem às políticas monetária e fiscal) e a de tendência de longo prazo (associada às condições da oferta ou ao potencial de crescimento do país).

O crescimento econômico sustentado está associado à tendência da série, e não aos demais componentes.

Sob esse prisma, vale analisar as surpresas recentes nos dados de atividade econômica. Há razões para acreditar na existência de elementos mais duradouros, e não apenas transitórios, sinalizando um maior vigor da economia em relação ao passado recente.

Vera Rosa - A nova batalha entre o STF e os militares

O Estado de S. Paulo

Há divergências sobre a prisão de oficiais que souberam do plano de golpe e nada fizeram

O Supremo Tribunal Federal (STF) vai punir o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros militares que armaram a trama golpista de 8 de janeiro de 2023. Trata-se de um desfecho dado como certo pela caserna. Nos bastidores, porém, integrantes do Alto Comando do Exército mostram preocupação com o julgamento de oficiais que, embora sabendo do plano para impedir a posse do então presidente Lula, nada fizeram.

Há no STF uma divergência em relação a esse ponto. Decano da Corte, o ministro Gilmar Mendes, por exemplo, classificou os depoimentos de ex-comandantes militares como “extremamente graves”. Não foi só: disse que quem participou de reuniões para organizar a ruptura institucional será alvo de processo neste semestre.

Maria Cristina Fernandes - Lei de Acesso à Informação abriu pistas para indiciar Bolsonaro por fraude em cartão de vacinação

Valor Econômico

Dado que deu origem à investigação é resultado de inúmeros pedidos apresentados à CGU

O indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pela fraude no cartão de vacinação contra a covid-19 não é o mais grave no conjunto de acusações que pesam sobre si, mas foi a partir dela que se desenrolou o novelo que desaguou na presente investigação sobre a tentativa de golpe de Estado.

É emblemático ainda por ter sido provocado pelo uso da Lei de Acesso à Informação. Não se deu a partir de um “vazamento” para a imprensa, mas da busca de informações de uma penca de jornalistas que se valeram de um canal, gerenciado pela Controladoria-Geral da União, para ter acesso a um dado público.

Os pedidos de LAI chegaram à CGU durante o governo Bolsonaro e foram negados pela Presidência da República com o argumento de que a “intimidade” do titular deveria ser preservada. Não havia intimidade, lembra o atual titular da CGU, Vinícius de Carvalho, em torno de um tema — o rechaço à vacina — sobre o qual o próprio presidente fazia questão de alardear.

Fernando Exman - Segurança pública em debate no Planalto

Valor Econômico

Problema demanda urgente atenção e preocupa milhões de brasileiros

O anúncio da homologação da delação do assassino de Marielle Franco e Anderson Gomes gerou, além de um alívio para qualquer pessoa preocupada com o combate ao poder paralelo que desafia o Estado e a democracia no Brasil, um fato positivo na área de segurança pública do governo. O momento não é bom. É um dos setores mais criticados pela população e para virar a página de vez, avaliam fontes do governo, seria preciso efetivar a captura dos dois fugitivos do presídio de Mossoró (RN). Mas a reunião ministerial da segunda-feira (18) deu algumas pistas da estratégia que o Executivo pretende adotar para mitigar essa situação.

Em seu discurso de abertura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva citou o programa “Pé de Meia”, que prevê pagamento mensal de R$ 200 aos alunos que permanecerem estudando, e afirmou que prefere fazer esse tipo de desembolso a construir cadeias e tentando resgatar os jovens do narcotráfico. Na sequência, mencionando o programa de escola em tempo integral, deixou uma mensagem para tentar tranquilizar as mães que precisam deixar seus filhos sozinhos enquanto trabalham.

Lu Aiko Otta - Crédito para puxar economia e popularidade

Valor Econômico

Economia começou o ano com mais vigor e com isso melhoraram as projeções do mercado para 2024

Na estratégia de reação à queda na popularidade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ordem é sair da defensiva e entregar à população o que foi prometido nos palanques e nas cerimônias no Palácio do Planalto.

Na área econômica, o plano é focar nas propostas que estão em análise no Congresso, chegar a um novo entendimento com os Estados em torno de suas dívidas com o Tesouro Nacional e lançar novas medidas de estímulo ao crédito para pessoas e empresas.

Martin Wolf* - A traição de Donald Trump à Ucrânia

Valor Econômico

Entregar a Vladimir Putin uma vitória não conquistada e imerecida só prejudicará os EUA

Donald Trump, ainda não mais do que um candidato à presidência dos Estados Unidos, poderá em breve dar ao seu amigo Vladimir Putin uma vitória sobre a Ucrânia. Isso seria incrível se não estivéssemos acostumados a tais ultrajes. Alguém imaginava, antes do surgimento de Trump, que um homem que tivesse tentado anular o resultado de uma eleição presidencial seria o candidato republicano da eleição seguinte?

Hélio Schwartsman - Fogo amigo

Folha de S. Paulo

Luta pela igualdade de gêneros produziu revés para as mulheres, com a adoção, pela Dinamarca, do alistamento militar obrigatório para todos

Era uma questão de tempo até que acontecesse. A necessária luta pela igualdade entre os gêneros produziu um revés para as mulheres. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, anunciou que, a partir de 2026, as mulheres do país estarão sujeitas ao serviço militar obrigatório, que por ora vale só para os homens.

Na Dinamarca, os militares, homens e mulheres, são recrutados principalmente em bases voluntárias, mas cerca de 5.000 rapazes ainda são convocados a cada ano por um sistema de loteria. Pelos planos de Frederiksen, que deverão passar sem problemas no Parlamento, a obrigatoriedade atingirá também as mulheres e o tempo de serviço será ampliado de 4 para 11 meses.

Vinicius Torres Freire - Argentina no azul, povo no vermelho

Folha de S. Paulo

País tem superávit com arrocho feroz, que não vai durar sem plano econômico e político

Pela primeira vez, desde 2011, o governo da Argentina conseguiu gastar menos do que arrecada e ainda pagar a conta de juros em um bimestre. Teve superávit primário e nominal.

Javier Milei conseguiu tal façanha provisória porque, grosso modo, arrochou de modo feroz o valor de aposentadorias e pensões, de salários de servidores e de benefícios sociais.

Em relação ao primeiro bimestre de 2023, a despesa com Previdência caiu 31% em termos reais —isto é, além da inflação. O gasto com servidores, quase 12%. Somadas as despesas com Previdência (aposentadorias, pensões) e com benefícios sociais (como "bolsas" para famílias), a baixa foi de 24%. Cerca de 60% da redução de despesa veio daí. É o que se pode calcular das estatísticas fiscais até fevereiro.

Wilson Gomes* - Arenas políticas digitais

Folha de S. Paulo

Isso porém não quer dizer que a política institucional possa ser ignorada

Tem acontecido com muita frequência. A paisagem política institucional de um país, que se manteve constante por décadas, muda de um dia para a noite com o advento de uma nova força política. "Esta é a noite em que acabou o bipartidarismo em Portugal", anunciou o líder do Chega, André Ventura, repercutindo a mesma declaração de ruptura da velha ordem que se vem repetindo em toda parte desde 2016.

Daí decorrem os registros de inconformidade ou surpresa da maioria política não radical em sociedades de regimes democráticos. A que se seguem indagações sobre em que as democracias estão falhando e o que progressistas e liberais não conseguiram prever.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Preparem-se, vem aí as tais eleições democráticas

As regras eleitorais para as eleições municipais estão prontas. Concorrerão candidatos a prefeito, vice-prefeito, vereador de 5.500 municípios brasileiros e   um grupo de senadores que estão concluindo os oito anos de mandato parlamentar.   As Eleições serão realizadas no dia 6 de outubro e eventuais segundo turno ocorrerão no dia 27, último domingo do mesmo mês, mas apenas nas cidades com mais de 200 mil eleitores, onde os candidatos a prefeito atingir a metade mais um dos votos válidos. 

O Congresso estuda ainda as propostas para acabar com a reeleição para os cargos de prefeito, governador e presidente da República e que ampliam o mandato de senadores de 8 para 10 anos. Para acelerar a tramitação, o encaminhamento da questão caberá senador Marcelo Castro (MDB-Pi), designado relator da PEC 12 de 2022, aquela que trata do fim da reeleição e que está parada na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça).

Poesia | Pátria Minha, de Vinicius de Moraes

 

Música | Desesperar Jamais - Ivan Lins & Mariana Aydar