*Kamala Harris, candidata a vice na chapa de Joe
Baden
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
terça-feira, 3 de novembro de 2020
Opinião do dia - Kamala Harris*
Merval Pereira - Relações carnais
Acompanhei
de Nova York a eleição em 2008 que fez de Barack Obama o primeiro presidente
negro dos Estados Unidos. Me lembro da festa nas ruas, do clima de esperança
que a eleição de Obama transmitiu. O candidato republicano, John McCain, um
herói de guerra, teve comportamento exemplar durante a campanha.
Oito
anos depois, com a vitória de Donald Trump sobre Hillary Clinton, Obama fez um
belíssimo discurso, uma aula de democracia. “Esta é a natureza da democracia.
Às vezes é duvidosa e barulhenta, muitas vezes não é inspiradora. Quando o povo
vota e perdemos a eleição, aprendemos com nossos erros, fazemos reflexões. E
voltamos ao jogo. O importante é que sigamos em frente, com a presunção de
boa-fé dos nossos cidadãos. (…) Vou fazer tudo para que o próximo presidente
tenha sucesso, porque, no final, estamos no mesmo time”.
Nada
parecido espera-se para esta eleição de hoje, que o mundo inteiro acompanha com
tanta ou mais expectativa de quando o primeiro negro foi eleito presidente dos
Estados Unidos. Quebrou-se ali simbolicamente uma barreira racial, embora na
prática o racismo continue sendo um dos maiores dramas da maior potência
mundial, causa de assassinatos que, de tempos em tempos, horrorizam o mundo e
indignam a comunidade negra, que se sente ameaçada e perseguida pela polícia.
Hoje,
mais do que em 2008, está em jogo a própria democracia americana, com o
presidente Donald Trump ameaçando não reconhecer uma provável vitória de Joe
Biden, o candidato democrata que foi vice de Barack Obama. Uma derrota de Trump
terá reflexos na política de meio-ambiente internacional, na política de
direitos humanos, na própria economia mundial.
Míriam Leitão - Negros, latinos e jovens decidem
A
eleição americana, que hoje tem seu dia D, está sendo marcada pelo acirramento
do conflito racial. Foram mortes em série, desde George Floyd, e manifestações
constantes. O que agravou a tensão foi a atitude do presidente Donald Trump de
não manifestar solidariedade às vítimas e ainda se recusar a condenar grupos
supremacistas brancos. O voto dos negros sempre foi majoritariamente contra os
republicanos. Negros, latinos e jovens serão decisivos, indo ou não indo votar.
Os
latinos também votam mais azul que vermelho, mas numa proporção menor que os
negros. O banco de dados da Universidade de Cornell registra que, em 2016, 89%
dos eleitores negros votaram na candidata democrata e 66% dos latinos. Juntos,
negros e latinos são 34% do eleitorado. O grupo latino é tratado como unidade
apenas para efeito estatístico, mas é muito heterogêneo. Há uma enorme
diferença entre um brasileiro que foi para Nova York, um cubano de Miami ou o
mexicano da Califórnia.
Bernardo Mello Franco - O Trump deles e o nosso
Em
julho de 2019, Donald Trump definiu o presidente Jair Bolsonaro, logo ele, como
um “grande cavalheiro”. “Dizem que ele é o Trump do Brasil. Eu gosto disso. É
um elogio!”, acrescentou.
O
republicano poderia ter economizado a última parte. Vaidoso e egocêntrico, ele
batizou torres comerciais, condomínios, hotéis, resorts e campos de golfe com o
próprio nome. Seria estranho se não gostasse de alguém tão empenhado em
imitá-lo.
Desde
a campanha, Bolsonaro faz de tudo para ser comparado a Trump. Ele já copiou os
tuítes destrambelhados, as teorias conspiratórias, as provocações à China e os
ataques à imprensa. Só faltou besuntar o rosto com aquela pasta laranja.
Truques
lançados lá foram repetidos à exaustão por aqui. Um dos mais manjados foi
tachar de fake news qualquer
notícia incômoda para o governo. Outro foi ressuscitar o fantasma do comunismo,
como se o Muro de Berlim ainda estivesse de pé.
Pablo Ortellado* - Eleições nos EUA pautam o futuro da esquerda
Vitória
de Biden deve dar alento a estratégias eleitorais mais centristas; derrota vai
estimular correntes à esquerda
Joe
Biden construiu sua carreira política promovendo o diálogo bipartidário no
Congresso —ficou conhecido como um político
de centro que sabia compor com os republicanos quando necessário. Sua
candidatura à Presidência é uma aposta do Partido Democrata de que é mais
viável uma candidatura de centro que tenha apelo a uma base mais larga de
eleitores do que uma candidatura mais à esquerda que mobilize e estimule o
eleitorado.
Por
isso, uma vitória de Joe Biden terá grande repercussão sobre as estratégias
eleitorais da esquerda, inclusive fora dos Estados Unidos, reorientando o
debate que teve início quando Hillary Clinton foi derrotada por Trump em 2016.
A
esquerda do Partido Democrata argumenta que a vitória de Trump em 2016 se deveu
à concorrência com uma candidata centrista e pró-establishment, fria e sem
grande apelo com o eleitorado. Ela argumenta que Bernie Sanders, o principal
adversário de Hillary nas primárias, oferecia melhores respostas para os
problemas sociais e ambientais do país e que o engajamento que sua campanha
produziria aumentaria o comparecimento às urnas.
Cristina Serra - O mundo sem Trump
Sua
derrota ajudaria a resgatar um pouco de esperança
Nunca
uma eleição
foi tão crucial para os EUA, o mundo e o Brasil. A derrota de Trump é a
única opção para os que se preocupam com a democracia e o bem-estar da
civilização. Sua política criminosa de separar crianças de seus pais imigrantes
já seria motivo suficiente para desejar não só seu malogro como sua prisão por
crime de lesa-humanidade.
Mas
ele vai além, ao corroer a democracia aos poucos e por dentro, como cupim.
Trump desacredita eleições, regras e instituições. Mente e agride. Estimula
grupos racistas e milícias, investe na violência e no caos, semeia ódio.
Esticou a corda a tal ponto que se aventa a possibilidade de conflitos armados
nas ruas caso não vença. Quem diria, os EUA com vapores de república bananeira?
Hélio Schwartsman - Uma eleição paradoxal
Quanto
mais avançada uma democracia, menos importantes os resultados eleitorais
Quanto
mais avançada é uma democracia, menos importantes são os resultados eleitorais.
O paradoxo tem uma explicação. Para o regime funcionar bem, isto é, para que a
alternância se dê de forma pacífica, é preciso que os custos para o grupo que
deixa o poder sejam mínimos.
Para
tanto, é necessário que a troca de comando não produza resultados irreversíveis
nem mesmo muito dramáticos. Não é que a democracia rejeite mudanças, mas elas
precisam vir em doses moderadas, para que não seja mais tentador para quem
perde a eleição agarrar-se ao poder pela força do que ir para a oposição e
depois voltar pelo voto.
Os EUA são uma democracia avançada, mas, ao contrário da maioria dos pleitos anteriores, o resultado de hoje faz enorme diferença. O que está em jogo não é apenas a possível alternância entre um programa mais à esquerda e um mais conservador, mas sim entre um candidato que sempre se pautou pelas regras da democracia e outro que, no poder, passou os últimos quatro anos testando seus limites. Pior, um candidato que se recusa até mesmo a comprometer-se em aceitar os resultados da eleição se estes não lhe forem favoráveis.
Eliane Cantanhêde - Falando sozinho
Risco
de derrota de Trump é bom para mundo, EUA e Brasil, mas péssimo para Bolsonaro
Os
eleitores norte-americanos não estão decidindo entre o republicano Trump e o
democrata Joe Biden,
mas, sim, fazendo um plebiscito, a favor ou contra Trump, estivesse quem
estivesse do outro lado. Casou de ser Biden, com uma vice poderosa, Kamala Harris, mulher, negra, filha de
imigrantes e defensora ardorosa dos princípios que dão sustentação à democracia
americana: direitos humanos, igualdade, justiça.
Trump usou o “America First” para escamotear o “só America, dane-se o resto” e bombardear o multilateralismo, a começar da ONU, da Organização Mundial do Comércio (OMC) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), em plena pandemia. Se confirmado presidente, Biden retornará ao Acordo de Paris e a todas elas. Para alívio geral, menos para regimes populistas de extrema direita, como os da Hungria, Polônia e Brasil, que ficarão isolados.
Luiz Carlos Azedo - O que está em jogo
A
maioria das pesquisas aponta a vitória de Biden, mas há cenários em que é
possível a reeleição de Trump, mesmo que a maioria dos eleitores tenha votado
no democrata
O
mundo acompanha com grande expetativa as eleições norte-americanas, com as
pesquisas de opinião apontando o favoritismo do democrata Joe Biden.
Entretanto, o presidente republicano Donald Trump não se deu por vencido e
trabalha abertamente para melar o resultado das eleições. Faz uma aposta no
tapetão da Suprema Corte, cuja maioria é bastante conservadora, prometendo
judicializar o pleito. Deseja questionar os votos por correspondência e não
pretende aguardar o resultado final da apuração das urnas, declarando-se
vencedor, caso nas primeiras 24 horas de contagem dos votos esteja em vantagem
em relação a Biden.
Ontem,
mais de 90 milhões de cidadãos norte-americanos já haviam votado e são
exatamente os votos dos últimos dias, que vão se somar aos de hoje, que
retardarão o resultado da contagem. A maioria das pesquisas aponta a vitória de
Biden, mas há cenários em que é possível a reeleição de Trump, mesmo que a
maioria dos eleitores tenha votado no democrata. Porque eleição do presidente
dos Estados Unidos se dá num colégio eleitoral, cujos delegados são eleitos em
bloco nos estados, não importa a proporcionalidade de votação dos candidatos.
Simplesmente, quem ganha a votação no estado indica todos os seus delegados.
Ricardo Noblat - Ganhe Trump ou Biden, a eleição de hoje já passou à história
Nunca
tantos votaram tão cedo
A
eleição presidencial norte-americana de 2020 já garantiu seu lugar na história.
Em um país onde o voto não é obrigatório, até o final da tarde de ontem,
pessoalmente ou pelo Correio, 97,6 milhões de pessoas já haviam votado. Isso
significa mais de dois terços do número total de votos apurados na eleição de
2016.
No
último dia de campanha, na maioria dos cinco comícios que fez em quatro
Estados, o presidente Donald Trump atacou a Suprema Corte onde 6 dos 9
ministros são conservadores. Trump disse que tribunal pôs o país em perigo ao
permitir que a Pensilvânia aceite votos que chegarem pelo Correio após o dia da
eleição.
Segundo
Trump, a decisão da Suprema Corte foi política e poderá estimular manobras
fraudulentas dos seus adversários. No Twitter, escreveu que ela seria capaz até
de induzir “à violência nas ruas”. De imediato, o Twitter classificou as
afirmações do presidente como potencialmente falsas e alertou os seus usuários
para isso.
José Casado - O custo do amadorismo
Brasil
nunca foi e dificilmente será prioridade na agenda americana
O
resultado da eleição americana vai moldar a segunda metade do mandato de Jair
Bolsonaro. A embaixada em Washington tem procurado líderes republicanos e democratas
para reafirmar o interesse num amplo acordo econômico e de defesa com Donald
Trump ou Joe Biden.
Isolado,
com seu chanceler já oficializando a condição de “pária” no mundo, Bolsonaro
tenta garantir nos EUA uma apólice de seguro na travessia da crise global. Além
disso, passa noites insones devaneando na crendice de que as colunas da Casa
Branca ocultam o portal de “salvação do mundo” — como define o Itamaraty — da
força da China.
O
Brasil nunca foi e dificilmente será prioridade na agenda americana. Mas
Bolsonaro se oferece, propenso a pagar o sobrepreço inerente ao notável
amadorismo diplomático.
Carlos Andreazza - Água dura em pedra mole
Jair
Bolsonaro é um autocrata em busca de brechas
Não
dará em coisa alguma (agora). Mas importa examinar o padrão; sobretudo se o
leitor estiver entre os que acreditam que água mole em pedra dura tanto bate
até que fura. Não sendo irrelevante considerar que a pedra talvez não seja tão
dura; e que a água tenda a endurecer depois, por exemplo, de uma reeleição.
O
padrão: todo governo de natureza autoritária, tanto mais se com dificuldades
(por razão de incompetência) em tocar agenda, solta balões de ensaio para
testar campo a uma nova Constituição. Tem sido assim no Brasil. Um país de
cultura constitucional inexistente, vazio propício a que governantes
populistas, com compreensão utilitária da República, especulem frequentemente
sobre um processo constituinte que resultasse em conjunto de leis a lhes facilitar
a vida.
O
faro oportunista-personalista de que a ocasião possa fazer Constituição deriva
da deturpação antiliberal segundo a qual Constituição seria estorvo. O espírito
do tempo é autoritário, empecilho também sendo a democracia representativa. A
mentalidade, patrimonialista, donde a busca por legislação desamarrada da
impessoalidade republicana.
Jair
Bolsonaro é um autocrata em busca de brechas. O populismo de oportunidades aí
só está, em fase influente, porque houve Fabrício Queiroz e Alexandre de Moraes
(com seu inquérito inconstitucional) para desacelerar o motor golpista. (Que
voltará a girar.) Só por isso Ricardo Barros, o proponente de turno da
Constituinte, é líder do governo na Câmara. Ele é a busca por brechas ora
possível ao presidente — e, diante da baixa adesão à sua ideia de nova
Constituição, sempre poderá recorrer ao “falava por mim quando a apresentei”.
Joel Pinheiro da Fonseca* - Nas urnas, a vitória é brasileira
Em
termos de mecânica democrática, o Brasil dá de 7x1 nos EUA; nossa urna
eletrônica é simples, segura e rápida na apuração
Aguardamos
ansiosos o início da apuração americana na noite desta terça-feira (3). Muitos
brasileiros torcem por Biden, que as pesquisas dão como favorito. Só não abra o
champanhe ainda. Ninguém ganha eleição de véspera. E, além disso, o gás já vai
ter acabado quando o resultado definitivo for finalmente computado e
oficializado.
Em
termos de mecânica democrática, o Brasil dá de 7x1 nos EUA. Nossa urna
eletrônica é simples, segura e rápida na apuração. A Justiça Eleitoral
garante que a organização e contagem dos votos fique acima das disputas
políticas.
Assim
que se contabilizam os resultados, resta aos candidatos apenas aceitar. Bolsonaro
bem que tentou atacá-las, mas até agora o populismo brasileiro foi inócuo
contra a confiança nas urnas.
Nos
EUA, a coisa é diferente. O sistema eleitoral descentralizado, com regras do
século 18 e que fica nas mãos da política local é prato cheio para o populismo.
As dificuldades impostas para se registrar como eleitor e o fato de se ter que
votar em dia de semana —sem justificar a falta no trabalho— dificultam o voto
para os mais pobres (não raro, negros) em muitos estados.
Paulo Hartung* - Cidades inteligentes, sustentáveis e humanas
Que
estas eleições sejam mais um passo para fortalecer os valores humanísticos.
Em
poucos dias o País vai às urnas para o primeiro turno das eleições municipais.
Trata-se de um pleito marcado por peculiaridades importantes. A primeira é que
ocorre em meio a uma pandemia agoniante e terrível nos planos sanitário e
socioeconômico, exigindo novos protocolos num dos momentos mais desafiantes
para as atuais gerações.
Estamos
testemunhando o fim das coligações proporcionais, o que deve mudar o quadro
partidário nacional, algo necessário e urgente. Há ainda o aumento da inserção
de movimentos cívicos. O voto é importante, mas não se encerra aí a
participação da sociedade civil. Nestas eleições podemos destacar candidaturas
oriundas de iniciativas dedicadas a estimular e formar jovens para o mundo da
política, como o Livres, o Raps e o RenovaBR.
Só
a partir do RenovaBR se colocaram 1.032 candidatos, sendo 115 a prefeito, filiados
a 29 dos 33 partidos brasileiros, em 398 cidades de todos os Estados. É um
esforço para preencher o enorme vazio de lideranças no nosso país. A esperança
é que os partidos se inspirem e assumam também a formação de novos quadros.
Luiz G. Belluzzo e Elias Jabbour* - A China e seus 50 anos em 5
No
Brasil, o governo está obcecado com a cor do gato. Se o gato é capaz de caçar
ratos, isso não interessa
O
professor Yu Yongding observou, recentemente no Valor (“A estratégia de
‘dupla circulação’ da China, 30/09/2020) que “a politica de dissociações e
ações do governo Trump deixaram a China sem escolhas a não ser dobrar a ligação
do crescimento econômico com a demanda doméstica, para garantir uma posição
sólida nas cadeias globais de valor”. Eis um raciocínio. Por outro lado, ainda
na chamada “geoeconomia”, o prestigiado professor Lanxin Xiang, autor de um
verdadeiro best seller lançado recentemente (“The Quest for Legitimacy in
Chinese Politics”, Routledge) tem sintetizado um grande debate que ocorre nos
círculos intelectuais chineses sobre o abandono, por Xi Jinping, do conselho
original de Deng Xiaoping de que a China deveria esperar seu tempo e manter um
perfil discreto.
O
que determinadas discussões acadêmicas sobre a China acabam não levando em
consideração é que Deng Xiaoping, um homem capaz de apontar o dedo no horizonte
como poucos no século XX, não poderia prever duas ordens de acontecimentos,
inter-relacionados: 1- A financeirização das economias ocidentais tornou muito
mais instável a instabilidade sugerida por Hyman Minsky, o que suscitou ameaças
à legitimidade das chamadas “democracias liberais” e 2- A China simplesmente
aproveitou as brechas históricas abertas diante de si para avançar em
velocidade máxima, tanto nos caminhos das cadeias globais de valor quanto nos
territórios econômicos externos.
Os
chineses partem para a execução de seu 14º Plano Quinquenal, em meio a
instabilidades e incertezas, apetrechados dos recursos institucionais e
políticos para arrostar as ameaças à paz sonhada por Deng para o
desenvolvimento do país. O que poderia ocorrer somente em 2049 foi antecipado
em quase 30 anos.
Os
“neo-institucionalistas” Douglas North, Daron Acemoglu e outros, insistiram em
previsões equivocadas a respeito do destino da China ao ignorar as peculiaridades
do arranjo institucional construído pacientemente depois das reformas iniciadas
no crepúsculo dos anos 70. Hoje, essas instituições peculiares se preparam para
mais uma resposta que pode botar de queixo-caído os profetas da desgraça.
O QUE A MÍDIA PENSA – Opiniões / Editoriais
Eleição
americana é decisiva para o futuro dos Estados Unidos, do Brasil, do planeta —
e da democracia
‘Uma República, se puderem mantê-la.’ Com tais
palavras, Benjamin Franklin definia, ao final da Convenção da Filadélfia, o
sistema de governo criado pela Constituição escrita naquelas semanas de 1787 —
que resultaria, nas 23 décadas seguintes, na democracia mais longeva, mais
próspera e mais bem-sucedida do planeta. Nunca a manutenção daquela República
esteve tão em xeque quanto na eleição de hoje, transformada numa espécie de
plebiscito em que os americanos escolherão se ficam com Donald Trump no poder
ou o trocarão pelo democrata Joe Biden.
O
comparecimento promete ser recorde. Pelo menos 98 milhões, ou 71% do
eleitorado de 2016, já haviam votado pelo correio ou pessoalmente até ontem. No
Texas, um dos estados mais disputados, a votação antecipada já superava a de
quatro anos atrás na última sexta-feira. Num país onde o voto é facultativo,
tamanho engajamento em plena pandemia dá uma dimensão do que está em jogo.
Uma
vitória de Trump traria não apenas uma surpresa maior do que quando ele
desafiou todas as previsões e derrotou Hillary Clinton. Não é exagero afirmar
que seria a maior ameaça já vista àquele sistema descrito por Franklin. A
reeleição de um presidente cujo comportamento nada republicano guarda ecos dos
monarcas e autocratas lançaria o país, nas palavras do analista Michael Hirsh,
“como mais um dejeto na pilha de cinzas das repúblicas fracassadas que se
estende à Grécia e Roma antigas”. Os Estados Unidos se tornariam, segundo o
cientista político Eliot Cohen, “não um estado fracassado, mas uma visão
fracassada, uma potência em declínio cujo tempo passou”.
Quem
quer que vença —pode levar semanas até sabermos —, as feridas permanecerão
abertas num país rachado ao meio, onde o fantasma da secessão continua a
assombrar. Além do terremoto interno, o resultado repercutirá em todo o
planeta. O isolacionismo de Trump fez recrudescerem o risco climático, a
proliferação nuclear, as disputas comerciais. Um segundo mandato traria um
divórcio mais duradouro dos europeus, um conflito mais acirrado com os chineses
e uma influência mais abrangente de atores perniciosos como Rússia ou Irã.
Poesia | Carlos Drummond de Andrade - O Amor bate na porta
Cantiga do amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.
Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito!
O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
Rubens Ricupero - Maré antidemocrática está em jogo
Nenhum país possui a capacidade de pautar a agenda mundial como os Estados Unidos. A última vez em que isso aconteceu de maneira brutal e instantânea foi em 2016, com a eleição de Donald Trump. Antes, ao menos em duas ocasiões sucedera algo parecido: em 1932, com a eleição de Franklin Roosevelt, e em 1980, com a de Ronald Reagan. O que existe em comum entre personalidades tão contrastantes?
Todos
foram homens de ruptura com o que se vinha fazendo até então, todos chegaram ao
poder em meio a crises graves, todos tinham total autoconfiança na capacidade
de mudar os acontecimentos. Os outros presidentes, mesmo Barack Obama, não
foram homens de ruptura, não inauguraram novas eras, não mudaram o mundo.
Roosevelt
encontrou um país prostrado pela Grande Depressão e o capitalismo em crise
profunda. Reformou com o New Deal o sistema capitalista, inaugurou o Estado do
bem-estar e o ativismo do governo em matéria social e econômica. Liderou os
aliados na derrota do nazifascismo na Segunda Guerra Mundial.
Sua
influência só foi superada com Reagan, que abandonou o keynesianismo, sustentou
que o governo era o problema, não a solução, desregulamentou as finanças,
acelerou a globalização. Peitou Moscou na corrida armamentista, contribuindo
para o fim da Guerra Fria e da União Soviética.
Esse
poder americano de definir a agenda não depende só da riqueza ou da força
militar. Tem muito a ver com o fato de que, há mais de 100 anos, os americanos
fazem a cabeça do mundo com o cinema, a música, a TV, as histórias em
quadrinho, o streaming, a internet, as mídias sociais. É um poder para o bem e
para o mal, para construir e destruir.
Fernando Gabeira - O perigoso esporte de humilhar general
A
humilhação repercute no respeito que as pessoas têm pelas Forças Armadas
Com
a redemocratização, conheci alguns generais. Um deles visitava nossa casa para
alegria das crianças. Era o bisavô das meninas, já nos últimos anos de vida.
Serviu no Brasil profundo, tinha memórias de índios e do mato.
Um
dia ele me contou que o médico íntimo dele, antes de operá-lo, aplicou a
anestesia e perguntou: “Quer dizer que o senhor é o general da banda?” Ele
tentou responder, mas dormiu com um sorriso nos lábios.
“General
da banda” é uma canção antiga, regravada por Astrud Gilberto, que dizia:
“Chegou o general da banda, eh eh/ Chegou o general da banda eh ah”. Era
possível brincar com um velho general. Mas seria impensável desrespeitá-lo.
Quando
leio nos jornais que há um plano para humilhar generais, minha reação inicial é
esta: um general não se deixa humilhar.
Mas,
ao longo destes anos compreendi também que, assim como nos outros ofícios, há
diferenças entre as pessoas. Nem todas se comportam da mesma maneira. Há
generais que entraram no governo pensando num trabalho sério. Santos Cruz foi
golpeado por intrigas. Saiu e hoje é um crítico sensato dos descaminhos de
Bolsonaro.
Rêgo
Barros foi um dos generais que conheci, como jornalista. Era a interface com o
Exército, coordenava a comunicação. Fui visitá-lo algumas vezes no Forte
Apache, na tarefa de preparar programas de TV sobre algumas ações militares que
me interessavam.
Carlos Pereira - A hora da moderação
Incerteza
e insegurança trazidas pela pandemia abrem caminho para moderação política
Já
é possível observar claros sinais de arrefecimento da polarização política que
varreu o mundo, especialmente a partir da crise financeira internacional de
2008.
A
disputa entre grupos polarizados estava em relativo “equilíbrio” com cada polo
se nutrindo da oposição radicalizada de identidades e preferências políticas.
Grupos polares, tanto à esquerda como à direita, se retroalimentavam. Não
dialogavam entre si e tendiam a consumir informações que só reforçavam suas
crenças anteriores. Ao mesmo tempo, rejeitavam qualquer informação que
contrariasse seus valores prévios. Portanto não faziam atualizações que pudessem
colocar em risco suas respectivas “zonas de conforto” identitárias. O espaço
para alternativas moderadas que buscam o eleitor mediano ficou bastante
reduzido.
A
manutenção de um ambiente polarizado é o ideal para a viabilização eleitoral de
candidatos extremos, como o presidente Donald Trump. Entretanto,
a grande maioria dos institutos de pesquisa projeta que o candidato
democrata, Joe Biden,
é o franco favorito, com 90% de chances de derrotar o atual presidente.
Ao
contrário de Trump, um outsider com perfil populista e antissistema, Biden é um
típico representante da política tradicional americana. Uma espécie de
candidato livre de surpresas, representando estabilidade, previsibilidade,
segurança e, fundamentalmente, moderação.
Assim
como nos EUA, a polarização política tomou conta do Brasil, especialmente a
partir das grandes mobilizações de massa que varreram o País em 2013. As eleições
de 2018 testemunharam uma escalada da polarização política tanto na grande
massa quanto na elite. Naquela ocasião, o número de eleitores que votaram num
candidato de um dos polos se aproximou daquele relativo aos que expressaram
forte rejeição ao candidato oponente. Os candidatos de centro não tiveram a
menor chance e o eleitorado moderado ficou literalmente órfão.
Marcus André Melo* - O mito das instituições perfeitas
O
colégio eleitoral americano está na berlinda e lhe tem sido atribuído todo tipo
de distorção, como a eleição do candidato em segundo lugar em número de votos.
Mas o fenômeno do "ganhador errado" não decorre dele nem é
tipicamente americano: aconteceu em outros lugares, como a Nova Zelândia nas
eleições de 1978 e 1981.
O
resultado esdrúxulo é produto da adoção da regra majoritária e é independente,
como podemos ver, do sistema de governo (parlamentarismo ou presidencialismo).
No caso dos EUA, bastaria que a escolha dos delegados fosse proporcional aos
votos obtidos no estado que as distorções seriam eliminadas mesmo com um
colégio eleitoral. Mas o arranjo persiste, como já discuti
aqui. E é um mito que sempre favorece
os republicanos.
Na
Nova Zelândia, a mudança foi deflagrada por um forte choque: ganhadores errados
em duas eleições seguidas. Ela contou com o apoio dos dois principais partidos
para a realização, em 1992, de um referendo para adoção de um sistema misto,
que foi aprovado por 85%
dos votantes.
Celso Rocha de Barros* - A maré vira amanhã?
Ao
que tudo indica, nesta terça-feira (3) Donald
Trump se tornará um presidente de um mandato só. As pesquisas são
favoráveis a Biden, e, se elas errarem só o que erraram em 2016, Biden ainda
ganha. O site 538, do estatístico norte-americano Nate Silver, dá a Trump pouco
mais de 10% de chance de vencer a eleição. Não é zero. É
o risco de morte de quem faz roleta-russa com uma arma de dez tiros. Mas é
pouco.
É
possível que Trump não aceite a derrota e tente ganhar no tapetão. Grande parte
da votação já ocorreu por correspondência, por causa da pandemia. Trump pode
sair em vantagem no início da contagem, quando os votos por correspondência ainda
não tiverem sido totalmente contados.
No
cenário golpista, declararia vitória enquanto estivesse na frente e montaria
uma ofensiva jurídica para interromper contagens estaduais por um motivo ou
outro. Para
isso contaria com sua recém-adquirida maioria na Suprema Corte e com
os juízes federais que nomeou nos últimos anos. Temendo conflitos de rua em caso
de impasse, a rede de supermercados Walmart interrompeu a venda de armas até a
confusão passar.
Catarina Rochamonte* - A Constituinte do centrão
Em
uma de suas frases acerbas a respeito da nossa Carta de 1988, Roberto Campos a descreve
como "saudavelmente libertária no político, cruelmente liberticida no
econômico, comoventemente utópica no social." Essa é, de modo geral, a
visão liberal acerca da atual Constituição. Reavaliá-la deve estar no horizonte
político, e o Congresso guarda poder para modificá-la através de emendas.
Embora
seja possível uma nova Constituinte,
ela configura uma ruptura com a ordem em vigor e normalmente resulta de lutas
sociais, revoluções ou golpes de Estado. Pode resultar também de um descarado
oportunismo político, como é o caso do projeto que o líder do governo, Ricardo
Barros, pretende submeter ao Congresso no sentido de viabilizar um
plebiscito para uma nova Constituinte. Felizmente a proposta está sendo
amplamente repudiada.
Tentando
evitar desgastes ao governo, o general Mourão disse que a ideia de Barros foi
um "voo solo". Não convence. O líder de Bolsonaro é um dos ases do
fisiologismo político e sempre vai por onde sopra o vento coletivo do centrão.
Em seguida, veio o próprio Barros dizer que errou "em não consultar o
governo antes". Convence menos ainda. Até porque ele continua a tocar o
projeto sem nenhum óbice por parte do presidente.
Almir Pazzianotto Pinto* - Liberdade para trabalhar
Regulamentação
pode destruir avançada e liberal forma de trabalho assalariado
O
trabalhador, tal como o conhecemos hoje, é fruto da primeira Revolução
Industrial. Sua existência como classe data do final do século 18. Surge com a
invenção das primeiras máquinas de fiar e de tecer na Inglaterra. Até então
esse trabalho era executado em casa, com a utilização de equipamentos toscos,
de reduzida capacidade produtiva.
A
esse respeito escreveu Jurgen Kuczynski: “Antes de la introducción de las
máquinas, el hilado y tejido de materias primas se hacía em la casa del
trabajador. Su mujer y su hija hilaban el hilo que el marido tejía; o bien lo
vendían cuando el padre de família no lo trabajaba en persona. (...) De esta
manera vegetaban los trabajadores en una existencia tranquila, llevando una
vida pacífica y ordenada llenos de piedad y dignidade. Su bienestar material
era mucho mejor que el de sus sucessores” (Evolución de la Classe Obrera, Ed.
Guadarrama, Madri).
A
Revolução Industrial provocou o aparecimento de grandes unidades industriais
construídas pela iniciativa privada. Karl Marx sintetiza de forma magistral a
passagem da economia rudimentar para o processo de produção industrial. Leia-se
o que escreveu no Manifesto do Partido Comunista, cuja primeira edição
inglesa data de 1850: “A indústria moderna transformou a pequena oficina do antigo
mestre da corporação patriarcal na grande fábrica industrial capitalista.
Massas de operários, amontoados nas fábricas, são organizadas militarmente.
Como soldados da indústria, estão sob a vigilância de uma hierarquia completa
de oficiais e suboficiais. Não são somente escravos da classe burguesa, do
Estado burguês, mas também diariamente, a cada hora, escravos da máquina, do
contramestre e, sobretudo, do dono da fábrica. E esse despotismo é tanto mais
mesquinho, odioso e exasperador quanto maior é a franqueza com que proclama ter
no lucro seu objetivo exclusivo”.
Carlos Sampaio* - Risco ambiental e econômico
Não
podemos dar argumentos para países criarem barreiras para nossos produtos
O
Brasil sempre atraiu a atenção do mundo na questão ambiental pela sua riqueza.
E o fator econômico contribui para elevar as cobranças sobre o nosso país, um
dos principais players no disputado mercado internacional de commodities. Ainda
mais quando se discute o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia,
anunciado no ano passado, depois de 20 anos de negociação.
O
acordo eliminará tarifas de importação para mais de 90% dos produtos
comercializados entre os dois blocos, mas ainda precisa ser ratificado por cada
um dos países-membros. Há, portanto, muitas resistências a vencer.
Assim,
não podemos dar argumentos para países criarem dificuldades ao acordo ou
barreiras para nossos produtos, alegando que o Brasil não protege o meio
ambiente. A França, por exemplo, já expressou essa posição.
Neste
momento, em nada ajudam iniciativas ou omissões que possam lançar desconfiança
sobre a política ambiental brasileira. A revogação pelo Conselho Nacional do
Meio Ambiente de resoluções para a proteção de áreas de restinga, manguezais e
outros sistemas sensíveis — derrubada depois pelo STF — é a polêmica mais
recente.
Cacá Diegues - Um novo modo de ver o mundo
As
redes sociais deviam ser um instrumento de conhecimento, como a ciência
Miles
Taylor, ex-chefe de Gabinete do Departamento de Segurança Interna dos EUA,
acaba de se identificar como autor do artigo publicado como anônimo pelo “New
York Times” há cerca de dois anos. No artigo, que o jornal informava apenas ter
sido escrito por um colaborador do presidente, Taylor dizia que Trump era
contraditório, mesquinho, ineficaz, amoral, um risco para as instituições
democráticas do país. Na época, Trump mandou abrir investigação entre seus
funcionários para descobrir o autor. Agora, Taylor pediu demissão de seu cargo,
sem nunca ter sido descoberto.
Ainda
no mundo do inesperado, Donald Trump, depois de empossado, demitiu de sua
assessoria o famoso Steve Bannon, criador do sistema de fofocas e mentiras
virtuais, as célebres fake news que, pelas redes sociais, o haviam elegido.
Demitido, Bannon se mandou para a Itália, onde foi assessorar o populismo de
direita que tomou o poder com o Movimento 5 Estrelas e a Liga. Reclamando do
tratamento de Trump, Bannon foi consolado por fãs e discípulos de todo o mundo.
Como Eduardo Bolsonaro, que o visitou e prestou homenagens ao mestre.
O
reencontro de velhos inimigos jurados, assim como desavenças definitivas entre
aliados de sempre, é mais ou menos uma constante na prática política de hoje em
dia. Podíamos simplificar, dizendo que essa é uma das consequências do moderno
embaralhamento ideológico. Ou do fim das ideologias com rigor de catecismo. Mas
há outras razões, além dessas.
Demétrio Magnoli - A China vota vermelho
Todos
os governos têm muito em jogo nas eleições presidenciais da superpotência
global
Vermelho
ou azul? Nos EUA, vermelho é a cor dos republicanos; azul, dos democratas.
Todos os governos do mundo têm muito em jogo nas eleições presidenciais da
superpotência global — e cada um deles acalenta, secreta ou abertamente, uma
preferência. Quem “vota” em Joe Biden? E em Donald Trump?
A
Europa está dividida. No núcleo da União Europeia, Alemanha, França, Itália e
Espanha são Biden, o candidato democrata que promete restaurar a aliança
transatlântica tão desprezada por Trump. Mas o Reino Unido de Boris Johnson não
segue o rumo dos vizinhos, inclinando-se pelo republicano que ergueu um brinde
ao Brexit e acena com um acordo privilegiado de comércio com os britânicos.
Trump
é o cara, na opinião do húngaro Viktor Orbán e do polonês Andrzej Duda, líderes
nacionalistas, populistas e xenófobos da Europa Central. Recep Tayyip Erdogan,
presidente autocrático da Turquia, vai na mesma direção, mas por motivos menos
ideológicos. Ele aposta no isolacionismo do republicano para prosseguir sua
agressiva política externa, que exige acordos com a Rússia, ataques aos curdos
sírios, pressão sobre a Grécia e tensão perene com a União Europeia.
Israel
e Arábia Saudita estão fechados com Trump, o promotor de um “plano de paz”
baseado numa coalizão regional anti-iraniana e na negação dos direitos
nacionais palestinos. O Irã oscila, o que reflete a cisão entre o Estado
teocrático e o governo moderado. Ali Khamenei, Líder Supremo, “vota” Trump, uma
garantia de confronto com os EUA e, portanto, de hegemonia da “linha-dura”
doméstica. Por outro lado, o presidente Hassan Rouhani “vota” Biden, que
recolocaria os EUA no acordo nuclear, dando fôlego à economia iraniana.
Entrevista |'Reeleição de Trump traria dúvidas até sobre eleições livres nos EUA em 2024', diz Yascha Mounk*
Marcos Augusto Gonçalves – Folha de S.
Paulo
SÃO PAULO - Num pleito presidencial épico, que mobiliza como nunca as atenções dos Estados Unidos e do mundo, a escolha entre a permanência do republicano Donald Trump na Casa Branca ou a eleição do democrata Joe Biden representará uma decisão histórica sobre o futuro da democracia.
“Uma
vitória de Biden seria uma enorme dádiva para a democracia americana”, diz o
cientista político Yascha Mounk, professor
associado da universidade Johns Hopkins e autor de “O Povo contra a Democracia”
(Companhia das Letras, 2019).
Em
entrevista à Folha,
ele avalia que uma eventual reeleição de Trump, o mais valioso aliado de
governantes hostis às instituições democráticas, em países como Índia, Polônia,
Filipinas e Brasil, aprofundaria a crise existencial das democracias e lançaria
incertezas até mesmo sobre as perspectivas de eleições livres e justas nos EUA
em 2024.
Mounk
considera que Biden, caso eleito, enfrentaria dificuldades, mas tenderia a
manter seu perfil moderado no governo, em que pesem as pressões que sofrerá, a
começar pelas da ala mais à esquerda do Partido Democrata.
O
cientista político também opina sobre o papel de um Trump relegado à oposição e
levanta hipóteses sobre o futuro do Partido Republicano. Analisa, ainda, as
possíveis mudanças nas relações que uma administração democrata teria com
Rússia e China.
Uma
vitória de Trump provavelmente reforçaria a onda conservadora internacional. No
Brasil, seria quase uma vitória pessoal do presidente Jair Bolsonaro. No plano
internacional, seriam mais quatro anos de ataques ao multilateralismo. A ameaça
às democracias seria renovada?
Nos
últimos quatro anos Donald Trump enfraqueceu
significativamente as instituições democráticas nos Estados Unidos.
Além disso, tem sido o aliado mais valioso de populistas autoritários que
procuram enfraquecer a democracia, em países que vão da Índia às Filipinas.
Se
ele for reeleito, a crise existencial da democracia vai se intensificar. Nesse
caso, deixaremos de ter a certeza de eleições livres e justas nos EUA em 2024 e
será ainda mais provável que a democracia seja enfraquecida nos países onde ela
está lutando para sobreviver neste momento.
Na
hipótese de uma derrota de Trump, o populismo de direita tenderia, em tese, a
se enfraquecer. Mas a polarização vai prosseguir de alguma forma. Você acredita
que um Trump derrotado exerceria algum papel como opositor ou tenderia a sair
de cena, como costuma ocorrer com ex-presidentes americanos?
Uma
derrota de Donald Trump será uma enorme dádiva para a democracia americana.
Embora muitos dos problemas do país provavelmente devam continuar refratários,
teríamos uma administração progressista, decente, de visão humanitária, que
respeita os direitos de seus adversários no poder. Também seria a expressão do
desejo de muitos americanos de superar o clima de confrontação e ódio mútuo dos
últimos quatro anos.
Joe
Biden venceu as primárias e pode vencer a eleição geral porque desde o primeiro
momento sua candidatura apostou na ideia de que esta é uma luta pela
reconciliação e pela alma da América. É claro que Donald Trump provavelmente se
recusará a aceitar a legitimidade da eleição e fará o que puder para instigar a
divisão por meio do Twitter.
Eu
imagino, porém, que se for derrotado por uma margem mais ou menos ampla ele
conseguirá atrair menos atenção do que tem sido o caso até agora. A atração que
ele exerce sempre foi a do vencedor, mas, se ele perder e for rejeitado pela
maioria da população americana, isso enfraquecerá sua posição seriamente.



























