quarta-feira, 29 de junho de 2022

Vera Magalhães: O salve-se quem puder com a CPI do MEC

O Globo

O governo Jair Bolsonaro é marcado pelo amadorismo em todas as suas ações. A reação apavorada, tardia, atabalhoada e, por tudo isso, cara para os cofres públicos à CPI do MEC é típica de um agrupamento disfuncional que não enxerga um palmo adiante do nariz.

Basta lembrar que, pouco mais de uma semana atrás, o mesmo governo trapalhão garganteava a possibilidade de ele próprio encabeçar a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a Petrobras, empresa de que é sócio majoritário. CPIs, deveria ser desnecessário dizer, são instrumentos de minorias para se contrapor à força de impedir apurações exercida por… governos.

A bravata funcionou para que José Mauro Coelho antecipasse sua saída do comando da Petrobras, pouco mais de 40 dias depois de ter sido designado para o cargo pelo próprio Bolsonaro, que passou a chantageá-lo. E, claro, a CPI governista nunca saiu do papel, que aceita tudo.

Agora, com a CPI do escândalo dos pastores do MEC, a coisa muda de figura. Faltou um mínimo de articulação ao governo para impedir que a oposição conseguisse as assinaturas necessárias para apresentar o requerimento: na verdade, sobraram assinaturas, num sinal evidente de tibieza do governo na Casa.

Diante da constatação, que deveria ser óbvia se o governo contasse com o mínimo de articulação política, de que Rodrigo Pacheco não pretende matar no peito este caso como tentou fazer com a investigação sobre as ações do governo na pandemia, instalou-se um deus nos acuda no Planalto.

Bernardo Mello Franco: Da Arena ao Centrão

O Globo

Uma ditadura não se impõe apenas pela força das armas. Depende do apoio de civis interessados em extrair vantagens do arbítrio. Em 1964, políticos, empresários e setores da classe média incentivaram os militares a dar o golpe. Uniram-se pela resistência às reformas de base, pelo medo do comunismo e pelo desejo de ocupar o poder sem a obrigação de vencer eleições.

Depois das primeiras levas de cassações, a ditadura extinguiu os partidos políticos e impôs um sistema de duas legendas. A oposição consentida se agrupou no MDB. Os governistas fundaram a Arena, que chegou a se apresentar como o “maior partido do ocidente”. Um dos próceres da sigla, Célio Borja, morreu ontem aos 93 anos.

Ex-udenista, professor de direito, Borja chegou ao Congresso no governo Médici. Sua ascensão coincidiu com os anos de chumbo, quando a ditadura usou o AI-5 para prender adversários e amordaçar a imprensa. Em 1974, já sob o governo Geisel, virou líder da Arena. No ano seguinte, foi alçado à presidência da Câmara.

Quando o golpe fez 50 anos, o jurista recebeu um repórter em seu escritório em Copacabana. Entre bicadas no cafezinho, saiu em defesa dos antigos chefes: “Ditadura, nunca houve. O que se podia dizer é que havia um regime de plenos poderes”. Sobre o ex-presidente João Goulart, que morreu no exílio, opinou: “Era um pobre homem. Quando muito, um aprendiz de caudilho, despreparado para governar”.

Elio Gaspari: Bolsonaro aguou o Bicentenário

O Globo

O repórter Lauro Jardim deu uma pequena notícia ruim que reflete o tamanho do atraso em que o Brasil está metido. Os presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estão tomando providências para proteger os dois prédios no dia 7 de setembro. O ministro Luiz Fux coordenou a formação de três anéis de proteção e, no dia do Bicentenário da Independência, isolará uma área de 1,5 quilômetro de raio. Ele teme a repetição das provocações do ano passado, quando caminhoneiros furaram o bloqueio da Esplanada dos Ministérios. Caravanas de ônibus levaram manifestantes que criticavam o tribunal e defendiam a cloroquina.

Na manhã do dia 7, Jair Bolsonaro discursou na Esplanada e ameaçou:

— Ou o chefe desse Poder enquadra o seu (ministro do STF) ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos.

À tarde, na Avenida Paulista, foi adiante:

— Tem tempo ainda de arquivar seus inquéritos. (...) Sai, Alexandre de Moraes! Deixa de ser canalha, deixa de oprimir o povo brasileiro.

Há 200 anos, o 7 de Setembro é uma festa de todos. Não tem o clima festivo do 14 de Julho francês nem do 4 de Julho americano, mas nenhum governo fez do 7 de Setembro um dia de vulgar mobilização partidária e divisiva.

As ditaduras promoviam patriotas, sempre com algum conteúdo cívico. Há um século, o presidente Epitácio Pessoa trabalhou e comemorou o Centenário com uma grande exposição internacional, congressos e visitas ilustres. Em São Paulo, inaugurou-se o monumental Museu do Ipiranga, com seus jardins. Cinquenta anos depois, o presidente Emílio Médici passeou pelo país os restos mortais de Dom Pedro I e promoveu uma dezena de louváveis iniciativas culturais.

Em plena ditadura, Médici fez do 7 de Setembro um dia de congraçamento. Segundo o Ibope, 84% dos brasileiros diziam-se satisfeitos com a situação do país. O presidente cavalgava a própria popularidade, mas cortou as manobras que lhe permitiriam uma reeleição. No dia 6, proibiu-se a transcrição do decreto de Dom Pedro abolindo a censura.

Bruno Boghossian: Distrações temporárias

Folha de S. Paulo

Presidente recorre a medidas temporárias e aborto para contornar mal-estar com economia

Aconselhado por um marqueteiro, Jair Bolsonaro ajustou o discurso para tentar melhorar seus índices entre os eleitores de baixa renda. Num evento em Maceió, ele citou realizações do governo, disse ter "um olhar especial para os mais humildes" e repetiu a promessa de aumentar o Auxílio Brasil para R$ 600.

O antigo personagem não ficou para trás. Após listar "coisas materiais", o presidente encerrou o discurso falando de "coisas imateriais, que têm a ver com nosso espírito". Arrancou aplausos ao se dizer contra o aborto, a liberação das drogas e o que chamou de ideologia de gênero.

Mariliz Pereira Jorge: Bolsonaro perde para si próprio

Folha de S. Paulo

Se a eleição fosse hoje, Jair Bolsonaro estaria frito

Tudo pode acontecer até outubro, mas, se a eleição fosse hoje, Jair Bolsonaro estaria frito. Hoje, perde para ele mesmo. Todas as pesquisas têm mostrado que o presidente patina na intenção de voto. Tem lá aqueles 30% que estão sempre com ele, mas é isso. O que ele faz? Motociata com Collor, em Maceió.

Em plena terça-feira, o mandrião passeava de moto, com a desculpa de entregar 1.120 moradias para famílias pobres e inaugurar as obras de uma igreja restaurada. Pelo menos temos em pé um lugar para rezar uma missa pelo Brasil que desmorona.

Os marqueteiros podem tentar produzir um candidato que se finja preocupado com as urgências da população, mas precisam lidar com o que têm, um pré-candidato picado pelo canto da mamata. Bolsonaro gosta de conversa fiada, aplauso e adulação. É o que recebe da militância e parece satisfeito. Vai tropeçar na própria vaidade.

Hélio Schwartsman: Diferença capital

Folha de S. Paulo

Escandalosa a festa oferecida por Arthur Lira a Gilmar Mendes

Que me perdoe Oscar Niemeyer, mas sábios são os bolivianos e os sul-africanos.

Alguns países, como os dois mencionados, têm mais de uma capital. É que eles colocam em diferentes cidades as sedes de diferentes Poderes. Assim, o Executivo e o Legislativo bolivianos funcionam em La Paz, enquanto o Judiciário está lotado em Sucre. No caso da África do Sul, a divisão é ainda mais singularizada. O Executivo está sediado em Pretória, o Legislativo, na Cidade do Cabo, e o Judiciário, em Bloemfontein.

Esse arranjo não serve apenas para confundir crianças que gostam de decorar as capitais dos países. Ele se presta também, ainda que essa não tenha sido a intenção original, a preservar um pouco a independência do Judiciário. Nós falamos em três Poderes como se eles fossem idênticos em atribuições e devessem operar ombro a ombro. A realidade, porém, é mais complexa.

Fernando Exman: As prioridades de Bolsonaro na educação

Valor Econômico

Em meio a escândalo, vetos presidenciais prejudicam o MEC

Enquanto o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro era levado na quarta-feira passada para a carceragem da Polícia Federal, as preocupações do presidente Jair Bolsonaro em relação ao MEC iam além do escândalo envolvendo a pasta.

O governo corria contra o tempo para não perder o prazo de análise do Projeto de Lei 184, de 2017, proposta sensível para os bolsonaristas mais ideológicos e que cerca de três semanas antes havia sido aprovada pelo Congresso.

O projeto passou sem chamar atenção no Senado e, como não foi modificado, seguiu direto para o Palácio do Planalto. Lá, optou-se pelo veto integral.

Apresentada pelo PT, a proposta tenta mudar a lei de diretrizes e bases da educação para atualizar a didática aplicada nas escolas do campo. Mais precisamente, sua intenção é permitir a adoção de conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às necessidades dessas unidades de ensino, “com a possibilidade de uso, dentre outras, da pedagogia da alternância”.

Vera Rosa: O Centrão e a caneta de Lira

O Estado de S. Paulo

Dependência de Bolsonaro cresce a cada dia e a crise da vez é a CPI do MEC

Há uma nova queda de braço na praça. Enquanto os holofotes se voltam para as eleições de outubro e as crises do governo de Jair Bolsonaro, envolvido em intermináveis brigas com o Supremo Tribunal Federal, o Centrão atua no Congresso para manter o poder. No pacote idealizado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira, o grupo continuará dando as cartas da República seja qual for o resultado das urnas.

Lira está em campanha por mais um mandato à frente da Casa, a partir de fevereiro de 2023. Certo de que será reconduzido ao cargo, prevê até mesmo comandar um “novo Centrão”, ao sabor das conveniências políticas no day after eleitoral.

Diante do favoritismo do ex-presidente Lula nas pesquisas e da estagnação de Bolsonaro, o Centrão vislumbra agora oportunidades para se mostrar ainda mais indispensável ao Planalto. É Lira que está por trás de propostas de emenda à Constituição que vão do semipresidencialismo à permissão para que deputados e senadores possam revisar decisões do Supremo.

Vinicius Torres Freire: Congresso quer ser o mandão da ruína

Folha de S. Paulo

Parlamentares querem ter ainda mais poder sobre Orçamento, pelos piores motivos

O poderoso centrão quer decidir o destino de 40% do dinheiro do Orçamento federal ainda "livre". Isto é, 40% daqueles 5% que sobram das despesas obrigatórias. É o que se depreende do início da discussão das leis orçamentárias que vão definir a despesa federal em 2023.

É um negócio que vai ter consequências políticas e econômicas ainda mais graves. Facilita corrupções e o emprego ainda mais ineficiente dos recursos orçamentários.

Essa seria a fatia do Orçamento destinada a bancar emendas parlamentares de execução obrigatória (o Executivo não pode dizer não, em geral). O relator do Orçamento, seu chefe e amigos, bancadas, comissões e parlamentares poderiam carimbar ainda mais dinheiro a ser usado em pequenas despesas picotadas, obras locais e até shows.

Os líderes da massa amorfa de parlamentares dessa geleia indistinta de partidos que faz a maioria do Congresso (70%?) teriam ainda mais poder distorcido, por assim dizer.

Fábio Alves: Qual a inflação certa?

O Estado de S. Paulo

Começa a ganhar corpo a discussão sobre qual medida de inflação o BC deve acompanhar

Estaria o Banco Central mirando a medida mais apropriada de inflação para calibrar o atual ciclo de alta da taxa Selic? Essa dúvida vem ganhando corpo mundo afora com o fracasso das autoridades monetárias em conter a disparada dos índices de preços desde o ano passado.

O Federal Reserve (Fed) foi duramente criticado neste mês, após surpreender o mercado e elevar os juros americanos em 0,75 ponto porcentual, ao atribuir essa alta mais agressiva à piora nas expectativas de inflação contidas no índice de sentimento ao consumidor da Universidade de Michigan.

Essa expectativa de inflação nos Estados Unidos, especificamente, tem elevada correlação com os preços da gasolina, sobre os quais o Fed não tem qualquer controle, uma vez que são influenciados pelas cotações do petróleo.

Por que perseguir uma medida de inflação sobre a qual não se tem controle, pois não expurga preços voláteis, como combustíveis e alimentos, podendo provocar uma alta de juros mais agressiva do que o necessário?

Márcio G. P. Garcia*: Muita inflação pela frente


Valor Econômico

Reduzir impostos aumenta o déficit fiscal, o que tende a dar mais alento ao dragão inflacionário

No Brasil e no mundo, a inflação tornou-se o principal problema econômico. É impressionante a rapidez com que as previsões de inflação se deterioraram. Há poucos meses, ainda havia analistas importantes que defendiam ser a inflação nos EUA um fenômeno temporário. Hoje, está claro que o dragão inflacionário não pretende ir embora tão cedo. Ao combatê-lo, é importante que não se cometam erros já conhecidos.

É preciso deixar claro, desde o início, que as principais políticas públicas para lidar com a inflação são as políticas monetária e fiscal. E combate à inflação se faz apertando ambas as políticas: elevando juros e cortando déficit público. Terem vários dos choques inflacionários vindo pelo lado da oferta, primeiro, com os efeitos da pandemia sobre as cadeias produtivas e, depois, com a guerra na Ucrânia, não modifica o plano básico de combate ao dragão.

Almir Pazzianotto Pinto*: O cruel enigma do desemprego

O Estado de S. Paulo

Abandonem as ilusões. Os candidatos nada sabem sobre o assunto ou não podem revelar o que sabem. O panorama é sombrio

“O desemprego não é de modo algum inevitável” (J. M. Keynes, 1883-1943)

Entre as várias ferramentas para avaliação do desempenho do governo, a mais importante consiste na análise do nível de desemprego. O economista inglês John Maynard Keynes dedicou-se ao estudo desse fenômeno da economia no livro A teoria geral do emprego, do juro e da moeda, no qual procura explicar desemprego e inflação como resultados do desequilíbrio de investimentos. Para Keynes, quando declinam investimentos, surge o desemprego.

Deixemos o sábio economista de lado. Ao publicar a obra prima em 1936, vagas referências tinha sobre o Brasil, cuja economia baseada na agricultura do café nenhuma expressão revelava no cenário internacional. Pelos autores da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) a questão do desemprego foi tida como secundária. Não mereceu tratamento no alentado decreto-lei, integrado por 922 artigos, baixado por Getúlio Vargas em 1.º/5/1943. Seria mero “incidente na vida profissional, de modo não geral, porém dentro dos limites de cada categoria, cuja tutela incumbe ao respectivo sindicato”, conforme escreveram na Exposição de Motivos.

Estatísticas sobre desemprego são relativamente recentes entre nós. A série histórica publicada pelo Ipeadata, compreendendo 2003/10-2015/12, revela que dentro desse período ele nunca esteve abaixo de 4%, havendo chegado a 13,10% em 2004.

Tebet vai invocar esperança contra ‘desencanto’ e ‘pessimismo’ de eleitor

Por Felipe Frazão / O Estado de S. Paulo

Angústia e decepção são sentimentos de eleitores indecisos captados por pesquisa qualitativa feita a pedido do MDB

BRASÍLIA - O comando da pré-campanha da senadora Simone Tebet (MDB) à Presidência da República vai invocar a mensagem da esperança diante do atual cenário de desalento do País. A estratégia será adotada para dar tração ao nome da chamada terceira via e tentar romper a polarização entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL).

Uma pesquisa qualitativa encomendada pela Executiva Nacional do MDB identificou no eleitorado os sentimentos de decepção e angústia, algo mais marcante do que o registrado nas últimas disputas ao Palácio do Planalto. Associado principalmente ao aumento do custo de vida e a constantes ameaças de desemprego, o pessimismo agora aparece ao lado de sensações como solidão, instabilidade e abandono.

O desencanto com a situação do Brasil e o seu impacto no cotidiano surgiram em observações de grupos de eleitores indecisos. O quadro de incerteza e frustração de sonhos e projetos, com aumento da miséria e da desigualdade social, impressionou o marqueteiro Felipe Soutello, da pré-campanha de Simone. “Desde os anos 1990 não vemos tanta tristeza e decepção em viver no Brasil, além de falta de expectativa de futuro. São as piores qualitativas em décadas”, disse Soutello.

Castro (PL)confirma Washington Reis (MDB) como vice em sua chapa à reeleição

Aliança foi estremecida na última semana, após disputa por vaga no TCE

Por Gabriel Sabóia / O Globo

RIO DE JANEIRO - O governador do Rio, Cláudio Castro (PL), confirmou o nome do ex-prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis (MDB), como vice na sua campanha de reeleição ao governo. A aliança foi formalizada em jantar em Brasília, na noite desta terça-feira, na presença de lideranças dos dois partidos. A aliança entre os dois, que já estava alinhavada, estremeceu na última semana, após duelo por uma vaga no Tribunal de Contas do Estado entre Márcio Pacheco, apadrinhado do governador, e Rosenverg Reis (MDB), irmão de Washington. Na ocasião, Castro interveio pela eleição de Pacheco, o que provocou reações da família Reis. A questão, no entanto, foi resolvida alguns dias depois.

O nome de Reis para vice de Castro agrada o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e membros do atual governo. Além de trazer votos da Baixada Fluminense, Reis trabalhará como uma espécie de "fiador" do novo governo em municípios nos quais os atuais prefeitos tentam eleger seus sucessores. Caberá a ele se apresentar como um líder da região e prometer investimentos contínuos nos próximos quatro anos. A presença de Reis na chapa também arrefece os planos do ex-governador Anthony Garotinho (União) em manter a sua pré-candidatura, já que os dois são grandes amigos e aliados políticos.

Campanha de Freixo (PSB) articula participação de Cesar Maia (PSDB) em ato com Lula no Rio

No Rio, pré-candidato ao governo pelo PSB receberá Lula em palanque que só terá lugar para um concorrente ao Senado: Ceciliano

Por Gabriel Sabóia e Jan Niklas / O Globo

RIO DE JANEIRO - A confirmação da viagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Rio para um evento de formalização do seu palanque no estado, no próximo dia 7, fez a campanha de Marcelo Freixo (PSB) se mobilizar para que o ex-prefeito do Rio Cesar Maia (PSDB) esteja no palanque.

A ida de Cesar simbolizaria a chamada “frente contra o bolsonarismo”, movimento representado no Rio pela candidatura de Cláudio Castro (PL), além de ser considerado um ato histórico, após anos de embates entre o petista e tucanos.

Convidado para ser vice de Freixo, Cesar Maia ainda não se manifestou oficialmente. Enquanto isso, lideranças do PT e do PSDB tentam atrair para a aliança o também pré-candidato ao governo do Rio, Felipe Santa Cruz, e o seu padrinho político Eduardo Paes, ambos do PSD. Recentemente, Paes negou a Lula a possibilidade de retirar o nome de Santa Cruz da disputa ao governo, mas acenou com um palanque duplo para o petista.

Alckmin (PSB) encontra Temer (MDB) e busca restabelecer pontes entre PT e ex-presidente

Ex-governador de SP explicou mudanças que Lula pretende fazer no texto da reforma trabalhista e afirmou que modificações serão feitas após diálogo com todos os setores envolvidos

Por Gustavo Schmitt / O Globo 

SÃO PAULO - Em encontro com o ex-presidente Michel Temer (MDB) na última sexta-feira em São Paulo, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSB) atuou para reconstruir o diálogo entre o vice de Dilma Rousseff (PT) e a campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). De acordo com interlocutores, Alckmin, que é pré-candidato a vice na chapa do petista, tratou de pontos que Lula pretende mudar na reforma trabalhista feita por Temer, na tentativa de apaziguar o clima entre os dois lados.

A reunião foi confirmada pelo GLOBO após a publicação pelo jornal Folha de S.Paulo. Temer tem rebatido críticas de Lula e do PT à reforma trabalhista e ao teto de gastos. Lula já afirmou que, caso seja eleito, vai rever a reforma e acabar com a medida que limita o crescimento das despesas públicas à inflação registrada no ano anterior. De acordo com pessoas próximas ao ex-governador, Alckmin procurou transmitir segurança a Temer de que qualquer mudança feita por uma eventual gestão PT-PSB não será feita de forma precipitada e que haverá diálogo entre todos os entes envolvidos (patrões, trabalhadores e governo).

O encontro aconteceu no escritório particular de Temer, no Itaim Bibi, e foi acompanhado pelo marqueteiro Elsinho Mouco e pelo ex-secretário de Educação de São Paulo Gabriel Chalita.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Gatilho ideológico

Folha de S. Paulo

Bolsonaro logra difundir armas com decretos duvidosos e motivações delirantes

A agenda ideológica de Bolsonaro (PL) se faz notar mais à base de inação, aparelhamento e desorganização administrativa do que na forma da novas leis e políticas de governo. Assim se produziram desastres em áreas como educação, saúde e meio ambiente.

No mais, até aqui frustraram-se, por falta de sustentação política, social ou jurídica, tentativas de coibir a punição de abusos policiais (excludente de ilicitude), cercear conteúdos em salas de aula (Escola sem Partido), restringir as possibilidades de demarcação de terras indígenas (marco temporal).

Um caso à parte é o da ampliação do acesso a armas de fogo, em que o bolsonarismo, ainda que por meios tortuosos, conseguiu avançar. Nesta terça (28), o anuário publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública trouxe novos e preocupantes dados nesse sentido.

É particularmente espantoso o aumento do número de registros ativos de armas no sistema da Polícia Federal (Sinarm), que passou de 1,06 milhão em 2019, no início do governo, para 1,49 milhão no ano passado, numa alta de 41%.

Considerando também outras fontes de informação, chega-se a um total de 2,8 milhões de artefatos —revólveres, pistolas, espingardas e outros— particulares no país. Como comparação, os órgãos públicos, como as polícias militares e civis, dispõem de não mais que 384 mil artigos do gênero.

Poesia | Fernando Pessoa: Mar português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Música | Marisa Monte: Dança da Solidão (Paulinho da Viola)

 

terça-feira, 28 de junho de 2022

Cristovam Buarque*: Fome dos que comem

Correio Braziliense

Há duas fomes no Brasil de hoje: a fome de comida, que maltrata e mata, e a fome da moral, dos que assistem à tragédia sem indignação com o sofrimento dos outros, nem inteligência para perceber o custo social e econômico para todo o país.

Assistimos constrangidos aos 33,1 milhões de brasileiros dormindo, acordando e sobrevivendo sem se ter o que comer, ao mesmo tempo que sabemos que essa fome não decorre da escassez de alimentos no país. Nosso território não é desértico, não estamos vivendo uma guerra, não fomos invadidos. É vergonhoso que a fome ocorra num país que está entre os maiores exportadores do mundo, onde o agronegócio produz safras recordes sucessivas, em que os supermercados estão sempre abastecidos, e a televisão divulga dezenas de publicidades para vender comida e apresenta horas por dia de programas realities com concursos, lições e turismo de gastronomia.

Alguns países, mais populosos, também têm contingentes de famintos, mas nenhum deles tem tanta comida disponível, tanta propaganda de alimento, nem tanta apologia à gastronomia ao lado dos noticiários da fome na televisão. A fome de alguns não vem, também, da disputa pela comida que é suficiente para alimentar muitos brasis; a falta de educação também não decorre da necessidade de negar a educação a alguns para oferecer a outros. Ambas as fomes, de comida e de educação, são resultado da maldade, da insensibilidade e da estupidez.

Merval Pereira: Uma volta ao passado

O Globo

Há um quê de paradoxal nas atitudes do presidente Jair Bolsonaro em busca dos votos que lhe faltam para ser reeleito. Está criando uma crise econômica e institucional que tornará ingovernável o país que pretende manter sob seu controle. Parece até que a intenção inconsciente é quebrar o Brasil caso tenha de entregar a faixa presidencial a um sucessor. Figura de linguagem, claro, porque tudo indica que Bolsonaro não entregará a faixa a ninguém, como fez o general João Figueiredo, muito menos ao ex-presidente Lula.

Está aí o paradoxo: ganhar pelas próprias mãos um país em crise institucional e econômica ou perder e deixar para o sucessor uma terra arrasada. Essa mesma terra arrasada que caberá a ele governar se conseguir reverter o quadro eleitoral. Semelhante ao que aconteceu com Lula, que tomou medidas temerárias para eleger Dilma Rousseff sua sucessora e iniciou a crise econômica em que estamos até hoje.

Na encarnação anterior à Lei de Responsabilidade Fiscal, esse paradoxo era muito corriqueiro. O incumbente deixava dívidas para trás, em situações mais radicais até os móveis dos palácios eram estragados propositalmente. Há casos famosos, como o governador de Alagoas Silvestre Péricles, que sujou as paredes do Palácio Floriano Peixoto com excrementos para recepcionar o adversário que ocuparia seu lugar, Arnon de Mello, pai do ex-presidente da República Fernando Collor de Mello.

Carlos Andreazza: Lira jantando

O Globo

Não é normal que presidente da Câmara — ou do Senado — ofereça jantar em honra a ministros do Supremo. Qualquer que seja o ministro; qualquer, a razão. Não é normal que político — de alto ou baixo clero — convide juiz para convescote em casa; qualquer que seja o tempo. A razão para recusar sem ser deselegante é a prudência que oferece: não existe refeição grátis em Brasília.

Fulanizemos: o que pretenderá alguém como Arthur Lira ao promover celebração a ministro do STF, no caso Gilmar Mendes, senão demonstrar Poder? Seria gesto para comprometer miudamente, não fosse sobretudo um comprometimento ao exercício impessoal do poder na República. Com todas as vênias: não pode um juiz aceitar afago daquele cujo foro tem lugar no tribunal que compõe.

Se os ministros do Supremo erram nos convites oficiais que fazem, vide a infiltração militar golpista no TSE, quanto errarão nos informais que aceitam?

Não é normal — não se for a República — que juiz de tribunal superior transite naturalmente entre políticos. Não é normal que ministro de Corte constitucional seja articulador-formulador de soluções para impasses políticos.

Sacrifica-se a percepção de Estado de Direito quando os mais poderosos, inclusive os guardiões da Constituição, concertam-se em confrarias.

Andrea Jubé: Bolsonaro marca Lula para virar o jogo no Nordeste

Valor Econômico

Marqueteiro orientou Bolsonaro a capitalizar Auxílio

O juiz nem apitou o início do jogo eleitoral, mas a bola está rolando faz tempo, como observou o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, em conversa com o Valor na semana passada.

Para tentar roubar a bola dos pés do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está ganhando de goleada no Nordeste, o presidente Jair Bolsonaro deflagrou uma ofensiva na região.

Há 11 dias, ele faz marcação cerrada ao adversário: nesse período, já repetiu, ou repetirá o roteiro do petista em três escalas: Rio Grande do Norte, Alagoas e Bahia.

Lula cumpriu agenda em Natal no dia 16 de junho. Um dia depois, Bolsonaro desembarcou na capital do Rio Grande do Norte.

Neste mesmo 17 de junho, Lula teve compromissos em Maceió (AL), ao lado do senador Renan Calheiros (MDB). Hoje, quando completam 11 dias da visita do petista, é a vez de Bolsonaro aterrissar na capital de Alagoas. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) - principal adversário de Renan -, acompanhará Bolsonaro na entrega de 1.120 casas populares a famílias alagoanas de baixa renda.

Finalmente, neste sábado (2), Lula e Bolsonaro cumprirão agendas, simultaneamente, em Salvador, na comemoração da Independência da Bahia. Segundo o ex-ministro da Cidadania e pré-candidato ao governo João Roma (PL), Bolsonaro chegará ao Estado na véspera: no dia 1º, ambos anunciam início das obras do Rodoanel em Feira de Santana, a 100 quilômetros de Salvador.

Joel Pinheiro da Fonseca: A via que não foi

Folha de S. Paulo

Quem é tolo o bastante de ainda ter esperanças na terceira via?

É irrelevante declarar-se apoiador de algum dos candidatos da "terceira via" neste momento. Digo sem receio, portanto, que sou irrelevante. Meu consolo é que tenho consciência disso.

Ainda acho que encerrar o desastre que é o governo Bolsonaro é prioridade inegociável, mas também não quero ver o Brasil retroceder a um governo do PT que não só não reconhece os erros que geraram tanto a crise econômica quanto a revolta antipolítica como os reforça, com mais ênfase do que nunca.

Muito se falou sobre a terceira via desde o ano passado, mas nada mudou. Comentar pesquisa eleitoral é um tédio sem fim. O apoio a Bolsonaro está no mesmo patamar há dois anos. A intenção de voto em Lula também não sai do lugar, que é o de uma vantagem confortável e com chances de vitória no primeiro turno. Se uma pesquisa apresenta uma ligeira modificação, lá vem a próxima indicar o retorno à média.

Hélio Schwartsman: As linhas tortas de Deus

Folha de S. Paulo

Covid e guerra na Ucrânia põem candidatura de Bolsonaro em risco

A eleição presidencial de 2018 foi totalmente atípica. Triunfou um postulante que não tinha tempo de TV, recursos financeiros à farta nem mesmo um partido sólido atrás de sua candidatura. Pior, Jair Bolsonaro representa um extremo ideológico. Democracias contemporâneas criaram o sistema de eleição em dois turnos justamente para evitar que esse tipo de candidato vença.

Os novos números do Datafolha sugerem que o pleito de 2022 será uma disputa mais típica, a segunda mais convencional possível. O cenário mais comum é o presidente que se apresenta para a reeleição ganhar. É o que ocorre em 80% dos casos. Nas situações em que ele perde, quase sempre há uma crise econômica provocando o que se convencionou chamar de "feel bad factor", um mal-estar generalizado que contamina a política. É o cenário que se desenha agora.

Alvaro Costa e Silva: Ligue o Arthur Lira e seja feliz

Folha de S. Paulo

Deputado que desconsiderou pedidos de impeachment busca mais poder

A mania começou no futebol. O atacante marcava um gol daqueles que até você faria. Então saía em disparada gritando para si mesmo: "Eu sou foda!".

Depois virou moda no mercado editorial. O português Miguel Esteves Cardoso leva a culpa de ser o pioneiro, ao lançar em 1994 o best-seller "O Amor é Fodido" —aliás, um belo romance. De 2010 a 2020, era impossível entrar numa livraria sem se deparar com os títulos de autoajuda: "Seja Foda", "Ligue o Foda-se e Seja Feliz", "Como Ser uma Pessoa Foda", "Liberdade, Felicidade e Foda-se", "A Sutil Arte de Ligar o Foda-se", "Seja Foda, Seja Inteligente", "Ninguém é Fodido por Acaso", "Coragem e Foda-se o Resto", "Fodeu Geral" e --o meu preferido-- "Como Ser uma Mãe Foda".

Cristina Serra: Aborto, cidadania e democracia

Folha de S. Paulo

Autoridades precisam entender que nós, mulheres, temos o direito supremo sobre nossos corpos, vidas e escolhas

A Suprema Corte dos EUA fez o país andar meio século para trás ao derrubar o entendimento de que o aborto era um direito constitucional das mulheres. Agora, estados conservadores poderão proibir o aborto por meio de legislações locais. Permitir que governos interfiram dessa forma em assunto tão íntimo é uma violência suprema contra as mulheres.

Aqui no Brasil, o risco de retrocesso é ainda maior. Embora o aborto em decorrência de estupro seja permitido por lei desde 1940, nem todas as brasileiras têm a garantia de que conseguirão acesso a esse direito, como ficou claro no caso da menina de 11 anos, de Santa Catarina, violentada e grávida.

Em razão de alguma crença fundamentalista, um médico, uma promotora e uma juíza tentaram impedir o aborto (não conseguiram, felizmente). Que fique claro: o feto resultante de um estupro é a sequela de uma violência e nenhuma mulher deve ser obrigada a carregar no ventre o produto de um crime.

Eliane Cantanhêde: Independência sim!

O Estado de S. Paulo

Recados do presidente de Portugal, ao vir duas vezes ao Brasil antes das eleições

Ao vir ao Brasil duas vezes no mesmo semestre, às vésperas das eleições, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, de Portugal, um país invadido por brasileiros, cria uma situação ruim, desconfortável, e outra boa, neutralizante.

A ruim é que as visitas e fotos podem ser interpretadas como apoio à reeleição de Jair Bolsonaro. A boa é que, com ele e outros estrangeiros, Bolsonaro vai pensar duas vezes antes de repetir nos 200 anos da Independência as ameaças à democracia do ano passado.

No último encontro, Rebelo de Sousa ficou chocado com Bolsonaro, que, isolado no mundo, sem entender de geopolítica internacional nem de questões bilaterais, saiu contando piadas de péssimo gosto.

Pedro Cafardo: As lições do Brasil desenvolvimentista

Valor Econômico

O discurso de reformas dos neoliberais deu com os burros n’água

Está nas livrarias e circula no meio acadêmico desde o fim do ano passado um livro que pode jogar luzes sobre o atual momento brasileiro: “O Brasil Desenvolvimentista e a Trajetória de Rômulo Almeida”, do economista Alexandre de Freitas Barbosa, professor de história econômica e economia brasileira no IEB-USP.

Nos anos 1950, conta o autor, os “intelectuais orgânicos do Estado”, encarregados da montagem da infraestrutura econômica e social subjacente à industrialização, trabalhavam como parceiros. De um lado atuavam os desenvolvimentistas “stricto sensu”, como Rômulo Almeida, Ignácio Rangel, Jesus Soares Pereira e Cleando de Paiva Leite. De outro, os desenvolvimentistas “mercadistas”, como Roberto Campos, Lucas Lopes e Glycon de Paiva.

Movidos por ideologias, os dois grupos de funcionários de carreira do governo tinham projetos de desenvolvimento diferentes para o país. Os primeiros propunham a diversificação do mercado interno, reformas de base e mudança nas relações centro-periferia, por meio do planejamento estatal. Para os “mercadistas”, muito preocupados com o equilíbrio fiscal e cambial, os dados da nação (território, população e dotação de fatores produtivos) formavam uma equação que deveria levar à acumulação de capital. E o papel do Estado seria supletivo, deixando ao setor privado e ao capital estrangeiro a tarefa de dinamizar e ampliar o mercado.

Os dois grupos se reconheciam como parceiros, embora discordassem sobre meios e fins do desenvolvimento capitalista no Brasil. Só em 1959, quando o país rompeu com o FMI, os “mercadistas” deixaram o governo e mais tarde se aliaram aos liberais Eugênio Gudin e Octávio Gouvêa de Bulhões.

António Guterres*: Energia renovável é o plano de paz para o século XXI

O Globo

Nero foi acusado de tocar lira enquanto Roma ardia em chamas. Hoje alguns líderes fazem pior: jogam combustível no fogo. A resposta de algumas nações à crescente crise de energia tem sido dobrar o uso de combustíveis fósseis — despejando bilhões de dólares em carvão, gasolina e gás, aprofundando a emergência climática.

Os indicadores climáticos continuam a quebrar recordes, projetando um futuro de ferozes tempestades, inundações, secas, incêndios e com temperaturas inabitáveis em vastas áreas do planeta. Novos investimentos na exploração de combustíveis fósseis são ilusórios — eles não são a resposta e nunca deveriam ser. Estão no noticiário diariamente os danos que fazemos ao planeta. Combustíveis fósseis são a causa da crise climática.

Energia renovável é o plano de paz para o século XXI, a resposta para limitar os distúrbios climáticos e impulsionar a segurança energética. Mas a batalha por uma transição energética rápida e justa não está sendo travada em campo. Investidores ainda apoiam combustíveis fósseis, e governos distribuem bilhões para subsidiar carvão, petróleo e gás — US$ 11 milhões por minuto.

Míriam Leitão: Economia mundial e riscos da China

O Globo

A China pode surpreender no segundo semestre, crescendo mais do que o mercado projeta, e isso num contexto de crescimento no Ocidente sendo abatido pelos juros altos. O país está usando velhos métodos de forçar o crescimento, até pelo medo político em relação ao desemprego, que chega a 18,4% entre jovens de 16 a 24 anos. Politicamente, a China entra agora num período de incerteza com a mudança no grupo que comanda o país, ao lado de Xi Jinping, ao fim do período de 10 anos das atuais lideranças. Em relação ao Brasil, os chineses querem manter as conexões, independentemente do resultado das eleições. Esse panorama da China é a visão do embaixador Marcos Caramuru, que foi cônsul-geral no país, embaixador e por fim consultor, morando ao todo 12 anos por lá.

— Os chineses são pragmáticos em relação ao Brasil e agora estão mais isolados do mundo, pela pandemia, pela guerra da Rússia e, principalmente, pela perda do diálogo com os Estados Unidos no governo Biden. Os erros do governo Bolsonaro não são suficientes para os chineses perderem o interesse no Brasil. Eles não estão num momento em que possam desprezar alianças que têm, seja por vínculos comerciais, econômicos ou políticos. Estão se sentindo isolados. Eles não vão abdicar de ter conexões conosco. Se o PT ganhar, o diálogo fica mais fácil — disse Caramuru.

Rubens Barbosa*: Relações Brasil–China

O Estado de S. Paulo

Espera-se que não aconteça o que ocorreu com o caso dos EUA, em que a institucionalização ficou, em boa parte, na intenção.

As relações Brasil-China ganharam novo impulso com a realização, em maio passado, da sexta sessão plenária da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban). A Cosban, criada há 18 anos, é copresidida pelo vice-presidente do Brasil e pelo vice-primeiro-ministro da China, e é o fórum mais importante para discutir, em alto nível, a orientação estratégica da cooperação bilateral.

No encontro, ficou evidenciada a diversidade do relacionamento bilateral, que abrange as áreas de comércio, investimento, finanças, energia e mineração, agropecuária, ciência, tecnologia e inovação, cooperação espacial, indústria e tecnologia da informação, cultura e educação. Entre outras medidas aprovadas, podem ser mencionadas a intenção de ampliar a colaboração na facilitação de comércio, para evitar barreiras protecionistas, em especial sanitárias e fitossanitárias; diversificação das exportações brasileiras, inclusive no setor agropecuário, com a inclusão de produtos industriais de maior valor agregado; e a expansão da cooperação em inovação e sustentabilidade.

Foi dado destaque à cooperação, de mais de 30 anos, na área espacial, com novos projetos e o início da negociação do Plano Sino-Brasileiro de Cooperação Espacial 2023-2032.

Maia acena com apoio a Freixo e diz que 'manter Santa Cruz ajuda Castro'

Maia afirma que a candidatura de Santa Cruz tira votos de Freixo, principal adversário de Cláudio Castro ao governo do Rio e admite possibilidade de coligação

Por Gabriel Sabóia / O Globo

Ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (PSDB) afirmou que a candidatura de Felipe Santa Cruz ao governo do Rio "está a favor do governador Cláudio Castro", apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL). Durante participação no Fórum Brazil UK, na Universidade de Oxford, na Inglaterra, Maia externou publicamente, pela primeira vez, a vontade de apoiar Marcelo Freixo (PSB) ao cargo. Pai dele e ex-prefeito do Rio, Cesar Maia (PSDB) tem propostas de Freixo e Santa Cruz para ser vice em suas respectivas chapas. Lideranças do PT e do PSDB tentam atrair Eduardo Paes e Santa Cruz para a aliança que tem Freixo como nome ao governo. Paes, no entanto, se mantém irredutível e pretende manter a empreitada do ex-presidente da OAB.

— No Rio, temos um ciclo iniciado em 1998. Cesar Maia e Eduardo Paes tentaram romper este ciclo, mas não conseguiram (perderam eleições). Freixo é um bom cara de diálogo, que tenta ampliar a base dele. Eu não posso olhar o meu estado, onde as milícias estão tomando conta de todas as instituições. Como mudar este ciclo no Rio? A candidatura do Felipe, se for viável, ótimo. Mas, hoje ele só tira votos do Marcelo (Freixo) e não tira do Cláudio (Castro). Então, é uma candidatura a serviço do governador, queira ele ou não — disse Maia, que completou: