domingo, 10 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula deve ao país programa urgente de controle de gastos

O Globo

Ao procrastinar apresentação de medidas sugeridas por Haddad, ele só contribui para semear mais incerteza

Passada uma semana de debates sobre o pacote de controle de gastos prometido pelo governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua a demonstrar resistência. Não faltam estudos e simulações feitas pelas equipes dos ministros da Fazenda, Fernando Haddad, e do Planejamento, Simone Tebet. Lula já dispõe faz tempo de todas as informações necessárias para tomar decisões. Infelizmente, continua a procrastinar. Promoveu uma romaria de ministros ao Planalto, sabendo que ninguém abriria mão do próprio orçamento. Com isso, só contribui para semear ainda mais incerteza e corroer o que ainda resta da credibilidade de seu governo diante dos agentes econômicos.

Os ministros se esmeram no festival de lamúrias e populismo. Luiz Marinho, do Trabalho, ameaçou pedir demissão, buscou apoio das centrais sindicais e bateu pé contra mudanças sugeridas para seguro-desemprego e abono salarial. Outro a falar em deixar o governo foi Carlos Lupi, da Previdência. Wellington Dias, do Desenvolvimento Social, negou mudanças no Bolsa Família— que jamais foram cogitadas — e no Benefício de Prestação Continuada (BPC), voltado a deficientes e idosos de baixa renda. Os titulares da Saúde (Nísia Trindade) e da Educação (Camilo Santana) também se encarregaram de deixar claro que resistirão a cortes em suas pastas.

Embate de visões - Merval Pereira

O Globo

Disputa no governo sobre a redução de gastos para o equilíbrio fiscal envolve uma visão ultrapassada de certa esquerda petista contra o ministro da Fazenda, Fernando Haddad

O embate que se trava hoje dentro do governo sobre a redução de gastos para o equilíbrio fiscal é o de uma visão ultrapassada de certa esquerda petista contra o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que, sem deixar de ser de esquerda, entendeu que para melhor servir à causa dos mais pobres é preciso que a economia esteja equilibrada e os gastos tenham uma definição clara para que os desperdícios não se voltem justamente contra os menos favorecidos da sociedade.

Não é por acaso que outro ministro da Fazenda petista, Antonio Palocci, foi na mesma direção no primeiro governo Lula, fazendo com que o governo mantivesse as linhas mestras vindas do governo anterior de Fernando Henrique, cuja continuidade só beneficiou o crescimento brasileiro. Foi nesse ritmo que o governo Lula recebeu o grau de investimento, sendo Henrique Meirelles o presidente do Banco Central, quase demitido pela pressão da ala “desenvolvimentista” do PT, que já se preparava para substituir Meirelles pelo economista Luis Gonzaga Belluzzo.

A raiva triunfa nos EUA – Dorrit Harazim

O Globo

A grande maioria dos eleitores de Trump se sentiu ouvida e representada no revanchismo escancarado do candidato

Ao contrário do lamento e da amargura, o sentimento de raiva dá ao ser humano a sensação de ter algum poder, algum comando sobre a vida que julga estar desgraçada, desolada e esquecida no mundo. A raiva derrota o medo, diminui a solidão, compensa a desilusão com o alardeado progresso humano. A raiva, sobretudo, faz votar. E Donald Trump elegeu-se 47º presidente dos Estados Unidos em grande parte por apostar na raiva social, cultural e econômica das dezenas de milhões de cidadãos americanos que, na semana passada, o catapultaram de volta à Casa Branca.

Foi um triunfo brutal, acachapante, com ganhos em todos os cantos do país e junto a quase todos os grupos demográficos. Levou de arrasto a almejada maioria no Senado e deverá manter a maioria na Câmara. Além da indispensável vitória no Colégio Eleitoral, Trump também deverá conquistar o prêmio dos prêmios, aquele que nem sequer sua megalomania considerava atingível: a cobiçada maioria no voto popular. Chamados a escolher entre a candidatura da primeira mulher negra em 248 anos de História americana e um ex-presidente fascistoide que fugiu da Casa Branca pela porta dos fundos em 2021, o povo preferiu Trump. E pela segunda vez. De forma consciente, irretorquível e ostentatória.

Um mundo mais sombrio e incerto - Míriam Leitão

O Globo

Donald Trump eleva o nível de incerteza na economia, o que torna mais urgente o nosso ajuste fiscal que, no entanto, tem sido corroído internamente

A semana passada elevou a exigência sobre a política econômica do Brasil. E também subiu o grau dos desafios políticos e diplomáticos. Tudo ficou mais difícil. A inflação, pela primeira vez, estourou o teto da meta, tornando mais urgente o pacote de ajuste de gastos cujo alcance vem sendo corroído internamente no governo. A eleição americana terá impacto negativo na economia, o que nos atinge. Donald Trump é o pior também na economia por ter um programa inflacionário, expansionista fiscal e protecionista. O Fed vai entrar em conflito com Trump que apontou suas baterias contra a cidadela monetária mais influente do planeta, e isso elevará a incerteza econômica e mexerá nos fluxos de capital. O estrago na agenda ambiental e climática tem repercussão global, mas atinge em cheio o projeto do Brasil.

História incompleta - Bernardo Mello Franco

O Globo

No final do filme “Ainda estou aqui”, que estreou nos cinemas na quinta-feira, o público é informado sobre o desenrolar do caso Rubens Paiva. A Comissão da Verdade desmontou a farsa da ditadura para encobrir o assassinato, mas não conseguiu localizar os restos mortais do ex-deputado. Os militares que participaram do crime foram identificados e denunciados, mas ninguém foi a julgamento.

A história ilustra as lacunas da nossa transição incompleta para a democracia. A pretexto de curar feridas do passado, o Brasil ignorou o exemplo de países vizinhos e ofereceu proteção e impunidade aos torturadores. Os herdeiros dos porões voltaram ao poder pelo voto, tentaram outro golpe e agora pedem uma nova anistia.

Biden vem para a reunião do G-20 – Elio Gaspari

O Globo

O presidente americano Joe Biden virá ao Brasil para a reunião do G-20 e anunciou que esticará a viagem passando por Manaus, numa visita simbólica à Amazônia. Grande ideia para um presidente que nada terá a fazer até janeiro, quando passará o cargo a Donald Trump.

Em quatro anos, Biden não conseguiu avançar um só projeto original nas suas relações com o Brasil, muito menos com a Amazônia. No ocaso, virá ao Rio e passará por Manaus, com direito a fotografias na floresta e na companhia de lideranças indígenas.

Será o segundo presidente americano a se sentir atraído pela Amazônia depois de perder uma eleição. Derrotado em 1912, quando tentou retornar à Casa Branca, Theodore Roosevelt decidiu explorar a floresta e quase morreu durante a expedição. À diferença de Biden, Roosevelt tinha gosto pela natureza e por aventuras.

Como vice-presidente de Barack Obama, Biden esteve no Brasil há dez anos, com uma agenda vazia, típica do cargo que ocupava.

O grande momento de sua passagem por Brasília foi a entrega de 43 documentos do governo americano relativos ao período da ditadura. Deles, 25 eram do domínio público. Os demais documentavam muito mais as lorotas dos porões que a embaixada transmitia do que as relações de Washington com os generais da ocasião.

Doze mil vezes favela, um retrato da crise urbana - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A vida banal nas favelas, como diria o mestre Milton Santos, foi relegada a segundo plano pelas políticas públicas e capturada por grupos criminosos: milicianos

Sessenta e dois anos depois, o filme “Cinco Vezes Favela” hoje parece uma visão ingênua e glamourizada de problemas que somente se agravaram desde então. São histórias de um cotidiano que ficaram para trás, muito longe da própria realidade em que se transformou. Produzido pelo Centro Popular de Cultura da UNE (União Nacional dos Estudantes), em 1962, ao lado dos primeiros filmes de Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, é obra seminal do Cinema Novo. O filme apresenta cinco histórias separadas, com trilhas sonoras de Carlos Lyra, Hélcio Milito, Mário Rocha e Geraldo Vandré.

Com Flávio Migliaccio, Waldir Fiori, Isabela e Alex Viany, sob direção de Marcos Farias, “Um Favelado” conta a história de João, um morador da favela que é espancado por não ter como pagar o aluguel. Ao pedir ajuda a um amigo, acaba envolvido num assalto. Dirigido por Miguel Borges, “Zé da Cachorra”, com Waldir Onofre, João Ângelo Labanca, Claudio Bueno Rocha e Peggy Aubry, retrata a revolta de um líder da favela contra um grileiro que engana e suborna os favelados, com objetivo de construir um edifício no lugar.

Investir na democracia - Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Não há como cuidar dos objetivos de integração social, de elevação das condições de vida e de valorização da ordem democrática sem combinar políticas de crescimento

Golpistas brasileiros festejaram a vitória de Donald Trump na eleição americana, como se isso fosse um sinal para a anistia a quem depredou Brasília e tentou derrubar o governo em 8 de janeiro de 2023. Anistia se aplica geralmente a crimes comuns e, em situações muito especiais, a crimes políticos, quando se restabelece a democracia e se busca a reconciliação. Convém cuidar do assunto com muita prudência. A democracia sobreviveu ao golpismo, as sedes dos Poderes foram restauradas e a rotina institucional foi mantida, como se comprovou nas eleições deste ano. Mas a extrema direita pouco ou nada mudou. Continua a desfrutar dos direitos e liberdades comuns, como fazem os extremistas em todas as democracias, e a esperar novas oportunidades para destruir a ordem constitucional.

Não basta, no entanto, reprimir o golpismo e defender legalmente, no dia a dia, as liberdades básicas. Pesquisas têm apontado, entre os cidadãos, preferência majoritária pelos valores democráticos, mas políticos eleitos nem sempre se mostram alinhados a essa preferência. É preciso fazer muito mais para consolidar, em todos os grupos, o compromisso com as normas fundamentais da democracia.

Passado e futuro - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com o presidente Lula preso a Biden, Bolsonaro investe em Trump e no futuro

No apagar das luzes do seu governo e da sua carreira política, o democrata Joe Biden telefona para o presidente Lula avisando que vem ao Rio para a Cúpula dos Brics. Do outro lado, pronto para assumir mais um mandato e interferir nos rumos do mundo, o republicano Donald Trump dá de ombros para Lula e convida o ex-presidente Jair Bolsonaro para a posse. Tem algo errado. Biden é passado e Trump, goste-se ou não dele, é o futuro.

Excluído da eleição e responsabilizado pela derrota democrata, Biden vem ao Brasil pela primeira vez, aproveita para uma reunião bilateral com Lula, um pulo em Manaus e, enfim, formalizar a adesão dos EUA à Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, bandeira de Lula. E daí? Daí, nada. Trump terá poder para desfazer tudo.

O impacto da vitória de Trump no Brasil e no mundo - Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

Consequências Nova política externa terá significativos impactos para geopolítica e vários temas globais

As eleições nos EUA refletiram o realinhamento político eleitoral na sociedade americana. O Partido Democrata, visto como progressista, apoiado pela classe média alta, com diploma universitário, passou a ser um partido percebido como da elite, desconectado dos reais problemas da população.

O Partido Republicano, por influência de Donald Trump, deixou de apoiar valores conservadores de direita e passou a defender interesses concretos dos menos favorecidos.

Nesse contexto, a influência maior no resultado da eleição não foi a economia, mas os anseios e preocupações sociais da classe média trabalhadora.

Terremoto na democracia americana - Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Eleição de Trump é revanche de setores de baixa renda e sem ensino superior contra elite intelectual

A volta de Donald Trump equivale a um terremoto no alicerce da democracia, da diversidade, da valorização da ciência e dos fatos, uma derrota no combate às mudanças climáticas e uma vitória para as ditaduras que contestam a ordem mundial, lideradas por China e Rússia. É a revanche de setores de baixa renda e sem ensino superior contra a elite intelectual.

Trump está mobilizado pelo desejo de ver materializada a sua delirante visão de mundo. Dessa vez, não haverá “adultos na sala” – assessores que sutilmente descumpriram suas ordens e heroicamente mitigaram os efeitos desastrosos de seu primeiro mandato.

O 'pobre de direita' fala inglês e come em dólar – Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Momento da política dos EUA é mais complexo que o retrato simples dos democratas como representantes da elite

Pela primeira vez em décadas, americanos de baixa renda deram preferência a um republicano nas eleições presidenciais. Pesquisas mostraram que, no quarto mais pobre do eleitorado, 50% votaram em Donald Trump, e 47% escolheram Kamala Harris. Há 16 anos, 64% dessa fatia havia votado em Barack Obama.

A mudança começou em 2016. Naquele ano, Hillary Clinton inscreveu na história a caricatura hostil de meio eleitorado de Trump como um "cesto de deploráveis" ("racistas, sexistas, homofóbicos, xenofóbicos", segundo ela, "irrecuperáveis"). Depois, fez um complemento, raramente lembrado, que explica muito sobre os apuros dos democratas.

Havia uma "outro cesto" de apoiadores de Trump, disse Hillary. "Pessoas que sentem que o governo as decepcionou, que a economia as decepcionou, que ninguém se importa com elas", descreveu. "E elas estão desesperadas por mudança. Na verdade, nem importa de onde venha."

Trump 2, segundo um Prêmio Nobel – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Planos incentivam tecnologia antitrabalhador e minam bases da economia de inovação

O que esperar da economia americana sob Donald Trump? Daron Acemoglu, um dos premiados com o Nobel de Economia deste ano, deu sua opinião em uma espécie de autoentrevista no X/Twitter, neste sábado (9).

Não haverá boas notícias para os trabalhadores. As ideias trumpistas sobre inteligência artificial vão prejudicar cidadãos, consumidores (que serão manipulados, como nas redes sociais) e setores da economia, por falta de regulamentação adequada.

A desregulamentação, na linha do que pensam grandes investidores e capitalistas de risco mais imprudentes do Vale do Silício, vai incentivar a automação. "Não vai se concretizar o potencial [da IA] como tecnologia de informação que pode ajudar os trabalhadores" (Acemoglu costuma defender intervenção governamental que induza o uso de tecnologia "pró-trabalho").

Chucky e a facada democrática na América - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Com Trump, estão suas promessas de usar força militar, conter livre arbítrio feminino e deportar imigrantes

É plausível imaginar um reality show com Chucky concorrendo ao lado de humanos. Em filme de terror americano, Chucky é o boneco que ganha vida, assassinando a faca os incautos. Mas entre nós, esse é o apelido popular de Trump, recém-eleito presidente. Não só o alaranjado do boneco enseja a analogia, também o comum de traços assustadores como violência, misoginia, xenofobia. Em termos das promessas reais: usar força militar contra inimigos, conter o livre arbítrio feminino e deportar os milhões de imigrantes chegados depois de 2020.

Reality show é o tipo de espetáculo que mimetiza a democracia na forma mais abrangente, aquela que contempla o andar de baixo. No caso americano, operários e rurais desesperançados sob o globalismo. O mesmo com latinos descrentes do progressismo neoliberal. Transporte-se uma base dessas para o Brasil, e o resultado apontará para consciências periféricas numa série amorfa, distinta de classe social, povo e comunidade. Serialidade em vez de socialidade.

Os judeus – Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

"Os Judeus", de Jaime Pinsky, se concentra na Europa oriental do século 19 e início do 20

A maioria dos judeus de esquerda sempre defendeu a criação de um Estado palestino para existir ao lado de Israel. Mas, depois do 7/10, esses judeus, entre atônitos e intimidados, viram um amplo contingente da esquerda gritando slogans que, se tomados literalmente, implicariam a destruição do Estado de Israel.

Judeus e palestinos têm conhecimento quase enciclopédico das barbáries cometidas pelo adversário, mas se mantêm mais ou menos cegos para os crimes de seu próprio lado. O resto do mundo, com exceções, é claro, se posiciona ignorando o básico sobre a história dos dois povos e da região.

O Estado sou eu! - Flávia Tavares*

Maior, melhor, incrível, magnífico, histórico, sem precedentes, extraordinário, fantástico. É vasto o vocabulário de superlativos e adjetivos do ex e próximo presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump. Essas e muitas outras expressões autocongratulatórias figuraram em seu discurso da vitória, na noite de terça-feira, dia 5 de novembro. Foi mesmo uma vitória notável. Condenado e conhecido, ainda assim ele varreu os sete estados-pêndulo e, na fúria de seu triunfo, garantiu maioria no Senado e deve levar a Câmara para o seu lado também. Trump começou sua fala com a afirmação de que o seu movimento, o Maga, ou Make America Great Again, “francamente”, deve ser “o maior movimento político de todos os tempos”. Não mencionou o Partido Republicano uma única vez. Nem precisaria. Trump já tragou o que um dia foi um partido para seu movimento — que, como ele e todos a seu redor sabem, é ele mesmo. Permitiu que orbitassem em torno de si, naquele palco, algumas figuras, presencial ou nominalmente: JD Vance, seu vice; Elon Musk, seu fiador; Dana White e Joe Rogan, seus brothers. E encerrou os vinte e tantos minutos de fala com o que jurou que será seu lema: “Promessas feitas, promessas mantidas”.

No caso de Trump, elas nem foram tantas — mas foram ambiciosas. Passam por implementar o mais ostensivo plano de deportação de imigrantes ilegais já concebido, se vingar e perseguir inimigos políticos até com forças de segurança, “drill, baby, drill", exterminar o identitarismo, acabar com a burocracia estatal, devolver empregos aos americanos, consertar a economia, coisas assim. Nos discursos erráticos de campanha, tantas vezes agressivos e ultrajantes, essas propostas pareciam nem ter tanto perigo, soavam desarticuladas. Seriam só parte dos devaneios habituais do homem. Mas não. As promessas que Trump fez e pretende cumprir estão ordenadas e detalhadas em um documento de mais de 900 páginas: o Project 2025.

Poesia | Aproveitar o tempo, de Fernando Pessoa

 

Música | Mônica Salmaso e OSESP- Aquarela do Brasil (Ary Barroso)

 

sábado, 9 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Volta de Trump traz retrocesso na agenda ambiental

O Globo

Mas isso não deve deter Brasil na busca por protagonismo no combate às mudanças climáticas

A volta de Donald Trump à Casa Branca representa retrocesso inequívoco no combate às mudanças climáticas. Em seu primeiro governo, ele cancelou mais de cem normas ambientais e retirou do Acordo de Paris os Estados Unidos, maior emissor per capita de gases de efeito estufa. Joe Biden aderiu novamente ao pacto global e promulgou a lei mais ambiciosa para reduzir emissões. Na campanha eleitoral, Trump prometeu “eliminar” essa legislação, destinada a promover a transição de combustíveis fósseis a veículos elétricos e energia limpa. Também declarou que cancelará regras para reduzir emissões de usinas geradoras, proteger espécies ameaçadas e limitar a poluição do ar e da água. Para não falar na perspectiva concreta de nova saída do Acordo de Paris.

O momento não poderia ser pior. O ano de 2024 foi didático. Exacerbado pelas mudanças climáticas, o fenômeno conhecido como El Niño deixou um rastro de destruição, com enchentes sem paralelo no Rio Grande do Sul, seca e incêndios florestais por todo o país. No mundo, tragédias climáticas se tornam mais frequentes e mais intensas — a última catástrofe foram as chuvas que devastaram Valência, na Espanha. A despeito de Trump, o aquecimento global não sairá do rol das maiores preocupações e representa perigo concreto para o Brasil. Nenhum dos contrassensos que vier de Washington deve ser motivo de distração para o governo brasileiro nessa pauta.

Como podem votar em Trump? – Pablo Ortellado

O Globo

Se deixarmos de lado as explicações simplistas de manipulação e fascismo, resta enfrentar a desconexão profunda entre as elites e o povo

Nos meios esclarecidos, nos Estados Unidos e fora deles, as elites educadas se perguntam como foi possível que, depois de tudo, Donald Trump tenha sido eleito novamente. Como foi possível que, depois da invasão do Capitólio, das condenações judiciais e das declarações racistas, o país o tenha escolhido novamente? E não foi uma escolha hesitante. Se não houver surpresa, ele levará todos os estados-pêndulo. Venceu não apenas no Colégio Eleitoral, como caminha para ganhar também no voto popular. Ganhou o voto dos homens latinos. Seu partido conquistou a maioria das cadeiras no Senado e está prestes a levar a maioria também na Câmara. Foi uma vitória maiúscula.

Todo mundo tem lugar de fala – Eduardo Affonso

O Globo

Homens têm um longo aprendizado pela frente na arte de esperar alguém concluir um raciocínio

É possível que, numa discussão, pessoas com posições (aparentemente) antagônicas tenham (igualmente) sua cota de razão? É — e seria muito proveitoso se, em vez de se encastelarem em suas respectivas verdades, cada um se permitisse uma escuta mais atenta da verdade alheia. A isso se chama — se não me falha a memória — diálogo.

Passamos a infância sendo tratados como crianças (talvez porque fôssemos mesmo crianças...), incapazes de entender os argumentos dos adultos. Tínhamos de nos contentar com “É porque sim” ou “Obedece que eu sou sua mãe”. Chegar à idade adulta e continuar ouvindo isso, agora sob novo formato — “Eu tenho lugar de fala; você não tem” — é desanimador.

O conceito, em tese, é inatacável: cada pessoa detém, a partir de sua vivência, um ponto de vista particular. Não é preciso que alguém fale por ela: ela é capaz de se expressar de forma única e (com o perdão da palavra) privilegiada.

Nos EUA a inflação caiu, mas não os preços – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Se Trump cumprir sua agenda econômica, eles subirão em vez de cair, por causa do aumento das tarifas de importação

Donald Trump fez da economia tema central da campanha. Para ele, os Estados Unidos passam por uma crise sem precedentes que destrói a vida das famílias. Prometeu consertar isso e garantir uma onda de prosperidade. No grande comício no Madison Square Garden, em Nova York, assegurou:

— Nós vamos derrotar a inflação rapidamente.

De outro lado da cena, Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, o banco central, pensa exatamente o contrário. Sua descrição da realidade americana hoje:

— O mercado de trabalho continua sólido, a economia está sólida, e a inflação diminuiu substancialmente.

Os números dão razão a Powell.

O PIB americano cresce ao ritmo de 2,8% anuais, de acordo com os últimos dados, de outubro. A inflação, em 12 meses, caiu para 2,3%, baixa e quase na meta do Federal Reserve. O desemprego é de 4,1%, nível historicamente muito baixo. Houve algum ganho de renda. Trata-se de um caso de sucesso mundial: derrubou-se a inflação sem jogar o país na recessão.

A última última reunião - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Terá havido nesta sexta-feira a última última reunião para ultimar o pacote de corte de gastos do governo Lula. Não sei se houve. Ou melhor: reunião houve. Não sei se conclusiva. Improvavelmente conclusiva. Talvez tenha havido até mais de uma última reunião, da qual – a única certeza – algum ministro saiu declarando que na pasta dele ninguém mexeria.

Processo clássico de desidratação do pacotão misterioso, conforme estimulado pelo presidente. Mantido blindado – sangrando – um conjunto de medidas contra o qual, ao deixar o Planalto, seus colaboradores imediatamente disparam.

Marinho, Lupi, Dias: cada um a seu modo se antecipando para expor Haddad e promover Lula. Que – destacam – continuaria sendo Lula. E, sendo Lula, jamais desvincularia as despesas previdenciárias da forma de aumento do salário mínimo. Não estarão errados.

Platão e Trump - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Segredo da democracia não é selecionar líderes bons, mas assegurar que os que vão embora saiam de forma pacífica

Donald Trump é o vencedor inconteste de eleições livres e limpas. Daí não se segue que os americanos tenham feito uma escolha sábia. Acho até que daria para construir um argumento de que ela é objetivamente errada, a exemplo do brexit, equívoco cujo tamanho pode ser calculado numericamente. Mas não precisamos ir tão longe.

O que me interessa investigar é se más escolhas eleitorais funcionam como argumento contra a democracia. Platão achava que sim. Para ele, a democracia padece de tantas falhas estruturais que acaba levando ao poder demagogos, ditadores potenciais e outras lideranças às quais faltam competência e qualidades morais.

Os EUA não são espelho – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Carece de provas a ideia de que a vitória de Trump se reflita aqui, na eleição de 2026

Bolsonaristas têm todo o direito de achar que a vitória de Donald Trump significa que está aberto o caminho para a volta de Jair Bolsonaro (PL) à Presidência em 2026. Assim como é compreensível que lulistas abracem a ideia, vislumbrando a possibilidade de disputar o poder nos moldes de 2022.

Quem enxerga o panorama distante do entusiasmo militante, no entanto, tem o dever de duvidar, e muito, de que estejamos fadados a viver um efeito Orloff às avessas. Os Estados Unidos não são o Brasil amanhã.

América para americanos escolhidos – Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Republicano gabaritou a prova de como se tornar um ditador fingindo respeitar a normalidade democrática

Trump gabaritou a prova de como se tornar um ditador fingindo respeitar a normalidade democrática. Apesar de processos e condenações na Justiça, o republicano bateu Kamala Harris não só no Colégio Eleitoral como no voto popular, assegurou o comando do Senado e da Câmara e poderá ampliar a influência conservadora na Suprema Corte (que já havia interferido na eleição ao conceder imunidade a ex-presidentes).

Com a surra nas urnas, Trump não precisou aprofundar as teorias de conspiração sobre fraudes usadas durante a campanha nem organizar mais uma invasão ao Capitólio, ato sem punição com que tentou reverter a derrota para Joe Biden, em 2020. Depois da votação que não deixou pedra sobre pedra, o sistema, como num passe de mágica, voltou a ser limpo e perfeito.

Trump, história revista – Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Presidente eleito ergueu um partido nacional-populista que oferece uma interpretação para as inseguranças econômicas

No 6 de janeiro de 2021, o vice de Trump, Mike Pence, cumpriu seu dever e, contrariando o desejo golpista do presidente, certificou a vitória de Biden. Logo mais, no próximo 6/1, Kamala Harris, a vice derrotada, certificará sem rodeios a vitória de Trump. Nesse ato, ganha nova luz o 6/1 de 2017, quando Biden, então vice de Obama, certificou a primeira vitória de Trump.

Até dias atrás, descreveu-se Trump como um desvio passageiro, um breve interlúdio na história dos EUA. Hoje, é mais apropriado interpretar a presidência de Biden como hiato efêmero na era inaugurada pela surpreendente derrota de Hillary Clinton. Há quatro anos, Biden triunfou graças à epidemia de Covid-19. Mas, desde 2016, rompeu-se a tradição política inaugurada por Franklin Roosevelt e atualizada no imediato pós-Guerra Fria.

Mal-estar da civilização e a democracia em xeque (I) - Marcus Pestana

O desfecho do século XX foi carregado de eventos significativos que transformaram as estruturas econômicas, políticas e sociais e deixaram rica herança para os tempos atuais. Veloz revolução científica e tecnológica, queda do Muro de Berlim e dissolução da URSS com o fim da Guerra Fria, globalização acelerada das relações financeiras e comerciais, transição da economia industrial para a sociedade de serviços, tomada de consciência sobre os problemas ambientais (RIO 92), criação da União Europeia, automação e desemprego tecnológico, sociedade em rede e vida digital crescente, a China sob a liderança pragmática de Deng Xiaoping transitando para o Socialismo de Mercado.

O legado foi um mundo em permanente ebulição e mais dinâmico. Os desafios são enormes: combater as mudanças climáticas, atenuar as desigualdades gritantes de renda e riqueza entre os povos, integrar ainda mais as cadeias produtivas globais em um jogo de ganhos múltiplos, consolidar a paz, lidar com os grandes movimentos migratórios, promover a tolerância racial e religiosa, patrocinar a equidade de gênero e o combate às discriminações, fortalecer a democracia dentro das novas circunstâncias.

Ao pé da lareira - Simon Schwartzman

O Estado de S. Paulo

O principal capital das universidades é o talento de seus professores e uma cultura de valorização do estudo, da pesquisa, da independência intelectual

Quando Gustavo Capanema quis construir a Universidade do Brasil, na década de 1930, ele abriu um concurso internacional para construir a Cidade Universitária. Ganhou Marcello Piacentini, o arquiteto de Mussolini. Os perdedores, o grupo de Lucio Costa associado ao francês Le Corbusier, protestaram, e acabaram recebendo como compensação o projeto do edifício do Ministério da Educação. Com a guerra, a universidade de Piacentini nunca passou da maquete. O edifício do Ministério da Educação ainda resiste, meio abandonado no caos urbano do centro do Rio de Janeiro. Aprendi isso quando pesquisava os arquivos de Capanema, e me fazia lembrar a frase de que uma universidade começa com uma conversa informal ao pé de uma lareira, que havia lido nos papéis que descreviam a fundação, cem anos antes, da Universidade da Califórnia em Berkeley, onde estive para meus estudos de doutorado.

Desdolarização é delírio dos Brics - Rodrigo Zeidan

Folha de S. Paulo

Trump pode destruir a economia americana; Rússia, China e Brasil, não

A eleição de Trump vai acabar com o que sobrou da globalização que alimentou o crescimento econômico desde a década de 1990. China e Rússia vão continuar a buscar alternativas ao dólar. Mas não vão encontrar (euro e iene não lhe interessam). Desdolarização é fantasia. Infelizmente, em vez de acordarmos desse sonho, estamos entrando na parolagem de outros países.

Moeda dos Brics? Acordos de swaps entre bancos centrais chineses e brasileiros? Lula conclamando pela desdolarização? Perda de tempo.

Em um debate na TV chinesa, meu interlocutor bradou números estratosféricos. Segundo ele, 50% do comércio chinês, na ordem de trilhões de dólares, já estaria sendo feito em renminbi (yuan), a moeda chinesa. Minha réplica: o quanto disso é fluxo, não somente contabilidade cruzada, e o quanto de derivativos e ativos financeiros globais é fechado na moeda chinesa? Dava para ver a raiva nos seus olhos enquanto ele balbuciava uma resposta sem sentido.

Poesia | Desdobramento de Adalgisa, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Chico Buarque - Anos Dourados

 

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Controle de gastos é essencial para conter alta de juros

O Globo

Copom teve de acelerar subida da Selic diante das incertezas sobre compromisso fiscal e cenário externo

Os sinais de força da economia, o aquecimento do mercado de trabalho e o crescimento das projeções de inflação justificam a decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), de aumentar a taxa básica de juros, a Selic, para 11,25%. Na reunião anterior, em setembro, a taxa subiu um quarto de ponto percentual. Ao acelerar o ritmo para meio ponto, o Copom mostra estar pronto para seguir aumentando a Selic até controlar a alta de preços. O cenário internacional, que sempre exige atenção, ficou mais desafiador com a eleição de Donald Trump. Diante da dinâmica inflacionária e do quadro externo, os rumos da política fiscal farão enorme diferença. A magnitude do aperto monetário será maior ou menor, a depender da seriedade do governo no programa de controle de despesas esperado com ansiedade pelo mercado.

Por decisão do Conselho Monetário Nacional, a meta de inflação perseguida pelo Copom é 3%, com intervalo de tolerância até 4,5%. Do início de outubro para cá, as previsões para 2024, 2025 e 2026 subiram. A projeção atual para este ano está em 4,59%, para o próximo em 4,03% e para o seguinte em 3,61%. A inflação acumulada em 12 meses, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), fechou outubro em 4,47%, segundo a prévia do IBGE. Em nota, os próprios integrantes do Copom reconheceram que suas previsões se deterioraram. Por isso era hora de ação, algo que a maioria dos analistas já esperava.

Tempos de incerteza - Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

A democracia liberal não é o ponto de chegada da experiência humana, como pensava Fukuyama. Resta saber se sobrevive onde sempre foi considerada um exemplo planetário

As eleições americanas são o fato mais importante do ano, que por sinal está acabando. São tantos os caminhos para interpretar sua influência que é preciso separá-los para evitar o labirinto.

Do ponto de vista da democracia, a vitória de Donald Trump é preocupante. Ele estimulou a invasão do Capitólio, duvidou abertamente do resultado das urnas em 2020 e promete vingança contra seus adversários.

Há uma suposição de que o autoritarismo não triunfa nos EUA. Não podemos esquecer aquele célebre artigo de Francis Fukuyama para quem a democracia liberal era a forma política final do gênero humano.

De lá para cá, os regimes autoritários cresceram, adotaram métodos capitalistas, aumentaram a renda per capita das pessoas e oferecem até um certo orgulho nacional, no lugar do desejo por liberdade e direitos políticos. Segundo o professor Robert Stefan Foa, em 1995 as pessoas com renda per capita acima de US$ 20 mil viviam em 96% dos casos em democracias liberais. Apenas 34 milhões viviam em países não democráticos. Hoje há 315 milhões com renda per capita acima desse limiar que vivem em países dominados pelo autoritarismo.

Bolsonaro está assanhado - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O que é bom para os EUA é bom para o Brasil? E o que acontece lá se repete aqui? Nem sempre...

O principal impacto da vitória de Donald Trump no Brasil não é o que ele poderá fazer contra o governo Lula, mas o que tentará fazer a favor da volta do ex-presidente Jair Bolsonaro, que, aliás, acaba de dizer que quase tudo o que acontece nos Estados Unidos costuma se repetir aqui. Fica implícito: se Trump perdeu a reeleição e acaba de se eleger para novo mandato, por que o mesmo não pode ocorrer com ele em 2026?

Esse risco derruba, ou enfraquece, a tese de que o Supremo e o ministro Alexandre de Moraes, decisivos para evitar um golpe no primeiro mandato e após a derrota de Bolsonaro, erram ao não recolher as armas, porque a ameaça passou, mas eles continuam agindo com excepcionalidade após a volta à normalidade. Será que a ameaça passou mesmo? As vitórias da direita nas eleições municipais no Brasil e de Trump nos EUA estimulam o bolsonarismo e trazem o fantasma do golpe de volta.

Bernardo Mello Franco – O sonho de Jair

O Globo

Jair Bolsonaro tem um sonho. Quer usar a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos como trampolim para voltar ao poder no Brasil. O capitão está eufórico com o triunfo da extrema direita americana. “Quase tudo o que acontece lá acontece aqui”, proclamou.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Bolsonaro definiu a conquista do republicano como um “passo importantíssimo” para recuperar seus direitos políticos. “Acredito que o Trump gostaria que eu fosse elegível”, justificou.

À espera de um afago, o capitão abanou o rabo e estendeu a pata para o presidente eleito dos EUA. “Ele gosta de mim”, disse. “É como você se apaixonar por alguém de graça, né? Essa paixão veio da forma como eu tratava ele”, prosseguiu.

Empenhado em demonstrar fidelidade, Bolsonaro se gabou de ter sido “o último chefe de Estado” a reconhecer a vitória de Joe Biden em 2020. “Ele não esquece isso”, emendou, referindo-se a Trump. A bajulação fez lembrar sua política externa rastejante, ancorada numa relação de vassalagem com a Casa Branca.

Vitória de Trump não impacta o G20, diz sherpa - Andrea Jubé

Valor Econômico

Todas as negociações foram construídas na Presidência de Joe Biden

A diplomacia mundial usa o termo “sherpa” para designar o principal negociador de cada país nas cúpulas internacionais. A metáfora é adequada. Os sherpas, povo originário do Himalaia, entre o Tibete e o Nepal, tornaram-se os guias dos alpinistas que se dispõem a escalar as montanhas mais altas do mundo, como o Everest.

“Os sherpas [na diplomacia] têm de ajudar os líderes [chefes de Estado] a chegarem à cúpula”, ou seja, ao ponto alto das negociações, em meio a longas e sinuosas trilhas, explicou à coluna o embaixador Maurício Carvalho Lyrio. Ele é o sherpa do Brasil na cúpula do G20, cuja reunião de chefes de Estado ocorre nos dias 18 e 19 no Rio de Janeiro, sob a presidência brasileira.

Identitários são eles – Flávia Oliveira

O Globo

Trump surfou bem a onda de insatisfação com a falta de renda e as condições do mercado de trabalho

Foi Spike Lee — diretor de “Faça a coisa certa” (1989), “Malcolm X” (1992), “Infiltrado na Klan” (2018), “Destacamento Blood” (2020) — quem cantou a pedra no próprio domingo, 21 de julho, em que Joe Biden tirou o pé do projeto de reeleição e empurrou a vice aos leões. Sob uma foto presidencial de Kamala Harris, o cineasta escreveu numa rede social: “Once again a sista comes to da recue” (“Mais uma vez, uma mana vem em resgate”, em tradução livre). Bingo.

Quando se candidatou à Casa Branca, em 2020, numa espécie de frente ampla à americana para deter a ameaça que Donald Trump, eleito em 2016, já representava para a democracia, Biden não pretendia cumprir mais de um mandato. Seria o comandante em chefe de um período de transição para a normalidade, nos moldes do que se deu no Brasil, a partir da eleição de 2022. Em plena onda de manifestações da juventude negra contra a violência policial, após o assassinato de George Floyd por asfixia, sacou como vice uma senadora afro-asiática em primeiro mandato, ex-procuradora-geral da Califórnia, Kamala Harris.