segunda-feira, 12 de maio de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Queda da miséria e da desigualdade precisa ser contínua

O Globo

Sem equilibrar contas públicas, governo petista corre risco de outro retrocesso nas conquistas sociais

Nos últimos dois anos, cerca de 6 milhões de brasileiros saíram da pobreza extrema. Pelas estatísticas oficiais, os miseráveis eram 8,3% da população em 2023 e passaram a ser 6,8% em 2024. Em todo o país, um contingente equivalente à população do Rio ultrapassou a linha de R$ 333 mensais de rendimento domiciliar per capita. Principalmente para os mais pobres entre os pobres, ter mais dinheiro no bolso é transformador. Abre a possibilidade de acesso a mais comida, moradia melhor, uma vida mais digna. Outra boa notícia divulgada pelo IBGE na semana passada diz respeito à desigualdade de renda. O índice mais usado para medi-la, o Gini, caiu em 2024 para o nível mais baixo registrado desde 2012. Fora da África, o Brasil é o segundo país mais desigual, em situação melhor apenas que a Colômbia. O lugar nesse vergonhoso ranking segue inalterado, mas a queda abre uma oportunidade única.

Um golpe contra a esperança – Fernando Gabeira

O Globo

Meio profeticamente, antes das eleições, previ que nos livraríamos do horror e cairíamos na mediocridade

O Brasil de hoje me entristece. Macunaíma sentiria apenas preguiça. Os grandes escândalos de corrupção se sucedem. É triste ver os velhos roubados por entidades-fantasmas, com descontos em sua aposentadoria, roubados nos empréstimos consignados, cartão de crédito e quase roubados com a promessa de devolução rápida do dinheiro roubado.

Viramos o paraíso do estelionato. Neste momento, recebo ligações com a voz da assistente digital do banco, falando de uma absurda compra numa loja de construção. Disque 1 para confirmar, dois para rejeitar. Disco coisa nenhuma porque sei que é golpe. Nas cadeias e nas ruas, centenas de golpistas inventam formas de lesar. Tenho amigos que perderam suas economias. Os bancos são implacáveis, não devolvem 1 centavo.

Harvard versus Trump - Demétrio Magnoli

O Globo

Harvard não pode combater Trump sem resgatar os valores abandonados do pluralismo de ideias e do debate aberto

‘Ele tem um longo histórico de críticas às elites das quais, desesperadamente, deseja aceitação.’ Timothy O’Brien, biógrafo de Trump, usa as lentes da psicologia para interpretar o ressentimento que o presidente nutre pelas universidades da Ivy League. Trump estudou numa delas, que nunca lhe ofereceu um título honorífico. Seu vice, J.D. Vance, graduado pela Escola de Direito de Yale, esclareceu que a hostilidade ultrapassa a esfera pessoal. Em discurso à Conferência Nacional do Conservadorismo, em 2021, intitulado As Universidades são o Inimigo, conclamou o movimento a “atacar agressivamente as universidades neste país”.

Aécio critica ida Leite para PSD e minimiza pré-candidatura presidencial

Cristiane Agostine / Valor Econômico

Ex-presidente do PSDB, deputado diz que governador trocou de legenda por um 'projeto regional'

Ex-presidente nacional do PSDB e atual integrante da Executiva tucana, o deputado federal Aécio Neves (MG) criticou a saída do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, do partido para se filiar ao PSD. Aécio disse que Leite trocou de legenda por um “projeto regional” e minimizou a pré-candidatura presidencial do ex-tucano.

“Vejo nessa decisão do governador, na verdade, a opção por um projeto regional, já que o partido ao qual ele se filia, como todos sabem, provavelmente terá outras opções na disputa presidencial”, disse Aécio em nota divulgada à imprensa.

Decisão sobre Ramagem abala relação entre STF e Câmara

Por Andrea Jubé, Murillo Camarotto, Gabriel Shinohara e Marcelo Ribeiro / Valor Econômico

Semana começa com a expectativa de reação de Hugo Motta contra anular, parcialmente, a resolução da Casa que havia suspendido a ação envolvendo Ramagem

A semana começa com a expectativa de reação do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), à decisão unânime da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) para anular, parcialmente, a resolução da Casa que havia suspendido a ação penal sobre a trama golpista contra o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ).

A decisão do STF, embora amparada pela Constituição Federal, deve estremecer as relações entre os dois Poderes, e reacender a crise entre apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e a Corte.

No sábado (10), a Primeira Turma do STF alcançou a unanimidade no julgamento com o voto da ministra Cármen Lúcia no plenário virtual. O colegiado seguiu o voto do relator, ministro Alexandre de Moraes, no sentido de que a suspensão da ação penal, imposta pelo plenário da Câmara, se aplica apenas para crimes cometidos após a diplomação de Ramagem, conforme dispõe a norma constitucional.

De Jorgina ao Careca do INSS, pouco se recupera

Bruno Carazza  / Valor Econômico

Sistema judiciário brasileiro é incapaz de apurar conexões políticas e de reaver valores desviados, o que proporciona a recorrência de fraudes

A primeira vez que o nome de Jorgina Maria de Freitas Fernandes apareceu na grande imprensa associado ao termo INSS foi há quase 34 anos, no dia 22 de maio de 1991, em reportagens de “O Globo” e do extinto “Jornal do Brasil”.

As notícias davam conta do pedido de abertura de processo contra um juiz (Nestor José do Nascimento), dois procuradores do INSS (Hélio Ribeiro de Souza e Marcílio Gomes Silva), um perito judicial (Carlos Alberto Mello dos Santos) e 16 advogados por um esquema que forjava e superfaturava indenizações por acidente de trabalho para beneficiários da previdência pública. Jorgina era uma das advogadas e tornou-se o rosto e o símbolo da fraude bilionária que indignou o país.

Do relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito aberta para apurar as denúncias, percebe-se o quanto esse tipo de crime já era recorrente na história brasileira: “A CPMI para ‘Apurar Fraudes na Previdência Social’, que ora apresenta o relatório final dos trabalhos desenvolvidos, é a 19ª já instituída para esse mesmo fim”.

Segundo aliados, Bolsonaro hesita entre Michelle e Tarcísio

Andrea Jubé e Fernando Exman / Valor Econômico

Inelegível, ex-presidente é pressionado a sinalizar preferência para eleição presidencial em 2026 ainda este ano

Em reuniões após a alta médica, em sua residência, em Brasília, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) admitiu a aliados que está dividido entre lançar a candidatura da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) à Presidência da República em 2026 ou apoiar o nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para a sucessão presidencial. Ao mesmo tempo, está empenhado em eleger o maior número de senadores, a fim de elevar a pressão sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), em uma estratégia que tem como uma das apostas a candidatura do vereador Carlos Bolsonaro (PL).

De acordo com um interlocutor que o visitou nos últimos dias, aumentou a pressão de aliados para que o ex-presidente se posicione ainda neste ano sobre quem apoiará na corrida ao Palácio do Planalto, já que está inelegível. Em público, o ex-presidente continuará afirmando que será candidato no pleito de 2026. Em conversas privadas, entretanto, reconhece que terá de apoiar um aliado na disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em provável reedição da polarização do pleito de 2022. Nesse contexto, seus interlocutores têm argumentado que Tarcísio teria que ser ao menos comunicado com antecedência para poder se preparar para a campanha, ainda que de forma sigilosa, e organizar sua sucessão.

Corrupção federal, corrupção municipal - Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Disseminou-se a ideia equivocada que a corrupção se concentra em transferências a localidades interioranas do Brasil arcaico onde os controles são débeis

A Constituição de 1946 determinou que, pela primeira vez, 10% do Imposto de Renda fosse distribuído aos municípios, exceto os das capitais. Foi a primeira versão do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

O pai da proposta, o deputado pernambucano Barros Carvalho, criticou aqueles que afirmavam que "os prefeitos iriam enfiar aquela verba no próprio bolso". Argumentou: "É possível que alguns bandidos e aventureiros se apossem também do dinheiro da quota federal. Será um mal, mas um mal menor do que o abandono em que União deixa o interior do país. (...) Se roubarem hoje a quota federal, ainda assim o dinheiro vai fazer uma redistribuição regional da renda, vai ficar na região, o prefeito ladrão acaba sempre montando uma descaroçadeira de algodão ou uma olaria, e construindo uma estrada ou um açude para sua fazenda".

O 13 de maio é dia de festa? - Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Estado garantiu a exclusão do negro com medidas como a proibição da aquisição de terras e de acesso à educação

O 13 de maio de 1888 foi um dia de festa para milhares de pessoas à época mantidas sob o jugo da escravização no Brasil, mas o dia seguinte à promulgação da Lei Áurea (com seus apenas dois artigos) institucionalizou o abismo étnico-racial entre negros e não negros no país. Não é preciso ser negro para saber (ou ao menos intuir) os motivos que levaram à substituição da comemoração da abolição pela reflexão atual sobre o impacto pernicioso dos termos da libertação.

Mães querem melhores condições de trabalho - Camila Rocha

Folha de S. Paulo

Brasileiras ganham 19,4% a menos que os homens, e estigma da maternidade também aparece nos cargos de liderança

Uma das coisas que mais une mães do Brasil inteiro, independente de religião, classe e orientação ideológica, é a indignação contra as desigualdades do mercado de trabalho.

De acordo com dados do 1º Relatório Nacional de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, publicado há um ano pelos ministérios do Trabalho e Emprego e das Mulheres, as brasileiras ganham 19,4% a menos que os homens.

O relatório aponta que os principais critérios adotados pelas empresas para o avanço da carreira prejudicam justamente as mulheres que são mães. Afinal, horas extras, disponibilidade para o trabalho, metas de produção, entre outras formas de avaliação, são atingidas mais pelos homens, que, em geral, não têm interrupção no tempo de trabalho devido à carga associada à maternidade.

Governo poupará R$ 128 bi caso siga decisão do STF em emendas

Lavínia Kaucz e Cícero Cotrim / O Estado de S. Paulo

Economia ocorreria até 2029 se limites forem respeitados

O governo federal poderá economizar R$ 128,3 bilhões até 2029 se adotar as regras estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para controlar o crescimento das emendas parlamentares. De acordo com decisões do ministro Flávio Dino, referendadas pela Corte, as emendas totais – incluindo as de gasto impositivo e não impositivo – não podem crescer mais do que o menor de três critérios: a variação das despesas discricionárias (não obrigatórias) do Executivo, o limite de crescimento do arcabouço fiscal (0,6% a 2,5% acima da inflação) ou a variação da Receita Corrente Líquida (RCL). O cálculo da potencial economia foi feito pelo Estadão/Broadcast e comparado com estimativas do Executivo no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2026, que não seguiram os critérios mais rígidos estabelecidos do STF.

Ideologia mora na urna presidencial - Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Onde há ambição pela Presidência, há maior coerência ideológica dos partidos

Partidos políticos brasileiros sempre foram criticados por sua baixa definição ideológica e fraca aderência programática. Suas campanhas, marcadas pelo personalismo, tendem a privilegiar conexões diretas entre candidatos e eleitores, em detrimento de vínculos partidários duradouros.

No entanto, tem-se observado uma inflexão: partidos de direita vêm assumindo identidades ideológicas mais claras e plataformas programáticas mais consistentes. Vêm se posicionando com mais nitidez no espectro conservador e, cada vez mais, demonstram menor disposição de negociar cargos e recursos em troca da diluição de seus princípios em coalizões heterogêneas. O que explica essa mudança? A chave está na decisão estratégica de disputar ou não a Presidência.

No presidencialismo multipartidário brasileiro, partidos que optam por lançar candidatura própria ao Planalto tendem a desenvolver um perfil ideológico mais definido. Ao buscar projeção nacional, são compelidos a oferecer programas de governo e a se diferenciar de seus concorrentes.

Poesia | Tempo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Mônica Salmaso - Bom tempo (Chico Buarque e João Bosco)

 

domingo, 11 de maio de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Supremo acerta ao derrubar provocação penal da Câmara

Folha de S. Paulo

Manobra juvenil tentou sustar ações contra acusados de golpe; Congresso poderia discutir pena maior para cabeças do 8/1

A desfaçatez, o corporativismo e a irresponsabilidade deram as mãos na Câmara dos Deputados na quarta-feira (7). Numa manobra que não deixa nada a dever para as estudantadas, 315 deputados federais pretenderam derrubar, numa só tacada, toda a ação penal que acusa o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e mais sete pessoas de conspirarem contra a democracia.

O pretexto foi a avaliação do caso do ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem, um dos réus nesse processo que corre no Supremo Tribunal Federal. Como Ramagem foi eleito deputado federal no final de 2022, a Constituição faculta ao plenário da Câmara, provocado pelo partido do acusado, suspender a ação penal.

Não é preciso ter estudado direito para concluir que o comando constitucional se aplica tão somente ao parlamentar, não se estendendo aos outros sete réus da ação desprovidos de mandato legislativo. O texto da Carta também é claro ao limitar a proteção ao período que se inicia após a diplomação do candidato eleito, que ocorreu em dezembro.

Marxistas e católicos. Da mão estendida ao único caminho - Luiz Ignácio Maranhão Filho*

*Luiz Ignácio Maranhão Filho (1921-1974) é um dos onze membros do Comitê Central do PCB a figurar na lista dos desaparecidos políticos e mortos pela ditadura de 1964. Advogado, jornalista, professor do Atheneu Norte-rio-grandense, fundador da Faculdade de Filosofia e Letras do Rio Grande do Norte e ex-deputado estadual, Luiz Maranhão foi preso em São Paulo em 1974 e recolhido ao DOPS, lugar em que foi torturado até a morte.

Publicado na Revista Paz e Terra, ano II, n. 6, abr. 1968.

Nesta segunda metade do século, a convergência de posições entre marxismo e cristianismo surge como um dos fenômenos mais impressionantes da nossa época, surpreendendo a muitos que não se detiveram no exame de um longo processo, iniciado em alguns países europeus nos difíceis dias da ocupação nazista, desdobrando-se, depois, até o Concílio Ecumênico Vaticano II. Processo que remonta, também, ao que talvez possamos chamar nova teologia, expressa através do pensamento de Teilhard de Chardin, cujo itinerário de perseguições impostas pela velha estrutura assinala bem o seu lugar entre os portadores de ideias novas.

Grande teria de ser, como vem sendo, a repercussão no Brasil daquele fenômeno sociopolítico de algumas ações unitárias entre marxistas e católicos, principalmente porque, a esta altura dos acontecimentos, tais atitudes já são adotadas não apenas por setores isolados, nos escalões intermediários, mas pelas próprias cúpulas internacionais. O Brasil é o país de maior população católica do mundo, e essa condição haveria de exigir uma atenção especial para esses assuntos, tanto da parte dos marxistas como dos cristãos. Mas acreditamos que eles tenham interessado principalmente aos últimos e com muita razão. Sendo um país em desenvolvimento, com extensão continental e possuindo tão importantes recursos naturais, o Brasil se destina a ocupar posição entre as grandes potências. Já não se trata do velho "ufanismo" do "país do futuro", mas de uma realidade que se evidencia ao aproximar-se o limiar do ano 2000.

Quando a esquerda vai voltar a ter pautas próprias? - Daniel Medeiros*

O Globo

É preciso entender que conflito é da natureza da democracia e, por isso, criticar e ser criticado faz parte do jogo

Agora é essa conversa da camisa da seleção. Minhas redes sociais, cheias de amigos e conhecidos progressistas (dos lulistas aos marinistas, dos saudosistas aos pós-modernos), todos ulularam de satisfação: “Agora eu compro!”; “Vamos pra rua de camisa vermelha da seleção!”; “Quero ver a cara dos patriotas!”.

Gente, que pobreza de ideias é essa? Sou do tempo em que a gente comprava a camisa vermelha na barraquinha da Rua XV, com o broche do Henfil mostrando a graúna indignando-se com alguma coisa. Na hora da Copa, era a amarelinha ou a azul do manto de Nossa Senhora, a padroeira, porque futebol é crença e também é sofrimento. Quem pautou essa bizarrice de transformar a sagrada camisa do penta em símbolo de passeata política foram os caras do “mito”. Uma tristeza, uma apropriação indébita, uma profanação cultural com o símbolo máximo do nosso futebol, envergada com galhardia por Pelé, Garrincha, Gérson, Rivelino, Tostão, Sócrates, Falcão, Júnior, Zico, ah, tantos nomes gloriosos e inesquecíveis.

A esquerda fica empolgada com essa peraltice da CBF porque perdeu o rumo de sua própria narrativa e vive hoje como a cacatua de uma tia minha, que só sabe repetir as palavras que ela ensina. Muito malandra, minha tia ensina frases para desconcertar as visitas, como “Já não está tarde, comadre?” ou “Ai, que tá na hora da minha novela!”. Essa última, minha tia jura que ela repete, mas nunca ouvi. De qualquer forma, achei genial. Para uma cacatua, não para as forças progressistas do país.

Excesso de ousadia - Merval Pereira

O Globo

A manobra para livrar o ex-presidente Bolsonaro e seus comparsas não deu certo, mas criará uma crise institucional que poderia ser evitada se não existisse por parte da maioria da Câmara uma vontade de confrontar o Supremo em defesa do ex-presidente

A Câmara não perde uma chance de se desmoralizar diante dos cidadãos, de onde vem sua legitimidade e cujos direitos deveria representar. Em dias recentes, tomou duas decisões avessas aos interesses da cidadania, mas favoráveis aos próprios deputados e seus apaniguados, as duas envolvendo decisões do Supremo Tribunal Federal. No primeiro caso, o STF mandou que a Câmara recalculasse o número de deputados, com base na representatividade dos Estados de acordo com o Censo de 2022. O estudo oficial tiraria sete vagas de Estados que tiveram perda de habitantes, e criaria outras sete vagas em Estados que ganharam população, ficando tudo igual.

Gaza está sozinha no mundo – Dorrit Harazim

O Globo

Os Estados Unidos apoiam a erradicação da vida civil em Gaza, enquanto Reino Unido e França desviam o olhar para não parecer cúmplices. Dos 'países-irmãos' árabes muçulmanos, pouco a esperar

Poucos meses atrás, o poeta palestino Mosab Abu Toha se declarou dilacerado. Preso e libertado pelas forças israelenses na sua Gaza natal em 2023, obteve salvo-conduto para sair do enclave. Bons tempos aqueles em que salvo-condutos ainda eram fornecidos. Do Egito, ele migrou para os Estados Unidos. E foi dessa terra estrangeira que refletiu sobre seu estado d’alma em entrevista ao canal Al-Jazeera. O salto entre o “ontem” e o “agora”, disse, fora brutal. “Imagine estar num abrigo em Gaza com seus pais, irmãos, filhos, sem conseguir proteger nenhum deles. Você é incapaz de prover comida, água, medicamentos, nada. E agora você se vê nos Estados Unidos, justamente o país que financia o genocídio. É desesperador”, resumiu ele.

Que papa será Robert Prevost? - Míriam Leitão

O Globo

A Igreja Católica sempre muda e permanece. Avança para depois recuar, mas agora o movimento parece o de consolidar avanços

A Igreja Católica sabe permanecer, quando desafiada, e tem usado a estratégia de avançar e, em seguida, recuar. Às vezes, o recuo é retrocesso mesmo, outras é para consolidar terreno e aparar as arestas entre as correntes políticas internas. Foi assim na passagem entre João XXIII e Paulo VI. O Concílio Vaticano II abriu tantas portas e fez uma atualização tão forte, e necessária, que Paulo VI trabalhou para organizar o chão revolvido. Francisco foi inovador em várias áreas, até em reduzir a distância entre o Papa e as pessoas. Papa Leão XIV não parece ter o carisma do antecessor, mas tem algumas das ideias essenciais, como na questão ambiental, um dos maiores legados de Francisco, reunido na Laudato Si’.

Paradoxo: certezas que geram incertezas - Pedro Malan

O Estado de S. Paulo

O papel de lideranças políticas responsáveis é o de contribuir para reduzir, e não aumentar, os graus de incertezas sobre o futuro

Ouvido pela imprensa logo após a divulgação do resultado da eleição, o irmão mais velho do agora papa Leão XIV contou que havia perguntado ao então cardeal Robert Prevost se assistira ao filme Conclave – para “saber como se comportar” num conclave verdadeiro. No filme, o cardeal encarregado de organizar o escrutínio secreto faz memorável discurso, no qual afirma: “Para trabalharmos juntos e crescermos juntos, precisamos ser tolerantes. Nenhuma pessoa ou facção deve buscar dominar outra. (...) É a variedade, a diversidade de pessoas e opiniões, que nos dá força. (...) Há um pecado que passei a temer acima de todos os outros: a certeza. A certeza é o grande inimigo da unidade. A certeza é o inimigo mortal da tolerância. (...) Nossa fé é algo vivo, justamente porque caminha de mãos dadas com a dúvida. Se houvesse apenas certeza e nenhuma dúvida, não haveria mistério e, portanto, não haveria necessidade de fé”.

Inflação recua, mas incertezas mantêm risco - Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O impulso inflacionário poderia ser menor, se o governo freasse os gastos federais e aceitasse um desempenho econômico mais contido

A primeira missa do novo papa foi seguida, para os brasileiros, pela divulgação dos novos números da inflação: 0,43% em abril; 2,48% neste ano; e 5,53% em 12 meses, taxa bem superior ao teto da meta (4,50%) e muito acima do centro do alvo (3%). Em viagem à Rússia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva celebrou os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, distanciando-se, por um momento, da guerra diária de seus conterrâneos contra o aumento de preços nos supermercados, nas lojas e nos serviços essenciais.

Para os otimistas, a notícia mais importante pode ser o declínio da inflação mensal. A taxa recuou de 1,31% em fevereiro para 0,56% e 0,43% nos dois meses seguintes. Mas a alta de preços acumulada em 12 meses foi 0,05 ponto superior à de março e ultrapassou todos os patamares alcançados desde o início do ano anterior.

Mera provocação – Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Como os vândalos do 8/1, o deputado Ramagem é só pretexto para salvar Bolsonaro do STF

A decisão relâmpago da Câmara de suspender o julgamento do atual deputado Alexandre Ramagem é a antessala da aprovação da anistia para os golpistas de antes, durante e depois do 8 de Janeiro e, mais uma vez, perigosamente, isola o Supremo na linha de frente na defesa das instituições e da democracia. Tanto no caso de Ramagem quanto na anistia, o objetivo é livrar a cara de Jair Bolsonaro.

Ao votarem contra o Supremo e a favor de Ramagem, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e o plenário da Câmara fizeram uma provocação ostensiva ao Poder Judiciário e abriram uma crise institucional, pois a Constituição é clara ao estabelecer que o Congresso pode sustar ações penais exclusivamente contra parlamentares e apenas por crimes cometidos durante o mandato.

Elo entre reformistas e tradicionalistas - Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Prevost se opôs a um plano peruano de introduzir aulas de gênero nas escolas

A eleição de Robert Prevost revela o desejo dos cardeais de reconciliar as alas reformista e tradicionalista da Igreja. O papa Leão XIV compartilha as preocupações de Francisco com os pobres e imigrantes. Mas é mais conservador do que ele sobre gênero e sexualidade. Na primeira campanha de Donald Trump, em 2015, o então bispo Prevost retuitou artigo do cardeal Timothy Dolan condenando a retórica anti-imigrantes.

Em 2018, Prevost compartilhou um post qualificando de “moralmente indefensável” e “vergonhosa” a separação de crianças dos pais imigrantes, adotada por Trump.

Mercator, Rio Branco e a inutilidade do Mapa Múndi de Pochmann - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O novo mapa não consta do planejamento do IBGE. É um capricho pessoal, uma patriotada que expõe o Brasil ao ridículo, a pretexto de combater o eurocentrismo

Desde Ptolomeu (c. 100-170 d.C., Alexandria, Egito), a cartografia acompanha o processo civilizatório. Autor da monumental “Geographia”, o matemático e físico grego influenciou a cartografia europeia por séculos, ao introduzir as coordenadas de latitude e longitude, sobretudo o trabalho de Gerardus Mercator (1512–1594), matemático e geógrafo flamengo, cujo verdadeiro nome era Gerhard Kremer, que latinizou seu nome para Mercator (“comerciante”). Preso em 1544 por suspeita de heresia, por suas ideias luteranas, acabou libertado.

A Projeção de Mercator (1569) é cilíndrica e transforma a superfície curva da Terra em um mapa plano. Foi revolucionária para a navegação, porque permite traçar rotas com rumo constante (loxodromia) como linhas retas, embora distorça as áreas próximas aos polos, como a Groenlândia, por exemplo. Seu “Atlas sive cosmographicae meditationes” (1595) foi o primeiro a usar esse nome, em homenagem ao titã Atlas da mitologia grega. Essa projeção é utilizada até hoje em sistemas de navegação (como o GPS), ou seja, quando se pega um Uber ou se aluga um patinete.

O Brasil precisa lembrar-se do Rio Doce - Márcio Macêdo*

Correio Braziliense

O novo acordo do Rio Doce, homologado pelo STF, pretende que famílias atingidas pelo rompimento da barragem Fundão, em Mariana, tenham garantias concretas de reparação individual e medidas compensatórias coletivas

Às vezes, os fatos se distanciam no tempo e a sociedade se desconecta deles, mesmo numa tragédia como o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, maior desastre ambiental do país. Atingiu Minas Gerais e Espírito Santo e também todas as pessoas que sonham com um mundo sustentável, que respeite os limites do nosso planeta.

O governo do presidente Lula, numa ação coordenada pela Secretaria-Geral da Presidência da República — que lidero — com o apoio de mais 13 ministérios, além de autarquias, empresas, bancos públicos federais e a defensoria pública, fez a primeira Caravana Interministerial depois da homologação do novo acordo do Rio Doce, pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Os objetivos foram levar informações precisas sobre o novo acordo e também ouvir. Ouvir e entender a dor de milhares de famílias que, quase 10 anos depois da tragédia, ainda não recuperaram as fontes de onde tiravam o sustento, especialmente agropecuária e pesca; não recuperaram a saúde física e mental que tinham antes do desastre pelo qual respondem as mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton Brasil.

Avacalhação tramita bem no Congresso - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ano não começou após Carnaval, Páscoa, e logo tem festa junina, mas avacalhação tramita bem

Passou o Carnaval, passou a Páscoa, passou o feriadão do Trabalho e o ano no Congresso não começa. Logo virão as folgas das festas juninas e, para o descanso da fuzarca, férias em julho. O governo viaja.

Mas os parlamentares estiveram ocupados. Primeiro, em reaver dinheiros maiores, aqueles R$ 50 bilhões em emendas. Segundo, ao menos no caso de centrões e direitões, a sovar a massa podre da pizza de anistias.

É o caso da anistia para Jair Bolsonaro e outros golpistas. Experimentam livrar deputados acusados de golpe, como na tentativa de sustar o processo contra Alexandre Ramagem (PL-RJ), mas não apenas. Essa resolução, votada na semana passada pela Câmara, parece um laboratório de arranjos para salvar parlamentares acusados de roubanças, como no caso de emendas. Serve também para ameaçar o STF.

O conclave do capeta - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Congresso desenhava pentagramas para fugir da cadeia, enquanto católicos acompanhavam escolha de novo papa

Enquanto os católicos esperavam que o Espírito Santo se manifestasse em Roma, no Congresso Brasileiro Jair e a ladroagem do Congresso desenhavam seus pentagramas para fugir da cadeia e trazer o golpe de volta do inferno.

Foi o conclave do capeta.

Na última quarta-feira, a Câmara dos Deputados aprovou uma sacanagem para interromper a ação penal contra o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), acusado (e obviamente culpado) no inquérito do golpe. O plano era aproveitar para interromper o julgamento dos outros réus no mesmo inquérito, como Bolsonaro e Braga Netto.

Ilegal, e daí? – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O Congresso afronta a Constituição em movimento de evidente provocação ao Supremo

Como não está de brincadeira, o Congresso só pode estar de provocação com essa história da Câmara de aprovar a suspensão da ação contra os golpistas e a ideia do Senado de patrocinar a revisão de penas dos já condenados.

À luz da legislação vigente, fazem isso ao arrepio da Constituição e do Código Penal. Neste caso, a despeito do casuísmo, ao menos os congressistas exercem sua prerrogativa de mudar leis. Naquele, o da anulação de ato do Supremo Tribunal Federal a partir da condição de um deputado, invadem competência do Judiciário. E sabem perfeitamente disso.

Ansiolítico para a politização da vida - Vinicius Mota

Folha de S. Paulo

Dicas para atravessar a tempestade que reduz tudo a uma batalha de vida ou morte

A democracia deveria ser chata. O tédio indica que as coisas funcionam bem, políticos e partidos circulam pelas posições de poder quase aleatoriamente e sem solavancos, juízes de que não se sabe o nome fazem o seu trabalho com tranquilidade, e os demais serviços públicos acontecem como o dia sucede a noite. As pessoas tocam a vida sem se ocupar muito do que ocorre nos palácios e nas assembleias.

Há mais de dez anos esse padrão se alterou num punhado de países democráticos. Simulacros de batalhas de vida ou morte impregnaram o cotidiano. Tornou-se hábito denunciar as agendas ideológicas de cientistas, artistas, professores, magistrados, empresários, sacerdotes, esportistas, diplomatas, jornalistas e inseri-las no grande jogo da política. Ganhar eleição virou credencial para bagunçar o coreto institucional e sabotar contratos sociais profundos e longevos.

Como a autoajuda ainda não saiu de moda, arrisco algumas sugestões para atravessar esse período tempestuoso minimizando, quem sabe, as avarias no casco mental.

Quando o diabo faz política - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Espanto diante dos comportamentos exibidos a olhos públicos decorre de quem tenta buscar racionalidade

"Para obter o seu objetivo, o diabo é capaz até de citar as Escrituras" (Shakespeare em "O Mercador de Veneza"). Um filme a que se pode assistir como paráfrase desse pensamento é "O Diabo de Cada Dia" (2020), de Antonio Campos, sobre uma corrente do mal perpetuada em pequena cidade de Ohio (EUA). Vê-se como a religião molda trajetórias de vida, desenhando personagens com linhas distorcidas, desvirtuando o que se entende por fé. A ignorância total da realidade é aprofundada pela interpretação enviesada da Bíblia a cargo de um duvidoso pastor.

Entrevista | Peter Burke: 'A ignorância dos poderosos é perigosa'

Ruan de Sousa Gabriel / O Globo

Em passagem pelo Brasil, historiador inglês defende o combate à desinformação e define o papel do intelectual hoje: 'chocar com ideias novas'

Por mais de duas décadas, o historiador britânico Peter Burke, de 87 anos, investigou a origem do conhecimento e escreveu livros incontornáveis sobre o assunto, como “O polímata: uma história cultural de Leonardo da Vinci a Susan Sontag”. Até que enveredou pela agnotologia — neologismo que descreve o estudo da ignorância.

Em 2023, lançou “Ignorância”, no qual analisa os impactos da “ausência de conhecimento” nos mais diversos campos: da política à ciência, da religião aos negócios. Como epígrafe, o professor da Universidade de Cambridge escolheu uma frase do político brasileiro Leonel Brizola (1922-2004): “A educação não é cara. Cara mesmo é a ignorância.” E há vários exemplos de ignorância brasileira no livro: da destruição das florestas para plantar soja a políticos que não sabem o preço do pão. Sobre Jair Bolsonaro, o inglês escreve: “Sofre de ignorância em sua forma aguda, a de nem mesmo saber que ele nada sabe.”

Poesia | Para sempre, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Toquinho e Camilla Faustino - Mamãe

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sábado, 10 de maio de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não existe "casa revisora" do STF

Correio Braziliense

Ao aprovar sustação de ação penal no STF relacionada à tentativa de golpe de Estado na qual está incluído o deputado Delegado Ramagem (PL-RJ), o Legislativo insiste em impor uma agenda de choque com as prerrogativas do Judiciário

A Câmara dos Deputados, na quarta-feira, aprovou em plenário a sustação de ação penal no Supremo Tribunal Federal (STF) relacionada à tentativa de golpe de Estado na qual está incluído o deputado Delegado Ramagem (PL-RJ), por 315 votos a 143 e quatro abstenções. O presidente Hugo Motta (PR-PB) definiu que não haveria discussão em Plenário sobre a suspensão de ação penal, apenas a votação. Promulgada na forma da Resolução 18/25, a votação ocorreu a toque de caixa: na mesma tarde, foi apreciada de forma relâmpago na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). 

Trata-se de mais uma insistência do Legislativo em impor uma agenda de choque com as prerrogativas do Judiciário. Seu texto foi elaborado com o propósito sub-reptício de contemplar os demais envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, que são réus como Ramagem, e, ainda, proteger dezenas de parlamentares que estão sendo investigados por desvio de recursos de emendas parlamentares. Devido ao espírito de corpo, teve ampla aprovação. 

Para Leão XIV, o amor não tem hierarquia – Pablo Ortollado

O Globo

A resposta do novo papa é, ao mesmo tempo, um repúdio à instrumentalização da fé e uma reafirmação do cristianismo como princípio de compaixão e justiça

Em entrevista à Fox News, o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, apresentou a política de imigração de Donald Trump como se estivesse ancorada em valores cristãos. Segundo Vance, há um conceito fundamentalmente cristão de que “você [primeiro] ama sua família, depois ama seu vizinho, depois ama sua comunidade, depois ama os demais cidadãos do seu país. E, apenas depois disso, [você ama] o resto do mundo”. Para ele, a esquerda inverteu essa ordem: “Eles parecem odiar os cidadãos do seu próprio país e se importar mais com as pessoas do lado de fora das fronteiras”. A declaração pretendia legitimar, em termos cristãos, a política migratória de Donald Trump, marcada por deportações em massa, tratamento degradante e equiparação dos imigrantes a ladrões e estupradores. O então cardeal Robert Prevost — agora Papa Leão XIV — respondeu no X: “JD Vance está errado: Jesus não pede para ordenarmos o amor pelo próximo”.

Identitarismo: como isso pode ser bom - Eduardo Affonso

O Globo

Não tente discutir esse tema com um militante: ele não está interessado no fim do preconceito, mas em instituir uma discriminação reversa

No dia da eleição da jornalista Míriam Leitão para a Academia Brasileira de Letras, duas postagens apareceram, em sequência, no meu feed, numa rede social. Uma comemorava a chegada da primeira mulher mineira à ABL; a segunda lamentava que mais uma mulher branca tivesse sido escolhida.

Em ambos os casos, nem uma palavra sobre os méritos da jornalista, sobre sua qualificação para ocupar a cadeira que um dia foi de Euclides da Cunha, Dinah Silveira de Queiroz, Nélson Pereira dos Santos, Cacá Diegues – e cujo patrono é ninguém menos que Castro Alves. A economista e escritora foi reduzida, para o bem e para o mal, a seus cromossomos, a sua procedência e à quantidade de melanina disponível em sua epiderme.

Uma Pobreza Invencível - Rodrigo Maia*

O Globo

O país precisa avançar e reverter seu quadro de desigualdade, entendendo que a transferência de renda é emergencial, não emancipatória

Falar da pobreza brasileira é sempre um risco. Abordar o tema com seriedade é fundamental, mas pode ser interpretado como despreocupação social. É preciso questionar e buscar caminhos que realmente façam os pobres deixar de ser pobres.

O segundo maior gasto do Orçamento federal é destinado a transferências de renda. Anos se passaram, e o que se observa são pessoas em um estado de emergência social continuado. O Brasil tem centenas de programas e projetos, investindo pesadamente em bolsas, mas com resultados tímidos.

Em 2002, o então prefeito Cesar Maia afirmou que a inclusão social deveria ser sustentável. Não existe verdadeira inclusão quando uma família precisa de uma bolsa para comer por décadas. A transferência de renda, embora necessária, combate a barbárie, não a pobreza. Gastamos muito na área social, mas de forma ineficiente. Estudos mostram que os programas sociais já representam 3% do PIB.

A tempestade econômica perfeita se aproxima - Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

Status do dólar como moeda de reserva global está ameaçado em razão de gastos irresponsáveis

Juros, agora em níveis normais e altos, tornam perigoso o fardo da dívida dos EUA

Enquanto a Casa Branca continua a ocupar toda a atenção dos americanos com sua guerra tarifária contra o restante do mundo, um pouco abaixo da Avenida Pensilvânia, o Congresso prepara um projeto de lei orçamentária que pode ter consequências quase tão significativas.

Se os legisladores renovarem os cortes de impostos de Donald Trump, de 2017, aprovarem todos os seus novos cortes na arrecadação e não cortarem gastos, eles somarão US$ 9 trilhões à dívida nacional americana em 10 anos ( de acordo com a Fundação Peter G. Peterson, uma organização apartidária). Nesse ponto, os EUA provavelmente estariam entre os maiores déficits em relação ao PIB da história – e isso em tempos de paz, sem pandemia.

Planeta armado, estômagos vazios - Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

O custo econômico da violência chegou a US$ 19,1 tri em 2024, equivalente a 13,5% do PIB mundial

Em seu primeiro pronunciamento, o papa Leão XIV disse: “Nos ajudem a construir pontes vocês também, com diálogos, com encontro, para sermos um único povo, sempre em paz”. Palavras sábias e oportunas. O Institute for Economics & Peace (IEP) publicou o Global Peace Index (GPI) 2025 e mostra que houve uma redução generalizada dos níveis de paz global.

O GPI é uma medida que avalia o nível de paz em 163 países e territórios, considerando fatores como conflitos internos e externos, segurança social e militarização. Em 2024, o GPI destacou que a diferença entre os países mais e menos pacíficos atingiu seu maior nível em 16 anos – os 25 países tiveram queda de 7,5% no índice no período.