segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Resolução vai submeter alianças estaduais à cúpula do PSDB

Colegiado comandado por Andrea Neves, e não o marqueteiro, definirá estratégia de comunicação

Cristian Klein

SÃO PAULO - Pré-candidato ao Planalto e presidente nacional de seu partido, o senador mineiro Aécio Neves tem introduzido mudanças na organização do PSDB que tornam a legenda mais semelhante ao modelo centralizado do maior adversário dos tucanos, o PT.

Amanhã, a Executiva nacional do PSDB deve aprovar resolução que submeterá as políticas de alianças estaduais à cúpula da agremiação. O objetivo é garantir que a campanha de Aécio seja impulsionada por candidatos estaduais competitivos, sem que os caciques regionais atrapalhem o projeto presidencial.

Outros dois movimentos de Aécio Neves são a tentativa de unificar a área de comunicação dos 27 diretórios estaduais e o novo formato decisório para a equipe de propaganda política. No lugar da figura autônoma do marqueteiro-estrela, as estratégias em torno da imagem do senador serão compartilhadas por um colegiado presidido por Andrea Neves, irmã do senador.

A subordinação dos arranjos locais ao projeto nacional aproxima os tucanos dos petistas, que historicamente sempre põem a conquista da Presidência da República em primeiro lugar, mesmo que à custa de realizar intervenções traumáticas. Em 2010, a direção nacional do PT obrigou o apoio da seção estadual do Maranhão à reeleição de Roseana Sarney, contrariando a vontade da maioria do partido local de se aliar ao candidato do PCdoB ao governo, Flávio Dino.

Os tucanos, no entanto, evitam falar em intervenção. "Ela [a resolução] não deve ser interpretada como ato de força, de imposição, mas de integração do partido. Vamos ouvir, analisar, considerar e respeitar as realidades locais. É um mecanismo para a direção nacional do partido ter participação mais ativa na política local", afirma o senador da Paraíba Cássio Cunha Lima, um dos vice-presidentes do partido e integrante do núcleo da pré-campanha de Aécio.

Cunha Lima afirma ser o proponente da resolução e lembra que o acompanhamento das alianças estaduais pela direção nacional tucana sempre aconteceu, embora não houvesse um mecanismo explícito de controle. Outro dirigente, que prefere o anonimato, diz que resoluções similares já foram editadas e descumpridas.

"O partido não tinha unidade para impor isso. Era uma federação e cada um pensava de um jeito. Na hora do "vamos ver", o partido não fazia valer [o interesse da direção nacional]. Respeitava o dono do partido no Estado. Só em alguns casos contrariava um cacique municipal. Mas hoje há unidade e o partido fala uma linguagem só", afirma o tucano.

O dirigente afirma que a resolução só é possível porque o PSDB desfruta de uma unidade só experimentada na reeleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1998. Em 1994, 2002, 2006 e 2010, aponta, faltou coesão e adesão à campanha presidencial nos Estados. Nas últimas três disputas, com José Serra e Geraldo Alckmin, teria sido "um desastre". "As candidaturas não resultaram de uma unidade. Cada seção fez o que quis. Nem houve tanta antecedência para se trabalhar quanto agora", diz.

De acordo com a mesma fonte, a candidatura Aécio também se favorece pelo fato de o presidenciável ser parlamentar e não chefe do Executivo, o que o teria impedido, de acordo com o estatuto do PSDB, que o senador também se elegesse presidente do partido. Isso não foi possível com Serra e Alckmin, que eram prefeito e governador antes de se candidatarem.

O dirigente diz que agora o PSDB nacional "tem força para tomar essas decisões" e poderá levar situações de impasse "à última consequência, quando necessário" e vetar arranjos indesejados.

A medida, no entanto, é vista mais como uma baliza do que uma arma com o propósito de dobrar alguma seção partidária. "Não vislumbramos intervenções. É uma vacina", diz o tucano.

O objetivo, de acordo com o dirigente, é evitar duas situações principais em que a candidatura presidencial fica "sem condições de se movimentar" no Estado.

A primeira é a dos candidatos "laranjas", ou seja, concorrentes fracos a governador lançados pelos caciques regionais. Neste caso, o interesse paroquial é tão arraigado que a prioridade pode ser o de apenas formar uma chapa proporcional a deputado para eleger o líder local e "mais um ou dois". Ou pode ser que o cacique, no fundo, esteja torcendo para que o adversário de um aliado ganhe a eleição. Ou prefira preservar seu status de oposição. De todo modo, o "laranja" serve de desculpa do dirigente regional em relação à cúpula nacional para não apoiar um nome mais competitivo de outros partidos que daria um palanque melhor à candidatura presidencial.

A segunda situação é a da aliança na qual a instância local entrega "tudo" - sobretudo o tempo de TV - para um grupo concorrente [no plano nacional] sem contrapartida à altura. Com isso, inibe a campanha do partido ao Planalto, já que o governador apoiado não faz campanha para o presidenciável da legenda.

Esse é exatamente o caso que se desenha no Mato Grosso do Sul, Piauí e, possivelmente, Ceará e na Bahia. No Estado do Centro-Oeste, o deputado federal tucano Reinaldo Azambuja planeja apoiar o senador petista Delcídio Amaral e ficar com a vaga do Senado na chapa majoritária. O arranjo, no entanto, já encontra resistência na direção do PT, que proíbe alianças com partidos que fazem oposição ao governo federal.

No Piauí, por outro lado, o acordo está adiantado e cria uma situação desfavorável a Aécio, que ficaria sem um palanque forte. Pela costura, o ex-prefeito tucano de Teresina, Silvio Mendes, seria vice na chapa do deputado federal Marcelo Castro, do PMDB, e que teria como candidato ao Senado o atual governador Wilson Martins (PSB).

Pela legislação, Castro poderá usar sua propaganda eleitoral no rádio e TV como palanque eletrônico à reeleição de Dilma Rousseff - já que o PMDB é aliado nacional do PT. Mas não poderá fazer o mesmo, se quiser defender Aécio. Pelo arranjo, o presidenciável tucano dependerá mais da campanha de rua e na internet, enquanto seus prováveis adversários, Dilma e Eduardo Campos (PSB), poderão ocupar espaços na TV. A presidente contará com candidatura própria do PT, o senador Wellington Dias, que lidera as pesquisas, e o governador de Pernambuco terá à disposição a propaganda de Wilson Martins ao Senado.

Silvio Mendes afirma que a situação do PSDB no Estado é muito difícil e bem pior do que, em 2010, quando ele mesmo concorreu ao governo estadual e perdeu no segundo turno. Há quatro anos, lembra, a aliança foi com o DEM, que praticamente desapareceu no Piauí depois da criação do PSD, em 2011, e com o PPS, que agora planeja participar de uma aliança com 12 pequenos partidos, encabeçada pelo ex-prefeito de Paulistana, Luís Coelho (PRP). Os tucanos também perderam os dois deputados federais que tinham.

"Abriram espaço para nós, na [vaga de] vice. O PSDB conseguiu um espaço e não terá outro, porque não tem como construir. Já tentamos", diz Silvio Mendes.

O ex-prefeito afirma que chegou a chamar o ex-senador Freitas Neto para concorrer, mas o convite foi recusado. "Eu já fui em 2010. [O candidato] pode passar vexame. Quem aceitaria?", argumenta. O tucano conta que já expôs a dificuldade a Aécio e sabe que a direção nacional aprovará a resolução para controlar as alianças estaduais. "Se houver, seremos cumpridores da resolução. Executiva nacional é para isso. Senão, seria anarquia. Mas estaremos fora do espaço que poderíamos ter", diz.

No Ceará e na Bahia, onde o PSDB também cogita se coligar com o PMDB, a situação é diferente, porque a expectativa é que os pré-candidatos aliados, respectivamente o senador Eunício Oliveira e o ex-ministro Geddel Vieira Lima, teriam o compromisso de não fazer campanha para Dilma Rousseff e dariam palanque a Aécio.

Na Paraíba, o PSDB também tende a não lançar um nome próprio e pode apoiar a reeleição do governador Ricardo Coutinho (PSB), que pedirá votos para Eduardo Campos. O pré-candidato tucano é o senador Cássio Cunha Lima, ironicamente, o mesmo que propõe a resolução para controlar as alianças estaduais. A medida, no entanto, pode facilitar o trabalho do senador, cotado para assumir a coordenação-geral da campanha de Aécio Neves.

Para Cunha Lima, até a situação no Piauí pode ser aceita pela direção nacional, pois "depende de como isso se operacionalizará no dia a dia da eleição". O parlamentar diz que políticos e analistas partem de uma "lenda urbana da política brasileira" de que palanques só se formam da maneira tradicional, com candidatura própria.

"Não sou dono da verdade, mas isso está errado. Aqui, na própria Paraíba, por exemplo. Em 2010, eu fui candidato a senador, apoiava Serra, e o Ricardo Coutinho apoiava Dilma. Nem por isso deixamos cada um de fazer campanha para o seu candidato. Serra teve um dos melhores desempenhos do Nordeste, na Paraíba", diz o tucano.

O colega de partido, que prefere não ser identificado, discorda de Cunha Lima. Diz que já é difícil operar a campanha quando o governador não é do partido e ainda mais quando o candidato a governador da aliança faz campanha para outro concorrente ao Planalto. Em sua palavras, a campanha à Presidência, neste caso, "não rende", pois os integrantes da chapa proporcional do partido tendem a associar suas imagens ao candidato a governador defensor do outro presidenciável. Por outro lado, o tucano relativiza a importância, em sua opinião, exagerada à necessidade de se aparecer no horário eleitoral da TV. "Só a TV não resolve. A batalha aérea é a televisão. Mas embaixo tem que ter a infantaria, distribuir papel e fazer reuniões", afirma o dirigente.

Fonte: Valor Econômico

PSDB quer referendar alianças

BRASÍLIA – O PSDB reúne a Executiva Nacional amanhã para adotar a mesma estratégia usada pelo PT nos últimos anos: todas as alianças estaduais terão de ser referendadas pela direção nacional tucana. Assim como os petistas farão com Dilma Rousseff, todos os esforços serão concentrados para tornar Aécio Neves presidente da República em outubro.

De acordo com o líder do partido na Câmara, Antonio Imbassahy (BA), não se trata de repetição do mesmo centralismo democrático adotado pelo petistas. Mas da conjunção de esforços para que não se repitam episódios de campanhas anteriores, quando a pulverização das forças estaduais enfraqueceu a candidatura nacional.

Também está praticamente vetada a aliança com o PT para os governos locais. Em disputas anteriores — no Acre, por exemplo, a aliança com os tucanos é histórica — deverá ter um desfecho diferente este ano. Márcio Bittar será o candidato ao governo estadual e enfrentará o petista Tião Viana, que tenta a reeleição.

Outra pressão ocorrerá em Mato Grosso do Sul, na aliança desenhada pelo senador Delcídio Amaral (PT) com o deputado federal Reinaldo Azambuja (PSDB). "Não tome isso como fechado, tudo ainda será analisado", confidenciou Imbassahy à reportagem.

Proximidade. Já em Pernambuco, a aliança será com o candidato indicado pelo governador, Eduardo Campos (PSB). Apesar do crescimento na influência de Daniel Coelho no quadro partidário e de muitos correligionários defenderem que ele deveria ser candidato ao governo, a tendência é que o PSDB indique um nome para o Senado. "Temos um jovem político líder, o Daniel Coelho, que muitos companheiros gostariam de ver candidato ao governo. Mas estamos vendo uma situação de aproximação muito bem construída com esse desejo de várias pessoas de indicarmos um nome para o Senado. Temos dois nomes notáveis: o ex-presidente do PSDB senador Sério Guerra e o deputado federal Bruno Araújo", afirmou Imbassahy. (PTL)

Fonte: Estado de Minas

Campos nega escolha de Maurício Rands para a sucessão estadual de PE

Ex-petista agora é filiado ao PSB, partido do governador e pré-candidato à Presidência da República

Letícia Lins

RECIFE — O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), negou que já tenha escolhido o ex-deputado Maurício Rands, ex-petista e atualmente filiado ao PSB, para disputar a sucessão estadual pela Frente Popular, coligação de 14 partidos que levou o socialista ao Palácio do Campo das Princesas, por duas vezes seguidas. Da Frente não faz mais parte o PT, partido com o qual Campos rompeu depois vê-lo em crise na disputa pela prefeitura de Recife, em 2012.

Rands foi um dos pivôs da crise, que levou o PT a expor suas fraturas. Ele pretendia disputar a prefeitura, e tentou ser indicado na convenção do PT recifense, mas foi derrotado pelo então prefeito João da Costa. O grupo de Rands - a CNB, Construindo um Novo Brasil - não aceitou o resultado e a executiva nacional impôs o nome do Senador Humberto Costa. Pouco depois, ele divulgava uma carta saindo do partido e renunciando ao mandato de deputado federal. Rands também entregou a secretaria que ocupava no governo Eduardo Campos. Em carta, ele dizia que tinha abandonado de vez a política.

O ex-deputado viajou para a Europa e, agora, de volta a o país, filiou-se ao PSB. Na noite da última sexta feira, ele esteve com a ex-ministra Marina Silva, em um encontro com evangélicos em Pernambuco. Rands era o único "verde" não histórico a acompanhar a idealizadora da Rede no evento. Marina está cotada para ser a vice do presidenciável Eduardo Campos, que dá início oficialmente nesta segunda-feira ao debate sobre a sucessão estadual em Pernambuco. Ele encarregou o presidente estadual do PSB, Sileno Gudes, de ouvir lideranças e de apresentar o programa nacional Rede/PSB aos políticos locais.

No final de semana, Campos reuniu-se com o vice governador João Lyra Neto, que está no páreo para ficar no Palácio do Campo das Princesas. Ele também vem conversando com três dos seus secretários e com o ex-ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho.

- No momento, estamos apenas discutindo o conteúdo, como fizemos nacionalmente. Entendo que muitas pessoas façam política começando pelos nomes, mas aprendi a fazer política começando a discutir o que nos deve unir. Qual é o nosso propósito? O que devemos ter em uma candidatura é que ela possa representar os nossos compromissos. Por ter feito assim foi que ganhei em 2006 e 2010. Foi assim, também, que ganhamos em 2012, disse, referindo se ao prefeito Geraldo Júlio (PSB)

Fonte: O Globo

Aécio Neves: Vulnerável

Discussões em torno da importância do planejamento e da capacidade de gestão dos governos tendem a ser consideradas áridas e distantes dos interesses da população.

No entanto, são cruciais e a atual crise do sistema de energia é um exemplo concreto da falta que fazem ao país.

A semana começa sem resposta para mais um apagão que deixou às escuras 6 milhões de pessoas em 13 Estados brasileiros.

Para efeito de análise de conjuntura, mais importante que o fator pontual, específico, que justifique a interrupção, é constatar a evidente vulnerabilidade do sistema, exposto à pressão das altas temperaturas registradas, ao declínio dos níveis dos reservatórios e à alta do consumo.

A demanda média do período está 8% acima das previsões feitas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico. Para se ter uma ideia mais clara do quadro, 75% da nossa produção energética vêm de fonte hidráulica e os reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste terminarão fevereiro com menos de 40% da capacidade.

Não pode ser simplesmente negligenciado ou reduzido a uma mera coincidência o fato de que, na terça-feira, o Sul atingiu seu recorde de carga apenas três minutos antes da falha no sistema de transmissão que causou o apagão.

Sintoma que expõe, em princípio, a hipótese de estar começando a haver desequilíbrio estrutural entre a capacidade de oferta e a demanda de energia no país, que o governo, a todo custo, tenta descartar, fazendo piadas diversionistas com descargas elétricas, ou sugerindo mais terceirização de responsabilidades.

Como parece ser menos provável que haja problema de geração, tudo converge para uma eventual precariedade das linhas de transmissão. Mais de dois terços das que estão em construção sofrem atrasos (média de 13,5 meses) e pode estar havendo investimento muito menor que o previsto na manutenção, em face da atabalhoada mudança de regulação, que provocou incertezas, desconfianças e --quem sabe-- até um investimento menor que o necessário.

Poderíamos estar contando com os parques eólicos para compensar os problemas no segmento hidroelétrico. Infelizmente isso também não é possível, porque simplesmente não foram concluídas até hoje as respectivas linhas de transmissão.

Para o governo, o espaço para manobras vai se reduzindo e restam poucas alternativas: se reajustar tarifas, alimenta a inflação; se subsidiar ainda mais o custo, amplia o deficit nas contas públicas.

No geral, são erros imperdoáveis, para quem passou praticamente uma década inteira à frente do sistema energético nacional, advogando a excelência da gestão.

A realidade sempre cobra o seu preço. Pena que, mais uma vez, a conta pelo improviso seja paga pelos brasileiros.

Aécio Neves, senador (MG) e presidente nacional do PSDB

Fonte: PSDB & Folha Online .

Ricardo Noblat: Afinal, Lula, que * é essa?

‘Na política nunca podemos dizer nunca’. Lula, ex-presidente

Concorda com a frase lá de cima ‘Na política nunca podemos dizer nunca’? Bem, eu concordo. E parto dela para compartilhar com vocês o que penso. Por exemplo: Sarney apoiou a ditadura militar de 1964 até à véspera de ela cair 21 anos depois. Então, rapidinho, passou para o lado dos que a combatiam. Entendeu? É confuso. Outro exemplo? Em 1989, Lula e Collor brigaram pela presidência da República.

Collor ganhou chamando Lula de comunista. Lula perdeu chamando Collor de desonesto. Hoje, um apoia o outro. Último exemplo? Foi Lula quem fez Joaquim Barbosa ministro do Supremo Tribunal Federal. Os dois sempre estiveram do mesmo lado. No último sábado, sem citar o nome dele, Lula bateu duro em Joaquim. Acusou-o de ter condenado inocentes. Sugeriu que Joaquim será candidato a alguma coisa.

Por que Lula procedeu assim? Porque o ministro Marco Aurélio Mello, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, contou à VEJA o que ouviu de Joaquim no final do ano passado. Em resumo, Joaquim disse que cansara. A experiência de ser ministro já estava de bom tamanho para ele. Desde então, segundo Marco Aurélio, “ventila-se” no Supremo Tribunal Federal (STF) que Joaquim será candidato à vaga de Dilma.

(Calma, Noblat!) Em 2005, estourou o escândalo do mensalão que quase derrubou o governo. Mensalão foi o nome dado ao esquema de compra de votos com dinheiro público para que Lula governasse. Nunca teve nome o esquema de compra de votos no Congresso que permitiu a reeleição de Fernando Henrique. Política é negócio. Um negócio milionário. Dê-me o que quero e lhe darei o que você quer. Nada sai de graça.

Estou dando voltas porque escrevo cansado. Vamos adiante, todavia. Ameaçado pelo escândalo, Lula ocupou uma cadeia nacional de rádio e de televisão para pedir desculpas aos brasileiros, negar que existira mensalão e se dizer traído. Suas mãos tremiam. Mensalão? Jamais ouvira falar, disse. Corrigindo: ouvira uma vez, sim senhor. Foi quando recebeu em audiência o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), seu aliado.

Mandou investigar o que Jefferson lhe contou. A investigação no Congresso durou uma semana. Nada foi descoberto. Lula ouviu falar do mensalão pela segunda vez quando visitou Goiás. O governador Marconi Perillo alertou-o para a compra do passe de deputados. E Lula? Na boa... Nem aí. Temeu-se depois que ele fosse capaz de se matar. Foi salvo pelo ministro José Dirceu.
(Se gosto de Dirceu? Gosto sim, política à parte)

Quanto aos traidores... Bem, Lula não apontou nomes de traidores. Afinal, como reclamar do julgamento daqueles que o traíram? Incoerência total. Falta de compromisso com a verdade.
Nada que seja estranho à política cujas bases são a mentira, a fraude e a enganação. Lula não parecia um político melhor nem pior do que qualquer outro. Era diferente apenas. Deixou de ser.

Poderia ter dito com toda a clareza possível que seus traidores não foram esses que estão atrás das grades. E mais o que está preso na Itália. E nem os que estão dentro do STF.
Seria a forma mais eficiente de defendê-los. Mas tal coisa seria o mesmo que admitir que o mensalão existiu. E que ele, Lula, de fato fora traído.

O silêncio é a mais preciosa lei da máfia. E ele tem preço. Tanto no caso do traidor como no de quem se sente traído. Ensinam os manuais sobre traições: morra sem confessar. Se for o caso, valerá o preço de ir para o inferno mentindo. Que saudade de O Poderoso Chefão.

Fonte: O Globo

José Roberto de Toledo: Aeroporto ou rodoviária?

Uma professora-doutora da universidade da elite do Rio de Janeiro fotografa homem de bermuda e camiseta regata que vislumbrou no Santos-Dumont, e estampa-o no Facebook, sob a indagação: "Aeroporto ou rodoviária?". Nos comentários, compara seus trajes ao de um estivador e arremata: "O pior é que o Mr. Rodoviária está no meu voo. Ao menos, não do meu lado. Ufa!".

Outros integrantes da primeira classe acadêmica carioca se solidarizam nos comentários. "Esse tipo de passageiro fica roçando o braço peludo no seu porque não respeita os limites do assento." "O glamour de voar definitivamente se foi." "Isso é só uma amostra do que tenho visto pelo Brasil." Sem perceber a autoironia, outra escreve: "O bom senso ficou em casa".

João Santana não poderia sonhar com melhor roteiro de propaganda eleitoral gratuita e espontânea nas redes sociais. A máquina petista sacou a oportunidade e bombou a história através do perfil "Dilma Bolada", no Twitter. Epidemia instantânea na rede.

Em 24 horas, a longeva carreira acadêmica da professora-doutora especializada em "português como segunda língua" estava relegada à décima página de resultados da busca pelo seu nome no Google. A primeira centena de links leva à história do Mr. Rodoviária - que se identificou e fala em processo. Mínima parte cita o envergonhado pedido de desculpas da professora-doutora.

O episódio é fascinante sob qualquer ângulo que se queira olhar. O mais óbvio é o efeito Big Brother. A sensação que o internauta tem de penetrar um círculo fechado e descobrir o que as pessoas realmente pensam e são capazes de dizer quando se acham dispensadas do politicamente correto e da mínima cortesia.

Soa exagerado de tão cru. Se fosse cena de novela, seria forçada demais e perderia credibilidade. Mas, como os personagens têm nome, cargo e página no Facebook, o exagero vira revelação: "Ah, é isso que eles acham". Cai-se no estereótipo oposto. Se o emergente parece estivador, é peludo e ultrapassa os limites, a elite é demofóbica, cruel e segregacionista - sem exceções.

Talvez alguns dos personagens tenham escrito o que escreveram por pressão social, por vontade de ser aceito no grupo, de pertencer. Afinal, se o reitor e a doutora estão dizendo, essa só pode ser a norma, "a coisa certa" a fazer. É outro aspecto surreal da história: supostos guardiões da alta cultura disseminam e endossam preconceitos que deveriam combater.

Destila ainda do episódio uma ingênua nostalgia. A crença numa fantasia comercial. "Glamour de voar?". Um voo de carreira é das experiências mais desagradáveis que há: fila de check-in, fila para despachar bagagem, fila para passar no raio X, fila para embarcar, para pegar a mala. Horas confinado em espaço apertado, respirando ar seco e, quando há, comendo comida requentada.

O tal glamour só existiu nas propagandas e nos filmes destinados a convencer o público de que pagar caro por horas de tormento é um privilégio. Poderia a elite intelectual sentir falta de algo que jamais existiu? Ou a nostalgia é uma metáfora? Será saudade de quando as divisões sociais eram claras, os espaços públicos eram exclusivos e as distâncias entre classes, intransponíveis?

Uma parte importante da sociedade brasileira incomoda-se com a novidade de um mercado de massa que nivelou o jogo via acesso quase universal ao consumo. Os incomodados não são os super-ricos, que continuam inalcançáveis. A aproximação dos que vêm de trás perturba quem já estava no meio e se sente igualado ou até superado por quem chegou agora e já quer sentar na janelinha.

Raras vezes esse conflito apareceu tão explícito quanto no caso da professora-doutora e seu Mr. Rodoviária. Mas a raridade tende a desaparecer mais rápido do que o glamour de voar. Como o mesmo episódio demonstrou, expor contradições e explorar divisões dá voto. Rodoviária e aeroporto viraram cabos eleitorais.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Renato Janine Ribeiro: A inclusão social pela cultura

A cultura é a educação fora de ordem

Comentei nas últimas colunas a inserção social realmente realizada, convertida pelo PT em política de Estado, e que integrou dezenas de milhões de ex-miseráveis no mercado; e a inclusão social que é necessária e se dará pela educação. Alertei para os problemas que o consumismo traz, numa sociedade fortemente hedonista. Agora, pode a inclusão social necessária - que, repito, deve passar pela renda e consumo e ampliar-se graças à educação - ser reforçada, upgraded, pela cultura?

Há muitas definições de cultura. Proponho uma: ela é a educação fora de ordem. A educação normalmente se dá numa sequência ordenada. Aprende-se a ler, a fazer as operações matemáticas, depois vai-se conhecendo cada vez mais, até o curso superior, o doutorado... Mudar essa ordem pelo avesso - ou simplesmente fazer as coisas fora de ordem - não é impossível, mas é difícil. Contudo, em tudo o que já escrevi sobre educação, sempre defendi maior desordem na educação. Ela, em ordem unida, corre dois riscos: pode tornar-se muito chata, pode inibir a criatividade. Mesmo assim, uma certa ordem é necessária na educação. Já na cultura, não.

Comparemos uma aula sobre a escravidão e um filme sobre o mesmo tema. A aula precisa ter ordem: as navegações portuguesas, a colonização das Américas, o apresamento dos africanos, sua mortalidade maciça nas plantações, quilombos, a abolição, o racismo que persiste. O filme não precisa. Ele pode começar com um episódio, digamos, o apresamento do navio negreiro "Amistad", na costa dos Estados Unidos, em 1839 (estou falando do filme de mesmo nome, de Spielberg, mas poderia falar de seu "Resgate do soldado Ryan" ou de "Lincoln", os três tratam de acontecimentos históricos significativos). Daí, vamos aprendendo uma quantidade de coisas sobre a escravidão, que não incluirão seus começos, suas causas históricas, o número de mortos, mas mostrarão o racismo, a perseguição, a luta pela liberdade. Não aprendemos a mesma coisa, mas aprendemos. Vivenciamos. Um único filme não substitui uma aula de História. Mas se, ao longo de um tempo, virmos vários filmes sobre a escravatura - um deles, o "Lincoln" que mencionei - havemos de adquirir um conhecimento de boa qualidade. Dados mais objetivos, posso complementar até mesmo pela Internet. Que, por sinal, é incrível para conhecer fora de ordem, tanto assim que, quando apareceu no Brasil, o que hoje chamamos de "navegar" se dizia "surfar", como se fosse algo físico, divertido, radical.

Isso que descrevi é educação ou é cultura? Quanto mais fora de ordem e descompromissado, mais será cultura. Posso ir a todas as exposições de arte e com elas aprender muito sobre pintura. Ficarão brechas, essa é a diferença no confronto com a educação, que procura evitar vazios e completar a formação da pessoa. Mas no tempo de hoje, dá para "completar" uma formação? Em nossa sociedade, a mais complexa da história, necessariamente seremos incompletos. Dizer que, ao terminar um curso, completamos a formação é um erro. Um estabelecimento de ensino bom, seja do nível que for, infantil ou doutorado, não deve acenar com a promessa de completude. A educação tem muito uso a fazer da cultura.

Em outras palavras: para a educação, há matrícula e às vezes até vestibular, termo que vem de "vestíbulo", o local certo de entrada. Na cultura se entra por onde se quiser, quando se quiser, sem inscrição, sem nada. Essa liberdade de entrar - e sair - aumenta seu prazer, justamente porque não é da ordem da obrigação. E por isso mesmo eu poderia dizer que a cultura é a educação vitaminada pelo prazer. Educação e cultura expressam o que o ser humano é capaz de criar. São o que mais dá poder ao indivíduo, ao ser humano, à pessoa. A cultura emancipa. Por isso é tão importante não ficarmos na posição passiva do consumidor. Consumir se opõe a produzir. Ambos são necessários, é claro, mas a produção é mais ativa, o consumo mais passivo. Agora, se a perspectiva da produção é essencial, não é pelas coisas - ou mercadorias - que fabricamos. É porque, produzindo, criamos a nós mesmos. A principal obra do ser humano é o próprio ser humano. Educação e cultura são duas ferramentas essenciais para chegar lá.

A questão que se coloca é: estamos formando nossos jovens para serem inquietos culturais? Porque a cultura tem ainda um traço importante, ela modifica. Ela abre perspectivas. Uma pessoa sem acesso a ela só conhece o que está em seu imediato entorno. Uma criança que nasce num fim de mundo pode, descobrindo a música, a arte, a ciência, encontrar uma vocação que vá muito além de seu bairro. A cultura é mais preciosa quando é descoberta, revelação. Lembro um filme polonês que fez sucesso, "Madre Joana dos Anjos", sobre um padre que é chamado para exorcizar um convento em que as freiras estão possuídas pelo diabo. O próprio padre acaba cometendo um crime horrível - diz - "para que eu chame a mim os demônios e Madre Joana possa ser santa". O diretor, Jerzy Kawalerowicz, explicava: os dois se apaixonaram mas, como não tinham linguagem para chamar seu sentimento de "amor", achavam que era possessão demoníaca. A incultura pode levar à infelicidade.

Poderemos ampliar a liberdade das pessoas pelo acesso à cultura? Certamente. Mas não podemos esquecer essa sua natureza fora de ordem. Para lembrar uma série de sucesso, pode haver "1001" filmes, livros ou lugares a conhecer "antes de morrer", mas esse número - como nas "1001 Noites" - é apenas um sinal de que a aventura do conhecimento é inesgotável.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

Fonte: Valor Econômico

Luiz Carlos Azedo: Três frentes da batalha

Costuma-se explicar as diferenças entre uma guerra de posições e uma guerra de movimentos comparando-se a Primeira com a Segunda Guerra Mundial, na qual os alemães surpreenderam a Europa com a velocidade e poder de fogo de suas blitzkriegs (guerra-relâmpago) contra as velhas fortificações dos Aliados, como a Linha Maginot, que fora construída pelos franceses na década de 1930 para proteger suas fronteiras com a Alemanha e a Itália. Aqui no Brasil, um bom exemplo é a Guerra dos Farrapos (1835-1845), na qual os republicamos gaúchos desafiaram a Corte Imperial. O escritor gaúcho Tabajaras Ruas, no romance Varões assinalados, descreve a longa guerra de cavalarias, na qual os farrapos só foram derrotados depois que o gênio militar de Luís Alves de Lima e Silva, então Barão de Caxias, mudou a estratégia das tropas federais, que até então se baseava na supremacia da artilharia e da infantaria. Ao trazer para o seu lado o general farrapo Bento Manoel com sua cavalaria, Caxias derrotou as tropas de Bento Gonçalves, o líder dos revolucionários da República de Piratini. Não foi à toa que somente as tropas gaúchas conseguiram derrotar os jagunços de Antônio Conselheiro na quarta campanha da Guerra de Canudos.

Os conceitos de guerra de posições e guerra de movimentos também são empregados na análise política. Deve-se isso ao marxista italiano Antônio Gramsci, ao mostrar que as tentativas de imitar os revolucionários russos, que tomaram o poder de assalto em 1917, resultariam em fracasso na Itália e em outros países do Ocidente com estruturas sociais mais complexas. Grosso modo, porém, podemos usar os conceitos nas análises eleitorais. As vitórias de Jânio Quadros, em 1960; de Collor de Mello, em 1989; e de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, são casos típicos de campanhas com características de guerras de movimentos. Já a reeleição do presidente Lula, em 2006; e da presidente Dilma Rousseff, em 2010, se caracterizariam mais como guerras de posições, nas quais uma grande parcela do eleitorado, que até então oscilava de um lado a outro nas eleições, já estava posicionada no pleito: a população pobre beneficiada pelo programa Bolsa Família e outras políticas de transferência de renda. Trata-se de 13,5 milhões de famílias.

Coalizão
Estamos às vésperas de mais uma eleição com características aparentes de guerra de posições. Preparam-se para o confronto uma ampla coalizão de governo, que controla a União e a maioria dos governos estaduais, representada pela presidente Dilma Rousseff e seu vice, Michel Temer (PMDB), com apoio do ex-presidente Lula. E oposições encasteladas no Sul e Sudeste (principalmente São Paulo, Minas e Paraná), cujo candidato, o ex-governador e senador mineiro Aécio Neves (PSDB), é apoiado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardozo; e no Nordeste, sobretudo Pernambuco, cujo governador, Eduardo Campos (PSB), é candidato e tem o apoio da ex-senadora Marina Silva. Com essa disposição de forças, a disputa só deverá se resolver no segundo turno. A presidente Dilma Rousseff vai à guerra, pois, em duas frentes de batalha, com uma postura mais ofensiva do que defensiva, uma vez que o PT pretende não somente reelegê-la, mas conquistar os governados de São Paulo, Minas e Paraná. Sem falar de Pernambuco, onde não tem candidato próprio, mas apoia um aliado. Ou seja, pretende cercar e aniquilar a oposição.

Redes sociais
Ocorre, porém, que a estratégia de guerra de posições que orienta a campanha oficial pode não ser o bastante para vencer as eleições, principalmente no segundo turno. Há uma terceira frente de batalha, irregular, com características de guerra de movimentos, ou seja, Dilma enfrenta um tipo de nova oposição, à margem das esferas de poder e dos partidos, que emergiu das redes sociais em junho do ano passado e permanece viva nos grandes centros urbanos do país. Desta vez, não é a grande massa de pobres excluídos, nem a classe média empobrecida o imponderável na eleição, mas um contingente de 50 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, a maioria pobre, dos quais 10 milhões não estudam nem trabalham. São descolados em sua maioria dos partidos políticos, mas servem de base social para essa nova oposição. Ninguém sabe para onde o contingente de eleitores que emerge dessa juventude pretende ir. É um campo de disputa tanto para Dilma e como para os dois candidatos de oposição, que buscam um discurso em sintonia com esses novos atores e a adesão eleitoral de seus líderes.

Enquanto se discute o passado e o presente, esses jovens querem antecipar o próprio futuro, o que é sempre a forma de traduzir os sonhos de uma geração. Ocorre que ele está comprometido por fragilidades fiscais, deficiências de infraestrutura, falta de investimentos, educação deficiente, dificuldades de acesso à cultura e ao lazer e a oferta de empregos mal-remunerados ou que exigem alta qualificação, daí tanta insatisfação.

Fonte: Correio Braziliense

Valdo Cruz: Batalhas de 2014

Volto das férias, circulo pela Esplanada dos Ministérios e encontro um clima de apreensão no ar. O ano começa com uma onda de pessimismo que preocupa a equipe da presidente Dilma Rousseff.

Um assessor presidencial, muito próximo da chefe, diz que esta será a eleição mais difícil para o PT desde que Lula ganhou a Presidência da República pela primeira vez.

Nem 2006, pós-mensalão, aponta ele, foi tão complicado. Há muitas batalhas pela frente. Da Copa, da energia, da violência, mas tudo pode ser superado se a maior de todas, da economia, não jogar contra.

Aí, um outro assessor graúdo da presidente diz que a bola está com o governo. Primeiro, recomenda que não é hora de, a cada notícia boa da inflação, "correr para o alambrado" e ficar comemorando como se a batalha já estivesse superada.

Mesmo porque, depois do número bom de janeiro, a inflação deve voltar a subir em fevereiro, mês de nova decisão sobre taxa de juros.

O momento, diz esse auxiliar, é de mudar, definitivamente, o discurso na economia. Não há mais espaço para declarações que deixem escapar certa tolerância com a inflação.

O fato é que, até pouco tempo, este governo sinalizava estar satisfeito com uma inflação roçando os 6%, sempre apregoando que ela estava abaixo do teto da meta oficial.

Avaliação recorrente que contaminou os agentes econômicos, que passaram a trabalhar como se esse fosse o patamar mínimo de alta dos preços no país. Resultado, uma inflação cada vez mais resistente.

Agora, há um trabalho para unificar o discurso no governo, na linha de que a meta é levar a inflação, sim, para 4,5%. Focar não só a fala neste objetivo, mas principalmente as ações, sem deixar dúvidas no ar.

Enfim, o primeiro teste para checar se a a ficha, de fato, caiu no Planalto será no anúncio do tamanho do ajuste fiscal para ajudar no combate à inflação. O problema é que este governo adora dar tiro no pé.

Fonte: Folha Online

Marcus Pestana: Itamar Santos, um brasileiro no meio das chamas

A melhor causa perde a razão na face obtusa da violência

Itamar Santos é um brasileiro simples e trabalhador como a maioria do povo brasileiro. Serralheiro, evangélico, mora em São Paulo. Itamar não frequenta estádios nem liga muito para futebol. Itamar tinha um fusca velho. Era para ir à igreja, passear e carregar seus ferros velhos. Itamar não é dirigente da Fifa, não é ministro nem está muito interessado na Copa do Mundo no Brasil.

Sábado, dia 25 de janeiro, como sempre faz, Itamar foi ao culto em sua igreja. Na volta, com o espírito solidário típico dos brasileiros, deu carona a amigos, um senhor e duas senhoras. Uma delas levava a filhinha de cinco anos.

Itamar já estava acostumado com o trajeto e com o drama paulistano da mobilidade urbana. Nesse dia, no entanto, algo diferente estava acontecendo. A polícia desviava o trânsito. E, ao fundo, Itamar viu uns meninos com rostos cobertos, vestidos de preto, que colocavam fogo em colchões fazendo a avenida arder em chamas. Os meninos decidiram que não querem a Copa no Brasil. E resolveram se manifestar de um jeito que o serralheiro evangélico achou estranho. Ele não queria saber da Copa nem dos meninos encapuzados. Só queria voltar para casa, levar os amigos e descansar da semana de trabalho. No domingo, iria passear no seu velho fusquinha.

Assustado, foi para o canto da avenida para evitar confusão. Só queria passar e voltar para casa. Os valentes meninos mascarados vestidos de preto não gostaram da ousadia de Itamar. Sem mais nem menos, tocaram fogo no carro.

Os momentos seguintes foram de verdadeiro terror. A criança chorava nos braços da mãe desesperada. Acharam que não daria tempo de sair, já que o fusca só tem porta na frente. Uma desgraça quase aconteceu. Felizmente, todos se salvaram. Itamar e seu amigo tiveram queimaduras leves. O fusca virou uma carcaça imprestável. Itamar não tinha seguro, claro. Não tem dinheiro para comprar um novo carro. Ainda teve que pagar o guincho para remover o fusca da avenida. Vai ter que trabalhar duro para comprar de novo um carrinho para passear, ir à igreja e carregar seus ferros velhos. Seis agências bancárias, duas concessionárias e uma loja do McDonald’s foram destruídas nessa noite.

Lembro que, nas jornadas pela anistia, pelas Diretas e pelo afastamento de Collor, íamos para as ruas cheios de energia, sonhos e disposição de luta. Não quebrávamos lojas e muito menos incendiávamos carros de trabalhadores pobres. Conquistamos nossos objetivos e a democracia se instalou no Brasil.

Quem tem convicções e ideais não esconde o rosto. Atos covardes, autoritários e reacionários como esse não vão fazer o país melhor. Tirem as máscaras, meninos, disputem democraticamente suas posições, conquistem as pessoas.

A melhor causa perde a razão na face obtusa da violência. Deixem seu Itamar, seu fusquinha e seus amigos viverem em paz. A democracia é um patrimônio de todos, não a agridam.

Marcus Pestana, deputado federal e presidente do PSDB de Minas Gerais

Fonte: O Tempo (MG)

Paulo Brossard*: Credibilidade perdida

Não são poucos os fatos que indicam, a meu juízo, a ocorrência de acontecimentos que podem adquirir feições desagradáveis. Por ora, limitar-me-ei a apontar dados de certa forma preliminares, mas incontroversos quanto à sua ocorrência e notórios no que pertine à autenticidade, uma vez que têm a chancela insuspeita do ministro da Fazenda. O douto sucessor de Murtinho, a partir da metade do ano passado, falou na crise da credibilidade e proclamou a necessidade da campanha pela restauração de credibilidade. Não externou esse juízo de evidente gravidade na concha do ouvido de alguém de sua estrita confiança, mas o fez de maneira pública, divulgada pelos meios de publicidade.

Se o eminente ministro falou em "restaurar a credibilidade", ele parte do fato de que a credibilidade do governo foi perdida, pois não se restaura senão o perdido; o conservado se guarda e bem guardado. Ora, o ministro não é um boquirroto, pode alguém entender que ele não seja um talento fulgurante, mas ninguém dirá que seja um retardado. Aos demais, nenhum de seus 38 colegas, salvo engano, tornou públicas eventuais divergências a respeito com o gestor das finanças e mais, a senhora presidente não disse uma palavra que importasse em reserva à ideia ministerial no sentido de "restaurar a credibilidade", e da pasta remover seu imediato colaborador. Isto posto, sou obrigado a apontar uma ou duas decorrências que podem ser ilustrativas.

Os 15 países que concertaram operações financeiras com o Brasil mediante o BNDES, tiveram a divulgação sem reserva dos seus termos, inclusive quanto aos seus preliminares; no entanto, a dois contratos, e seus papéis preparatórios, foi imposto o segredo; Cuba e Angola tiveram esse tratamento diferenciado. Só em 2027, dizem as notícias a respeito, cessará a secrecidade envolvendo Cuba e Angola, e o Brasil, obviamente. Curiosamente, essa decisão discrepante foi imposta um mês depois da entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação. Este o fato, nu e cru.

Treze das 15 nações celebraram com o Brasil contratos de financiamento acessíveis a qualquer um, pois "é assegurado a todos o acesso à informação", reza o art. 5º, XIV, da Constituição, cujo inciso LXXIII, do mesmo artigo, estipula, "qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular o ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural...", complementados pela Lei de Acesso à Informação e, no entanto, até 2027, o segredo acompanhará como a pele ao corpo as avenças com Cuba e Angola. Ora, diante dessa situação, qualquer pessoa pode intuir ou deduzir o que sugira a imaginação, a criação ou a comparação, com razão ou sem ela, e desse modo poluir ainda mais a credibilidade da nação e de sua política, no tocante às duas nações discriminadas das demais 13, Cuba e Angola. A simples denominação de ambas basta para irmaná-las à ideologia estampada na "cortina de ferro", uma das mais visíveis e tangíveis faces do totalitarismo no século 20.

Por este ou aquele motivo, a senhora presidente vem de visitar uma das nações, e nada discreta foi nas referências ao que o Brasil fizera e estava por fazer, inclusive quanto a doação a Cuba lá anunciada, também serão segredos ou não. Mas o assunto está a merecer exame em espaço especial, o que agora me falta.

*Jurista, ministro aposentado do STF 

Fonte: Zero Hora (RS)

Diário do Poder - Cláudio Humberto

PPS paulista sob pressão
Sob pressão do governador e candidato à reeleição Geraldo Alckmin (PSDB-SP), a quem é intimamente ligado, o PPS de São Paulo pode colocar à prova o apoio ao presidenciável Eduardo Campos (PSB-PE), caso os socialistas lancem candidato ao governo paulista, como exige a ex-senadora Marina Silva. Os 80 delegados do diretório paulista são considerados decisivos na convenção nacional. O indicativo de apoio a Eduardo Campos foi aprovado, em 2013, com aval de Alckmin, por quase unanimidade dos delegados de São Paulo. Alckmin só apoiou a iniciativa do PPS de se aliar ao PSB de olho em reunir em seu palanque Eduardo e Aécio Neves (PSDB-MG). Segundo o PSB paulista, dos 250 candidatos a deputado federal e estadual, 70 mudaram para o partido com a anuência de Alckmin. É cruz ou espada: prefeitos do PSB de grandes cidades, como São José do Rio Preto e Campinas, já avisaram que não podem se opor à reeleição do tucano.

Lembrando os "sanguessugas"
Continua o inferno astral do ministro Arthur Chioro (Saúde, foto). Nebulosa história de sua empresa que ele próprio contratou para sua secretaria de Saúde de São Bernardo (SP), médica cubana abrindo a fila de deserções etc, etc. E ainda irritou o PT, nomeando para chefiar seu gabinete Silvana Pereira, que atuou na Secretaria de Ação em Saúde na época do escândalo dos sanguessugas, quando Humberto Costa (PT-PE) era ministro.

Uma máfia
A Polícia Federal prendeu 46 no escândalo dos sanguessugas, de 2006, também conhecido como a "máfia das ambulâncias".

Barra pesada
A CPI criada para investigar o escândalo dos sanguessugas, um dos mais graves da Era Lula, recomendou a cassação de 72 parlamentares.

Prazo de validade
Assumindo o cargo já sob suspeita, o ministro Arthur Chioro já virou tema de um bolão, no Congresso, sobre sua permanência no cargo.

Imagina na Copa
Tem muito carioca de olho na casa de Henrique "Celso" Pizzolato em Maranello, numa das regiões mais bonitas da Itália: por ? 800 de aluguel (R$ 2,6 mil), ele só alugaria cafofo no alto da favela da Rocinha.

País sério
Escolhido em 2007 para sediar a Copa 2014, o Brasil deu início a apenas seis dos 37 projetos de infraestrutura para receber o evento, segundo relatório do TCU.

Fim do suplente
O senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) tem motivos de sobra para defender o fim da figura do suplente. No caso dele, é o petista Waldemir Catanho, braço direito da ex-prefeita Luizianne Lins.

Contra Golias
O senador Sérgio Petecão (PSD-AC) conseguiu o apoio dos nanicos DEM, PRTB e PMN para disputar o governo contra a máquina do governador Tião Viana (PT-AC): "Em 2010, também venci ao Senado na oposição".

Perguntinha
Você contrataria Henrique, aliás Celso Pizzolato, para uma auditoria contábil no Banco do Brasil?

Frase
"Barulho, obra suja, desorganizada..." -
Ministro Moreira Franco (Aviação Civil), sobre a reforma do Aeroporto de Confins (MG)

Cadeia neles
Além de insultar a democracia, em lugar de respeitá-la, os "black blocs" precisam ser tratados como são, bandidos que se escondem em máscaras para impor o medo e inclusive atentar contra a vida.

Feldman 2014
A ex-senadora Marina Silva (Rede) pressiona para lançar seu fiel escudeiro, Valter Feldman, ao governo paulista nas eleições. Em troca, ela garante aceitar ser vice de Eduardo Campos (PSB), na campanha presidencial.

Fonte: Diário do Poder

O que pensa a mídia - editoriais de alguns jornais

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Bloco da Saudade - Frevo de Saudade

Carlos Drummond de Andrade: Canto esponjoso

Bela
esta manhã sem carência de mito,
e mel sorvido sem blasfémia.

Bela
esta manhã ou outra possível,
esta vida ou outra invenção,
sem, na sombra, fantasmas.

Umidade de areia adere ao pé.
engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.

Bela,
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

OPINIÃO DO DIA: Antonio Gramsci

A grande política e pequena política

"Grande política (alta política) - pequena política (política do dia-a-dia, política parlamentar, de corredor, de intrigas). A grande política compreende as questões ligadas à fundação de novos Estados, a luta pela destruição, pela defesa, pela conservação de determinadas estruturas orgânicas econômico-sociais. A pequena política com¬preende as quest6es parciais e cotidianas que se apresentam no inte¬rior de uma estrutura já estabelecida em decorrência de lutas pela predominância entre as diversas frações de uma mesma classe política. Portanto, a grande política tentar excluir a grande política do âmbito interno da vida estatal e reduzir tudo a pequena política (Giolitti, baixando 0 nível das lutas internas, fazia grande política; mas seus súcubos, objeto de grande política, faziam pequena política).

Ao contrario, é coisa de diletantes pôr as questões de modo tal que cada elemento de pequena política deva necessariamente tornar-se questão grande política, de reorganização radical do Estado. Os mesmos termos se apresentam na política internacional: 1) a grande política questões relacionadas com a estatura relativa de cada Estado nos confrontos recíprocos; 2) a pequena política nas questões diplomáticas que surgem no interior de um equilíbrio já constituído e que não tentam superar aquele equilíbrio para criar novas relações.

Maquiavel examina sobretudo as questões de grande política: criação de novos Estados, conservação e defesa de estruturas orgânicas em seu conjunto; questões de ditadura e de hegemonia em ampla escala, isto e, em toda a área estatal. Russo, nos Prolegomeni, faz do Príncipe 0 tratado da ditadura (momento da autoridade e do individuo) e, dos Discorsi, 0 tratado da hegemonia (momento do universal e da liberdade).

A observação de Russo é exata, embora também no Príncipe não faltem referencias ao momento da hegemonia ou do consenso, ao lado daquele da autoridade ou da força. Assim, é justa a observação de que não há oposição de principio entre principado e republica, mas se trata sobretudo da hipóstase dos dois momentos de autoridade e universalidade.”

Antonio Gramsci, Cadernos do Cárcere, volume 3, p. 21 – Civilização Brasileira, 2007

Tormentas na rota do Planalto

A presidente Dilma Rousseff enfrenta nesta semana não só o rescaldo dos últimos tenebrosos dias como uma sequência de abacaxis para descascar. O início do ano em que ela disputará a reeleição tem lhe rendido preocupações e não dá sinais de melhora. Além de ter que lidar com um apagão nacional, a prisão de mais mensaleiros, o retorno das manifestações de rua, a fuga de uma cubana do programa Mais Médicos e a crise com o PMDB, Dilma tenta se concentrar em sua campanha e evitar que os episódios atinjam sua imagem.

A cena flagrada por um cinegrafista e divulgada na última quarta-feira é emblemática: Dilma anda de um lado a outro falando ao telefone e fazendo gestos de quem dá uma bronca em alguém. A ligação ocorreu pouco depois de a cúpula do Ministério de Minas e Energia ter tentado explicar os motivos do apagão que afetou 11 estados. Mas poderia ter sido feita em qualquer outro dia da semana. Ainda que indiretamente, Dilma foi atingida por uma série de outros episódios que marcaram negativamente a primeira semana de fevereiro e a de atividade do Congresso.

Enquanto o problema da energia elétrica sinaliza que, apesar da negativa da presidente, a infraestrutura do país não vai tão bem, o surgimento da médica cubana desertora Ramona Rodríguez reabriu a ferida do programa que é uma das maiores vitrines eleitorais do governo – e do ex-ministro da Saúde e pré-candidato ao comando de São Paulo, Alexandre Padilha. A prisão dos mensaleiros Henrique Pizzolato e João Paulo Cunha, ainda que aparentemente distantes do território presidencial, manteve o calcanhar de Aquiles do PT em evidência. E o ataque a um cinegrafista durante a manifestação por causa do aumento de passagem no Rio na quinta-feira indicou que a tensão ocorrida no país nos protestos do ano passado pode voltar a qualquer momento.

Desgaste
Coube ao PMDB colocar a cereja no bolo de Dilma. Envolvida no quebra-cabeças da reforma ministerial – em que precisa tapar buracos deixados pelos ministros que saem para campanha e ao mesmo tempo agradar à base para apoiá-la nas eleições – ela ainda tem que administrar a revolta dos integrantes de seu maior aliado. A presidente se reuniu com caciques da sigla por longas horas, tentou conciliar os ânimos, e a resposta foi dada pela bancada peemedebista na Câmara. Em nota, o grupo disse colocar à disposição os cargos que detém na Esplanada – Ministérios da Agricultura e do Turismo. "A gente prefere não ocupar cargos, que não são expressivos, nessa posição desgastante", comenta o vice-líder do PMDB na Câmara, Marcelo Castro (PI).

O deputado queixa-se que, por conta das conversas com o governo, a legenda sempre sai mal diante da opinião pública. "As negociações com o governo no mandato da Dilma têm sido muito negativas para a imagem do partido, que é colocado como fisiológico, carreirista, sem identidade, que está disposto a servir a todos os governos, nós somos o maior partido do Brasil e o sentimento é que estamos em desvantagem de anos-luz em relação ao PT", reclama. Castro, porém, garante que não há crise. "A semana foi difícil por uma sequência de coincidências, mas já coincidiu demais, agora é ter paciência."

Prefeito de Coari se entrega à polícia
O prefeito de Coari (AM), Adail Pinheiro (PRP), se entregou à polícia no início da tarde de ontem, em Manaus, segundo informações da Polícia Civil. Ele é acusado de chefiar uma rede de exploração sexual de crianças e adolescentes no município localizado a 363km de Manaus. Outras cinco pessoas ligadas ao prefeito também foram detidas. Todos ocupam algum cargo na prefeitura comandada por Adail e não resistiram à prisão. De acordo com testemunhas e vítimas, eram eles que, sob ordem do prefeito, abordavam as famílias oferecendo benefícios e dinheiro em troca dos delitos.

Fonte: Correio Braziliense

Atrasos na entrega de projetos comprometem a oferta de energia

No ano passado, 40% do volume de energia planejado não entrou em operação na data prevista; adiamentos deixam sistema vulnerável

Renée Pereira

Não é só o humor de São Pedro que tem preocupado o setor elétrico brasileiro. O planejamento da expansão do sistema também tem exigido atenção. Em 2013, por exemplo, 40% do volume de energia planejado não entrou em operação na data prevista, segundo levantamento da Associação Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia (Abiape). Entre os projetos de transmissão, 71% das linhas licitadas têm atraso médio de 13 meses e meio.

Além de comprometer o avanço do setor, o descumprimento dos prazos dificulta a operação e deixa o sistema mais vulnerável. Segundo a Empresa de Planejamento Energético (EPE), para um crescimento da demanda de 5% ao ano, o País precisa acrescentar em média 6 mil novos MW ao sistema. Em 2012, entraram 3.983 MW e, no ano passado, 5.556 MW, de acordo com relatório da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Na geração hidrelétrica, apenas metade do que estava previsto para o ano passado ficou pronto. Na termoelétrica, houve um incremento maior na geração porque as usinas previstas para 2012 só entraram em operação no ano seguinte.

Segundo uma fonte próxima do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), os atrasos nos projetos de geração e transmissão têm feito falta nesse momento de maior estresse do sistema. Com os reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste em baixa e demanda batendo recordes consecutivos (em janeiro, cresceu 11% em relação a igual período do ano passado), a operação ficou mais complicada.

‘Plena carga’. Grandes blocos de energia têm sido transferidos de uma região para outra, exigindo ao máximo a capacidade das linhas de transmissão. "O sistema não está no limite, mas está a plena carga. O crescimento da demanda foi explosivo", afirmou o executivo, que prefere não se identificar. Segundo ele, nesses momentos, qualquer MW a mais faz grande diferença. No ano passado, deixaram de entrar em operação quase uma usina de Jirau, no Rio Madeira, segundo a Abiape.

Para o diretor do Instituto de Desenvolvimento Energético do Setor Elétrico (Ilumina), Roberto Pereira D’Araujo, a culpa dos atrasos é da forte competição no setor. Hoje, as empresas entram no leilão para disputar uma hidrelétrica, por exemplo, apenas com um projeto básico. "Depois que vencem é que vão fazer os estudos aprofundados. Os custos aumentam, novos problemas surgem e os prazos são ampliados."

As principais justificativas para os atrasos são a demora no licenciamento ambiental e os conflitos com comunidades ribeirinhas ou indígenas. Mas o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, reconhece que há problemas causados pelos próprios empreendedores, que elaboram projetos e estudos de má qualidade. "É claro que, nesses casos, há penalidades. Mas pra gente não interessa multar. Queremos a obra."

Para D’Araujo, outro reflexo do planejamento inadequado é o fato de o País estar usando, sem parar, térmicas caras movidas a diesel e óleo combustível. "Esse é um sinal de desequilíbrio, pois essas usinas não são construídas para operar o tempo todo. É um sinal de que o sistema está pedindo novas usinas, as atrasadas e outras que nem foram pensadas."

Segundo o presidente da Associação Nacional dos Consumidores de Energia, Carlos Faria, um erro de política do governo é a opção pelas usinas a fio d’água (sem reservatório) para evitar conflitos ambientais. Com isso, o sistema ficou ainda mais dependente das chuvas. "Construímos eólicas, mas elas não funcionam por falta de transmissão e simplesmente esqueceram as PCHs."

Tolmasquim concorda que, com mais usinas a fio d’água, o País precisa de complementação. Parte será suprida pelas eólicas, mas o governo fará novos leilões de térmicas. No ano passado, houve a primeira tentativa para contratar termoelétricas, mas o preço não atraiu os investidores.

"Agora, aumentamos o teto do custo variável unitário (custos operacionais do empreendimento) de R$ 110 o MWh para R$ 150 para estimular térmica a GNL (Gás Natural Liquefeito). Na transmissão, a expectativa é licitar 13 mil km de linhas." Em relação aos atrasos, ele diz que "o governo tem conversado com diversos órgãos para acelerar as obras".

Fonte: O Estado de S. Paulo

De olho nas ruas - Sem concluir o 1º, governo prepara PAC 3

Atraso nas obras dos programas anteriores chega a seis anos

Nova etapa do programa de investimentos será executada a partir de 2015

Danilo Fariello, Martha Beck, Cristiane Jungblut

BRASÍLIA — Com obras da primeira e segunda etapas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) travadas ou atrasadas em até seis anos — caso do Arco Rodoviário do Rio de Janeiro — o governo da presidente Dilma Rousseff já prepara o PAC 3 para ser executado a partir de 2015. Com previsão de lançamento no próximo mês de abril, em pleno ano eleitoral, o programa terá perfil voltado para obras de caráter social e urbano, com impacto no dia a dia das pessoas e que atendam às demandas das ruas.

— São coisas mais ágeis e que possam mostrar resultado logo — disse um técnico a par das discussões que têm ocorrido nas últimas semanas.

O PAC 3 vem sendo inspirado pelas manifestações de rua ocorridas a partir de junho do ano passado, quando surgiram pressões populares por melhorias nos serviços públicos, principalmente de transporte. Mobilidade urbana em grandes e médias cidades, portanto, é um dos pontos centrais do programa em elaboração, que deverá ter destaque também para a adaptação de rodovias que façam o contorno de cidades e a pavimentação de vias urbanas para aliviar o trânsito local.

— No passado, as pessoas queriam morar perto das BRs (rodovias), mas agora todos querem as estradas longe dos municípios. Por isso, a tônica do governo hoje é tirar o trânsito pesado das grandes cidades, e o PAC 3 deverá ter um programa especial para contornos rodoviários — explicou um gestor do governo federal do setor de transportes.

Outro empreendimento certo e de grande impacto popular é a expansão de redes de telecomunicações para oferecer uma banda larga melhor, com a ampliação do PAC Cidades Digitais. Segundo técnicos que trabalham na proposta, a ideia é melhorar tanto a oferta de internet banda larga quanto a velocidade. Eles lembraram que o setor de telecomunicações tem grande apelo junto à camada mais jovem da população, que foi às ruas e está sempre conectada em redes sociais como o Facebook e o Twitter.

Com um PAC mais popular, preparado sob inspiração do marqueteiro João Santana, o governo também poderá retomar a imagem de Dilma Rousseff como “mãe do PAC”, algo que, avalia-se, ajudou a presidente a se eleger em 2010. Em março daquele ano, o lançamento do PAC 2, com R$ 1 trilhão de investimentos previstos até 2014, foi um dos primeiros eventos de lançamento da campanha de Dilma, que chamou o PAC de “herança bendita” do governo Lula.

Também devem entrar na nova etapa do PAC obras de saneamento básico e do programa Minha Casa Minha Vida, que afetam mais diretamente a qualidade de vida das pessoas do que refinarias ou ferrovias, por exemplo.

Obras com até seis anos de atraso
Um integrante do governo explicou que as construtoras brasileiras já estão sobrecarregadas com as grandes obras do PAC que estão sendo executadas e, portanto, seria a vez de escolher obras mais indicadas às médias empreiteiras, como aeroportos regionais, por exemplo.

Além disso, não haveria tanta demanda no país para empreendimentos estruturantes de porte gigantesco como aqueles que se destacavam no PAC 1 e no PAC 2. Por isso, o novo programa terá mais foco em projetos para os quais já há uma infraestrutura prévia no país instalada, como a expansão da rede de banda larga. Dessa forma, não seriam necessários longos processos de licitação ou de licenciamento ambiental para que os projetos saiam do papel. Ainda assim, avanços que acelerem as licenças ambientais também deverão acompanhar o PAC 3.

Embora o balanço do PAC 2, previsto para ser apresentado na próxima quinta-feira, provavelmente indique o cumprimento da meta de investimentos do governo até o fim de 2014, de quase R$ 1 trilhão, boa parte desse volume é puxada por financiamentos habitacionais, enquanto que algumas das principais e mais caras obras estruturantes do programa patinam desde a primeira edição do PAC.

O Arco Rodoviário do Rio, por exemplo, que no PAC 1 tinha previsão de conclusão em 2010, ainda no governo Lula, só deverá ser entregue em 2016, com a construção do trecho de Manilha a Santa Guilhermina. O Trem de Alta Velocidade (TAV), que figura nos balanços do PAC desde o governo Lula, não saiu do papel e agora tem previsão de contratação do projeto básico só para o fim deste ano.

Refinaria com execução de apenas 10%
A obra mais cara do PAC 1, a refinaria Premium 1, no Maranhão, incorporada ao PAC 2, aparecia no último balanço oficial, apresentado em outubro, com execução de apenas 10%, mesmo tendo sido concebida há mais de quatro anos. A previsão de início de operação passou de dezembro deste ano para outubro de 2017, mas a Petrobras recentemente desistiu do projeto original e agora procura parceiros no exterior para achar uma solução que reduza o custo da construção, de R$ 40 bilhões, sem comprometer o volume de produção.

Nos três anos do governo Dilma, segundo dados obtidos junto ao Ministério do Planejamento, responsável pelo PAC, a dotação do programa chegou a R$ 181,42 bilhões, sendo que R$ 152,4 bilhões foram empenhados (promessa de pagamento futuro). E R$ 112,03 bilhões foram efetivamente pagos, 61,75% da dotação original. O valor previsto no Orçamento federal de 2014 para o PAC é de R$ 61,4 bilhões.

Em 2013, foram gastos com o programa R$ 44,71 bilhões, mas a dotação original no Orçamento da União era de R$ 67,02 bilhões. Desses R$ 44,71 bilhões efetivamente pagos, a maior parte foi relativa aos chamados “restos a pagar”, em volume de R$ 25,12 bilhões. Ou seja, despesas de anos anteriores pagas no exercício. Para 2014, as obras do PAC têm uma verba de R$ 61,4 bilhões prevista no Orçamento da União.

O governo assegura que o ritmo de execução das obras não será prejudicado pelas eleições deste ano. Isso porque, em 2007, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou lei que permite o repasse de recursos para o PAC mesmo em período eleitoral, diferentemente das demais obras.

“Não haverá dificuldade para a liberação de recursos de obras do PAC, nem mesmo em ano eleitoral. Ao contrário, uma inovação fundamental do PAC é a garantia de recursos orçamentários e financeiros”, informou o Ministério do Planejamento por meio de nota.

Fonte: O Globo

Lula ataca ministros do STF e diz que partido sofre por companheiros presos

Em Ribeirão Preto, ex-presidente fez defesa veemente do PT e de filiados condenados

Gustavo Porto e Ricardo Galhardo

RIBEIRÃO PRETO - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez em Ribeirão Preto (SP) uma defesa veemente do PT e dos filiados que foram presos após serem condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no escândalo do mensalão. "O nosso partido está sofrendo; temos companheiros presos, somos solidários e queremos justiça." Lula ainda atacou, sem citá-los nominalmente, os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, do STF, por eles terem feitos declarações públicas sobre o processo após a condenação dos réus.

Em relação a Mendes, que declarou que doações feitas para o pagamento de multas de petistas condenados e presos poderiam ser fruto de lavagem de dinheiro, Lula disse que "o grande papel do ministro da Suprema Corte é falar nos autos do processo e não falar para a televisão o que ele pensa", disse. "Se quer fazer política, que entre para um partido", completou Lula, que participa do lançamento da "Caravana Horizonte Paulista", marco do início da pré-campanha do ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha ao governo de São Paulo.

Para Barbosa, indicado por Lula ao STF, o petista comentou: "Quando você indica alguém, você está dando um emprego vitalício e o cidadão, quando quer fazer política, diga (...) não aceito ser ministro, vou ser deputado, entrar para um partido político e mostrar a cara".

Lula cobrou julgamento justo, pediu que os eventuais culpados pagassem, "desde que haja provas", e garantiu que "foi nosso partido que não deixou sujeira embaixo do tapete". Lembrou até mesmo do ex-presidente da República e ex-prefeito de São Paulo Jânio Quadros, que tinha como símbolo uma vassoura. "São Paulo já teve candidato que andava com vassourinha para jogar sujeira embaixo do tapete, mas nós escancaramos a transparência no País".

O ex-presidente classificou o PT como "um dos maiores partidos de esquerda do mundo, sem dogmas", cujo compromisso, segundo ele, é ser ético e querer lutar para que as pessoas mais humildes conquistem cidadania. "Não fizemos tudo que poderíamos ter feito, mas vamos fazer ainda mais. Entendemos mais de povo que os tucanos e ninguém fez mais por esse País do que o Partido dos Trabalhadores".

Após comentar que se empenhará para reeleger a presidente Dilma Rousseff e dizer que dedicará mais tempo à política e às eleições, Lula rebateu as críticas da oposição e de analistas à política econômica e ao crescimento da dívida bruta do País.

"Querem o aumento do desemprego para baixar a inflação e agora falam em dívida bruta, que nunca foi utilizada no discurso. Estão incomodados porque o governo colocou dinheiro do tesouro do BNDES na Caixa Econômica e no Banco do Brasil", afirmou. "O dia que o PT governar o Brasil e o Estado de São Paulo, a gente vai fazer muito mais que a gente já fez", concluiu Lula, antes de elogiar Padilha e considerá-lo o mais bem preparado do partido para a disputa eleitoral no Estado.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Foco na formação de palanques

Gabriela López

Com o lançamento na terça-feira (4) do documento com as diretrizes do programa de governo que será defendido pela aliança PSB-Rede na eleição presidencial, os dois grupos iniciaram uma nova etapa da união: focar nas conversas em torno da formação dos palanques estaduais. Embora as lideranças sustentem que ainda não há discussão sobre os cenários regionais, algumas articulações vieram a público e já anunciaram, quatro meses após a união Eduardo Campos-Marina Silva, impasses em ao menos seis Estados.

Até o dia 10 de março, as direções estaduais devem apresentar um relatório eleitoral, apontando as possibilidades de alianças ou lançamento de candidatos para, então, a partir do dia 25, a cúpula começar a fechar os palanques. Os pontos de divergência aparentemente mais fortes estão exatamente nos dois principais colégios eleitorais do País: São Paulo e Minas Gerais. Também constam na lista Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Paraná e Maranhão
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Em São Paulo, Minas e Paraná, o problema chama-se "PSDB". Nos três Estados, o PSB integra as atuais gestões tucanas e negocia apoio às reeleições dos atuais governadores, mas esbarram na resistência de Marina, que quer lançar candidato próprio e não apoiar o PSDB.

Em São Paulo, o PSB articulava a indicação do nome que ocuparia a vice na chapa do governador Geraldo Alckmin (PSDB) à reeleição.

Já em Minas, os ânimos esquentaram. A cúpula regional da Rede divulgou uma nota pregando a necessidade de "romper a hegemonia do PSDB" após o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), ter dito que seu partido não lançará um candidato ao governo contra o PSDB, que colocará na disputa o ex-ministro Pimenta da Veiga. Um dia depois a coordenação nacional da Rede desautorizou o texto.

Desde a oficialização da coligação com Marina, em outubro de 2013, Eduardo interrompeu algumas costuras para não entrar em colisão com a neoaliada. Em Goiás, por exemplo, se afastou do ruralista e líder do DEM na Câmara Federal, Ronaldo Caiado, com quem acertava apoio ao seu projeto no Estado e no Brasil.

O líder do PSB na Câmara e vice-presidente da sigla, Beto Albuquerque (RS), nega vetos de Marina a alianças. "Há debate que vamos fazer até a exaustão", diz. Segundo ele, em 20 Estados há consenso entre Rede e PSB. Um deles é a Bahia, onde foi acertada a candidatura da senadora Lídice da Mata ao governo, com a ex-corregedora nacional de Justiça Eliana Calmon disputando o Senado.

O coordenador nacional de Organização da Rede, Pedro Ivo, também diz que não há vetos de Marina a alianças, embora reconheça impasses. "A complexidade dos Estados é maior que a nossa vontade", avalia. No caso de São Paulo, ele cita que há nomes dentro do próprio PSB que resiste a apoiar a reeleição de Geraldo Alckmin, como a deputada Luiza Erundina.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

"O PSB não pode errar em São Paulo"

No maior colégio eleitoral do Brasil, líder do PSB na Câmara, Beto Albuquerque, ressalta que um palanque paulista será estratégico para a campanha de Eduardo Campos

Gabriela López

Pode-se dizer que a formação do palanque em São Paulo representa o maior desafio para governador-presidenciável Eduardo Campos (PSB) nesta fase de costuras. Primeiro porque é o maior colégio eleitoral do País (em 2012, eram 31 milhões de pessoas aptas a votar lá, 22% do eleitorado nacional) e onde ele ainda é desconhecido. Segundo porque o socialista precisará vencer a resistência da Rede Sustentabilidade a apoiar à reeleição do governador tucano Geraldo Alckmin.

Vice-presidente nacional do PSB e líder do partido na Câmara dos Deputados, Beto Albuquerque (RS) é enfático ao comentar a formação do palanque paulista. "Em São Paulo, o PSB não pode errar", cravou o socialista.

Apesar de exaltar que o diálogo com a Rede será feito até se chegar a um entendimento, o parlamentar ressalta que, no momento de decidir, terá de ser observado "quem tem razão". "Porque não estamos aqui para contar uma bonita história", alerta Albuquerque.

Circula nos bastidores a informação de que os socialistas vão recorrer a pesquisas para convencer a ex-senadora e líder da Rede, Marina Silva, de que o melhor caminho é apoiar o PSDB. Uma sondagem que os socialistas já têm em mãos teria apontado que 46% dos eleitores de Marina também votam no governador Geraldo Alckmin.

"Marineiros" defendem que o discurso de "nova política", endossado por Eduardo Campos e Marina Silva, devem se reproduzir nos Estados.

A questão do palanque de São Paulo impacta em outro fator: o lançamento da candidatura do governador Eduardo Campos a presidente, provavelmente com Marina na vice. Interlocutores dos dois grupos acreditam que não é viável realizar o evento sem o arranjo paulista definido, até porque o ato pode ocorrer no Estado, onde serão os da presidente Dilma Rousseff (PT) e do senador-presidenciável Aécio Neves (PSDB).

Tanto Beto Albuquerque quanto o coordenador nacional de Organização da Rede, Pedro Ivo, classificam como natural a possibilidade de Rede e PSB subirem em palanques diferentes em alguns Estados. Eles argumentam que os partidos diferentes, embora aliados. A separação pode ocorrer, por exemplo, no Maranhão, onde o PSB quer apoiar a candidatura de Flávio Dino (PCdoB) ao governo, enquanto a Rede prefere se aliar à deputada estadual Eliziane Gama (PPS).

Beto Albuquerque nega que a divisão fragilize o palanque nacional. "Se enfraquecesse, Dilma estava ralada, porque ela não tem um Estado do Brasil onde a base do governo esteja unificada", compara.

"São dois partidos que têm trajetória próprias e têm um projeto nacional, mas têm aliança estaduais diferentes. Na medida do possível, vamos marchar unidos. Onde não der, vamos estar cada um com o projeto mais próximo dos seus anseios", completa Pedro Ivo.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Críticas de Aécio e Campos ao PT são quase idênticas

Documentos do PSDB e PSB coincidem não só nos temas, mas até nas palavras

Oposicionistas criticam o desempenho da economia, mas nenhum se arrisca a receitar medidas mais duras

Gustavo Patu

BRASÍLIA - As duas principais pré-candidaturas de oposição ao Palácio do Planalto diagnosticam e procuram explorar os mesmos pontos fracos no governo Dilma Rousseff.

Os documentos já lançados pelo PSDB do mineiro Aécio Neves e pela aliança de Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva (Rede) mostram coincidências não apenas nos temas tratados, mas até nas palavras escolhidas para as críticas e propostas.

Os dois textos miram a crise da indústria, a má qualidade da educação, as relações com governadores e prefeitos, a segurança pública e a profusão de cargos na máquina administrativa.

Sintomaticamente, nenhum ataca a política de assistência social, principal alicerce da popularidade do governo petista. Nesse caso, ambos defendem que o combate à pobreza --o texto tucano cita nominalmente o Bolsa Família-- se transforme em "política de Estado".

Trata-se de uma estratégia para neutralizar a associação entre o programa e o PT. A ideia é deixar claro que as bolsas terão caráter permanente, seja quem for o vencedor das eleições.

Além da vacina na área social, as cartilhas de Aécio e Campos tiveram o cuidado de limitar, a ponto de numerar, os alvos escolhidos.

A primeira foi lançada em dezembro com 12 temas; a segunda, sob influência da retórica marinista, listou na semana passada cinco "eixos".

Números e palavras foram selecionados para demonstrar que não há uma ruptura sendo proposta. Mesmo o documento de Aécio, de tom mais claramente oposicionista, ataca mais o gerenciamento do que as escolhas feitas pela administração petista.

Na educação, os dois textos apontam os avanços no acesso à escola, prometendo uma "revolução" futura na qualidade do ensino --o governo Dilma tem elevado as verbas para o setor, mas ainda sem resultados visíveis.

Política industrial
Em economia, há críticas ao desempenho dos últimos anos, mais veementes do lado de Aécio, mas nenhum dos programas se arrisca a receitar medidas duras --corte de gastos, alta de juros ou reforma da Previdência.

Ambos preferem propor uma política industrial abstrata, capaz, no papel, de reverter o encolhimento do setor e elevar as exportações do país, sem custos detalhados.

A equipe de Dilma é entusiasta de políticas do gênero, mas as medidas adotadas nos últimos anos, incluídas no programa Brasil Maior, tiveram impacto modesto.

Vindas de um ex-governador, Aécio, e do governador de Pernambuco, as cartilhas pregam mais verbas para Estados e municípios, uma contraposição à imagem centralizadora da presidente.

Um caso raro em que é possível diferenciar com clareza os dois esboços de programa é o da segurança: enquanto os tucanos fazem uma defesa clara de maior repressão policial, os partidários de Campos e Marina falam em apoiar os mais pobres e buscar o debate com a sociedade

Fonte: Folha Online