terça-feira, 15 de julho de 2014

Pessimismo econômico afetará disputa, preveem especialistas

Guilherme Serodio e Alessandra Saraiva – Valor Econômico

RIO - O pessimismo com a economia terá peso expressivo na escolha do presidente da República em outubro. É o que concluem cientistas políticos ouvidos pelo Valor. Esse mal estar com o quadro econômico já se reflete nos índices inéditos de votos em branco e nulos apurados pelas pesquisas eleitorais, mas a direção que a insatisfação deve tomar ainda é uma incógnita.

Em maio, todos os indicadores de confiança do consumidor, indústria, serviços e varejo encerraram em queda, atingindo patamares equivalentes aos do auge da crise global de 2009. No mês seguinte, quase todos os índices repetiram a trajetória pessimista.

O fenômeno não parece ser passageiro. Para o superintendente-adjunto de ciclos econômicos da Fundação Getulio Vargas (FGV), Aloisio Campelo Junior, responsável pelo Índice de Confiança da Indústria (ICI), o patamar menos otimista do brasileiro deve permanecer até o fim do ano eleitoral. "Somente em 2015 devemos ter algum tipo de reação na confiança, com patamares semelhantes ao de antes da crise global em 2009", diz.

A continuidade do fenômeno pode reforçar a possibilidade de termos parcelas recordes de votos nulos e em branco nas eleições presidenciais desse ano, segundo o cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Paulo Baía. "Se observamos as pesquisas de intenção de voto mais recentes, podemos notar que os percentuais de votos em branco e nulos já estão acima de 15%, e até próximos a 20%, 25%. Nas décadas de 1980 e 1990, essa parcela não chegava a 10%, 15%", avalia. "De todas as campanhas que acompanhei, essa será a que encontrará o eleitor mais pessimista; e com o maior grau de insatisfação", afirma Baía.

À frente de pesquisas que relacionam indicadores econômicos ao voto, os cientistas políticos da FGV Cesar Zucco e Daniela Campello afirmam que a avaliação negativa da economia está tendo um peso exacerbado nas pesquisas no começo da campanha. Segundo eles, a economia tem pior avaliação do que os programas sociais do governo e o desempenho da presidente.

"A economia está puxando a popularidade da presidente mais para baixo do que deveria, considerando-se a avaliação do governo em outras áreas", diz Zucco. Para Daniela, "há um excesso de pessimismo que ainda pode se reverter. Os programas governamentais são o espaço que o governo tem para atuar [na campanha]".

Por sua vez, a economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), Viviane Seda, responsável pelo Índice de Confiança do Consumidor (ICC), não acredita em reversão rápida do cenário pessimista atual. No âmbito do consumidor, nem mesmo a alta de 1% do ICC em junho - o único índice de confiança a apresentar melhora no mês -, pode ser comemorada, pois foi motivada por aumento de empregos temporários por conta da Copa, na análise dela.

Para Ricardo Ismael, cientista político da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), o cenário atual da economia é bem mais adverso para o governo do que em 2010, primeira eleição de Dilma. Naquele ano, o país cresceu 7,5% e vivia uma fase de expansão do consumo das famílias. Na sua visão, é a oposição que deve ser favorecida com os dados negativos da economia. "A primeira constatação, bastante óbvia, é que aumentam as chances da oposição", afirma. "Mas há uma variável a favor da Dilma que é o desemprego baixo", ressalta.

O superintendente-adjunto de inflação do Ibre/FGV, Salomão Quadros, também alerta para o avanço da inflação nos primeiros meses de 2014. Isso, na prática, acabou fortalecendo ainda mais o pessimismo do eleitor com a economia. Ele considera que a inflação é um dos indicadores macroeconômicos mais próximos à percepção do brasileiro. "Quando os preços sobem, o brasileiro nota rapidamente", comenta.

Um dos aspectos que também contribuem para a piora do humor com a economia é a ausência de perspectiva de melhora. O consultor do Ibre/FGV, responsável pelo Índice de Confiança do setor de Serviços (ICS), Silvio Sales, comenta que, diferentemente de 2009, "fundo do poço" nas avaliações sobre a economia brasileira, não há, em 2014, percepção de que o quadro poderia melhorar em poucos meses. Isso porque a crise global daquele ano era o grande fator de influência - o que não é o caso esse ano, com cenário influenciado por fracos indicadores macroecônomicos.

Mas, na análise do especialista, o "efeito líquido" do pessimismo com a economia em outras frentes, como a da política, por exemplo, ainda não está muito claro. "O que podemos dizer é que o nível de desconfiança [do brasileiro] com o futuro aumenta", afirma.

Brasil entre o fiasco da Seleção e o jogo eleitoral da Copa

• Vaiada no Maracanã, a presidente convoca 16 ministros para celebrar o torneio e encorpar os argumentos que serão utilizados na disputa eleitoral. A oposição acusa o governo de fazer festa seletiva ao ignorar as promessas não cumpridas

João Valadares, Grasielle Castro e Étore Medeiros – Correio Braziliense

Um dia após o término do Mundial, a presidente da República, Dilma Rousseff (PT), escalou um time de 16 ministros para capitalizar eleitoralmente o sucesso da "Copa das Copas". No Centro Integrado de Comando e Controle em Brasília, por duas horas e meia, em rede de emissoras públicas, pelo menos 13 deles se revezaram no púlpito para apresentar, com embrulho de campanha eleitoral, o balanço do megaevento esportivo. Durante a explanação, ministros anunciaram o mote "imagina nas Olimpíadas", hashtag que já inunda as redes sociais. A oposição reagiu. O PSDB, por meio do Instituto Teotônio Vilela (ITV), divulgou nota com um balanço paralelo para mostrar que muito do que foi prometido pelo governo acabou não sendo cumprido.

O ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, aproveitou o evento para fustigar, sem mencionar nomes, os dois principais adversários da presidente Dilma na corrida pelo Planalto, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB). "Agora, a presidente mandou uma carta para todos os jogadores, diferentemente de outros candidatos, e ela teve um comportamento sempre de solidariedade à Seleção, dando todo o empenho que nós podíamos dar para que ela fizesse o melhor", declarou.

A presidente abriu o evento afirmando que foi um grande desafio organizar e garantir uma Copa à altura do povo brasileiro. "Nós vivemos, nesses dias, uma festa fantástica. Mais uma vez, o povo brasileiro revelou sua capacidade de bem receber", disse. Dilma aproveitou a oportunidade para citar prognósticos que indicavam o atraso nos estádios e em outras obras de infraestrutura.

Segundo ela, as previsões de que os empreendimentos não ficariam prontos para o megaevento esportivo estavam erradas. "Diziam que o Maracanã, que foi palco ontem (domingo) de um momento belíssimo, só ficaria pronto em 2038. Enfim, não ficaria pronto nunca. Nós não teríamos aeroportos nem a capacidade de receber milhares e milhares de turistas vindos de outras partes do mundo. Derrotamos, sem dúvida, a previsão pessimista e realizamos, com a imensa e maravilhosa ajuda do povo brasileiro, essa Copa das Copas", emendou.

A exemplo do que fez na última semana, a presidente voltou a falar do resultado da Seleção dentro de Campo. "A gente dizia que ia ter a Copa das Copas, pois bem, tivemos a Copa das Copas. Tivemos, sem tergiversar, um problema, que foi nossa partida com a Alemanha. No entanto, eu acredito que tudo na vida é superação", completou. Para Dilma, o povo mostrou que também foi capaz de enfrentar esse desafio. Mercadante engrossou o coro. "Perdemos a taça, mas o Brasil ganhou a Copa como um grande evento que o mundo inteiro admirou", pontuou.

Quanto ao impacto econômico do evento, o ministro informou que ainda não foi feita uma análise ampla, mas citou os R$ 30 bilhões calculados pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da Universidade de São Paulo (USP). Mencionou ainda a possibilidade de um impacto equivalente a 1% do PIB, segundo estudo ainda não concluído e cuja fonte não foi revelada.

O ministro da Defesa, Celso Amorim, ressaltou a integração das forças de segurança. "A palavra para o legado que fica para o aspecto de defesa e segurança é integração. Foi mais do que coordenar. Foi integrar em todos os níveis, federal, estadual e, quando necessário, municipal", destacou.

"Vaias e apupos"
O site oficial do PSDB deu destaque à nota do Instituto Teotônio Vilela, do próprio partido, no qual ressalta o constragimento de Dilma ao entregar à taça à seleção alemã no Maracanã. "Dilma Rousseff praticamente se livrou da taça na cerimônia de premiação da campeã Alemanha, na tentativa de evitar vaias e apupos. Mesmo levando três segundos para passá-la às mãos do capitão Philipp Lahm, não conseguiu. Com a mesma velocidade, o governo petista quer agora dar um jeito de virar a página da Copa do Mundo, decretando seu sucesso absoluto", ressalta a nota.

A oposição afirma que o governo quer ganhar no grito. "Devagar com o andor: política, como futebol, não se ganha no grito. A "Copa das Copas" não aconteceu." O PSDB aproveitou a ocasião para divulgar uma espécie de contrabalanço. "Dos 167 compromissos assumidos em 2010, apenas 53% foram finalizados a tempo do Mundial. Outros 41% estavam incompletos e seriam concluídos durante ou, na maior parte dos casos, depois da Copa", diz o texto. O PSB do candidato Eduardo Campos não se manifestou sobre o assunto.

Estreia no Twitter
O candidato tucano à Presidência, Aécio Neves, estreou ontem conta no Twitter. Na primeira postagem, ele afirmou que ainda estava aprendendo a utilizar a rede social. "Amigos, finalmente estou no Twitter. Resolvi aprender a operar essa importante rede de diálogo. Aliás, ainda estou aprendendo", postou. Em seguida, publicou que o site oficial da campanha será lançado hoje.

Eduardo Campos defende passe livre para estudantes

• Durante debate em São Paulo, candidato prometeu discutir proposta em nova versão de seu programa de governo

• Conversa com jovens faz parte da estratégia do ex-governador para atrair eleitorado de sua vice, Marina Silva

Marina Dias

SÃO PAULO - O candidato do PSB à Presidência da República, Eduardo Campos, resolveu adotar como bandeira de campanha o debate da principal reivindicação dos movimentos que capitanearam os protestos de junho: o passe livre para estudantes em todo o país.

A promessa foi feita nesta segunda-feira (14) durante evento com cerca de cem universitários de escolas públicas e privadas de São Paulo.

Ao lado da ex-senadora Marina Silva, vice em sua chapa na disputa pelo Palácio do Planalto, o ex-governador de Pernambuco se comprometeu a incluir a discussão do passe livre para o transporte público em seu programa de governo, que terá versão reformulada entregue no final do mês ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

A primeira cópia do documento traz soluções genéricas sobre mobilidade urbana e não faz nenhuma menção à implantação da tarifa zero.

A fixação dos valores das passagens de ônibus e metrô, porém, é de responsabilidade dos governos municipal e estadual, respectivamente. O que o presidenciável propõe é discutir a implementação do passe livre com medidas que podem ser financiadas pela União, como a desoneração de setores e a baixa do preço do combustível.

Segundo Campos, desde os protestos de 2013, essa é uma demanda "posta à mesa", mas "jogada para debaixo do tapete" pelos governantes.

No auge das manifestações de junho, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), decidiu apoiar o passe livre. O benefício seria custeado com o aumento de recursos para a educação, previsto no PNE (Plano Nacional de Educação). O projeto segue em tramitação.

O debate com universitários faz parte da estratégia da campanha de Campos para atrair o eleitorado de Marina Silva, concentrado principalmente entre os jovens de grandes centros urbanos.

Além de se comprometerem com a discussão do passe livre, os companheiros de chapa responderam a perguntas sobre segurança, saúde, educação, geração de emprego e combate às drogas.

Com duas horas de duração, a conversa foi gravada para ser utilizada no site da campanha e no programa de TV. O formato é reedição das rodas de conversa que Marina fazia 2010 e terá versões com mulheres e representantes da saúde e educação.

Candidato do PSB é sabatinado hoje em São Paulo

SÃO PAULO - Terceiro mais bem colocado nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, Eduardo Campos (PSB) será sabatinado nesta terça (15), em evento realizado pela Folha, pelo portal UOL, pelo SBT e pela rádio Jovem Pan.

A entrevista com o ex-governador de Pernambuco será conduzida pelos jornalistas Ricardo Balthazar (Folha), Josias de Souza (UOL), Kennedy Alencar (SBT) e Patrick Santos (Jovem Pan).

A sabatina ocorre às 11h, no Teatro Folha (shopping Pátio Higienópolis, 2º piso, av. Higienópolis, 618, São Paulo), e terá transmissão ao vivo no UOL e no site da Folha.

Na quarta (16), o candidato Aécio Neves (PSDB), segundo mais bem colocado nas pesquisas de intenção de voto, será sabatinado.

Ainda não está confirmada a participação da presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição e primeira colocada nas pesquisas, na série de sabatinas com os principais presidenciáveis.

Aécio Neves inaugura ofensiva na internet com Twitter e portal

• Criação do site teve supervisão de Andrea Neves, irmã do tucano

Daniela Lima

SÃO PAULO - Meses após ter começado uma guerra jurídica para identificar seus detratores em blogs e redes sociais, o candidato do PSDB à Presidência da República, senador Aécio Neves (MG), iniciou nesta semana uma ofensiva para ganhar força na internet.

Um dia depois de ter estreado seu perfil no microblog Twitter, o tucano lança, nesta terça-feira (15), o portal oficial de sua campanha.

Segundo aliados, o site, criado sob a supervisão de Andrea Neves, irmã de Aécio, apostará na interatividade e no "engajamento" dos eleitores para decolar.

Apresentado como coordenador digital da campanha do tucano ainda no início do ano, o ex-deputado federal Xico Graziano perdeu o protagonismo nas decisões sobre a área. Engenheiro agrônomo, Graziano foi presidente do Incra na administração de Fernando Henrique Cardoso, secretário da Agricultura no governo Mário Covas e secretário do Meio Ambiente no governo José Serra.

O site assinado por Graziano ainda na pré-campanha acabou retirado do ar. E, segundo tucanos, desta vez ele pouco palpitou na execução do portal oficial.

A assessoria do PSDB disse que Graziano está "à frente da operação de internet, que integra a estratégia de comunicação, comandada por Paulo Vasconcelos", marqueteiro de Aécio.

As estratégias para a entrada de Aécio no Twitter e o processo de criação do site foram guardados a sete chaves pela equipe de comunicação do presidenciável mineiro.

Toda a concepção do portal se deu em São Paulo, e os principais executores do projeto, de acordo com aliados, foram os publicitários Zuza Nacif e Mino Mazzamati.

Ambos divulgaram em suas páginas os tuítes de Aécio. "Amigos, finalmente estou no Twitter. Resolvi aprender a operar essa importante rede de diálogo", escreveu na sua primeira mensagem. Em seguida, ele postou uma "selfie". Em três horas, o perfil reuniu 39 mil seguidores.

Em panfleto, chapa de filho de Sérgio Cabral tem Aécio, e não Dilma

• Ex-governador declarou apoio à presidente; mesmo material omite nome de Cesar Maia

Marcelo Remígio – O Globo

RIO — A defesa em público da reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT) feita pelo ex-governador Sérgio Cabral não se repete no material de campanha de seu filho Marco Antônio Cabral (PMDB), candidato a deputado federal. O peemedebista tem dividido com Marcelo Queiroz (PP) — que disputa uma vaga na Alerj — panfletos que pedem votos para Aécio Neves, candidato tucano à Presidência, apesar de o PMDB integrar a aliança nacional com o PT. No panfleto aparece ainda o governador Luiz Fernando Pezão, que diz ser Dilma sua candidata ao Planalto.

O material de propaganda política que começa a chegar às ruas do Rio tem mostrado que fidelidade não será o ponto forte dos palanques no estado. No mesmo panfleto de Marco Antônio, o espaço para indicação ao Senado, no qual deveria estar o nome do ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM), está vago. Cesar é o candidato da coligação do peemedebista. Embora tenha sido escolhido para a disputa, Cesar não foi um nome de consenso entre as 18 siglas da aliança de Pezão. Vice na chapa, o senador Francisco Dornelles é um dos caciques da coligação que defendiam o nome de Sérgio Cabral para o Senado.

Dornelles é do mesmo partido de Queiroz, que omitiu Cesar. O sumiço do nome do ex-prefeito também pode ser verificado em panfletos do deputado estadual André Corrêa (PSD), candidato à reeleição. O PSD, que está na coligação do PMDB, chegou a brigar pelo posto oferecido ao DEM. Por meio de sua assessoria, Marco Antônio Cabral informou que, em função das alianças proporcionais e majoritárias, há partidos na coligação do PMDB que apoiam Aécio e outros candidatos a presidente, como Pastor Everaldo (PSC).

Por isso, o nome de Dilma não está nos panfletos de sua dobradinha com Queiroz. O material foi feito pelo PP. Cesar não comentou seu desaparecimento dos panfletos.

Disputa judicial por vaga ao senado
O PSB anunciou nesta segunda-feira que vai recorrer à Justiça para conseguir a 1ª suplência ao Senado na chapa de Lindbergh Farias (PT), candidato a governador. O PSB já indicou o titular — o deputado Romário — e diz não concordar com o PCdoB na 1ª suplência, entregue pelo PT para a formação da coligação, que também tem o PV.

José Serra: Um homem honrado

• Há homens que admiramos não porque falam o que pensamos, mas porque falam o que pensam. Plínio se foi de bem com sua consciência

- Folha de S. Paulo

Morreu Plínio de Arruda Sampaio. Era um homem inequivocamente de esquerda sem nunca ter sido de fato marxista. Foi um democrata cristão no início de sua vida pública sem jamais ter sido um conservador. Sua personalidade complexa e aparentemente contraditória, que conheci bem, guardava uma notável coerência.

Concordasse eu com suas escolhas ou não --e é certo que, politicamente, estivemos mais próximos no passado do que em dias recentes--, tenho claro que Plínio rompeu barreiras políticas sempre por bons motivos, que nunca atenderam à sua conveniência pessoal. Há homens que admiramos não porque falam o que nós pensamos, mas porque falam o que eles pensam. Plínio se foi de bem com sua consciência, e aí está uma grandeza e uma paz merecidas.

A primeira vez em que ouvi falar dele foi na minha adolescência. Plínio era subchefe da Casa Civil do governo de São Paulo, e lhe coubera coordenar um plano de ação que orientaria os investimentos do Estado de 1958 a 1962, ano em que se elegeu com facilidade deputado federal pelo Partido Democrata Cristão.

No Congresso, foi relator do projeto de reforma agrária contemplado nas "reformas de base" do governo de João Goulart. Em abril de 1964, com o golpe militar, teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos.

No exílio chileno, Plínio tornou-se técnico da FAO, num projeto de capacitação e pesquisa sobre a reforma agrária conduzido pelo governo democrata cristão de Eduardo Frei. Em Santiago, frequentar a casa de Plínio e Marieta era um dos meus hábitos preferidos em razão da acolhida de toda a família.

Depois da vitória da Unidade Popular, de Salvador Allende, no fim de 1970, ele se mudou para os EUA. Tornara-se funcionário do Banco Interamericano de Desenvolvimento. E foi lá que a família Sampaio nos acolheu em sua casa --a mim, mulher e dois filhos pequenos--, em meados de 1974, depois da prisão e perseguição que sofremos da ditadura do general Pinochet.

Após um mês e meio de hospedagem, fomos para a Universidade de Cornell, onde eu iria obter o doutorado em economia. Descobri que havia lá um mestrado em economia agrícola. Um pouco mais tarde, convenci Plínio a fazê-lo. Na pequena cidade de Ithaca, as duas famílias conviveram intensamente. Foi de lá que ele regressou ao Brasil, em 1976.

A partir de 1977, um grupo, do qual faziam parte eu, Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Almino Affonso e Plínio começou a discutir a ideia de se criar um novo partido de esquerda. Plínio e Almino propuseram lançar a candidatura de FHC ao Senado nas eleições de 1978, a fim de aglutinar as forças que comporiam a nova legenda.

Pensava-se em atrair Lula, o dirigente sindical mais expressivo da época, que viria a participar da campanha de FHC naquele ano. Em 1979, fez-se uma grande reunião aberta no ABC para impulsionar a criação do novo partido. Ocorreu, porém, o oposto: de um lado, Lula defendeu a criação de um partido operário; do outro, os "autênticos" do MDB, Fernando Lyra à frente, defenderam a permanência no MDB como frente ampla da oposição ao governo do general Figueiredo.

Plínio engajou-se então na criação do PT, com o respaldo de setores da Igreja Católica. A história posterior é mais conhecida. Mas vale registrar um episódio: em 1988, ele foi pré-candidato a prefeito de São Paulo. Apesar de sua experiência, foi preterido por integrantes do aparato petista. Em 1990, deram-lhe a candidatura ao governo do Estado, quando a chance de vitória PT era nenhuma.

Em 2010, ambos candidatos à Presidência da República, fui inquirido por ele em vários debates na TV: firme, sem fazer concessões. Em vez de me chamar de "Serra", preferia o "Zé", o vocativo de uma amizade de tantas décadas. E fazia essa escolha não porque pretendesse me preservar das nossas divergências, mas porque um confronto também pode ser elegante.

Velórios são tristes. Velórios de pessoas de bem são especialmente tristes. Eu estava lá porque queria dignificar as nossas diferenças. Eu estava lá, sobretudo, porque queria dignificar a nossa amizade --as diferenças e a amizade de um homem honrado, com uma família adorável.

José Serra, 72, foi ministro da Saúde e do Planejamento e Orçamento (governo FHC), prefeito de São Paulo (2005-2006) e governador de São Paulo (2007-2010) pelo PSDB

Marco Antonio Villa: Montoro, pedagogo da política

- O Estado de S. Paulo

Amanhã, dia 16 de julho, completam-se 15 anos do falecimento de André Franco Montoro. Ele percorreu um caminho raro entre os políticos brasileiros: foi vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, governador e ministro de Estado. Contudo nunca afastou o exercício da função pública da elaboração de ideias que tivessem aplicação prática na vida das pessoas. O fortalecimento da sociedade civil sempre foi uma preocupação central da sua ação, isso num país onde o papel do Estado foi superdimensionado, tanto pela direita como pela esquerda.

Montoro teve na democracia cristã do pós-guerra a sua matriz ideológica. E com base nesse pensamento agiu como um pedagogo da política, escrevendo, debatendo e formando militantes. Por onde passou foi deixando a sua marca. Nos dez meses em que esteve à frente do Ministério do Trabalho, durante o Gabinete Tancredo Neves, foi pioneiro no incentivo à sindicalização rural - tema, à época, explosivo - e criou o salário-família.

Na Câmara dos Deputados destacou-se na defesa dos trabalhadores e da democracia. Tanto que, após a extinção dos partidos políticos, em 1965, foi um dos primeiros a organizar o MDB. Cinco anos depois foi eleito senador, numa eleição marcada pelo medo, no auge do regime militar.

Nos anos de vida parlamentar foi um incansável propagador da integração econômica e cultural com a América Latina. De início foi voz solitária. Poucos se interessavam. Mas a pregação foi ganhando adeptos até ser incorporada à Constituição de 1988.

Assumiu o governo de São Paulo em março de 1983. O País estava em recessão - o produto interno bruto (PIB) caiu 2,9% - e com uma inflação anual de 211%. A economia estadual passava por uma profunda crise. O número de desempregados não parava de aumentar. E as finanças estaduais estavam em petição de miséria após o trágico quadriênio Maluf-Marin.

Organizou um secretariado de nível ministerial. Teve entre seus principais colaboradores (incluindo os bancos e empresas estatais paulistas) José Serra, João Sayad, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Almino Affonso, Miguel Reale Júnior, Almir Pazzianotto, José Gregori, Paulo Renato e Paulo de Tarso, entre outros. Nomeou para a Prefeitura de São Paulo Mário Covas. Entendeu que na administração pública deviam ser escolhidos os melhores. E que o governador não devia temer a competência dos seus auxiliares, muito pelo contrário.

Pôs em prática os princípios defendidos desde os anos 1950. Fez da descentralização um dos carros-chefes do governo. Insistiu na tese de que o município é a base da democracia, da boa gestão e onde o cidadão vive. Fez o saneamento financeiro zerando o déficit orçamentário graças à austeridade nos gastos. Diversamente do governo anterior, deu à ética um papel central. Relacionou-se com a Assembleia Legislativa de forma republicana. Acentuou a necessidade da participação do cidadão nos negócios públicos. E foi o primeiro governador a ter preocupação (e ação) com o meio ambiente - basta recordar o tombamento da Jureia, onde Paulo Maluf queria construir duas usinas nucleares.

Conviveu com diversos movimentos grevistas. Reivindicações contidas à força pelos governos anteriores acabaram eclodindo. Soube buscar soluções harmoniosas em meio à tensão política. No tristemente célebre episódio da derrubada das grades do Palácio dos Bandeirantes agiu com moderação. Sabia que estavam em jogo a abertura democrática e o exercício da autoridade. Era uma provocação arquitetada pelos extremismos à direita e à esquerda. Tomou as decisões necessárias e saiu engrandecido.

A campanha das diretas teve início - efetivamente - no dia 25 de janeiro de 1984, no comício da Praça da Sé. Foi um ato de ousadia e coragem política. Poucos acreditaram no sucesso do comício. E a participação de 300 mil pessoas demonstrou a correta análise de conjuntura do governador Montoro. A partir daí, a campanha deslanchou. Foram realizados dezenas de atos por todo o Brasil. E em São Paulo, em 16 de abril, foi encerrada com o maior comício da História do Brasil.

A derrota da Emenda Dante de Oliveira não desanimou o governador. Tornava-se indispensável a união da oposição. Passou a articular uma frente de governadores. Era natural que fosse o candidato oposicionista no Colégio Eleitoral. Afinal, o PMDB de São Paulo tinha a maior bancada na Câmara dos Deputados, o presidente nacional do partido era paulista, governava o mais importante Estado da Federação e tinha sido eleito com mais que o dobro de votos do segundo colocado.

O interesse do País, porém, estava acima de qualquer veleidade pessoal. Montoro identificou no governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, o nome ideal para unir a oposição e dividir o PDS, estimulando o surgimento de uma dissidência, essencial para obter a maioria no Colégio Eleitoral. E foi no Palácio dos Bandeirantes que Tancredo foi lançado candidato do PMDB à Presidência da República. Não deve ser esquecido que naquele momento, agosto de 1984, a sorte da sucessão presidencial não estava decidida. O País corria o sério risco de ter Paulo Maluf como presidente da República por seis anos e com poderes arbitrários garantidos pela desastrosa Emenda Constitucional n.º 1 de 1969.

Desiludido com os rumos do PMDB, foi fundador do PSDB, em 1988. Criou o símbolo do partido: o tucano. Foi um defensor do parlamentarismo. Mesmo adoentado continuou entusiasmado pela política. Morreu quando estava a caminho de um seminário no México.

O esquecimento de Franco Montoro é um ato perverso. Perverso para a jovem democracia brasileira, tão carente de exemplos que dignifiquem o compromisso com o interesse público. Perverso porque vivemos um momento em que abundam políticos profissionais e são cada vez mais raros os homens públicos.

Historiador

Merval Pereira: Responsabilidade fiscal nos clubes

- O Globo

A partir da discussão sobre o que fazer para reorganizar nossa estrutura futebolística, o primeiro passo parece ser a mudança a partir dos próprios clubes, que são a fonte de poder das federações estaduais, que por sua vez elegem a diretoria da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Não há como começar esse processo sem ser dessa base, dizem os especialistas, pois sendo uma entidade privada, a CBF não está sujeita a intervenções oficiais, protegida pela própria FIFA, que proíbe a interferência de governos e de tribunais que não sejam os da Justiça Esportiva.

Mesmo que a interferência do governo e dos políticos seja indesejável, será preciso repactuar as dívidas dos clubes com o governo para que reformulemos nossa estrutura clubística em novas bases.

Já existe na Câmara dos Deputados em Brasília um substitutivo, do deputado federal do PSDB do Rio Otávio Leite, que pode ser votado em breve, pois está pronto para ir ao plenário desde abril, depois de ser aprovado pelas comissões. Mas vem sofrendo a obstrução da base aliada do governo.

A proposta é ampla e representa importante avanço, a partir da renegociação da dívida dos clubes, mas com punições rigorosas, que podem chegar ao rebaixamento, para o não pagamento. O substitutivo já está sendo designado como Lei da Responsabilidade Fiscal do Esporte, numa alusão proposital à Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada junto com o Plano Real, que limitou as dívidas dos Estados e Municípios e impôs aos entes federativos hábitos financeiros saudáveis que até hoje vêm sendo respeitados, a despeito de diversas tentativas de burlá-la.

Não haverá anistia nem perdão das dívidas, mas uma renegociação dos débitos com o governo: INSS, IR, FGTS, Timemania e Banco Central. O montante único dos débitos seria refinanciado em 25 anos com a taxa TJLP, usada pelo BNDES para seus empréstimos. O total da dívida, excluídas as trabalhistas e os empréstimos que não entrariam nesse refinanciamento, é de R$ 3,3 bilhões aproximadamente.

A União teria uma arrecadação anual estimada em R$ 140 milhões, e com a unificação dos débitos haveria um documento único de arrecadação e a redução dos meios administrativos dos órgãos públicos que cuidam das dívidas.

O objetivo da LRFE de ter uma “gestão transparente e democrática” seria monitorado por várias medidas, como a apresentação obrigatória de Certidão Negativa de Débito (CND) ao início de cada competição, sob pena de rebaixamento.

Também o cumprimento regular de pagamentos dos contratos de trabalho dos jogadores e funcionários dos clubes seria fiscalizado. Os dirigentes seriam responsabilizados pessoalmente pelas dívidas dos clubes, e seria proibido o aumento do nível de endividamento depois da repactuação.

Haverá uma expressa proibição de antecipação de receitas de qualquer natureza que ultrapasse o fim do mandato do dirigente. E os mandatos de presidente serão limitados a 4 anos, com uma única recondução. Haverá ainda um Comitê de acompanhamento da execução das regras estabelecidas, formado por representantes dos clubes, dos jogadores, dos patrocinadores, da imprensa, do grupo de jogadores Bom Senso e do Poder Executivo.

A legislação prevê ainda a criação de um Fundo de Iniciação Desportiva na Educação, que teria recursos, entre outros, vindos de uma nova loteria e a instituição de um imposto sobre a venda de patrocínios da camisa de Seleção.

A necessidade de dar resultados financeiros e ter transparência nos gastos para reformar as dívidas, mas, sobretudo, a responsabilização pessoal dos dirigentes, obrigaria os clubes a uma profissionalização indispensável para uma nova etapa de reorganização do futebol brasileiro a partir de sua base, que são os clubes.

Dora Kramer: Palácio do Palanque

- O Estado de S. Paulo

O instituto da reeleição impõe um desafio legal (e moral) difícil de ser cumprido. Nem por isso deve deixar de ser perseguido por candidatos a um segundo mandato consecutivo: a separação dos atos de campanha dos compromissos de governo.

O limite da distinção entre uma agenda e outra é sutil, mas com boa-fé, com respeito ao jogo limpo, com um mínimo de discernimento sobre o momento em que se ultrapassam essas fronteiras e, sobretudo, com consciência sobre o significado da representação do cargo público, principalmente quando se refere ao conjunto da Nação, é possível o governante administrar a vantagem natural sem perder a estribeiras.

Pois a presidente Dilma Rousseff, que já tinha ficado perigosamente próxima de perdê-las na semana passada naquela megassolenidade via teleconferência de entrega de casas populares e promessas de construção de outras tantas unidades, em ato financiado com dinheiro público para ser usado no horário eleitoral, agora vai deixando desandar a carruagem.

Deu uma entrevista à TV Al Jazeera, do Qatar, simplesmente pedindo votos. "Eu acredito que o povo brasileiro deve me dar a oportunidade de um novo período de governo pelo fato de que nós fazemos parte de um projeto que transformou o País", disse.

Na condição de presidente de uma república em entrevista a uma emissora internacional, falando como representante de todo o Brasil, no exercício de seu posto, Dilma Rousseff apresenta-se como integrante de um grupo. A referência ao já notório "nós" pressupõe a existência do igualmente afamado "eles", um ente apartado do País.

Definitivamente, não são maneiras de um mandatário. Nem de candidato à reeleição na posse ética para o jogo. E o pior é que não foi um lapso. A presidente prosseguiu ao falar sobre os índices de pobres e miseráveis que passaram a integrar a classe média: "Nós transformamos a vida dessas pessoas".

Faltou completar, mas deixou implícito: e, por isso, devem por gratidão votar em "nós". A senhora Dilma Rousseff, talvez empolgada com a campanha eleitoral que agora se inicia, parece ter perdido a noção de que até o dia 1.º de janeiro de 2015 ainda é presidente do Brasil e pode vir a ser por mais quatro anos.

Enquanto estiver no exercício da Presidência representa todos os brasileiros. Ou entende isso, e assim se comporta, ou se enfraquecem os apelos ao respeito à instituição presidencial quando a chefe de governo é desrespeitada, por exemplo, em estádios.

No discurso de palanque ao microfone da Al Jazeera Dilma recitou o versinho marqueteiro: "Nós oferecemos o seguinte: quem fez, sabe continuar fazendo, enquanto quem quando pode não fez, não sabe fazer. É simples a opção".

Paralelo a isso, o Palácio do Planalto faz toda uma cenografia de neutralidade dizendo que há um esquema especial de comando de governo para evitar a ultrapassagem de limites.

Ocorre que os ministros escalados para ficar em Brasília, oficialmente com funções exclusivamente relacionadas com o governo, informalmente participam de decisões de campanha. Funcionarão como "consultores", alega-se.

Sabem o senhor e a senhora como é? Quando vários ministros no auge da campanha estiverem em pleno horário de expediente se movimentando para cima e para baixo, recebendo prefeitos, dirigentes partidários, reunindo-se para discutir como responder a esse ou àquele ataque da oposição, serão apenas atos de "consulta".

Não importa que todos eles façam isso a partir da estrutura de governo. Do Palácio do Planalto (do Palanque?), dos ministérios, a qualquer hora, de qualquer local. Na prática, está tudo liberado.

Como a partir de agora a presidente não pode inaugurar obras nem anunciar novas realizações de governo, faz uma agenda de entrevistas. No exercício do cargo de presidente. E nelas pede votos na condição de candidata.

Eliane Cantanhêde: O melhor do Brasil

- Folha de S. Paulo

Na hora dos balanços sobre a Copa, é necessário reconhecer: todo mundo (quase literalmente) achava que o Brasil levaria a taça nos gramados e daria um vexame fora deles, com manifestações, quebra-quebra, violência policial, aeroportos insuportáveis, estádios cheios de tapumes e uma onda de assaltos a nacionais e a estrangeiros. Ocorreu justamente o oposto.

Se a expectativa era muito favorável à seleção e bem pessimista quanto à capacidade do país em recebê-lo, no fim o time do Felipão é que se revelou um fiasco histórico, enquanto a Copa se afirmava como um sucesso para brasileiros e para torcedores das mais diferentes nacionalidades.

Como sempre se critica aqui o uso despudorado dos instrumentos e da visibilidade da Presidência da República para fazer campanha aberta, agora faça-se justiça: depois de meses engolindo críticas e dúvidas, Dilma, como presidente, acertou ao reunir uma penca de ministros para prestar contas, fazer um balanço, apontar o dedo na cara dos "pessimistas" e capitalizar o sucesso do maior evento desportivo do planeta.

Vá lá que obras de mobilidade urbana ficaram para "depois" e que houve atrasos e improvisos, com tudo entregue em cima da hora, incompleto e com problemas, mas, no geral, os aeroportos e estádios funcionaram a contento e o esquema de segurança foi integrado e aparentemente impecável.

E a "hospitalidade" do brasileiro, o clima do Brasil e o ambiente da festa fizeram o resto e definiram o êxito, como confirma o Datafolha.

Podemos até estar perdendo o carimbo de "país do futebol", mas, ainda assim, um mês de Copa do Mundo fez mais pela diplomacia e pela imagem do Brasil no mundo do que os quatro anos de política externa do governo Dilma Rousseff.

Conclui-se, pois, de uma vez por todas, que --apesar da corrupção, da violência, da malemolência e do espírito "macunaímico"--, o melhor do Brasil é mesmo... o povo brasileiro.

Luiz Carlos Azedo: O signo da mudança

- Correio Braziliense

Os políticos — como quaisquer seres humanos — se valem de signos para convencer a sociedade dos próprios objetivos. São empregados para capturar o voto do eleitor nas campanhas por meio da emoção, e não da razão. Cores, imagens, objetos, palavras, sorrisos, tudo é válido – desde que transmita alguma informação capaz de estabelecer sintonia entre o candidato e o povo, sem ter que dar muitas explicações.

Por exemplo, na sucessão de Juscelino Kubitscheck, em 1960, Jânio Quadros (UDN/PR/PL/PDC/PTN) usou uma vassoura como símbolo de campanha. Ela representava o combate à corrupção. O adversário, o marechal Henrique Teixeira Lott (PSD/PTB/PST/PSB/PRT), optou pelo óbvio: a espada, que representaria a ordem. Jânio foi eleito com 48% dos votos, contra 32% de Lott e 19%, de Adhemar de Barros (PSP), candidato cujo slogan era "rouba, mas faz".

A campanha eleitoral deste ano ocorre sob o signo da mudança, esse é o desejo de dois terços do eleitorado, insatisfeitos com a situação do país. A oposição tenta agarrar esse sentimento difuso na sociedade com as duas mãos: "Muda, Brasil", é o slogan do candidato a presidente da República do PSDB, senador Aécio Neves. Eduardo Campos, do PSB, vai na mesma linha: "Coragem para mudar".

Até a presidente Dilma Rousseff, que busca a reeleição, incorporou a palavra ao slogan de campanha: "Para o Brasil seguir mudando". O contorcionismo verbal foi a fórmula encontrada para tentar capturar esse desejo da sociedade e defender a continuidade do atual governo.

No começo do mandato, bem que Dilma tentou construir uma marca própria para o governo dela, mas não conseguiu: a "faxina" para fechar "os ralos" da administração levou um chega pra lá do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Resultado: a reeleição depende do legado deixado pelo antecessor. Onde está a mudança? Signos precisam ser traduzidos por símbolos.

A Copa das Copas
A reunião de balanço da Copa do Mundo feita por Dilma Rousseff ontem, que reuniu 16 ministros, ilustra a dificuldade do governo para construir sua marca. A capacidade gerencial de Dilma está sendo questionada pela oposição. O povo se queixa da saúde, da educação, dos transportes, da energia, da violência. A "Copa das Copas" seria uma resposta?

Alguém já disse que o sucesso é autoexplicativo. O Palácio do Planalto, porém, gastou horas de seus ministros para demostrar que foi muito competente e tem capacidade de realização. Pelo menos 13 autoridades se revezaram para contar o que fizeram na preparação e durante a realização dos jogos.

Foi o troco nos "pessimistas" que fizeram previsões alarmistas, dentro e fora do país, em relação aos jogos. Todo esforço subliminar, entretanto, foi para descolar do governo o fracasso vergonhoso da Seleção Brasileira, que levou uma goleada histórica da Alemanha por 7 x 1 na semifinal e perdeu a disputa do terceiro lugar para a Holanda por 3 x 0.

Para o governo, mais importante do que a taça perdida são os 12 novos estádios e as reformas dos aeroportos, a segurança dos jogos e a satisfação dos torcedores brasileiros e estrangeiros. A realização do evento que mais mobilizou o governo Dilma foi uma demonstração da capacidade do país. A autoestima do brasileiro foi alavancada pelo torneio.

As pesquisas realmente mostraram, durante a Copa, que a opinião pública havia virado em relação ao evento. A maioria dos que antes criticavam, passou a aplaudir o governo. O Palácio do Planalto aposta que esse sentimento não teria se alterado com as derrotas da Seleção, embora Dilma tenha sido vaiada e xingada novamente, desta vez no Maracanã. A falta de educação e o desrespeito da torcida presente ao estádio não abalou o governo, foi coisa da "elite branca".

Quem assistiu pela televisão à cerimônia na qual Dilma fez a entrega da Copa à seleção alemã não ouviu os apupos, porém, soube da vaia e percebeu que a presidente da República não estava feliz. De cara feia, em nenhum momento ela sorriu. Ou seja, o balanço oficial da Copa é uma coisa; a imagem de Dilma no domingo, outra. É aí que entra o tal do signo.

César Felício: Quem continua invicto na Argentina

• Para mandar no futebol, Cristina fez pacto com cartolas

Valor Econômico

É difícil encontrar um exemplo mais acabado de intervencionismo estatal em uma democracia do que a Argentina. A fragilidade institucional do país vizinho já foi exaustivamente discutida, mas há uma esfera no país vizinho em que o poder público pactua, negocia a entrega e o recebimento de apoio, mas não se assenhora de seu comando. Entre o peronismo e o futebol, há uma aliança para a perpetuação mútua de suas cadeias de comando, que não envolve subordinação de parte a parte.

Cristina Kirchner não enfrentou a vaia quase certa de seus compatriotas no Maracanã no domingo. A presidente argentina, tradicionalmente, só aparece em público para plateias cuidadosamente controladas, como era o caso da recepção ontem na sede da Associação de Futebol Argentino (AFA), em Ezeiza, na região metropolitana de Buenos Aires, onde a presidente proclamou que para ela a Argentina "ganhou a partida".

A seleção vice-campeã do mundo obteve a sua melhor performance nos gramados desde 1986, invicta no tempo regulamentar de cada jogo, mas a boa relação entre o governo e a cartolagem argentina é antiga, assim como não é nova, nem decorrente do péssimo desempenho nos gramados da seleção brasileira, a indisposição do governo da presidente Dilma Rousseff com a CBF.

Há um marco emblemático deste pacto de aço: 11 de agosto de 2009, quando o governo argentino anunciou o programa Futebol para Todos. A iniciativa é tema do livro "A Política dos Gols", editado este ano, que mostra na capa uma imagem de Cristina chutando a bola para o leitor. "O governo e a AFA se tornaram sócios estratégicos no uso de uma engrenagem política", afirmou o co-autor do livro, o jornalista esportivo David Cayón.

A AFA é comandada desde 1979 por Julio Grondona, vice-presidente da Fifa. Em 1991, Grondona encerrou a era da transmissão do futebol argentino pela rede de TV aberta. Garantiu exclusividade do campeonato para o conglomerado de mídia Clarín, dono do canal pago TyC. Dezoito anos depois, com os clubes argentinos em péssima situação financeira, Grondona e o Clarín começaram a negociar um aumento do valor do contrato.

Neste instante entrou em cena o kirchnerismo, que havia rompido com o Clarín no ano anterior. Grondona, do dia para a noite, transferiu o televisionamento para o governo, que passou a transmitir os jogos gratuitamente para a população pela TV pública. Em troca, passou a receber o dobro pelos direitos do que o Clarín pagava. Desde então, pelas contas de Cayón, a Casa Rosada já teria pago 7 bilhões de pesos argentinos para a AFA, algo como US$ 860 milhões pela taxa oficial de ontem. Os dividendos políticos foram mais do que compensadores.

"O governo garante não só audiência em um horário nobre, como controla a publicidade veiculada no evento. Durante a transmissão, os torcedores são informados sobre como Cristina está fazendo mais escolas e casas populares", comentou Cayón.

O uso do futebol como propaganda vai um pouco além disso: não se trata apenas de divulgar os feitos do governo, ou de fomentar o culto à imagem de figuras queridas ao sistema, batizando o primeiro e o segundo turno da competição com nomes como "torneio presidente Nestor Kirchner", ou "torneio Evita Perón".

A ofensiva também envolve atacar os adversários. Algo que foi feito na própria cerimônia de lançamento do programa, quando, ao lado de Grondona e do ex-jogador Diego Maradona, Cristina afirmou que a iniciativa punha fim ao "sequestro dos jogos" por parte de um ente privado, em um ataque ao Clarín que era alusão óbvia ao regime militar dos anos 70.

Em 2012, uma greve dos metroviários em Buenos Aires colocou o prefeito oposicionista da cidade, Mauricio Macri, em confronto com o governo. Macri foi responsabilizado pela paralisação em um anúncio do governo veiculado durante a transmissão de um jogo. A mesma arma foi usada contra o governador de Córdoba, José Manuel de la Sota, que brigava por financiamento ao seu sistema previdenciário.

"O monopólio da publicidade está sendo usado mesmo na transmissão de competições que não são organizadas pela AFA, como a Copa do Brasil", disse Cayón. Apesar de receber recursos públicos, uma diferença importante em relação à CBF, a AFA não tem suas contas auditadas. Passa pela entidade os repasses aos clubes dos direitos de transmissão, principal fonte de sobrevivência das equipes argentinas.

Existem nos clubes argentinos cartolas governistas, como o senador Alberto Fernández, do Quilmes; ou oposicionistas, como o sindicalista Hugo Moyano, recém-eleito presidente do Independiente. O principal comunicador do país, Marcelo Tinelli, uma espécie de Silvio Santos argentino, comanda o San Lorenzo, e Macri se lançou na política ao tomar o controle do Boca Juniors. Mas Grondona reina sem adversários desde os tempos da presidência de Videla. "Seu poder tem origem fora da Argentina e ninguém jamais conseguiu confrontá-lo daqui. Trata-se de um integrante da cúpula da Fifa", explica Cayón.

No Brasil, Ricardo Teixeira perdeu a presidência da CBF em 2012 exatamente ao ser atacado de fora para dentro. O cartola brasileiro resistiu durante mais de uma década a um bombardeio de denúncias de irregularidades na trincheira doméstica. Afastou-se da linha de frente de seu império quando o presidente da Fifa, Joseph Blatter, lhe soltou a mão. O fato de ter uma relação ruim com o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, e com a própria presidente decerto o fragilizou, mas parece ter sido o fator secundário em sua saída de cena.

Não há mais um Grondona no Brasil e nem um governo hiperpresidencialista como o de Cristina. Mas a CBF já providenciou sua sucessão, enquanto no governo brasileiro as gestões por uma reforma do futebol são apenas mais um lance de uma campanha. Talvez por isso, com a tranquilidade de quem sabe onde estará em 2015, o presidente eleito da CBF, Marco Polo del Nero, tenha dito em entrevista o "Estado de S.Paulo" na sexta-feira de que o interesse do governo em relação ao tema é bem vindo, mas "dentro de limites".

Arnaldo Jabor: A volta do complexo de vira-latas

- O Globo

Amigos, vocês passaram o tempo todo da Copa falando de mim: Nelson Rodrigues pra cá, pra lá...
Antes eu era o pornográfico, o reacionário, agora virei técnico de futebol. E me citavam. Todos diziam que tinha acabado o nosso "complexo de vira-latas". Mas esse complexo que eu descobri pode existir também ao avesso (Freud nem me olha aqui no céu, com uma inveja danada). Mas ele não é apenas o pavor diante dos estrangeiros, a cabeça baixa, o "sim senhor", a alma de contínuo. Não. Este complexo aparece na submissão à FIFA, lambendo-lhe os pés como cachorrinhos gratos, nas arenas grã-finas. O vira-latas estava ali. Podemos botar uma fitinha cor de rosa no vira-latas que ele continua sendo um legitimo vira-latas, cheirando postes e abanando o rabo.

Para nossos jogadores ricos e famosos, o Brasil é a vaga lembrança da infância pobre, humilhada. O País virou um passado para os plásticos negões falando alemão, todos de brinco e com louras vertiginosas. Não são maus meninos, ingratos, não; mas neles está ausente a fome nacional "por um prato de comida", a ânsia dos vira-latas.

Já disse e repito que, antes, nas copas do mundo, éramos a pátria de chuteiras. Hoje somos chuteiras sem pátria. Fomos infeccionados pelo futebol europeu, mas pela metade; ficamos na dúvida se somos Pelé ou Dunga.

Nesta Copa, só o povo estava de chuteiras, para esquecer os escândalos que lhe mergulharam em cava depressão.

Foi diferente de 1950. Lá, sonhávamos com um futuro para o País. Agora, tentamos limpar nosso presente. Somos uma nação de humilhados e ofendidos, pois o país é dominado por ladrões de galinha e batedores de carteira. E a população queria que o escrete fizesse tudo que o governo não fez. Mas, era peso demais. O brasileiro não estava preparado para ser o "maior do mundo" em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo, mesmo em cuspe à distância, implica numa grave e sufocante responsabilidade. Além disso, era um time de várzea.

Isso era o óbvio, mas foi ignorado. E quando o obvio é desprezado, ficamos expostos ao mistério do destino. E um dos fatos óbvios foi o endeusamento do técnico. Felipão era mais importante que o time. E ninguém é mais obstinado do que o sujeito que é portador de um erro colossal. O ser humano acredita mais em seus equívocos do que em suas verdades. O técnico é sempre contra a opinião geral.

Em vez de orientar as vocações dos rapazes, Felipão achou que todos tinham de caber em sua estratégia. O técnico devia ser um reles treinador, quase um roupeiro, humilde diante dos craques. Mas o Felipão os tratava como garotinhos inseguros ou então parecia um "Mussolini" de capacete e penacho. A própria figura do Felipão era deplorável - nervoso e mal vestido, quase de pijama, era o retrato físico de nosso despreparo. O único jogador do "passado glorioso" foi o Neymar - Didi, Zizinho, Ademir guiavam seus dribles.

Quando o alemão fez o primeiro gol, sentimo-nos diante da verdade de que os próprios jogadores suspeitavam: éramos 11 solitários, nosso time era uma ilusão que parecia realidade por causa do Neymar. Nossa meta não era o gol; era o Neymar. Esse jovem gênio nos cegou e, com ele, acreditávamos que o Brasil voltaria a seus melhores dias. Mas, o Brasil nunca está em seus melhores dias. Não esperávamos uma vitória, mas uma salvação. Só a taça aplacaria nossa impotência diante da zona brasileira - era a nossa única chance de felicidade.

E aí começaram as interpretações dos idiotas da objetividade: por que perdemos? Tentam explicar a derrota como uma bula de remédio. Como se a derrota tivesse explicação; toda derrota é anterior a si mesma, ela começa 40 anos antes do Nada e vem desabrochar em nossos dias. Mas só podemos entender o que "não" houve. Atrás da derrota, estavam todos nossos vícios seculares: salvacionismo, milagres brasileiros, fé no improviso, vitórias abstratas e derrotas políticas.

Além disso, há entre nós e a loucura um limite que é quase nada. Enlouquecemos diante da Alemanha.

Nessa hora do jogo a loucura explodiu feito uma libertação. Isso. Nossa loucura não foi de Napoleões ou Neros, nossa loucura apareceu como um fundo desejo de parar, de ter sossego. Nos jogadores surgiu a ânsia do fracasso, como uma exaustão diante de tanta incapacidade.

Ao contrario do que disse o Parreira em 2006, de que "não estávamos preparados para perder", dessa vez estávamos todos preparados para a calamidade e secretamente sabíamos disso. Depois daqueles seis minutos em que houve quatro gols, o absurdo adquiriu uma doce, persuasiva, admirável naturalidade. Depois de 5 a 0, queríamos perder mais, queríamos nos espojar na derrota absoluta, sentíamos a doce nostalgia do aniquilamento. E aí, quem surgiu no estádio? O imponderável Sobrenatural de Almeida passou a dirigir o time como um técnico espectral, um fantasma trapaceiro. Dava até para ver que os alemães tiveram pena de nós, os anfitriões desmoralizados.

Até o Felipão fez autocrítica. Mas a autocrítica tem a imodéstia de um necrológio redigido pelo próprio defunto.

É isso. Sempre que vai estourar uma catástrofe, o ser humano cai num otimismo obtuso, pétreo, córneo. E perde.

Agora estamos com uma angústia épica, como uma víbora crispada dentro de nós.

E depois de perdermos para a Holanda por 3 a 0, vimos que não houve derrota - como haver derrota se não tínhamos time? O povo viu no fracasso a confirmação de sua sina de vira-latas e desceu as rampas arrastando os chinelos, como em 1950.

Agora, eis o nosso dilema: ou o Brasil ou o caos. O diabo é que temos a vocação do caos. O Brasil precisa ser feito e nós não o fazemos. O mal da cultura brasileira é que nenhum intelectual sabe bater um escanteio.

Mas ninguém cresce sem sentir o gosto amargo da vergonha. Sempre fomos condenados à esperança, ansiando por uma redenção pelo futebol; mas pode ser que agora a gente vá assumir a própria miséria, a própria lepra, e isso será nossa salvação.

É isso aí, amigos, e só.

Brasília-DF - Denise Rothenburg

- Correio Braziliense

O pós-Copa na tevê
Certos de que a presidente Dilma Rousseff levará o lado bom da Copa para a campanha eleitoral na tevê, a oposição prepara a zaga. Primeiro dirá que o sucesso se deveu à iniciativa privada e à alegria do povo brasileiro. O que dependeu do governo, dizem os oposicionistas, ficou pela metade.
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Nesse quesito, a ordem é mostrar que as obras prometidas pela presidente em 2010 terminaram abandonadas ou incompletas, leia-se a transposição do São Francisco, o trem-bala. Imagens da presidente dizendo que o trem-bala e outros projetos estariam prontos antes do Mundial vêm sendo arquivadas como uma jogada tática a ser usada se necessário.

Última chance
O foco do ministro Ricardo Berzoini (Relações Institucionais) essa semana será a aprovação dos novos diretores da Aneel. A agência vai parar se os indicados não forem nomeados até o fim de julho. Ou seja, está do jeito que a turma do toma lá, da cá adora.

Ah, se fosse Lula...
A ala do "Volta, Lula" não se conforma com o semblante da presidente-candidata Dilma Rousseff na hora da entrega da taça ao capitão da seleção alemã, Philipp Lahm. Essa turma acha que ela perdeu uma bela imagem para exibir na campanha, de forma a separar o sucesso da Copa do desempenho da Seleção Brasileira. É nesse clima dividido que o partido de Dilma entra na campanha.

... Ainda bem que não é
Os oposicionistas, entretanto, gostaram. Acham que agora têm mais um motivo para dizer que o funcionou na Copa foi a alegria do torcedor, da qual a presidente não participou.

O motivo é dinheiro
Os congressistas não estão com a menor vontade de votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias. Sem campanha na tevê e sem dinheiro para colocar uma grande estrutura eleitoral nas ruas desde já, a maioria prefere ter a desculpa de que os afazeres do Congresso lhe impedem de estar no corpo a corpo com o eleitor. Além disso, a campanha, ops, o pronunciamento na TV Senado faz parte do mandato.

E vem mais CPI
Parte dos oposicionistas, entretanto, aproveitará esse período para ver se consegue algum avanço na CPI da Petrobras. Mas o que promete ganhar fôlego no embalo da Copa é a CPI da CBF. "O governo não quer modificar o futebol? Então aí está a oportunidade", diz Randolfe Rodrigues (PSol-AP).

Sem sossego/ O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, só saiu do centro de controle de segurança da Copa, no Rio, no fim da noite de domingo. Agora, está às voltas com nova perspectiva de manifestações de rua. Desta vez em Fortaleza, sede da cúpula dos Brics.

Vai mudar/ A flexibilização provisória do horário de A Voz do Brasil que funcionou no período da Copa entra em pauta no Senado amanhã e o relator do projeto, senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), sugere que essa possibilidade de veiculação em horário alternativo seja permanente. Assim, todas as rádios do país, exceto as educativas, poderão escolher o horário de exibição entre as 19h e as 22h.

Raça nova/ Nas escolas, todos aprendem que existem três raças: branca, negra e amarela. Mas, as excelências declararam mais uma à Justiça Eleitoral: "Parda". Estão nessa Gilvan Borges (PMDB-AP), Jayme Campos (DEM-MT) e outros.

Menino prodígio?/ Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador do Rio Sérgio Cabral, não tem muito o que reclamar da vida. Aos 23 anos, o jovem candidato a deputado federal declarou à Justiça Eleitoral que sua ocupação principal é "estudante, bolsista, estagiário e assemelhados". Em seus bens constam quase R$ 200 mil em depósitos bancários. Eita estágio bom!!!!

Painel - Bernardo Mello Franco (interino)

- Folha de S. Paulo

Vai ou racha
Aliados de Eduardo Campos (PSB) tratam os próximos 30 dias como um período decisivo para suas pretensões presidenciais. A avaliação é que o pernambucano, hoje com 9% das intenções de voto, precisa suar a camisa e chegar ao patamar dos 15% até o início do horário eleitoral. Se continuar abaixo disso, dificilmente será visto como alternativa viável à polarização PT x PSDB. O discurso oficial da campanha é que não há pressa para crescer até a estreia na TV, em 19 de agosto.

Bacanal Recém-convertido ao socialismo, Paulo Bornhausen (PSB-SC) diz, em vídeo divulgado na rede, que o lançamento de sua campanha ao Senado será "abrilhantado" pelo tucano Aécio Neves, rival de Campos.

É crédito? O comitê de Campos e Marina Silva estuda levar tablets para os jantares de arrecadação. A ideia é que, além de pagar pelo convite, os convidados possam fazer doações eletrônicas à mesa.

Monólogo Em seu primeiro dia no Twitter, Aécio reeditou o mote "vamos conversar", mas não respondeu a perguntas nem passou a seguir outros internautas.

Chapa branca Em campanha à reeleição, o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) tem ido a atos oficiais com a equipe de TV de seu futuro programa eleitoral.

De novo? A ministra Marta Suplicy (Cultura) não acompanhará Alexandre Padilha (PT) na caminhada de largada de sua campanha, na sexta-feira. Aliados dizem que ela tinha viagem marcada.

Quem bate cartão Após almoçar com Lula na sexta-feira, Padilha sinalizou novo tom contra Paulo Skaf (PMDB). Sem citá-lo nominalmente, disse que "trabalhador não vota em patrão".

Besouro Tiririca (PR-SP) declarou ser dono de um Fusca 1972. O deputado é palhaço, mas não é bobo: também pilota um Land Rover 2013.

Cartola FC A presidente Dilma Rousseff aceitou sugestão do ministro Aldo Rebelo (Esporte) e deve receber na semana que vem, em Brasília, cerca de dez presidentes de clubes de futebol.

Braçadeira No balanço governista da Copa, Aloizio Mercadante (Casa Civil) se comportou como capitão do time, dando ordens aos demais ministros: "Quando vocês forem falar, não precisam cumprimentar todo mundo".

Drible da vaca Pressionado a falar da atuação da CBF, o petista mudou de tom e tentou passar a bola adiante. "Essa é pro Aldo. Cadê o Aldo?", perguntou a assessores. O ministro havia saído.

Sobrou bandeira O governo contabilizou 236 manifestações no país durante a Copa, com 51 mil participantes e 335 presos. Setores de inteligência haviam detectado convocações para 608 protestos --mais que o dobro.

Meia-volta... A Polícia Federal impediu que 371 estrangeiros entrassem no país durante o Mundial. Entre eles, 87 eram argentinos --a maioria identificada como torcedores violentos.

... volver Também foram barrados 47 nigerianos e 67 americanos, a maior parte por irregularidades na obtenção do visto brasileiro.

Sombra Os ex-agentes da ditadura militar que serão convocados pela Comissão Nacional da Verdade nesta semana terão a opção de depor em caráter reservado, caso não queiram aparecer.

Visita à Folha Antônio C. Quintella, presidente da Peninsula Investimentos, e Heitor Sant'anna Martins, sócio-diretor da McKinsey & Company, visitaram ontem a Folha.

Tiroteio
"O medo da vaia transformou a entrega da taça numa prova de revezamento: Dilma passou o bastão em tempo recorde."
DO DEPUTADO ANTONIO IMBASSAHY (PSDB-BA), líder da sigla na Câmara, sobre a entrega da Copa por Dilma Rousseff ao capitão alemão, Philipp Lahm.

Contraponto
O poeta do Planalto

Em sua batalha frustrada para alterar o slogan da campanha de Dilma Rousseff, o ex-ministro Franklin Martins tentou até o fim convencê-la de que "Muda Mais'' era melhor que "Mais Mudanças, Mais Futuro''. Presente à reunião, João Santana explicou o motivo da escolha do mote com uma "aula'' de semiótica, defendendo que a palavra "mais" tinha de ser colocada à frente. Dilma ficou surpresa com a sofisticação da explanação e brincou:

--João, você é mesmo um poeta!

O slogan escolhido foi "Mais Mudanças, Mais Futuro", como queria o marqueteiro.

Diário do Poder – Cláudio Humberto

- Jornal do Commercio (PE)

• Lentíssima, CPMI da Petrobras é só embromação
A CPI Mista da Petrobras nem se dá ao trabalho de fingir que funciona. Acumula 395 requerimentos sem votar porque os parlamentares não comparecem e, controlada pelo governo, a CPMI nem sequer quebrou sigilos de um dos principais acusados no esquema de corrupção: Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, preso pela Polícia Federal na Operação Lava Jato. Tem outra sessão marcada para esta quarta (16).

• Quadrilha impune
A CPMI foi instalada para investigar o que a Polícia Federal chamou de “quadrilha instalada na Petrobras” para a prática da corrupção.

• Superfaturamento
Além do superfaturamento na refinaria de Pasadena (EUA), a CPMI deveria investigar corrupção na obra da refinaria de Abreu e Lima (PE).

• Cordeiros
O Planalto controla a CPMI por meio do senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), o presidente, e do deputado Marco Maia (PT-RS), o relator.

• Inservíveis
Instalada em 28 de maio, a CPMI só ouviu os depoimentos inócuos de Sergio Gabrielli e Graça Foster, ex e atual presidente da Petrobras.

• Deputados continuam sob ‘folga remunerada’
Após a vagabundagem das semanas anteriores, a pretexto da Copa do Mundo, quando as sessões deliberativas chegaram a ser formalmente canceladas, a Câmara dos Deputados seguiu a folga remunerada ontem, quando apenas 21 dos 513 deputados deram as caras no trabalho. E olhe que havia convocação do presidente da Casa, Henrique Alves, para votar projeto de resolução destinado a derrubar o decreto presidencial que criou os chamados “conselhos populares”.

• Ressaca?
Registrou-se ontem a presença de menos de 10% do mínimo de 257 deputados federais necessários para se abrir uma sessão deliberativa.

• MP pendurada
Os deputados federais também estão devendo a votação da medida provisória 641, que altera regras de comercialização de energia.

• Lá vem o recesso
Após enforcar o mês da Copa, o Congresso entra em recesso na sexta (18), a menos que não votem a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

• FPM maior
O presidente da Câmara, Henrique Alves, quer colocar votação nesta quarta (16) o aumento em 2% do repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Cortesia com chapéu alheio em ano eleitoral.

• Coisa de amigos
Prefeitos andam irritados com Dilma, que renovou a isenção do IPI para carros, em mais uma ajuda o setor que financia campanhas do PT. O IPI alimenta boa parte do Fundo de Participação dos Municípios.

• Silêncio conivente
Paulo André, ex-Corinthians, que ainda joga porque se mudou para a China, voltou a atacar a CBF, federações e clubes de futebol. Mas faz conveniente silêncio sobre a decisão do governo de retirar a prática esportiva do currículo das escolas, sufocando sonhos e vocações.

• Traqueotomia na pista
Lula convocou os prefeitos do PT paulista para acompanhá-lo em caminhada, nesta sexta (18), para tentar reanimar a nocauteada candidatura de Alexandre Padilha (PT) ao governo de São Paulo.

• Adicional
O Senado promete votar quarta (16) a proposta que prevê adicional de tempo de serviço para magistrados e integrantes do Ministério Público, elevando-lhes os salário em até 35%. Chegariam a R$ 40 mil.

• Besteirol
Dentre as alegações mais preconceituosas, sobre os estádios da Copa no Brasil, é a de que em cinco estados não há jogos da Série A do Campeonato Brasileiro. O Santa Cruz, do Recife, bateu recorde de público quando disputava a Série D, e o Fortaleza na Série C, em 2013.

• Acordo
O senador Eunício Oliveira (PMDB) se convenceu de que a presidenta Dilma e o antecessor Lula não vão pôr os pés nas eleições no Ceará, onde o peemedebista enfrentará Camilo Santana (PT) ao governo.

• Outros tempos
O presidente do PPS, Roberto Freire (SP), garante que não “há essa relação umbilical” entre o tucano José Serra e Gilberto Kassab (PSD): “Houve um afastamento depois que o Kassab se juntou a Dilma”.

• Governo camarada
Isentada de IPI, a indústria automobilística continua dispensada de melhorar suas carroças e reduzir preços para aumentar as vendas.

Panorama político – Ilimar Franco

- O Globo

Crise no financiamento
Os candidatos para o parlamento estão em pânico. São escassos os recursos para dar a largada nas campanhas. A maioria das empresas está segurando as doações. Elas temem que o STF torne ilegal contribuições de pessoas jurídicas. O julgamento está 6 x 1 pela proibição. Faltam quatro ministros votar. A medida só não foi adotada ainda porque o ministro Gilmar Mendes segurou o processo.

O STF ocupa o lugar do Congresso
A reforma política é uma necessidade e todos os partidos defendem realizá-la. Desde a eleição de Fernando Collor, em 1989, o governo depende de alianças para ter maioria. O mesmo ocorre com a reforma. Nada anda porque nenhuma proposta tem maioria para ser aprovada na Câmara. Nesse vácuo, os ministros do STF, que não são eleitos pelo voto, adotaram o atalho de reinterpretar a lei e a Constituição. Aprovada a proibição pelo Supremo, não restará aos partidos outra proposta que não seja o financiamento público, proposta que é defendida pelo partido do governo, o PT. Em 2010, 71,7% das doações foram feitas por empresas. No caso do PT, 83%; e, do PSDB, 68%.

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“A campanha é irracional. Em 80 dias, vou visitar 120 municípios. Temos que adotar o voto distrital ou a lista fechada. O pior dos mundos é o modelo atual”
Marcus Pestana, deputado federal e presidente do PSDB de Minas
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Ocupando espaço
Os tucanos criticam a tentativa do governo Dilma de se apropriar eleitoralmente da Copa. Na Esplanada, o que incomoda é a atuação do ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) para assumir o protagonismo da ação do Executivo.

O que fazer?
Irritação grande no PT do Rio e do candidato ao governo Linbergh Farias. Surpresa com as desconcertantes declarações do candidato ao Senado da chapa, Romário. O aliado defende que o PT tem que deixar o poder. O mal-estar tomou conta do partido. Os dirigentes regionais do PT aguardam o presidente Rui Falcão para reagir.

Meia-sola
Os petistas se deram mal no Espírito Santo. Eles desistiram do governador Renato Casagrande (PSB) e foram abandonados por Paulo Hartung (PMDB). O ponto de apoio da presidente Dilma será o candidato ao Senado João Coser (PT).

Nos bastidores
Sobre eventuais divergências entre João Santana e Franklin Martins, um ministro comentou: “Eles têm gênios fortes e, às vezes, veem as coisas de forma diferente. Mas é a presidente quem decide”. Depois, ele ironiza dizendo que, se eles pensassem igual, não seria preciso contratar os dois. Seria mais barato ficar apenas com um deles.

Improviso
O senador Vital de Rêgo (PMDB), candidato a governador (PB), está no escuro. Todas as pesquisas para enfrentar o governador Ricardo Coutinho (PSB) foram feitas com seu irmão, Veneziano. Vital virou candidato na reta final.

Tocando flauta
O ministro Guido Mantega (Fazenda) assistiu ao jogo do Brasil, no último sábado, no camarote da Fifa. Sua expressão foi de perplexidade com a derrota. Por isso, um holandês, que também estava lá, aproximou-se e pediu desculpas.

ESVAZIADO. O Congresso não deve votar hoje. A presidente Dilma convidou alguns líderes para almoçar hoje, com os Brics, em Fortaleza (CE).

Maria Rita - A Festa

Pablo Neruda: O Pai

Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage