quinta-feira, 10 de julho de 2025

As eleições do PT - Emanuel Freitas da Silva*

O Povo (CE)

No Brasil, esse é o quadro partidário geral. Muitos presidentes, caciques, acordos tudo a portas fechadas, ou dentro do núcleo diretor. Quem detém poder eleitoral tende a dar as cartas no interior do partido

Partidos políticos existem, em tese, para canalizar, expressar e representar interesses da sociedade. Classes sociais, categorias profissionais, agendas políticas, ideologias (com seus valores e crenças), projetos futuros de sociedade essas são algumas das clivagens das quais os partidos visariam ser expressão. Partidos são, antes de tudo, partes da sociedade, em condições de democracia.

Na Ciência Política, contudo, há um considerável número de produções que dão conta de elementos internos da vida partidária que vão de encontro ao que seriam elementos democráticos necessários para seu desenvolvimento. Uma dessas produções é Sociologia dos Partidos Políticos, de Robert Michels, publicada em 1911. Nela está enunciada a famosa tese da oligarquização dos partidos, que pode ser assim enunciada:

Lula não é um Trump com os sinais trocados - Regina Ribeiro*

O Povo (CE)

É importante que se diga que, mesmo que Lula esteja equivocado em muitas coisas, ele não é um iliberal que atenta contra as instituições e que despreza os ritos democráticos

Desde que o presidente Trump assumiu o poder nos Estados Unidos, o bolsonarismo se alimenta da expectativa de ter ganho um aliado forte na esperança de livrar Jair Bolsonaro de responder pelos seus atos, todos comprovados, contra a democracia brasileira.

O líder estadunidense, que não está nem aí para democracia nenhuma, nem no País dele nem em lugar algum, decidiu se pronunciar na última segunda-feira no seu característico, além de ameaçar os países que se alinharem com os Brics com mais taxas, novo instrumento de pressão usado pelo iliberal Trump no mercado internacional.

Poesia | MINHA TERRA, de Ascenso Ferreira por Chico Anysio

 

Música | De Sampa a São Luis - Jorge Aragão

 

quarta-feira, 9 de julho de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Taxação dos ultrarricos é debate internacional

Correio Braziliense

Requer atenção a proposta apresentada por sete ganhadores do Nobel de Economia, que defendem "uma taxa mínima de 2% sobre a fortuna dos bilionários" em todo o globo

A mais recente divergência entre os poderes Executivo e Legislativo no Brasil tem como principal pano de fundo a busca por justiça tributária. Enquanto o governo procura diminuir desigualdades, a partir de medidas como o aumento do IOF e a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil, a maioria do Congresso defende corte de gastos sem aumento de tributos, a chamada austeridade, como alternativa para equilibrar essa balança. Não se trata de embate apenas brasileiro.

Dados do Relatório Mundial sobre Desigualdade, publicado em 2022, indicam a necessidade de uma discussão internacional sobre a distribuição de renda. O levantamento mostra que apenas 10% da população global concentra 52% da renda dos países. "Em média, um indivíduo dos 10% mais ricos da distribuição de renda global ganha 87.200 euros (cerca de R$ 560 mil) por ano, enquanto um indivíduo da metade mais pobre da distribuição de renda global ganha 2.800 euros (cerca de R$ 18 mil) por ano", ressalta a publicação. 

O ataque de Trump à grandeza americana - Martin Wolf

Valor Econômico / Financial Times

Em seis meses, o presidente dos EUA fez grandes avanços na implementação de uma agenda contra tudo o que tornou o país bem-sucedido

Às vezes é preciso olhar para o quadro geral. Em 4 de julho de 2026, os EUA celebrarão seu 250º ano de independência. A própria declaração de independência afirmava que: "Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade." Essas ideias foram realizadas de forma imperfeita. Uma guerra civil e o movimento pelos direitos civis ainda estavam por vir. No entanto, o nascimento dos Estados Unidos da América seria um momento extremamente significativo.

Os EUA tinham o potencial de se tornar a primeira república verdadeiramente poderosa desde a romana, que pereceu na batalha de Ácio em 31 a.C. Sem o poder dos EUA, uma ditadura alemã ou russa certamente teria conquistado a Europa. Sem o exemplo dos EUA, o capitalismo democrático não teria se espalhado pelo mundo. Este seria um mundo muito mais pobre, assolado por todos os males do despotismo.

Tebet defende 'mexer no andar de cima'

Por Guilherme Pimenta, Caetano Tonet, Ruan Amorim e 

Lu Aiko Otta / Valor Econômico

Em audiência no Congresso, ministra do Planejamento endossa discurso do governo por "justiça social"

A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, afirmou na terça-feira (8) que é preciso rever gastos tributários e “mexer no andar de cima”. Esta foi a primeira vez que ela endossou, publicamente, o discurso do governo por “justiça social” desde o imbróglio causado pelas mudanças no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).

Ao se pronunciar sobre o assunto, durante audiência pública na Comissão Mista de Orçamento (CMO) para falar da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), Tebet citou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e disse que era preciso “colocar uma lupa” e ter “ honestidade intelectual” para reconhecer que “nós já mexemos muito com o andar de baixo”.

Vizinhos de olho em portos do Nordeste - Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Questão do IOF precisa ser resolvida antes do dia 15, quando STF promove audiência de conciliação

A perspectiva de assinatura, no final deste ano, do acordo Mercosul-União Europeia fez chegar ao gabinete da ministra do Planejamento, Simone Tebet, a preocupação de países vizinhos como Chile, Peru, Colômbia, Paraguai e Bolívia em estabelecer um caminho logístico até os portos do Nordeste brasileiro, geograficamente mais próximos do velho continente.

A ministra lidera o programa Rotas de Integração Sul-Americana, iniciado em 2023, a partir da constatação que o agronegócio se expande para o Oeste do país. O objetivo original do programa é interligar as áreas produtoras do país aos portos do Pacífico, de onde o trajeto até o principal mercado consumidor, a China, é mais curto. São cinco rotas que buscam viabilizar o acesso do Brasil aos portos de Chile e Peru, entre outros.

Inquéritos sobre emendas seguem o rastro do dinheiro – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

PF apura desvios de verbas destinadas a prefeituras, em inquéritos a cargo dos ministros do STF Flávio Dino, Carmen Lúcia, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Luiz Fux e Nunes Marques

A 316km de Fortaleza, a cidade de Nova Russas tem 102 anos e nunca viu tanto dinheiro como agora. Com 742 km² e 30 mil habitantes, no Sertão de Crateús, semiárido nordestino, com um PIB de R$ 118 milhões anuais, ao sopé da Chapada do Ibiapaba, é um “case” de como funcionam os esquemas de desvios de verbas das emendas parlamentares. Às margens dos rios Acaraú, Poti e Curtume, terras que já pertenceram aos tabajaras, caratiú e os temidos tupinambás, a cidade é o principal alvo da Operação Underhand (Desonesto), da Polícia Federal.

Sob autorização do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, a PF cumpriu 15 mandados de busca e apreensão em Brasília e em outras quatro cidades do Ceará: Fortaleza, Eusébio, Canindé e Baixio, além de Nova Russas. O alvo principal é o deputado federal Júnior Mano (PSB-CE), suspeito de atuar como cabeça de uma organização criminosa que desviava emendas parlamentares e manipulava eleições municipais em até 51 cidades cearenses.

Vergonha oficializada - Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

São 2,2 milhões de palestinos submetidos a uma punição coletiva cruel e degradante, uma vingança desmedida conta o massacre dantesco de 7 de outubro de 2023

Primeiro, você destrói prédios, casas, infraestrutura. Torna inabitável cidades inteiras. Força o deslocamento massivo das pessoas reiteradas vezes. Ataca hospitais e ambulâncias. Bloqueia o acesso à ajuda humanitária e usa drones e tanques de guerra para disparar contra civis indefesos e famintos, que clamam por comida. Depois, anuncia a criação de uma "cidade humanitária" para abrigar 600 mil pessoas, que serão revistadas na entrada e impedidas de sair. Enquanto isso, você e um grande amigo telefonam para conhecidos de outros países e os sondam sobre a possibilidade de receberem a população de um território habitado há décadas por ela.

É preciso "dar nome aos bois". O que está colocado aqui em cima é exemplo de diáspora forçada, crime contra a humanidade, limpeza étnica, segundo especialistas. São 2,2 milhões de palestinos submetidos a uma punição coletiva cruel e degradante, uma vingança desmedida conta o massacre dantesco de 7 de outubro de 2023. Diga-se de passagem: horrível, torpe e totalmente injustificável. Tudo isso acontece com a cumplicidade e anuência de um amigo poderoso ante o silêncio do restante do mundo. 

A tradução do ‘nós contra eles’ - Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

O governo Lula e o PT lançam hoje a segunda fase da campanha sobre a reforma da renda, desta vez para fazer a ligação direta entre o discurso de combate aos privilégios e a vida real. A primeira etapa jogou os holofotes sobre o conceito de justiça tributária, na esteira do decreto que aumentava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), rejeitado pelo Congresso. Agora, vídeos que serão postados nas redes sociais vão investir em comparações.

A pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PT vai tentar reduzir o ruído provocado pela estratégia do “nós contra eles”. Um dos vídeos mostra que o custo do programa Bolsa Família, no Orçamento de 2025, é de R$ 158 bilhões. “É o mesmo valor que o governo dá de isenção tributária para os mil maiores produtores rurais”, afirmou o publicitário Otávio Antunes, que faz a campanha do PT. “Mas não se trata de um enfrentamento com o Congresso nem de ‘nós contra eles’. A não ser que o ‘nós contra eles’ seja 99% contra 1%.”

Tarcísio pede a bola - Vera Magalhães

O Globo

Governador de São Paulo vem dando demonstrações ostensivas, algumas até arriscadas, como o aplauso a Trump, de que está empenhado em receber a unção de Bolsonaro como candidato

A pressão intensa dos partidos do Centrão, do empresariado e do mercado financeiro parece ter surtido efeito junto a Tarcísio de Freitas: o governador de São Paulo vem dando demonstrações cada vez mais incisivas, por isso mesmo arriscadas, de que está pronto para receber a indicação de Jair Bolsonaro como seu candidato a presidente no ano que vem. Parece disposto até a arcar com os ônus dessa exposição prematura.

Ao reproduzir e endossar a fala de Donald Trump segundo a qual Bolsonaro é vítima de perseguição política e a Justiça brasileira não é legítima para julgar o ex-presidente, que deveria ser avaliado pelos eleitores, Tarcísio deixa de lado a cautela com que costumou navegar nos mares turbulentos da relação entre seu padrinho político e o Supremo Tribunal Federal para mergulhar de cabeça no puro suco do bolsonarismo-raiz. O governador do estado mais rico e mais populoso do país toma lado numa disputa que tem muitas camadas: política, diplomática, jurídica e até comercial.

De Pedro II@edu para Lula@gov – Elio Gaspari

O Globo

Ignore e Trump, eu engoli um sapo muito maior

Estimado presidente, a última vez que escrevi a vosmecê, em fevereiro, disse-lhe que as reformas ministeriais são um pesadelo inútil. Foi o que sucedeu com a sua. Escrevo-lhe agora porque almocei ontem com meus confrades republicanos, e veio à mesa a fala do presidente Trump defendendo o capitão Bolsonaro. Coisa rara, concordamos em que, na sua primeira fala, vosmecê fez muito bem ao dizer que tem assuntos mais importantes a tratar. (O Figueiredo ficou calado porque seu neto Paulo está metido com o Trump.)

Getúlio Vargas e Ernesto Geisel falaram dos sapos que engoliram lidando com presidentes americanos. O Getúlio reconheceu que o Franklin Roosevelt estava certo ao querer que o Brasil declarasse guerra aos alemães. Afinal, no início de 1939, antes que começasse a Segunda Guerra Mundial, os americanos olhavam para o Saliente Nordestino, essencial para que suas tropas atravessassem o Oceano Atlântico. O Geisel disse que só deu o troco ao Jimmy Carter depois que ambos haviam deixado o governo. Negou-se a recebê-lo e não atendeu o telefone quando ele ligou.

Presente de gringo - Bernardo Mello Franco

O Globo

Republicano presenteou petista com bandeira de defesa da soberania nacional

Desde que Donald Trump se elegeu, Jair Bolsonaro estava ansioso. O capitão sempre acreditou que só poderia escapar da cadeia com ajuda dos Estados Unidos. Em apuros no Brasil, clamava por uma boia lançada pela Casa Branca.

Depois de meses de expectativa, o republicano finalmente falou —ou melhor, tuitou. Trump descreveu Bolsonaro como vítima inocente de uma “caça às bruxas”. Acrescentou que ele não seria culpado de nada, exceto de ter “lutado pelo povo”.

O capitão ficou eufórico, mas alguém precisa avisá-lo que a declaração não deve surtir muito efeito fora da bolha da extrema direita. Bolsonaro é réu por tentativa de golpe e se complicou ainda mais ao ser interrogado no Supremo. Os ministros não varrerão as provas para baixo do tapete para agradar Trump.

Por que o liberalismo não é popular? - Deirdre Nansen McCloskey

Folha de S. Paulo

Argumentos estatísticos, socio-científicos e econômicos não convencem a maioria das pessoas

Por que nem todo mundo é um "liberal essencial", como eu? Acabei de passar meia hora produtiva conversando com um colega brilhante do Cato Institute, refletindo sobre o triste fato de que a maioria das pessoas é socialista, fascista, racista, protecionista ou liberal "social", imune ao que, para nós dois, parece ser a verdade óbvia do liberalismo essencial.

Falamos sobre imigração. É um tema quente hoje nos EUA, e o principal apelo de Trump —que quer impedir a "invasão" de pessoas negras e pardas. Meu colega apontou que muitos conservadores defensores do livre mercado reagem muito mal à previsão de que a crescente diversidade da população norte-americana produzirá maiorias do Partido Democrata no futuro. Os conservadores estão muito dispostos a abandonar seus fracos compromissos com o livre comércio de capital, bens e trabalho quando imaginam os negros e pardos votando.

O desmonte de uma democracia ao vivo – Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Essa forma de desmonte ocorre por dentro do sistema, usando métodos legais e a fachada de legitimidade eleitoral

Se Levitsky e Ziblatt ajudaram a popularizar a ideia de que democracias morrem devagar, em seu livro "Como as Democracias Morrem", a pesquisa mais recente aprofundou os mecanismos desse processo: repressão seletiva, captura institucional e legitimação permanente. E é cada vez mais claro que o trumpismo não foi um acidente, mas um laboratório global do que vem sendo chamado de erosão democrática ou autocratização progressiva.

Fala-se em deterioração porque se trata de um declínio incremental, sem ruptura formal. Inclui, entre outras ações, retóricas de deslegitimação de elites específicas e da democracia liberal. Autocratização, por sua vez, ocorre quando se combinam três dimensões: repressão seletiva contra adversários, captura de instituições e construção de narrativas que justifiquem medidas autoritárias.

Ruim com ele, pior sem ele - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Campanha de difamação do Congresso, mesmo defeituoso, resulta em estímulo à antipolítica

O Congresso não anda fazendo um bom serviço aos olhos da população, sabemos disso. Recente pesquisa do Datafolha aponta que quase 60% dos brasileiros sentem vergonha da conduta de deputados federais e senadores.

O mesmo estudo mostra que a Presidência da República e o Supremo Tribunal Federal estão em situação parecida. O STF é visto com desdouro por 58% dos pesquisados e 56% não veem motivo para se orgulhar do desempenho do presidente.

Estão, portanto, todos navegando em barco que requer uma correção de rumos. Evidência da qual decorre que talvez não seja aconselhável e muito menos adequada a ideia do governo de tentar recuperar a popularidade de Lula (PT) jogando a culpa dos males da nação nas costas de um Parlamento inimigo dos pobres.

Lula x Trump, ou o roto e o esfarrapado - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Presidentes deveriam evitar meter-se em assuntos internos de nações amigas e razoavelmente democráticas

O mais recente embate entre Lula e Trump tem algo de o roto falando do esfarrapado. O presidente brasileiro queixou-se, com razão, da defesa que o americano fez de Jair Bolsonaro –uma interferência indevida em assuntos políticos e judiciais de nação amiga. O problema é que o petista é contumaz em também meter-se em questões internas de outros países.

Na semana passada, ele visitou a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, que cumpre pena de prisão domiciliar por corrupção, e pediu sua libertação, ignorando que foi uma decisão "soberana" da Justiça platina que a colocou em cana.

O Simplesmente isto: é preciso enfrentar o adversário - Roberto Amaral*

“Há uma luta de classes, sim. Mas é a minha classe, a classe rica, que está fazendo a guerra, e estamos ganhando". ⁠
— Warren Buffett, magnata estadunidense.

O governo Lula, quase tardiamente, ensaia algo que pode sugerir o início de uma reforma fiscal, cutucando os superlucros dos super-ricos. São o 1% que nos governa — na democracia e nas ditaduras, nos governos de direita e nos governos de centro-esquerda. É o grande capital, que controla a vida econômica e, por consequência, a vida política, nela incluídos os espaços do poder republicano.

Embora tímida, a proposta do governo pôs em pé de guerra a Faria Lima e suas adjacências — a saber, o Congresso e a grande imprensa (aparelho ideológico da classe dominante), os dois territórios privilegiados onde atuam seus agentes e procuradores.

À margem dos poderes clássicos da República, a política econômico-financeira do país foi posta sob o controle de burocratas onipotentes, nada obstante despojados de delegação da soberania popular; abrigam-se sob o teto largo e alto do Banco Central — a um tempo santuário e bunker do rentismo que asfixia a economia nacional.

O Supremo Tribunal Federal e o IOF - Martônio Mont'Alverne*

O Povo (CE)

O assunto caiu na opinião pública, que parece já ter compreendido a arapuca armada no Congresso. O STF está na ordem do dia para não permitir que a política sem limites viole a Constituição

Toda questão de controle da constitucionalidade é questão de poder constituinte. Trata-se de saber se quem legisla ultrapassou o limite estabelecido pelo constituinte. Assim, é inexorável, nestes casos, a presença do elemento do político para qualquer tribunal constitucional. Porém, do político devidamente regulado pelo poder constituinte, não do convencimento pessoal de quem julga. Juízes não são neutros, como ninguém o é. Mas têm a obrigação de serem imparciais perante a ordem constitucional democrática, imposta pela democracia de um poder constituinte, como o brasileiro de 1987/88.

"Jabutis" em acordos internacionais - Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

O instinto de repórter emerge curioso, vez por outra,  sobretudo  quando se propaga que o o Presidente do Brasil  vai viajar para o exterior com a finalidade de  assinar  acordos de cooperação internacionais  . Lula, em particular, realizou 139 viagens  a 80 países nos dois primeiros mandatos, e 33 na sua terceira Presidência. Para justificar os supostos excessos,  o Itamarati tenta explicar  , genericamente , que se tratam de acordos nos  campos da ciência, do meio ambiente, da  energia, dos transportes, da infraestrutura, da aviação, e outros. 

Cabe ao jornalista  "ligar  pontos  visíveis com tramas imaginárias", segundo ensina Vinicius Mota, secretário de redação do jornal Folha de São Paulo. Aquela semântica inocente pode estar escondendo   "jabutis", ou seja, compromissos, cujos conteúdos   são de  conhecimento  de poucos, senão  dos autores e interessados. O cenário da vez  -  dilema do IOF, o escândalo do INSS, ou as tarifas de Trump -   encarrega-se de desviar as atenções, respaldadas no desconhecimento público dos  "instrumentos"  que lhes dão legitimidade, consagrados na política e no direito  internacional : Cartas, Acordos, Ajustes, Declarações, Protocolos, Tratados, Convenções,  Compromissos, Manifestações de Interesse. 

Poesia | Perguntas de um operário que lê, de Bertold Brecht

 

Música | Nove de Frevereiro - Ocupação - Antonio Nóbrega

 

terça-feira, 8 de julho de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Reforma do IR aproxima Brasil de ‘justiça tributária’

O Globo

Mesmo que não seja ideal, mudança enviada ao Congresso traria avanço bem maior que aumento do IOF

O governo federal se diz empenhado por “justiça tributária”. Petistas têm promovido campanha pelo aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), resgatando o discurso “ricos contra pobres”. Essa propaganda polarizadora nada traz de bom. Mas, se aumentar o IOF e rachar a sociedade é o modo errado de promover “justiça tributária”, isso não significa que os impostos brasileiros sejam justos. Não são. E o próprio governo, como O GLOBO afirmou em editorial de março, já encaminhou ao Congresso projeto que, apesar das limitações, avança ao corrigir injustiças — a reforma do Imposto de Renda (IR).

Melhora na popularidade vai manter aliados com Lula, diz o novo presidente do PT, Edinho Silva

Andrea Jubé e Isadora Peron / Valor Econômico

Alinhado ao ministro Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação, Edinho reconhece a crise de popularidade do governo, mas diz estar “confiante” de que a aprovação do presidente vai crescer no 2º semestre

Eleito com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o novo presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Edinho Silva, disse ao Valor, na primeira entrevista exclusiva após a divulgação do resultado da eleição petista, que, antes de tomar posse, vai procurar dirigentes e líderes partidários da base para deflagrar as conversas sobre os palanques para 2026 e tentar reeditar a frente ampla de 2022. “Temos que consolidar rapidamente um diagnóstico, Estado por Estado.”

Ele vai ser o responsável por coordenar a campanha de Lula à reeleição. Alinhado ao ministro Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação da Presidência, Edinho reconhece a crise de popularidade do governo, mas diz estar “confiante” de que a aprovação do presidente vai crescer já no segundo semestre. A se confirmar esse quadro, diz que a “perspectiva de vitória” vai conter a eventual debandada de aliados.

Conhecido pelo estilo conciliador, ele chega ao posto num clima de tensão política, em pleno confronto do governo com o Congresso, após a derrota imposta a Lula no episódio do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Ele rebateu críticas de que o PT estaria estimulando a divisão da sociedade.

“Achar que impõem uma derrota ao Lula e que isso não teria reação é muita ingenuidade, mas não significa que ele tenha aberto mão do diálogo.”

Próximo do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ele disse que o PT não terá uma postura passiva sobre a economia, mas “não vai trabalhar contra o governo”. Igualmente ligado ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, Edinho criticou os juros altos, mas defendeu o “voto de confiança” no chefe da política monetária.

Quatro vezes prefeito de Araraquara (SP) e ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom) de Dilma Rousseff, Edinho assume o PT após o mandato de oito anos de Gleisi Hoffmann, hoje ministra da articulação política, e de cinco meses do senador Humberto Costa (PE), que comandará a transição no cargo. A posse dele ocorrerá no início de agosto.

Representante da tendência hegemônica Construindo um Novo Brasil (CNB), Edinho também terá de pacificar o PT, que saiu rachado da eleição nacional. O principal embate interno ainda mira o controle da Secretaria de Finanças, hoje com Gleide Andrade, aliada de Gleisi.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Ajuste fiscal não precisa ser cruel nem abrupto - Pedro Cafardo

Valor Econômico

O congelamento do mínimo e o corte de gastos com o Bolsa Família e outros programas sociais dariam alívio imediato aos cofres da Previdência e às contas públicas, mas é cruel querer resolver o problema fiscal empurrando a conta do ajuste para idosos, deficientes e pobres

A batalha do IOF fez brotar nas redes sociais o que o presidente da Câmara, Hugo Motta, chamou de polarização social. Na definição governista, “ricos x pobres”.

Ao impor seguidas derrotas ao governo, entre elas a do IOF, a oposição, inclusive a interna, adotou a óbvia estratégia pré-eleitoral da extrema direita: ir sangrando Lula para que continue perdendo popularidade até o pleito de 2026.

Ao revidar com o “ricos x pobres”, duas palavras que políticos e analistas evitam usar, o governo escancarou sua contraestratégia: colocar a extrema direita na situação desconfortável de quem pretende tirar renda dos pobres e impedir a taxação das classes mais favorecidas da sociedade.

Na reunião do Brics, Lula reage à interferência indevida de Trump - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Somos um país do Ocidente, porém, com a globalização, nossa vocação natural de produtor de commodities de minérios e alimentos fez da China nosso principal parceiro comercial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu, ontem, a declaração feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em prol do ex-presidente Jair Bolsonaro. O petista disse que “a defesa da democracia no Brasil é um tema que compete aos brasileiros. Somos um país soberano. Não aceitamos interferência ou tutela de quem quer que seja. Possuímos instituições sólidas e independentes. Ninguém está acima da lei. Sobretudo, os que atentam contra a liberdade e o Estado de Direito”.

Trump havia publicado um texto em defesa de Bolsonaro no final da manhã. Segundo ele, o ex-presidente brasileiro e seus parentes sofrem uma “caça às bruxas”. Para o norte-americano, ele “não é culpado de nada”. Disse: “O único julgamento que deveria estar acontecendo é o julgamento pelos eleitores do Brasil – chama-se eleição. Deixem o Bolsonaro em paz!”. De pronto, o ex-chefe do Executivo agradeceu o apoio.

Brics escancara ambiguidades globais - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Declaração final não esconde divergências no bloco, que é mais autoritário do que antiocidental

O mundo é um lugar ambíguo e uma boa prova disso vem de organizações multilaterais como o Brics, que não escondem os interesses conflitantes daqueles que pretendem formar um grupo coeso.

O Brics surgiu em 2001 como acrônimo dos países emergentes em que investidores deveriam ficar de olho; Brasil, Rússia, Índia e China (a África do Sul, o S, entrou depois). Mas os países mencionados gostaram da ideia de formar um bloco que se orientaria por interesses econômicos comuns e o formalizaram.

As divergências logo surgiram e se agravaram. A China se tornou superpotência em atrito com os EUA. É a Guerra Fria 2.0. Por seu peso gravitacional, Pequim é quem mais influencia o clube.

Tarcísio vai se Lula estiver mal – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Decisão do governador de disputar o Planalto depende de como o presidente chegará a 2026

Tarcísio de Freitas (Republicanos) não desmente nem confirma candidatura à Presidência da República quando a conversa entre aliados envereda por aí. Deixa a hipótese no ar. Não estimula nem desestimula, enquanto em público nacionaliza o discurso.

Deu um tempo nas cortesias administrativas, passou a criticar o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) e incorporou o desafio ao Sul Global em suas falas.

O governador ultrapassa as fronteiras de São Paulo quando fala de segurança pública referindo-se à necessidade de reestruturação das Forças Armadas, na economia diz que conhece a solução para o equilíbrio fiscal do país e na política anuncia frente de direita para 2026.

PSDB perdeu a direita e cavou a própria cova com rachas e traições - Marcio Aith*

Folha de S. Paulo

[RESUMO] Partido do Real e da modernização do Estado brasileiro, o PSDB por duas décadas protagonizou com o PT os rumos da política nacional, vangloriando-se de possuir os mais bem preparados quadros políticos e técnicos do país. Com o mesmo esmero, suas lideranças dedicavam-se nos bastidores a sucessivas traições e sabotagens. Denúncias de corrupção e o surgimento de Bolsonaro acentuaram a crise e rasgaram a superfície de polida competência do partido, que hoje depende de fusão ou federação com outras siglas para sobreviver.

Era uma manhã de março de 2016 quando o destino tocou a campainha do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Aécio Neves, então senador, recém-desembarcado em Congonhas, atravessava a cidade com uma comitiva de repórteres. Não vinha para conversar. Queria arrastar o governador Geraldo Alckmin até a avenida Paulista, onde fervilhava a maior manifestação pró-impeachment de Dilma Rousseff.

"Isso é uma armadilha", murmurou o governador, seco, a dois assessores. Sabia que, se não fosse, os jornais do dia seguinte o carimbariam como o responsável pelo racha tucano. Suspirou, entrou na van e partiu. No trajeto, os dois homens, que um dia representaram o futuro do país, viajaram lado a lado, calados, como estranhos no mesmo velório.

Na Paulista, antes do cheiro de fritura dos ambulantes, vieram as vaias. Cartazes pediam cadeia. Um manifestante gritou "corrupto" diretamente a Aécio. Para quem conhecia o ninho tucano por dentro, era o início do fim de um projeto que prometera civilizar a política nacional —e acabava linchado no meio da rua.

Alckmin via nas pedaladas fiscais atribuídas ao governo Dilma não um crime, mas uma farsa. Dizia aos próximos que, sob aquele microscópio ideológico, nenhum prefeito passaria sem arranhões. Para ele, o impeachment era juridicamente frágil e politicamente perigoso, um precedente que poderia ser usado contra qualquer governante.

A irritação do governador não era só jurídica. O PSDB começava a flertar com um terreno que jamais fora o seu: polarização sem freios, rua ensandecida, populismo do ódio. "Já não era um movimento que nos cabia bem", admite hoje Aécio Neves, em entrevista à Folha. "Era uma coisa esquisita, radicalizada."

Qual o problema do 'nós contra eles'? - Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Gestão federal toma medidas que, se viessem da oposição, tacharia de elitistas

O "nós contra eles" é indissociável da política, que é feita, afinal, de grupos em luta pelo poder. E, quando um grupo consegue associar a si mesmo com "o povo" e pintar o adversário como "as elites", o discurso vira uma arma poderosa. Não foi invenção de Marx, não. Desde a mais remota antiguidade o conflito entre grupos —especialmente pobres e ricos— sempre deu a tônica da política. Das campanhas pela reforma agrária dos irmãos Graco na Roma republicana à Revolução Francesa, essa polarização sempre esteve presente. Às vezes, ela aflora. A vantagem da democracia é dar vazão a essas polaridades sem necessidade de guerra civil.

Brasileiro (não) paga muito imposto? - Michael França

Folha de S. Paulo

Afirmação não é totalmente incorreta, mas é manipuladora

Dizer que o brasileiro paga muito imposto não é necessariamente uma mentira, mas trata-se de uma meia-verdade usada de forma seletiva. O Brasil apresenta uma carga tributária, ou seja, a proporção entre o total de impostos arrecadados e o Produto Interno Bruto (PIB), considerada de nível médio a alto.

No entanto, ao observarmos comparações internacionais, especialmente com países desenvolvidos, percebemos que ela está longe de ser uma das mais elevadas do mundo.

Aqui, ela gira em torno de 32% do PIB. Isso é mais ou menos o mesmo nível de países da OCDE com Estado de bem-estar social moderado, como Portugal ou Espanha, e bem inferior ao de países como França, Dinamarca ou Suécia, onde a carga supera 40%.

De bruxas e bruxarias - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

E se, em nome da soberania, Milei cobrasse Lula pelo ‘Cristina libre’ em plena Argentina?

Quem atira a primeira pedra? Se Donald Trump, presidente dos EUA, está errado – e está – ao chamar os processos contra Jair Bolsonaro no Supremo de “perseguição” e “caça às bruxas”, o que dizer de Lula, presidente do Brasil, que visitou Cristina Kirchner e tirou foto com o cartaz “Cristina libre” em plena Buenos Aires?

Trump, que se sente imperador dos EUA e age como dono do mundo, ficou mal-humorado com o Brics no Rio e ameaça impor tarifas adicionais a países que se alinharem com o bloco, que tem China, Rússia e agora Irã. De quebra, se meteu também com a Justiça brasileira, ao defender e dizer que Bolsonaro só queria o bem do povo brasileiro (?). Julgou, absolveu e anunciou sua sentença ao mundo.

O Brasil no Brics - Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

O Brics é visto, em Brasília, como instrumento-chave para reequilibrar a ordem mundial, contrapondo o domínio do G-7

No contexto atual de incertezas e insegurança global, o governo brasileiro organizou ontem, no Rio de Janeiro, o encontro de cúpula do Brics, sem a presença dos líderes da Rússia, China, Egito, Turquia, Irã e México.

O Brics, hoje, ampliado, é integrado pelos cinco países originais (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) e agora pelos novos membros, Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia e Emirados Árabes. Foi igualmente criada uma categoria de Países Associados, tendo sido convidados Cuba, Bolívia, Turquia, Nigéria, Indonésia, Argélia, Bielorrússia, Malásia, Uzbequistão, Cazaquistão, Tailândia, Vietnã e Uganda. A expansão do Brics permitirá um maior conhecimento e novas oportunidades de ampliação do intercâmbio comercial entre os países-membros. Existem cerca de 200 mecanismos de interação entre os países-membros, com reuniões entre ministérios e instituições oficiais e privadas que vão nessa direção. No tocante ao funcionamento do bloco, o Brasil apoiou a expansão do grupo (2023-2024) e defende termos de referência para a entrada de novos membros para preservar a coerência e eficácia do bloco. Há cerca de 35 países que manifestaram interesse em se juntar ao Brics.