segunda-feira, 2 de maio de 2022

Opinião do dia – Rodrigo Pacheco*: manifestações 1º de Maio

“Manifestações populares são expressão da vitalidade da Democracia. Um direito sagrado, que não pode ser frustrado, agrade ou não as instituições. O 1o de maio sempre foi marcado por posições e reivindicações dos trabalhadores brasileiros.

Isso serve ao Congresso, para a sua melhor reflexão e tomada de decisões. Mas manifestações ilegítimas e antidemocráticas, como as de intervenção militar e fechamento do STF, além de pretenderem ofuscar a essência da data, são anomalias graves que não cabem em tempo algum.”

*Rodrigo Pacheco, senador(PSD-MG), presidente do Senado, presidente do Congresso Nacional, ontem, no Twitter.

Paulo Fábio Dantas Neto*: Banho de urna para o Brasil ficar no purgatório

Sei que o título desta coluna, embora fale de urna, não é sedutor, pelo déficit de esperança que aparentemente carrega. De fato, observado o que ocorre e o que pode ocorrer na política brasileira, vejo que o melhor futuro do presente é ser um presente contínuo. Explico: a terra mais firme à vista é uma ilha ameaçada por lavas de vulcão ainda durante um tempo indeterminado. Mas ilha ao menos um pouco mais distante da porta do inferno, onde nos encontramos agora. A expectativa otimista e, ao mesmo tempo, razoável é que haja eleições normais, que o resultado do pleito presidencial se oponha ao de 2018 e que ele prevaleça contra ações golpistas, que já se encontram em fase avançada de testes. A seguir tentarei argumentar que esse pouco não é só mais do mesmo. Portanto, deve nos incitar a agir. Dentro dos estreitos limites em que o Brasil respira, é um horizonte esperançoso, sem ser delirante.

Começo contando como assisti Gilberto Gil, nosso mais recente imortal, apresentar-se, na última sexta-feira, 29, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Show a ser guardado na memória. Primor de tempestividade política sem pronunciamento que a formalizasse. Escolheu a dedo, para o começo, um repertório que a maioria da plateia ouviu e cantou sentada, o que já foi – tratando-se de Gil, cantando na Bahia – um sinal de que a noite não seria trivial. Quem tem mais de 60 anos, mais perto ou além dos 70, ouviu e viu o artista como se sua voz ainda tivesse a potência exortadora dos seus vinte e poucos anos. Tempo de sombras, então desafiados, agora evocados por Gil, cantando como quem dá um recado. Esse começo durou sete ou oito músicas, o introito acabou e ele subiu ao palco para valer. A comunicação direta com o momento coletivo mostrou aquele senhor artista cheirando a talco compartilhando com o seu público de todas as idades, agora de pé, o desejo de ver o inferno fora daqui! Nesse grito não havia crença nem programa, apenas desejo, necessidade e vontade titânicos de alívio do momento opressivo.

Fernando Gabeira: A liberdade do lobo e a morte do cordeiro

O Globo

‘A liberdade do lobo quase sempre significa a morte do cordeiro.’ Essa frase de Isaiah Berlin volta a circular no momento em que a liberdade de expressão torna-se um debate global. Nos EUA, foi intensificado com a compra do Twitter por Elon Musk. No Brasil, é o pretexto de Bolsonaro para perdoar um deputado.

Acho interessante que o pensamento de Isaiah Berlin sobre liberdade volte a ser estudado. Confesso que, há muitos anos, tinha uma certa resistência aos textos de Berlin. Ele desmontava de uma forma implacável o romantismo revolucionário que existia em mim. Foi muito bombardeado pela esquerda, sobretudo a partir da Rússia, por causa de sua amizade com artistas perseguidos pelo stalinismo, como a poeta Anna Akhmátova.

Por que, entre tantos liberais, Isaiah Berlin merece ser descoberto? Ele, de uma forma brilhante, compreendeu que as liberdades humanas não formam um todo harmonioso: podem entrar em conflito umas com as outras e, quando o fazem, devemos escolher entre elas. A inspiração de Berlin foi lutar contra o totalitarismo que falha em proteger liberdades específicas, mas também suprime a própria possibilidade de liberdade.

Demétrio Magnoli: STF, Silveira & Sands

O Globo

Bobby Sands, irlandês, católico, militante do IRA, morreu aos 27 anos, em maio de 1981, em consequência de uma greve de fome de 66 dias na prisão de Maze. No 40º dia da greve de fome, foi eleito para a Câmara dos Comuns por um distrito da Irlanda do Norte. O Reino Unido, onde fica o mais antigo Parlamento do mundo, não vetava mandatos parlamentares de prisioneiros que cumpriam sentença. Quando debate as implicações da crise gerada pelo caso Daniel Silveira, o STF precisa estudar o episódio de Sands.

Silveira ocupa a extremidade de um longo fio de crise institucional desenrolado a partir do “petrolão”. No vácuo aberto pela corrupção crônica e pela Operação Lava-Jato, o STF subiu uma escadaria de incêndio e, em meio à desmoralização da elite política, reinventou-se como Poder Moderador. A aventura de concentração de poder conduziu os juízes a romper um limite constitucional sagrado, por meio do sequestro do direito de cassar mandatos parlamentares.

Carlos Pereira*: Presidencialismo multipartidário ficou refém ou é reversível?

O Estado de S. Paulo

Uma boa gerência de coalizão cria condições para a sustentabilidade democrática e inclusão social responsável

Até que ponto o equilíbrio da Constituição de 1988 e do Plano Real, caracterizado pelo tripé inclusão social, responsabilidade macroeconômica e democracia, estaria ameaçado?

Meu colega Marcos Mendes, um dos maiores especialistas em contas públicas, acredita que existem problemas estruturais que estariam colocando em risco tal equilíbrio. Na sua coluna na Folha de S. Paulo (22/04/2022), Marcos vaticinou que, diante do enfraquecimento do Executivo na política orçamentária e do baixo crescimento econômico, as condições de governabilidade estariam se deteriorando e que problemas institucionais se avizinhariam.

Marcos tem razão ao expressar preocupação com a perda de discricionariedade do presidente no orçamento. Hallerberg e Marier já haviam demonstrado que um Executivo forte, via centralização do processo orçamentário, é a chave para reduzir déficit público e gerar políticas públicas universais, especialmente em sistemas eleitorais proporcionais de lista aberta para o Legislativo que estimula paroquialismos, como é o brasileiro.

Bruno Carazza*: O que Janones tem a ensinar sobre a política

Valor Econômico

Políticos tradicionais não conseguem se conectar com o eleitor

Eu tenho um grande amigo que diz que a única dúvida dele sobre as eleições deste ano é se Janones ficará em terceiro ou quarto lugar na disputa pela Presidência. A frase, que poderia soar como ironia, expõe uma dura realidade sobre a política brasileira.

No último Datafolha, o deputado André Janones (Avante-MG) apareceu entre os cinco primeiros candidatos na pesquisa espontânea - bem atrás de Lula e Bolsonaro, mas empatado dentro da margem de erro com Sergio Moro e Ciro Gomes -, o que é um feito notável para um político novato, vinculado a um partido nanico e que há apenas três anos chegou a Brasília para o seu primeiro mandato eletivo.

Na maioria das pesquisas recentes, Janones pontua à frente de políticos muito mais experientes e conhecidos, como os ex-governadores João Doria (PSDB-SP) e Eduardo Leite (PSDB-RS), a senadora Simone Tebet (MDB-MS) e o deputado federal Luciano Bivar (União Brasil-PE).

Sergio Lamucci: Economia mostra melhora, mas situação segue delicada

Valor Econômico

Cenário é difícil, em especial devido à inflação elevada

O desempenho da economia brasileira no primeiro terço do ano aponta para um cenário um pouco mais positivo em 2022 do que se projetava no fim de 2021. A atividade econômica teve um crescimento um tanto mais forte nos primeiros meses deste ano, com um resultado melhor do que se esperava no mercado de trabalho. A situação, porém, segue delicada, principalmente devido à persistência e disseminação das pressões inflacionárias, o que corrói o poder de compra da população e deverá exigir juros mais altos por mais tempo. Taxas mais elevadas obviamente afetarão a atividade, em especial a partir do segundo semestre, dado o efeito defasado de mudanças na Selic.

Além disso, o cenário externo está longe de ser tranquilo. A guerra entre Rússia e Ucrânia elevou o risco na economia global e encareceu as commodities, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) se prepara para acelerar o ritmo de alta dos juros e a China adota medidas rigorosas de restrição à mobilidade social para tentar deter o avanço da covid-19, com impacto óbvio sobre o ritmo de expansão da economia local - e por tabela, da mundial.

Celso Rocha de Barros*: Jair quer criar o Exércentrão

Folha de S. Paulo

Militares aceitam ser arma do latrocínio que Bolsonaro comete diariamente?

Daniel Silveira é o novo vice-presidente da comissão de Segurança da Câmara. Ganhou o cargo como recompensa porque ameaçou de morte os ministros do STF, foi condenado à cadeia e perdoado pelo presidente da República.

O que entusiasmou seus colegas de Parlamento foi o precedente jurídico que o caso Silveira estabeleceu: de agora em diante, está decidido que presidentes podem soltar aliados condenados pela Justiça.

O STF não reagiu à provocação do presidente da República porque teme que as Forças Armadas deem um golpe de Estado em apoio a Bolsonaro. Ninguém tem medo do Jair. O medo é do Exército. Como se viu no último 7 de Setembro, quando o Exército não aparece para brigar por ele, Jair se senta no chuveiro e chora.

Marcus André Melo*: A imunidade parlamentar gera corrupção e abuso?

Folha de S. Paulo

Sonho paraguaio de imunidade vitalícia é o canto das sereias de aspirantes a autocrata

É intuitiva a noção de que as imunidades são precondição para o exercício da atividade política nas democracias. Como podemos concebê-la se há espaço para retaliação política pelos governantes? Ou ainda sem plena liberdade de expressão? Mas é inegável que ela cria incentivos para o arbítrio e a corrupção.

Chafetz mostrou que duas tradições informaram os dispositivos legais para as imunidades nos EUA e no Reino Unido. A primeira delas, a versão forte do princípio que a soberania parlamentar deve prevalecer em relação a qualquer agente externo, inclusive tribunais, predominou até o século 19; na segunda, a soberania é exercida contra o monarca mas também sobre parlamentares. O Judiciário é visto aqui como potencial agente do povo.

Ana Cristina Rosa: A que ponto chegamos

Folha de S. Paulo

Mesmo com inflação e desemprego, a distopia tem demonstrado concretude perturbadora

No Dia do Trabalhador, um país forjado sobre os pilares da escravização e que desde a década de 1990 reconhece oficialmente perante a comunidade internacional a existência de trabalho forçado em seu território deveria ir às ruas para exigir respeito e geração de trabalho decente para a população.

Mesmo diante da maior prévia da inflação mensal em 27 anos, da queda no salário médio e de uma multidão de desempregados estabilizada na casa dos 12 milhões, no Brasil a realidade parece ter decidido competir com a ficção dada a quantidade e a proporção de despautérios. E a distopia tem demonstrado uma concretude perturbadora.

Ruy Castro: Em dias mais felizes

Folha de S. Paulo

Bom saber que o Brasil é craque em aviõezinhos de papel

Há duas semanas, o Museu do Amanhã, aqui no Rio, abrigou a decisão da etapa brasileira do Campeonato Mundial de Aviãozinho de Papel. Não ria. Os vencedores foram Pedro Capriotti e Isaac Queiroz, paranaenses. Pedro foi o campeão na modalidade tempo no ar, com 7s61, e Isaac, na de distância percorrida, com 40,3 metros. Eles derrotaram 600 concorrentes em eliminatórias disputadas durante meses pelo país. Os dois partem agora para representar o Brasil na grande final em Salzburgo, Áustria, contra 60 países.

Se você acha o assunto irrelevante, experimente fazer um aviãozinho de papel —sabe fazer um, não?— e atirá-lo. Aposto que ele subirá meio metro, se tanto, e descerá vergonhosamente de bico contra o chão. Na mão dos campeões, no entanto, a aeronave já parte sabendo a distância a atingir e o tempo a se manter em voo. E, se o vento e a pressão atmosférica forem favoráveis, eles se arriscam até a piruetas. É um esporte, e proponho a sua inclusão nos próximos Jogos Olímpicos.

Marcello Serpa: O vírus e o mundo corporativo

O Globo

Depois de dois anos de pandemia, trabalho remoto e escritórios vazios, não parece coincidência duas séries excelentes retratarem o lado surreal do mundo corporativo.

“Severance”, criada por Dan Erickson e produzida por Ben Stiller, é uma obra-prima distópica tão estranha quanto imperdível. Uma empresa fictícia, Lumon, cria uma tecnologia que permite ao funcionário separar a vida particular do trabalho, literalmente. Um chip implantado na cabeça dos funcionários divide a consciência em duas, eles não lembram nada da vida pessoal enquanto no escritório e, quando fora, não recordam o que aconteceu no trabalho.

Os personagens principais são quatro funcionários trabalhando em cubículos apertados no centro de uma enorme sala vazia. Passam o dia digitando números sem sentido, falando abobrinhas sobre a vida do escritório, ganhando incentivos inúteis ao superar metas invisíveis, supervisionados por um chefe de sorriso branco e frio como uma lâmpada fluorescente numa mistura de terror com a mais fina ironia.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

O papel do Supremo na democracia

O Estado de S. Paulo

STF está sob ataque. Os cidadãos precisam entender o que está em jogo quando isso acontece e por que defender a instituição é o mesmo que defender a liberdade e a paz social

O Supremo Tribunal Federal (STF) está sob ataque. Real e simbólico. Não há outra forma de descrever as ações hostis e o desrespeito a decisões da Corte por parte do presidente Jair Bolsonaro e de parlamentares e lideranças do Congresso. O momento é gravíssimo. O País não assistia a uma afronta tão desabrida à instância máxima do Poder Judiciário desde o conflituoso mandato do presidente Floriano Peixoto (1891-1894). O “Marechal de Ferro” não era um democrata e fazia pouco-caso da tripartição dos Poderes da República e do sistema de freios e contrapesos. Assim como Bolsonaro.

Os cidadãos precisam ter em conta o que está em jogo quando o Supremo é atacado, seja por meio de ameaças explícitas ou veladas a seus ministros, servidores e familiares, depredações de suas dependências físicas ou pelo descumprimento puro e simples de suas decisões. Em outras palavras: é preciso entender qual é o papel de uma Corte Suprema na democracia e por que defender a instituição é o mesmo que defender a manutenção das liberdades civis e da paz social.

A Constituição, em seu artigo 102, delega sua guarda ao Supremo. Do ponto de vista prático, “guardar” a Constituição significa interpretar o seu texto e ter a palavra final diante de conflitos em torno de nosso pacto social. Quando o Supremo é desqualificado como última instância com poder para dirimir esses conflitos e pacificar a sociedade, rui a própria ideia da Justiça como um avanço civilizatório. A partir daí, vale tudo, não há mais limites. Comandos legais correm o risco de perder valor. Em casos extremos, cidadãos podem olhar para esse processo de deslegitimização do Supremo – liderado por altas autoridades da República, que deveriam servir como modelos de cidadania e respeito às leis – como uma espécie de autorização tácita para resolver suas contendas particulares da forma que bem entenderem, inclusive pela imposição da força bruta.

Poesia | Vladimir Maiakovski: O Amor

 

Música | Chico Buarque: Quem te viu, quem te vê

 

domingo, 1 de maio de 2022

Dorrit Harazim: Consciência

O Globo

Convém não confundir as coisas — enquanto o cérebro nos é dado pela biologia, é a vida que transforma esse cérebro em mente. Há mais de 5 mil anos poetas e filósofos, sumidades religiosas e Prêmios Nobel de Medicina tentam desvendar os mistérios dessa dualidade. Avançou-se relativamente pouco. Embora o conhecimento científico dos atributos físicos e do comportamento do cérebro tenha dado saltos triunfais, a composição metafísica da mente humana continua fugidia. Isso porque ela pode ser definida como essência, não substância. A mente reflete tudo o que o corpo inteiro percebe e sente. Em suma, é o universo privado e subjetivo com que respondemos a emoções, medicamentos, enzimas, poluição, genes, hormônios, percepções e tudo o mais. Na mente de cada um também mora a consciência, que por vezes vem acompanhada de busca do saber, coragem de ver e ouvir. E de reagir.

Esta semana foi infame para a História do Brasil, pois não reagimos.

Merval Pereira: Novos olhares da política

O Globo

Foi-se o tempo em que a vitória do ex-presidente Lula nas eleições de outubro era dada como certa, e provavelmente no primeiro turno. Pesquisas recentes, feitas por diversos métodos e institutos, alertam para uma tendência de crescimento do presidente Bolsonaro, que em algumas delas já se aproxima de um empate técnico que os bolsonaristas acreditam que em julho estará superado a seu favor.

Erros na campanha petistas já estão sendo detectados, como a mudança do marqueteiro, e o isolamento dentro do partido de Franklin Martins, que não se sabe se continuará na coordenação da comunicação. Mas não é só isso. Existem queixas sobre a abordagem do PT nas coligações partidárias, tanto que a federação de esquerda não é integrada pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), apesar da indicação de Geraldo Alckmim para vice na chapa petista.  

Também o partido Rede Sustentabilidade, que decidiu oficialmente apoiar a candidatura de Lula, não teve a adesão do grupo de sua principal líder, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Não que Marina não admita apoiar Lula, muito menos que, como Lula alega, tenha mágoa com o PT, mas seu grupo acha que não se deve dar apoio incondicional a ninguém antes que um programa específico seja negociado. Não deixaram de notar, por exemplo, que a palavra “sustentabilidade” não foi usada por Lula em nenhum momento de seu discurso na solenidade de oficialização do apoio.

Bernardo Mello Franco: A tática do abafa

O Globo

A oposição parece ter entendido a tática da comunicação bolsonarista. Falta deslocar o debate para o que importa

Lula levou cinco dias para comentar o indulto de Jair Bolsonaro ao deputado que incitou a violência contra ministros do Supremo. Na terça-feira, o petista foi questionado sobre o decreto do capitão. Depois de chamá-lo de “estúpido” e “medíocre”, justificou o próprio silêncio.

“Eu nem comentei nada porque tudo o que ele queria era o que aconteceu. Ele abafou o carnaval”, afirmou. “Ele fez isso na quinta-feira. Ficou quinta, sexta, sábado, domingo, segunda e terça no auge do noticiário. Tudo o que ele quer é permanecer no noticiário, e ele não tem nenhum interesse se é coisa boa ou ruim”, prosseguiu.

Bolsonaro sabe como desviar o foco de assuntos incômodos. Nos dias que antecederam o decreto, o IBGE registrou a maior inflação para março em 28 anos. O governo foi obrigado a admitir que os pastores lobistas do MEC estiveram 35 vezes no Planalto. O noticiário revelou novas suspeitas de desvios na Codevasf, estatal loteada entre deputados do Centrão.

Elio Gaspari: A crise tem data marcada

O Globo

O Brasil corre o risco de viver a sua maior crise institucional desde o dia 13 de dezembro de 1968, quando o marechal Costa e Silva baixou o Ato Institucional nº 5. Ela tem data e hora marcadas: a noite de 2 de outubro, quando se conhecerá o resultado da eleição.

O cenário é previsível: fecham-se as urnas, totalizam-se os votos e, caso Jair Bolsonaro seja derrotado, ele anuncia que não aceita o resultado.

Em 1951, essa cartada foi tentada contra a posse de Getúlio Vargas, com o argumento de que ele não conseguira a maioria absoluta dos votos. Não prosperou, mas o desconforto militar reemergiu e em 1954 custou a vida ao presidente.

Em 1951, tratava-se de uma chicana conceitual. Hoje o presidente é um crítico do sistema de coleta e totalização dos votos. Chega a dizer que foi eleito em 2018 no primeiro turno, mas surrupiaram-lhe a vitória. Faltam cinco meses para a eleição e Bolsonaro faz sua campanha hostilizando o Judiciário e propondo que as Forças Armadas participem do processo de totalização.

Bolsonaro revelou parte da questão:

“Uma das sugestões das Forças Armadas é que, ao final das eleições, os dados vêm pela internet para cá (Brasília) e tem um cabo que alimenta a sala secreta do TSE. Uma das sugestões é que desse mesmo duto seja feita uma ramificação para que tenhamos um computador do lado das Forças Armadas para que possamos contar os votos no Brasil.”

Luiz Carlos Azedo: Da Internacional ao 1º de Maio, os sinais estão trocados

Correio Braziliense / Estado de Minas

O estrago que o velho hino está fazendo às imagens de Lula e Alckmin não foi aferido, mas o meme faz a festa bolsonarista. Nada mais simbólico para a falsa tese de que Lula e Alckmin são comunistas 

Quando o Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi fundado, em 25 de março de 1922, Astrojildo Pereira e seus oito companheiros de origem anarquista não sabiam cantar A Internacional, como registrou em seu poema Ferreira Gullar. Desde então, apenas os mais empedernidos comunistas sabem a letra do hino composto em 18 de junho de 1888 por Pierre Degeyter — um operário anarquista de origem belga, residente na cidade francesa de Lille —, com base no poema do também anarquista Eugéne Pottier, operário francês membro da Comuna de Paris.

O hino se tornou conhecido na França e se espalhou pela Europa após o congresso do Partido Operário Francês, em 1896. A ideia original de Pottier era fazer uma paródia da Marselhesa, o hino da Revolução Francesa, mas Degeyter deu-lhe vida própria. C’est la lutte finale./Groupons-nous et demain/L’Internationale/Sera le genre humain, o refrão original, na tradução portuguesa ficou assim: “Bem unidos façamos, / Nesta luta final, / Uma terra sem amos /A Internacional”.

A versão em russo serviu como hino da antiga União Soviética de 1917 a 1941, quando foi criado o hino soviético por Stalin, mas A Internacional continuou sendo o hino da maioria dos partidos comunistas. Entretanto, alguns partidos socialistas e social-democratas também haviam adotado o hino, antes do racha da II Internacional, por ocasião da Primeira Guerra Mundial. Hoje, são raros os que o mantêm.

Sérgio Augusto: Teatro de Molière é perfeito para definir o tempo em que vivemos

O Estado de S. Paulo

Metáforas de ‘Tartufo’ se aplicam aos hipócritas que nos cercam

Alguém só um pouco mais crescido que o menino que aporrinha o pai até descobrir o significado da palavra “plebiscito”, no antológico conto de Artur Azevedo, perguntou-me o que quer dizer “tartufo”. Não a homônima guloseima à base de chocolate, que ele já conhecia sob a forma de sorvete, mas os bípedes dignos desse epíteto; ou seja, aqueles indivíduos dados a cometer tartufarias ou tartufices. Gente que, evidentemente, não presta.

Como são muitos ao nosso redor, vez por outra não resisto à tentação de aludir ao traste que lhes deu origem e nomeada, substituindo com seu eufônico nome – Tartuffe (entre nós, Tartufo) – adjetivos bem mais corriqueiros como hipócrita, fingido, dissimulado, impostor, velhaco, espertalhão.

As gerações mais velhas e mais bem escolarizadas sabem de onde veio a palavra e quem a celebrizou: Molière, o maior comediógrafo da França, o Shakespeare gaulês. Dos tipos inesquecíveis que ele imortalizou no palco – o avarento Harpagão, o hipocondríaco Argan, o palerma Orgon – o farisaico Tartufo foi, et pour cause, quem mais impacto popular causou. Nenhuma outra de suas peças foi tão encenada desde sua primeira apresentação, em 12 de maio de 1664.

José Roberto Mendonça de Barros*: Sem perspectivas de crescer

O Estado de S. Paulo

O Brasil empobreceu nos últimos quatro anos, e não há populismo que seja capaz de alterar esse fato

A pré-campanha eleitoral segue numa polarização cada vez mais raivosa e, tudo indica, assim vai continuar. Lamentavelmente, do ponto de vista econômico só não se discute o principal: estamos sem crescer há muito tempo e sem perspectivas à frente. 

O debate de conjuntura está focado nos próximos meses. Discute-se, furiosamente, se o crescimento deste ano será de 0,5% ou 1%, sem atentar que essas diferenças pouco significam. Considerando os anos de 2019 a 2022, o crescimento médio será de 0,55% ao ano se o PIB corrente crescer 0,5%, ou de 0,68% se crescermos 1%, como prevê o Banco Central (a projeção do Focus está em 0,65%). 

Eliane Cantanhêde: Sem choro nem vela

O Estado de S. Paulo

Terceira via agoniza, União Brasil, PSD e Podemos vão liberar geral, cada um por si

A terceira via agoniza, com o União Brasil fora, o PSDB se autodestruindo, o MDB revirando suas velhas agonias e o Cidadania impotente, enquanto a "opção única” vai deslizando do improvável para o patético e nem se sabe mais se haverá anúncio de qualquer coisa em 18 de maio, à espera de um milagre. Desfecho melancólico.

Com fundo eleitoral gigante, tempo de TV para dar e vender e ramificação pelo País, o União Brasil conseguiu engabelar os parceiros de terceira via, matou a candidatura Sérgio Moro e inventou a de Luciano Bivar. A turma esquece rápido. Quem é Bivar? É o que deu a sigla PSL para Jair Bolsonaro em 2018.

A jogada do União Brasil, fusão artificial de PSL e DEM, que abortou lamentavelmente um belo voo, é liberar geral – especialmente pró-Bolsonaro. Esse movimento se repete com o Podemos, de onde Bivar arrancou Moro para jogar no vazio, e com o PSD, que foi parar em Irajá. Seu líder Gilberto Kassab tende para Lula, mas ele e o resto vão com quem for ganhar.

Bruno Boghossian: Uma prévia do segundo mandato

Folha de S. Paulo

Com apoio de Congresso e quartéis, presidente quer força para expandir seus poderes

Jair Bolsonaro ofereceu mais uma amostra de seu projeto para um segundo mandato. Nas recentes crises fabricadas pelo capitão, o governo voltou a ser uma engrenagem a serviço dos planos de expansão dos poderes do presidente, com o apoio de congressistas e militares bem alimentados pela máquina pública.

Bolsonaro sempre sonhou com uma autoridade sem limites. Ainda na campanha, falava em aumentar o número de cadeiras no STF para produzir uma maioria artificial na corte. Desde o início do governo, aparelhou órgãos de controle e trabalhou abertamente para emparedar um Congresso que o incomodava.

Hélio Schwartsman: Por onde os ratos escapam

Folha de S. Paulo

'The Ratline' conta a história de Otto Wächter, que governou territórios da Polônia e da Ucrânia

Duas semanas atrás falei aqui do livro "East-West Street", de Philippe Sands. Poucas horas após a publicação da coluna, três amigos cuja opinião respeito muito me escreviam para recomendar uma segunda obra de Sands, "The Ratline" (o caminho dos ratos), que devorei.

"The Ratline" conta a história de Otto Wächter, que governou territórios da Polônia e da Ucrânia na ocupação nazista. Wächter foi acusado de crimes contra a humanidade, mas conseguiu fugir. Passou três anos perambulando pelos alpes austríacos e depois desceu para Roma onde, com o apoio de hierarcas do Vaticano e beneplácito dos EUA, se preparava para fugir para a Argentina. Em julho de 1949, morreu na capital italiana sob circunstâncias suspeitas.

Vinicius Torres Freire: A economia a cinco meses da eleição

Folha de S. Paulo

É preciso interpretar conjuntura com o realismo que a oposição carnavalesca costuma desprezar

O salário médio não era tão baixo fazia uma década. Sem-teto montam vilas de barracas nas calçadas de bairros ricos de São Paulo. No fim deste ano, a renda (PIB) per capita ainda será menor do que em 2010 (dois mil e dez: não é erro de digitação). Ainda não se conhece projeto político que apresente um plano crível para dar conta dos problemas crônicos do crescimento ("reformas", com ou sem aspas).
É a pior crise da República.

Isto posto, se a conversa muda para o curtíssimo prazo e trata do ambiente político-eleitoral, é fato que a economia não afundou ainda mais, como a oposição esperava. A cinco meses da eleição, alguns bodes até saem da sala.

Há números melhores no emprego, na confiança de consumidores e empresários, no crédito. A receita do governo é a maior desde 2014 (como proporção do PIB), o que facilita favores eleitorais.

Míriam Leitão: A escalada de Bolsonaro

O Globo

A crise da democracia brasileira piorou muito nos últimos dias. O presidente Bolsonaro escalou o conflito institucional ainda mais. Fez chacota com o Supremo dentro do Planalto, exigiu que as Forças Armadas façam apuração eleitoral paralela, disse que as eleições podem ser suspensas. Nada foi de impulso. Tudo foi de caso pensado. O que está sendo plantado por Bolsonaro é a tentativa de impugnar a eleição, caso o resultado não seja satisfatório a ele.

O diálogo entre o general de divisão Heber Garcia Portella e o TSE, nas trocas de mensagens, é uma clara demonstração de que Bolsonaro conseguiu costurar o respaldo de lideranças das Forças Armadas para alimentar a suspeição sobre a eleição. Uma das dúvidas levantadas pelo militar, indicado pelo Ministério da Defesa para Comissão de Transparência das Eleições, foi sobre o que aconteceria se houvesse perda de voto por mídia eletrônica. O TSE respondeu que trabalha com duas mídias, mas, mesmo com essa redundância, se houver falha, é possível recuperar os dados. Mas o general insistiu, querendo saber o que aconteceria no caso de os votos descartados, por falha, serem em número suficiente para alterar o resultado. A resposta do TSE foi que nessa “remota hipótese” ficaria valendo o que está disposto nos artigos 187 e 201 do Código Eleitoral. O artigo 201 fala que, em caso de os votos anulados serem o suficiente para alterar o resultado, serão realizadas novas eleições. “Esse é o ovo da serpente, ele está plantando a impugnação das eleições”, me informou um jurista que ocupou altos cargos públicos.

Cacá Diegues: Eu não disse?

O Globo

Vamos rumo à eleição mais tensa e histérica do Brasil moderno, clímax de todos os erros que cometemos desde o Império

Não acredito nos argumentos viciados que começam com uma frase irritante, a afirmar a superioridade sobre o outro: “Eu não disse?”, diz o interlocutor infeliz que, embora em maus lençóis, ri do fracasso de quem não previu para onde estávamos indo. O que estão querendo nos dizer com um sorriso de satisfação, embora seja o sorriso do infeliz derrotado e humilhado, é que o outro é um imbecil que não percebeu o valor da intervenção feita no passado. Uma intervenção decisiva que, uma vez ouvida, nos salvaria da merda em que hoje rolamos.

Claro que não é isso o que desejo impor aqui. Mas não posso deixar de lembrar o que escrevi nessa mesma coluna na segunda metade de outubro de 2018, às vésperas do segundo turno de nossa última eleição para presidente.

“Nesses dias antes do voto decisivo”, eu escrevia, “não quero fazer proselitismo. Já o fiz no primeiro turno e meu candidato favorito ficou atrás dos dois que disputam essa final. Um montado na sela de velho cavalo que já desapontou tanto o povo que o aplaudia; outro nos assustando, a prometer o demônio armado para conter nossos desejos inocentes”.

Agora estamos no rumo da eleição mais tensa e histérica do Brasil moderno. Não é que todas as outras tenham sido mais saudáveis. Mas essa pode se tornar o clímax de todos os erros que cometemos desde o Império, quando o imperador bonachão deixava que os dois partidos, o Liberal e o Conservador, ficassem dando golpes um no outro. Ou igual à primeira eleição de Jair Bolsonaro, que se tornou presidente da República mesmo com suas ideias assustadoras (que ele aliás nunca escondeu).

Janio de Freitas: Conclusão da ONU sobre Lula é esmagadora para Moro e Deltan

Folha de S. Paulo

Resultado exposto por autoridades internacionais do Comitê de Direitos Humanos é a impunidade brasileira

A conclusão dos seis anos de exame, na ONU, dos processos contra o ex-presidente Lula é esmagadora para Sergio Moro, mas seu alcance não cessa na condenação moral desse ocupante ilegítimo de uma cadeira de juiz.

Moro e Deltan Dallagnol, também objeto da condenação moral, sem poderosos coadjuvantes não conseguiriam subverter algo tão relevante como é o processo de eleição de um presidente da República.

Não receberem menção direta da ONU não é excluir da condenação moral esses coautores. Outros dos muitos sentidos implícitos, mas não obscuros, na conclusão das duas dezenas de autoridades internacionais do Comitê de Direitos Humanos da ONU é a grande impunidade brasileira.

O velho vício nacional de caráter se impõe, paradoxal, com a inconsequência penal das transgressões judiciais e da articulação eleitoralmente violadora. O ministro Gilmar Mendes, para surpresa de muitos, criou um caso raro.

Sua decisão individual de impedir, sem base jurídica ou factual, que Lula fosse ministro da presidente Dilma abriu o caminho para o golpe no processo eleitoral de 2018, com a retirada forçada de Lula. Na prática, a entrega a Bolsonaro da vitória ilegítima.

Cristovam Buarque*: Tanto chão, cara

Blog do Noblat / Metrópoles

Tanto chão para fazer no Brasil uma democracia, onde as urnas não temam ameaça das armas, uma democracia justa

Há 47 anos, o povo português deu exemplo ao mundo: como sair de regime autoritário e obscurantista para construir uma sociedade moderna, com coesão e rumo. Na época, nosso Chico Buarque compôs uma poesia engajada politicamente sem abrir mão da qualidade estética. Com “Tanto Mar, Pá”, Chico uniu a graça da arte com a força da política. Com a imagem do mar nos passou a imensa distância a percorrer para sair da ditadura reacionária brasileira, até construir a democracia progressista nos moldes de Portugal.

Dez anos depois, conquistamos nossa democracia, mas ainda não encontramos a coesão social e o rumo histórico “para fazer do Brasil um imenso Portugal”. Já não cabe sonhar com o outro lado do Atlântico, mas caminhar em frente: não mais o “tanto mar, pá”, mas “tanto chão, cara”.

Tanto chão para fazer no Brasil uma democracia, onde as urnas não temam ameaça das armas, uma democracia justa, sustentável, eficiente, coesa. Tanto chão para fazer as reformas que nossa economia precisa e competir no mundo global, tanto chão para realizar as reformas sociais e a eficiência servir a todos, não apenas a uma minoria privilegiada; tanto chão para eliminar os resquícios da escravidão que até hoje beneficia os descendentes sociais dos senhores e oprime com desigualdade e racismo aos descendentes sociais ou raciais dos escravos.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Brasil precisa dar prioridade ao setor de turismo

O Globo

Outrora chamado de “indústria sem chaminé”, o turismo tem reagido com rapidez às mudanças na economia. Impactado pela pandemia, amargou contração a partir de 2019. Com o recuo do coronavírus, já tem demonstrado grande poder de reação, mesmo com a economia em marcha lenta. Mereceria maior atenção dos governos e dos políticos.

De acordo com reportagem do GLOBO, o faturamento do setor em 2021 foi de R$ 7,1 bilhões — 77% acima de 2020, embora 44% abaixo de 2019, antes do coronavírus. Em viagens, porém, as operadoras já fizeram 7,4 milhões de embarques no ano passado, ou 14,2% mais que em 2019. E, no primeiro trimestre deste ano, as receitas foram 25% superiores à do mesmo período do ano passado. A previsão é chegar a 60% de crescimento em 2022, retornando ao nível anterior à pandemia.

Poesia | Fernando Pessoa: Ridículos nunca

 

Música | Trio Preto: Batucada Quente

 

sábado, 30 de abril de 2022

Luiz Werneck Vianna*: Em defesa do que nos é comum

Respira-se um ar carregado sob um céu sombrio desses que anunciam tempos de catástrofe. Dia e noite, instalados no poder político, personagens mal-intencionados conspiram para a ruina da democracia brasileira diante de uma sociedade desatenta e entregue às suas fainas habituais, não abdicando sequer de brincar os folguedos de carnaval como se não houvesse amanhã. Nos gabinetes de políticos falsamente atarefados cogita-se sobre qual candidato sem votos recairá a falsa benção de ser o representante de uma 3ª via que pretensamente nos livre disso que aí está, miragem com que se animam as pretensões ególatras de políticos liliputianos.

Embalados nessa cantilena, centrados em seus umbigos, deixam de reparar o abismo que se abre a seus pés e de toda a sociedade com o avanço do fascismo, que apura a sua mira em direção ao STF, até aqui o maior obstáculo aos intentos liberticidas, poder desarmado apenas detentor do bom direito. O cenário internacional com o transcorrer dessa infame guerra na Ucrânia é mais uma pedra no caminho dos que lutam contra os regimes autocráticos, como aqui nas posições favoráveis do atual governo ao regime discricionário russo, em claro desafio às melhores tradições da nossa política externa.

Nesse quadro, que ainda pode se agravar com uma eventual vitória dos republicanos nas eleições legislativas americanas, salvo a UE e a jurisdição benfazeja da ONU nas relações internacionais, somente devemos contar com forças próprias, em primeiro lugar numa articulação inédita das forças políticas, tão ampla quanto possível, a ser amparada por uma corajosa mobilização popular em defesa da economia popular sempre com foco na valorização das nossas instituições democráticas. Tal articulação deve necessariamente incluir o Centrão e todas as forças e personalidades que dependam do voto para a satisfação dos seus interesses. No caso, deve-se destacar a recente manifestação dos presidentes do Senado. Rodrigo Pacheco, e da Câmara dos Deputados, Artur Lira, em defesa do nosso sistema eleitoral, atacado pelo presidente Bolsonaro em sua estratégia de derruir as bases da nossa democracia.

Marco Antonio Villa: Bolsonaro tem medo da democracia

Revista IstoÉ

O objetivo do nazifascista bolsonarista é de produzir o caos no processo eleitoral. Os extremistas não conseguem conviver com a pluralidade de ideias

A campanha presidencial deste ano caminha, ao menos até o momento, a privilegiar temas que são instrumentais para obter a vitória eleitoral, mas não são os que realmente importam para o futuro do País. Os candidatos escolhem o terreno que preferem palmilhar, porém é fundamental redirecionar o debate eleitoral para os grandes problemas nacionais. O privilegiamento da pauta de costumes por parte de Jair Bolsonaro faz parte de uma estratégia de campanha que busca ocultar o desastre do combate à pandemia, os casos de corrupção e a falta de vitrine de realizações – afinal, o governo foi o pior da história republicana. Desviando para a pauta de costumes – e Lula já caiu recentemente nesta armadilha –, Bolsonaro reforça seus laços com sua base evangélica, legitima o discurso dos pastores e sinaliza para os bolsonaristas-raíz que ele continuará realizando o que eles chamam de “guerra ideológica.”

É importante destacar que a pauta de costumes tem sua relevância. Contudo, Bolsonaro rebaixa a discussão da questão com palavras vulgares e conclusões pueris. Demonstra uma ira pré-fabricada e constrói um passado que nunca existiu. A negação do presente e das novas contradições do mundo contemporâneo é um meio de buscar a polarização para fidelizar seus fanáticos seguidores. A eleição, portanto, é um mero pretexto para envenenar a sociedade brasileira com novos e velhos preconceitos distribuídos a esmo e sem nenhuma base científica.