quarta-feira, 19 de abril de 2023

Vera Magalhães - Foco em casa, sem confusão lá fora

O Globo

Lula tem um time de ministros que demonstra ter clareza do momento vivido pelo Brasil e pelo mundo, e deveria servir de exemplo para o resto do governo

A terça-feira trouxe uma necessária pausa na sucessão de gestos e declarações desastrosos de Lula em matéria de política externa, com o envio do marco fiscal ao Congresso e a retomada da agenda de construção de consensos em temas concernentes ao combate ao extremismo. O crescimento da economia — com o cumprimento da promessa de combate à desigualdade social — e o fortalecimento da democracia são as chaves para o governo Lula 3 ter êxito e sepultar a ameaça de volta de um bolsonarismo puro ou reembalado. E, para isso, comprar brigas pueris e desnecessárias com as democracias liberais do Ocidente é burrice pura e simples.

Lula tem um time de ministros que demonstra ter clareza do momento vivido pelo Brasil e pelo mundo nesses dois campos, que foram revirados do avesso desde seus dois primeiros mandatos — aos quais ele recorre com frequência maior do que a realidade recomenda.

Puxam esse pelotão de auxiliares que olham para a frente e demonstram ter domínio das áreas e saber o que fazer para ampliar o espectro de apoio ao governo: Fernando Haddad, Simone Tebet, Flávio Dino e Alexandre Padilha.

Elio Gaspari - A encrenca americana

O Globo

Os EUA atravessam tempos difíceis

O governo americano incomodou-se com as últimas falas de Lula sobre a China e a guerra na Ucrânia. Noves fora as impropriedades do presidente, há outra questão no tabuleiro. É a preguiça com que a diplomacia americana tratou com ele. Lula foi aos Estados Unidos em fevereiro, e o Departamento de Estado organizou uma agenda miserável. Basta compará-la com a agenda chinesa. Espremidas, as duas se assemelham, com muito pirão e pouca carne. A cenografia chinesa, contudo, foi hollywoodiana. Isso, sabendo que vieram de Washington, e não de Pequim, os sinais contrários às aventuras golpistas que circulavam em Brasília.

Há cerca de 50 anos fala-se em uma eventual decadência dos Estados Unidos, e ela ainda não aconteceu. Mesmo assim, coisas estranhas estão acontecendo por lá. Depois de quatro anos de Donald Trump, o país é governado pelo octogenário Joe Biden, e ele sugere que poderá ser candidato à reeleição. Há dias, encenando as corridinhas atléticas de Barack Obama ao subir as escadas do avião presidencial, tropeçou duas vezes. Mantendo o ritmo teatral, foi adiante e caiu. Dias antes, na Irlanda, não percebeu que o sujeito que havia se aproximado dele era o primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, filho de indianos.

Bernardo Mello Franco – A estranha CPI do golpismo

O Globo

Comissão é defendida por quem deveria temê-la e temida por quem deveria defendê-la

Apesar dos apelos do governo, o Congresso deve instalar uma CPI sobre os atos golpistas de 8 de janeiro. Se sair do papel, a comissão nascerá sob o signo da estranheza. Sua criação é defendida por quem deveria temê-la e temida por quem deveria defendê-la.

A CPI foi proposta pelo deputado André Fernandes, integrante da tropa de Jair Bolsonaro. Ele é alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal, sob suspeita de incentivar a invasão e a depredação das sedes dos Três Poderes.

O dublê de político e youtuber ajudou a convocar os extremistas a Brasília, a pretexto de divulgar o “primeiro ato contra o governo Lula”. Depois do quebra-quebra, voltou às redes sociais para fazer piada com a destruição de patrimônio público.

Na noite do dia 8, Fernandes compartilhou a foto da porta de um armário do ministro Alexandre de Moraes. A peça havia sido arrancada pela turma que quebrou cadeiras, urinou em gabinetes e tentou atear fogo no plenário do Supremo. “Quem rir, vai preso”, debochou o deputado do PL.

Luiz Carlos Azedo - Ministro quer enquadrar “bigtechs” na Constituição

Correio Braziliense

Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes defendeu a inclusão de um artigo na legislação para deixar claro que as regras do mundo real devem prevalecer também no ambiente virtual

Durante a reunião convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir políticas de prevenção e enfrentamento à violência nas escolas, ontem, no Palácio do Planalto, com todos os governadores, ministros e representantes do Congresso, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes defendeu a inclusão de um artigo na legislação brasileira para deixar claro que as regras do mundo real devem prevalecer também no ambiente virtual. “Precisamos, de uma vez por todas, determinar que o que não pode ser feito na vida real, no mundo real, não pode ser feito no mundo virtual”, disse.

Para isso, segundo o ministro, bastaria a inclusão de um artigo na lei, a ser regulamentado pelo Congresso. Segundo Moraes, os problemas de violência e preconceito nas escolas têm uma mesma origem: a desinformação que, em geral, é promovida via redes sociais.

Hélio Schwartsman - Justiça virtual

Folha de S. Paulo

Plenário eletrônico do STF limita os debates, o que tende a reduzir qualidade das decisões

No momento o STF julga em seu plenário virtual, entre outros casos, a abertura de ação penal contra participantes dos ataques antidemocráticos de 8 de janeiro e a possibilidade da volta de algo parecido com o imposto sindical, agora rebatizado de contribuição assistencial.

Eu entendo as razões que levaram o Supremo a criar o plenário virtual, em que os processos são colocados num sítio eletrônico no qual os magistrados têm um prazo para adicionar seus votos. Foi a resposta que a corte encontrou para o problema do congestionamento. E funcionou. Essa modalidade de julgamento ajuda a dar vazão ao grande contingente de casos.

Ranier Bragon – Zanin e as babás

Folha de S. Paulo

Favorito de Lula ao STF se calou sobre os casos e isso parece não incomodar quase ninguém

Três babás ingressaram na Justiça alegando danos morais e condições abusivas quando trabalharam para o casal de advogados Cristiano Zanin e Valeska Teixeira Zanin Martins, revelou a repórter Catia Seabra nesta Folha.

As duas primeiras moveram a ação em 2017, quando o cliente mais famoso do casal, o então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nem preso ainda havia sido.

A última babá ingressou na Justiça no mês passado, agora com Zanin já no topo do ranking de apostas para ser indicado ao Supremo Tribunal Federal por Lula, de volta à Presidência da República.

Ana Inoue* - Um divórcio indesejável

Valor Econômico

Separação entre trabalho e educação prejudica o jovem e atrasa possibilidades de progresso para o país

A Constituição Federal explicita em dois de seus artigos a relação entre educação e trabalho. No artigo 205, diz que a educação visa ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. No artigo 214, faz referência às ações do plano nacional de educação que deverão conduzir, entre outras, à formação para o trabalho. Apesar disso, o que vivemos no Brasil é um divórcio entre educação básica e trabalho. Boa parte das pessoas aprende a trabalhar já trabalhando, sem formação prévia, nem acompanhamento adequado para ter uma inserção digna no mundo do trabalho.

Marli Olmos - A arte de seduzir um ex-metalúrgico

Valor Econômico

Mais lobistas das montadoras têm sido vistos em Brasília

Passada a viagem presidencial à China, o governo brasileiro tem uma delicada questão para resolver com a indústria automobilística. Refere-se a um pedido de montadoras instaladas no Brasil e que vai contra o que as chinesas lhe pedem. O problema é que atender ao pleito das veteranas no país põe em risco perder investimentos prometidos pelas novatas.

Grandes empresas dessa indústria já pediram a esse governo o fim da isenção do Imposto de Importação para carros elétricos. Mas não são os automóveis de luxo de marcas como a Volvo, líder do segmento, ou BMW, que incomodam fabricantes como Volkswagen e Stellantis.

Esses grupos estão preocupados com a concorrência das chinesas. Sem pagar Imposto de Importação, carros elétricos trazidos da China poderiam concorrer com modelos a combustão produzidos no Brasil.

Contar com a vantagem tributária para carros que hoje são importados tem sido uma condição colocada pelos chineses para os projetos de construção de fábricas no Brasil. A justificativa dessas marcas é que um projeto industrial desse porte precisa ser precedido pela importação, para garantir o tempo de adaptação do produto no mercado e para o consumidor conhecer e se habituar com a marca.

Lu Aiko Otta - Após arcabouço, planos de investimento

Valor Econômico

BNDES dialoga com MEC para fazer PPPs “em massa”

Encaminhado ao Congresso o projeto do novo arcabouço fiscal, as atenções da equipe econômica se concentram na próxima agenda: a de estímulo ao crédito e ao investimento. Medidas nessas áreas deverão ser anunciadas nos próximos dias. Além disso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende lançar no mês que vem a versão 3.0 do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que tem sido chamada nos bastidores de Novo Programa de Investimentos (NPI).

Os projetos que farão parte do novo PAC ainda estão sendo selecionados, por isso não se sabe seu tamanho. Mas pode ser superlativo, caso seja concretizado o plano de incluir nele as Parcerias Público-Privadas (PPPs) de Estados e municípios.

Essa deve ser a grande novidade do programa. Há perspectiva de disseminação do uso do instrumento onde ainda é embrionário: áreas sociais, como saúde, educação e moradia.

Vinicius Torres Freire - Outra revolta contra impostos

Folha de S. Paulo

Plano do governo precisa de receita; revolta do shopping muamba revela que vai ser difícil

O governo Lula se embananou com essa tentativa de diminuir o contrabando por meio de comércio eletrônico externo. É uma providência razoável: conter a concorrência desleal com o varejo brasileiro e arrecadar uns dinheiros a mais.

A espuma dessa minicrise pode se dissipar em dias. Não era assunto maior, embora tenha nublado a divulgação do plano de arrumar as contas públicas, enviado nesta terça-feira ao Congresso —mais sobre isso mais adiante neste texto.

Mais importante é que trata-se apenas de uma tentativa miúda de arrecadar mais impostos. Muitas e maiores virão. No entanto, até agora o governo não apresentou um plano claro, uma proposta de acordo político e social, a fim de arrecadar mais.

Vera Rosa - Maior ataque à âncora fiscal partirá do PT

O Estado de S. Paulo

Marinho fala em ‘cair a ficha’ do Copom, PT critica marco fiscal e governo adota ‘estratégia da cebola’

Passada a tão esperada apresentação de uma nova âncora fiscal para o País, o projeto vai receber aplausos do PT e críticas ferozes da oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Certo? Errado. A maior briga para afrouxar as medidas de ajuste das contas públicas será pela esquerda. E, além disso, a pressão sobre o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, vai aumentar.

“Se na próxima reunião do Copom o camarada não anunciar a redução dos juros, precisa chamar um psiquiatra”, disse à coluna o ministro do Trabalho, Luiz Marinho. “Acabaram todos os argumentos. O dólar está caindo e a inflação recuou, como era previsível.”

O Comitê de Política Monetária (Copom) tem encontro marcado nos dias 2 e 3 de maio e, por enquanto, ninguém arrisca prever o seu resultado. Tudo vai depender da reação do mercado financeiro ao arcabouço fiscal.

Fábio Alves - Novo equilíbrio

O Estado de S. Paulo

Na visão dos investidores, o prêmio de risco do Brasil já não deveria ser tão salgado 

Os preços da Bolsa, do câmbio e dos contratos de juros estão em busca de um novo equilíbrio com a apresentação do projeto de lei complementar do novo arcabouço fiscal. Ainda não dá para dizer qual é esse novo equilíbrio, mas o que está claro na visão dos investidores é que o prêmio de risco do Brasil já não deveria ser tão salgado.

A Bolsa deveria estar num nível maior do que o atual; o dólar, mais próximo do valor justo ante o real, o que, para muitos, é bem abaixo de R$ 5,00; e os juros futuros, com taxas menores. Ou seja, o rali nos preços dos ativos brasileiros tem espaço para continuar, mas a questão é até onde.

A melhora inicial da percepção do risco fiscal foi sancionada pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, quando disse que a proposta do arcabouço fiscal elimina o chamado “risco de cauda” de uma trajetória explosiva da dívida pública, ou a probabilidade de perdas extremas para os investidores em caso de um aumento desordenado do endividamento se o governo Lula endossasse um descontrole dos gastos públicos.

Zeina Latif - A classe média sem pai nem mãe

O Globo

A classe média, com reduzido capital humano e não elegível a transferências de renda, sofre mais com instabilidade da economia

O presidente Lula vem mudando seu discurso ao tratar da classe média, mas ainda há incompreensão sobre esse grupo, que é provavelmente o que mais se beneficiaria de um melhor funcionamento das políticas públicas.

Em maio de 2022, Lula afirmou que “a classe média ostenta muito um padrão de vida acima do necessário”. Essa descrição nem de longe é adequada para a realidade da nossa classe média batalhadora. Aproxima-se, na melhor das hipóteses, da classe média alta, um grupo pouco representativo.

Este ano, houve um importante ajuste em seu discurso, com a frase “nós temos que nos dirigir um pouco à classe média brasileira, porque no fundo ela tem sofrido muito com os desgovernos deste país.” De fato, a classe média, com reduzido capital humano e não elegível a políticas de transferência de renda, sofre mais com a instabilidade da economia — a gestão Dilma não deixou dúvidas.

Morre, aos 92 anos, o historiador Boris Fausto

Valor Econômico

Professor de ciência política e advogado escreveu livros fundamentais para entender o Brasil

O historiador e cientista político Boris Fausto morreu nessa terça-feira (18), em São Paulo, aos 92 anos. O velório será na Funeral Home, na região da Avenida Paulista, a partir de 8h desta quarta-feira (19). Em junho de 2021, havia sofrido um acidente vascular cerebral, mas teve recuperação nos meses seguintes.

Boris Fausto nasceu em 8 de dezembro de 1930, ano que ficou gravado com destaque em sua obra: o livro “A Revolução de 1930 - Historiografia e História”, publicado originalmente em 1969 e várias vezes reeditado, tornou-se um clássico de referência em salas de aula e na pesquisa. Foi sua tese de doutorado no departamento de história da Universidade de São Paulo (USP), defendida no ano anterior.

A chamada Revolução de 1930, movimento armado iniciado em 3 de outubro daquele ano, sob a liderança de Getúlio Vargas, tinha o objetivo imediato de derrubar o governo de Washington Luís e impedir a posse de Júlio Prestes, eleito presidente da República. Assim foi feito e Vargas assumiu o cargo de presidente provisório em 3 de novembro, iniciando um período de 15 anos no poder, até ser deposto, em 1945.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Arcabouço fiscal é insuficiente para zerar déficit

O Globo

Proposta apresentada exigiria aumento brutal da arrecadação para cumprir promessa de Haddad

O Projeto de Lei Complementar com o novo arcabouço fiscal encerra meses de suspense em torno do formato preciso das regras que o governo propõe para doravante reger a disciplina das contas públicas. O fim da expectativa e da ansiedade em torno do substituto do teto de gastos marca, porém, apenas o início dos desafios para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

O primeiro e mais óbvio desafio é político. Lula não tem maioria sólida no Congresso, é refém de negociações com políticos do Centrão e precisa convencer o próprio PT e seus aliados de esquerda da necessidade de disciplina fiscal para a economia brasileira recobrar o rumo do crescimento. Houve boa vontade do mercado financeiro e de lideranças partidárias com as ideias apresentadas, mesmo assim a negociação para valer começa agora. Será afetada pelo segundo desafio, nada óbvio: fazer as regras funcionarem.

Poesia | João Cabral de Melo Neto - O Rio

 

Música | Joan Baez & Mercedes Sosa - Gracias a la vida (Violeta Parra)

 

terça-feira, 18 de abril de 2023

Paulo Fábio Dantas Neto* - Políticas de forno e de fogão

Precisamos deixar de ver a política brasileira atual, exclusiva ou mesmo prioritariamente, a partir de um ponto de observação pelo qual o governo é o foco central e tudo o mais é acessório. O diagnóstico quase consensual de que o Congresso se converteu, de fato, num polo relevante e independente de poder legítimo requer que se abram as lentes analíticas em sua direção, com equitativa atenção.

Os movimentos relevantes mais visíveis no âmbito do Poder Legislativo, feitos não só pelos presidentes Artur Lira e Rodrigo Pacheco, mas por quadros da direita na Câmara, como Ciro Nogueira (PP), Marcos Pereira (Republicanos), Elmar Nascimento (União Brasil) e também por efeito de articulação de chefes partidários do centro como Gilberto Kassab (PSD) e Baleia Rossi (MDB) têm ido todos na direção de se distinguir do bolsonarismo, aumentando seu isolamento e virando a página da política polarizadora que ocupou o Planalto durante os últimos quatro anos. Em termos estritos de alinhamento de bancadas legislativas, isso vale tanto para um novo bloco de centro que se forma a partir do PSD, MDB e Republicanos, como para a parte “lirista” do antigo centrão, sediada no PP, com fortes laços no União Brasil e mesmo no PL, onde divide teto com o “bolsonarismo-raiz”. Nesse plano específico da formação de blocos parlamentares que facilitem ocupação de postos legislativos chave para acesso ao Orçamento e decisões sobre matérias de interesse do governo, são catalisadores naturais o interesse de deputados e senadores no pleito municipal de 2024 e o horizonte de sucessões nas mesas diretoras das duas Casas.

Mas também em termos da reorganização geral do sistema partidário – com movimentos de federação e fusão de partidos para além da específica legislatura – há um sentido reestruturante do campo da centro-direita, apontando para ainda maior organicidade da influência difusa que esse campo político vem conquistando após seguidas eleições, inclusive as de outubro último. Nesse plano mais geral a conquista de governos estaduais importantes por políticos desse campo, aspirantes a um protagonismo nacional, é um catalisador lógico, como é também a própria competição entre partidos para formarem bancadas numerosas e, portanto, eficazes, antes de tudo, para captação de maiores cotas dos fundos partidário e eleitoral, mas também, a depender do caso, para ocupar postos no Executivo. Três dos quatro catalisadores mencionados (eleições municipais, sucessão nas mesas diretoras e eventuais projetos nacionais de governadores) induzem a realinhamentos políticos que alteram os de 2022.

Míriam Leitão – Único cenário possível para o governo é a aprovação do arcabouço fiscal

O Globo

Do contrário, Lula e a equipe econômica ficarão entre dois riscos de descumprimento da Constituição

O governo precisa da aprovação do arcabouço fiscal. Do contrário, ele ficará entre dois riscos de descumprimento da Constituição. Ou ele descumpre o limite do teto de gastos hoje ainda em vigor. Se o teto cair, o risco é de descumprir os percentuais mínimos estabelecidos na Constituição para Saúde e Educação. Por isso, o único cenário possível para o governo é a aprovação da nova regra de limite de gastos públicos. Ontem, o documento estava pronto e instituía o que será chamado de “regime fiscal sustentável”, mas o presidente Lula decidiu enviar apenas hoje.

Dos dilemas do governo, a ministra Simone Tebet falou ontem ao apresentar a LDO. Olha a dificuldade de governar o Brasil. A LDO tem que cumprir o prazo para chegar ao Congresso e, por isso, já foi enviada. Mas o que ainda está em vigor é o teto de gastos. Não importa que o governo anterior tenha furado o limite inúmeras vezes, a Constituição ainda o registra como a regra fiscal do país. Por isso é uma LDO que depende do que vier a ser aprovado pelo Congresso.

Carlos Andreazza - Alguém pagará mais

O Globo

A taxação a compras internacionais on-line anunciada pelo governo Lula confirma uma coisa e informa outra. Confirma: que o Estado precisará arrecadar muito (muito) mais — ou a conta do arcabouço fiscal não fechará. Outras medidas com intenção arrecadatória virão. E informa: que alguém pagará essa fatura. Para esse alguém, certamente alguéns, a carga tributária aumentará. Para com esses, pois, melhor será jogar limpo.

Jogando limpo, se o programa é para expansão consistente de receitas: alguém sempre pagará mais; todo mundo sabe; ninguém gosta de ser considerado bobo.

O episódio comunica que o governo se lança a uma corrida por dinheiro. Todo mundo já sacou; até os bobos. Precisa-se de grana. Não será ilegítimo nem comporá estelionato eleitoral. Ou você ouviu a chapa presidencial vencedora apregoar, durante a campanha, que buscaria equilíbrio fiscal por meio de corte de gastos?

Dora Kramer - Infiéis escudeiros

Folha de S. Paulo

Há sinal inequívoco de disposição para o embate no Congresso

O centrão se organiza em grandes blocos, informa que a base governista é frágil e deixa o PT isolado na condição de quarta bancada, cujos deputados tampouco têm posição uniforme na defesa dos interesses do Palácio do Planalto. Diante disso, as raposas dizem que está tudo bem, pois a ideia é dar conforto a Luiz Inácio da Silva. Longe da turma intentos belicosos.

Dá para acreditar? Os atuais operadores palacianos, de expertise tida como bem inferior aos do primeiro governo Lula, podem até cair nessa conversa.

Mas, se o presidente estiver na posse do olho vivo e faro fino que lhe atribuem no trato da política, certamente já percebeu que seu alicerce no Congresso está fincado em solo pantanoso.

Andrea Jubé - Decisão de Lula para STF será “top down”

Valor Econômico

Lula e Lewandowski devem encerrar impasse sobre STF

Um afiado observador do mundo político explica que as grandes decisões são coletivas, ou vêm de cima para baixo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é reconhecido pelo estilo de “assembleia” por causa do hábito de ouvir vários atores de diferentes segmentos até formar sua convicção a respeito de um tema.

No caso concreto da indicação do próximo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), que assumirá a vaga do agora aposentado Ricardo Lewandowski, existe a percepção de que o mandatário optará desta vez pelo estilo “top down”, ou em bom português, a caneta é minha, quem manda sou eu.

Sobre esta opção, Lula foi transparente como água nesta declaração: “É um problema meu”, justificou sobre a indicação ao STF, em entrevista ao portal Brasil247 no dia 21 de março. Em seguida, ele reforçou que será uma escolha solitária: “no que eu tiver que tomar a decisão, eu vou sentar sozinho e tomar a minha decisão, e vou mandar o nome para o Senado”.

Reação de Lula rompeu tradição de 134 anos

Por Lucas Ferraz / Valor Econômico

O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva é coautor de obra acadêmica que analisa o 8 de janeiro

A resposta à intentona bolsonarista de 8 de janeiro, com a decretação da intervenção civil na segurança pública do Distrito Federal após as invasões na praça dos Três Poderes, foi um marco ao romper com a tradição da tutela militar, uma característica que acompanha a história brasileira desde a Proclamação da República.

A opinião é do historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, um dos principais estudiosos do país sobre a questão militar, coautor do primeiro trabalho acadêmico que analisa e busca dar algum sentido histórico ao golpe mal sucedido patrocinado por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

“A intervenção na segurança pública foi um baque. As tropas já estavam preparadas para tomar os principais pontos de Brasília [caso Lula decretasse a Garantia da Lei e da Ordem, que implicaria poder aos militares]. Isso causou profunda irritação no general [Júlio César] Arruda [então comandante do Exército] e no general Gustavo Dutra [Chefe do Comando Militar do Planalto]”, afirmou Teixeira da Silva em entrevista ao Valor. “Foi a primeira vez na República que não apareceu carro blindado para colocar fim a um movimento antirrepublicano e antidemocrático.”

Maria Cristina Fernandes - Brasil arma a cama para Lavrov deitar — e rolar

Valor Econômico

Se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou, em sua passagem pela China, a impressão de que tomara partido na guerra entre Ucrânia Rússia, ao equiparar a responsabilidade de invasor e invadido, o chanceler russo Sergey Lavrov a confirmou ao dizer que seu país e o Brasil têm uma “visão similar” sobre o conflito.

ministro das Relações ExterioresMauro Vieira, até que tentou contemporizar mencionando a mediação da paz e fazendo um apelo por um cessar-fogo imediato, mas Lavrov disse que está em busca de uma solução duradoura. Como se tratou de uma visita em retribuição àquela feita por Celso Amorim ao presidente Vladimir Putin, não se pode dizer que o Brasil caiu numa armadilha. Foi em busca dela.

Hélio Schwartsman - Lula fala demais

Folha de S. Paulo

É do interesse do país que presidente busque equilibrar-se entre EUA e China, sem tomar partido muito claro de nenhum

Lula fala demais e abusa do improviso. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer com a economia mundial nos próximos meses e anos, mas, no que diz respeito à geopolítica, o cenário é um pouco menos incerto. Pelos próximos tempos e até onde a vista alcança, EUA China disputarão influência e mercados.

É um terreno bem favorável a países como o Brasil, que não se alinham automaticamente a nenhuma das duas potências e têm forte relacionamento econômico com ambas.

Merval Pereira - Ingênuo ou megalômano?

O Globo

Presidente brasileiro é visto como ingênuo ao tentar ter influência nos grandes temas políticos em que tem pouca ou nenhuma

O presidente Lula é ingênuo ou megalomaníaco? Na revista inglesa The Economist, e em diversas abordagens de jornais dos Estados Unidos, a possibilidade de o presidente brasileiro ser ingênuo tentando ter influência nos “grandes temas políticos em que tem pouca ou nenhuma” é a mais aventada. Essa obsessão de Lula de se tornar um líder internacional sem resolver as questões internas do país que governa é antiga, talvez convencido pelo então presidente Barack Obama, que o classificou como “o cara” numa reunião internacional.

Mas Obama se arrependeria mais tarde. No último ano de seu segundo mandato, o Brasil tentou intermediar um acordo nuclear entre Irã e Estados Unidos, coadjuvado pela Turquia, mas ele foi rejeitado pelos americanos. O governo brasileiro divulgou uma carta que o presidente americano enviara a Lula querendo provar que o governo dos EUA fugia de compromissos assumidos. Só que na carta de Obama estava definido que o Irã deveria “reduzir substancialmente” seu estoque de urânio de baixo enriquecimento na transição para o acordo internacional. Como Brasil e Turquia permitiam que o Irã continuasse a enriquecer urânio por um ano antes dessa transição, o governo americano recusou o acordo, fechado mais adiante.

Luiz Carlos Azedo - Com a visita de Lavrov, Lula deu o terceiro drible a mais

Correio Braziliense

Chanceler russo deu uma interpretação às posições de Lula sobre a guerra da Ucrânia que transformou suas declarações desastradas no reposicionamento estratégico do Brasil

Política externa exige um certo consenso nacional. Devido à tradição do Itamaraty e à reconhecida competência dos nossos diplomatas, o Brasil mantém boas relações com todo o mundo. Foram raros os momentos em que esse consenso foi rompido, quase sempre em decorrência de mudanças bruscas em relação aos Estados Unidos. As consequências não foram nada boas para os governantes, a mais grave, em 1964, no governo João Goulart, durante a guerra fria. Ontem, com a visita do chanceler russo Serguei Lavrov, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva triplicou a aposta que fizera na visita à China, quando responsabilizou os Estados Unidos, a União Europeia e o presidente Volodymyr Zelenski, tanto quando o presidente da Rússia, Vladimir Putin, pela guerra da Ucrânia.

As declarações de Lula sobre a guerra da Ucrânia durante seu encontro com o presidente da China, Xi Jinping, foram um drible a mais e repercutiram muito mais do que os resultados positivos de sua visita àquele país, o maior parceiro comercial do Brasil. O mal-estar foi minimizado pelo Itamaraty, porque as posições oficiais do Brasil nos organismos internacionais continuam sendo a condenação da invasão da Ucrânia pela Rússia, mas fez ouvidos moucos aos recados mandados pelos diplomatas norte-americanos de que o presidente Joe Biden estava contrariado com o posicionamento do presidente brasileiro.

Eliane Cantanhêde - Guerras externas e internas

O Estado de S. Paulo

Os ruídos internos de Lula refletem externamente e os externos, internamente

O Brasil está convivendo com dois Lulas. Um com enormes ambições internacionais e visitas a 13 países no primeiro ano de mandato. O outro às voltas com imensos problemas internos para resolver já, o quanto antes, porque disso depende não só o futuro do País, mas do próprio governo.

Lula voltou da China e de Abu Dabi no domingo, com uma agenda interna carregada, com envio tanto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) quanto da nova âncora fiscal para o Congresso ontem, mas uma foi e a outra ficou para depois, hoje, talvez. Mais um atraso.

Cristovam Buarque* - Ensino do mapa

Correio Braziliense

Recentemente, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) convidou 15 pessoas para pensarem o futuro da educação no século 21. Fui uma delas. O livro publicado é atualmente usado como guia para reformas da educação de base em diversos países. Daí o incômodo ao ver que, na terceira década deste século, meu país apresenta uma modesta reforma para tirar nosso "ensino médio" do século 19 para o século 20 e, no lugar de avançarmos para a proposta de que o Brasil precisa, forças conservadores tentam impedir essa modesta reforma.

O conservadorismo começa ao ignorar qual deve ser o propósito dessa etapa da educação de base para cada pessoa e para o Brasil. Ao manter o nome "ensino médio", assume que seu papel é servir como degrau ou trampolim para o ensino superior, não como a etapa que prepara o jovem para a vida ao dar-lhe o mapa necessário para viver, usufruir e construir um mundo melhor e mais belo.

Na França, essa etapa recebe o nome liceu e seu último ano é considerado conclusivo; nos Estados Unidos, high school; na Alemanha, gymnasium; na Espanha, educação secundária obrigatória (ESO). Esse sequestro da educação de base pelo ensino superior é recente, para indicar a promessa de que todos devem ingressar na universidade. Promessa hipócrita em um país com 10% de seus adultos analfabetos, onde apenas metade dos alunos conclui a educação de base, destes, no máximo a metade com razoável qualidade, e destes, apenas sua metade, da metade, da metade (12,5%) com formação para seguir um curso universitário com qualidade razoável.

Paulo Gustavo* - Um Luxo Chamado Silêncio

Revista Será? (PE) (14/4.2023) – publicado, ontem, por engano, com o nome de outro autor pernambucano. Peço desculpa!

Não vou deixar passar em silêncio um tema que tanto aprecio: o silêncio. Numa crônica, Umberto Eco profetiza, e vejo, com inteira razão, que, no futuro, só os ricos terão direito ao silêncio. Mas terão que comprá-lo. Só que o futuro, como diz a mídia, já começou. Os ricos, quase que de uma forma atávica, têm a arte de saberem se isolar; que o digam as ilhas desertas, as propriedades do campo, os recursos tecnológicos, os iates, as mansões bem afastadas dos vizinhos… Enfim, a classe média e os pobres que se virem com o barulho, que, aliás, os cerca de todos os lados, o que não é novidade para ninguém!

O barulho é quase uma definição do que é a modernidade. O sociólogo e antropólogo David Le Breton,  em seu ensaio “Du silence”, vai ao ponto: “O único silêncio que a utopia da comunicação conhece é aquele da pane, do desfalecimento da máquina, da parada de transmissão”. Com efeito, cercados de máquinas, temos que aprender a suportar seus ruídos, seus resfolegares, seus apitos. A tecnologia ainda não evoluiu para o silêncio, embora venha tentando.

Curiosamente, há uma máquina cotidiana que Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta, com seu humor e agudeza, logo definiu como “máquina de fazer doido”: a televisão. Certamente, trata-se de uma das maiores inimigas do silêncio, e isso por uma razão muito simples: ela não se cala, é uma tagarela compulsiva; e quando subitamente se cala, somos os primeiros a dizer: “Está com defeito”. É verdade que há o recurso de “tirarmos o som”, mas só o utilizamos em casos excepcionais, tornando a televisão um tanto ridícula ou esvaziada…

José Alvaro Moisés - Um novo olhar sobre a Democracia

Em 11 de setembro de 2023 se completarão 50 anos do golpe de Estado que derrubou o governo de Salvador Allende do Chile. Esta coletânea reúne doze textos com o objetivo de reavaliar criticamente, meio século depois de sua trágica derrota, o significado do que ficou conhecido como a “experiência chilena”, uma tentativa inédita e única – feita em condições consideradas muito excepcionais –, de abrir caminho para a construção do socialismo a partir das virtudes do funcionamento da democracia. Nada semelhante tinha se verificado antes na história mundial, razão pela qual a “experiência chilena” converteu-se em objeto de amplo e generalizado interesse dos atores políticos que no contexto da Guerra Fria disputavam o poder em suas sociedades, especialmente das diferentes forças de esquerda.

Do ponto de vista comparativo, o Chile vinha sendo palco há décadas de uma das mais estáveis democracias no continente latino-americano, operando com base em instituições republicanas cuidadosamente consolidadas em períodos históricos anteriores. Esse quadro tinha dado oportunidade para o avanço da mobilização das forças populares e foi nesse contexto que Allende, um dos líderes e fundador do Partido Socialista chileno (PS), elegeu-se presidente – embora com uma precária maioria de pouco mais de um terço de votos –, e comprometeu-se a tornar realidade o complexo programa da Unidade Popular (UP), uma coalizão política que reunia, além do PS, o Partido Comunista, os Radicais, a Social Democracia e outros segmentos como os cristãos de esquerda; o programa da coalizão previa, entre outras coisas, o aprofundamento da reforma agrária iniciada pela Democracia Cristã, a nacionalização de empresas privadas, entre as quais algumas norte-americanas, e o efetivo empoderamento dos setores mobilizados por movimentos sociais de perfil bastante combativo. O projeto assegurava papel central para o Estado em todo o processo de mudanças propostas e o governo da UP era visto como o ponto de partida disso.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

‘Neutralidade’ de Lula revela apoio tácito à Rússia

O Globo

Movimentos em relação ao conflito ucraniano representam erros de ordem factual, moral e diplomática

Os últimos movimentos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação à guerra na Ucrânia demonstram não a neutralidade que ele e o Itamaraty afirmam manter em relação ao conflito, mas uma posição tacitamente favorável aos interesses da Rússia. Ao assumi-la, Lula comete erros de ordem factual, moral e diplomática.

Na escala em Abu Dhabi voltando da China, Lula afirmou que “a decisão da guerra foi tomada por dois países”, repetindo o que dissera no ano passado, quando afirmou que o ucraniano Volodymyr Zelensky é “tão responsável” pela guerra quanto o russo Vladimir Putin. Os fatos desmentem Lula. A Rússia invadiu o território ucraniano de modo injustificável e, desde então, a Ucrânia viveu um êxodo de quase um quinto da população e soma perto de 150 mil mortos. Putin é acusado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de crimes contra a humanidade por massacres em território ucraniano. Ao pôr no mesmo patamar a agressão russa e a resistência ucraniana, Lula incorre em disparate semelhante ao de Donald Trump quando, diante da violência da extrema direita em Charlottesville em 2017, disse haver “gente ruim dos dois lados”. Não há comparação possível.

Poesia | Carlos Pena Filho - Soneto das metamorfoses...

 

Música | Ivan Lins e Jazz Sinfônica Brasil

 

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Bruno Carazza* - Um ministério de presidenciáveis

Valor Econômico

No governo Lula 3, todos são sócios e concorrentes entre si

O retorno de Lula, em decorrência da anulação de suas condenações pelo Supremo Tribunal Federal, detonou uma reconfiguração no jogo do poder tão significativa que a vitória sobre Jair Bolsonaro foi apenas o primeiro capítulo de uma história que ainda terá muitas reviravoltas até o final do seu mandato.

Terremoto que abalou as estruturas da política brasileira, a Operação Lava-Jato decretou o fim da carreira de figurões de Brasília e dizimou o patrimônio eleitoral de alguns dos partidos mais fortes da República. De 2014 a 2018, muitos tentaram se apresentar como o novo e ocupar o vazio provocado pelas prisões e acordos de delação premiada - até que surgiu Bolsonaro.

Quando Lula deixou a prisão em Curitiba, abriu-se a possibilidade concreta não apenas de sua volta à Presidência da República, mas da restauração da ordem política institucional devastada pela Lava-Jato e pela gestão de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto.

O terceiro mandato de Lula precisa ser interpretado como a passagem para um futuro que, em muitos sentidos, é também passado. E isso fica muito claro pelos lemas adotados nestes primeiros quatro meses de governo: “União e Reconstrução” e “O Brasil Voltou”.

Sergio Lamucci - O dólar abaixo de R$ 5 e as perspectivas para a moeda

Valor Econômico

Ainda há muita incerteza sobre a trajetória do câmbio até o fim do ano

O real se fortaleceu nas últimas semanas, com a cotação do dólar em relação à moeda brasileira enfim caindo abaixo de R$ 5. Um câmbio valorizado por mais tempo pode ser um fator adicional a abrir espaço para o Banco Central (BC) começar a cortar os juros, se isso influenciar as projeções para a inflação, que seguem acima das metas perseguidas pelo Banco Central (BC). Apesar da trajetória de apreciação do real nas últimas semanas, porém, há muitas incertezas sobre a sustentabilidade do movimento.

Nos últimos 30 dias, o dólar recuou 38 centavos, passando de R$ 5,29 para R$ 4,91. A queda de 7,2% da moeda ocorreu num cenário marcado pela melhora no cenário externo, com a redução dos temores de uma crise bancária nos EUA e na Europa, sinais de alguma moderação da inflação americana, o enfraquecimento do dólar em relação a outras moedas e a alta dos preços de commodities.

Gustavo Loyola* - Nunca é diferente

Valor Econômico

Os problemas trazidos pelo SVB mostram que lições das crises passadas acabam sendo esquecidas

Em seu livro “Oito séculos de delírios financeiros - desta vez é diferente”, os economistas Kenneth Rogoff e Carmen Reinhardt, a partir de minucioso e amplo estudo de oito séculos de crises financeiras, concluem que há um padrão repetitivo nesses episódios e que governos e agentes de mercado têm memória curta, o que facilita a repetição cíclica de períodos de euforia financeira que terminam em desastres que afetam de maneira sistêmica a economia.

Os mercados financeiros são propensos a ciclos extremos. Esse tipo de comportamento cíclico foi extensamente estudado pelo economista pós-keynesiano Hyman Minsky, cuja obra, infelizmente, não mereceu a devida atenção na academia e, principalmente, entre os formuladores de políticas públicas. A partir de seu trabalho foi cunhada a expressão “momento Minsky” que justamente descreve a situação do fim de um período de otimismo excessivo, em que os investidores foram incentivados a tomarem riscos excessivos, e cuja ocorrência leva ao colapso do mercado, com graves repercussões macroeconômicas. Repentinamente, o período da “mania” se transforma em pânico.